1079. Eu sorri

A noite passou como a luz toca os objetos
Você se deitava sobre meu ombro
como se seu vazio pudesse se preencher
no suporte dos meus braços
Eu acalentava as ondas do meu desejo
repousando as pernas sobre as suas
e dando vez aos sonhos delicados
que pulsavam meus pecados
No negrume que escorria de tua tez
dediquei a que passou veloz e
esmiucei os dois pequenos beijos
existidos na contemplação de que
a vida é boa.

1080. Quereres

Queria desestabilizar minha loucura
e não usar mais calmantes
para compensar a tua falta
e aquietar minhas pernas

Queria que essa falta não existisse
posto que nunca a tive
e nunca a quis ter mais do que
você pudesse ser

Queria ser sua estabilidade
sem sentido, sem coerência
e tudo o mais que fosse possível
haver entre o afago e o carinho

1077. Duma desconstrução

nossa noite foi apenas uma noite
onde dividíamos a escuridão
os olhos não bastavam para nos compor
nem o enquadramento dos óculos
dava a moldura necessária para
definir a realidade

a visão era meu único tocar
realmente mais próximo
do que minhas mãos percorrendo
suas costas e cabelos
era a desconstrução da imagem
de que eu não dividiria sonhos contigo

1073. Qual tu queiras

Queria essa que já te lançasse
ao amável intuito de te
ser amor.
Falar de paixão debaixo
dos meus braços amparo
de mãos.
Daria-te as pedras quando
fosses falar do acaso e da
aurora, para alicerçar a
necessidade distante das
palavras.
Proporia um pedido e pediria
uma proposta para ter
teu corpo debruçado sobre
o meu em lençóis
limpos e cama macia.
Teu hálito de malte e cevada
a apaziguar minha conduta
e tuas pernas abrindo-se
ao meu corpo, que gritava
os sussurros mais discretos
que já imaginou.
Eu seria qualquer coisa
nesse instante e eu mesmo
além e tu serias simples.
Flor disposta a uma
luz na noite.

1067.

é nela que vou construir
minha dor
pois que anjos e amigos
são por demais enamoráveis
e a dor desses há de
ser mais gástrica
e menos cáustica

é nela que busco a
minha cor
pois que de todos os tons
brancos sobre meu cinza
é o que mais mortuário
há de me ser

é nela que vou despencar
em prantos
pois que não me quer
e eu, humano, só almejo
o que não posso ter

é nela que penso acordado
e até em sonho
pois que às outras eu
olho mas com o foco de um
coração transbordado

1065. Ceilândia

Um tomateiro nascido
em meio às réstias
de uma oficina mecânica
e as mangas e as
amoras esgarçadas
nos canteiros centrais
serão o saciar da fome
desses meus irmãos invisíveis
ao plano original.

E entre uma casa só
no reboco e a barreira
sonora formada entre
o rap e o brega
construo meus alicerces
e até planto flores
na ânsia de uma paradoxo
estético.

Meu mundo é esse
miscigenado, pobre e
moldado.

Aqui começam minhas raízes
que saem a ganhar o mundo.

1061. Twilight Zone (ou Palmeirópolis)

Se eu corresse pelado
a única testemunha seria
a lua e sua nefelibática
vergonha

Se eu corresse pelado
talvez não percebesse
o umbral formado entre
a Assembléia de Deus
e a drogaria
e talvez nem tivesse
visto Cérbero travestido
de vigia noturno a me
indicar o caminho da cerveja

Se eu corresse pelado
poderia não ter ouvido
o sinal de escola que anunciava
o início da pós-modernidade

Se eu corresse pelado
não encontraria cozinheiras
que preferem ser comida
e que jogam verdade ou
conseqüência em busca
de uma vítima para
esquentar o dorso

Se eu corresse pelado
Palmeirópolis teria sido
apenas uma luz absurda
envolta na noite avessa.

Palmas, TO.

1057.

Com três pontos e três ângulos
abaixo da ligação materna
imagino a textura da matéria
que cobre o frio da necessidade
sangüínea e natural (?) de ser mãe
que despenca todo mês em jorro.

Imagino a cor da figura geométrica
a embalar o anseio cilíndrico
do retornar à mãe.

Imagino o aconchego do pernoitar
o anseio na triangular
essência que se liga
ao doce vão perdido fundo
a trinta graus.

1058. Molhos

Uns olhos miudinhos
vêem o estrangeiro
que não vê nada
além de seus próprios olhos.

O forasteiro mira
seu olhar próprio,
vê-se assim em miúdos
pequenos, distantes.

Um olhar d’água
perto me distancia
de meus olhos que
só vêem o próprio olhar.

Na quadrada das águas
dos olhos só o olho
miúdo perto que ao longe
me leva ao meu olhar.

São Salvador, TO.

1055. Poderia até ter sido, se fosse mesmo.

A lata encontrava-se bem
segura pelas duas mãos.
A cerveja sempre escorria
um pouco pelo queixo
e sempre havia aquele
resquício em cima dos lábios.
Os olhos dançavam graciosos
sobre tudo.
Tão vivos quanto qualquer
coisa viva.
As frases verborrágicas
como se fossem koans
para um nirvana amoroso.
A despretenciosa fuga de
sempre com os dedos
trovejando afagos no coco
da minha cabeça,
A firmeza das botas
ao deslizar os passos certeiros
para me deixar ao léu.
E eu, ouvido vivo, ao constatar
que um anjo nunca é um perigo.

São Salvador, TO.