2590.

debaixo da barriguda em flor
de frente para a quaresmeira entrando na quaresma
ao lado da espirradeira branca de afagos visuais
atrás das sibipirunas com sua frondosa verdância
um carro canta o pneu saindo da comercial
com a arte do sexo podendo crer que esculacha irradiando más vibrações
pelo corpo

um céu que pousa ríspido e afável dentro da terra
joões-de-barro pingam pela abóbada
e guardam seus futuros num galho de pau-ferro

a senhora faz o cooper indo de uma asa a outra
o mendigo corta correndo os eixos
equilibrando-se pelas veias centrais do corpo dessa cidade
vírus inoculados em seus utilitários 4×4 infiltram fumaça nas artérias
rápidos, vívidos, crentes
descrentes
concursada gente decente

a lentidão vagueia pelos espaços vazios
desviando das pressas zero quilômetro em sessenta vezes sem entrada

a modernidade é líquida, o amor é fluido
e as mangueiras começam a perder folhas

bem na via-veia intermediária passa uma coca-zero
e hoje talvez chova
bem na hora da novela das seis

2589. Contos do super-capitalismo tardio V (ou pregado na Alta Modernidade)

dentro de um abismo bem fundo
lá no vale do desespero
planta enraizada na pedra bruta
sem sinal de ignição
beirando a inanição:

– ainda agora?

– existe um potencial de ser aí…

– onde?

– na brecha do sarcasmo e do amargor,
tem algo bem aí…

a pedra se desgasta milenarmente
a planta vive o tempo da seiva

– remédios ajudam?

– cara a cara com o desespero, o que é um peido pra quem já está cagado?

2588. Contos do super-capitalismo tardio IV (ou politizando a Alta Modernidade)

em meio ao lócus mais propício para o embate de idéias
(boteco)
três largados tomam uma brahma
possuem cara de desamparo e carência absurda:

– não vou votar em ninguém. aliás, vou até fazer campanha pro ninguém.

– to contigo e não abro!

– é, é isso aí bicho…

ao lado sentam-se duas moçoilas bem afeiçoadas:

– cadê a mô?

– deve estar com a fê…

– vamos pedir uma breja então?

– demorou…

os três desolados, mudam o tom:

– a gente tem que radicalizar velho!!

– vamos botar pra fuder nessa eleição!!

– a gente podia ter napalm, heim?!

às duas, junta-se mais uma:

– ô vidinha de merda, heim nega?

– ô cidadezinha sem possibilidade…

– ô mundinho de sem rumo…

as três tomam duas e vão embora
os três já estão na oitava,

uns quinze minutos de silêncio depois:

– que bosta…

– que tédio…

– meu irmão, pensei melhor, acho que vou fazer campanha pra Dilma…

2587. Contos do super-capitalismo tardio III (ou estocando a Alta Modernidade)

no meio do Socó Dance House Club
partindo o coração na pista de dança
com o batidão sonoro da Banda Deja-vu e DJ Juninho Portugal “É Show”
eis que chega a moça de um metro e meio de pura volúpia:

– dança?

– talvez

– então arrocha

– sempre

em meio à turba dos ausentes ali todos presentes
com o caos instaurado no peito
ébrio de Jurema
torto de luzes e Odete com guaraná
mareado de sertão
danço a volúpia de todos os companheiros brindando ao sucesso do sexo,
teso como o sol do meio-dia

– cê ta me estocando!

me afasto,
ela me arrocha:

– vamo ali pra fora, procê me estocá melhó?

fortuito e desapegado
os ares de um não-amor consumado
o gosto ímpar de fazer pela não desfeita
e ficar ali pela noite, versado na arte de quebrar telhas

2586. Contos do super-capitalismo tardio II (ou perdido na Alta Modernidade)

perdido no meio do cinema hiper-moderno,
no meio dessas pessoas ultra-mega-super-plus-trans-cool-cult-descoladas
que deveriam aprender a arte da inexistência,
eu e minha singela amiga:

– assisti Avatar 3D

– hum…

– é besta, mas o 3D é fera

– hum…

– você vê as coisas tipo bem de perto, saca?

– hum…

– sabe isso aqui, tipo agora? parece com o filme…

– hã?

2585. Contos do super-capitalismo tardio (ou passeando pela Alta Modernidade)

no meio do mato
passeávamos eu e minha ingenuidade urbana
quando chegou o moleque:

– você tem eme-pê-cuato-pleier?

– não,
digo

– o meu deve chegar nessa semana,
pedi pela internet,
dois giga

– que bom, hã?
lhe digo

– é, só cinquenta pau…

lhe mostro um livro,
de poesia como sempre,
ele olha:

– fera heim bicho. é tipo um monitor de papel…

2584. velado, platônico, azul

eu tenho fé
que eu voltarei pra te encontrar
minha amada

essa distância nem tanta
que tanto assusta aos
outros
nos dá essa saudade saudável
que tanto nos atenta aos
domingos
essa paixão nunca dita que
dita o peito em sorrir de
manhã
essa coisa que pode ser só
minha, mas que nossa
sussurra

isso tudo ninguém precisa
entender,
e daqui é que eu te beijo
escondido por
detrás disso
que ninguém entende

2582. do cinza e do platonismo

e de você eu cuido
pois que disso se deve saber
– questão ética de todo humano
e amorosa do meu humano -:
que entre os galhos
das árvores
mora luz e ar
e teima o verde
e que acima das copas
mora o mundo
que toda manhã nos abraça
e quando quiser
já fiz esse pacto com o firmamento
e te abraço como as manhãs

de você eu cuido
porque algo que fica firme
depois da poeira da história
que pulsa como
a luz e o ar
abraçando noites e dias
e que me compele a te
acalmar os veios de mar
comprimidos entre os olhos:
chora que faz bem,
deve ser algo que tem que
ser cuidado

mesmo que só por mim
pactuado

2581. nas cinzas

como gosto de você
que foi embora fácil
e deixou esse rastro
apagado até a libertação

fácil fácil
como o todo dessa
sociedade descartável
que sabe como
mas só recicla latinha de cerveja
em micro panela de pressão

eu vou reciclar
esse troço no peito
arrancar esse tal coração
e fazer alguns porta-retratos

provavelmente serão mais úteis
do que essa tarefa repetitiva
e banal de bombear
sangue dentro
desse corpo que
só quer ficar inerte

ai como eu gosto de você
e como você poderia nem se foder
porque disso eu sei
que você gosta
e sempre com qualquer
um que não eu
ou então que se foda sim
sempre com os piores exemplares da raça humana

só pra te lembrar que você
representa o supra-sumo
da bosta da humanidade

e como eu gosto de você
por ter reacendido o
meu transtorno trans-polar
e me dar a perspectiva dos narcóticos

2576.

e agora sobra o nada
sobram expectativas falidas

existe o dever cumprido
o sempre quase dever cumprido
a percepção de que quase foi cumprido
de que no amahã eterno diariamente retornado é onde ele se cumprirá

nada que sobra mesmo

quartos de hotel vazios mesmo consigo dentro
dentro de si vazio mesmo consigo dentro

um mundo de vir e que certamente virá

todo o passado vindo à tona e querendo sair pela boca
junto à bílis

dentro de si vazio mesmo consigo tão tão dentro

e lá fora, onde o tudo existe
mesmo dentro, onde vazio consigo dentro, ainda existe tudo
tem esse tudo
belamente encantando o mundo e preferindo a necessidade
querendo o bem, o bom e o belo
que estão aí esparramados pelos lençóis da vida

mas, exatamente, nesse lugar preciso do tempo que se chama hoje a agora
sobra
transborda
ocupa tudo
respira ávido por vida
nada

2570. Macambúzio

toma conta todo banzo
um banzeiro dentro do sangue
debaixo do couro
traz um tanto de búzio
esparramando na praia
perto do pulmão dentro do peito
vem futuro junto
lido por baiana:

sem mucama, musa inspiradora,
máximo uma macambira
pra grudar na pele espinho
que vai verter a vida
e fazer do banzeiro uma pororoca
e pipoquear búzio, banzo,
baiana
pra tudo que é lado

2564.

(Para Olga Savary)

congregar os grãos de areia
das margens dos rios
às gotas que se agrupam em serpenteio
água rasgando a terra

irmaná-los ao ar
que envolve o corpo sem
vislumbre de existência
e que cortam milenares toda a terra

nos unirmos ao sal que se
verte junto em gotas
deambuladas pelo sol eriçado
que vira o sal da terra

orarmos juntos
pela união de toda matéria
em frêmito e arrepios
perpassando todo poro
nos fazendo terra

2562. hemoesia

como o vinho da vida jorrado
do pescoço nu dos decepados pelas guilhotinas
da liberdade, igualdade e fraternidade
como um veio de fogo escorrendo
viscoso de cima do cume dum vulcão
dado a dissipar civilizações e estatuar vilas
como o líquido comestível derramado do
pescoço da galinha arrancada a cabeça
eterna ciscante involuntária e agonizante
como a natureza da cultura jorrada mensalmente
ventre abaixo de quase toda
anunciador do não porvir parir
como o tom do vestido arrebatador
decote atravessado lateral que mata e ama
como as bandeiras fulgurantes de um
tempo de proletárias ditaduras
como o amargo campari sorvido
para alicerçar os ímpetos de ventos calmos
e explodir efusões até carnavalizar
como o timbre da guerra
estourando miolos por todo a terra
e tânatos conduzindo-a por campos de marte

é o sangue que brota de dentro de pedras
como nascente desse rio
palavra

2554. científica ficção postética 1

aquela ciborgue
reluzia suas coxas
robóticas suavemente
pelo caminho elétrico da rua
contemplei aquela
impetuosidade meio inox
e lancei um olhar de desejo

seus olhos de pupilas
vermelhas como cerejas em calda
me fitaram longamente
creio que ela wireless
acessou meu profile
e me quis também

pisquei o olho e lancei um
gesto para que me encontrasse
na próxima esquina de teletransporte
ela sorriu faceira
sentou-se tranquila no banco
do tele e me esperou
enquanto me olhava comprar
um baseado na maconharia

2552.

desestruturar as
bases de uma neurose,
encontrar o alicerce
que sustenta essa
casa escondida
por detrás de algum
amontoado de notas
imemoriais, escondidas
por detrás da linguagem,
banidas do palpável
e entranhadas no
mundo onde escorrem
os desejos, as pulsões
e as vontades
explodir essa edificação
e construir sólido
palacete de apatia
e intolerância ao
mundo: a morada
de deuses não humanos

2548. Por onde andei aquele verão?

Caminhei por debaixo das sombras de árvores aguerridas
que penosamente tentavam sobreviver ao massacre indistinto
Chorei copiosamente três manhãs inteiras
posto que ao meio dia não se é horário apropriada para chorar
passei as tardes desses dias cavando buracos no chão duro
atravessando rios e brejos
regurgitando informações esparsas sobre a vida

Naquele vale afluente do rio das araras
passei dias inteiros conjuntamente solitário
vi o azul do céu desabar sobre o vermelho da tarde
vi o romper da escuridão entre o lampejar de vaga-lumes
Lumiei a noite com a lamparina da esperança acesa

Ao retornar para casa
chorei mais três noites seguidas
pois que em casa é bom chorar de noite apenas

Foi naquele verão que todos chamam de inverno
que banhado de lágrimas e suor do trabalho
tomei o prumo da inocência outra vez

2549. dias quentes

dias quentes
consternados
ornados com
água salgada
derramada:
lágrimas
e suor pela
pele quente

dias quentes
inflamados
flamejando em
água fervente
lágrimas que
fazem chá,
café e banho
de descarrego

vazios dias
quentes que
atentam
as têmporas
a tatear na
noite azul sem
estrelas uma
possível
companhia

preenchidos
dias quentes
com o calor
de uma solidão
vertida pelos
olhos e poros

dias quentes:
ilusão diuturna
iluminura aquosa
líquida e ardente
que não
preenche