3019. Danação

Diante do diferente
deferi a diferença
devia discordar
deu-se disto a distância
doeu e desviou o doar
deu dó e desmedida
desvalia a despencar
desandou demais em
desdém doido desalinhado
dado a desdizer e desabar
disso desceu dor danada
deixou o dedo ao dom
da dúvida deu a devida
dívida demente e
de si danou a divisar…

3005. Teleologia da moral marginal

Todos os horizontes foram dilacerados
a última fronteira é inteira interna
a beira, o fora – há uma folga?
Quando você tenta ir à forra
o dentro jorra por dentro
e a noite é alta, tensa,
a calma mora longe
A sensação é dez vezes pior
existe um lamento, uma lamúria
se fosse uma floresta com frestas lumiadas
entre cada folha uma sensação de luz
até poderia fazer sentido o batuque incendiário
a festa
Farsa nenhuma chega aos pés
força alguma lhe demove da cama
são os rastros químicos e eletrônicos que ditam
a pulsação do que ainda pode ser enquadrado na categoria vida
e tome mais doses de imagens
mais tânatos de tons
além possibilidade de pequenas mortes
Seu veneno posto à mesa
seus tóxicos para a alma
Provérbios sábios e uma efusão mística destroçando a visão

Todos os horizontes foram dilacerados
e a luta é para conservar o casulo primeiro e último
recluso
Você cava trincheiras
mas o mal vem dos céus, das frases
de dentro
A esperança maior é por ânsia
por vontade, desejo e pulsão
Transtornando a expectativa em fim

Todos os horizontes foram dilacerados
a carne exposta, o corte
é qual cor de espelho
Corte a dor pela raiz
e ela brotará de novo
Calma, a culpa não é sua

3004. Se

se tivesse agora a pausa do riso
e as formas fossem essas do contorno
aprendido no tato e na língua

se pousada em mim a presença entrasse
com predicado de ser mesmo a eternidade
e ocupar todo o espaço bruto e leve

se debruçar no pescoço fosse então
o apelo único vigoroso arfar em sobressalto
passeando pausadamente até o baque

se tivesse você agora não em ideia
mas no todo das minhas mãos miúdas
elas se agigantariam desde todo o seu prazer
ao infinito da minha vontade

3002. Onironauta II

anunciavas as estrelas
detrás do cinza chumbo
que planava por debaixo do azul

e tu dizias que depois
dessa ilusão de céu
só havia escuridão
e eu comia essas palavras
como pudim de tapioca

a tua proposta era torta
decaída e rota
e eu mediava cada intensão
no intento da realidade:
o amor cabe nas mãos
ranzinza e risonho

agora vá
traz para mim o sem fim da bruma
em noite alta
e me afirma com a altivez
de conduta insana:
é só um encontro
entre a traição do desejo
e o atrito da felicidade

3001. Recorro ao descarrego pra retornar

Antigamente, bastava um rasgo de céu
e meu peito já se ampliava até o infinito
Um fresta de sol ou um pingo na testa
e tudo se carreava em descarga elétrica
lavando e levando o que havia por descarregar

Naquele tempo em que eu tinha ainda
o pouco de vida necessário para encantar

Foram naqueles dias em que o habitual
era a poesia no espelho a encarar

Quando todo ontem era viva marca do agora
e o todo inteiro do anseio do que virá

Antigamente, era preciso apenas uma carta
vinda de mala, mula, longe quilômetros
Para arrepiar a espinha e tornar a vida
coisa que valia, como se regar plantas
fosse o suficiente para cuidar

Tempo em que abrir um livro fazia sentido
e as histórias pautadas na páginas eram um ornar

Momento em que o sentido não era mero
desencantamento, poeira de quasar

Lonjura de tempo onde a mística do sol grosso
era só pra encosto e não pra remodelar

2999. Na cara

cabelo bem engomado
cheira creme rinse barato
bíblia debaixo do braço
saia comprida não mostra o fato
das coxas nem pouco bocado
rosto redondo, liso, marcado
segue a lida com fé
na velocidade de um fado
sustentada por um corpo cansado
ao sol na cara em pleno metrô lotado
anjo torto sem ser alado
redentora, salvadora do vosso ocaso

2998. Quem?

Corações destroçados
pelos sem-limites das possibilidades
readequando no peito
o hibridismo das alegorias
e o peso do real
a ditadura da alegria
e o charme da depressão
amores inflacionários
em franca crise
paixão fetiche
fica pastiche
entre a roda e o piche
avistado e tentado
em meio ao timbre eletrônico
e a cadência do repique
amor temerário do sem fim
depositário do humor
vira piada.

– Alguém sofrerá?

2984. Onironauta I

a ignição foi dada ainda sem transe
do tapa ao ar em questão de minutos
tudo flutuava dentro do som em
movimento
não sei em que hora fui além de dentro
e desabei tudo de uma cachoeira
quando dei por mim já estava lá
dentro do sonho
aqueles quadros derretidos não haviam
nem labirintos
faunos
nada
lá no sonho era escuro e claro
dois bocados diacrônicos
dei a mão comigo e fui até a floresta
que não havia
um grito longe se fez perto
gritei
e do lado houve o eco
na voz que vinha vi o reflexo
acordei em frente ao espelho
e na realidade tudo era escuro e claro
detrás de mim não havia nenhum fauno
saí do banheiro
atravessei o corredor
quando cheguei ao quarto e me vi lá
deitado
pensei que dormia
mas eu disse para mim: já acordei ainda ontem cedo
resolvi ficar por ali mesmo
o sonho estava por demais acordado

2982. Vá!

Quando o veneno da ansiedade
se mistura à saudade
e o devaneio da idade
diz ande logo, não tarde,
isso só se resolve
indo à fonte antes que acabe
e com a saciedade
de degustar tudo lento
parte por parte
com um quê grande de arte:

sem aparte, aperte,
entre, bata, jogue, abarque.

2980.

perdi as metáforas
pelo caminho real:
o gosto da pele
o tato com o toque, seda
aroma que entorpece
a ideia flui antes
que o corpo penetre
histórias pautadas
entre ofegantes manhãs
incidências confidentes
por quatro paredes

perdi as metáforas
ganhei esse pulsar

2979. d’amor

nada se avista
que não seja amor
nada que não seja

me transbordam pelos pêlos
os apelos da apatia
mas só me infiltra o amor
entre as partes
e antes mesmo delas

o amor me beira o caos
e forma a carne encefálica
penso amor e vibro cordas
me percorro amor em som
por todas as frestas
pelo corpo do que é vão

nada se avista que não o seja
– isso
o amor

é bom e me abarca
até o mundo abraça
o amor que avisto em tudo

se salva
se serve
se salga
não vale a saliva gasta
é amor em tudo
e de nem bastar
basta

2977. “É tipo uma pira, sabe?”

É preciso que a palavra
ganhe contornos na língua
e se lance pelo espaço
reverberada a bater tímpanos
senão uma densa camada de poeira
enterra sua boca,
senão cada ideia vira tato, tecla
e a dimensão do diálogo
acaba num sítio outro,
três linhas do resumo e
contando notícias entre parêntesis,
senão a misantropia
se associa à procrastinação
e o vago de falar,
vaga desconhecido,
na contemplação de paredes.