Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
já houve quem quisesse
preservar os sons dessa cidade
como se patrimônio os
caminhões rompendo o asfalto estatelado
ou se o papo preconcebido global
tias tios nas calçadas
fosse memória
a não ser implodida pelo tempo
tudo é memória a ser implodida pelo tempo
tudo é passável e permeável
tudo é som sucumbindo ao ar
tudo é possível e passível
tudo é passado a todo segundo
tudo é posse do fim
tudo é rompimento do futuro
tudo é presentemente preconcepção
tudo é calçamento asfáltico no globo
tudo é memória
tudo é implosição-momento
desde antes de tudo que não era som nem silêncio e era já
Nasci numa manhã cinza de julho, com o frio balançando os meus longos cabelos lisos da cor de mel puro de flor da mata virgem. Nasci frio e rosa, com tranças que mediam seis metros cada uma das cinco e da cor de mel puro. Nasci com a cabeça em fogo brando numa manhã pouco rosa e cinza com o frio a balançar minhas cinco tranças de seis metros cada. Minha cabeça reduzia a três.
Nasci expelido do umbigo do meu pai. Minha mãe que me pusera lá. Capivara-cavala-marinha-do-rio. Pai-potro-das-praias. Nasci com dois metros a mais que minhas tranças e com espadas. Meu corpo se reduzia ao infinito em pé.
Meu pai perguntou-me enquanto eu dormia se queria mamar. Sonhei um vasto mar de leite de coco e um homem baixinho e carrancudo de terno, camisa e gravata pretos me pedia dinheiro para mamar nas pedras que saíam da areia e jorravam leite de coco. Cortei a cabeça dele com uma espada que tinha no bolso e o joguei no mar de leite de coco e o leite de coco ficou verde-brejo-vereda e eu vi sua cabeça falar dinheiro, dinheiro.
Acordei com fome dentro de outro sonho e minha mãe costurava minhas tranças que eram cinco e mediam seis metros cada com uma linha grossa e branca. E meu cabelo da cor de mel puro ficou branco. E minha pele que cobria o infinito em pé do meu corpo ficou branca e tudo ficou branco. E minha mãe que costurava os fios brancos no meu branco todo era azul-vidro-leitoso e transparente, espelhada. Minha mãe-peixa-gente.
Quando acordei nesse sonho já não era mais sonho, era só continuação dos dois no céu azul bem limpo que já não era mais de julho, mas de um tempo que viria ainda, como num sonho. Minha cabeça pesava quatrocentos e setenta e um milhos brancos. Minha cabeça reduzia a três. Era uma cabeça com três tranças brancas e meu corpo era branco e minhas costas cortavam pontos vermelhos como fogo em brasa de fogueiras de junho e o tempo que viria era esse, o próximo junho antes do frio que viria.
Minha mãe era minha avó e eram uma peixa-voadora que dava melado de beterraba com mel e eu comia bem devagar para não sujar meu corpo branco e no topo da minha moleira branca, círculos brancos de giz branco foram pintados por meu pai-potro-alado-do-firmamento que morava dentro de um caracol. E minha cabeça-moleira já não tinha mais tranças, era lisa e branca e circular como a lua cheia no meio da noite de junho que viria quando o sol se bastasse mais uma vez no mesmo ponto à mesma altura a iluminar minha cabeça e a lua no que viria a ser. Aquele momento em que estava.
E eu nasci de novo ali. Debaixo de um pé de boldo, os pés limpos de azul-verde do rio que cai no mar cheio de peixas e peixes que viram gente quando pulam pra fora dele pra ver o que tem no além do líquido do mundo, as costas em brasa com pingos cinco em cinco de um vermelho bem ajustados no meio da massa branca de tabatinga que meu corpo moldava.
Nasci de novo numa tarde cinza de julho com o vento frio balançando minha careca e a linha do céu pegando fogo enquanto a noite, lençol negro, cobria a terra com um alento gelado e calmo. Em paz.
não seriam os ramos dourados
mimese mágica
totens desabando tábuas
tábulas fábulas alquímicas
mas sim pegadas entrópicas
intertropicais clareiras
savânicas
iansânicas
sônicas
rasgos dourados de luz
em cachos rizomáticos
no inteiro do céu
no avolumado do azul mais que negro
é que há vento
no sem fim de sentidos
do firmamento
porto cósmico para aquele
em que não há centro
e há essa voz que vem de dentro
e diz
trovoa suave enquanto há
raios dourados
no azul mais que negro do céu
dê pausa. Da matéria, na matéria. Pare para respirar sempre. Toda pedra respira, poro a poro, pó.
O que aterroriza os passos noturnos não é a matéria disforme escuramente unida, contornos só contornos e a visão se conturbando entre o que era quando aos olhos cerrados e o agora, tudo aberto e ainda fechado, pés tortuosamente pisando o frio, mas a profundidade de onde se estava dentro antes de pisar no chão, aquela substância plasticamente adornada dentro da moleira baqueada numa “noite original cósmica que performava a alma bem antes da existência da consciência do ego”, como diria Carl, enquanto Karl lutava contra os fumos do ópio.
Não sabemos quando foi o encontro, se no tonal ou se no nagual. Se entre guerras ou sonhos, jês ou tupis. Mas foi assim, num estado de real e de além real, ainda real. As brechas são infinitas, as falhas na matriz não se computam, e tudo estava turvo e cabulosamente atolado de matéria onírica. Onironautas que somos, nos atrevemos, barcarola do São Francisco, enfrentando o mar. Não nos transpomos, mas enfrentamos a transposição:
TEMPO
O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória.
O fluxo onda ser
impede qualquer flor
de reinventar-se em
flor repetida.
O fluxo destrona
qualquer flor
de seu agora vivo
e a torna em sono.
O universofluxo
repele
entre as flores estes
cantosfloresvidas.
– Mas eis que a palavra
cantoflorvivência
re-nascendo perpétua
obriga o fluxo
cavalga o fluxo num milagre
de vida.
E sequer sabíamos da nossa existência. E era apenas o começo da empreita, por isso percorremos diluidamente o fluxo da vida, lendo. Eu, meu duplo e ela:
PEDRA
A pedra é transparente:
o silêncio se vê
em sua densidade.
(Clara textura e verbo
definitivo e íntegro
a pedra silencia).
O verbo é transparente:
o silêncio o contém
em pura eternidade.
Mas precisávamos de um ponto comum, afinal, não sabíamos se estávamos em estado de alerta, de guerra, de sítio, (
STOP
Estado de sítio
estado de sido
estase.
) vegetativo ou lírico. Faltava uma definição que nos conduzisse ao termo definitivo, se infinito ou se fictício. A vida era dura nos dias que formulavam o mapa de onde se dava os termos do encontro. E o sonho, ou os pés gelados atravessando o corredor, às vezes pausavam diante da luz de um abajur – não era lilás –, 22:35, depois de escovar os dentes e tudo parecer que ainda era real e não tinha fibra de luz alguma emanando teias e conformado as coisas em espirais caoticamente controláveis. A realidade existia ainda:
TATO
Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.
Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.
E era nessa hora que nosso peito inflava de gás carbônico, mezzo pimenta, mezzo lacrimogêneo, mezzo silenciamento. E nessas noites não sonhávamos, apenas amanhecíamos com cara de tormenta e pedíamos que nunca, jamais, temêssemos e que mantivéssemos os nossos ódios acesos, claros e salgados, pesando uma tonelada, cabendo em um olho, com diria Mano. E sabíamos que tudo seria
DESAFIO
Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.
E era um jardim cabuloso. E se fosse rio seria caudaloso. E se fosse sonho, como era, só, então realidade.
Mas eram tempos definitivamente carentes, esquecemos de dizer, e cada glória era uma aleluia e um milagre, mil lágrimas, derretidas, inadvertidamente, diamantes, apenas de dia, nunca amantes. Tudo cortava, tudo ruía, tudo rugia, tudo rangia: nossos ossos entrevados, nossa musculatura tensa e tesa e nunca um tesão tão aflito havia sido posto em prática. E nós três, sem falo, flacidamente como ácidos, berrávamos. Não havia
FALA
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
E foi aí que entendemos que se tratava da lucidez. Não daquela, nem daquilo. O fato consumido, motor da saudade. Era o tapa na cara, a realidade. Não havia mais entregas que não as rugas na cara, os calos nas mãos, o humor ferino, a lentidão, a brincadeira, a imortalidade. E não esquecíamos de Carl: “O sonho descreve a situação íntima do sonhador, situação que o consciente não quer tomar em consideração ou cuja verdade ou realidade aceita a contragosto”. E não aceitávamos nada da realidade.
Certo dia estávamos em plena Rodoviária, sol à pino, antes da chegada dela, éramos só eu e meu duplo. Já prevíamos, mas daí ela chegou e se encostou, novamente, como se nos transpuséssemos para a Rodoviária novamente bem ao
MEIO-DIA
Ao meio-dia a vida
é impossível.
A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.
A luz é demais para ao homens.
(Porém como o sabereis
quando vieste à luz
de ti mesmo?)
Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível.
E contemplamos, tremendo, do patamar superior, a vida se impossibilitando. Nenhum entretanto. Um marmitex de dez reais no seco ou dois x-tudo com dois copos de refri. Não podíamos mais fazer muita coisa a não ser ver o vai e vem de tudo, até o estalo para o trabalho e manada, gado, rês, nos pusemos em marcha. Sabedores, saboreadoras, de cada minúsculo ponto que vai, só indo, átomos de dinossauros em dispersão, até dar no Sol novamente, senhor de si, senhora de se expandir, infinita. Meramente nossa
HERANÇA
O que o tempo descura
e que transfixa
o que o tempo transmite
e subverte
o que o tempo desmente
e mitifica.
E findo o dia, a volta ao lar, depois da lida, nos lançávamos nos vagões, nós três, intrépidas, no último carro. Era sempre como uma carruagem girando numa roda da fortuna falha, moinho de vento em doses de ventania em cima de uma torre, desmoronando, no sentido da noite que nos consumiria ainda envoltas no
NOTURNO
O silêncio sem cor nem peso
(vacuidade) sustenta
agudas sementes – júbilo –
da lucidez nunca
extinta.
Grandes estrelas fixas.
que tão pouco durava e que ainda se abria ao infinito: uma canjica amarela bem cozida, ciganas descendo uma escada ao nosso encontro, um grande catalizador de raios cósmicos sugando a porra toda e um avião desmoronando junto ao céu, mais uma vez. E logo o celular tocava e nos levantávamos e dormíamos acordados com os dentes brilhando e ainda um bafo quente e impiedoso: duas, três horas de sono? Cinco anos de sonhos aprisionados e a vida inteira por vir. Era por isso que a vida só valia sendo vivida sem
AFORISMOS
Matar o pássaro eterniza
o silêncio
matar a luz elimina
o limite
matar o amor instaura
a liberdade.
Daí matamos foi tudo logo: o pássaro, a luz, o silêncio, o limite, o amor e até a porra da liberdade. E agora estamos aí, tendo lido pela segunda vez esse livro dela, duas uniões a menos no mundo, ou três, ou quatro, ou cinco ou quem sabe vinte e seis. E me lembro que antes de matar tudo eu até mandei pra ela, não para ela, mas para ela, uns
LEMBRETES
É importante acordar
a tempo
é importante penetrar
o tempo
é importante vigiar
o desabrochar do destino.
E foi até meio que lindo, porque foi antes da morte. E aí agora sabemos bem qual é a fronteira do sonho, do sono e da surra. Eu ando leve, meu duplo urra e ela continua morta, na sua, retumbando aqui dentro como nunca, contando-me apenas algumas
MENSAGENS
A cor
alada: borboleta
ou pétala?
Fresca asa per
passa
as mãos
abertas.
Sussurro
orelha caramujo
antena
os cabelos
ao vento.
Tudo tão leve e fácil, que mais crível que ela própria, é a quimera, própria d
O ANTIPÁSSARO
Um pássaro
seu ninho é pedra
seu grito
metal cinza
dói no espaço
seu olho.
Um pássaro
pesa
e caça
entre lixo
e tédio.
Um pássaro
resiste aos
céus. E perdura
Apesar.
E é por isso que agora, ante a seca que se avizinha, me deixo banhar n
O AGUADEIRO
Derramar um
cântaro
um canto
deixar fluir
o novíssimo encanto.
E ela, não ela, tampouco ela, me disse que entre os espaços dos versos dela, parecia que propositadamente havia um território todo a se ocupar. E foi aí que eu compus essa canção e o caos da época gravou.
Acende-me a alma: algo como diluir-te alcoólica,
abre-me as mãos: toda a extensão do calor frio,
e refletindo a acústica da tua bahia ir-te,
hirto em lábios moles a tua presença, morena
(que entra pelos sete mil buracos da minha derme
e não paralisa).
Junto tuas peças, colo os teus cacos, e vejo-te
geometria de rosas a pender de cachos com filtros,
costura-me bilro e macramês o peito em floresta,
e a mente ainda se dará às almofadas do teu colo
e espalhado entre as águas dos teus vãos
empunharei o sabor das tuas palavras em minha boca.
o poema da meia esfera da vida
deveria ser escrito em castelhano, já adianto
mas tenhamos nossas impressões
com as sinapses à lusitana mesmo
o poema da meia esfera da vida
nos fala dum movimento, não fala de
poderia ser tido em um quarto,
um quinto, um cêntimo
ou num sentimento
até mesmo num milésimo
o poema da meia esfera da vida
se encaixa tal e qual
em toda vida de qualquer vivente
se a esfera completa se efetivasse
junto a trinta distâncias do sol
o poema da meia esfera da vida
deveria ser lido
à sombra de quinze translações
ainda que o poema da meia esfera da vida
seja para sempre e sem direção
tendo qualquer exemplar
da tecitura humana
a paixão por lê-lo
ele é mais que um marco,
é uma passagem, um portal
o poema da meia esfera da vida
poderia marcar apenas um azimute no céu
mas poderia mesmo ser um poente
fechando o horizonte em curva
ao nascer de uma longa noite numa vida
ou quem sabe ser nascente de cachos dourados
a uma vida que até a meia esfera da vida
estivesse apenas na escuridão
o poema da meia esfera da vida
nunca foi escrito,
há uma conta magnética
que deve ser feita antes
e uma reza secreta que deve ser rezada
transliterada do egípcio ao igbo
o poema da meia esfera da vida
possui uma estrofe muito estranha
que começa com a saudação
“uma dedicatória a Juan…”
e termina com um mote e uma glosa
“perto do coração selvagem”
o poema da meia esfera da vida
não se combina e não fala da história
de uma meia esfera de uma vida
e nem do futuro em que se circundará
o poema da meia esfera da vida
possui uma trilha sonora afro-peruana
e apenas incendeia o peito de quem
percorre a meia esfera da vida
ele,
o poema da meia esfera da vida
que nunca será feito
O sorriso das violetas na cozinha de manhã, enquanto olhava Baltasar se levantar do sofá com sofreguidão. O corpo de Baltasar era turbulento, melhor, era turvo e lento. A marca do cassetete que lhe deram às costas mostrava o porquê. Eu estava à mesa e conseguia ver os dois movimentos, a vagarosa dor de Baltasar e a explosão inerte das violetas.
Outro movimento pescou minha atenção, Relâmpago, o gato, me encarou só com um olho escondendo-se detrás da parede. Queria brincar, certamente. Só levei a caneca de café à boca, tampando meus olhos, para que Relâmpago não os buscasse mais e entendesse a mensagem.
Minhas pernas doíam, não sei por quanto tempo eu correra, em vários momentos eu sequer sabia para onde eu corria, só corria, em meio ao gás e ao estampido dos cascos dos cavalos estrangulando o chão.
Minhas costas estão doendo muito, disse Baltasar me fitando com uma cara de dor real. Senta, toma um café, se pá a gente cola num hospital pra ver isso daí, vai que quebrou algo.
Ele se sentou, mal conseguiu encostar na cadeira. Devia estar doendo pra caralho. Eu olhei para as violetas, elas realmente estavam lindas refletindo seus tons pelo alucinado da luz daquela manhã, que seria uma das mais belas já vistas: tudo ali na medida certa de luz e precisão, até o quadrante da janela arrebentava a barra do cosmético e se alicerçava esteticamente como amplidão a ser alcançada. Que manhã.
Tem açúcar? Baltasar só gostava de café com açúcar. Você sabe que tem e sabe onde está. Porra, pra que a grosseria, já não basta essa dor? Você sabe que não é grosseria, é apenas acordar, ainda mais com essa beleza toda em volta, não sei pra quê isso, nessas horas que duvido mesmo de Deus.
Baltasar me olhou com sarcasmo, ele era ateu convicto. Pegou o açúcar, colocou no café duas colheres bem cheias, com certeza o seu índice de glicose devia ser altíssimo. Contemplei-o com curiosidade por algum tempo, ele era feio, mas mesmo assim, naquele manhã, parecia que ele ornava ainda mais o ao redor.
Posso fumar um cigarro?
Fulminei-o com um olhar, ele correu torto à sua pochete, tirou um cigarro de filtro amarelo qualquer e o acendeu. Foi até a janela e ficou fumando enquanto bebia o que eu só conseguia imaginar ser uma caramelo travestido de café.
Vou meditar quinze minutinhos no quarto e já saímos, firmeza? Essa manhã está foda. Acho que dá pra organizar a mente um tanto.
Baltasar só aquiesceu com a cabeça. Entrei no quarto e fechei a porta, sentei-me em lótus diante da janela. Que imensidão, quanto horizonte, quanta luz! Maravilhei-me uns instantes antes de apagar a mente. Antes de estar ali e só ali. Relâmpago roçou as minhas costas. Levantei-me tentando controlar alguma irritação e tirei o gato do quarto. Baltasar pegou-o do lado de fora e começou a coçar-lhe a barriga. Voltei para dentro. Dentro.
A concentração estava difícil, muita coisa na cabeça, Baltasar e o cigarro lá fora, o mundo ruindo mais lá fora ainda, meus olhos ardendo por conta do gás, queimavam irritantemente, minhas pernas doendo. O que faríamos hoje? E amanhã? E depois? A revolução? Que revolução? Voltei novamente para dentro e corri a apagar, diluir, calmamente, sem força, o que arfava. Não era difícil, não precisava lutar, era só deixar as coisas se dissiparem. Algum barulho intenso houve lá fora, estranhei e não me atemorizei, voltei para aqui, agora. Presente.
Não sei quanto tempo fiquei ali, mas quando despertei, estava bem, sentindo-me com disposição. Abri a porta, saí do quarto e respirei fundo, feliz.
E então, Baltasar, partiu ver de qual é na suas costas?
Baltasar não respondeu. Olhei para os lados e nada. Andei para a sala e vi a porta aberta. No corredor do lado de fora, um rastro de sangue no chão até o elevador e Relâmpago cheirando curiosamente aquilo. A tia estranha do apartamento da frente me olhou por detrás da porta entreaberta. Quando notou meus olhos cruzando com os dela bateu a porta assustada. Não entendi nada.
Baltasar, que porra é essa, balbuciei, enquanto todo o meu corpo tremia.
Olhei-o disfarçadamente, de soslaio. Desavisadamente. Não queria que percebesse meu interesse. Olhei seu semblante cansado, havia ainda aquele ar de tristeza, mas não era mais o mesmo de antes, aquele ar de tristeza infantil, bobo. Agora era um ar destruidor de tristeza. Essa nova tristeza lhe entumecia a masculinidade. Outrora sua tristeza o amolecia, dando um contorno flácido à sua constituição. Agora era algo bruto. Talvez essa tristeza houvesse se aglutinado a um certo rancor ou a uma mágoa e nesse momento se ajustava em torno de uma superfície árida, sem fluidez. Seu rosto estava desértico e até a cor lembrava areia, só que sem qualquer minúsculo cristal de quartzo a reverberar alguma luz.
Ele não havia reparado que eu o olhava. Estava longe, longe, léguas. Não tanto ali, eu dele e ele de mim, mas de qualquer coisa, parecia ausente. Levava uma lata de cerveja à boca mecanicamente, intercalando um gole e um trago num cigarro. Aflitivamente descompromissado e perdido. Provavelmente não ouvia a música, a banda, o show. Parecia que a única coisa que lhe acometia era aquela tristeza. Retumbante. Agressiva e longe. Descompassava os pés com um pretenso ritmo que não ouvia.
Parei a poucos metros dele, queria e não queria olhá-lo. Fazia muitos anos. Será que eu ainda fazia parte daquela tristeza? Certamente algum tanto, ninguém passa incólume por um amor. Será que ele ainda era ele? Certamente não mais algum tanto, os anos atravessam alma e pele.
O pouco das nuvens no céu desmanchavam-se esfumaçando os tons violáceos do horizonte. Um frio outonal apavorava os meus ossos e o casaquinho verde de linha pouco me bastava. Um tremor percorreu minha espinha, talvez pelo vento, talvez porque pensei que os olhos dele me buscavam. Virei de costas e andei. Não queria beber, mas o impulso me conduziu a comprar uma cerveja.
Demorei delicadamente em cada ato: num tom alegre e de intimidade perguntei qual cerveja ela tinha, indecidi-me, pedi a de sempre, quanto é, mais barato, vai? sei, entendo. Abri a bolsinha de moedas com estampa da Índia. Ele que havia me dado. Quantos anos… Que bolsa boa. Paguei, abri minha cerveja e bebi, lentamente, quando me virei, ele não estava mais lá.
Minha mente se acalmou por não mais vê-lo, mas aquela sombra de que agora era ele que poderia estar me observando me arruinava a naturalidade. Media cado ato meu, minuciosamente, na intenção de que, se ele estivesse a me olhar, visse apenas o ondular da leveza que existe e insiste apenas em ser verdadeira. Havia um desejo secreto em mim de que ele ficasse mais triste ao contemplar a minha altivez genuína.
Mas, inadvertidamente, eu ainda o procurava nos cantos, de esguelha, percorrendo cada rosto na multidão. Não o encontrei. A poucos metros, avistei Rebeca, fui até ela e por lá fiquei, ainda catando rostos ao longe, sem vê-lo em canto algum. No fim do show peguei o carro sozinha, não dei carona pra ninguém. Numa calçada mais à frente foi que o avistei de novo, caminhando no meio da noite, sozinho, ainda com aquela novidade de tristeza. De fato eu já não o conhecia mais, podia ser qualquer pessoa agora. Certamente, era. Parei num semáforo, ele ficou quase ao meu lado. Não se virou, apenas continuou caminhando, suspirando profundamente, olhar fixo no horizonte adiante.
Alguém atrás buzinou pra mim, o semáforo ficara verde e eu não havia saído. Caí em mim e parti, ainda a tempo de vê-lo mais uma vez. Muito tempo se passara. Era apenas um desconhecido no meio do noite, indo do nada pra lugar algum.
Não sei a idade da Terra,
tanto menos, a de Olorum.
Sei que sou feito desse tempo,
que faz o tamanho da Terra.
Não tanto como o tronco de Iroko,
nem da dimensão duma gameleira-branca
ou da largura dum baobá,
Essa cidade esparramada
que ninguém se sente
pertencendo
Essa cidade esparrada
cidade cilada
cheia de fantasmas
debaixo das estruturas armadas
Essa cidade estilhaçada
fragmento de várias
quadrada
cheia de reta, quadra,
quebra e quebrada
Essa cidade
desfuncionada
chega de luto.
chega de luta contra si.
a vida é plena e abundante.
problema?
problema é acabar com o racismo, a intolerância religiosa, o machismo, a desigualdade de gênero, as desigualdades sociais, a homofobia, a transfobia, o ódio que martela o coração que acha que sabe amar.