um detalhe articulado
no curto cabelo
a grande trança posta
de lado, ali pousa
meu olhar,
meu pecado…
Categoria: Poesia
2648.
como conseguir
se concentrar
com esse tanto
azul sem ser mar
e essa nuvem-
espuma quase
a ondular?
2647.
a gente caminhava em meio ao lixo
e não havia luxo algum nele
grupos inteiros de jovens sentados junto ao lixo
em meio a latas de cerveja
cacos de garrafas de vodca
bitucas de cigarro
pedaços de identidades largados pelo chão
fragmentos de sexualidade liberada
tudo jogado
eu me jogando
como se lixo fosse
como caco que sou
como os pedaços colados de sons que fazem a música
que conduz os jovens, os lixos, as identidades, eu
a coexistirem em alguma paz
2646. Música fosse incenso
isso de além
ser tanto quanto
a gente é
vai nos levar
sempre a querer
2645. Quando piso em flores
meus pés se colorem
meus pós se coligam
meus prés se agitam
meus pios se uivam
e minhas pegadas viram ramalhetes
2644.
silencia um minuto,
certifica que o dito
será matéria a
percorrer línguas,
ganhar ares
e fincar ouvidos
silencia só um instante
não faz da verborragia
o seu todo gritante
e diz com os olhos
mesmo vacilantes:
não quero falar,
sentir é o bastante
2643. Ad aeternum
cabelo luzindo em ocaso
brinco de argola dourado
relógio dourado no braço
blusa rosa com strass e babado
salto agulha bem alto
não faz minimamente meu tipo
mas ainda assim, esse mar de luzes,
eu insisto,
humano extasiadamente homem,
eu existo…
2642. Percursos, ab urbe condita
De pé a pé a cidade é micro, da altura de encontros,
da dimensão de tropeços.
São lugares dentro de lugares juntando espaços.
De bicicleta a cidade é perto, da altura de um banco,
da dimensão de movimentos.
São paisagens afetivas percebendo e sentido espaços.
De moto a cidade é gigante, da altura de um olhar,
da dimensão de segundos.
São fluxos velozes descortinando os espaços.
De carro a cidade é pequena, da altura de um busto,
da dimensão de minutos.
São fixos perpassados que formam espaços.
De ônibus a cidade é ampla, da altura de um arvoredo,
da dimensão de horas.
São formas arrebatadas na existência dos espaços.
De metrô a cidade é comprimida, da altura de um túnel,
da dimensão de frações.
São estruturas indutoras da mobilidade em espaços.
Deslocar-se na cidade é viver na altura da urbe,
na dimensão do cotidiano.
São processos que abrem o espaço aos espaços.
2641.
e quem vai querer
dividir comigo essas notas,
tocando num átimo o tímpano
e misturando no ouvido
língua, tremores e tons?
2640. Futuro
Milésimos de segundo
antes do sol se apagar
dois corpos humanos
falavam de seus eternos
amores, pouco antes
de uma onda de calor
derreter corpos, amores,
tudo que quisesse a
impossibilidade do sempre.
2639.
Isso turvo entre
as gotas
embaçado atrás
do vidro
essa iluminação
rota
posta nos
interstícios,
é o mundo
quando chove,
lado de fora
do lento ônibus
no trânsito
que te acolhe
2638. Pensando sobre o fim das nóias
Se eu gritasse e
todos os grilos
se gastassem,
será que eu
me gostaria?
2637. Transpondo
por que o banzo?
a letargia sentimental
molhando o que escorre por um blues
o medo das chagas
as proposições impensadas
o pensamento demasiado humano
não possui nome isso
possui tentativa
lance de dados com as palavras
possui corpo isso?
o permeável de um ser
o tocável de um ser
e por que o banzo?
se a chuva bela tem essa gotícula matéria que se transpõe dentro
e que brota cascata peito afora pelas janelas da alma
as esperas e as esperanças esparsas
cada uma trazendo um momento
que é espaço:
esse lugar do dentro de si que não possui nome
2636. Samba, soma, sombra, assoma, assombra.
Samba é minha dose de soma
mas as vezes ele esquenta, se
assoma à beça na cabeça que
sai até assombração de sombra.
E eu sinto que esse som abraça
santo e me lanço em sanha em
roda intensa içado pelo sangue
de cachaça sem sã consciência.
Aí meu irmão, isso assombra…
2635. Para o alto e avante!
Bem além estratosfera nasce alva e bela
contrária vênus planetária Dalva estrela.
Pela linha da noite baixa vinda, salva a tela,
atrás do anil em branco, ressalva a aquarela.
Pinga calmo amor, seiva malva, na querela.
2634. et cetera e tal
Cítaras
sibilam
seu tom,
situam
sua tara:
tântrica
oriental
orientada.
2633. Chá da noite em rodopio de estações
belo horizonte a ocasear pelo planalto
com vistas da fúria insanamente iansânica
estrondando as pausas da vida
liquefeita nos poros da superfície terrestre
lindo plano alto no engano de ficar
quando ser não basta na vasta ampliação
do que se pode tocar com as íris,
arcos dessas em prismas de gotas completam
garboso e erodido pelas vestes do tempo
o horizonte se acalma em explosão hidro-eólica
laranjando tardes permeadas de chumbo
em nuvens dessa e da fumaça do óleo diesel
no cedo do que hora é, infunde um negrume
onde antes só azul se esparramava
a noite vem qual chá, difusa-diluída no azul do dia,
fervida na luz do ocaso de quase seis
e sorvida fria em gotas miúdas de uma chuva de fim de verão
são esses minutos da Terra antes da primavera aqui no cerrado
2632. Mundo, mundo, lastro mundo…
Quantas e quantas vezes o mundo desmorona
dentro das entranhas
no íntimo dos tecidos
juntando em cada códice partículas mundanas,
corolários de cânceres,
com gosto de sem.
Quantas e quantas vezes mesmo o mundo desaba
dentro da cabeça
no ínfimo dos sentidos
aglutinando no córtex neuras e neurônios néscios,
nódulos de nada,
com nuances de com.
Quantas e quantas vezes ainda o mundo descamba
dentro do espírito
no istmo do recinto
conectando em todo corpo sensível ausências desmedidas,
sobras de solidão,
com o peso de cem.
Quantas mesmo?
2631. Palavras categoremáticas
o eu me limita
quando você me reflito
e esse nós me funde
a impermanência dos pronomes
sempre enclausura e endoida
2630. Índigo ariano
março enfim queimou em fim
desaguando em abril
águas de mim
tom anil
tem fogo
brasas de fim
na água de um novo
março que vai, em abril assim
2629. Misantropo
preguiça de gente
com cara de humano
e esse ar de macaco esperto
com esse lance cultural
e um papo de espírito…
cansaço do fardo
ter nas mãos a habilidade
para erguer e esbofetear
no além natureza
a própria matar
fadiga mesmo…
2628. Contos do super-capitalismo tardio XIII (O amor I)
Clara achava que tinha por missão amar o mundo. Pedro acreditava que sua sina era suportar o mundo. Quando os dois se encontraram o mundo parou e então suportaram o amor.
2627. Contos do super-capitalismo tardio XII (Como Maria)
Primeiro um cheiro de pólvora. Depois o sangue coagulando na rua. E Dona Marta parada ali, na ânsia de ver do diesel junto aos genes renascer a carne do filho novamente.
2626. Contos do super-capitalismo tardio XI (Encosta!)
Madrugada, dois cambaleavam ébrios em meio à rua:
– Mão pra cima, encosta! Diz o guarda ainda na viatura.
– Pô Zeca! Desencosta da minha bunda!
– Mas se não for aqui, onde?
2625. Contos do super-capitalismo tardio X (Natural sintético)
O casal discutia ir à festa:
– Não em raves, sou natural.
– Mas artifícios artificiais são bons.
– Prefiro a acústica da floresta.
– E eu a síntese estética.
Ali acabaram.
2624. Contos do super-capitalismo tardio IX (O amor)
O ar rarefeito do porão que, comumente, chamávamos bar estava no limiar do suportável. Ainda assim ficamos por ali nós dois, no limiar de nós, do álcool e da fumaça. Tentando chegar até o ontem.
2623. Contos do super-capitalismo tardio VIII (Relatório)
O chefe disse que queria, impreterível, o relatório em meia hora. Lutei para tanto. No fim sobrou esse corpo em espasmos e esse machado em sua cabeça. Santa eficiência.
2622. Contos do super-capitalismo tardio VII (E fim de papo)
Melancólico laranja nas nuvens em fim de tarde. Dentro da turba no ponto de ônibus fiquei esperando-o chegar. Ele me viu, perguntou pelo Hesse. Disse que ia bem. Ele riu e o ônibus chegou. Hesse não devia estar bem.
2621. Contos do super-capitalismo tardio VI (Noite doida)
Noite doida, começada num cachorro-quente. Ela apostou: “Duvido correr nu pela rua”. Despido, corri. “Agora eu quero a paga”, disse. Ela: “Mas me faça correr pelas paredes”. Corremos.
2620. De cidades depois do imaginário
cidades com cara de cidades
mesmo que nunca se soube
ao certo a sua existência
mesmo que se pensasse apenas
devaneio a materialidade do estado
cidades com cara de cidades
com pessoas andando nas ruas
pelo meio da noite e alto da tarde
e tornando a sua cidade
mera tentativa de cidade
ou cidade torta cidade
cidades com mar na frente
e morro atrás e ar de água
e vento de mar e areia de praia
e ilhas juntadas e asfaltadas
cidades que tem passado e criação
sem pena de projeto arquitetado
erguido em concreto, vidro e aço
cidades que surgiram de naus e velas
e extermínios de algo que hoje
só se tem com isolados
cidades que se explicam pelo andar
e que onde se vislumbra nomes nas ruas
são cidades que a um vindo
de uma meta-cidade
fazem pensar o que é mesmo uma cidade
e até dão esse ímpeto de morar
em uma
pela primeira vez de verdade
Vitória/ES
2619. a zica
espelho partido em mosaico absurdo
gato preto veloz em frente a sua madrugada
bem debaixo a passagem pela escada
pé não destro nos primeiros segundos pós-noturnos
cabeça de burro enterrada debaixo da casa
chute na galinha com farofa na encruzilhada
ai essa doida e sua razão azarada…
2618. o quebranto
não sei se foi de propósito
ou mesmo dada essa condição de erê
mas o mau do olhar transpassado
empossou uma esmorecência
um langor longo tanto
que sair da cama foi difícil
durante todo o período
2617. a uruca
há na cabeça
voz confessa
será benção
essa doida
ou só confusão
em remessa?
2616. Rodovia do Sol
no instante em que o azul parava
e que lá o topo negro ficava
a gente se conduzia
num meio entre o Rio e a Bahia
Anchieta/ES
2615. Espírito Insano
aqui o espírito
não é santo
é industrial
e urbano
ainda mesmo
é praiano
morrotes, porto,
enseada
esse tanto
qual outros
mareados
espaços insanos
Vitória/ES
2614. Duas estações, uma guerra
um exército de nuvens
se enfileram no infinito
desabado em cima do cerrado
o palco da guerra
entre a seca e a água
é esse começo imediato de espaço
o exército invisível
da seca vem comandado
pelo grande general astro
o céu antes azul
se transfigura transtornado
pelos mísseis estrondosos
de luz das nuvens lançados
por fim tudo tomado
de cinzas nuvens
o céu carregado
a água despenca
como lágrimas de vitória
do exército nublado
hoje a chuva venceu
a batalha, mas ainda
farão meses de seca
para que se coroe seu
temporário reinado
2613. DITIRAMBO DA GLOBAL WORLD NUM PAÍS TROPICAL PRÉ-POTÊNCIA INTERNACIONAL (E eu aqui, vendo tudo de rabo de oio…) Parte 1
CoriFêMêIeu:
Ouçam o que há dos cantos mais ermos do Novo Mundo
Mesmo que fruto do Sol Poente em superação
por conta do que fez o Novo Mundo
ao explodir o Velho Mundo quase como o sol faz dia a dia para iluminar
este parco sistema de poucos planetas
alguns cometas e mais asteróides
Mesmo que não original em essência
ouçam o que há dos cantos mais ermos do Novo Mundo
Lá se diz, com auspícios de boca divina, que o mundo deve
curvar-se diante da potência da onipotência do degrau técnico
ao qual se chegou o poder de troca sem limites e sem fiscal
do produto inútil à abestalhação geral e irrestrita de toda uma nação
Lá se produz o artigo colorido de nada e insuflado de mais-valia
e se exige a consternação dócil e cristã do ter sem porque ao consumir ao infinito
Ouçam o que lá se diz e se deixem levar pela narcótica visão do paraíso
Fauno do refrigério, Pio Dom Monsanto Pfzeir Agente Laranja XXIX:
Ó mestre supremo da compra
ensina a estes reles que a realidade
deve ser menos que ela mesma
e mais imaginária do que se pode imaginar
Ó mestre supremo do supérfluo
diz a eles que concede a energia cifrada necessária
para seus parcos empreendimentos
mas cobra-os a saúde e a educação
Educa-os nos moldes cristãos ó mestre
e fale que é aqui que deve ser o paraíso do um milhão
que Deus quer aqui dar o paraíso do um milhão
Exige que vendam suas almas,
pois que a reboque vêm seus corpos
para produzir em frações de milésimos o que eles não terão nunca em fato
mas em doce realidade imaginária maior que a própria imaginação!
Sátiro liberal-social-democrata nº 1, Digníssimo Dr. PhD Fêgácê Zéser Rá Malan:
Pão aos pobres!
Meia imagem de bundas aos pobres!
Caviar e escargot e a bunda aos outro cinco por cento do mundo!
Ó mestre eu vendo tudo
tudo mesmo para que venhas para cá
e nos embebede de empréstimos a fundo perdido
nos arrombe com seu falo de ouro
que a ti entregamos coisas fúteis como nossos meios de instrução e adestramento
nossos precários meios de comunicação com direito até mesmo aos sinais de fumaça,
pombos-correios e tambores
qualquer recurso que se renove ou não
qualquer faísca
qualquer fagulha
a modelação corporal e psíquica promovida em nossos consultórios
e, é claro, toda e qualquer forma de controle de informação possível!
Nós te amamos ó venerável e avantajado mestre!
CoriFêMêIeu:
Assim me arrouba o coração ver tamanha lambeção de bolas!
Meus filhinhos prediletos
Diletos herdeiros que os farei um dia reis do tráfico de escravas sexuais
A quem darei as férteis plantações de coca da Colômbia
A quem empossarei como donatários das capitanias do ouro negro líquido
nos arredores dos expatriados agora doces alcoviteiros de Holywood
e dos humores explosivos dos preciosos gases das paragens desérticas
do centro extremo asiático
Amo-os
Espalhem aos quatro ventos que é assim que tudo é
e que tudo eternamente, como Deus, há de ser sempre
Cem mil léguas de montes de ouro é o que darei a vocês
Pela obediência, pela boa vontade, pela cartilha decorada
pelo ditado sem nenhum erro
Mas cá tenho um pedido a vós fazer
os miseráveis miseráveis estão dando um pouco de trabalho
com essa história revolta de se revoltar vez por outra
contra alguns ditames que vem diretamente dos altos-escalões
tem quem brigue até por preço de passagem de ônibus!
Seus cornos!
Seus filhos de uma puta rampeira desgraçada de uma figa!
Acham que eu sou palhaço?
Quero todos os miseráveis miseráveis dóceis como filhotes de cachorros
Babões, lambões, idiotas, quietos
Ouçam-me de uma vez por todas meus queridos bastardos filhinhos de merda:
não quero mais um pio sobre baderna de comunistinha pobrinho brigando por
o que quer que seja,
estamos entendidos?
Meus lindos filhinhos bastardinhos!
Meus afaga-bolas cativos!
Fauno das milícias, General Eletro-Ford Bayer de Albuquerque IME:
Ó grande supremo
Peço permissão para passar o relatório do último evento
Tenho cá algumas boas e valiosas informações havidas no combate
Nenhum morto no front
Do outro lado foi uma baixa considerável
Aqueles miseráveis miseráveis
Devem ter sido pelo menos uns 80 lá no Rio
Mais uns 500 espancados na Bahia
Mas o carnaval foi um sucesso
Da nossa estirpe não tive conhecimento de nenhuma baixa
O consumo foi bom
O álcool desceu fácil pelo sangue de vários
À revelia de que tenham tentado sabotar nossas mortes planejadas nas estradas
As coitadas tiraram suas roupas, abaixaram até o chão e chuparam gostoso
Foi um carnaval espetacular
A Escola campeã
Como o Grande Pai solicitou
Mais algumas baixas dos miseráveis miseráveis durante a festa
Um carnaval fantástico
Devemos conseguir mandar mais umas duzentas carnes frescas
Para o alto-comissariado europeu ainda essa semana
O ruim é agradar aos orientais
Ô povinho exigente
Mas nada que umas ancas firmes e um belo investimento nas mamas não dê jeito
O tráfico foi bom
Deve estar rendendo bons dividendos para os irmãos vigilantes estatais
Eles devem ficar bom tempo sem encher o saco
O armamento chegou em dia
E com essa crise de cartão coorporativo
Ninguém deve estar pensando em fiscalizar como nós
Privadamente
Gastamos muito mais recursos públicos
Do que qualquer merdinha de ministro da porra do caralho
Ainda mais agora que o gatinho brabo do Fisco metido a leão
Não tem mais como saber o que diabos transamos com a porra daquela CPMF
Abrir conta no exterior era um saco
É melhor ficar tudo por aqui mesmo
Daqui de perto a gente controla melhor
E ainda consegue tirar um bom lucro investindo no Bradesco
Tudo OK
Zero Killed
Deixa os patos na fita que é nóis no DVD
Não esquece de passar essa idéia pra Washington
Salve Senhor dos Senhores!
Câmbio
Desligo
Sátiro liberal-social-democrata nº 2, Venerável Monsenhor Desencarnado Ácêmê:
Ó que bela notícia me chega nestes caudalosos humores de enxofre
deste inferno tão quisto
Antes da minha saída estratégica para encontrar meu carinhoso filho
saí de cena com certo receio de que todo o império erguido
fosse desmoronar, mas quando vejo meu herdeiro nas tribunas
nos palanques e nas ruas, nos bancos de CPIs absurdas
– vou pedir-lhe em sonho que faça uma CPI sobre as bundas,
já repararam com as bundas andam sendo falsificadas?
é matéria de apuração rápida e urgente, CPI mista de preferência –,
vejo que o suor de minha herança não será derramado em vão
e quando vejo que na Bahia,
pelo menos 500 foram espancados,
me lembra os velhos tempos do eito e me bate um saudosismo baiano
uma saudade morena de poder currar todas as escravas que me desse na telha
de poder marcar a ferro em brasa os animais que eu tinha em propriedade
tanto os quadrúpedes quanto os bípedes
Ah que felicidade!
Ah que benfazejo!
Ah meu mestre, como sou feliz mesmo aqui no inferno
como é bom ter dedicado uma vida inteira a vós e a mim
pois que só eu, eu e vós é o que sempre importou realmente
Amo-te
Venero-te
Entrego tudo que rodear genes próximos a ti meu Senhor!
CoriFêMêIeu:
Ah que orgulho
Esse é cria de tempos antigos…
Quando não havia tanto sociólogo e pedagogo de merda pra encher os saco
Fabulosa criação que consegui executar plenamente
Ah se todos os miseráveis miseráveis conseguissem ser assim!
Meu trabalho seria tão profícuo
Nenhum bossal para estragar minhas idéias mirabolantes
Ainda ecoam por aqui os ritos vermelhos desta religião pagã dita marxismo
e meu intuito é de que o Novo Mundo possa, junto ao Velho,
não tão Velho posto que uno agora,
não tão Novo posto que gestado há muito e que percorridas longas trilhas
se desvencilhe desse espectro tão logo possa
Mas a ameaça vermelha da ditadura da prole,
pois que prole mesmo e nunca – jamais! – proletariado de fato,
ainda ronda, como um espectro eterno
Apressemo-nos, pois, em encontrar novas fábulas para distorcer
o ocorrido e novas historiografias que possibilitem uma mais certa acepção
do que foi tido, e uma visão que seja única e exclusivamente minha
– nossa, pois há os acionistas
Inventemos assim novas místicas
novos horizontes de luta para os pobrinhos e para os intelectuais existencialistas
de merda
de preferência algo verde, algo que possamos manipular ao nosso bel prazer
algo que possa render frutos para tratados de sociobiologia
algo que possa manipular os códigos internos das células e dos tecidos
algo que veja no que já fomos a solução definitiva para a necessária permanência
da violência e da agressividade
Deus seja louvado, pois que agora somos todos sustentavelmente
seres preocupados com as gerações futuras
e com os lucros futuros
Ouçam todos!
O futuro a nós pertence e temos de vendê-lo a prestações
para nossos próprios filhos e netos e bisnetos e tataranetos!
Isso é uma questão ética!
E monetária antes de tudo, antes dos entes e dos seres e antes mesmo de nós mesmos
Fauna da natureza, Mrs. Funk-Green WWpeaceFong:
Louvado seja o Senhor!
Do meio da floresta venho aqui dizer
Que o seu desejo já está sendo planeado há tempos
O mapeamento dos recursos já está quase em seu fim
Idiotas sempre financiam e em troca ganham adesivos
E colam em seus carros e vendem nossa imagem sem nem saber
E nos ajudam a perpetuar a idéia de que conservam
O que na verdade já estamos patenteando lá no Japão
Sem falar o que já registramos na China
Cada larva, cada folha, cada inseto, cada fungo já está sendo devidamente catalogado
E até o fim do ano já conseguiremos substituir o silício
pelo rabo de tatu em larga escala
Quanto aos oceanos nem precisa se preocupar
é água demais para se poder fiscalizar nossa ação
ainda mais que somos nós mesmos que fiscalizamos nossas ações
as algas já estão corretamente sendo utilizadas para produzir leite
e o leite de vaca já está sendo corretamente utilizado para manter ainda algum equilíbrio nos oceanos
Aqueles chupa-cabras que resultaram das pesquisas infrutíferas com morcegos
estão soltos mas só matam imbecis
e o melhor é que mantêm alguns outros imbecis ocupados tentando desvendar
o mistério dos chupas-cabras
Tudo geoprocessado
O mundo inteiro na palma de um lap-top
Um banco de dados de tudo o possível e da utilização para o tudo possível
Semana que vem devem falar nos jornais sobre a descoberta de novos anfíbios na Amazônia
Não estranhe se surgir uma nova tecnologia para lisérgicos,
anticoagulantes, esmaltes de unha, monitores de computador
e excitantes sexuais logo em seguida
Há muito que os índios que domesticamos estão nos ensinando coisas
que até mesmo os mais céticos ficariam estarrecidos
Tudo em prol de que vivas eternamente, ó venerável amado meu
Toda a vida a ti
Que a ti é o destino de decidir sobre a morte, ó Imperial
Sátira liberal-democrata-cristã-progressista-nacionalista, Sra. Roseana Yeyê Crucru:
Damo-nos inteiras a ti, ó amado meu
Nossos corpos, nossas mentes, nossa força de trabalho e o suor dos nossos rabos
Nossos rabos inclusive
Pois que há mulheres que lutam por ti também ó grande amado
Já convencemos as miseráveis miseráveis a não cederem à tentação de quererem
ser donas de seus próprios corpos
Há uma campanha já em curso
feita às escuras em salas com homens vestidos de terno preto em prédios de grandes emissoras de tv
para que a educação sentimental da classe média nacional possa ser
devidamente conduzida até o estado cativo novamente de nossas mulheres
Uma chupeta a qualquer hora para ti!
Bastam os dólares americanos, ou euros e os ienes
Rublos não, pois que de máfia já basta o que estamos fazendo com a agricultura
Aviso a ti, senhor do falo de ouro,
de Norte a Sul deste vasto mar de terras luso-americanas
estamos a vender tudo para que tu possas nos enterrar de cifras mirabolantes
Lindo!
Amado!
Deus!
[…]
2611. BIC nova
Medita na letra
e me dita depois
se boa a caneta…
2609. sequestro consentido
…e a raptora
manteve-me
em cativeiro
alimentando-me
apenas com
sushis, espumante,
vinho tinto e cafuné,
libertando-me
somente depois
que eu prometi
deixar-me por ela
sempre ser
sequestrado…
2608.
BOA HORA – Alessandra Leão by caçapa
juntos
vir, mesmo ir.
sós sempre
juntadamente.
junto a gente,
uma promessa
pressuposta
antes mesmo
da ida ou
da vinda,
só que certa,
só certa,
sossegada:
a gente junto
sem jeito
só dando um
jeito de ir e vir
por um bom
tempo:
fora e
dentro
sós e juntos
juntando
o possível
em idas e vindas –
intransponível –
porque juntos.
cada qual
sempre só,
mas no
instante do dentro
e na
angústia do fora
bem, todos,
belamente,
intensamente,
juntos.
2607. Ganho imenso
deve ser a própria imensidão que se ganha:
a vastidão do mundo na palma de uma mão
em carinho às costas e deslize em todos os
recônditos do corpo, navegando pelos pelos,
eriçando bicos de seios, arranhando em jeito,
batendo com doçura agressiva durante o eito
marcando o corpo para que pelo resto do dia
fique a lembrança do gosto do ganho da palma
de uma mão em encontro a um quisto corpo
de desejo
2606. Dez envolvimentos para uma sustentável idade da Terra
Cuidar
Saber
Diversificar
Empoderar
Respeitar
Amar
Dividir
Mudar
Melhorar
Acordar
2605.
sem grandes grilos
sabe isso que destina?
deu morte, lua e temperança:
dispersão ilusória aprisionada
a gente vai ficar assim
segregados num segredo
tentando romper sinas
e decifrando todo sinal
no sem começo dum éter no retorno
e aí, topa desafiar a sorte?
2604. Sitting at the roadside
precisa acabar
de uma vez
por todas
com tudo isso
sim, você é
só mesma
só somos
desde sempre
sombras em
cavernas
esperando sentadas
a luz de algum
caminho
lentamente
amém
2603. In our solitude
Nina me nina
com a sua
tão minha
tão nossa
2602. Ai, quase…
será que
além de
existo lá?
2601. Para-paisagens
dar-lhes-ei um horizonte
da vista essa ponte
entre o aqui
e o infinito do além longe
2600. Sabedoria
sabe quando a dor ia
se jogar e afogar
lá no mar da
bahia?
sabe quando poderia?
2599.
“quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos”
quero as cores
que me caibam
as flores
2598. Levante de Catira
A todos que aqui estão
A todos preste atenção
A viola acompanha
O baque dos pé e das mão
Nossa festa é tão alegre
Cheia de boiadeiro e peão
Viemos fazer as honras
Cantando nos pé e nas mão
Ai linda flor do cerrado
Viemos fazer menção
Da sua beleza florida
Batendo os pé e as mão
Senhoras as boas noites
Senhores sigam o refrão
E assim vamos cantando
Dançando os pé e as mão
Vai chegando a hora tarde
De ir-se em louvação
E assim nós vamos indo
Louvando com os pé e com as mão