Invólucro de armazenar
dados
e vindouros minerais orgânicos
entre artes e fatos
falantes e fossilizados.
O corpo já é um dinossauro
entre os do futuro e
o do passado.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Invólucro de armazenar
dados
e vindouros minerais orgânicos
entre artes e fatos
falantes e fossilizados.
O corpo já é um dinossauro
entre os do futuro e
o do passado.
“Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz.”
Dissolver as partes
asquerosas é tarefa
que redunda tempo
e luz por dentro das
entranhas.
O tempo de observar
o pútrido que secretas
em segredo como
pus a explodir pela
superfície da epiderme.
E ardente interno
ferver as seivas
doloridas que não
tem espaço de circulação
e que entopem veias
e artérias.
O tempo é de se
apoderar do mistério
da negação
iluminando as trevas
para que sejam trevas
tornadas trovas
diante do avolumado
do mundo.
Vai com medo mesmo
que ele te habita.
o sinal é o sintoma
a linguagem inscrita
na falta de ar
na seca do mar
de se adentrar
antes mesmo de ser
quase vida
o além tátil
de um componente
dado informacional
já matava
camada fina invólucro
agora
de gota em gota
transpassante
viralizava
era feito de homens
e mulheres feitas em homens
e se disseminava
e se dissipava como
dente, em vento, de leão
efêmero e destruidor
o sintoma já era
um gélido calor
na ponta dos dedos
irradiando um gelo
do porvir
polvilhando de agoras
uns amanhãs incertos
arrasador
não via destinatário
quem já posto às
raias de alvorecer ao fim
da segunda guerra mundial
ou quem nativo
das nações dos dedos
desse particular alvorecer
dos novos mil
cem
dez
e de quem entre booms
x
y
z
e o big-bang que virá
numa invertida
cômico
sardônico e sádico
já era viral
era virótico
na base do virote
de gole em gole
míseras combinações
pixelares e pulsares
lacrava-se ao inverter-se
intratável
acometia tudo que tivesse
cérebro
e se instaurava
no caminho do meio
entre o afã e o desejo
no pulso do peito
causando fadiga
e perda do tônus do tesão
paumolente
ainda não era microscópico
era também
mas imagético ao extremo
assassinava primeiro
a reputação
e pulsava anseios
de voar em linha reta
da sacada até o asfalto
mutante
2.0 e beta
teste e testa
besta e fera e besta
nunca bastava
e ao final do primeiro
ano do final enfim
o milênio do agora vai
e do agora volta
– reungido e cordeiro confinado –
matou-se a si ressuscitado
e mutou-se em vírus real
já era viral
agora
voraz vai
numa simbiose bioeletrônica
política da morte
política militar
política do macho
política milenarista
política do mais
política do meu
política da masmorra
política do menu
política do momento
polícia dos mil olhos atentos
desde fora até o dentro
Meu corpo pode ser
uma bomba viral,
certamente é uma
bomba semiótica,
ainda uma fonte
de disparos seminais
eu, um ciborgue
de matéria indefinida,
um amontoado binário
proteico, etéreo e material
eletrodo
minha determinação real
desmaterializa-se
em dados e vírus
eu, trago o gérmen do futuro
traço no escuro
e urro
A liberdade me deu
o discernimento
entre o que é vontade
e o que é interjeição,
o problema é que o que exclama,
clama
e o que discerne,
é cerne,
não pesa, nem leva.
Vai desabar lava
fogo que vai
desabar lava
pra queimar o que tem que queimar
pra queimar o que tem
vai desabar lava
e é pro nosso bem
como as lâminas de raios e séculos
aglutinados nas raias do repouso
rarefescendo o ímpeto de vida que nos irrompia
e rescendendo o medo e a ânsia de e pelo fogo
pausa e contempla
o ar se alastra como sempre nos cobriu
a seiva pulsa como sempre nos alimentou
o sangue corre como sempre respondeu
a terra corre nascendo o tempo
tudo treme inteiramente
e a flama não cessa
de dentro das entranhas o movimento nasce
e se lança para o infinito
o caos é belo e horrível
e derrete certezas
e beija a escuridão rumo ao impossível
que somente ele é
escorre pelos dedos e pelas brenhas dos neurônios um nada que acomete a força dos dias em se desdizer o ontem de proto felicidades que somente seria no dia que virá. agora o virá virou apenas a expectativa do amofinado anterior que a tudo conduzia cinzas das horas mortas na ânsia de que não seria em momento vindouro. agora é espera de cinzas em urnas e funerárias em admoestação contra o que perturba. a falta da turba e a visualização do espectro de sombras e destroços que impeliam o corpo à inércia pede apenas que tudo seja dito relutantemente. é um incômodo por não acabar. sentar-se à varanda. sentir a companheira não querer sua presença e ansiar a sua presença e não poder falar porque nada pode ser dito nesses dias de vigília e de vidigal. tremores e arrepios se lançam elétricos sobre a pele e sob ela alquimias transacionam mais um semblante de vazio e de vaguidão por entre as horas. espero o nada e ele já se apresenta.
dentro do antagonista
mora a própria anta
que aflita
goza e agoniza
paranoica e hedonista
besta fera antediluviana
ou dragão apocalíptico
luminar dos sem luz
sonoriza o relincho retumbante
onde transmuta a água em
narcótico venenoso
ao que caminha por cima
rumo ao indecifrável do passado
os três que são como e o um
teu país
teu campo de concentração
ame-o ou deixe-o
desde a cultura
cabeça após cabeça
sem ela ou com duas
quentes, frias
inhame sem dendê
o que se estende
na extensão da Terra
e se aglomera
no plano de
anunciação presente
batalhas e sangue
desde a origem do orí
e pleitos de harmonia
até as fendas
das disputas
ele dança
espada e lança
pela paz sempre
avança
antes da guerra
infinda
ela que não é minha
mas nossa
brada berra e antibossa
breca:
é daqui para trás!
nenhum passo a mais!
é pra despassar
até a valsa
e que o cavalheiro a tire para uma dança
sobre os olhares argutos
da família e de deus
ao som de jorge e mateus
é quase como charco
alagadiço pantanoso
palmital de guariroba
meu peito abarca, abraça
apara
é que além de acolhedor
ele se rega
é com água salgada
não, eu não sou um
marxista cultural,
sou apenas um marxista
hormonal
que ainda crê na revolução
da juventude que virá
viral
no final
ele não era engajado
era só um gajo
engadgetisado
na zona sul, na zona norte
ao longo do caminho azul para a morte
ao largo do cru da carne exposto ao corte
tá aqui a cardia do músculo
atacando o nervo e o pulso
cair em si num repente é sorte
cair de si num vórtex
a mente qual entulho torpe
o corpo estica e o peito encolhe
e treme a base e a razão escorre
ao sinal de ataque
não entre
se solte
primeiro é preciso saber ler
de bom alvitre escrever
mas para ler bem, tem que se ler
e para escrever, também
depois deve-se ter livros
e lê-los
e discernir metáforas
e entender as proposições lógicas
e encadeá-las:
uma coisa leva a outra, logo, pois
há que se atentar para o acúmulo:
antes do quadrado
há a reta
antes da reta, o ponto
– ainda que sem definição coerente não representacional –
e dessa feita, chega-se, alhures,
ao que gravita,
nalgum momento se chega
achega
– nesse ponto, paciência e perseverança
são adjuntos
uma abertura para o que rodeia
é preciso tanto quanto:
a pena branca que despenca da janela
o atrito da serra na madeira
o cacho do cabelo dela que deságua
a luz que incide na folha,
uma coisa que mora lá além da fachada
– tem algo ali, pressinto!
daí se investiga e sopesa
e pesa e mede
e se atina
e retoma a lição dada
e se encaixa,
momentaneamente mesmo,
que nada tá dado ou decidido,
tá na beira da definição
e da indefinição, tudo
daí se saberá algo
transitório que seja e belo ou feio,
até a próxima surpresa
que não surgiu de um feed
mas tem que ser com o que te encanta
e dentro de si, canta
em algum canto, ainda que escondido
recôndito dito só a si,
seu
aprendido e solto
como tudo o que se nos apresenta
e esconde
a sapopema da samaúma
engordou quem nem boi gordo
depois da desumanidade
e os bichos que já eram só visage
se espraiaram em corpo morando até
no meio dos estrave de concreto
até bicho novo se avolumou
de dentro das eras
um após o outro
de desdita em desdita
sabedor dessa herança de forma
e impiedosamente rompentes
de qualquer ordem encefálica maior
tudo no pulso e na desordem
que se auto-organiza
a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?
quem mais encarcera,
como resposta para seus prantos
e afago para suas porradas,
é quem não quer se meter
com o seu próprio umbigo,
prefere-o livre, leve e solto
para agrilhoar milhões em massa
a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?
o amontoado de gente
corpo em cima de corpo
criminosos e facínoras
é de se bater palmas
anos depois das panelas
e seguir a toada do apresentador
“é pau nesses bandidos,
cancela esse cpf,
enjaula! que animal tem que estar preso”
e agora, a visão de si na cadeia
preso com sua família
a sagrada família
a santa família
a benção mais nobre
é o saco de aguentar a fala
do esposo, a sorte da esposa,
o choro do biel
a boneca cor de rosa linda e loura da maria eduarda
e o perpétuo d’até que a morte os separe
em vida
e dentro de um retângulo de duzentas
e setenta e nove prestações restantes
com gente em cima
em baixo
num lado
no outro
na diagonal de baixo e lado
na diagonal de lado e baixo
na diagonal de cima e lado
na diagonal de lado e cima
e o pet moro herói brasileiro
mordendo seu pé pra sair e dar uma cagada
respira fundo
e se afunda
lá fora
e volta
e abre seu retângulo mágico
de onze prestações restantes
e descobre a verdade de que isso não dizem por aí
e recita a receita do filósofo que rejeita os astros
e reifica quem te oprime como massa de manobra
e retuíta o banana diminuto
e se desespera com o perigo vermelho nascente
e vai para o banheiro se masturbar em paz
com um vídeo de teenager
e reza antes de comer com a sagrada, a santa, a abençoada
família
e antes lava as mãos não por medo do vírus
mas pelo gozo pegajoso que escorre pelos dedos
menos liberdade para mais segurança,
não era isso?
a quem a grade protege?
a quem a parede separa?
quem tá dentro?
quem tá fora?
E se…
minha mente comanda
por todos os lados.
É uma hipótese aventada
toada insone que não
dialoga com Hypnos
(ou só debate)
e que treta com Morfeu.
E se…
ela vem de novo
como se fosse algo
urgente e emergente,
dalgum canto emerge:
às vezes da superfície
– qualquer fio de pele
já sabe o percurso.
Às vezes vem de um clausuro
que nem me adivinhava
– masmorra-me.
Claustro do que me defina
(um h e tudo resoluto).
E se…
vem mais uma vez,
talvez porque falar de si
deva ser o melhor,
mas sem falar dela
para não ser invasivo
– e como se fala
dalgo que é duplo
e dúbio?
E se ela quiser
que eu fale mesmo
dela ou que eu
fale de mim que
diz dela ou só
de mim que a
mim me diz
sem parar e que
se perde em
dizer nada?
E se eu quiser?
E se…
mais uma vez irrompe
e rasga o traço de sono.
Tenho algo?
Digo algo?
Algo diz?
E se…
eu só acordasse
e visse que sono houve,
com sonho e o rol possível,
e que então, vida não mais há
e dúvida se fosse
e dizer desnecessariasse
e dentro, silêncio.
E se…
eu pulasse dessa janela
ao lado
sempre aberta
solitária
e fugisse da solitária
sempre aberta
do meu peito
por dentro
e me enraizasse no nada
sem querer ou vontade
– mas daí ela sobreviveria
quando eu não mais
tiver que sobre viver?
E se…
só for loucura e uma pílula baste
uma pílula de ferro e grade
que me agregue
sociavelmente possível
ou amorosamente aprazível
e irreconciliavelmente indizível
como o sagrado do
nome de Deus.
E se…
a sorte me pega
e um raio me acerta
e me teletransporto
para o meu parto
e me parto
em duas partes:
uma descartável,
monte de lixo que me habita
e outra luz,
donde raio de trovão
me despedaço desde
a nuvem ao chão.
E se…
mais uma vez
me descompassa
e carrega o corpo
trôpego
sonâmbulo em posfácio
preâmbulo de algo inerme
desescudo e descuido
dum observador desatento
do que me atenta
em segredo e me salta
(noite alta madrugada,
a mão fria, a mão gelada)
e se…
A paz é essa coisa insossa
Que se dá entre o caos da mente
E o acaso da vontade
O melhor a se fazer é comer água
Engolindo a seco seus tremores
O sabor nunca vem do outro lado
Só azedo quando ataca
Ou amaro quando silencia
E não sei até quando ainda vou preferir chupar limão
Porque gueroba demais arruína o prato

É só um pedaço da paisagem
que nunca passa,
só me perpassa
na janela da minha casa.
Tanto eu, como ela, parca
e o céu no seu limite,
linha esparsa,
toca a terra e a terra ao céu,
abraça.
Esse rasgo, essa nesga,
não me basta
além daquele limite do ali,
talvez me haja
ou eu mesmo, quem sabe
aquém,
aja.
Diante do mar, qual gota?
Defronte à perfeição, qual beleza atende?
As escolhas nos engolem
como a lama atravanca
o gargalo dos esgotos.
Mil nuvens se adiantam
em nossa frente,
quando vemos formas,
elas escolhem trovejar
e vertemos águas,
encolhidos,
saco furado, até o vazio
ficar de pé.
Um espasmo momentâneo:
a flor seca por causa do encharcamento
– eu me oriento pelo cume do dia
até ele, ainda suspiro
depois o ar adentra
quebrando as tensões.
Sou flor tremedeira
seguindo com a cara o sol,
até que a noite me acomete
e o respiro arfa,
como sempre,
amanhã, nada acaba.
Nosso corpo só fala
de modo incidental
não escuta atentamente
fala sem a gente
Tamo lá, no centro
e sem lá, por dentro
é como se nunca escutássemos
a voz dos braços
das pernas
dos poemas intestinais
que sobem e descem
alturas em sair de si,
no amontoado dos tremores
a gritarem sem culpa
o estertor de um sentimento
Mudos de corpo,
nem sequer temos um
léxico corporal mínimo,
nossas partes são mudas
e os sinais não nos falam
Só há essa imagem-ideia
nuvem-nada
imóvel e cambaleante
eterna
a compor o que dizer
1) Biopolítica
Andávamos como se fôssemos quem éramos
apenas corpos caminhando rumo ao futuro
alinhados em fileiras
de coturnos lustrados e de linhas de montagem
e fechávamos as pernas educadamente
e dizíamos, por favor, agradecida, muito obrigado
sorríamos ao carrasco com um flerte masoquista
e no escuro da noite funda
nos afundávamos em uma liberdade esfumaçada
movíamos o corpo loucamente escutando The Smiths
2) Necropolítica
Começamos a nos despir das necessidades
e nos tornamos quem deveríamos ser
descortinamos os palcos e utilizamos toda a nossa potência
passo a passo e par-e-passo para além do capital
seríamos algo vivo que pode
mas com uma bala decidiam sobre nós
e com uma caneta derrubavam goiabas do pé
podres
e escolheram o dia e a hora da nossa quase vida
Morrissey falou que o nazismo era de esquerda
2) Tecnopolítica
Trocamos nossos desejos por dedos
dedos de joia, dedos deslizantes
uma sociedade de dedos, Eliana era uma visionária
abrimos nossas almas como entrada para os corpos
não precisavam nos amarrar, já tinham enfiado a botina na nossa cara
e nós ainda achávamos que era o justo, o necessário
daí para nos entregarmos foi escorregador e tobogã
o filósofo falou que eu deveria usar azul
4) Psicopolítica
Hoje o nosso fracasso é um sucesso de público e crítica
e escorregamos nossas falhas numa lição de moral
como se fosse interna
e jorramos lições e lições
e a cada hora nossos dedos deslizam em busca de uma dose
e do crente ao ateu todos nos monitoramos
nos amamos aos ódios plenos
o pan-óptico mais amado do mundo
não precisa de jaula
não precisa de grade
por entre as micro janelas dos gadgets tudo é insosso
o capitão pulou da janela de guarda-chuva como um paraquedas
todo mundo foi atrás
e ele tinha uma barba impecável com um relaxante top
e coturnos muito bem lustrados com a própria língua
Coragem para ter medo
e arvorar-se observador
senhor de mil galhos
cientes da sarjeta
e do desarrazoado da vida,
como muros pichados e picados,
como papel queimado
na boca em réstia,
como hóstia.
Desacorda e tira o
nó da corda que enforca.
Coragem é dormir
quando necessário.
Quando a chuva vem.
Sente o vento d’água
vindo da janela?
É um gozo.
Se deixa. Se deita.
Dorme.
De dentro da árvore do
conhecimento,
espalham-se flores e
sementes pelo todo-nada
– o que sabe.
Entre embolar-se nos
lençóis do quase-nada
e o semblante betuminoso
dos poços d’olhos insones,
mora o quase-tudo
do eterno virá que
já plasma as têmporas.
As vozes-várias, variáveis
como vírus inclementes
apodrecendo o embornal dos sonhos.
Tudo se dita na cabeça
feita por el-es, ruim-bom,
anseia
anseia
anseia
antecipa
e decepa a cepa do
que sabe de si
e cria – na cabeça –
o mundo do eterno virá
no travesseiro da cama
três da madrugada
quase-nada.
E se eu estivesse só,
o que eu faria?
Deixaria para um eterno amanhã o que fazer?
Correria para o sofá numa ansiedade regada
a youtube e falta de pegada?
Insistiria na toada da insignificância
própria e desalentaria minha alma sucumbindo
até não conseguir concentração até mesmo para um filme
com a cabeça dividida entre mil diálogos imaginários?
Ou cederia a ir para uma punheta afobada
um programa da tv à cabo, um sonho de padaria
e uma esfirra de calabresa, até a azia dilaceradora
do corpo paralisadamente movente de tremores
e pensaria: amanhã, amanhã tudo muda,
correrei
tocarei violão
farei barras e paralelas
serei solteiro e ético
comerei vegetais
iniciarei a revolução
me desobrigarei da perfeição
meditarei
entrarei em contato com velhos amigos
e terei conversas significativas e profundas
treparei despretensiosamente e com responsabilidade
amarei
e serei lembrado como o não lembrado para sempre.
Amanhã, que vive nesse eterno agora a me rondar.
A nossa pele já não tem mais aquele brilho
nossos músculos perderam a tonificação
há em cada célula um cansaço da memória
e uma sede por memória,
mas já não sabemos como ousar o corpo,
apenas o usamos
há com certeza uma fina camada de certeza
um pouco tesa
um pouco muito dura
que quer continuar pele cobrindo a alma,
porta para.
Nossos corpos já falham
ressacas de três dias
cigarros tortos e aflitos
paranoias a qualquer toque,
mas ainda somos algo que se compõe
turba ansiosa por ansiar algo
uma ansiosidade da falta
ou do todo completo
momento de ainda querer
ainda que confuso com o arame nos pés
e na ponta do peito,
farpados e condutos ao passado.
E essa dor travestida de paisagem
por onde passamos, querendo nós,
os nós que atariam uns às outras ainda
e que seriam mais que esses brilhos nos pés
e essas calças agarrando nossas batatas
perto dos quarenta
ou entre eles
tudo se torna ponte entre o que foi
e o que virá
como se fosse nós.
Quando desaclarar o céu
e orvalhar na terra
vou drenar esse peito meu
e vai chover na serra
lágrimas de flor.
Acho que um dos
meus maiores medos
sempre foi o de virar
esses tiozão que pega
baú com cara de doido,
uma felicidade desesperada
estampada, um ar de tarado
e um boné mal balizado na
cabeça, aquele aspecto
de fracasso social
tentando ser compensado
com algum cristianismo,
uma camisa de time ou de
paróquia (hoje pode ser
da Ebenézer), um certo
ódio de si que reverbera
numa cara de areia mijada
e um bucho abaulado e
duro subindo as canelas
finas, sem papete, mas
um tênis quase caro
para compensar a falta
de carro que compensaria
o pau pequeno ou a feiura.
Esse era o maior medo
da minha vida quando
era um leke dentro do buzão
vendo esses tiozão entrando
e passando com uma cara
de parede sem reboco,
mais medo até que do demônio.
A quem interessará as flores e os céus,
quando tudo é apenas isso
e um além que não se alcança?
Tudo fere esses seus tristes e densos olhos
e eu só luto para passar incólume
por entre a tonelada de suas lentes,
o mundo é de vocês desde a conversão de Constantino
e é uma fé tão forte
que qualquer beijo pode destruí-la,
como a minha, que sempre adoece com a dor dos outros.
Quando eu crescer
quero ser bebopolar
meio parker,
dizzy, monk
e sem me tratar.
Jesus tá voltando
desde que ele se foi,
sei que cigarro anda
muito difícil de encontrar,
mas pode ser só
que o céu seja
muito longe mesmo.
somente
siga
as
setas
luzes de demência
indicarão a entrada
todas as portas estão desobstruídas
máscaras de óxido nitroso despencarão do céu
e a realidade te dará um soco na fuça
até te colocar no limiar da aflição
1) Amor sublime (Benjamin Péret)
2) Bom dia para os defuntos (Manuel Scorza)
3) Pedro Páramo (Juan Rulfo)
4) Em defesa das causas perdidas (Slavoj Zizek)
5) Your brain on porn – Internet pornography and the emerging science of addiction (Gary Wilson)
6) Suicídios exemplares (Enrique Vila-Matas)
7) The archaic revival: speculations on psychedelic mushrooms, the Amazon, virtual reality, UFOs, evolution, Shamanism, the rebirth of the goddess, and the end of history (Terrence Mckenna)
8) O grifo de Abdera (Lourenço Mutarelli)
9) Necropolítica (Achille Mbembe)
10) O que é empoderamento? (Joice Berth)
11) A noiva escura (Laura Restrepo)
12) A classe média no espelho (Jessé Souza)
13) Sociedade da transparência (Byung-Chul Han)
14) No enxame (Byung-Chul Han)
15) Poesia completa de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
16) Psicopolítica – O neoliberalismo e as novas técnicas de poder (Byung-Chul Han)
17) Sempreviva (Antonio Callado)
18) Mediunidade – Tudo o que você precisa saber (Richard Simonetti)
19) Dinâmica de bruto (Bruno Maron)
20) Astrologia do destino (Liz Greene)
21) Quadrinhos ácidos – Volume 1 (Pedro Leite)
22) Escuta (Eucanaã Ferraz)
23) Sem gentileza (Futhi Ntshingila)
24) O chinês americano (Gene Luen Yang)
25) Nijigahara holograph (Inio Asano)
26) Manual de sobrevivência dos tímidos (Bruno Maron)
27) Bagagem (Troche)
28) Uma nova ciência da vida – A hipótese da causação formativa e os problemas não resolvidos da biologia (Rupert Sheldrake)
29) Diastrofismo humano (Gilbert Hernandez)
30) Hermínia (Diego Sanchez)
31) Poemas do povo da noite (Pedro Tierra)
32) Memória de elefante (Caeto)
33) No seu pescoço (Chimamanda Ngozi Adichie)
34) Fumaças bailarinas no salão da liberdade (Anderson Souza)
Esses foras os livros que eu li em 2019, foi um ano de pouca poesia, talvez pelo peso que essa bosta de realidade política de cá e de alhures me inspire (ou desespere), talvez por uma falta de encantamento com o mundo… De todo modo, pelo menos, foi um ano em que voltei aos quadrinhos. Li poucas minas, percebo agora, mas fiz descobertas interessantes como Manuel Scorza e Enrique Vila-Matas. Observando o que li esse ano passado, descobri que dos nove livros de prosa que li, todos foram latino-americanos e africanos. Gostei. No mais, não foi nada de muito impactante (acho que Byung-Chul Han e Terrence Mckenna foram os que mais me mobilizaram), espero que 2020 seja mais aventuroso.
Ideias de todos esses livros estão estampadas nos poemas do ano passado, literalmente ou metaforicamente. Gratidão por quem escreve e me leva – ainda – a escrever e me possibilita uma nesga de inspiração nesse planeta que ruma à auto-implosão.
Diante dos morros dantescos
quixotescos e quiméricos
que se esparramam como
onda a despedaçar os sonhos
de areia tidos por crianças
mortas na beira da praia da baía,
tudo se desfaz e carreia
erodindo aquilo que foi sólido um dia.
E a gente se apega às corredeiras de lama
como se fossem se solidificar novamente
ou como se fossem cordas
a fiar os tecidos da vida
e nos agarramos ao volátil tsunami
de densidade barrosa
que arrasta arranha-céus feito formiga.
A gente ali, no fluxo inundante,
trocando a liberdade por uma nesga de segurança
– escultura de barro,
até a próxima tormenta.
vou te contar um segredo:
você é uma parte
que é um inteiro.
Enfrentar o tédio da vida
sem deslizar dedos no éter dos metais raros,
entrar no embate
com os coleguinhas
sem se proteger
no isolamento que retalha,
sentir cair a noite
colando nódulos
de solidão no avantajado
da cama larga,
desmoronar o arremedo
da falta de vitalidade
num punch sem sentido
na moleira de uma
tarde de quarta,
esculpir novas fábulas
para desagrupar o
campo mítico que esquarteja
pássaros azuis aprisionados,
desinquietar os contentes
com um bundalelê na janela
bem na cara dos puristas.
Bora lá,
largamão desse quadrado
de auto-eficiência
nunca suficiente
e rola ladeira abaixo
na tentativa de equilibrar
as pedras que quebrou.
Bora lá,
hastear bandeiras
quando levantarem a voz
para dizer que é sem bandeira,
buscar a Bandeira Verde
que marcará o fim da seca,
plantar bananeiras
e chamar
chamar
chamar
chamar,
xamã
a quem dê e seja
e deseja.
Porque ninguém vai segurar
uma mão que só se ocupa
com o medo
e o toque no vazio
– ninguém segura (ou larga) a mão ocupada com os dedos deslizando no éter.
Ninguém vai chamar quem desapareceu.
Chama, vai.
Chama, há.
Me chama.
Tô te chamando.
Acorrentadas mães tanto das prosas
em dias com mistérios infinitos
quanto das poesias que se transformam em poeira
nós acordávamos em cima de todos
e quaisquer fios estendidos pela vida
bom jaco a quarar entre os arames armados nas paredes sem reboco
e sim, vivíamos
pois na brutalidade desparecemos fracos.
E as noites eram corujas sólidas
que, tangenciando o couro, iam embora
desbotar de escuridão o unguento.
pela janela
a noite escura,
lá fora alta
duas luas
uma nítida
outra difusa
um leve estrabismo
no céu que dura
milênios de milhares
de noites profundas
e ali, paradas,
subiam duas luas
um jorge, um gêmeo
e um dragão cindido
no meio
uma asa num ponto
outra asa descansando
e o fogo no centro
duas luas no céu
eu tento
mas não aguento
achei um caco de garrafa
de cerveja pregado na chinela
cinco quadras depois
encontrei outro caco da mesma garrafa
e durante todo o percurso
gotas de sangue coagulado estampavam o chão
até que quatro quadras depois
estava lá, a poça
à frente uma moça cuspiu uma borboleta branca
cinco quilômetros depois
outra moça cuspiu fumaça depois de uma tragada
e eu li o caco, o sangue e o cuspe
os arcanos da era da zoeira
são de uma potência brochante
me pediram um poema doce
como suspiro e pão de ló
e o que veio foi esse conto em foice
a martelar a corda e quebrar o nó
que pendurava a morte
– a bicha tava que já não se aguentava,
pensava em morte todo dia, a morte.
até que não guentou e se pendurou
na própria morte, a bichinha.
antes saiu por aí a desdita
revigorada de vida, a morte
colada com uns parça sinistrão
que metia os loko nas quebrada
interplanetária do globalismo
antiglobal
a morte surfava e espreitava
chamava o guedes e dava uma dica
chamava os messias e rezava uma estória
e começou como falseamento
da lógica mais temerária
soltou fantasmas passados aos montes
e aos poucos
cada fantasma a trazer mais dezessete
trinta e oito
e deixar tudo no ponto do doido
fissura de crackudo
o cuco da história como o elemento definidor da antihistória
38, depois 48, depois 58 horas semanais de trabalho
no talo e com relho no lombo
e um sorriso brilhante olhando o quinto mandamento
insanamente
do alto do morro que desceu a morte
e aliciou as polícias da morte
para as milícias da morte
e um pib aumentando 0,6%
Minha primeira reminiscência
na esquizoanálise foi um aboio:
mil tretas nuns paranauê sinistro,
lokão tipo fogo nos zói da venta.
Na sequência veio uma anamnese
vindo nas veia
gradativa feito um dub;
peguei na mão da lembrança
e disse: isso me encaixa, tem graxa
eu escorrego corredeio
e cadencio: há água irrefletida
que margeia e inunda.
Despacho para a síntese
intersubjetivamente objetiva:
– sete tipos de miúdos de centauro
– dois litros de dendê
– farinha de puba suficiente
– cinco tipos de balas perdidas encontradas
– nove fios de cabelo de axila feminina
– um alguidar número nove
– um raio laser
– um strobo
– camarão du bom um bom tanto
A integração se deu num rasgo de anunciação
– com um pacto entre as partes
que se achavam estranhadas, embora entranhadas.
Chamei as paradas que se diziam escrotas
trombei com o sumo da bondade que escorria
e trôpego me arrastei
e me arrasto. Mas invocado.