3658. rede

a casa agora está vazia

debaixo do que pode definir
o contorno da existência

                                          pele

tanto

esse invólucro vagueia
perambula
peregrina
pelos ermos da casa

                                          para

há uma janela aberta
e o mundo para espreitar
imã ela

pulsa uma luz fria desde a janela
constante
tocá-la choca
e a redoma de pele pega
é um impulso elétrico
                                          magnético

o magma das eras que a forma
a redoma
se apega à janela
passa olhos dedos pele

                                          salta

adentra

e o mundo inteiro faz companhia
como se

 

e a casa agora continua vazia.

3657.

e se eu estranhasse essas paredes?
o largo corredor
o quadro celeste em forma de trapézio do quintal
as três marias sempre ali
essa areia de praia solta no céu
que doura a mortalha azul profundo

e se eu estranhasse você?
essa que me apresenta outra e a mesma
numa metade da maciez dos tecidos
no travesseiro companheiro
você mesma que renasce
sem cabelos

e se você renascer alhueres?

e se eu estranhar as gatas, o cachorro?
e não conseguir levar a mão
aos pelos sedentos de carinho
e se eu estranhar o menino?

e se eu estranhar as plantas?
a espada-de-ogum, a samambaia
a jiboia, a dama-da-noite
a arruda, o manjericão, o gerânio
as bromélias, o boldo e a sem-nome
essas que eu plantei, reguei e conversei

e se eu me estranhar numa manhã de quarta-feira?
olho no olho no olho do olho que me vê
mirando nauseado a calça que não me é
a camisa que não me cabe
o trabalho que não me alcança
o sapato que não me entende
as pernas que me arrancam de mim
os óculos
o cabelo
a barba

a vida

e se eu estranhá-la?

me dá a mão, me abraça?

3656.

como o topo dos cambuís
vão no vento dos céus
e o xixi-de-macaco caindo
até ruivo o barro ficar

como o jambolão derrubado
jabuticabando as ruas
e o algodão leve das painas
a tecer a terra em branca vez

como escorregadias as frutas
das saboneteiras a espatifar
e sementes pisadas crocantes
redondas do jacarandá do cerrado

como essas árvores
sempre no mesmo lugar
atravessa os absurdos

fincada

arbusto

até arvorar.

3655.

do clã do universo
minha tradição
remonta às células iniciais
e de todos os troncos
eu vim
remoto

o mistério que me compõe
todo átomo como lenda
da oralidade da luz
à flor-de-lis

paredes, papiros e papeis
cada ponto do meu corpo
grafite helicoidal

geração a geração
esse fluxo de energia
que paira e explode
plasma e pessoas

do som mais primordial
eu ecoo aquela faísca
fagulha
lírio reverberado
o que houve
que há
haverá

um instante

minha genealogia é do espaço
minha herança é o tempo

segredo encravado no crivo
mais fundo da minha cabeça.

3653. recriação de mar

quando me foi dada a missão
depois de tudo volvido ao ventre mãe

quando me inteiraram da função
que o malogro do distanciamento vagou

tinha por certo de novo separar
o que dentro da esfera girava misturado
só ventre e poeira

mãe já não havia também
só secura
era pó e quentura
pingo de estrela crua

e eu não tinha mais cabeça
ninguém quis
tinha pé e mão e tronco

e fui fazer então ela
que mar de novo tinha de vir
e tinha de ser feminina

separei cada pedaço de água que tinha
e salguei com sangue do peito
que é o mais salgado

era toda água muito miúda
e sem cabeça ficava mais difícil de separar

fui pelo tato
que água a gente sente jorrada
pelo toco dos dedos

o pó todo eu soprei e voltou estrela
a água eu amaciei doçura
ternamente e envolvi ela mesma
gota a gota
com sal de sangue de peito vivo

fiz redoma de água salgada
e veios de água doce atravessando
gota única dentro do céu
girando o sol

recompus só a mar
e me desmembrei larvas dentro dela

cada pedaço uma família de peixes
irmãs e filhas e mães

sem barro.

3652. cem quilômetros de solidão

a liberdade é das manhãs
e em cada alvorecer
um deus te nasce
entre os dentes
e morre

os raios enramam
feito jiboia trepando
e o peito desaperreia
ipês dentro
quando flores despencam
face afora

dura pouco
mas são léguas

cada dia
a brevidade das manhãs
põe séculos na pele

só nessas manhãs
você sabe a medida
da sua extensão
quantas eras

só.

3645. rastros de chuva IV

ele não sabe mais nada sobre mim
tampouco pergunta
não sabe que todos os dias eu choro
e reflito acerca da inexistência
não sabe que nada disso se trata
do desespero do suicídio
ou do afã de um fim de amor
não compreende que cá dentro
existem celas, que me aprisionam
cada ânsia um cárcere
grades e mais grades que antecipam
o real da vida e comprimem
não o peito, mas me comprimem dentro
dele, do peito

ele não me olha mais nos olhos
por medo da verdade
eu me encolho e nem tenho mais olhos
tenho correntes, paredes
me prendendo e espremendo
é tanto entranhamento que gera
um próprio estranhamento
não me reconheço

mas ele ronda tão próximo
e tão longe, tem pés de seda
mãos de afeto, que não tocam nada
ninguém

ele sabe do que há de vir
mas não me conta
fico aqui, em coma
dentro dentro
meu próprio carcereiro

ele, o discernimento

3638. Sem soma

Das vinte e quatro que formam
as horas dessa rotação,
sete e meia passo ali
em frente à teletela

Uma e meia duas vezes,
ida e volta,
para ali e desde ali,
no trem

No meio disso, meia eu gasto
jogando alimentos na garganta
a seco

Quando em casa, oito eu durmo,
quando muito
Em média sete, com sorte
Normal seis, com luta

Um quarto com o cachorro
Um quarto passando roupa

Uma e meia desde a cama até a rua,
rumo até ali

Sobram quatro, cinco ou seis,
depende da insônia
Em que eu não sei quem sou

Mas é sempre esse piscar, acabando-as
Cinco dias dentro da semana,
mais dois que não vejo
Só pisco
E tudo assim de novo e de novo
Trezentos e sessenta e cinco ou seis
Décadas

O que tenho daqui para sempre

3634.

sentei na cama no sem forma da manhã
tudo lenteava
olhava aquela brisa de sol pela fresta
e o raio de frio que rasgava a pele

era quase tudo em sépia
lá fora clareava
aqui parecia o sem tempo do passado
e o sem espaço das fotografias

meu intento era ficar parado
nada passeava
quedei nos meus pés em chão postos
e nas mãos, esmaecendo

fui tomando as transparências de vidro
eu apagava
quando vi, nada mais via, sem contornos
e o quarto me guardava a inexistência

3626.

Eu tento disfarçar
Quem olha até pensa
Que cessaram os tremores
Mas meu sangue é magma
Fluindo ruidoso embaixo
Da tectônica da minha pele
Meus músculos em placa
Apenas repousam
Um terremoto destruidor

O sismógrafo do peito
Já identifica o próximo abalo:
Meu corpo à deriva
Encontrando teu continente

Mesmo que não agora

Ainda que lentamente

3625.

A todo quase elas vêm
Não há só um mar aqui
Há um nó aquoso
Adere a garganta toda
E cria um curso perene
Que cachoeira os olhos

Elas lubrificam a visão
Lavam as retinas
Mesmo turvando o olhar
Deixam tudo mais claro
Cristalino
Pelo cristalino dos olhos

Essas lágrimas me inundam
E descem marés cheias
Pela orla do meu rosto

Espero nascentes da minha boca
Pra dizer o tanto quanto
A sua falta me maremota

3619.

Há uma paz que vem
um sem tamanho sem ansiedade
Peito cativo
até desaprendeu a respirar fundo:
há de vir uma palpitação
um medo do escuro
culpa esculpida nas entranhas

Estreitos são os laços que
se tem de desfazer
Mas a casa está arrumada
se alguém vai habitá-la
não se faz questão
de resposta agora

Todos os cômodos limpos
Há mesmo até cômodas vazias, novas

Sem sustos
Portas abertas
O que move o peito é ele ser
sem desculpas
em hélice bater, voar
sem dez, sem diz
que me diz

Não é quimera, quasar
quem dera, quase
É paz e ela assenta
Casa limpa, peito aberto
que respira

É só acostumar