Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
O meu fogo em riste
Imagino a temperatura que me abarca: umidade e terra
O escondido da caverna
Mas eu sou todo sangue que ferve
Músculo
Rocha
Hasteando temporário
No ecúmeno da gruta
A bandeira vermelha flamulante
Vulcões e lava
A arrasar todo o relevo
Há um vale
Que tremula, arrepia tuas terras
O que me derrama
Te arremata e arrasta
Erode teus receios
Em vapores de enxofre e lavanda
Desce ao inferno
É qual o maná de todo sétimo céu
Jorros e mais jorros de néctar e fogo
Incessantes
Bruxas cozem poções passionais
Nessas brasas
E o que explode alcança o céu
Vai, navega meus caldais
Que existem
Borbulha em fluxo contínuo
Acende as tochas nessa caverna
Ilumina o teu contido
Sai das sombras
Queima
Em toques
… o magma…
Se até o google ganha
dinheiro com uma economia
das palavras, por que
não posso aspirar por
uma revolução semântica
que nos dê asas e faça
da glosa um mote assim
de artilharia metralhada?
sou do tamanho dos
meus átomos que se repetem
incansáveis desde o início
das eras:
luz, onda, negra matéria
inércia
esse momento todo cheio
coisa perene e etérea
dias ásperos
de espera
parca esperança
pedaços espalhados por cada parte
esparsados
esmigalhados
existências diluídas
em tantas gotas de sangue
em vários portos
unidades dissolvidas
misto de dor, degredo e desespero
banzo e distância
diáspora
desterro
bem na frente daquele
chumbo aquoso rasgado
em clarão partido
pendiam cachos roxos
dum ipê florido
nesse sítio improvável
para um junho já ido
um noroeste todo
a ser erguido
bairro bruto ornado
no barro ecológico
por fim construído
o sustentáculo
do chumbo que partirá
ares dos poucos
pulmões ali comprimidos
pelos tantos futuros
pés transeuntes automotivos
uma cilada à hora exata
em que pousa o ocaso
enternecido
resulta ali no meio
dos cachos, da chuva,
do roxo – tudo tão vívido
uma parte tanta
do meu ainda coração
já todo partido
no flow da passada
no moinho de vento
no martelo rodado
no tapa
na oralidade eletrônica
no mix devir
na flecha da ponto quarenta
o passado se conecta
moto perpétuo
não ressurge
o passado é
vapor pra cima
a treta é densa
ninguém saca porra de nada
a não ser quem tá dentro da parada
era chibata
era chicote
gás de pimenta é mote
cassetete
grade e cacete
sem exalar o olor das flores campestres
o esgoto corre podre pelas
beiras das senzalas
todas às favas, as favelas desencantadas
pelas sociologias de cafés e bistrôs
o bonde tá formado
corre mais quem tá no lodo
quem tá no asfalto não sabe do bote da cascavel
ou do bote da bura
ganha os ares em helicópteros
ganha as cifras e os cifrões
ganha a grana e a gama dos horizontes de expectativas
rouba futuros
oxalá ganhará artilharia antiaérea
na lata
na fuça
nas venta
assados no rolete
o quilombo é o front
nos lemos malês inteiros
a aldeia é o front
xavantes avante guerreiros
o banco é o alvo
a democracia participativa é o alvo
a comunicação é o alvo
liga nóis não
o xis da questão é o foco
é o alvo
você é o alvo
Chorar uma torrente
pra limpar os olhos
e encharcar as olheiras
lhas inexistindo cristalinas
chorar essa tormenta
anticiclônica e tropical
apenas para o encantado de um tremor nos ossos
dos ofícios artificiosos
essas margens desaguadas da falta de calor
uma das vestes do carinho
chorar copiosamente por dois dias
e três noites
por nada
só
pra.
duas árvores da vida perfilando os nós
macramê intrincado
e tu dizias que sabias da trama cada rumo
cada ponto, todo o labirinto
teci, fio a fio, o que pude
réplica passo a passo da revista
mas tu, onisciência plena,
refutava minha tecitura com borboletas azuis
ipês floridos e cachoeiras impávidas
tudo bem, eu não competia
nunca decaí em inveja ou tentação
essa miudeza tão boba
todo adorno da adoração deixo a ti
só quis ocupar o vago das mãos
não costurar o tudo dentro da minha presença
Como um enredo pra Rodrigo Campos,
duma distância vizinha,
a vista alumbra e não é lombra:
visível dança lenta,
longa pausa da mente
e o deslize num samba cadenciado
encadeado,
meus pés, seus pés, nossos passos.
Entre a hipótese crítica
e a hipocrisia na crista da onda cristã
nossa dança, preta e branca,
contas num colar pra lá e pra cá:
minha flecha e seu espelho,
nossa guia.
Explode o sol, as ondas fervem
despencam cifras, as trilhas caem
a terra treme, o mar avermelha
pardo.
Tudo arde, mas no caos acaso da cidade, eu e você,
dançamos na densidade.
suas pupilas mareadas
boiavam e não diziam nada
minhas papilas gustativas
só queriam provar suas lágrimas
e elas todas tímidas,
bem ao longe, assim caladas,
degustaram só silêncio
à deriva, separadas.
diante dessa falta de além
esse vazio imenso, imerso
coisa teofóbica intensa
você poderia me chamar
um nome qualquer, monossilábico
terminado em i ou m
construindo castelos
ou pequenas ocas de barro
para nesse ventre voltar
imerso entre líquidos amnióticos
terra e gozo
morada e mistério ainda que possa
uma certa carência
uma creta urgência
cratera, reentrância
essa sem importância
um cordeiro de jeová
sem quem salvará
um tanto horizonte
mero ponto, quiçá ponte
esse troço amorfo
forma de amor no mofo
uma metade de parte
sem todo, em marte
Me liga amor e me convida a andar pela urbe
só para termos impressões.
Só para abdicarmos da exatidão das horas
e vivermos horas que sejam
no infinito do mundo sem relógios.
Ali, naquela esquina, cresce um prédio amor.
Vamos nos deleitar no sem compromisso
de passar os olhos pela vastidão dos andares
murmurando pragas contra o loteamento dos céus.
Amor, me chama para fazer nada e ficar gastando,
deitados debaixo de uma mangueira
até querer levantar e ir olhar a velocidade.
Me invita a sentar na areia
de frente ao mar
de costa aos morros
e rodeados de brisa, bruma, vento e nós.
O mar no ar dançando as cordas dos seus cabelos
e ouriçando meus pelos.
A gente sentindo o tempo
até querer sentir a água nos pés.
Meu bem, a vida vem – invariável –,
mas mesmo assim variemos a missa,
voltemos a olhar para a história só pelo prazer:
você de saia e chapéu cloche
eu de fraque e cartola
num pique-nique à beira da lagoa,
imersos na contemplação de qualquer coisa…
longe a voz se faz
a mecânica tesa da acústica das fibras
que compõem os sentidos
percebe a vibração desde já
imagens turvam a vinda
turbilhonam bilhões de textos
fazem a voz dançar
derramam expectativas esparsadas
– esses espaços da espera
longe, há voz vindo
sorrindo em explosão
vibra desde lá já cá frações
– mesmo, já denunciava a primeira explosão:
os ecos longínquos lançados ao além,
existência urgente desde a grande
balbuciam grotescas conexões
os sentinelas de agora e essa voz que já se prevê
pois urra o fim versado no início
caminha pela vastidão árida do futuro
até a planície desde agora
perpassa lapso vindouro
eco sonhado
nos vales do passado
nos fossos abismais e nas fossas abissais
do tempo da existência:
o pretérito, como prisma a decompor a luz do ser
mas longe a voz se faz
pós escrito lido antes
reverbera no peito
posto isso, o prenúncio da voz que vem medita:
há o agora
limpando estrelas:
a derradeira lida, o único eito
são invisíveis
esses que teu medo enxerga e te faz correr
elas não existem
essas para as quais tu fechas o vidro
os órfãos de casas
as improprietárias das ruas
aquele que no teu íntimo pensas
em atear fogo para lhe dirimir a dor
elas são o teu incômodo
que te faz segurar mais forte a bolsa
a tua falta de culpa
são as que são sombras e sobras
do que tu dejetas
os inexistentes das calçadas
as que carregam 600 quilos de ferro
os bêbados que estão assim porque querem
todas craqueiras fantasmas
assombrações para o teu saque no caixa eletrônico
essa massa amorfa torturada
violada e volante
carne que sente
que se junta e se ajuda
na fome e na cólera
no riso e no gozo
no sangue e no suor
na loucura e na lombra
na vergonha e no que resta de esperança
qual tu,
tu que não vês nada que não caiba dentro das margens
da tua própria imagem
como Aquele Umbigo onipotente de Quem cria
quem há de dizer quem existe?
só o segredo da salvação
apocalipse 16 ronda a boca
há interesse, há alma
o mundo esqueceu e a página é morta
cada vida louca assaz louca restando grade
grande emaranhado para a salvação
do tamanho do corpo moído
três anos de reclusão inconclusos
para todo o sempre
amém.
Manejar as cordas que compõem a realidade
não é lida fácil depois que você cerrou as
portas que lhe conduziam à percepção.
O mundo fica rude, puro concreto,
armado.
Reflexo bestial.
A transcendência vira mero mixtape
e bricolagem de auto-ajuda.
E as cordas invisíveis que teiam o além
da realidade, viram forca.
O que religa lhe sufoca,
o horizonte ideal lhe afoga
e no fim você só quer que lhe afaguem o ego,
lhe lambam a glande e o clitóris.
É preciso, isso posto, uma paulada na cabeça
para que o além em você desça,
rodando tudo em si,
até que corda, corpo, ego se fundam no ar
e você vire vibração de um batuque sincopado
solto, girado.
Ela disse:
“não deixe que o arame farpado
de uma realidade cerque seus
olhos que anseiam por tocar
o encantamento do mundo”
e, por amor, fiz a cerca boiar
nesse mar feito em minhas retinas,
detidamente parado
qual duas lagoas de sal. Admirando,
antes de serem admiradas,
os passos maravilhosamente calmos
daquele largo senhor ao lado.
Tudo na velocidade de ficar.
Se você já viu tantos
discos-voadores assim,
não se preocupe;
seus genes não são especiais,
você não é o escolhido,
não é louca
e nem usa psicotrópicos,
é só que você ganha
tempo demais fitando
a vastidão das alturas.
É aquele charme
de tristeza nublada
um ar de filme noir
soma um jogo
complexo de reflexos
(as horas vermelhas
inversas, versam melhor
percorrendo a face)
É um rosto fosso fosco
e ermos olhos de
sertão desolado
O semblante agreste árido
os vidros que mosaicam
como a calmaria
de um açude parado:
verde musgo barro
pincelado de nuvens,
o momento mesmo
daquele charme
Água-chão salobra
esse rosto moreno
que chama e chora
escorrendo pelo vidro,
vermelhas, as horas
o dia acordado na pressa de uma página virada
e um parágrafo lido lentamente
com aquela voz na cabeça aos sussurros
foi antes do sonho
como as manhãs que não acontecem nunca
caladas na pausa do sonho, na entidade desperta do dia,
premendo contra o corpo, gravidade, céu
os talhos inertes na boca e a força
pra romper a manhã adiada
consumindo riso em dentes laminosos
o sorriso do sol brotando breve entre uma chuva longe
seus dentes luminosos rasgando a brevidade
da pausa do sonho, afiada luz
durante o dia
durando marcha lenta, abafada, o estampido dos vagões
cada um dragões dentro do seu dia, peito e fígado
todo um jorge, lança e cavalo, simbiótico
chuva longe, agora dentro, légua de mar nos olhos
faz-te bruma, brilha breve um bem-estar
estando como todos, lado a lado, na plataforma, arrepia a espinha
o bolso chia, corredores e pátios longos, o fim longe
aquela voz sussurra na cabeça a brevidade até o próximo sonho
e lá no infinito, um sorriso brota
Como dizer aquela palavra
que cale doce e fruta aberta,
diamante de romã ou pérola de poncã.
Como a polissemia de uma uva única
explodindo plena na boca.
Esse teu gosto todo de cheiro e cor.
E o tato na língua.
Houve um tempo em que tudo era o norte,
aquele lugar em que a vastidão do horizonte
pulsava nas veias
e o sem limite do céu se mirava como meta.
Era uma ânsia pelo inesperado
envolvida em súplicas por mais.
Onde não calhava aquele vislumbre de que
o enraizado é parte para o infinito
e que o sólido – que, sim, desmancha no ar –
é arte vivida no aqui e parte pura para partir ao além.
Certo que foi você quem abriu a porta
e de dentro do real deu a deixa certa;
que ao entrar na casa, minha, nossa,
a vastidão se faria em cada cômodo
e mesmo em cima da cômoda,
na escolha do pano de prato estaria ali
– estampa e essência –
uma existência plena, aberta, quimérica, real;
o não lugar mais heterotópico possível:
o amor vívido de dentro do nosso lar.