não adianta vir
com esse papo
renitente
no final das contas
é só o samba
que me entende
Autor: Guilherme Carvalho
2590.
debaixo da barriguda em flor
de frente para a quaresmeira entrando na quaresma
ao lado da espirradeira branca de afagos visuais
atrás das sibipirunas com sua frondosa verdância
um carro canta o pneu saindo da comercial
com a arte do sexo podendo crer que esculacha irradiando más vibrações
pelo corpo
um céu que pousa ríspido e afável dentro da terra
joões-de-barro pingam pela abóbada
e guardam seus futuros num galho de pau-ferro
a senhora faz o cooper indo de uma asa a outra
o mendigo corta correndo os eixos
equilibrando-se pelas veias centrais do corpo dessa cidade
vírus inoculados em seus utilitários 4×4 infiltram fumaça nas artérias
rápidos, vívidos, crentes
descrentes
concursada gente decente
a lentidão vagueia pelos espaços vazios
desviando das pressas zero quilômetro em sessenta vezes sem entrada
a modernidade é líquida, o amor é fluido
e as mangueiras começam a perder folhas
bem na via-veia intermediária passa uma coca-zero
e hoje talvez chova
bem na hora da novela das seis
2589. Contos do super-capitalismo tardio V (ou pregado na Alta Modernidade)
dentro de um abismo bem fundo
lá no vale do desespero
planta enraizada na pedra bruta
sem sinal de ignição
beirando a inanição:
– ainda agora?
– existe um potencial de ser aí…
– onde?
– na brecha do sarcasmo e do amargor,
tem algo bem aí…
a pedra se desgasta milenarmente
a planta vive o tempo da seiva
– remédios ajudam?
– cara a cara com o desespero, o que é um peido pra quem já está cagado?
2588. Contos do super-capitalismo tardio IV (ou politizando a Alta Modernidade)
em meio ao lócus mais propício para o embate de idéias
(boteco)
três largados tomam uma brahma
possuem cara de desamparo e carência absurda:
– não vou votar em ninguém. aliás, vou até fazer campanha pro ninguém.
– to contigo e não abro!
– é, é isso aí bicho…
ao lado sentam-se duas moçoilas bem afeiçoadas:
– cadê a mô?
– deve estar com a fê…
– vamos pedir uma breja então?
– demorou…
os três desolados, mudam o tom:
– a gente tem que radicalizar velho!!
– vamos botar pra fuder nessa eleição!!
– a gente podia ter napalm, heim?!
às duas, junta-se mais uma:
– ô vidinha de merda, heim nega?
– ô cidadezinha sem possibilidade…
– ô mundinho de sem rumo…
as três tomam duas e vão embora
os três já estão na oitava,
uns quinze minutos de silêncio depois:
– que bosta…
– que tédio…
– meu irmão, pensei melhor, acho que vou fazer campanha pra Dilma…
2587. Contos do super-capitalismo tardio III (ou estocando a Alta Modernidade)
no meio do Socó Dance House Club
partindo o coração na pista de dança
com o batidão sonoro da Banda Deja-vu e DJ Juninho Portugal “É Show”
eis que chega a moça de um metro e meio de pura volúpia:
– dança?
– talvez
– então arrocha
– sempre
em meio à turba dos ausentes ali todos presentes
com o caos instaurado no peito
ébrio de Jurema
torto de luzes e Odete com guaraná
mareado de sertão
danço a volúpia de todos os companheiros brindando ao sucesso do sexo,
teso como o sol do meio-dia
– cê ta me estocando!
me afasto,
ela me arrocha:
– vamo ali pra fora, procê me estocá melhó?
fortuito e desapegado
os ares de um não-amor consumado
o gosto ímpar de fazer pela não desfeita
e ficar ali pela noite, versado na arte de quebrar telhas
2586. Contos do super-capitalismo tardio II (ou perdido na Alta Modernidade)
perdido no meio do cinema hiper-moderno,
no meio dessas pessoas ultra-mega-super-plus-trans-cool-cult-descoladas
que deveriam aprender a arte da inexistência,
eu e minha singela amiga:
– assisti Avatar 3D
– hum…
– é besta, mas o 3D é fera
– hum…
– você vê as coisas tipo bem de perto, saca?
– hum…
– sabe isso aqui, tipo agora? parece com o filme…
– hã?
2585. Contos do super-capitalismo tardio (ou passeando pela Alta Modernidade)
no meio do mato
passeávamos eu e minha ingenuidade urbana
quando chegou o moleque:
– você tem eme-pê-cuato-pleier?
– não,
digo
– o meu deve chegar nessa semana,
pedi pela internet,
dois giga
– que bom, hã?
lhe digo
– é, só cinquenta pau…
lhe mostro um livro,
de poesia como sempre,
ele olha:
– fera heim bicho. é tipo um monitor de papel…
2584. velado, platônico, azul
“eu tenho fé
que eu voltarei pra te encontrar
minha amada“
essa distância nem tanta
que tanto assusta aos
outros
nos dá essa saudade saudável
que tanto nos atenta aos
domingos
essa paixão nunca dita que
dita o peito em sorrir de
manhã
essa coisa que pode ser só
minha, mas que nossa
sussurra
isso tudo ninguém precisa
entender,
e daqui é que eu te beijo
escondido por
detrás disso
que ninguém entende
2583. do platonismo amoroso licoroso
é uma questão política:
no embate entre duas metades
que se julgam inteiras nas partes
eu fico com o que só a mim cabe:
uma garrafa de vinho do porto
Maysa tonteando na vitrola
e a falta de qualquer debate
2582. do cinza e do platonismo
e de você eu cuido
pois que disso se deve saber
– questão ética de todo humano
e amorosa do meu humano -:
que entre os galhos
das árvores
mora luz e ar
e teima o verde
e que acima das copas
mora o mundo
que toda manhã nos abraça
e quando quiser
já fiz esse pacto com o firmamento
e te abraço como as manhãs
de você eu cuido
porque algo que fica firme
depois da poeira da história
que pulsa como
a luz e o ar
abraçando noites e dias
e que me compele a te
acalmar os veios de mar
comprimidos entre os olhos:
chora que faz bem,
deve ser algo que tem que
ser cuidado
mesmo que só por mim
pactuado
2581. nas cinzas
como gosto de você
que foi embora fácil
e deixou esse rastro
apagado até a libertação
fácil fácil
como o todo dessa
sociedade descartável
que sabe como
mas só recicla latinha de cerveja
em micro panela de pressão
eu vou reciclar
esse troço no peito
arrancar esse tal coração
e fazer alguns porta-retratos
provavelmente serão mais úteis
do que essa tarefa repetitiva
e banal de bombear
sangue dentro
desse corpo que
só quer ficar inerte
ai como eu gosto de você
e como você poderia nem se foder
porque disso eu sei
que você gosta
e sempre com qualquer
um que não eu
ou então que se foda sim
sempre com os piores exemplares da raça humana
só pra te lembrar que você
representa o supra-sumo
da bosta da humanidade
e como eu gosto de você
por ter reacendido o
meu transtorno trans-polar
e me dar a perspectiva dos narcóticos
2580. cinzas e quartas
de agora em diante
quem encontrou alguém
parabéns
quem não,
amém
aprenda, pois, a
tecer os fios dessa vida
só,
sem
2579. cinzas e quartas
sobrei e vivi
sobrevivi
sombras e meia vida
sobras de vida
por aqui
serpentina espalhada
junto à lama
2578. Pelas frestas, na multidão
procurá-la em meio à turba
com o tato atento dos olhos
que deixa só a luz dela
tocar essas retinas cretinas
2577. Carnaválias
que a carne valha
o tanto de uma
voadora na jaca
pois
só a carne é aval
para sem razão
todo o carnaval
2576.
e agora sobra o nada
sobram expectativas falidas
existe o dever cumprido
o sempre quase dever cumprido
a percepção de que quase foi cumprido
de que no amahã eterno diariamente retornado é onde ele se cumprirá
nada que sobra mesmo
quartos de hotel vazios mesmo consigo dentro
dentro de si vazio mesmo consigo dentro
um mundo de vir e que certamente virá
todo o passado vindo à tona e querendo sair pela boca
junto à bílis
dentro de si vazio mesmo consigo tão tão dentro
e lá fora, onde o tudo existe
mesmo dentro, onde vazio consigo dentro, ainda existe tudo
tem esse tudo
belamente encantando o mundo e preferindo a necessidade
querendo o bem, o bom e o belo
que estão aí esparramados pelos lençóis da vida
mas, exatamente, nesse lugar preciso do tempo que se chama hoje a agora
sobra
transborda
ocupa tudo
respira ávido por vida
nada
2575. o ciúme
ok
não mais te procuro,
tão pouco
te tateio no escuro
e quero a morte
da sombra desse
sortudo
que te encontrou
depois que
te perdi
de tudo
2574.
terrorismo poético
teorismo profético
teocracismo epilético
soluções plausíveis
para um mundo
pirotécnico
2573. Micro-paisagens
cada pedaço de espaço
toda parcela de terra
tem um algo de enlaço
2572. Meta-paisagens
os estratos do espaço,
acúmulo
de súmulas,
resvalam revelados
2571. Antipaisagens
são esses invisíveis
lugares alhures.
utopias não críveis.
2570. Macambúzio
toma conta todo banzo
um banzeiro dentro do sangue
debaixo do couro
traz um tanto de búzio
esparramando na praia
perto do pulmão dentro do peito
vem futuro junto
lido por baiana:
sem mucama, musa inspiradora,
máximo uma macambira
pra grudar na pele espinho
que vai verter a vida
e fazer do banzeiro uma pororoca
e pipoquear búzio, banzo,
baiana
pra tudo que é lado
2569. ah você que entortou o torto
eu mesmo leio
mas às vezes
de tanta
entrelinha
se fica cheio
e se quer alguém
por inteiro
como você mesma
amparada
em meu esteio
2568.
que a noite venha
sem senha
só uma sanha
sem vergonha
2567.
se eu fosse
mais neurótico
entenderia cada
gesto como
em seta ao meu
genótipo
algo como pernas
cruzadas em prol
da seleção natural:
fenótipo
2566.
o que move a mão a escrever
é a mesma matéria
que conduz as folhas a balançar
essa força
que modela montanhas
conduz águas
até desabar de cima
do céu
em cima de nossas cabeças
é isso que cria:
a ignição para a propulsão
da mão
preencher
espaços preenchidos de branco
papel
2565.
sucinto
só
sinto
2564.
(Para Olga Savary)
congregar os grãos de areia
das margens dos rios
às gotas que se agrupam em serpenteio
água rasgando a terra
irmaná-los ao ar
que envolve o corpo sem
vislumbre de existência
e que cortam milenares toda a terra
nos unirmos ao sal que se
verte junto em gotas
deambuladas pelo sol eriçado
que vira o sal da terra
orarmos juntos
pela união de toda matéria
em frêmito e arrepios
perpassando todo poro
nos fazendo terra
2563. Eu quero
é tanta espera
que dá pra pirar
olhar a semente
passo a passo brotar
e se lança em fé
para ver vingar
e com metáforas
tenta-se regar
pra ver alguma raiz
conseguir fixar
2562. hemoesia
como o vinho da vida jorrado
do pescoço nu dos decepados pelas guilhotinas
da liberdade, igualdade e fraternidade
como um veio de fogo escorrendo
viscoso de cima do cume dum vulcão
dado a dissipar civilizações e estatuar vilas
como o líquido comestível derramado do
pescoço da galinha arrancada a cabeça
eterna ciscante involuntária e agonizante
como a natureza da cultura jorrada mensalmente
ventre abaixo de quase toda
anunciador do não porvir parir
como o tom do vestido arrebatador
decote atravessado lateral que mata e ama
como as bandeiras fulgurantes de um
tempo de proletárias ditaduras
como o amargo campari sorvido
para alicerçar os ímpetos de ventos calmos
e explodir efusões até carnavalizar
como o timbre da guerra
estourando miolos por todo a terra
e tânatos conduzindo-a por campos de marte
é o sangue que brota de dentro de pedras
como nascente desse rio
palavra
2561.
dez amores
em dois sambas
ah o coração
e suas ilusões
tantas
2560.
o arrebatamento
sem motivos
te pega cativo
e ” a sede de ti
prossegue…”
2559.
sozinho ao
lado do lixo,
a mim só
cabe isso
2558.
que bosta
de agora em
diante, toda
noite só vai
ser essa fossa
2557. científica ficção postética 4
2556. científica ficção postética 3
2555. científica ficção postética 2
2554. científica ficção postética 1
aquela ciborgue
reluzia suas coxas
robóticas suavemente
pelo caminho elétrico da rua
contemplei aquela
impetuosidade meio inox
e lancei um olhar de desejo
seus olhos de pupilas
vermelhas como cerejas em calda
me fitaram longamente
creio que ela wireless
acessou meu profile
e me quis também
pisquei o olho e lancei um
gesto para que me encontrasse
na próxima esquina de teletransporte
ela sorriu faceira
sentou-se tranquila no banco
do tele e me esperou
enquanto me olhava comprar
um baseado na maconharia
2553.
o que faz amadurecer
não são as horas
são as eras
que se escondem
entre o espaço
de cada segundo
e fazem amar até
endurecer
2552.
desestruturar as
bases de uma neurose,
encontrar o alicerce
que sustenta essa
casa escondida
por detrás de algum
amontoado de notas
imemoriais, escondidas
por detrás da linguagem,
banidas do palpável
e entranhadas no
mundo onde escorrem
os desejos, as pulsões
e as vontades
explodir essa edificação
e construir sólido
palacete de apatia
e intolerância ao
mundo: a morada
de deuses não humanos
2551.
e o repertório
batido de mpb
de boteco começa
a fazer sentido
novamente
espectro sonoro
da merda que
é por vir
2550.
a solidão no bar
me é merecida
duro rumo da partida
para um caso com o ar
2548. Por onde andei aquele verão?
Caminhei por debaixo das sombras de árvores aguerridas
que penosamente tentavam sobreviver ao massacre indistinto
Chorei copiosamente três manhãs inteiras
posto que ao meio dia não se é horário apropriada para chorar
passei as tardes desses dias cavando buracos no chão duro
atravessando rios e brejos
regurgitando informações esparsas sobre a vida
Naquele vale afluente do rio das araras
passei dias inteiros conjuntamente solitário
vi o azul do céu desabar sobre o vermelho da tarde
vi o romper da escuridão entre o lampejar de vaga-lumes
Lumiei a noite com a lamparina da esperança acesa
Ao retornar para casa
chorei mais três noites seguidas
pois que em casa é bom chorar de noite apenas
Foi naquele verão que todos chamam de inverno
que banhado de lágrimas e suor do trabalho
tomei o prumo da inocência outra vez
2549. dias quentes
dias quentes
consternados
ornados com
água salgada
derramada:
lágrimas
e suor pela
pele quente
dias quentes
inflamados
flamejando em
água fervente
lágrimas que
fazem chá,
café e banho
de descarrego
vazios dias
quentes que
atentam
as têmporas
a tatear na
noite azul sem
estrelas uma
possível
companhia
preenchidos
dias quentes
com o calor
de uma solidão
vertida pelos
olhos e poros
dias quentes:
ilusão diuturna
iluminura aquosa
líquida e ardente
que não
preenche
2547. Resolução
hoje eu paro com isso de poesia
pra ver se me abate o tal do dia a dia
e me morre o amor e me vive apenas a lida
2545. Resolução
essa semana procuro um pai de santo
pra ver se encontro pelo menos um canto
onde possa repousar a falta que vem em pranto
2546. Resolução
essa semana procuro um médico
pra ver se resolvo de vez esse intrépido
tremor revolto que me consome o cérebro
2543.
não imagine o que não se deve
aqui palavras se agrupam desordenadas
não que não queiram dizer nada,
querem sim dizer algo:
o que for que seja na cabeça
de quem as leia
e a descrição nunca perfeita
do que se passou no instante
entre a mão e a condução da caneta
2544. Resolução
essa semana procuro um psicanalista
para ver se descubro ao menos uma pista
de como fazer para que meu coração desista
2540.
esvair
toda
outra
presença
como
uma
mesa
só
considera
a
si
mesma