3846.

Acende-me a alma: algo como diluir-te alcoólica,
abre-me as mãos: toda a extensão do calor frio,
e refletindo a acústica da tua bahia ir-te,
hirto em lábios moles a tua presença, morena
(que entra pelos sete mil buracos da minha derme
e não paralisa).
Junto tuas peças, colo os teus cacos, e vejo-te
geometria de rosas a pender de cachos com filtros,
costura-me bilro e macramês o peito em floresta,
e a mente ainda se dará às almofadas do teu colo
e espalhado entre as águas dos teus vãos
empunharei o sabor das tuas palavras em minha boca.

3843. do poema da meia esfera da vida

o poema da meia esfera da vida
deveria ser escrito em castelhano, já adianto
mas tenhamos nossas impressões
com as sinapses à lusitana mesmo

o poema da meia esfera da vida
nos fala dum movimento, não fala de

poderia ser tido em um quarto,
um quinto, um cêntimo
ou num sentimento
até mesmo num milésimo

o poema da meia esfera da vida
se encaixa tal e qual
em toda vida de qualquer vivente

se a esfera completa se efetivasse
junto a trinta distâncias do sol
o poema da meia esfera da vida
deveria ser lido
à sombra de quinze translações

ainda que o poema da meia esfera da vida
seja para sempre e sem direção
tendo qualquer exemplar
da tecitura humana
a paixão por lê-lo
ele é mais que um marco,
é uma passagem, um portal

o poema da meia esfera da vida
poderia marcar apenas um azimute no céu
mas poderia mesmo ser um poente
fechando o horizonte em curva
ao nascer de uma longa noite numa vida
ou quem sabe ser nascente de cachos dourados
a uma vida que até a meia esfera da vida
estivesse apenas na escuridão

o poema da meia esfera da vida
nunca foi escrito,
há uma conta magnética
que deve ser feita antes
e uma reza secreta que deve ser rezada
transliterada do egípcio ao igbo

o poema da meia esfera da vida
possui uma estrofe muito estranha
que começa com a saudação
“uma dedicatória a Juan…”
e termina com um mote e uma glosa
“perto do coração selvagem”

o poema da meia esfera da vida
não se combina e não fala da história
de uma meia esfera de uma vida
e nem do futuro em que se circundará

o poema da meia esfera da vida
possui uma trilha sonora afro-peruana
e apenas incendeia o peito de quem
percorre a meia esfera da vida

ele,
o poema da meia esfera da vida
que nunca será feito

3831. Gazal efêmero

Os ipês com suas folhas belas
prontos a logo mais perdê-las

desnudados pelo céu azul anunciado
logo o vento de maio irá vê-las

esparramadas pelo chão vermelho
até que junho adentre em tê-las

Amarelo, violáceo, rosa ou branco
o cacho em cores ao dia candeia

os tons dos céus aos fins dos dias
repetem as flores ao procedê-las

Mas algo assim não se vivencia
só na selfie e na postagem tateia

A comida dos olhos para a alma
já não basta em si de si ser plena

é preciso o registro efêmero
como transitória é a vida ao sê-la

sem se viver do que é feita
resta o mero de uma imagem dela

E por tanto diluir o que o peito
queria concentrar até nas veias

o belo, a flor, a cor, a forma
viram algo de matéria etérea

Foi só um momento, um clique
um close, que quase pensou-se tê-la

3830. Duas Reginas

A casa era grande
espaçosa, ampla, arejada
a viola era o fetiche
o curral e a vida simples
dali eram antítese
bucolismo ostentação

para poucos
para poucas

e Regina conduzia
o álcool, a festa, a folia

Mas a outra ali,
Regina também
de um lado pra outro
lavava, lavava, lavava
rodo sustentação
– parou um tanto
olhou de beira
cantarolou a moda

E Regina, a dona
olhou fulminante
cantarolou a moda
e tomou mais um gole:

“Toca aquela do Jorge e Mateus”

3824.

“Não posso terminar com o Júlio
pra ficar com você, Matheus”
– eu supunha que era assim que se escrevia –
“Eu tô grávida do Júlio…”

Enquanto esperava o temporal se afastar
para o rumo daquela casa que já fora a minha,
sentado à deriva na estação do metrô
rumo a mais um lar temporário,
escutava a moça falando ao celular.

Isso sim era um problema.

Quase toda chuva me deprime
e isso não é de hoje
e quase tudo me toma em lentidão tanta
que a pressa se chama caravela.

Acho que a chuva passou,
ainda escuto os murmúrios abafados
da moça ao lado no celular.

A vida se descortina ampla.

Eu não tenho problemas, eu sou um.

O celular dela vai descarregar,
isso é um problema.

E nós dois choramos.

3823. idiota

os lentos verões as noites de frio
todo o contorno percorrido pelas mãos
as manhãs solitárias
eternas

não as de agora nem as de ontem nem as de antes
as minhas manhãs

o super-mercado a fila o chuchu
minha voz sendo ouvida pelo vento

uma animalidade bestial desejante
o não
e o sono
uma passionalidade amante
o sonho

construí grades de mentiras
frágeis como bolhas de sabão
construí grades de bolhas de sabão

os anos aconteceram juntos ao amor
e minha sinceridade crepuscular
só me permitiu ser amável
mas amor só acontecerá na noite

eterna

minha inteligibilidade beira o caos
mas o caos não ama não deseja

talvez eu seja um monstro

me lembro dos detalhes
eles não sairão da cabeça
só se ofuscarão com o crepúsculo

depois das miragens há de vir uma manhã
eu irei a super-mercados filas chuchu
o amor explodirá e eu virarei objetos
com histórias ouvidas pelo vento

na crepusculante manhã de amanhã
eterna solitária
grades de bolhas de terra
onde não mais acontecerei

não sou um monstro só um idiota