3655.

do clã do universo
minha tradição
remonta às células iniciais
e de todos os troncos
eu vim
remoto

o mistério que me compõe
todo átomo como lenda
da oralidade da luz
à flor-de-lis

paredes, papiros e papeis
cada ponto do meu corpo
grafite helicoidal

geração a geração
esse fluxo de energia
que paira e explode
plasma e pessoas

do som mais primordial
eu ecoo aquela faísca
fagulha
lírio reverberado
o que houve
que há
haverá

um instante

minha genealogia é do espaço
minha herança é o tempo

segredo encravado no crivo
mais fundo da minha cabeça.

3653. recriação de mar

quando me foi dada a missão
depois de tudo volvido ao ventre mãe

quando me inteiraram da função
que o malogro do distanciamento vagou

tinha por certo de novo separar
o que dentro da esfera girava misturado
só ventre e poeira

mãe já não havia também
só secura
era pó e quentura
pingo de estrela crua

e eu não tinha mais cabeça
ninguém quis
tinha pé e mão e tronco

e fui fazer então ela
que mar de novo tinha de vir
e tinha de ser feminina

separei cada pedaço de água que tinha
e salguei com sangue do peito
que é o mais salgado

era toda água muito miúda
e sem cabeça ficava mais difícil de separar

fui pelo tato
que água a gente sente jorrada
pelo toco dos dedos

o pó todo eu soprei e voltou estrela
a água eu amaciei doçura
ternamente e envolvi ela mesma
gota a gota
com sal de sangue de peito vivo

fiz redoma de água salgada
e veios de água doce atravessando
gota única dentro do céu
girando o sol

recompus só a mar
e me desmembrei larvas dentro dela

cada pedaço uma família de peixes
irmãs e filhas e mães

sem barro.

3652. cem quilômetros de solidão

a liberdade é das manhãs
e em cada alvorecer
um deus te nasce
entre os dentes
e morre

os raios enramam
feito jiboia trepando
e o peito desaperreia
ipês dentro
quando flores despencam
face afora

dura pouco
mas são léguas

cada dia
a brevidade das manhãs
põe séculos na pele

só nessas manhãs
você sabe a medida
da sua extensão
quantas eras

só.

3645. rastros de chuva IV

ele não sabe mais nada sobre mim
tampouco pergunta
não sabe que todos os dias eu choro
e reflito acerca da inexistência
não sabe que nada disso se trata
do desespero do suicídio
ou do afã de um fim de amor
não compreende que cá dentro
existem celas, que me aprisionam
cada ânsia um cárcere
grades e mais grades que antecipam
o real da vida e comprimem
não o peito, mas me comprimem dentro
dele, do peito

ele não me olha mais nos olhos
por medo da verdade
eu me encolho e nem tenho mais olhos
tenho correntes, paredes
me prendendo e espremendo
é tanto entranhamento que gera
um próprio estranhamento
não me reconheço

mas ele ronda tão próximo
e tão longe, tem pés de seda
mãos de afeto, que não tocam nada
ninguém

ele sabe do que há de vir
mas não me conta
fico aqui, em coma
dentro dentro
meu próprio carcereiro

ele, o discernimento

3638. Sem soma

Das vinte e quatro que formam
as horas dessa rotação,
sete e meia passo ali
em frente à teletela

Uma e meia duas vezes,
ida e volta,
para ali e desde ali,
no trem

No meio disso, meia eu gasto
jogando alimentos na garganta
a seco

Quando em casa, oito eu durmo,
quando muito
Em média sete, com sorte
Normal seis, com luta

Um quarto com o cachorro
Um quarto passando roupa

Uma e meia desde a cama até a rua,
rumo até ali

Sobram quatro, cinco ou seis,
depende da insônia
Em que eu não sei quem sou

Mas é sempre esse piscar, acabando-as
Cinco dias dentro da semana,
mais dois que não vejo
Só pisco
E tudo assim de novo e de novo
Trezentos e sessenta e cinco ou seis
Décadas

O que tenho daqui para sempre

3634.

sentei na cama no sem forma da manhã
tudo lenteava
olhava aquela brisa de sol pela fresta
e o raio de frio que rasgava a pele

era quase tudo em sépia
lá fora clareava
aqui parecia o sem tempo do passado
e o sem espaço das fotografias

meu intento era ficar parado
nada passeava
quedei nos meus pés em chão postos
e nas mãos, esmaecendo

fui tomando as transparências de vidro
eu apagava
quando vi, nada mais via, sem contornos
e o quarto me guardava a inexistência

3626.

Eu tento disfarçar
Quem olha até pensa
Que cessaram os tremores
Mas meu sangue é magma
Fluindo ruidoso embaixo
Da tectônica da minha pele
Meus músculos em placa
Apenas repousam
Um terremoto destruidor

O sismógrafo do peito
Já identifica o próximo abalo:
Meu corpo à deriva
Encontrando teu continente

Mesmo que não agora

Ainda que lentamente

3625.

A todo quase elas vêm
Não há só um mar aqui
Há um nó aquoso
Adere a garganta toda
E cria um curso perene
Que cachoeira os olhos

Elas lubrificam a visão
Lavam as retinas
Mesmo turvando o olhar
Deixam tudo mais claro
Cristalino
Pelo cristalino dos olhos

Essas lágrimas me inundam
E descem marés cheias
Pela orla do meu rosto

Espero nascentes da minha boca
Pra dizer o tanto quanto
A sua falta me maremota

3619.

Há uma paz que vem
um sem tamanho sem ansiedade
Peito cativo
até desaprendeu a respirar fundo:
há de vir uma palpitação
um medo do escuro
culpa esculpida nas entranhas

Estreitos são os laços que
se tem de desfazer
Mas a casa está arrumada
se alguém vai habitá-la
não se faz questão
de resposta agora

Todos os cômodos limpos
Há mesmo até cômodas vazias, novas

Sem sustos
Portas abertas
O que move o peito é ele ser
sem desculpas
em hélice bater, voar
sem dez, sem diz
que me diz

Não é quimera, quasar
quem dera, quase
É paz e ela assenta
Casa limpa, peito aberto
que respira

É só acostumar

3606. Cadernos de Bilu – Notas etnográficas de um extraterrestre IV: Cacarecus officinalis

Era uma coisa, mas – pasmo! – teve vida
Carecia de taxonomia, logo
Situamo-la num reino novo:
Metatranqueira
Do filo dos Inutiae, da classe dos Paravalóricos,
Ordem dos Ostentacus,
Família Hominidae

Seu habitat natural são bolsos e bolsas
Procriam-se através do parasitismo de humanoides de África e Ásia
Consomem minérios e sintetizam ondas e raios
Produzindo presença, companhia, boatos, excitação e ódio

Seus rizomas se mimetizam com esperanças
E se estilhaçam no fim
Em sambaquis de plásticos, papéis e pedras
Sem vida nova

Descartáveis, são a cura
Para noias humanas
E paranoias, para humanas e humanos

Veneno e soro
Além de psicotrópico

Subespécies várias: galaxy sspp, motog sspp, iphone sspp, windows phone sspp.