tudo no mundo posto
e gostar de si vira
obrigação
como correr vida
nesses tempos
de salvação-ostentação
3409.
Paz, justiça e liberdade
Amor não, que é vaidade
3408. novas oralidades
a antropofagia
maloqueira da rima
de esquina
que se esquiva
da sina
de ser assassina
ou suicida
e se ensina
como legado, na vida
3407. Do recrutamento
Quando a merda rolar
onde recrutaremos nossos exércitos?
No meio da gente
letrada da academia?
Entre o salvo-conduto
da esquerda que vai à Europa?
O confronto se avista
se alumbra
e o exército está nas quebras
no meio da lombra.
3406.
all mine tocava
e eu caminhava
de peito aberto
rumo ao mar
não, não era um
comercial da cvv
era meu estado
de se encontrar
com a vida além
do ar
era a dor vindo
pra me salgar
pra me salvar
3405. Liberdade e segurança
Variações de um dia;
levanto-me e durmo
as horas não se alinham mais
docemente rebeldes,
só murmuram o ácido
percurso dos limites:
when I fall
all.
3404.
Assim como o principal efeito
Da redução da maioridade penal
Será a regulamentação da pedofilia
O maior marco da proibição do aborto
Será a explosão de vídeos graciosos
De bebês vomitando papinhas pelas narinas,
graciosamente
E eu amando ainda
À revelia de que tudo conspire e pire para que não
3403. horauroração
senhora sem hora
rainha do tempo
me aurora
porque sempre anoiteço
3402.
Nos começos e nos fins
as almas serão
sempre mais
atentas às belezas
como se existissem.
3401.
No quintal,
à beira da hora dos mortos
junto às galinhas,
essas dinossauras cômicas,
o dia descansava
sem vento
só vida
3400. ecdemomania
passeio pelo caos
pra ver se me acomete
outra coisa que não seu sorriso
que conforma toda morada
passeio por rios de concreto
e sorrio ainda, longe
em qualquer lugar
pra ver se em algum fluir
é lá que moro
3399. grite
por amor
pela liberdade
por você
eu te liberto
do meu amor
3398. como será
explodir o mundo
com uma paz tamanha
e banho de flores
corroer as estruturas
com perfume e mel
melodiosamente
até as tuas
retirar o pino
metralhar o que preciso
pisando pausadamente no ar
destruindo leve
e pelo riso
3397. a marcha
botas ecoam pelas avenidas
cadenciadas, ritmadas
legiões formadas em púlpitos
aparelhadas embaixo de altares
fileiras de medo e glória
esquizofrenia e paranoia
entoando a oração final contra
a nova perseguição a cristãos
turbas se aglomeram aos montes
prontas a decepar a cabeça da rainha,
como se houvesse rainha
imperioso, o ódio desconhece a ironia
vocifera apenas o pastiche
pastelão, a vontade de potência mais podre
torpe, turbilhão
as classes tomam ciência
as cores se aglomeram “esclarecidas”
as orientações se agrupam, normatizadas
corpos binários e revoltados contra qualquer multiplicidade
o mote deve ser único: um feixe de luz
os números saltam aos olhos
as cores se apoderam de significados
o teatro ideológico vira campo de batalha
e uma mortalha de estrelas cobre o mundo
o exército que salvará é de salvação
contra a danação do pecado e a pandemia da corrupção
coronéis se preparam, de amarelo e youtube
armas em punho, sentido!
sentinelas e guardiões da modernidade
não aceitam o que vem depois
querem o ontem, perfeito, como talibãs
a armada do combate contra a praga de todo o mal
é amante de toda a moral
e do epíteto ecoado do mote liberal:
a solução, meus caros, não é social
é antes de tudo e para sempre, do livre capital
além do que é necessário aplicar a pena capital
e reduzir a maioridade penal
e aceitar que a vida é desde sempre fetal
e que toda droga é fatal
e que não se deve ter prazer anal
e que a felicidade está no além carnal
e que toda mulher tem o gene do mal
e que o egoísmo é solução em si mesma, enquanto tal
a marcha continua, avante
incessante, impulsionada pelos bastiões da informação
os donos do definitivo processo de educação
(decepem até mesmo educadores, decepem, decepem, intervenham)
os formadores de opinião
planejando o futuro em torres de castelos
o futuro é lindo e quisto
então, vamos amar?
3396. Atrevimento
O que o plasma anuncia em seu instante selvático ao largo do sol?
Quem se atreve a dizê-lo é, pois, o sem fim.
Como se sente a matéria negra que comprime a vastidão em desalcance?
Sente que é, esse mesmo momento do fluxo cambiante da energia, como nós.
Quem os planetas aprisionam nos enredos circulares de suas formas?
Assentam acima de suas peles e abaixo do sem fim, nós, que vivemos da mesma matéria e outra vida.
Certas de que somos firmes, firmes de que somos certos.
Não é porque somos poetas que sabemos disso que segreda os buracos negros,
nós não respondemos nada, apenas morremos, como os cometas que se perderão no helicoidal sem fim.
O que sustenta as equações que criamos para as perguntam que criamos é o que se constrói em todas as dimensões.
O universo sabe de tudo isto, e não fomos nós quem contamos: quem fala é o mistério dos quasares quase sendo sóis e quase sendo galáxias, quem diz são as estrelas que se acomodam pelos recantos frios do firmamento, prontas a serem algum calor no colar negro do céu, quem grita é o próprio firmamento que não se firma em nada, que eletrifica os céus nos pólos e alumbra as auroras, derrete as noites, traspassa os dias, os giros e as órbitas, em fluxos incessantes em busca do resquício desse tudo que ainda neles residem, a matéria primordial que em tudo pousa: o próprio tudo.
Somos só uma pausa do sem fim, tentando olhar para o centro de si, rolando em torno de alguma luz, numa dobra dessa colcha de pontos magnéticos que se atraem e repulsam. Giramos como os astros, habitando um sem fim que não enxergamos nos riscos de nossas peles. Nos atrevemos a existir, apartadas do sem fim. Não conseguimos.
3395. dos dias
passo os dias a lapidar diálogos impossíveis
então, naquela vez em que olhamos a estrela
e você me disse que não era o azul
mas o laranja que era a cor mais quente,
você quis dizer que ainda gostava da vida?
a ânsia pela completude de uma resposta que não virá
me deixa como um paranoico à deriva num mar revolto de ódio e insegurança
segurando os cascos e os pelos
para não despontar pelos campos num trotear insano
passo os dias a ler os grãos de poeira e traços dos gatos no chão
o problema não é a impermanência da vida,
ela é a solução
a questão não se afigura nas respostas,
mas nos caminhos
e exatamente um ano atrás, eu sequer sabia que haveria essa possibilidade
os dias são dizeres destópicos
e o futuro é a trilha para o diálogo:
a utopia de não se aprisionar em si
3394. relaxa
o cerne
da carne
tisne
carma
3393.
viver dói
e não te nascem flores
no peito
viver a gente
é um acometimento
de sangue e nervo
3392. fui cigana
tem algo em mim
que não se engana
em outra vida
eu sei, fui cigana
se não assim
por que essa
roda da vida,
aqui no peito gira
e estrada emana?
3391. um pôr do sol de saia
estrela morrente
que mora em mim
castanhola que sim
castiga, tamanca
tamanha
me inflama
flamenca-me enfim
3390.
velma, márcia, patty pimentinha
desde sempre
eu gostava mesmo
era das outsiders
De quando foi
Quando eu era criança, ou um pré-adolescente, ou um adolescente, ou um adulto (caso eu tivesse cometido algum crime segundo a moral geral da população nacional nos últimos dias julga), fui inculcado com uma coisa maluca na minha cabeça que dizia respeito a como eu deveria entender a religião na minha vida. Não sei por que cargas d’água e mesmo onde foi que entendi isso, aprendi que a religião era um preenchimento, era uma orientação, um horizonte dentro de mim que me abria para o mistério do divino. Por alguma sincronia do acaso muito estranha (talvez, mística), naquela época eu aprendi que etimologicamente a palavra religião tinha algo a ver com religar-se, seria tipo uma conexão com algo essencial dentro de si, algo que, na minha interpretação, sempre me levaria a um universo que não era da esfera de estar mera e fisicamente nesse mundo, nesse tempo.
Religião para mim não tinha função social, função econômica, função política, religião para mim, ao largo dos meus parcos 13 anos de então, tinha função em mim, por mim, dentro de mim. Provável que, por isso, comecei a abandonar o cristianismo católico que me havia sido trazido por tradição familiar. Recordo-me bem do momento do abandono do cristianismo católico: várias crianças (ou pré-adolescentes, ou adolescentes ou adultas e adultos) da minha quadra estavam frequentando as aulas de catecismo na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, a Igreja que ficava na entrequadra de onde morava.
Como muitas pessoas que eu conhecia estavam a fazer o catecismo, em prol de se imiscuir no mistério da primeira comunhão com o corpo e o sangue de Cristo, e havia ainda aquela garotinha a qual eu era muito apaixonado, resolvi fazer também. Frequentava as aulas todo sábado de manhã e era muito bom, sempre tinha um lanche nas casas em que seriam ministradas as aulas, a professora e o professor eram pessoas queridas, amigas e amigos ali estavam. Discutíamos a palavra de Deus, a Bíblia e outras coisas sobre a vida, sobre a moral, sobre os bons costumes.
A minha infância quase toda eu estudei em um colégio de freiras, chamado Jesus Maria José, e sempre tive aulas de ensino religioso, talvez por isso, eu fosse um destaque dentro das aulas de catecismo, sempre tinha a resposta na ponta de língua, até que um dia veio a pergunta derradeira, feita num momento em que estávamos diante do padre da igreja e não mais com nossa professora e nosso professor, ele perguntou enfaticamente: “Quem é Deus para vocês?”. Como eu já tinha respondido muitas perguntas, quase todas com as respostas certas, o padre me olhou logo após a pergunta, esperando que eu respondesse e – claro – que lhe agradasse. Daí veio a minha resposta carregada daquilo que falava que entendia por religião naqueles tempos:
“Padre, Deus é tudo.”
O padre deu um riso confuso, mas ainda terno, e entendeu o que queria entender da minha resposta, creio que ele foi numa pegada do tipo: “Padre, Deus é tudo NA MINHA VIDA”. Ele já estava pronto para inquirir outra pessoa, quando eu continuei, afinal, eu ainda não tinha falado tudo o que eu queria falar e tudo o que eu sentia acerca de Deus:
“Padre, Deus é tudo, entende? Está em todas as coisas, no universo todo. Deus é o universo. É a natureza, é tudo que tem de bom. Mas também é tudo o que tem de mau, porque Deus criou tudo, até o mal…”
O padre arregalou os olhos e me cortou decididamente, me interrompeu e disse que Deus nunca poderia ser o mau. Eu tentei interromper ele e dizer que o mal podia gerar o bem, mas ele não deixou e me passou um sermão demorado acerca de como o Diabo podia nos enganar com esse argumento e Deus só podia ser uma coisa: o bem.
Fiquei acuado e não falei mais nada durante as aulas seguintes, afinal, eu entendia e sentia tudo errado sobre Deus. As aulas foram seguindo até o dia em que eu tive de me confessar para no domingo seguinte receber a primeira comunhão. Estava meio desanimado com aquilo tudo, tinha levado um golpe muito duro. Quando fui me confessar, eu não sabia o que fazer, o que falar, durante todo esse tempo, o Demônio havia me enganado e eu não conseguia sentir que Deus só podia ser o bem. Fiquei achando que toda a minha existência era meio errada, porque sempre tinha sentido Deus daquele jeito, como não podia falar que toda a minha existência era um pecado, falei apenas que de vez em quando desrespeitava a minha mãe e meu pai. Ele me falou que era errado mesmo, e que eu deveria rezar alguma coisa, tudo muito desanimador.
No dia seguinte eu fui à primeira comunhão, todo vestido de branco, os cachinhos tinindo, um rosto calmo e provavelmente angelical (se eu fosse loiro, certamente seria angelical). Esperei apreensivamente a hora de receber o corpo e o sangue de Cristo consubstanciados naquela hóstia. Vi colegas ajoelhados após receber a hóstia aos prantos, felizes, intensos. Eu recebi o corpo de Cristo com a mão esquerda para colocá-lo com a direita em minha boca, esperei a hóstia derreter em minha língua sem o mínimo sacrilégio de mastiga-la e aguardei o mistério penetrar o meu ser.
Aguardei.
Aguardei.
E nada aconteceu.
Achei meio tétrica a situação. Praticamente todo mundo chorava, menos eu. Disfarcei um pouco, fingi que chorei e fiquei ali, vazio, dentro da igreja, acreditando que eu estava abandonado por Deus, que eu não o merecia. Foi uma das maiores decepções da minha vida.
No outro dia eu acordei e olhei para o calendário com Cristo crucificado que havia no meu quarto. Olhei um bom tanto, não conseguia mais me comunicar com ele como fazia antes. Levantei, fui fazer a lição de casa para ir à escola na parte da tarde. Fui até a biblioteca de casa e peguei um livro de “grandes personagens da história universal” que tinha lá casa em casa para responder a uma das questões, era um dever de história. Abri o livro aleatoriamente e dei de cara com um dos “grandes personagens”, era Buda. Comecei a ler aquele capítulo por acaso, as imagens eram interessantes, havia uma que mais me fez ficar intrigado, era uma imagem de Sidarta Gautama, o sábio dos Sakias, impávido, contemplativo, enquanto diversos demônios voavam ao seu redor. O texto falava sobre como Sidarta lutava internamente contra Maya, a ilusão, aquela nos lança ao desejo. Fiquei impressionado com aquilo tudo e li todo o capítulo, esqueci-me até de fazer a lição de casa.
Algo ali me preencheu o peito, me preencheu algo que eu não tinha ideia do que seria, só sabia que preenchia. Era algo meu, que vinha a partir de outro mundo, de outro universo, de outro lugar de mim.
Nunca fui atrás do budismo de verdade depois daquilo, nunca mais fui atrás do cristianismo de verdade depois daquilo, mas uma coisa em mim continua certa, viva, acesa: religião pra mim não tem função social, econômica ou política, ela tem a ver com a minha relação com o mistério, com o místico, com o absurdo de existir, talvez, até com a beleza e eu a vivo todos os dias da minha vida desde então, sem templo que seja, sem sacerdotisa ou sacerdote que baste, ouvindo tudo o que vem, mas escutando aquilo que me toca e é melodioso dentro de mim.
3389. as voltas que o mundo dá
em algum momento andamos
lá longe no tempo
nos becos e vielas das quadras
no peso
fluindo o corpo numa prancha no asfalto
rolês e rolamentos
atravessando o mato seco queimado
queimando por dentro
suaves, sossegados
um pouco mais à frente
mas ainda lá atrás
bem onde a vida bifurca
na travessia de dois motes ou duas sinas
as estradas ganharam léguas
eu fui
ele foi
fomos adiante, radiantes
porque ir é invariável
irremediável
meus remédios eu achei
seguindo a lida do sempre, do agora
e do medo, conselheiro
e da morte, companheira, à esquerda, à distância de um braço
seus remédios ele achou
seguindo aquilo que havia, no agora
sem o medo, maloqueiro
sem a morte, dívida
agora ele é morto
bala no peito
a mortalha de sangue coagulado dentro de um carro roubado
uma noite toda pra ser identificado
o tráfico do proibido
no peito do culpado
o tráfego atribulado pelo carro parado
mais uma conta no jornal, culpado
estou aqui, no agora
longe daquele tempo e desse espaço
mais perto dele do que saberia
com medo
e com a morte
dele
e ele não está mais aqui
3388. dela
mistério assim
nunca que se visse
o brilho, a luz, o fulgor
da cor do azeviche
pausa: Tempo, tempo, tempo, tempo
De como a palavra vai e se lança, envolve, dança:
3387.
desisti das cores
das formas dos sons
a pala que lavra
os campos da mente
em palavras
talvez seja esse
meu dom
3386. o desejo importa
a rubra boca importa
calma, ouve a proposta
não ruboriza tudo logo agora
deixa eu te propor no ouvido
daí você diz se gosta
3385. estado da arte do desastre
eu errei, menti
ela mentiu, acerta
3384. Suicidal Free
Compre agora
esse aparelho.
Não contém
traços de suicídios
asiáticos.
3383.
a voz da experiência
cala a experimentação
ou karma a escolha?
3382. mal-estar
incivilizar toda a ordem
findar os encaixes
líquidos
ou liquidar-se na sexta negra
petroleosa
até sujar-se de
vontade, verter-se de
paixão, assegurar-se
na roda que vai
civilizar a sujeira
3381. Política pessoal de redução de danos – Disposições transitórias
Não crie expectativas.
3380. Política pessoal de redução de danos
Não olhe para os lados.
3379. boa sorte
vai lá
ostenta
ostenta
ostenta
ou tenta
ser feliz sem
3378. Destruídos, vingaremos
Este post, vide o verso,
morreu para todo o resto.
Morreu à glória ao capital,
imitação da rosa infernal,
urro aflito do decapitado,
sangue que serpenteia,
fazendo bem, todo o mal.
Morreu para a revida,
em Shangri-lá, Ivy marãey,
Utopia, bala aflita,
morreu porque é ciclo
e vive pelo que se afia.
Caracteres fincados em led
emaranhados dentro de nuvens
agora, este post, pergaminho,
está sendo absorvido,
pelas palas, pelas peles,
pelas íris de todo humano,
está como o que explode
e domina o território,
já é como o drone móvel
que mata em campo exploratório.
É assim que existe a morte.
3377. Felizes para sempre?
o enredo é autofágico
as cidades são uma só?
composição em rede
a trama é tautológica
cada pergunta é feita
para a resposta sempre
pronta:
a culpa é dos prótons divinos
ou da política stalinista
a verdade é repetida
latida
cada fragmento sincrônico
irá dizer o mesmo
sequência de citações e remixes
por uma memetização da realidade
conecta
e segue o ditame
dita-me
edita-me
duro, suave e quisto
como um comercial automotivo
porque o amor há de triunfar
após mais uma ação da polícia federal
no próximo capítulo
3376. parece que
o estado explodirá
nos estratos não
há saldo
confira no extrato
3375. Prosa
florestas tropicais ecossistemas
ávidas histórias no todo
florestas percorre-se
a ideia fecunda de
emaranhar o vago impróprio
florestas tudo que habita e percorre
de florestas futuras que
se anseiam
morada mimética do mistério
vasto que avança
e gera seres
3374.
O amor é bobo
A paixão é burra
A pegação é medo
O tesão é toc
A saudade é ego
A solidão, um som
na temperatura
do silêncio
3373.
É que a gente sempre espera
daí tudo em volta e dentro se exaspera
e torna toda possibilidade áspera
até mesmo os encontros casuais.
Calma, mana
não espera, só espreita.
3372.
vai lá
fomenta teu ódio
fermenta tua raiva
se amargura
pode ir lá
vou ficar por aqui mesmo
na beira da candura
3371.
a vida é difícil
às vezes pessoas boas
gostam de bares ruins
3370.
o árido ofício de
encurtar luas
quando rola uma
digressão semântica
3369. vencida e fadigada
por que ela me leva a ela?
eu que desisti de todo olhar
que preteri os encantos
que escondi o desejo
e ando a lhe dar adestramento anti-mágoa
instrução aritmética
hermetismo intra nirvânico
mas por que ela me leva a ela?
e põe a descontrolar todas as vozes
então casta-ladas
encasteladas
aladas no infinito
céu de não mais doer
por que ela me enleva a ela, me eleva?
se eu mesma me sei torpe e má
a vilã sem escrúpulos
da novela das seis
a crápula
a gárgula
já me enfiei à deriva
não
não olha cá
que a náufraga
não quer porto
quer mar
3368.
hoje eu reclamei
amanhã eu recomeço
3367.
Acordei sangrando
e sonhei com água
aos cântaros
Aos poucos me atinei
que anoiteci
aos pedaços
Flutuando nesse caos
dos revolvimentos
E uma estrela
passou cadente
pela fresta entreaberta
da janela
Até que dormi
3366.
tudo já havia
um fim, o fio, uma fita
aí apareceu tua panturrilha
a despertar o músculo
entre minhas virilhas
mas tudo havia
aí houve a gente
a formar o que há
a partir do que já havia
pra além de músculo e panturrilha
nos metemos na vida
3365.
lembra da cura?
quando era nosso corpo
na rua
e uma vontade nua
depois te perguntava
pelo brilho
a gente fechava a lua
e terminava assim
eu pelado e você, sua
3364.
deita no meu colo
e exaspera sua pele
se apoia em mim
fala dele, dela, de mim
fala e encrava
sua liberdade
na minha cara
3363.
Destruí o vestido
rasguei com as mãos
torei na faca
retalhei com a tesoura
os farrapos, os retalhos
eu colei um a um
em cima dos meus pelos
com super bonder
Saí à rua assim
envolvido em tiras
elegantemente envolvidas
por lantejoulas furta-cor
Mas ele ainda vivia em mim
e eu vestido de gala
galã sem gola
só trapos
como todo o silêncio dele
que me vestia