pausa: Ana C.

Os ventos da idade vinham calmos, mesmo que transtornados, e anunciavam as limitações e a intensidade desejada. Já transcorridos alguns meses de quando larguei o futuro até então mais redondo encontrado para minha vida: tudo seria simples e bom, os moleques correriam pelo quintal ou azucrinariam todo o apartamento, dois financiamentos – um pro carro e um pro imóvel – devidamente aprovados pela Caixa dado os concursos já passados, um amor leve e redondinho abençoado por algum sacerdote. Joguei tudo pro alto naquele então. Definir o motivo é coisa complexa, que se incrusta no interior de anseios tortos e certos pela angústia e pela indefinição.

Só sei que larguei todo aquele e tudo aquilo que poderia advir. Mas logo na pancada, na sequência do então, o amor já me socou na esquina. Amor ciborgue, abençoado por eletrodos e acordes certeiros feitos em guitarras e pandeiros. Amor doce e azedo que me deixou mais poesia, que me mergulhou no emaranhado dos tecidos de palavras que encobrem a banalidade da vida. Livramor libertário e libertino cheio de metáforas, que me conduziu a amar o possível e todas as suas possibilidades.

No meio daquele momento de livramor e coisa e tal, no após lampejo daquele que fora um passado mais-que-perfeito, entre uma construção poética-internética coletiva e outra, foi que me apareceu Ana Cristina Cesar. Quem me introduziu de fato àquela poeta, me fora um amor crítico literário virtual-quase-presente.

Senhorita D. dizia (chamemo-la assim) que Ana Cristina Cesar (alcunhemo-la por Ana C. somente), era a poeta que mais lhe entendia em todo a vastidão e que fora seu objeto de estudos na graduação e seria na pós, ou podeira na pós e seria na graduação, não lembro agora a ordem das coisas. Naquele então eu ainda não havia lido em profundo Ana C., apenas havia passado os olhos por sobre alguns versos, espaçadamente, diletantemente, casualmente. Havia pouco espaço para ser preenchido por quem quer não fosse Paulo Leminski ou Mário Quintana, mas sei que Ana C. não me atinava de todo. Foi nesse contexto que me chegou:

E chegou chegando como mulher que não tem meias-palavras (só meia-bruxa e meia-fera) e te pega no solavanco:

Samba-canção

Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

“Ah, filha da puta”. Foi bem assim que pensei. “Se continuar desse jeito, me apaixono, à revelia de seu suicídio… Ou por dentro de todo o choque e charme de seu suicídio… Se continuar assim, serei seu verso exercício post mortem, a fagulha do seu indício…” arrematei o juízo enquanto bebia um copo de café às altas do dia vindouro, sentando em frente ao monitor com o comunicador instantâneo ligado mostrando que estava em linha. Alguns duzentos quilômetros além, Senhorita D. me guiava:

Senhorita D. diz:
e aí? como anda nossa Ana? rsrs
Chinaski diz:
então…
Chinaski diz:
to, tipo, criando coragem pra continuar…
Senhorita D. diz:
pq?
Chinaski:
bem, pq tenho medo de me apaixonar rápido demais…
Senhorita D. diz
;-)
Senhorita D. diz:
vai na página 59
Chinaski:
peraí…
Senhorita D. diz:
se livra da verdade, se apaixona logo de uma vez…
Senhorita D. diz:
se quiser facilitar, posso pousar a mão no teu peito… ;-*

Aí então eu fui, já sabedor de que algo iria acontecer que me marcaria para sempre:

Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade

Ok, não sou nenhum amante profissional de Brasília, mas tenha cá com ela meus encantos e tenho cá com ela minha relação topofílica específica. Gosto do determinismo ambiental e geográfico que ela me proporciona. Gosto dessa seca e dessa chuva, desse concreto, dessa lonjura, desse céu desmedido e desse tanto de pau torto e barro vermelho, tudo isso sempre me foi matéria-prima poética para lapidar, mas minha relação com ela vai além de sua geografia…

Quando eu vejo alguém escrever algo sobe Brasília, que seja melhor do que ser superquadra na cama do Nicolas Behr, ou luzes das cidades satélites que o Oswaldo Montenegro e o Dom Bosco enxergam – não citarei Renato Russo, me recuso a isso, de merda já bastam as acimas citadas –, já me comovo um tanto. E essa Brasília de Ana C. era muito mais a minha Brasília. Não apenas uma conjunção espacial planejada para a urbe poesificada na plástica aparência além da existência, mas o lugar em que me acometeram algumas vezes esse pouso da mão no meu peito: cidade viva. E o lugar em que ela havia livrado alguém da verdade. Simplesmente lindo – coisa que não uso tal adjetivo à toa, fique desde já sabendo, uso-o, pois, com a devida intenção de transpor a experiência estética sublime diante de algo que mereça se “perder o tempo” em contemplar.

Lá pelas tantas do dia já quase sendo, com a pequena cara vermelha do sol se apresentando para o horizonte, vi que Senhorita D. já não mais estava em linha pelo comunicador instantâneo, mas continuei a ficar aos pés de Ana C.:

Livro bom me leva a querer escrever nele.

EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua
história bem datada. Meus arroubos pela conjuntura.
MAR, AZUL, CAVERNAS, CAMPOS e TROVÕES. Me encosto
contra a mureta do bondinho e choro. Pego um táxi que
atravessa vários túneis da cidade. Canto o motorista. Driblo a
minha fé. Os jornais não convocam para a guerra. Torça, filho,
torça mesmo de longe, na distância de quem ama e se sabe um
traidor. Tome bitter no velho pub da esquina, mas pensando em
mim entre um flash e outro de felicidade. Te amo estranha,
esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do teu amor.

Esse me era especialmente injetável nas veias, tipo overdose de possibilidades: “ok, eu deixo mesmo meu ar coquete pelo seu kantianismo, pouso até o que me explode recostada em meu choro, mas ainda eu – desde sempre nascida e decidida –, faço o que quero e o que posso e que você fique aí esperando pela paz perpétua no estribilho de uma metralhadora longínqua; seu sangue e sua carcaça ainda me armaduram e você me ama e eu amo tudo o que me veio depois desde que amo você, ainda que colagens de paisagens no peito”. Corri a continuar mais, agora já, de joelhos, aos pés dela:

Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos
                                                                        vazios.

Primeiro o soco verborrágico, depois o koan hiper introspectivo. O suprassumo da subjetividade. E a quem, como eu naquele então, doido por sentir além da conta, sentindo tudo o que podia se sentir a cada dia, sendo quase pura sensação, queria apenas encontrar sujeitos que iguais sentissem, existi e residi um quarto de dia naquele um verso quase dois: “volto, para que o vazio se faça inteiro e preciso, lágrima cristalizada num quarto de segundo; basta apenas menos, e eu olharia o que é, para saber que já foi”. Terminei o livro ainda pela manhã e depois poesias me existiram durante um mês inteiro.

É interessante notar que esse é um dos poucos livros “roubados” que estão comigo. Não é meu esse livro, ele é da Senhorita D., pessoa que se encaixaria muito bem nesse poema constante do objeto do “furto”:

Atrás dos olhos das meninas sérias

Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?

O livro me foi emprestado apenas. No entremeio dum dos percursos feitos entre duzentos quilômetros pra lá, duzentos quilômetros para cá. O mais interessante foi a “troca” não planejada havida pelo livro: a sorte o trocou por um agasalho que ficou com a Senhorita D. Naquele tempo, esse agasalho me acompanhava sempre e eu tinha por ele um carinho imenso. Ele era bem parecido com a minha cara, talvez fosse já a minha cara. Era uma das “roupas de uma nova vida” que eu havia adquirido para me manter mais coeso depois da largada que eu havia promovido (lembra-se dela? a do início desse papo todo…). Hoje em dia imagino por onde ele anda, se nas mãos de alguém que precisa dele mais do que eu, ou se agasalhando o peito tocado pela mão de Senhorita D. de um literato ou crítico literário qualquer, mas gostaria que ele estivesse assim:

Noite calma, Jim afina o violão, Caio espera a cantoria, Paulo com "o" agasalho e cara de tacho e Cecília é puro encanto...
No fim da noite tudo é permitido: Paulo já deu "o" agasalho para Charles – e mesmo as calças –, Franz tenta lembrar aquela do Adoniran, Ana toma uma e tenta puxar o samba da memória e Vinícius fica ali meio paradão esperando a galera voltar com mais uísque...

Naquele momento eu estava aberto às sensações. Sentia tudo vindo a mim como um grande continuum de sincronias do acaso predestinadas. Senhorita D. chegou-me num rompante de poesia vivida e compartilhada, trouxe-me a possibilidade do encontro com Ana C., deu-me sua parcela de gosto no mundo e foi-se embora com meu agasalho, deixando-me seu livro – provável que ela levou mais coisas ainda: um gosto ruim na boca, um carrinho-de-mão, pelo menos, repleto de desilusão e um certo rancor pela espécie masculina. Mas isso tudo é conjectura, fico posto com o que posso mensurar: minha própria existência, que hoje, certamente, seria bem diferente se não tivesse topado com Ana C. em meu caminho.

Bom, já me excedi em demasia e a loucura me acompanha. No fim, o livro é mesmo muito lindo.

Senhorita D., caso ainda queira o livro, é só falar que eu devolvo, não sou, definitivamente, um ladrão de livros. E ah, realmente muito obrigado por te me colocado este livro e Ana C. na minha vida. Como ela mesma diz nele:

Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

PS: Tem muita coisa da Ana C. na rede, é só dar uma pescada aqui.

pausa: Kuri

Provável que o ano era 1998, momento em que me acometeu essa coisa de “buscar cultura”. TV Nacional no talo, rádio Cultura, Nacional e Senado na veia, embora internet ainda fosse apenas pra procurar coisas sobre ets, magia, religiões e pornografia, com direito a madrugada de chats. O balaio de gato era grande, entre um tombo e outro de skate e uma jogada de Heretic no pc, lia muito: Hesse, Hemingway, Lispector, Assis, Kundera, Orwell, Amado, Wolf, Rego, Queiroz, Castañeda, Andrade. Talvez, 1998 foi ano em que mais li na vida. E ainda havia tempo para as festas trash-punk-hip-hop-raulzito-um-quê-de-hippie taguatinguenses que meus irmãos me deixavam acompanhar. Fora as incursões à Chapada dos Veadeiros e todas as consequências místico-mágicas advindas com os adventos lá experimentados…

Naquela época, durante as tardes de domingo com ar depressivo que arrebentavam a barra do dia sempre, quando eu não estava na calçada olhando o tempo cair lentamente, vendo os moleques mais novos correndo pra lá e pra cá, esperando o momento em que o amor me cairia sobre a cabeça, eu estava no meu quarto escutando rádio. Gostava dos programas da Rádio Nacional e da Senado, sempre havia algo sobre música clássica, sobre jazz, sobre música brasileira antiga. Eram áfricas e ásias, portugais sonoros que nunca havia sonhado escutar. Creio que foi num programa do Arthur da Távola, quando ele me apresentava os fados de Amália Rodrigues que eu me atinei em ler poesia. Já a escrevia havia um ano pelo menos, mas não tinha o costume de ler poesia. Fui até a biblioteca de minha mãe e procurei algum livro de poesia, de bobeira, encontrei esse:

Kuri, fiquei pasmando. Será? O nome do livro era bom: “Gueto”. Arrisquei, começava assim:

Gueto

Venha beber conosco, os placidamente aflitos,
pernoitar em nossas pequenas casas sem teto,
partilhar dessa dimensão em que o sonho
e a realidade não se distinguem, não se excluem.
Venha embriagar-se conosco, os anjos tortos,
desatrelar-se, aventurar-se pelo prazer da descoberta
e brindar a loucura com a mesma reverência
com que os outros brindam a coerência
das linhas retas, das quadras, dos quadrantes.
Venha misturar-se a nós, crianças medonhas,
radicar-se nesse gueto entrincheirado
além do território das engrenagens metálicas,
provar a lucidez mágica da poesia
que, de súbito, é uma dor e uma alegria.

Foi uma paulada em minha cabeça de pré-e-te(en)so(´) poeta de 15 anos de idade. Como assim, logo de cara, no primeiro encontro, ela – a poeta e a poesia – já me chamava para beber junto? Como assim, ela falava aquela linguagem diabolicamente ervácea, em tom de tonais e naguais, de partilhar dimensões de sonho e realidade conjuntas? Minha mente já louca de podecresismos, ficou mais louca ainda, quis automaticamente “brindar a loucura com a mesma reverência com que os outros brindam a coerência” e “provar a lucidez mágica da poesia”. Continuei, pois:

Marítimo N.º 5

Não atento ao que os homens
falam de Deus.
Prefiro supor
o que ele mesmo diria
se eu fosse capaz de ouvi-lo.

Alto-mar, maio 75

Estremeci. Lá estava, posta em versos, a minha propensão ateísta, fruto de overdoses e parco entendimento de Raul Seixas (à revelia de que hoje considere-o extremamente teísta e cristão…), paixão por Cobaias de Deus” do Cazuza e Angela Rô Rô e discussões sobre a concepção de deus com o padre da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro durante as aulas de catecismo. Adorei aquele grito “creio, mas não sinto” entoado na poesia, me vi ali. Era um humanismo denunciante já de um demasiado, um quê de decaído e ao mesmo tempo com uma certeza tão forte, que me tocou de todo.

Quis ir mais fundo, decidi ler o livro de uma vez. Nunca havia lido um livro de poesia inteiro, por vontade própria, até então. Os únicos livros de poesia que havia lido eram um compêndio de Tomás Antônio Gonzaga da coleção “Nossos Clássicos” da Editora Agir e “Poesias Selecionadas” de Gregório de Matos, e tudo por conta das aulas sobre arcadismo e barroco durante as classes de literatura com a Professora Marlene.

Cola para a prova sobre arcadismo, onde se pode observar uma transcrição ipsis litteris das anotações do caderno para o livro que poderia ser usado durante a prova.
Detalhe de cola para a prova sobre barroco. Na cola se lê: “O dilema do poeta diante de tendências opostas e conflitivas”.

Continuei a leitura, eram coisas simples, belas e com um poder de concisão que eu ainda não havia percebido ser possível em se tratando de poesia – somente um ano mais tarde eu descobriria que haviam haikais no mundo… –, cada página me pegava de jeito:

Marítimo N.º 9

Se eu lhe disser a verdade,
estarei mentindo.

Alto-mar, junho 75

Uma coisa estranha explodia em mim, o dispersar veloz e impactante de uma matéria até então não sapiente da existência: dois versos, uma verdade, uma mentira, uma brincadeira silogística. Tudo ali em dois versos simples, provavelmente já ditos por qualquer outra pessoa no mundo, mas colocados ali naquele livro, naquele momento. E os lendo – os versos –, fui descobrindo a possibilidade de falar sinteticamente sobre paisagens, sobre a geografia sentimental de lugares (prenúncios de uma topofilia?):

Cidade (I)

Da janela,
um pedaço de céu,
outros apartamentos
um poste e uma renda
de muitos fios.
Nada mais –
nem mesmo a esperança
de que um pássaro
risque o espaço vazio.

Continuando, fui aprendendo a como se dar diante dos paradigmas internos e como rir de sua própria contradição:

Ironia

Às vezes eu me sinto
como se não tivesse
mais nada pra dizer…
aí me contradigo
e os rios rolam seixos
até a beira do mar.

Me antecipando por meio dela, cheguei um tanto ao sentido daquela pureza boba e leve de Manoel de Barros e daquele saudosismo infantil de Adélia Prado, que só iriam dar com os costados em minha vida tempos depois:

No Quintal

Quando era mais criança
e me deitava no quintal
ao lado das formigas,
das poeiras e das vidas
invisíveis, o sol se estendia
sobre mim: juntos
fazíamos de conta que
viajávamos pelo céu.
Um suor lavava meu corpo,
eu ria o riso fácil da infância
e, mercê de Deus, não entendia
o horror de minha avó.

Gostei tanto daquele livro e daquela poeta, que senti um ímpeto até de transbordar a arte dos versos à qual estava me atrevendo adentrar, que comecei a rabiscar desenhos no meio de seus poemas, tentando – em vão – reconstituir com imagens no papel as imagens que via durante a poesia:

Certo que nunca fui bom no desenho. Na real, os desenhos eram primários, como bem se pode observar, mas foi bom tentar fazer algo naquele momento e ainda gosto dos garranchos até hoje…

Leio Kuri agora com uma saudade gostosa, uma distância próxima. “Gueto” é um dos únicos livros que já li algumas vezes e nunca me cansei de ler. A poesia de Kuri em “Gueto” é ácida, amena, progressiva, curta e grossa. Como disse Vinícius de Moraes: “Kuri vive no meio do ‘fogo que arde sem se ver’, sofrendo da ‘ferida que dói e não se sente’, para lembrar Camões. Seu destino – ai dela! – é o amor e a poesia. Prosternemo-nos, pois.”

Lutei pra encontrar algo a mais dela que estivesse por aí, posto na internet, mas só descolei esse link a princípio: http://www.adversos.com.br/poe_kuri.htm, em que existem algumas poesias dela e de outros poetas pertencentes a um grupo chamado AdVersos, que está na ativa desde 1968 (!). De qualquer forma, taí a dica. Quem quiser procurar Kuri, que se cure da apatia poética e bons versos!

pausa: Ledusha

Sempre escutava na Rádio Nacional de Brasília uma música do Celso Foncesa e Ronaldo Bastos chamada “Ledusha com diamantes”. Gostava da música, achava bobinha mas, ainda assim, aprazível aos ouvidos. Não fazia ideia de que Ledusha era uma mulher (mesmo a música falando de “Ledusha e seus namorados”, afinal, não só mulheres têm namorados…) e não fazia ideia de que era uma poeta (bom, pelo menos eu acho que é a mesma Ledusha poeta de quem quero falar). Um dia perambulando num dos sebos perto da Liberdade em São Paulo, como sempre olhando o que tinha de poesia no local, depois de ter encontrado “Poesia varia” de Guilherme de Almeida, encontrei esse livro da Ledusha:

Abri o livro e dei de cara com isso:

sinhazinha em chamas

ai quem me dera uma tuberculose
uma overdose
uma carência esplêndida

Gostei, fiz aquele trejeito com a sobrancelha identificando um certo “ok, será?” e continuei:

via aérea

baby
linda tua carta
a fitinha do bonfim cor maravilha
que por azar perdi no cinema
não enforquei mais a análise
depois que comprei o jeep
vou conforme o vento
pelo rio
comi um poeta na sexta
um crítico no sábado
domingo sonrisal
parece que faz muito frio
aí em são paulo
estou bonita de cabelos novos
pelos ombros
ontem à tarde célia trouxe bombons ingleses
daqueles mentolados
e dois fininhos que matamos rápido
assim que puder mando o flaubert
e a blusa de seda para lilia

Achei linda essa coisa meio largada, com um certo tom de largadamente pensado, achei charmoso. Tipo, comer um poeta na sexta, um crítico no sábado e domingo maldizer o estômago – potencialmente devido a uma overdose de porralouquice que a consumiu, levando-a a consumir dois sujeitos num fim de semana ou mesmo ao cansaço estomacal que deglutir dois tipos como esses deve provocar em alguém: poeta ninguém merece, provocam mesmo azia (pô, azia!) e críticos, bem, são críticos, em grande medida cítricos… Mas aí, continuei:

caça à palavra

repleta, minha alma espreita atrás do estrume do mundo:
de onde vêm os versos, que face ocultam entre o amor e a morte?
às vezes os sons são os mesmos, as texturas, o tempo,
o mesmo homem a revolver-me as veias
onde se lacram as vãs repetições, que noite veste o poema?
o sol nos vasos de crisântemos, ecos de um triste país,
largos horizontes onde meu pai passeia verbos nem sempre sublimes.
tudo é memória, sirenes ligadas. a infância sempre ontem, mas aqui.
todo verso sugere uma serpente oferecida.
que na minha caça à palavra (que face ocultam o amor e a morte?)
não haja qualquer vislumbre de repouso.

Segui assim, com aquele belo final em audição interna – essa coisa de enxergar imagens ao escutar as palavras na cabeça –, enquanto alguns segundos perpassavam lentos ao redor: “que na minha caça à palavra […] não haja qualquer vislumbre de repouso”. Foi paixão àqueles últimos versos à primeira lida. Quis apenas confirmar. Aleatório, cai no fim, página 185:

confissão

sabia os carinhos mais mansos
perdi o hábito

Sorri de leve, matutei cá com meus botões de prender miolos “dura essa moça, bem dura, com um quê de candura, gostei da criatura…”. Fui acordado do nefelibatismo por minha companheira à época: “Então, já se divertiu bastante? Vamos nessa?”, “Sim, claro, vou levar esses dois…” e saímos a descer escadas enquanto eu tentava compartilhar o que desse pra tentar – isso de transpor ao outro sensações que se afirmam no aglutinado da moleira e dilatam o tempo sem qualquer menção palpável da realidade, isso de tentar compartilhar poesia…

Não sei se foi ainda sentado no banquinho de madeira do sebo ou no carro rumo à casa ou mesmo se já em casa, que me deparei com uma dedicatória posta na primeira página do livro:

"Para Guilherme e Pedro, com um beijinho da Ledusha..."

Achei graça da dedicatória, era para um Guilherme e um Pedro. “Seria um casal?”, formulei. Pensei ainda no lance do livro estar em um sebo e imaginei a separação drástica – coisa de morte física ou morte de amor – que haveria conduzido o livro até a prateleira do sebo: Guilherme pego na cama com outr@ lendo Ledusha em seu ouvido, quando Pedro chega do trabalho. Guilherme morto na sala, após consumir dois vidros de barbitúricos, com o livro da Ledusha na mão direita e uma foto do casal em Angra dos Reis na mão esquerda. Enfim, Pedro explicando para Guilherme: “Gato, essa Ledusha é uma porcaria, tudo bem que ela autografou o livro, mas vamos nos desfazer um tanto dessa trolha de poesia de quinta que você tem! Eu também preciso de espaço na estante!”…

Bom, sei que eu gostei do livro.

PS: Fuçando na rede achei isso: http://ledusha.blig.ig.com.br/. Não cheguei a ler direito ainda, mas tem uma ou outra poesia dela por lá, fora alguns insights de diário compartilhado.

2917. então eu vou

em algum hoje
andando num agora
morrerei amanhã

sem o afã da surpresa
sem esgueira
sem a eira e a beira
talvez escorado numa ribanceira

em algum hoje
o agora será visto
quando morri no amanhã

sem a perplexa tristeza
sem o plexo das teias e das veias
sem inteira
ou meia parcela de presença

em algum hoje será
quando for agora
minha morte no avesso do amanhã

sem o tombo da rasteira
sem o pé da dianteira
sem a lida das feiras
certo que igual
só sem minha teima

2913. a hora presa no umbral

do batente pra lá
o concreto torra
certo de que no
asfalto longe
o que emana é a loucura

do batente pra cá
o tempo se transporta
em vagos decibéis
de muriçocas e tapas pelo corpo
e sal liquefeito na pele a escorrer

vibra uma calma tensa
beirando o tesão

único e impossível
resultado para essa equação
cujo coeficiente
é essa hora que avança
e chega mais para trás

2912. científica ficção postética 8

Depois da ceifa do sorgo
na noitinha vindoura
faríamos saraus espontâneos
recitando loas e estrofes
para a cara redonda da lua

Enquanto isso a marica
ajoelhava um a um na roda
e um samburá de amendoim torrado
no meio dava a liga da fome

Um disquim do Emicida
compartipirateado pra finalizar
e Dom Vitim contando histórias
para os filhos dos outros
enquanto pitava um porronco
sobre um tempo em que arte
chegou a valer milhões
não como naquele agora
em que ela valia o mesmo tanto
que se vivia, pois que
como as ondas que no ar nos uniam
ela era então também a própria vida

2909.

caem reis
dinastias imperialistas
apoiados pela demo-cristã-cracia
da águia
que não mais voa
rodopia
do tio de mente não sã
mas sadista
da união idílica das
nações de hipocrisia
com seus paraísos terrenos
feitos em areia sem argila
bradam aos berros
quase por telepatia
com todo o seu aparato de mídia
que caiam todos os reis
sem qualquer nostalgia
mas do mouro cairo rouco
que sequer disse metade
do que se queria
mostram apenas as imagens
dos gritos
da correria
penso sempre que alá
mostrou outra forma
de fazer política
e que talvez um conflito entre deuses
ponha jeová na berlinda
e quem sabe até essa aparente
chinesa falta de fé esquisita
não entra na fita e nos diga
que no fim a Verdade
só se mostrou pros jainistas

2907. Acento

Lá em casa paraavam
diferente os meus pais
Não era um paraês
nortixta que come
galínea fritínea,
era um paraês das grotas
Não era coisa dita num tocantinês puro,
tava mais prum araguaiês
ou um mato-grosseiro goianês
com acento sul-marabárico
Língua cafusa que mistura
cupu-açu com pequi
no paladar e sai a palavrear
dialeto brasílico

Aí cafusão mor foi quando
adentrou nova fronteira,
pois quem me habitava o sotaque
por aquelas bandas de casa
também era Bia
Grande Macabéa, Bia baiana
de seus quase 40 quilos
distribuidos em seus quase
1,50 de comprimento
O pequeno do corpo
não ajuntava no todo da língua
e ela me baianava ouvidos e boca
com essa moleza firme do
centro da Bahia, aguada pelo Corrente
e dura como espinho de quiabento

Daí acento estranho formei no céu
matuto urbano ceilandês
paraado num rural sertânico baianês

2904.

é flor, a bossa me pega
como versos me entranham
e essa estrutura sinuosa
que rompe ar na cabeça
deixa porta aberta no firme
das linhas que teiam
o amor aqui dentro

a bossa toca
se aloca pingos de teclas
na imensidão do bem-querer
e quando vejo, vem de leve
e rompendo tudo junto, você
como bossa-ser

2897. Apagão

esse estágio arabesco
de migrar imagens explosivas
– visões em fogos de artifício –
pelo cume do céu limpo de fumaça
faz ver no vão negro da noite
mais formas do que em nuvens

uma polifonia de quartos de tons
numa semifusa escuridão
acompanhando os olhos
pela sinfônica antimeridiana
hora de um sol perperndicular ao chão
lá na China

raízes tomam conta da noite
galhos rasgam o firmamento
e pequenas porções de momento
pingam formas cadentes no emaranhado
tecido que cobre nossas cabeças

2888. quadro

você faria as suas coisas
esmiuçando o que não foi dito na história
e eu ficaria ali em frente à tela
olhando seus ares de guerra e paz
enquanto tecia as palavras nas teclas e nos eletrodos
sentindo o cheiro doce da canela cozendo na cozinha
e a meia luz da tarde chuvosa
estrondaria no momento em que seu sorriso a pino
se abrisse para o meu
que já se prostrava desde o primeiro encontro
e isso tudo até aquecer no ar essa coberta da noite
que pede para unir pés gelados

2887. oia oia, é ela

no vento nas folhas
no ar que se achega
o meu aconchego
na brisa que chega

é ela

no estrondo do encontro
no beijo nos pelos
arrepio que entoo
balança a estribeira

é ela

no tempo que muda
na coisa que dura
o tempo somente
do vento que pesa

é ela

que fala palavra
feita movimento
que corre o corpo
lânguida e bela

é ela

oia oia, é ela

2884.

Desculpa-me amor
pelo dito
e pelo feito
a intenção não foi essa
tampouco aquela
a coisa ou a cisma
era de que antes da chuva
os calafrios me arrebatassem
e que cada gota
trouxesse em si
um olor de querer mais
e o tato de querer sempre

Mas, desculpa-me amor
o amor não veio
ficou amor somente
sem que houvesse sementes
para maracujás
que se arraigariam nas jaqueiras

Enfim, desculpa-me desde sempre amor
por lhe ter sido sem sê-lo
e sem selo que se colasse
nas cartas que escrevi para o tempo
de antes, durante e depois da chuva