4111. ventolalia

são milhares de vozes
que se fazem

e te dizem quem tu és
ou que te dizem tu és
ou que te dizem tu deverias
ou que te dizem tu serás
ou que te dizem tu fostes
ou que te dizem o quê
ou que te dizem sem dizer o que te diz
 
 
e o que tua voz te fala
e o que que tua voz carrega

quando só o vento se ouve?

4110. Machine poeting

Falávamos ao vento
ninguém ouvia absolutamente nada
que não tivesse vindo
de um nó aplicativo

Nossa voz não reverberava
em ninguém, em nada
Comprimíamos o nosso próprio
atacanhado tamanho em nada

Sem adesões e sem gostares
e o mais enfadado: sem interlocução,
falávamos como araucária no meio da soja
ou pequizeiro no meio do pasto
Uma linguagem de outros modos
ao pé de ouvidos com fones

Não falávamos,
berrávamos para nós
e nem nós nos escutávamos

Apenas insistíamos em ponderar a loucura
de tentar falar uma língua morta-viva
para zumbis surdos

E os poemas pipocavam como
uma glossolalia sem anjos,
só ciborgues a assaltar todo significante
todo símbolo
qualquer signo
e todo significado

E olhávamos com pasmo
aquele blindado big data de figuras de linguagem
e um novo algoritmo poético
a despejar belas canções que jamais serão lembradas

4109. ciclotimia, ou tratado matinal das próprias cores, ou da travessia quando no mergulho, ou do despertar dor para que finde

logo mais haverá cores, sei
cada travessia do sol, cicla – re
e quando ele sair do ar da balança pendulária
e adentrar as águas do inferno,
profundo lamaçal de esfregar bicos
de seios e fazer unguentos,
o céu vai clarear pelas manhãs
em pequenos caleidoscópios fractais
dourados nas gotas dos dias,
feixe de raiar corpos

por enquanto, como a lua, como o céu,
eu cresço e minguo e eclipso,
como cá estou cinza – s
pronto a rebrotar desde as águas
até ser lenha para a fogueira
que há de arder bem no fim dessa
travessia pelo firmamento

mais uma vez

4108.

A fagulha só pega
quando há corpo a queimar
e calor pro ar passar
feito rastro de meteoro no peito

Todo fogo queima
de doer e até entender
tatuagem-queimadura
a estampar lições

A primeira passagem
é a das notas contidas
nos sinais de fumaça
no toque de tambores:
há que se saber os códigos
para decifrar epigramas de amor

Os sinais tem de ser claros
mesmo na escuridão:
por quais ruas deambulam
danças ou fugas
que farão o próximo passo

Do fogo a luz
que cadeia no céu
se faz sombras e lê-las
dá o enredo

Há encruzilhadas
que deságuam em todo o futuro
E o corpo sente

Amar-se as dores,
outra conta para as pagas da vida
E as lições do fogo continuam
ainda que em barco naufragado
mar livre do peso de se sustentar
a liberdade de ser os próprios sinais

Respira

Descobre o que assombra
Ali nos corais há habitação infinita
E nenhuma regra há de impor
quantas casas se erguerão no fundo abissal

Despede do que te veste de incerteza
fique nua, do avesso ao verso

Escuta o canto:
melodia pura de sensação ébria
um tritão ergue a voz
e chama,
no mar há fogo

Não respira, pira

Se despedaça em cada parte que alcançar
e se recompõe, regenera

de prazer

dê-se

4093.

Já avança a meia
da travessia
e até agora
o brilho não se
fez aos olhos,
como se o desarrumo
das lágrimas atmosféricas
tivessem virado
a luz para dentro
do Sol.

Mas o certo é que
a desesperança do amor
é que me tomou
as rédeas e não
arredou mais pé

até que o céu
de Marte se assomou.

4091. Vai lá, ama.

Cristais de nitroglicerina
em todo o beijo,
urânio enriquecido
os abraços,
um tiro e uma facada
ao toque dos sexos
e o algodão do doce encontro

– um domínio, dogma não declarado,
o amor É sinônimo de posse,
primordial o fato, o sobrenome dele no papel,
cavalos brancos e pétalas e plumas de príncipes
voando de helicópteros
e o primeiro tapa até o último soco.

Como a mágica frase
anteposta feito poema
no instagram
dos corações solitários,
pesa a tonelada
de transformar a notícia falsa
das sessões da tarde
e suas barrymores
em notícia quente e,
três tuítes depois,
requentada do jornal das oito:

mais um feminicídio computado.

4072.

tapou o ar
era só isso
uma vasilha
pra tapar o ar
ela só queria
uma vasilha
pra tapar o ar

acabou comprando um sonho
um sonho maior que as pirâmides maias
que as pirâmides astecas
que as pirâmides egípcias

era um sonho dourado
além de verso
além de vida
era um sonho de grana pra caralho
grana pra porra

mas antes
antes de tudo isso
ela só queria uma vasilha
uma vasilha pra tapar o ar

4068.

um dia de fúria contida
e no fim trafegar pelas
ruas retas e solitárias
das noites todas tristes de Taguatinga

uma vertigem pelo prédio em formação
e os cheiros de bacon, beladona
e bosta de pet pisada
no dia do n’amor roubado

acreditava na vida e nas vias
como se todo cruzamento
suprassumo das possibilidades
fosse o casulo de um potro indomado

hoje as ruas são claustro
desmesura de urros não ouvidos
e os passos de um fim de dia qualquer
nauseante de imagens e odores

não amo essa cidade
não possuo nenhuma cidade
só uma dor rural que arde

na ponta do peito

4067. sufocamento testemunhal

eu nunca esqueço as caras
mesmo na penumbra
onde todas as caras são as mesmas
e as curvas
e as entrâncias
e reentrâncias
e a lisura que se imanta em todo o contexto de pele
ainda que gasta e enrugada

acho que era a dama da discodil
ela se chamava a dama da discodil
pura energia da rua e das chamas
afirmadas numa aposentadoria que nunca virá
dia após dia
noite após noite
cansaços e descasos
casados em camas temporárias
como a carteira não assinada

a dama das escadarias da discodil
que eu nunca vi e nunca esqueci
não fala aqui
não há lugar para sua fala aqui
sou eu quem rouba a sua vida
e não pago nada
ela no sufoco
eu a usurpo

a rua como testemunha
a esquina e a escadaria também

4066.

há esses buracos pelo corpo
mas eles não são percalços
são artifícios aerodinâmicos
para correr mais rápido
e romper o ar

e eu corro, corro, corro
como se não houvesse parada

corro para ver se o futuro
se aproxima logo de uma vez
e se a distância do passado
se concretiza
e se o exercício da história
não se coaduna no agora mais uma vez
e se o eterno retorno não me entorna

daí eu corro demais
só pra me ver passar ao futuro
e transpor esse presente

na base do ansiolítico,
ternamente

Estampa

Quando eu cheguei à encruzilhada por onde seguem todos os quase todos caminhos dessa cidade geométrica, a primeira coisa que avistei foram os pingos de sangue que conduziam a duas poças, ainda vivas. Não era nenhum sacrífico ritual, eram as marcas da loucura da situação quando na rua, um polvilhado de sangue líquido ainda fresco, do lado dos isopores e suas donas em volúpia de quebrada, vendendo doses do soma ativador da brutalidade masculina e da bestialidade humana, ali no vértice nordeste da encruzilhada. A cada passo pelas vagas vazias e as impaciências de pé, avistava os flancos por onde se esconderiam os que não seguem o caminho e ao pé de cada coluna, uma dúzia de desamparados se amparavam em papelões ao largo do chão sujo de pó, bitucas e restolhos de uma obra infinda. Vários corpos, várias vozes murmurantes e o mesmo desalento do olhar vago, vazio, rumo ao complacente e displicente buraco negro que se entranha entre si e o ar parado e esfumaçado que não se vê ao cobrir o teto e a amplidão do céu azul que sim, ainda estaria ali, mesmo difuso pelo buraco negro do apregoado ar em movimento no estado da fissura da pedra. Era domingo. Quando peguei meu ônibus em destino ao relógio principal e nunca visto a sul e oeste do geômetro, já adentrou-lhe um dos sempre visíveis e nunca vistos, o que havia trabalhado no tráfico e que era doloroso o filho perguntar ao acordar não o que iria comer, mas se haveria comida e que não lograra trabalho dada a condição de pós-preso que lhe estampa a cara e o fígado e que a jujuba já era minha e dele o que nosso coração melhor aprouvir em gozo de dó ou compaixão. E cinco paradas depois entrou o que berra Deus pelos poros e pelas têmporas e pela garganta e efusivo grita que a morada do Senhor logo se achegará e sua ira aplacará todo o mal da Terra e que benditos aqueles os que creem e que são quatro as paçocas por um real. No esfumaçado embaçado largo do caminho empoeirado e em chuva, adentrou por meio de subterfúgio criminoso de aproveitar um desembarque e calotar o baú, aquele que fede a mijo e tem um ar de prazer e ódio demoníacos quase acolchoados ao seu odor e esse não falou nada, como sempre faz, e só estendeu a mão e foi expulso na próxima parada. E então adentrou o quarto, o mudo com seus papéis embolotados e sujos que causam asco aos que pegam o papel e que logo lê-se surdo e pobre, me ajudem com a graça de Deus e este fez sinais e sons estranhos e saiu duas paradas depois. E quem terá se apercebido da negritude da cor estampada na miséria retumbante desde os papelões esmigalhados pelos pré-caminhos da encruzilhada, até a sujidão e o empreendedorismo da miséria do busão? E quem terá visto a travesti de calça legging retorcida no chão e sem o juízo da vida normal e cristã em sua cara de expulsa da vida? E quem terá visto a face do homem sem pernas se esgueirando entre a sarjeta e a parte quase limpa do chão com sua placa de me ajudem por favor presa ao peito? E quem terá visto e não apenas corrido, os cinco moleques na pós lombra e pré fissura, olhos esbugalhados e sorriso de destruir o mundo com mãos minúsculas? E quem terá visto que ao primeiro dei cinquenta centavos, ao segundo nada, ao terceiro um real e ao quarto o que eu ainda repousava em meu bolso: setenta e cinco centavos de real? E quais foram os caminhos que conduziram todos ao refluxo das estradas, mares de navios e sangue por entre o fétido aprisionamento de suas madeiras e velas de cânhamo? Qual a trajetória desde o eito da cana e do café até aquele papelão esbagaçado? Qual o mapa que mostra o itinerário da forca dos invertidos e da fogueira das meretrizes até um legging louco a rolar pelo chão? Quais sendas conduziram as placas aos peitos desde as naus dos enjeitados rolando léguas perdidas na imensidão oceânica do fim do mundo? E onde estarão as chaves para abrir novos caminhos?

4065. Cê lembra?

No meio do processo nos encontramos
              – pausa para as bombas
              aquilo fora apenas uma demonstração,
              Herba Life para os não alinhados
              saborearem o gosto da pimenta aérea

Eu te vi de mão no queixo
e de pernas n’água
Cê me viu me vendo,
montado num elefante

Eu cheguei mostrando as parte,
cheguei me despindo
Algumas partes em regeneração
outras puro sangue

Cê tava de poesia
Eu portava alguns poemas
e uma prosa trôpega

Mas cê me deu a mão
em meio às possibilidades
e eu vinha com a ilusão
e todas elas a salpicar meu corpo

Mas cê foi o possível que se abria
e o impossível a ganhar tônus

Nos encontramos no meio da reverberação
e vibramos tantos tons rubros
tantos sons
e essas coisas que não ocorrem cotidianamente,
tampouco inesperadamente

Cê veio filme europeu
ou cena de algo assim dialogado e imagético
Senhora de mil faces
em mil luzes e sombras miúdas
encostando as cortinas

E daí nos encontramos
dentro d’água donde o sal limpa e benze
As correntes do mar
e o magnetismo que nos encaixava
eletrificavam as pulsações do horizonte,
uma festa de espaços chumbo
e o sol de arrebentação

Coincidimos no meio das estações,
como dois sequiosos por todas as frutas
de todas as épocas
e pelo nosso sumo a escorrer
ávido e vívido entre os lençóis de cambraia
e os edredons de algodão
Vergando as possibilidades a virarem
o agora num e numa,
além dos braços mais indianos e oferecidos
e as faces tão perto, tão perto, tão perto
que ciclopes de Cortázar se faziam nos travesseiros

Corremos matas, matos, pontes, pontas
e até céus de morros verdes
em sinuosidade avoada

Caminhamos para um pouso orbital,
nossas casas que se conectam no lirismo
dos sonhos transponíveis

Nos encontramos
a cada encontro
quando nossas palas lavram
campos de flores e palavras e toques

Minha mão pousando em tua coxa,
a tua se enrolando nos pelos do meu peito

A presença contínua