1985. Uma voz

Vem de lá do campo indefinível
entre o susto e a consternação
no meio da arena de embate
entre a alma e a matéria transmutável
algo que vibra na memória
e atinge os meandros de ser palavra

Esta vem devagar
pegando aos poucos velocidade
ganhando corpo e coragem
quase a se materializar
em som e movimento
ela vem sorrateira,
de soslaio e pelas beiras
e ainda assim arrebata tudo

Incontrolável, impossível
toda possível e te controlando
como se fosse uma voz
que se escuta com os olhos
dos ouvidos fechados

1984. É das grandes

Quanto maior a anca
Maior a ânsia
E maior a distância
Que sua mão avança
Pra percorrer todo o quadril

Barriga travada que nada
Prefiro uma leve lombada
E aquela linda gordurinha
Que fica marcada
Com a pequena calcinha

Uma coxa avantajada
Uma panturrilha arredondada
Um pezinho meio cheio
Pra mordiscar com jeito
Dando uma fungada
No cangote e sentido o cheiro

É das grandes que eu gosto
Das que assim se demonstram
E que não tem grilo
Em ter a mais uns quilos

1982. Do encontro

O mundo parece que flerta com o improvável
E o caminho do encontro é longo e a marcha é lenta
As nuvens se agrupam numa chuva atrás do campo eternamente aberto
Vêm devagar
A impossibilidade percorre as folhas paradas da figueira gigante
É uma obra que não acaba e todo seu estardalhar
É um beijo das nuvens com o ar

Nessa época do ano queimada é difícil
Mas ainda assim provável
É a probabilidade do improvável que dá a tônica
E o fogo queima
E as nuvens nesse céu sem fim flertam com a possibilidade
Num caminho longo, percorrido lento,
Acariciando folhas e promovendo beijos de nuvens
E da água no fogo

1983. Macumba Pós-Moderna

Hoje em dia é quase como Mc’Umbanda
Bastar ligar 0800-Mãe-Dinah
E conferir as previsões dos búzios
Com as da bola de cristal
Mesmo sendo você bom cristão
Pode-se fazer um trabalho sem sair de casa
E ainda pode-se ler as previsões do tarô de Marselha

Hoje em dia serve até calcinha da amada scaneada
E-mail ao invés de carta
Que fio de cabelo que nada
Pra um bom trabalho basta o número do celular
E em três noites a pessoa está amarrada

Nessa macumba pós-moderna
Prefiro ficar com as velhas simpatias
De tia-avó vivida
E esperar cinco luas com nome escrito
Em letra vermelha e Santo Antônio de ponta cabeça
Dentro de um copo de água virgem
Prefiro até mesmo deixar bilhete da loto
Debaixo de roseira em noite de lua cheia
E fazer trato com o Cramunhão do que
Fazer trato com essas donas-mães-irmãs-ciganas
Que conseguem ter contato com ET
E ainda ler o futuro na palma da sua mão

1970.

Nunca vi em novelas
amantes às escondidas,
em casamentos, noivados
ou namoros normais,
sem o peso absurdo de
um maniqueísmo tenso
por parte de algum do par,
ser mostrado como
algo possível,
quiçá desejável

Coisa assim não é permitida,
pois a moral não admite
novo amor ou mais de um,
o amor nasce assim único e
morre assado, eterno
Essa é a proposição básica
da norma culta: ame só e para sempre

A beleza de uma descoberta,
do compartilhar nova coberta,
tem que se manter encoberta
pelo manto da vergonha

Amantes são pecaminosos,
são feios, grotescos e malvados
não são seres que podem
dividir uma mesa honesta
Por isso, sempre haverá
mais prisões que se pode pensar

1969.

As informações
têm que ser diretas
pra ontem
e imediatamente
nada pode esperar
uma semana
um mês
um ano
Antigamente
as notícias
chegavam a cavalo
navio, trem e
em carta
“Fulano nasceu”
e no nascimento
da chegada da notícia
ele já estava engatinhando
Tudo era lento
Como escrever
um livro à mão

1965. Sala de aula

O que se passa
nesses rasgos de cérebro?
Uma preocupação
pouca, uma
ambição rouca,
com dor na garganta
de tanto gritar
Um pensamento
que melhor
é lho calar,
um desdém
pelo olhar,
uma angústia
pronta para
ir ao espaço,
uma crença
fútil de que
seu discurso
não é falho,
um sono
quase despencado
em sonho
de Eros e Tânatos
ficarem arregalados

1962. Nara

Nara, antigamente,
sentia frio,
agora se derrete
todos os dias
como se o calor
nunca pudesse
se ir, como se
seus pecados todos
insistissem em
sair por seus
poros incessantemente

Nara nunca mais
dormiu de fato
desde que sua
quentura foi
pra lá da fervura
Nara ardia em brasa
eternamente

Eu bem que tentei
fazer algo por Nara,
ofereci água
e mesmo gelo,
mas Nara,
boa penitente
que é, não aceitou nada
e queima
sempre
até agora

1961. Erro esperado

Sinto saudade
de andar no
meio da rua,
pois as ruas
sempre foram
e serão aos
pedestres

Sinto saudade
de ficar na
calçada e de
ver os cavalos
soltos no meio
da rua, cagando
e comendo

Sinto saudade
da rodoviária,
da espera sem fim
da possibilidade
da aventura na
próxima parada
entrar e se
sentar ao meu lado

Sinto saudade
do erro, de
errar sem medo
de não dormir
procurando uma
resposta para
o problema
formulado

Sinto saudade
de errar, de
sair do trabalho
e errar por um bar
qualquer sem
rumo,
querendo falar
e sem coragem
na ânsia
de estar entre os
meus,
mas não os tendo,
sinto vontade de errar

Como queria poder voltar a errar

1958.

tentei fazer uma
flor, mas o
aglutinado
utópico de
uma ciência
para além
da neutralidade
fez-me restar
um quase
cubo, tentativa
vã de, depois
da poesia falha,
consertar tudo
num molde
pretensamente
reto, de
ângulos
retos,
de linhas
possivelmente retas,
mas aí, poesia
se abateu
novamente
e explodiu
um quase
boneco em
cima do
reto
com certeza
mesmo nesse
desenho, eu
não fui
livre.

1948.

Mastigo, mastigo,
mastigo,
sou um belo
menino,
ninfeto quase
homem feito,
tão rude e
tão lindo

Masturbo, masturbo
masturbo,
um treino
para a eficiência
quase chego
à proficiência
com a mão
promovo a injustiça
de cinco falos
contra uma
só pica

Músculo, músculo,
músculo,
cada vez maiores
e mais túmidos
e para isso:
mastigo, mastigo,
mastigo,
mas parece que
só rumino

1949. Bonita você

Mais do que
pode ser
Pois o nada
além e o
nada aquém
Deixam você
assim tão
beleza zen
Mais à
cabeça ainda
vem: beleza
tao, tal
qual o
caminho do
meio, entre
aquilo do cair
e isso do existir
e o disto de subir
Beleza amena,
boa para à
folha, uma
caneta bic
nova
Beleza que,
como boa,
soa bem a
estudos de
estética e
para a poesia
toda a métrica
e para a melodia
a nota certa
Coisa assim
que sim existe
tua beleza
arrumadinha,
não televisiva
e fictícia,
uma beleza,
assim,
bonita