Um corpo derrubado
A embriagues ao chão
Um cigarro molhado
A embriagues não
Autor: Guilherme Carvalho
1091.
Após alguma coisa.
Um dia aposto que
a pós-modernidade
me pega de jeito.
1092.
Eu servo já.
Eu sirvo já.
A cerveja.
1088.
Inexistir é fato.
Existir é que é fardo.
1089.
Bem fácil,
perambulo em
preâmbulos e
prefácios.
1090.
Eu só sei esperar.
Meu estado interessante
de algo que não vai
chegar.
1086.
Palavras sonoras.
Há mor do que esta
em minhas costas?
1087.
Por que fumo?
A fumaça não
liquefaz a desgraça.
1083. Jongo cerrado
Se hoje acabou
onde está o fim?
Passado não foi
te vejo em mim.
Se ontem me amou
e não há cicatriz
porque diz passou
sem corte e infeliz?
Se hoje estou
cerrado em mim
jogado aos leões
fui errado sim.
1084.
esse aspecto bestial
é o que condiz hoje
minha face de
novelo de lã negra
informa uma via
láctea de proposições
kafkas
uma tempestade triste
se apodera de
minhas rugas jovens
santo, um dia
eu ainda não posso
tanto
1085.
Gota em gota.
Minha vida
em um conta-gotas.
1081. Desenredo
Comeu meu suplício
Amou-me de mansinho
Arrebatou-se em mim
Começou sem início
Andou sem caminho
Acabou sem fim
1082. You and the distance
I need black booths
In my face
I need faraway eyes
Just so crazy
I need you
And I lost you
1079. Eu sorri
A noite passou como a luz toca os objetos
Você se deitava sobre meu ombro
como se seu vazio pudesse se preencher
no suporte dos meus braços
Eu acalentava as ondas do meu desejo
repousando as pernas sobre as suas
e dando vez aos sonhos delicados
que pulsavam meus pecados
No negrume que escorria de tua tez
dediquei a que passou veloz e
esmiucei os dois pequenos beijos
existidos na contemplação de que
a vida é boa.
1080. Quereres
Queria desestabilizar minha loucura
e não usar mais calmantes
para compensar a tua falta
e aquietar minhas pernas
Queria que essa falta não existisse
posto que nunca a tive
e nunca a quis ter mais do que
você pudesse ser
Queria ser sua estabilidade
sem sentido, sem coerência
e tudo o mais que fosse possível
haver entre o afago e o carinho
1076. Certeza
Talvez se tivéssemos vestidos
somente com nossas vergonhas
não teria havido aquele calor
Talvez se juntos estivéssemos
o único calor havido seria
o do nosso encontro
Talvez devêssemos perder
nossa vergonha e ansiar
todo o calor
1077. Duma desconstrução
nossa noite foi apenas uma noite
onde dividíamos a escuridão
os olhos não bastavam para nos compor
nem o enquadramento dos óculos
dava a moldura necessária para
definir a realidade
a visão era meu único tocar
realmente mais próximo
do que minhas mãos percorrendo
suas costas e cabelos
era a desconstrução da imagem
de que eu não dividiria sonhos contigo
1078. Nada condicionado
Queria ter as mãos de afago
o suficiente para que você
coubesse nelas e se visse
livre do livre peso do viver
1075. Soneto do poema em branco
Este é o poema em branco
escrito a beira da loucura
e no limiar da razão
um vazio que adorna
a barreira entre a vida
e a morte: a alma
Este é o poema em branco
que brota a aflição
do vazio e do tudo
contido: a alma
Este é o poema em branco
do sacer fare e do
änima, uma ilusão do real.
Este é um poema opaco e prenhe.
1073. Qual tu queiras
Queria essa que já te lançasse
ao amável intuito de te
ser amor.
Falar de paixão debaixo
dos meus braços amparo
de mãos.
Daria-te as pedras quando
fosses falar do acaso e da
aurora, para alicerçar a
necessidade distante das
palavras.
Proporia um pedido e pediria
uma proposta para ter
teu corpo debruçado sobre
o meu em lençóis
limpos e cama macia.
Teu hálito de malte e cevada
a apaziguar minha conduta
e tuas pernas abrindo-se
ao meu corpo, que gritava
os sussurros mais discretos
que já imaginou.
Eu seria qualquer coisa
nesse instante e eu mesmo
além e tu serias simples.
Flor disposta a uma
luz na noite.
1074. Ausência desmedida
Ontem a noite foi só uma espera
uma vontade de algo não ocorrido
como se o deserto se apoderasse
do derredor de minha casa.
Meu coração tem dois átrios
um que é da vontade
um que é do engano
e a madrugada nunca me
chama a recompor meu
peito e a chuva também
não vem, assim como você
que perfilou os dois lados
do meu coração.
1071.
os muros de fícus pouco adiantam
sempre volta essa visão sem
olhar de que o lado de lá
do muro deve ser boa pousada
a uma calma perturbada
pela paz da pós-modernidade,
penso que o lado de lá
existe já em mim.
1072.
Meu corpo ouve o que
disse a alma
Aquietar-se como o vão
das horas numa noite
seca e de cigarras amantes
A noite começava como
qualquer outra coisa que
havia no corpo e dispunha
seus pares na alma
A noite começava morte
1070.
Se eu visse
o teu corpo e medisse
de encontro ao meu
e assim desse toque
houvesse
uma faísca no breu,
quem sabe um
sorriso brotasse…
1068.
tão mais misterioso
quanto você
ou teu nome podem caber
é essa sua pinta
na bochecha que
condiz teu ser
1069. Odeio isso…
a saudade é
um vazio
que se sente
depois das
duas da manhã
latente
quando ecoa
um silêncio
estridente
1066. Ânsia
Não mais a ausência
de si na saudade
em sentença.
Desinvento essa dor
e inverta a falta
em indiferença.
1067.
é nela que vou construir
minha dor
pois que anjos e amigos
são por demais enamoráveis
e a dor desses há de
ser mais gástrica
e menos cáustica
é nela que busco a
minha cor
pois que de todos os tons
brancos sobre meu cinza
é o que mais mortuário
há de me ser
é nela que vou despencar
em prantos
pois que não me quer
e eu, humano, só almejo
o que não posso ter
é nela que penso acordado
e até em sonho
pois que às outras eu
olho mas com o foco de um
coração transbordado
1063.
eu
entre
o sol e
a lua
caindo
na
sua
1064. O sentidoloroso da vida
Se não fosse o aroma das
mudas recém plantadas
das begônias, o único
cheiro agora seria o dessa
agonia plena a me
condoer o ânimo.
1065. Ceilândia
Um tomateiro nascido
em meio às réstias
de uma oficina mecânica
e as mangas e as
amoras esgarçadas
nos canteiros centrais
serão o saciar da fome
desses meus irmãos invisíveis
ao plano original.
E entre uma casa só
no reboco e a barreira
sonora formada entre
o rap e o brega
construo meus alicerces
e até planto flores
na ânsia de uma paradoxo
estético.
Meu mundo é esse
miscigenado, pobre e
moldado.
Aqui começam minhas raízes
que saem a ganhar o mundo.
1062. Nella III
Nessas mensagens tão confusas
ébrias de intenção e sentimento
encontro um estado de bobeira
tão bom que se eu pudesse
cair agora e me deitar
contigo no púrpura dessas nuvens
despencaria da altura que
existisse.
1060. Música
Quando o metal sopra
minha alma sai de si
deixa de ser alma,
vira som e melodia.
1061. Twilight Zone (ou Palmeirópolis)
Se eu corresse pelado
a única testemunha seria
a lua e sua nefelibática
vergonha
Se eu corresse pelado
talvez não percebesse
o umbral formado entre
a Assembléia de Deus
e a drogaria
e talvez nem tivesse
visto Cérbero travestido
de vigia noturno a me
indicar o caminho da cerveja
Se eu corresse pelado
poderia não ter ouvido
o sinal de escola que anunciava
o início da pós-modernidade
Se eu corresse pelado
não encontraria cozinheiras
que preferem ser comida
e que jogam verdade ou
conseqüência em busca
de uma vítima para
esquentar o dorso
Se eu corresse pelado
Palmeirópolis teria sido
apenas uma luz absurda
envolta na noite avessa.
Palmas, TO.
1059.
Essas suas mãos nos cabelos
são calores ou indícios
de um flerte?
1056. Colar
Ainda ontem tive a certeza
hoje não tenho nem o nada,
mas é que havia seu sorriso
estampado forte no meu
e minha tristeza colorindo
de tons cinzas seus dentes
que pensei ser o mundo
apenas um adorno para o
seu pescoço.
1057.
Com três pontos e três ângulos
abaixo da ligação materna
imagino a textura da matéria
que cobre o frio da necessidade
sangüínea e natural (?) de ser mãe
que despenca todo mês em jorro.
Imagino a cor da figura geométrica
a embalar o anseio cilíndrico
do retornar à mãe.
Imagino o aconchego do pernoitar
o anseio na triangular
essência que se liga
ao doce vão perdido fundo
a trinta graus.
1058. Molhos
Uns olhos miudinhos
vêem o estrangeiro
que não vê nada
além de seus próprios olhos.
O forasteiro mira
seu olhar próprio,
vê-se assim em miúdos
pequenos, distantes.
Um olhar d’água
perto me distancia
de meus olhos que
só vêem o próprio olhar.
Na quadrada das águas
dos olhos só o olho
miúdo perto que ao longe
me leva ao meu olhar.
São Salvador, TO.
1055. Poderia até ter sido, se fosse mesmo.
A lata encontrava-se bem
segura pelas duas mãos.
A cerveja sempre escorria
um pouco pelo queixo
e sempre havia aquele
resquício em cima dos lábios.
Os olhos dançavam graciosos
sobre tudo.
Tão vivos quanto qualquer
coisa viva.
As frases verborrágicas
como se fossem koans
para um nirvana amoroso.
A despretenciosa fuga de
sempre com os dedos
trovejando afagos no coco
da minha cabeça,
A firmeza das botas
ao deslizar os passos certeiros
para me deixar ao léu.
E eu, ouvido vivo, ao constatar
que um anjo nunca é um perigo.
São Salvador, TO.
1054. Círculos
Fugi para o Tocantins
pensando deixar-te no avião
Mas mesmo nessa corruptela
sem até mesmo via principal
trago o incômodo do
anseio de você deitada
no meu peito e de te
escutar as frases embebidas
em sono que dizias para
seus sonhos.
São Salvador, TO.
1052. Gurupi
Quando eu for morar em Gurupi
e tiver minhas filhas com
outras qualquer, vivendo
de amor e de sorte
sei que você vai maldizer
o dia em que me jogou pro alto.
São Salvador, TO.
1053. Felinas
(Ao Engº Ricardo Taba)
As mulheres são como os gatos
e os gatos são como as mulheres
deitar de barriga pra cima
e passar despercebido depois
As mulheres vem dos gatos
e os homens, sim, dos macacos.
São Salvador, TO.
1051. Se ter
Não sei se foi o caju
ou se lambuzar com a manga
mas me tive certamente
mais uma vez,
talvez foi no instante
em que subi na jaqueira
e a formiga mordeu
meu pé.
Tava eu comigo de novo
e sujo de fruta
e barro.
São Salvador, TO.
1050. Carimbó da Preta
Ê minha preta
como pode ser tão linda
Com esse vestido de renda
e no cabelo essa fita.
Ê minha preta
como você é tão bonita
Deixa a minha pele parda
nessa sua negra e lisa.
Ê minha preta
como é que pode assim?
Você toda florida
pondo tanta cor em mim.
Ê minha preta
venha me enegrecer.
Deixa o tom do meu vazio
se colorir em você.
Retiro – São Salvador, TO.
1047. Inferno astral
Não vem a brasa
No que vem abrasa
No ventre há brasa
Novembro em chamas vem.
1048. Ínfimo
Quiçá
eu seja só
um içá.
1049.
No buraco do céu
o sussurro do silêncio
e a luminosidade da noite
São Salvador, TO.
1044. Sem I
sem ti minto
sem aumentos
sentimentos
1045. Motivo
entendo…
em ter dó, o
intento
1046. Xiii…
Acho que a
chuva não vem,
achando que
chover não faz bem.