Não,
não é o mundo que me contém
eu é que o contenho
Não é o mundo o superego,
eu é que o sou
Um eu monstruoso
que tudo contém
Contêm de tudo o que me contém
Contem de tudo, porque tudo me contém
Contem até o caminhar
Pois que mesmo ele me contém
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Não,
não é o mundo que me contém
eu é que o contenho
Não é o mundo o superego,
eu é que o sou
Um eu monstruoso
que tudo contém
Contêm de tudo o que me contém
Contem de tudo, porque tudo me contém
Contem até o caminhar
Pois que mesmo ele me contém
É como se fosse o que é mesmo
Mais que isso, só sendo isso
Mais que nós dois, apenas nós dois
Qualquer coisa assim,
que se encaixa e se assenta,
tão bonito que a melhor metáfora para, só pode ser:
nós dois.
O sol tava aqui ainda
E provável que aí também
Agora ele doura olhos puxados
que afagam linhas lisas
numa inveja não dita
do que pode dançar em dedos
junto ao que ilumina
o mel dos teus cachos
Na derradeira lida
Derrida não nos ensina.
Nada que se use
para além da lingüística,
só para se perder
na desconstrução de
uma não-ida.
Diz a palavra que falta
que eu completo
a idéia sem nem tê-la visto
nas paródias da mente despida
É agora ou nunca
O céu se põe na noite
O horizonte se abraça na morte do dia
Eu digo, se você disser
e mesmo se rolar o silêncio
Peça após peça
eu só peço que
nada se perca
Pode até o pecado
mas não o pudor
de cada um
para um lado
Tarde que vaza
Que não basta
Tarde em brasa
Que não passa
Tarde tão casta
Que não casa
Tarde tão tarde
Que amanhã
chega a ser cedo
Tarde, tarde, tarde…
Você e eu
é como eu e você
que não é apenas
eu e você,
é tudo isso de
você e eu.
Um reflexo lento se fia no espelho
Há qualquer coisa de errada
Como se o nexo do ethos houvesse ficado
numa imagem parada
Cinco pelos ouriçados
Mais três rebeldes que querem ser lisos
e tantos mais em sua insana missão de se dourar
A gilete fica ali
em tensão eterna
como se
(como se fosse a coisa certa a se fazer)
pudesse resolver algo na aparência
Talvez costeletas
mas isso é coisa de quem tem a força de
ter perdido uma costela
para um coração partido em decair
Talvez bigode
este que só a quem faz dos culhões
fios tesos sobre a boca pode ser merecido
(descartada logo a hipótese
já que os culhões ficam bem ali mesmo,
entre as pernas e bem protegidos
no mistério de ser viril ou não)
A tesoura ajuda um pouco na indecisão
quase que na barba um pouco
da mísera apatia de um Sansão
Quase feita a barba
Ficou-se nada feito mesmo
Como o rosto que a possui:
um quase premeditado em deixar a barba por fazer
(afinal, ela se faz feita mesmo…)
(ou quem sabe os pelos ditem mais do que a aparência)
(mais do que um quase)
Uma palavra dita
na imensidão de outras mais
um sorriso dado
ao todo que ainda vai
um timbre torto
que deveria ser um barco a deriva
do que se ouviu dizer
falada a palavra que ecoa torta
um riso quer superá-la
o sentido que não se ouviu
Quase levei um tombo de manhã bem cedo
e seria coisa bem divertida se você tivesse visto
Sonhei coisa ruim e faltou braço
Senti um aperto no peito,
fumei um maço e meio
e bebi cinco copos de café
Passei perto da roda de um carro
Vi um céu bem azul
e umas nuvenzinhas bem bonitas em derredor
Senti um perfume de longe
– coisa que o nariz diz para si querendo vê-lo em saudade –
Peguei lotação lotada para ver se o dia acabava logo
e quase me acabei
Dormi um monte e acabei dormindo mais ainda depois
Li dois parágrafos de um livro e fiz duas cruzadinhas
Musiquei a falta
Virei zen-budista por três minutos
Vontade.
É crível
o incrível
de você não
ser descritível
Eu te abraço com
palavras que não querem sair
o medo de que elas sejam
demasiada discrepantes ao que se vive
dá o tom de que não se diga nada,
só se abrace.
Eu digo que quero
Você diz que quer
Tudo dito, tudo
Um olhar de si que
diz coisa vária
E um olhar de fora
que diz coisa espelho
Aí ficam os dois
cara de tacho
querendo o mesmo
e dizendo o mesmo
Talvez seja pra não dizer
e querer apenas
Veio na primeira manhã de solidão
saber que a falta
é a pior recompensa para
o desatino.
Somem os bois
e ficam palavras
depois que se dá
nome aos mesmos.
Havia uma joaninha na ponta dos teus dedos naquele dia
Você não notou e eu a vi
Não te contei, guardei a imagem para mim
Será que isso é traição?
Quando ocorre o vago momento em que se pensa em sair e ir ver o mundo, por um momento você quer ir logo ver o mundo. Sentir-se vivo, ver-se vivo. Como se ver o mundo pudesse indicar qualquer coisa de viver. Mas é sempre assim: um momento. Nada para além de um momento em que você quer que algo aconteça. Algo acontece, e me vem a vida, quando te vejo.
Sempre é um problema lingüístico
essa coisa de dizer gostar,
como se fosse necessário sempre dizer algo.
Por que a boca teima em catalogar,
aos quatro cantos,
coisa que o corpo não se atina em dizer, mas sim, sentir?
Um quarto pequeno com quatro pés juntos
Quatro mãos e braços
Sem sofá
Sem sacada e com duas faces
Uma a uma para o lado do encontro
Lá fora o céu ainda cobre
Por detrás da claridade urbana
vagam levas de estrelas
cadentes e candeias
Como no primeiro encontro
Provoco
sim
Provo você
em
mim
A noite desce assim nublado
Amanhece assim nublado
Entre uma nuvem e outra
Quase um buraco
Por entre a fresta
Mostra em luz que
a esperança ainda resta
Não uma réstia
mas toda ela
Tanto faz o que se diga
Toda palavra é destino
É cerca
Se acerca
O que sai são lapsos
espasmos entre os lábios
que não se coadunam
em estrutura alguma
A mera aproximação que
se pretende ser mais que isso mesmo
Talvez nem aproximação
Fato que nem aproximação
Um beiral do século XIV
Uma ânfora carregada de veneno
Um diz-que-me-diz
Palavras redenção
Um corpo é antes de tudo um corpo
Uma parte, destarte é parte
Mas em conjunto, toda tua parte, é arte
Perdi as contas de quantas foram
Perdido no mel dos teus cantos
Perdido no meu canto ao teu encanto
Perdido nas contas do teu colar
Perdido tentando o meu à tua colar
Leio dois Marios agora
Um Mario dado ao escárnio
Um Mario dado à glosa
Um Mario de poesia
Um Mario afeto à glosa
Um Mario Quintana
E um Mario Vargas Llosa
(Ao cego do farol)
Era assim que eu via
Era assim que eu via
Com o que ouvia a minha mão
O tom do tato da quente cor
O som matiz nos dedos
O braile audível em gradação
Não escuro
que ao escuro se precisa da luz
Só a consistência do mundo
e suas ondas vibrando
Um quente, um áspero
Ver o vento nos pelos e na pele
Sentir o que se vê
Sem ter que se ver
Tá, o jasmineiro tá em flor
O candidato passou
Deixou panfleto,
quase voou
e nem reparou
para o jasmim em flor
Não tem pecado
essa coisa gelada
depois do trabalho
No coletivo lotado
a loira lia Platão
E com um sorriso
de canto a moça do
decote imenso, empunhava
sua bíblia na mão.
Cabia até o cardápio,
tudo cabia então.
Tudo em seu lugar
Quase tudo a se alugar
Será que há lugar
Em que se caiba
Simples no ar?
Ipojuca, PE.
Esse céu sem fim
me cobre
O lábio racha
A pele seca
Esse céu sem fim
me abarca
Ele que cobre
Que eu vou
construir mais
uma arca
Esse céu sem fim
me esconde
Esse céu sem fim
se aplaca
Esse céu sem fim
tão onde
Esse céu sem fim
E o chão racha
E a planta seca
E o fogo espalha
E esse céu sem fim
se esfumaça
Esse céu sem fim
se junta
E esse céu sem fim
cai sobre mim
E o verde brota
E a fonte volta
E o céu deságua
Esse céu sem fim
se abala
Esse céu sem fim
só água
Amor
dura
candura
quase
dura
Existir é um ato
contínuo de
desexistir.
Desisto, por isso
existo.
Recife, PE.
Ela ao mar
indo e vindo
Longe lá
se rindo.
Ela no mar
lindo, lindo.
Tão no azul
infindo
No verde ruindo
Tão lá
onde há mar
Recife, PE.
Fruto do anonimato,
bem do meio do
rio Araguaia, descendo
sempre sem parar.
Bem antes ainda,
fruto da desesperança
de não mais ser da
sua terra por força de
quem errou e também
me faz.
Fruto do trabalho
escravo, do depois
mal pago salário.
Fruto desse sangue
pardo, fadado como
todos os meus
antepassados a
orgulhosamente nunca
chegar ao
estrelato.
Monte Alegre, GO.
Não quero dormir,
quando acordar
o mundo vai ser
esse mesmo da
esperança, esse
fardo de sentir,
essa coisa de
pesar, não quero
dormir porque
uma hora qualquer
vou ter de
acordar.
Monte Alegre, GO.
Foi na solidão
desmedida desse
quarto de hotel,
sob o som insone
do ventilador,
que eu tive a
iluminação de
que a substância
ativa que impedia
o meu cheiro
de ser único, eu
mesmo posto
em aroma,
trouxe-me esse
odor massificado,
essa coisa cheirosa
sem poesia, pois
que o que treinaram
socialmente os narizes
dizer fedor, foi
relegado ao
poder bélico
da ciência do
cosmético ao nosso
alcance em
aromas encontráveis
em cada esquina.
Viva o cecê,
marca indelével
nasalmente do
eu.
Monte Alegre, GO.
romântico da segunda
geração até o talo,
eu só quero que
me indiquem onde
é o fundo do ralo
De relance, poucos
segundos, eu, como
o dito, poeta,
você, como existe,
linda, dois segundos,
duas palavras, passou
como os mesmos
segundos, sem segundas
intenções, só a sua
beleza me segredando
o acaso.
Eu aqui meio peixe,
meio caçador,
quase humano,
com um flecha
tesa feita de
ponta de espinha,
armando a morada
de mim, procurando
o alimento, procurando
no alvo a paz.
Quase um agudá
preso no Brasil,
quase um sem referência
onde se está,
só com as bênçãos
de minha mãe e
meu pai a me
amainar.
Várias cores
pintadas que repousam
sobre a tez do vento
a semântica se perde
para a realidade
da palavra
o sentimento se guarda
em duas mãos dadas
Tem essa imagem
borrada como uma
foto antiga,
gasta pelo tempo
e pelas traças,
não é preta e branca,
é colorida,
quase a se perder toda
Tem cor
mas tem a perda
dela mesma.
Imagem que se
solta em vários
fragmentos minúsculos
e repousam em
minha pele,
dentro dos poros,
imiscuem-se em
meu tom cinza.
Agora a imagem
compõe minha cor.
Daqui do alto o
teu cabelo toca
as nuvens.
Daqui do alto o
teu cabelo toca
o céu.
Daqui do alto
só o teu cabelo.
E quando o vento
toca o teu cabelo,
Iansã me afaga
em um beijo.
esconde pelo sorriso
o sortido de se ir
a sorte ou o sacrifício
de não mais se estar
aqui
Ontem eu te vi
vagando as órbitas
pelas minhas
colocando o corpo
junto em si mirando
o meu.
O pé que apontava
teu anseio, condizia
ou conduzia a
mão frenética
arrumando o cabelo.
E da boca dos
outros falada
a intenção de
dois corpos contida
no envolvimento
de Eros, mexia
os segundos em
um sexo próximo
e distante.
O vago vem envolvendo,
vagarosamente ocupa
toda a vaga, vem
virilmente vazio,
validando a vez
de não ver voz
que valha uma vitória,
vociferando a vastidão
do vão vivenciado.
À primeira vista
aprimorada pista
de seguir outro prumo,
mas não, que é isso,
qual o quê e coisa
e tal, vai-se assim
mesmo com tanto
adjunto, crendo no
ad infinitum junto,
como de manga
com leite, como passar
por debaixo do arco-
íris, tudo por causa
de um mero tocar
de íris, como se além
de dois olhares apenas
algo ali houvesse,
Há. O avesso do que
se sente que acontece:
qualquer coisa alhures
desse tal amor.
Troquei minha calçada
pela mesa de bar,
fica na mesma,
contemplando tudo
à revelia ou
eventual, com
alguma companhia.
Desculpa, eu fiquei
entre eu e a culpa,
entre a voz e o
ser. Não abri
mão dos meus ouvidos
e fiz parte da maior
de todas só o que
ouvi.
Vozes outras, que
não se aproxima
da fortaleza,
eu fiz delas verdades
e esvaziei meu
casulo, reduto confortável
que sempre me guardou.
Perdi minhas vistas
nos olhos dos outros,
perdi o cruzeiro,
fiquei com a
insolvência da percepção
torpe de quem
não cabe em mim,
não sou, nunca fui
Don Juan. O que
me cabe é o véu
diáfano da timidez
revelada.
Essa palavra sim é
minha, a conquista quem
me deu foi outra boca.
Florianópolis, SC.