Do que me construo e me armo:
De gotas e galhos. De espaço e céu.
Projeto o torto, a correnteza e enlaço:
É etéreo. Descompasso prediz.
Disso basto. Absorvo o vácuo
Ergo o caule, seiva motriz.
Deito-me lago, dentro-me
e disparato: no vivo ou no morto,
casca, movimento, folha, liquefiz
o que estou é momento
e o que sou não feito, não condiz.
Categoria: Poesia
3259. Antes do céu
Acompanhados desde longe, ficamos
como tudo antes da parada
– a mente em sobressaltos dentro do crânio.
O tempo que se moveu sonolento
despencou em letárgica velocidade
chega esmagou tudo.
A cidade pouca e larga:
cimento, postes, ipês, sol;
e dentro da luz a pino no meio do meio-dia
foi verde o que parou, a praça
em tom brilhante, a ideia com gosto
quando se sabe com a pele,
com a veste dos olhos despida
a desnudar as entranhas
borbulhando aquilo que impele pelos.
Um pombo cruzou o céu
outro pássaro marcou frutas ao largo dos casais.
A paz poderia, mas ficou parada:
“Precisamente, parar é o mote”
antes que alcançasse o céu.
Antes do tempo, ficamos
para ficar com a terra e seus frutos,
alimentar pássaros e se debruçar
pelo largo da cidade, borbulhando
sem sobressaltos
sem céu para voar.
3258. Obrigado
Ficam por murmurar as águas. Entendo pelos meus pés.
Pois que adentram entre o que segue, sendo o que corre.
E fortuitas as nuvens somem em eneagramas azuis
para que eu os decifre e cale com o estampar das flores.
Ficam por explodir amenas. Ainda vejo que o horizonte
abre dentro de meus pulsos seu desejo irrefreável de tocar o sol;
e um vendaval só surge quando uma montanha quer
que lhe façam cócegas em sua dura derme de eras.
Sinto que brotam campos. Sinto que correm pedras.
Levar todo esse mundo quedou-me o tédio em contemplação.
E já não sobra a angústia, queima, sim, aquilo que fala
a língua suave de quando arrebatado pelo não humano.
3257. Avanço
Só falta tamanha presença
E proximidade
E avanço bem curto
Quase dois versos que já se uniram.
O teclado como um santo
Promovendo
O milagre do contato.
Além de uma conversa.
Diminuta e finda conversa
Perturbadora.
O mundo despedaça inesperavelmente.
3256. fica
naquelas noites de vibração
que não dão para o gasto –
o consumo da vida pede
que tudo seja mais
onde falta a variedade
eles inauguram o velho
os pés destoam vagarosos
e os trejeitos são absurdos
– planejadamente
desplugar-se do que alimenta
como foi lá? totalmente mais que demais
matar os antúrios, plastificá-los
superá-los no 3d da tela esquiva
amá-los desconhecendo-os
ficar nu como sempre
se passa as estações dentro
das vestes da moda
tendo o aroma de si comprado a prazo
essas manhãs de expectativas
enroladas junto ao fumo e ao pó
nada é curto
tudo é videoclipe
3255. possível
nesse dia, pasme, em todos os dias
dou uma realidade insustentável
feito se morresse
deixasse o caixão, subisse sete palmos
livrasse-me dos vermes
e quando silenciada a morte
de camisa verde florida
a alma dividida em mil
pontos flutuando em derredor
conseguiria certo livrar o infinito
do castigo de ser breve
visível, o que se acerca,
aquilo que não pode conter
o lugar
jorrado sem ímpeto pela torneira
banhando os dias, a vida
disparatada que o imponderável
guardou em mim
3254. translação
enquanto as flores estampavam os campos
prontas a ornar mesas, jardins, lápides e dias de mortos e mulheres
abelhas almoçavam ração de frangos confinados
e a Terra, detentora de toda terra a lhes dar raízes
esburacava-se, tremia e rachava
e a cada volta que dava em si
elíptica e helicoidal em seus movimentos soltos no sem fim
seres escapavam de sua órbita
e se lançavam ao alcance de nada
como a beleza das flores
despropositada, própria a ornar
desde o que jaz, até o que jaz
3253. Saudosismo
Houve um tempo
Em que a gente digeria
Hoje há toda essa bonança
E profunda azia
Houve um tempo
Em que o que dizer havia
Hoje não há mais saudade
Só todo dia
Houve um tempo
Em que se podia
Não ser feliz, sem agonia
Ou ritalina
Houve um tempo
Quem diria?
Em que o tempo
Só ir, podia
3252. solidão
quando dentro
o sol se apaga
e a noite interna
inferna e inverna
de frio os ossos
é um descampado
e noites de amplidão
quando toda luz
interna hiberna
3251. Deve de ter sido
Como imaginar a solidão de Deus?
A perfeição pede contemplação
desde si, desde outro
Aquela superfície de sem nada
e só a si em todo o comprimento
Uma largura de nada mais,
e tudo para ser posto
Como bastar-se com o inexistente?
Sem porquê ou para onde
além da própria presença absoluta
ou só a ondulação
do vago da matéria negra
a preencher as minúcias
Deve ter sido um muxoxo,
um enraivecer, uma depressão,
uma saudade
Deve de ter sido de banzo
que Deus se explodiu na grande explosão
3250. Juízo
O arbítro do átrio
e do ventrículo
A resignação da vida
atritando com o
mundo: bum, bum, bum
3249. Aboio
Pela manhã anoiteceu
e veio um sopro de tudo
feito som de trombeta
Tava lá, o gado confinado,
a cerca campeando as perdas
A máquina berrou alto,
os bois se debateram
A relva se deu de ração
e as manhãs nunca mais foram
de sua matéria cristalina,
elas caíram pela falta do despertar
Quase tudo se assombrou
e fantasmas trotavam pelos
canos d’água vindos da represa
Até o que vinha pela brisa,
baixando os olhos dos bois
a serem abatidos,
dormiu
Tudo virou visagem,
espectro, sombra
Era aquilo que podia
no sem fim da noite
vinda pela manhã
Só se aprumava um resquício de luz,
quando se abriu a porta das seis horas,
quando o umbral do tempo
desaguou a escuridão já tomada tudo
A cancela meio erguida
só restavam meias vidas
e todo o confinamento do gado
bastou-se ao chão
Algo explodiu no céu,
e a luz se apagou mais ainda
Do sonido das trombetas,
uma graça de melodia
O fim sem mote,
um bife chorava léguas
3248.
Onde meu pai
fugir dos olhares
descansar dentro de si?
Romper a tirania
desse ego coletivo
onipresente
Pousar a mente
não julgar
Nem feio, nem belo
Tocar a realidade
com a palma dos sentidos
3247.
Não desejam a paz perpétua,
mas sim a performance cosmética.
Não outros opúsculos,
mas sim vampíricos crepúsculos
Todos, enfim, pelo fim, absortos.
3246.
guardar as imagens de si
selfie
guardar as imagens em si
devir
3245.
o que
eruptou
em você
vagou
em mim
3244. Por um lugar onde não lugar
Eu não quero radicalizar
a política
eu quero mujicalizá-la
até a música,
em benefício próprio,
da própria Terra.
3243. procrastinar
quando da
proatividade
radioativa
3242. Magia
Não é a pressão que varia
trazendo a falta de ar
e o horizonte castanho
Tão pouco apenas o pêndulo
da Terra
a carregar tudo aquilo
que erode camadas
e envereda verde pelos cursos
Que alucina o doce
o azedo, o amaro
em arrepios de formas e cores
Redundando em redemoinhos,
sacis e chamas
Não, não é uma sucessão lógica
amarrada num encadear
Cada nó é mais do que magia
Cada nó é apenas magia
3241. Para passos, antes e depois.
Mesmo com suas mil cores,
mil formas, mil tramas,
permanecerão assim,
vestindo pés.
3240.
a letra redondinha em cima
do papel amarelado
pressagiava o enredo da saudade
onde foi parar?
no baú do tempo trancado
na imensidão do que não se nega
no desalento de um samba repetido
qual é o ponto em que a carne cega
toda memória?
3239.
desabrigar as pétalas
desestrurar a flor
ou colorir o vento
e pincelar de perfume a terra?
e tudo antes do anoitecer
3238. Feed
Prospecção de bits.
O que restará camada após camada:
as eras, Eros, heróis?
Fenômenos imaginados em cavernas,
toda essa existência em signos
como essência.
Cavernas digitais
a morada dos seres pós-históricos.
A imanência impermanente dos elétrons
a luz iluminista turva o tempo
transpõe espaços
em vácuo.
As letras grafadas nas paredes
e a ânsia por perpetuar a espécie.
Os dados, as cifras, as listas.
Aprisionados os seres pós-históricos
presentes no presente eterno retornável
prismam as sombras da luz dos monitores.
Todos espelhos
só enxergam a si mesmos
sem voltar dentro.
Tudo o que é certo desmancha no ar
dilui, dissipa-se
wi-fi.
Os cabos correntes
amarram um a um
uma a uma
emaranham-se pela Terra
enraízam cada qual em sua caverna.
Os vestígios tão mínimos
quando escavados, separados, peneirados
mostram apenas
o que em vão se tenta esconder:
não há para onde.
E conhecer fica assim,
esse verbo de quilômetros.
3237.
A noite inteira que dá
quando o céu não dorme
A vida inteira que há
quando a morte morre
Um pulso sorriso que vai
depois que ela te acolhe
Um medo todo que cai
depois que se descobre
Que todo ser é o além
e aquilo que se escolhe
Que debaixo do pó porém
brota aquilo que se colhe
3236. Urgência incauta
Alguém que desplugue
Despolitize
Ressemantize
Que desfaça a razão
Pela sorte de sentir
Que sempre vive,
disse um exemplar de
Homo sapiens sapiens
dentro de uma igreja
ou de um fáscio
que não dava pra distinguir
3235. Apanágio psicanalítico
aos poucos
uma distância
se mede
alcança
cada metro
em lembrança
estende o
passado
à latência
do que no agora
emana
toda história
mora na memória
que permanece
insistente
tensionando a
lentidão que conjuga
o que foi
à pressa do que
há de vir:
o presente da presença
3234. Para a surpresa
eu me oriento
com o fluxo do desejo
e opto pela variância
dos dias
essas probabilidades
não estáticas da vida
essas estatísticas
não medidas
médias aleatórias
do que pode ser
que prossiga
3233. Pós-paisagens
Não é que nada exista
É que turva pista
Só se vê o que avizinha
Todo além
Não se alcança à vista
3232. Naturalista
Quantos segredos
que ela guarda
na palma da mão?
E nos seus dedos
que ela para
como fosse um não
Pelo que vejo
parece um maneio
que não se concorda
com o coração
E mesmo não sendo
a mão liga ao peito
pelo balanço de
uma pulsação
E pulsa então
pulsa pois não
há mais segredo
apenas aperta
a dela tão certa
com a sua mão
3231. Twisttuer, o mercenário
Tudo que ele toca parece perecer
Menino do dedo verde avesso
Menino do mindinho de envermecer
3230. No inglório século das cinzas
Terá sido a sinastria
Que deixou a casa vazia?
Ou a falta de sintonia
Na tevê de tela fina?
3229. Com boca fechada se voa
Esperando aquele momento
Inesperado
De se colocar de lado
Calado
Mas alado
3228. Estimando
Essa coisa amorfa
No espelho absorta
Não morfei, mofei
3227. Corpo morto, ego roto
Paredes comprimem
O sangue imprime
nelas um limite
Essas paredes de pele
que iniciam o infinito
a que em si tudo termine
3226. A janela aberta
Cachos enraizados
cultivados
por monotonia e doses de raiva
Olhos baixos
prestando atenção dentro,
mirando fora
A mente alta
desconectada dali
leva o corpo a cultivar cachos
Um corpo se contrai como feto
breves lampejos de sono
inundam sonhos de cafunés
Um frio entra
silencioso
Como passos de um gato ladrão
Algum tecido infinito separa
Corpos marcados de história
respiram cansaço
Coisa que gela
esquentando o estômago
A janela aberta
A brisa que empareda o corredor
Barulhos surrealistas irrompem tudo,
ensurdecem a tevê
quase borram a modulação das sombras
que o aparelho ligado no escuro emana
Passados passam
pipocam
Poucas palavras
Palavras receosas, medrosas
Retornos eternos, infernos
Um exemplo de grama verde pega fogo do outro lado
A mão quase toca a perna
Para
Receosa, medrosa
A janela continua aberta
o frio colhe silencioso o fogo
Olhos se evitam
Algo se perde
A janela sempre aberta
3225. do ori
meu ori é da origem
gene que percorre todos nós
meu ori enfrenta todo afã
arqueado em paz
meu ori branco e reluzente
lufada de luz presente
desde o barro
pacifica todo algoz
meu ori
é da origem
do germe da gente
do gene
negro
envolto no tom da paz
3224. primaveras juninas
apocalípticos e desintegrados
apolíticos proto anarquizados
dionisíacos quase apolíneos
olavizados
caóticos em suma
pelo consumismo consumados
pelo anticomunismo noiados
por quasares quânticos apaixonados
floresceram como ipês em meio à seca
caos, cores e carnaval
alguns blocos bloqueando a paisagem
tática e movimento
enredados em redes, paranoicos
puro “povo” num espetáculo trágico
de carona em algo não visualizado
como sempre, sintomático
daqui alguns séculos, as primaveras austrais
serão comemoradas em junho
num ritual cristo-pagão de malhação
de gente viva
ao final, jogar-se-á uma partida de futebol
com a cabeça de um político
em honra aos áureos tempos em que
o esporte bretão comovia multidões
e o papa do novo anarco-totalitarismo,
como um rei momo,
abrirá oficialmente as festas juninas
3223. desatino
sempre risível o destino
suavemente explosivo
sorrirei puxando o pino
3221. A beleza como farsa
A beleza é perversa
seu consenso é fatal
Ela oprime
comprime coisas
pessoas, vidas
em castas de gradação:
mais reto do feio
ao
mais perto da perfeição
A beleza é mórbida
desalinha corpos
deixa marcas no ego
surrupia a felicidade
abusa de quem não recebeu
seu pouso de benfazejo
decepa partes e insere outras
A beleza é dádiva
dada por deus
e deus é injusto e tem planos:
Eis um ser perfeito, ainda que feio
Agora aguente
ou se tiver dinheiro,
intervenha
A beleza é uma farsa
Impiedosamente a história
não a ataca
e converte em mera questão
de proporção e gosto
a opressão que jaz atrás de si
Um dia, oxalá, não veremos
a beleza, veremos
3220. Nada pós
Pelas manhãs,
nesse mundo já
elétrico
eletrificado
eletrizado,
ainda perduram
os estalidos mecânicos
nos tímpanos.
Máquinas
queimando vorazes
eras fósseis
da Terra.
3219. Wanderlust
a inenarrável vontade da estrada
quando o futuro é além paragem
e o presente é caminhada
3218. pulsa a intelectualidade no bar
tudo sempre circunscrito
em volta do seu umbigo
as mesas de bar flanam
por léguas de achismos
tão certos e imprecisos
“eu vi na internet”
“não lembro onde”
“talvez no face”
“li em algum lugar”
olvidam que o que
aprenderam nas aulas
de antropologia aplica-se
sempre a si e seu mundo
as mesas de bar burguesas
são relações socioeconômicas cegas
todos os outros são fetiches
para além de chicote e cinta-liga
a foice e o martelo da lida
além da vida, tem vida
os outros têm vida
as mesas, vazias
3217. Caso liberal
3216.
não é algo secreto
mas sem alarde
te quero mesmo
debaixo desse sol
quente e nesse
descampado de concreto
mesmo quando olha
e parece que não
quero, é só charme
pra você chegar
mais perto
ou só porque sou
um tanto discreto
e meio disperso
mas onde me conecto
você é o nexo
onde encaixa o teu
avesso pulsa
o convexo do meu sexo
3215. Bambu
O corpo vibra
deve ser por conta
do café com nicotina
ou da entalada palavra
maldita
Vara verde
Mato torto
Presa acossada
por uma matilha
3214.
Meu pulso me impele à sua pele
Meu sangue não esquece
Que me leve aí
Ainda que breve
Que me envolva em você
Que me eleve
Lá dentro e o que reveste
Não esquece!
3213.
quanto tempo
um, dois, três a mais?
quando o sem nome se rompe
e o antes jaz
o que se faz?
conta-se pra frente
ou pra trás?
3212.
Tudo anda tendo a mesma matéria
a mesma cara
cor e tom
Tudo reverbera do mesmo jeito
o mesmo toque
igual o som
O desencanto dos sentidos:
quando gosto e gostar
são tendências
3211.
nesse mundo
atípico
de TOCs
de todos
os tipos
nada toca
tudo ataca
3210.
acorde-me por favor
após o fim
acorde-me, pois,
depois de mim
