1784. Fazer a barba

Um reflexo lento se fia no espelho
Há qualquer coisa de errada
Como se o nexo do ethos houvesse ficado
numa imagem parada
Cinco pelos ouriçados
Mais três rebeldes que querem ser lisos
e tantos mais em sua insana missão de se dourar

A gilete fica ali
em tensão eterna
como se
(como se fosse a coisa certa a se fazer)
pudesse resolver algo na aparência

Talvez costeletas
mas isso é coisa de quem tem a força de
ter perdido uma costela
para um coração partido em decair

Talvez bigode
este que só a quem faz dos culhões
fios tesos sobre a boca pode ser merecido
(descartada logo a hipótese
já que os culhões ficam bem ali mesmo,
entre as pernas e bem protegidos
no mistério de ser viril ou não)

A tesoura ajuda um pouco na indecisão
quase que na barba um pouco
da mísera apatia de um Sansão

Quase feita a barba
Ficou-se nada feito mesmo
Como o rosto que a possui:
um quase premeditado em deixar a barba por fazer
(afinal, ela se faz feita mesmo…)
(ou quem sabe os pelos ditem mais do que a aparência)
(mais do que um quase)

1783. Queria que você estivesse aqui

Quase levei um tombo de manhã bem cedo
e seria coisa bem divertida se você tivesse visto
Sonhei coisa ruim e faltou braço
Senti um aperto no peito,
fumei um maço e meio
e bebi cinco copos de café

Passei perto da roda de um carro
Vi um céu bem azul
e umas nuvenzinhas bem bonitas em derredor

Senti um perfume de longe
– coisa que o nariz diz para si querendo vê-lo em saudade –
Peguei lotação lotada para ver se o dia acabava logo
e quase me acabei
Dormi um monte e acabei dormindo mais ainda depois

Li dois parágrafos de um livro e fiz duas cruzadinhas
Musiquei a falta

Virei zen-budista por três minutos

Vontade.

1775.

Quando ocorre o vago momento em que se pensa em sair e ir ver o mundo, por um momento você quer ir logo ver o mundo. Sentir-se vivo, ver-se vivo. Como se ver o mundo pudesse indicar qualquer coisa de viver. Mas é sempre assim: um momento. Nada para além de um momento em que você quer que algo aconteça. Algo acontece, e me vem a vida, quando te vejo.

1777.

Um quarto pequeno com quatro pés juntos
Quatro mãos e braços
Sem sofá
Sem sacada e com duas faces
Uma a uma para o lado do encontro

Lá fora o céu ainda cobre
Por detrás da claridade urbana
vagam levas de estrelas
cadentes e candeias
Como no primeiro encontro

1769.

Tanto faz o que se diga
Toda palavra é destino
É cerca
Se acerca

O que sai são lapsos
espasmos entre os lábios
que não se coadunam

em estrutura alguma

A mera aproximação que
se pretende ser mais que isso mesmo

Talvez nem aproximação
Fato que nem aproximação

Um beiral do século XIV
Uma ânfora carregada de veneno
Um diz-que-me-diz
Palavras redenção

1768. Era assim que eu via

(Ao cego do farol)

Era assim que eu via
Era assim que eu via
Com o que ouvia a minha mão

O tom do tato da quente cor
O som matiz nos dedos
O braile audível em gradação

Não escuro

que ao escuro se precisa da luz
Só a consistência do mundo
e suas ondas vibrando

Um quente, um áspero
Ver o vento nos pelos e na pele
Sentir o que se vê
Sem ter que se ver

1762. Terra de duas estações

Esse céu sem fim
me cobre
O lábio racha
A pele seca
Esse céu sem fim
me abarca
Ele que cobre
Que eu vou
construir mais
uma arca
Esse céu sem fim
me esconde
Esse céu sem fim
se aplaca
Esse céu sem fim
tão onde
Esse céu sem fim
E o chão racha
E a planta seca
E o fogo espalha
E esse céu sem fim
se esfumaça

Esse céu sem fim
se junta
E esse céu sem fim
cai sobre mim
E o verde brota
E a fonte volta
E o céu deságua
Esse céu sem fim
se abala
Esse céu sem fim
só água

1756.

Fruto do anonimato,
bem do meio do
rio Araguaia, descendo
sempre sem parar.
Bem antes ainda,
fruto da desesperança
de não mais ser da
sua terra por força de
quem errou e também
me faz.
Fruto do trabalho
escravo, do depois
mal pago salário.
Fruto desse sangue
pardo, fadado como
todos os meus
antepassados a
orgulhosamente nunca
chegar ao
estrelato.

Monte Alegre, GO.

1758. Cloridróxido de Alumínio

Foi na solidão
desmedida desse
quarto de hotel,
sob o som insone
do ventilador,
que eu tive a
iluminação de
que a substância
ativa que impedia
o meu cheiro
de ser único, eu
mesmo posto
em aroma,
trouxe-me esse
odor massificado,
essa coisa cheirosa
sem poesia, pois
que o que treinaram
socialmente os narizes
dizer fedor, foi
relegado ao
poder bélico
da ciência do
cosmético ao nosso
alcance em
aromas encontráveis
em cada esquina.

Viva o cecê,
marca indelével
nasalmente do
eu.

Monte Alegre, GO.

1755. Agudá

Eu aqui meio peixe,
meio caçador,
quase humano,
com um flecha
tesa feita de
ponta de espinha,
armando a morada
de mim, procurando
o alimento, procurando
no alvo a paz.
Quase um agudá
preso no Brasil,
quase um sem referência
onde se está,
só com as bênçãos
de minha mãe e
meu pai a me
amainar.

1749.

Tem essa imagem
borrada como uma
foto antiga,
gasta pelo tempo
e pelas traças,
não é preta e branca,
é colorida,
quase a se perder toda
Tem cor
mas tem a perda
dela mesma.

Imagem que se
solta em vários
fragmentos minúsculos
e repousam em
minha pele,
dentro dos poros,
imiscuem-se em
meu tom cinza.

Agora a imagem
compõe minha cor.

1745. Do amor e outros mitos

À primeira vista
aprimorada pista
de seguir outro prumo,
mas não, que é isso,
qual o quê e coisa
e tal, vai-se assim
mesmo com tanto
adjunto, crendo no
ad infinitum junto,
como de manga
com leite, como passar
por debaixo do arco-
íris, tudo por causa
de um mero tocar
de íris, como se além
de dois olhares apenas
algo ali houvesse,
Há. O avesso do que
se sente que acontece:
qualquer coisa alhures
desse tal amor.

1743. Da minha boca

Desculpa, eu fiquei
entre eu e a culpa,
entre a voz e o
ser. Não abri
mão dos meus ouvidos
e fiz parte da maior
de todas só o que
ouvi.
Vozes outras, que
não se aproxima
da fortaleza,
eu fiz delas verdades
e esvaziei meu
casulo, reduto confortável
que sempre me guardou.
Perdi minhas vistas
nos olhos dos outros,
perdi o cruzeiro,
fiquei com a
insolvência da percepção
torpe de quem
não cabe em mim,
não sou, nunca fui
Don Juan. O que
me cabe é o véu
diáfano da timidez
revelada.
Essa palavra sim é
minha, a conquista quem
me deu foi outra boca.

Florianópolis, SC.