2633. Chá da noite em rodopio de estações

belo horizonte a ocasear pelo planalto
com vistas da fúria insanamente iansânica
estrondando as pausas da vida
liquefeita nos poros da superfície terrestre

lindo plano alto no engano de ficar
quando ser não basta na vasta ampliação
do que se pode tocar com as íris,
arcos dessas em prismas de gotas completam

garboso e erodido pelas vestes do tempo
o horizonte se acalma em explosão hidro-eólica
laranjando tardes permeadas de chumbo
em nuvens dessa e da fumaça do óleo diesel

no cedo do que hora é, infunde um negrume
onde antes só azul se esparramava
a noite vem qual chá, difusa-diluída no azul do dia,
fervida na luz do ocaso de quase seis
e sorvida fria em gotas miúdas de uma chuva de fim de verão

 

são esses minutos da Terra antes da primavera aqui no cerrado

2632. Mundo, mundo, lastro mundo…

Quantas e quantas vezes o mundo desmorona
dentro das entranhas
no íntimo dos tecidos
juntando em cada códice partículas mundanas,
corolários de cânceres,
com gosto de sem.

Quantas e quantas vezes mesmo o mundo desaba
dentro da cabeça
no ínfimo dos sentidos
aglutinando no córtex neuras e neurônios néscios,
nódulos de nada,
com nuances de com.

Quantas e quantas vezes ainda o mundo descamba
dentro do espírito
no istmo do recinto
conectando em todo corpo sensível ausências desmedidas,
sobras de solidão,
com o peso de cem.

Quantas mesmo?

2620. De cidades depois do imaginário

cidades com cara de cidades
mesmo que nunca se soube
ao certo a sua existência
mesmo que se pensasse apenas
devaneio a materialidade do estado

cidades com cara de cidades
com pessoas andando nas ruas
pelo meio da noite e alto da tarde
e tornando a sua cidade
mera tentativa de cidade
ou cidade torta cidade

cidades com mar na frente
e morro atrás e ar de água
e vento de mar e areia de praia
e ilhas juntadas e asfaltadas

cidades que tem passado e criação
sem pena de projeto arquitetado
erguido em concreto, vidro e aço
cidades que surgiram de naus e velas
e extermínios de algo que hoje
só se tem com isolados

cidades que se explicam pelo andar
e que onde se vislumbra nomes nas ruas
são cidades que a um vindo
de uma meta-cidade
fazem pensar o que é mesmo uma cidade
e até dão esse ímpeto de morar
em uma
pela primeira vez de verdade

Vitória/ES

2614. Duas estações, uma guerra

um exército de nuvens
se enfileram no infinito
desabado em cima do cerrado

o palco da guerra
entre a seca e a água
é esse começo imediato de espaço

o exército invisível
da seca vem comandado
pelo grande general astro

o céu antes azul
se transfigura transtornado
pelos mísseis estrondosos
de luz das nuvens lançados

por fim tudo tomado
de cinzas nuvens
o céu carregado

a água despenca
como lágrimas de vitória
do exército nublado

hoje a chuva venceu
a batalha, mas ainda
farão meses de seca
para que se coroe seu
temporário reinado

2613. DITIRAMBO DA GLOBAL WORLD NUM PAÍS TROPICAL PRÉ-POTÊNCIA INTERNACIONAL (E eu aqui, vendo tudo de rabo de oio…) Parte 1

CoriFêMêIeu:

Ouçam o que há dos cantos mais ermos do Novo Mundo
Mesmo que fruto do Sol Poente em superação
por conta do que fez o Novo Mundo
ao explodir o Velho Mundo quase como o sol faz dia a dia para iluminar
este parco sistema de poucos planetas
alguns cometas e mais asteróides
Mesmo que não original em essência
ouçam o que há dos cantos mais ermos do Novo Mundo
Lá se diz, com auspícios de boca divina, que o mundo deve
curvar-se diante da potência da onipotência do degrau técnico
ao qual se chegou o poder de troca sem limites e sem fiscal
do produto inútil à abestalhação geral e irrestrita de toda uma nação
Lá se produz o artigo colorido de nada e insuflado de mais-valia
e se exige a consternação dócil e cristã do ter sem porque ao consumir ao infinito
Ouçam o que lá se diz e se deixem levar pela narcótica visão do paraíso

Fauno do refrigério, Pio Dom Monsanto Pfzeir Agente Laranja XXIX:

Ó mestre supremo da compra
ensina a estes reles que a realidade
deve ser menos que ela mesma
e mais imaginária do que se pode imaginar

Ó mestre supremo do supérfluo
diz a eles que concede a energia cifrada necessária
para seus parcos empreendimentos
mas cobra-os a saúde e a educação

Educa-os nos moldes cristãos ó mestre
e fale que é aqui que deve ser o paraíso do um milhão
que Deus quer aqui dar o paraíso do um milhão
Exige que vendam suas almas,
pois que a reboque vêm seus corpos
para produzir em frações de milésimos o que eles não terão nunca em fato
mas em doce realidade imaginária maior que a própria imaginação!

Sátiro liberal-social-democrata nº 1, Digníssimo Dr. PhD Fêgácê Zéser Rá Malan:

Pão aos pobres!
Meia imagem de bundas aos pobres!
Caviar e escargot e a bunda aos outro cinco por cento do mundo!
Ó mestre eu vendo tudo
tudo mesmo para que venhas para cá
e nos embebede de empréstimos a fundo perdido
nos arrombe com seu falo de ouro
que a ti entregamos coisas fúteis como nossos meios de instrução e adestramento
nossos precários meios de comunicação com direito até mesmo aos sinais de fumaça,
pombos-correios e tambores
qualquer recurso que se renove ou não
qualquer faísca
qualquer fagulha
a modelação corporal e psíquica promovida em nossos consultórios
e, é claro, toda e qualquer forma de controle de informação possível!
Nós te amamos ó venerável e avantajado mestre!

CoriFêMêIeu:

Assim me arrouba o coração ver tamanha lambeção de bolas!
Meus filhinhos prediletos
Diletos herdeiros que os farei um dia reis do tráfico de escravas sexuais
A quem darei as férteis plantações de coca da Colômbia
A quem empossarei como donatários das capitanias do ouro negro líquido
nos arredores dos expatriados agora doces alcoviteiros de Holywood
e dos humores explosivos dos preciosos gases das paragens desérticas
do centro extremo asiático

Amo-os

Espalhem aos quatro ventos que é assim que tudo é
e que tudo eternamente, como Deus, há de ser sempre
Cem mil léguas de montes de ouro é o que darei a vocês
Pela obediência, pela boa vontade, pela cartilha decorada
pelo ditado sem nenhum erro
Mas cá tenho um pedido a vós fazer
os miseráveis miseráveis estão dando um pouco de trabalho
com essa história revolta de se revoltar vez por outra
contra alguns ditames que vem diretamente dos altos-escalões
tem quem brigue até por preço de passagem de ônibus!
Seus cornos!
Seus filhos de uma puta rampeira desgraçada de uma figa!
Acham que eu sou palhaço?
Quero todos os miseráveis miseráveis dóceis como filhotes de cachorros
Babões, lambões, idiotas, quietos
Ouçam-me de uma vez por todas meus queridos bastardos filhinhos de merda:
não quero mais um pio sobre baderna de comunistinha pobrinho brigando por
o que quer que seja,
estamos entendidos?
Meus lindos filhinhos bastardinhos!
Meus afaga-bolas cativos!

Fauno das milícias, General Eletro-Ford Bayer de Albuquerque IME:

Ó grande supremo
Peço permissão para passar o relatório do último evento
Tenho cá algumas boas e valiosas informações havidas no combate
Nenhum morto no front
Do outro lado foi uma baixa considerável
Aqueles miseráveis miseráveis
Devem ter sido pelo menos uns 80 lá no Rio
Mais uns 500 espancados na Bahia
Mas o carnaval foi um sucesso
Da nossa estirpe não tive conhecimento de nenhuma baixa
O consumo foi bom
O álcool desceu fácil pelo sangue de vários
À revelia de que tenham tentado sabotar nossas mortes planejadas nas estradas
As coitadas tiraram suas roupas, abaixaram até o chão e chuparam gostoso
Foi um carnaval espetacular
A Escola campeã
Como o Grande Pai solicitou
Mais algumas baixas dos miseráveis miseráveis durante a festa
Um carnaval fantástico
Devemos conseguir mandar mais umas duzentas carnes frescas
Para o alto-comissariado europeu ainda essa semana
O ruim é agradar aos orientais
Ô povinho exigente
Mas nada que umas ancas firmes e um belo investimento nas mamas não dê jeito
O tráfico foi bom
Deve estar rendendo bons dividendos para os irmãos vigilantes estatais
Eles devem ficar bom tempo sem encher o saco
O armamento chegou em dia
E com essa crise de cartão coorporativo
Ninguém deve estar pensando em fiscalizar como nós
Privadamente
Gastamos muito mais recursos públicos
Do que qualquer merdinha de ministro da porra do caralho
Ainda mais agora que o gatinho brabo do Fisco metido a leão
Não tem mais como saber o que diabos transamos com a porra daquela CPMF
Abrir conta no exterior era um saco
É melhor ficar tudo por aqui mesmo
Daqui de perto a gente controla melhor
E ainda consegue tirar um bom lucro investindo no Bradesco
Tudo OK
Zero Killed
Deixa os patos na fita que é nóis no DVD
Não esquece de passar essa idéia pra Washington
Salve Senhor dos Senhores!
Câmbio
Desligo

Sátiro liberal-social-democrata nº 2, Venerável Monsenhor Desencarnado Ácêmê:

Ó que bela notícia me chega nestes caudalosos humores de enxofre
deste inferno tão quisto
Antes da minha saída estratégica para encontrar meu carinhoso filho
saí de cena com certo receio de que todo o império erguido
fosse desmoronar, mas quando vejo meu herdeiro nas tribunas
nos palanques e nas ruas, nos bancos de CPIs absurdas
– vou pedir-lhe em sonho que faça uma CPI sobre as bundas,
já repararam com as bundas andam sendo falsificadas?
é matéria de apuração rápida e urgente, CPI mista de preferência –,
vejo que o suor de minha herança não será derramado em vão
e quando vejo que na Bahia,
pelo menos 500 foram espancados,
me lembra os velhos tempos do eito e me bate um saudosismo baiano
uma saudade morena de poder currar todas as escravas que me desse na telha
de poder marcar a ferro em brasa os animais que eu tinha em propriedade
tanto os quadrúpedes quanto os bípedes

Ah que felicidade!
Ah que benfazejo!
Ah meu mestre, como sou feliz mesmo aqui no inferno
como é bom ter dedicado uma vida inteira a vós e a mim
pois que só eu, eu e vós é o que sempre importou realmente
Amo-te
Venero-te
Entrego tudo que rodear genes próximos a ti meu Senhor!

CoriFêMêIeu:

Ah que orgulho
Esse é cria de tempos antigos…
Quando não havia tanto sociólogo e pedagogo de merda pra encher os saco
Fabulosa criação que consegui executar plenamente
Ah se todos os miseráveis miseráveis conseguissem ser assim!
Meu trabalho seria tão profícuo
Nenhum bossal para estragar minhas idéias mirabolantes

Ainda ecoam por aqui os ritos vermelhos desta religião pagã dita marxismo
e meu intuito é de que o Novo Mundo possa, junto ao Velho,
não tão Velho posto que uno agora,
não tão Novo posto que gestado há muito e que percorridas longas trilhas
se desvencilhe desse espectro tão logo possa

Mas a ameaça vermelha da ditadura da prole,
pois que prole mesmo e nunca – jamais! – proletariado de fato,
ainda ronda, como um espectro eterno
Apressemo-nos, pois, em encontrar novas fábulas para distorcer
o ocorrido e novas historiografias que possibilitem uma mais certa acepção
do que foi tido, e uma visão que seja única e exclusivamente minha
– nossa, pois há os acionistas

Inventemos assim novas místicas
novos horizontes de luta para os pobrinhos e para os intelectuais existencialistas
de merda
de preferência algo verde, algo que possamos manipular ao nosso bel prazer
algo que possa render frutos para tratados de sociobiologia
algo que possa manipular os códigos internos das células e dos tecidos
algo que veja no que já fomos a solução definitiva para a necessária permanência
da violência e da agressividade

Deus seja louvado, pois que agora somos todos sustentavelmente
seres preocupados com as gerações futuras
e com os lucros futuros
Ouçam todos!
O futuro a nós pertence e temos de vendê-lo a prestações
para nossos próprios filhos e netos e bisnetos e tataranetos!
Isso é uma questão ética!
E monetária antes de tudo, antes dos entes e dos seres e antes mesmo de nós mesmos

Fauna da natureza, Mrs. Funk-Green WWpeaceFong:

Louvado seja o Senhor!
Do meio da floresta venho aqui dizer
Que o seu desejo já está sendo planeado há tempos
O mapeamento dos recursos já está quase em seu fim
Idiotas sempre financiam e em troca ganham adesivos
E colam em seus carros e vendem nossa imagem sem nem saber
E nos ajudam a perpetuar a idéia de que conservam
O que na verdade já estamos patenteando lá no Japão
Sem falar o que já registramos na China
Cada larva, cada folha, cada inseto, cada fungo já está sendo devidamente catalogado
E até o fim do ano já conseguiremos substituir o silício
pelo rabo de tatu em larga escala
Quanto aos oceanos nem precisa se preocupar
é água demais para se poder fiscalizar nossa ação
ainda mais que somos nós mesmos que fiscalizamos nossas ações
as algas já estão corretamente sendo utilizadas para produzir leite
e o leite de vaca já está sendo corretamente utilizado para manter ainda algum equilíbrio nos oceanos
Aqueles chupa-cabras que resultaram das pesquisas infrutíferas com morcegos
estão soltos mas só matam imbecis
e o melhor é que mantêm alguns outros imbecis ocupados tentando desvendar
o mistério dos chupas-cabras
Tudo geoprocessado
O mundo inteiro na palma de um lap-top
Um banco de dados de tudo o possível e da utilização para o tudo possível
Semana que vem devem falar nos jornais sobre a descoberta de novos anfíbios na Amazônia
Não estranhe se surgir uma nova tecnologia para lisérgicos,
anticoagulantes, esmaltes de unha, monitores de computador
e excitantes sexuais logo em seguida
Há muito que os índios que domesticamos estão nos ensinando coisas
que até mesmo os mais céticos ficariam estarrecidos
Tudo em prol de que vivas eternamente, ó venerável amado meu
Toda a vida a ti
Que a ti é o destino de decidir sobre a morte, ó Imperial

Sátira liberal-democrata-cristã-progressista-nacionalista, Sra. Roseana Yeyê Crucru:

Damo-nos inteiras a ti, ó amado meu
Nossos corpos, nossas mentes, nossa força de trabalho e o suor dos nossos rabos
Nossos rabos inclusive
Pois que há mulheres que lutam por ti também ó grande amado
Já convencemos as miseráveis miseráveis a não cederem à tentação de quererem
ser donas de seus próprios corpos
Há uma campanha já em curso
feita às escuras em salas com homens vestidos de terno preto em prédios de grandes emissoras de tv
para que a educação sentimental da classe média nacional possa ser
devidamente conduzida até o estado cativo novamente de nossas mulheres

Uma chupeta a qualquer hora para ti!
Bastam os dólares americanos, ou euros e os ienes
Rublos não, pois que de máfia já basta o que estamos fazendo com a agricultura
Aviso a ti, senhor do falo de ouro,
de Norte a Sul deste vasto mar de terras luso-americanas
estamos a vender tudo para que tu possas nos enterrar de cifras mirabolantes
Lindo!
Amado!
Deus!

[…]

2608.

BOA HORA – Alessandra Leão by caçapa

juntos
vir, mesmo ir.
sós sempre
juntadamente.
junto a gente,
uma promessa
pressuposta
antes mesmo
da ida ou
da vinda,
só que certa,
só certa,
sossegada:
a gente junto
sem jeito
só dando um
jeito de ir e vir
por um bom
tempo:
fora e
dentro
sós e juntos
juntando
o possível
em idas e vindas –
intransponível –
porque juntos.
cada qual
sempre só,
mas no
instante do dentro
e na
angústia do fora
bem, todos,
belamente,
intensamente,
juntos.

2607. Ganho imenso

deve ser a própria imensidão que se ganha:
a vastidão do mundo na palma de uma mão
em carinho às costas e deslize em todos os
recônditos do corpo, navegando pelos pelos,
eriçando bicos de seios, arranhando em jeito,
batendo com doçura agressiva durante o eito
marcando o corpo para que pelo resto do dia
fique a lembrança do gosto do ganho da palma
de uma mão em encontro a um quisto corpo

de desejo

pausa: pensemos.

“O livro, como um livro, pertence ao autor, mas como um pensamento, ele pertence – a palavra não é tão vasta – à humanidade como um todo. Todas as pessoas possuem este direito. Se um desses dois direitos, o direito do escritor e o direito do espírito humano, tiver que ser sacrificado, certamente o direito do escritor seria o escolhido porque o interesse público é a nossa única preocupação, e todos, eu vos digo, devem vir antes de nós.” (Victor Hugo, Discurso de Abertura do Congresso Literário Internacional de 1878, 1878)”

Mais coisas aqui.

2605.

“À espreita está um grande amor mas guarda segredo
Vazio tens o teu coração na ponta do medo
Vê como os búzios caíram virados p’ra norte
Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte”

sem grandes grilos
sabe isso que destina?
deu morte, lua e temperança:
dispersão ilusória aprisionada

a gente vai ficar assim
segregados num segredo
tentando romper sinas
e decifrando todo sinal
no sem começo dum éter no retorno

e aí, topa desafiar a sorte?

pausa: pausa, pausa, pausa!

Com ela eu casava, lavava a roupa, fazia a comida, cuidava dos filhos, visitava a sogra, passeava com o cachorro e ainda seria o arrimo da família e nem cobraria fidelidade:

Alessandra Leão

Varanda

Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Armei a minha rede na parede da varanda
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Catando eu sou o vento
Dormindo eu viro brisa
Balanço eu vou
Balanço eu vou

Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu

Tá armada a minha rede na varanda
Cantei, o vento já deu
Um sopro de brisa leve
que te governe
quem vai sou eu

2598. Levante de Catira

A todos que aqui estão
A todos preste atenção
A viola acompanha
O baque dos pé e das mão

Nossa festa é tão alegre
Cheia de boiadeiro e peão
Viemos fazer as honras
Cantando nos pé e nas mão

Ai linda flor do cerrado
Viemos fazer menção
Da sua beleza florida
Batendo os pé e as mão

Senhoras as boas noites
Senhores sigam o refrão
E assim vamos cantando
Dançando os pé e as mão

Vai chegando a hora tarde
De ir-se em louvação
E assim nós vamos indo
Louvando com os pé e com as mão

2597. Dona

Bati mais de mil cancela, na estrada dos desengano…

despois qui tumei meu prumo
cum as feição disvalecida
segui batendo as cancela
num troti curto nessa vida

aprumei os zóio em tudo
eu e minha cumpanhera
qui das bravata desdita
sempre foi tão verdadera

essa qui vem sempre cumigo
nunca me cobrô um nada
passava os dia qua’ rio
no mar das vista disabada

e quando nu’a parcela
ela me trazia as rima
vindu na força desses homi
qui nunca teve a minha

ela qui num me abandona
em quarqué situação
ela qui me é toda dona
ela a Dona Solidão
ela a Dona Solidão
ela a Dona Solidão

pausa: várias doses

Engasga Gato

(Kiko Dinucci e Bando Afromacarrônico)

Fui na casa do expedito
Tava cheia de mosquito
Eu num sei se foi macumba
O meus’ói tava esquisito

A urucaca da velhaca
Taca a pata faz trapaça
A danada é das braba
Na arengada de mulata

Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca

A cachaça venenosa
Cangibrina das maldosa
Abrideira aca açu
Canha pinga engasga-gato

Quando era meia-noite
Era fogo era porre
Carraspana chuva ema
Fogo ganso gata jorna

Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca

O gole da madrugada
Na penumbra é meu achote
O xinapa e seu novinho
Quando bebe arrota morde

Os meus’ói tá doente
Tá sofrendo de exagero
Vê macumba na cozinha
Diz que é culpa da caninha

Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca
Malunga água de briga marafu maria branca
Entoava na subida e três tombo na barranca

pausa: Uma pausa, uma oração.

São Jorge

(Juçara Marçal [en]canta, Kiko Dinucci arma toda a prosopopéia…)

Guerreio é no lombo do meu cavalo
Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção
Avanço sob a noite iluminado, luto sem pestanejar
Derrubo sem me esforçar, a guarnição

A guimba e a fumaça do meu cigarro
Cega o olho do soldado que pensou em me ferir
Com um sorriso derrubo uma tropa inteira
Mesmo que na dianteira sombra venha me seguir

O gole da cachaça esguicho no ar
Chorando na labuta ouço a corrente se quebrar
E o golpe do destino esse eu sinto mas não caio
Guerreio é no lombo do meu cavalo

PS: Dispensem os “comentários” do grandioso “apresentador” e ignorem a moçoila bonitinha tentando acompanhar o ritmo da música…

2596. Creative commons sapiens

sempre ando
sample ando
sem pé ando
sampleando

sample sou
sempre somos
samples de discursos
samples de idéias
samples de imagens

nos contatos
nos sampleamos

e nunca meus pais
me cobraram
direitos autorais

nesses mixes todos
somos creativos commos
mix de genes
dessa nossa miscigenação:
sampleei o X da minha mãe
e o Y do meu pai

pela esquerda
dos direitos revertidos
sempre ando
sample ando
desde sempre

2595. sampleando versos II

quando você chegar” sem interfonar
nos “
espaços que ainda procuro
em busca de outro amor
com “
sorriso largo, nenhum pouco acanhado
vou dizer que “
o meu amor já não tem mais tanta frescura”,
e tome cuidado com a “
boca da noite ao pingo do meio-dia”,
preste atenção menina por onde vai passar”,
pois já “
amanheceu outro sol que trará a luz, outro dia, sol lunar
e daí que eu “
vou dar uma bola, vou levar a minha nega para Jacumã

e sim, “tenho um copo cheio, prestes a derramar

2592. Manhã bonita…

hoje amanheceu assim virada a noite de um outro mim
e amanhecido de algo sempre tido aqui
que tinha ficado encarcerado pelo dissabor da hiper-realidade
e corroído pelo claro negrume da brutalidade

mas hoje reguei as plantas e tirei a poeira que amofinava as coisas
e quando passei pelo umbral que soluçava as perdas
abracei o ar como se sempre me tivesse faltado
e o chão ficou travesseiro fácil para um cochilo na manhã

o tremor está passando e vejo aprumar-se uma calma
que se instalara na antípoda do caos de fragmentos feito

a luz da manhã cola cacos
e uma noite de sonhos mostra o rumo

perfeita busca por se reentranhar num em si ainda possível
que consegue contemplar

isso tudo que é mesmo tão belo