não seria apenas uma coleção
de sentidos, soltos à revelia
desse lugar, seriam os fragmentos
de uma percepção meta-sensorial,
uma concretude sensorial,
já que o lugar não foi abolido,
e a cada aurora, é revivido.
um amor que supera formas:
metamorfose.
0642.
uma idéia não é minha
ela surge de mim
este corpo não é meu
este corpo que dizem ser meu
me é, os átomos só são,
meu mesmo nem o nada
o corpo surge, a idéia surge
o surgir é
meu mesmo, nem o nada
estas idéias que se agrupam,
estes códigos todos
meus não são, eles apenas são
desses axiomas concluo que
o verbo ter não existe,
não ser igual a ter,
não ter igual a ser,
não tenho, existo.
ter, é só o nada.
0641.
maio não sei por que
cargas d’água principia
o fim de algo aqui no
Planalto. parece que o
vento quer levar tudo
consigo. o problema é
que no outro maio ele
já esta aqui novamente
0640.
o quadro sem tela do infinito
é pincelado pelas lânguidas
e lépidas mãos do vento
as nuvens, o sol e os eucaliptos
forjam um pouco mais minha tristeza
0639.
Para você nenhum verso
Quando não um antiverso
Ou melhor, pra ser pior,
um reverso: verso nenhum você
0638.
sei que na carne somente
não se completa os sentidos,
mas que a tua me evoca
também o que abrasa minha alma,
isto sim é verdade
e como arde o encontro
de nossos devires sentimentais
0637. Alíneas Y
o fragmento da poesia surge:
uma nota do sonho vem
aí então vem a poesia toda:
você entre os sentidos e a especulação
no indescritível da poesia:
você
0636.
Minha florzinha…
ajuda teu néscio amante
e norteia-me:
diz que os dias
são só dias
e que as noites
são só partes dos dias
diz, e cala o açoite
0635.
“as árvores são fáceis de achar…”
e eu, algum dia me acho?
através do espelho só as
várias histórias amontoadas espacialmente
minha mente pulula o já ocorrido
– meu eu em flashes existenciais
pelo espaço, a flutuar.
eu intangivelmente árvore
num paradoxo do espelho:
não me acho, não me tenho
e na tênue da antítese:
descobrir-se espelho
0634.
socrático, digo que nova
perpendicular insolação a
contemplar-te outra vez
é imprecisa, mas no esteio
desse bronzear, desisto
da precisão e digo que
só preciso do agora
0633.
às vezes, sinto saudades de
minha loucura
a rigidez da normalidade
dá-me a antítese do verde
0632.
A vida é ato,
metáfora pertinente aquela:
“novela mexicana”
cada qual com seu excesso de drama:
“oh como fui infeliz!”
cada qual com sua passiva mediocridade:
“eu não estou presa a você!”
A vida é representação,
é cena mesmo,
pois assim se vale a pena viver,
enaltecendo a dor,
exaltando o prazer…
A vida é teatro mesmo:
“não faz isso comigo, por favor!!”
A vida é um filme americano:
“ficou com ela antes ou depois?!”
A vida é comédia sessão da tarde:
“meu amor, ele é a coisa mais linda!”
Posfácio:
Quem dirige, atua e escreve é
que se dá bem…
0631. Das vivências pós-modernas
As palavras de amor ditas
como num nirvana amoroso:
a imersão no vazio revelador
em meio à turba da dor
para por fim inteligir os sentidos.
Um eco ultra-feminista, já
quase um machismo, transforma
as crianças em ninfas
prematuramente, as palavras
já não cabem mais em si e não
contemplam o invisível da
pós-modernidade
já não há o que ser dito!
Os emetivianos vomitam o contido
de décadas de libertação,
como num vídeo-clipe programam
as revoluções num replay eterno
– “eterno retorno”, sempre.
Minhas palavras de amor
querem ser ditas, mas a turba
da primeira nobre verdade
cala-se por segundos.
Segundos, uma vez que é esta
a velocidade do pós-modernismo:
em um é lésbica, noutro é
travesti, logo mais é necrófila,
acolá evangélica e se possível
for ainda dança um forró para
conquistar seu macho.
A turba da austeridade já não
cabe em si. Nada mais cabe em si.
Em si só o éter, só.
E no respeito, o transgênero de
três seis pousa sua virilidade
num site porno-literário.
Nossa culpa cristã morre.
Nossa morte morre e o respaldo
da eternidade cochila somente
no retorno dos segundos, num
alvorecer de oeste do planisfério.
Ah, minhas palavras de amor…
Parecem frases da Bíblia em
meio a um Kuarup.
Os ventos de maio já se sentem,
a boca já resseca, nenhuma
estrela ao céu… como sempre.
A imensidão concrética da cidade,
as paralelas asfálticas das vias
(se encontram todas nos não-lugares),
tudo isso me leva a crer:
daqui pra frente tudo será como antes:
nada igual
(só o oco do eterno retorno).
0630.
os segundos sangram solidão
oxalá estanque o halo das horas
e cicatrize as radiações de carbono
0629.
o fetichismo da libertação
o fascismo da alternativa
o falsear da democracia
a opressão da democracia
a impossibilidade das possibilidades
a passividade do infinito
a prepotência intelectual
a imensidão do ego
ai, ai, ai…
0628.
Nada pensar
Nada sentir
Pensar o sentir
Sentir o pensar
Pesar o pensar
Assentar o sentir
0627. Fodam-se!
Nada disso atrás existiu,
ou melhor dizendo,
tudo isso atrás inexistiu
foi imaginação sartreana
não foi materialismo dialético
foi fenômeno sem essência
transposição de estados de espírito
em idéias absurdas.
Amá-las?
Rio de tudo e sadicamente
profiro: fodam-se!!!!!
0626. Os dizeres do éter
Meu canto é o germe
de todo o que foi,
de todo o findo:
Da confusão dos seres
Das fábulas de amor
Das pessoas em forma de nuvens
Do avesso do polietileno
Meu canto é o uivo na mata
O pio da coruja anunciando
a morte do ente querido
É o canto absorto do
apagar da história pessoal
Nada, nunca existiu.
0625. Caso fortuito
As irmãs se encontram:
“Viu Fulana?” “Não, mas Sicrana perguntou.”
“Vai por lá ou por cá?” “Vou por lá…”
“Ah bom, vou por cá…” “Paz de Cristo!”
“Paz de Cristo irmã…”
o mundo as resume
são rês de um novo mundo
resumem o mundo
simbioses do profundo
0624. Na rodoviária
Sai mais um: vidas vãs vão
Vem mais um: vidas vêm ao vão
Vidas vãs vêm e vão do vão ao vão
Vidas, quase feridas de luz
sobre o vazio do Grande Varão.
E os ônibus sempre lotados.
0623.
Começo assim, distando algures
Contemplo a solidariedade de grávidas
como o prelúdio da eternidade
– do leve retorno –
As jaulas já não enclausuram,
são só teias luminosas delimitando o
mundo: “Aqui você não cabe, ali
te é inadequado, lá sobressai-se
o nada…”
O som luminoso das pisadas dão
ainda mais claustro (dão sim,
mas de um hermetismo livre)
0622. Quase sempre
Quase sempre um real
Quase sempre o real é mais de um
Quase, sempre é muito mais real
o que não existe
Se as imagens da televisão
fossem tão reais quanto
o mendigo que ao meu lado
nego-lhe um real.
Quase sempre…
0621.
os que não sabem viver
opinam na vida dos outros
julgam, tecem teorias sobre
sua medíocre condição
apontam teus erros
maldizem teus acertos
eu, do alto de minha prepotência
desarvoro: mal sei da minha vida!
0620.
De fato nunca a amei
Amei a mim, amei meu sexo
Amei o prazer que possuía
Amei meus acertos,
Amei minha vida,
Amei meus livros e meus discos
Amei minha família e amigos
Amei até meus desafetos
Mas você, usei como um
catalisador para o meu encontro
e agora já eu, digo:
eu nunca te amei
(e o que é pior, muito menos te odeio,
você me é como um automóvel
a mais em meio às pistas)
0619.
No afago de tuas mãos tão miúdas
Encontro amiúde uma paz tão contida
E que explode na serenidade quando
de tuas mãos desenham-se palavras
que me afagam ainda mais e que me dão a certeza de dividir meus sentidos
(sentimentos) contigo e de agrupar
meus sentidos (sentimentos) em teu ser
(amor)
0618. Meus versos parecem ser matéria pura tanto que diluíram no ar
Dialética
0617.
Ali nesta fronte
Há linhas leves
Ali neste corpo
Há livre vôo
Ali nesta alma
Me encontro
0616.
Entre um espasmo e outro espasmo
Há um espaço parco
O fim num estalo na última golfada
de sangue. Um passo para o salto
A alma sente o fim do sêmen germinado
0615. AM/DM
Mayra foi como um furacão
que passou por minha vida
aliás, eu poderia até resumi-la
– minha vida – em Antes de Mayra
e Depois de Mayra
Tomou conta de mim
Aí então veio fim
ela foi-se qual minha vida
– eu não vim
saí a procura-la em todos os cantos
Somente agora percebo que após o fim,
procurava não Mayra, procurava a mim
0614.
Quem é esse sujeito que lê Saramago em pé em um ônibus coletivo lotado?
Quem é esse tipo que ainda se emociona ao beijo laranja do sol com o horizonte?
Quem é esse indivíduo que anda a conversar com as sibipirunas, com as patas-de-vaca e os paus-ferro e ainda conta seus segredos às mutambas do entre pistas?
Quem é esse homem que ao deitar em sua morada escuta Racionais, intercalado por The Smiths e Antônio Nóbrega?
Quem é esse aí que ainda tem tempo para os prazeres das letras e as põe em seqüência aleatória crendo ainda assim as terem sentido?
Quem é esse moço que tem tanto amor pelo mundo e se esconde em seu mundinho próprio?
Quem é esse alguém que se mete a pensar em mundos possíveis e a teorizar sobre a condição do ser?
Quem é esse a quem chamam de farsa, engodo, mentira e enganação?
Quem é esse louco que sabe que não passa disso mesmo?
Quem é esse Don Juan capenga que sempre amou a todos e hoje vive com só um ser dessas tantas possibilidades no mundo?
Quem é esse revoltado que se acomoda tão fácil?
Quem é esse nefelibata que cita Cartola e Kundera com o mesmo peso e medida?
Quem é essa metamorfose que não se fixa em nenhum ethos e que se pretende existência tão somente?
Quem é essa coisa que se anula?
Quem é esse ser que não se entende e ainda assim sabe mais de si que muita gente?
Quem é esse meliante que usurpa a possibilidade de aparecer ao mundo?
Quem sou?
0613. Embaixo da plataforma da rodoviária fui parede um dia
Cada vez que eu andava embaixo da plataforma da rodoviária
Via a parede ao lado e pensava ser a parede
A cada passo dado me via mais parede,
A cada ladrilho que passava, mais um passo e mais parede eu me tornava
Pensava que assim ninguém me veria
Que a cada passo mais parede seria
Enfim ser não mais me apetece
A parede sim me apeteceria
Lá embaixo da plataforma da rodoviária, onde os carros são só sons e as imagens são só carros e paredes
(A escuridão é que a luz lá embaixo da plataforma da rodoviária)
(E o silêncio é só o estado de parede ao lado)
0612.
E novamente pego-me assim
maravilhando-me desse céu
E é um azul tão insano
que de tempos em tempos
redescubro-o do alvo véu
úmido que lhe tem por
mortalha lúcida e me ponho
enlouquecido em tanto azul
0611. Do que continuo de suas poesias
Poesia nenhuma está completa
Poesia mesmo é só um devir,
Poesia que está completa não é poesia
É teoria, é o avesso de qualquer metáfora,
É a ditadura da palavra, a prisão da idéia
Poesia se faz no contato com o outro
Mesmo que este outro seja você
(a cada segundo você é outro)
Daí, ninguém nunca ler a mesma coisa
(o sentido e a sensação já são outros)
Poesia é um momento de liberdade
É a constatação do incontido
É o labirinto percorrido e metaforizado
É a angústia delineada, é o dilema
(é tudo o que eu não digo, sem título)
0610. Arqueologia da poesia
No vasto campo das palavras
Busco os indícios do alfa
Do ponto de mutação
Aquela palavra mãe de todas
O som essência pura
O signo próprio significado
Pincelo com caneta bic
E coaduno as informações
Até formar a coerência
E no vão do passado
Até a materialidade do signo
Descubro que a palavra original
Simplesmente não existiu
A metáfora é que é
Palavras: todas metáforas para a existência
0609.
quando penso no futuro e percebo o agora, indago-me o porquê de não haver em todos os automóveis a inscrição: “Cuidado, Crianças.”
0608.
respeito muito o vão das coisas
nele não o silêncio
mas antes de tudo a sorte
0607. Da palavra
com sete traços te construo
sete frestas, sete faces
sobre tua face, de ti,
sete raios coloridos.
sete nobres verdades.
sete engodos.
uma após o outro eis que a surge:
palavra
0606.
o relâmpago vem dos dois
hemisférios de seu ser a fim de ser
de seu encontro resulta seu é
um momento apenas, um lapso – mas é
somam-se cargas e ser: relâmpago
somos estes dois hemisférios: preludiando um som
nosso filho gestado desde já: futuro
e que fique anunciado: ser sim
eterno
momento também (não só)
0605.
As carícias do sol
borravam de luz viva
minhas retinas
neste nosso matinar.
Mais nada falávamos.
Ouvíamos a vida.
0604.
Tentamos escrever tudo
Tudo escrevemos em nós
Nós dois, livros em aberto
Abertura em nós para nós
– em tudo –
A vida nos escreve muito mais
Mais de nós em nós mesmos
Mesmo sutil, escrito está
Sendo em nós tatuados
– tudo –
(Disso que vivemos, que sentimos,
que nos compartilha, amor simplesmente.)
0603.
Nunca se escreve o que se sente
Sempre o escrito é só uma ponte
Um caminho. O expressado é
Só uma via entre o real e a
Nova realidade – a expressão
O que se expressa nunca é
O que se sente, é somente
Uma semente desejosa de ver
Nascer em quem se endereça
A expressão
0602. Alíneas XII
os aspectos culturais de nós dois por vezes são outros, mas aí que reside nossa aliança de boa sorte, é na diferença que nos encontramos e nas igualdades surgimos como mais aliança ainda.
0601. Alíneas XI
se eu fosse o seu ideal, aquilo que buscas, não sentiria o que sentes e eu só seria um devir. viva a nossa diferença! assim nos afirmamos nós.
0600. Alíneas X
não sou senhor
de nada, mas
me orgulho – ou
algo parecido
com isto –, de
a ter em meu
lábios por
instantes
0599. Alíneas IX
longe, te escuto
num espaço
bem definido
em meu corpo
e em sua
transcendência.
neste ato me
escuto e dou
asas a você
em mim
0598. Alíneas VIII
no que não nos contêm
contém um desejo de não
se findar, como o ato, o
desejo que não se contém
0597. Determinismo
se eu acreditasse piamente
que só sou ponte dialética
entre o anímico e o pós-humano
regozijaria-me de minha condição
e somente ser seguiria
0596.
do belo a verdade surge
eis que a cultura urge
não o simétrico mas sim
as essências
0595. Preconceito (Desconstruções IX)
“Existe um preconceito muito forte, separando você de mim…”
Meus olhos não me dizem muita coisa. Meus ouvidos selecionam informações. Meu nariz é socialmente construído – diz fedor, aroma, mau cheiro. Meu corpo se retrai em medo. Minha boca argumenta todo o erigido. Minha mente sussurra Eros e Tânatos. Minhas mãos tocam a utopia – lha dissolvendo. Minha alma amortece a queda em senso. Meu ego mira e se mói. Meu juízo desconhece o infinito.
Desse balaio de gato pós-moderno, digo: viva a diferença! E me aprisiono em mim – meu (o) único mundo –, sabendo já, desde sempre e do início, antes mesmo de ser antes, de tudo e todos.
Desconstruir-me.
Primeiro passo para a comunhão.
0594. Começar de novo
neste espaço que observo
pretendo ocupar aqui uma poesia
mas sempre começo e paro
recomeço e paro e não
me foge a sombra dessa
idéia (quase platônica) de
que deva eu começar o
preenchimento de forma poética
os versos da canção me assombram
os neurônios. coloquei-a na vitrola
pensando assim lha exorcizar
mas qual o quê! nem nada fez-se
às minhas idéias. e o começar
de novo sempre voltando, recomeçando,
quase um eterno retorno
minha burguesidade me lança
imagens de um começar de novo
amóreo – como a música –,
só eu, matutinamente satisfeito
mas na vida o começar de novo
faz-se de formas outras que
não o de uma utopia amorosa
“cinco jujubas, um real!”
“ó o vale tique, ó o vale!”
e todos esses recomeçam,
por vezes já começam no recomeço
(“Bala de coco só paga um real!”)
Ah recomeçar de fato…
Quem sabe numa outra vida.