Quando janeiro entra assim
mar adentro
peito aberto
rasgando o ano
rompendo a vida
sem inteligibilidade nos fluxos comunicacionais
é certo que ano ímpar é
Quando janeiro entra assim
sem sombra de dúvidas
assombroso
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Quando janeiro entra assim
mar adentro
peito aberto
rasgando o ano
rompendo a vida
sem inteligibilidade nos fluxos comunicacionais
é certo que ano ímpar é
Quando janeiro entra assim
sem sombra de dúvidas
assombroso
Tenho olhado muitos sapatos
Para evitar olhares
Para não oprimir ninguém
Para não se atrever a mais amor
Tenho admirado os sapatos
Odiado os sapatos
Esses sapatos superegos
Do que devo reprimir
Os dias são amontoados de informações inigualáveis e todo mundo sabe disso – talvez, e provavelmente só talvez, em Kiribati nem todos saibam. Me questiono onde mora o tempo agora e já não consigo diferenciar tempo, informação e espaço. Tudo dá a impressão de ser apenas uma mesma coisa seguindo o fluxo da expansão do universo e sangrando nesses pequenos fixos já móveis (plexos em rede, algo como a imprecisão de sermos “nós”): a gente não vê, mas o tudo vai, inflacionário e relativo. Até supermáquinas para super acelerações de partículas tem quem faça. No final deve ser superútil, tipo descambar pra alguma nova bomba ou coisa que o valha (ah se me dessem a chance de “dar um reset”…). Tudo caótico.
Certo, o caos e a quantidade me atraíram por muito tempo, sempre flertei com eles. O caos principalmente, aquele mesmo que “precederia a anarquia” – o ácido sonho juvenil da vendeta (contra tudo especificamente). Flertei tanto com o caos que uma vez consegui até namorar ele, foi tenso. Até um monitor de computador ele jogou na minha cabeça depois que terminei o doce deleite de três meses. Tenso, muito tenso. Dias antes de findar meu romance com o caos, eu tinha comprado
talvez tenha até previsto a necessidade de menos caos, depois do caos. Adquiri o livro em uma barraquinha de livros que ficava em frente ao Quarentão, perto da Feira da Ceilândia, por uns dez pilas. Comprei com uma grande expectativa, posto que uma coletânea poderia introduzir-me a esta poeta de modo amplo – ah a quantidade de informação, a necessidade da amplitude, a precisão da velocidade… No fim, o caos fazia aniversário próximo e resolvi que ia dar o livro de presente para ele. Fiquei meio condoído de minha falta de poesia vindoura, já que teria de me desfazer do livro, tinha lido apenas uns poucos poemas iniciais e seriam pelo menos quatrocentas páginas de metáforas, metonímias, aliterações, enfim, da mais fina flor da poesia.
Refleti deveras sobre o ato. O caos mereceria? Ele tinha tentado me dar uma voadora na jugular no meio da rua dias antes, havia me perseguido até o trabalho jogando pequenas porções de ácido sulfúrico em minha cabeça, me feito correr de cueca na rodovia, me colocado em um tal estado de desmiolamento que acabei por gritar como um louco aos quatro ventos: “VAI SE MASTURBAR COM UM ALICATE, CAOS!!!!”, fez até com que eu traísse meus melhores amigos, bebendo espumante em taça de cristal em festas privês no Lago Sul… Meditei profundo: é, talvez o caos não merecesse o livro.
Resolvi dar uma chance à sorte do caos, jogando a responsabilidade para o acaso. Aleatório como sempre, abri e foi
Verossímil
Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
‘Canta alto, espevita as palavras bem’.
Eu levantava vôo rua acima.
E o pior, ainda era maio. Daí nem li mais nada, liguei pro caos e falei que tinha um presente para lhe dar. Marquei com ele no Parque da Barragem, tava afim de tomar um banho de rio. Depois de matarmos uma garrafa de Velho Barreiro e comer uma porção de ovo cozido, tivemos o sexo de despedida dentro do carro mesmo, lhe entreguei o presente e fiz uma dedicatória bonita. Creio que o caos saiu um pouco confuso do encontro, tudo tinha sido tão tranquilo e bom, por que não continuar? Bom, eu sei que eu não queria que monitores voassem em minha cabeça novamente. Ele me pediu para tirarmos uma foto. No outro dia estava no blog dele, posto assim
Fugi do caos como o diabo da cruz depois daquele dia, não queria mais voadoras, monitores voadores, caminhadas de cueca ou sexo dentro de carros, fui seguindo na contramão do caos. Fui caminhando com essas pedras que se apresentam no meio do caminho e foi num dia bem tranquilo, que de repente, via sincronia do acaso, encontrei novamente o livro em outro sebo. Achei muita coincidência, parecia muito o livro dado ao caos, fui olhar a dedicatória e vi uma

De fato não era a minha dedicatória, era de um “A.” para uma “flor”, assim, bem bonitinho. Enterneci na mesma hora e julguei possível o amor ainda. Acomodei-me nas antípodas do caos, planando lentamente até o banquinho do sebo pausando os olhos em
Um sonho
Eu tive um sonho esta noite que não quero esquecer
por isso o escrevo tal qual se deu:
era que me arrumava pra uma festa onde eu ia falar.
O meu cabelo limpo refletia vermelhos,
o meu vestido era num tom de azul, cheio de panos, lindo,
o meu corpo era jovem, as minhas pernas gostavam
do contato da seda. Falava-se, ria-se, preparava-se.
Todo movimento era de espera e aguardos, sendo
que depois de vestida, vesti por cima um casaco
e colhi do próprio sonho, pois de parte alguma
eu a vira brotar, uma sempre-viva amarela,
que me encantou por seu miolo azul, um azul
de céu limpo sem as reverberações, de um azul
sem o z, que o z nesta palavra tisna.
Não digo azul, digo bleu, a idéia exata
de sua seca maciez. Pus a flor no casaco
que só para isto existiu, assim como o sonho inteiro.
Eu sonhei uma cor.
Agora, sei.
Lindas letras pretas que no branco do papel marcavam paz como lépidos lápis colorindo um borrão calmo de alma pós-caos. Segui o corão poético, assomado pelos contornos que poderiam se abater em mim e me fazer ver metáfora plena: eu lançado a alguém que nunca soube minha presença que estava
A meio pau
Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
– coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.
Com aquela minha distância tão intravenosa, dei a paga em reais justos pelo livro e saí a rodar coletivamente em busca de minha casa. Cada verso que lia, me acomodava em paz e mediação, coisas que haviam se fiado ao custo das apostas, de pagar pra ver: o caos, as voadoras, as coisas voantes… Quando desci do coletivo logo vi
A casa
É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
– esta que parece sombria –
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma idéia de exílio e túnel.
Quanto mais eu lia Adélia, mais me invadia aquela sensação de que sim, o encontro já deveria ter ocorrido há eras. Talvez até, já tivesse se dado, só não tinha me atinado. Dentro de tanta informação, como lidar com o que realmente importa e te transporta para um porto mar aberto à beleza? Afinal, quando se apanha esse corpo da tarde, triste que dá dó, mas cheio de uma esperança brejeira, de uma calma consoladora, é que você percebe que só precisava disso na barra de algum
Dia
As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
– ia dizer imoral –
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.
Aquele maio, quando vi que não precisava do caos, e compreendi que diverso mesmo é esse
Objeto de amor
De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.
resolvi que não adiantaria esquentar-me com os revezes, com as quantidades e a direção dos fluxos – mesmo que amorosos: eles me arrebatariam a qualquer momento. O imponderável e o inominável se cruzariam sempre e diuturnamente na minha cabeça. Mas, se diante da vastidão do que te apresentam, o amor se infiltra personificado e ainda cria nascente no solo da alma, como creditar que a variação é a máxima do que se precisa? Adélia me abriu a proposta que, mesmo no amor máximo, menos pode ser mais, calma e densamente como em um
Pranto para comover Jonathan
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
Ah, só ia me esquecendo de um detalhe, nunca, mas nunca mesmo, pare para ouvir o que Adélia tem a dizer sobre a moral e os bons costumes… Sério.
PS: Adélia sempre foi mais que matéria poética, sempre me foi inspiração:
1293. Adélia I / 1294. Adélia II / 1295. Adélia III / 1296. Adélia IV / 1900. Sem título
talvez eu me afogue nessa
massa cinza
de novo
um dia essa mágoa
há de vir ironicamente
metálica
lâmina na pele do
tempo
a abrir a porta do
corpo para sangrar
enquanto não
essa mágoa engasga
tanto mais ar
nos despedimos presentes
frente à frente insistentes
ficou um tchau leniente
um deixar de repente
e um até amanhã
para sempre
Ele se lembrava daquela água verde
e mergulhava ainda nu
e todos os dias
de feira a feira
A pele dele tinha cheiro de pele de gente
e pelos de pele de humano
cabelos como o todo sempre
hálito e fezes
Ele morria, ele matava
tinha até um roupão e um cachimbo
um medo de ser na noite profunda
tinha alfarrábio
fazia convescote
olhava as horas pelo sol
Vagava entre as sombras da cidade
vigiava a coisa toda de soslaio
se pendurava na rede na sesta da tarde
Se calava na aurora
e esperava os espíritos se assentarem
depois da luz atravessada no limite do céu
Ele era analógico, ela falou
Tanto que biológico
arrematou
Ele vida era ali, tamanho –
deslembrava
daí não seria mais
do rol das coincidências
mas sim do panteão
das justas confidências
elas sempre terão essa aspecto
de assaz superioridade
sempre serão mais
no intelecto que me desmorona
na percepção que me precariza
e na genialidade de corpo
que me põe como ossos num invólucro de couro
sem peso
surpreso
suspenso pelos pelos
que se arrepiam
ao frescor da brisa
sendo leve
suspenso o penso
sustando o surto
assustando o seco
derramando chuva
por sobre tudo
silencioso e terno
como a brevidade
do que vive
sem sobressaltos
sem apelos
sensível
ao som de um anoitecer
que invariavelmente vem
descobri a fórmula do lírio
é feita de cor, deleite e idílio
frágil como o silêncio da noite
imprecisa e variável como um delírio
é quando toda folha se
silencia na sanha
de buscar inspiração
é quando há um soco
só que não
por que eu não consigo entender
que toda chuva fina assim
me deixa meio blasé?
um dia
quando o sol for lua
ainda vou navegar
a chuva
calma
respira o que precisa
sente entrar,
cheira o que entra
solta o ruim
deixa esvair
se esvazia um pouco
de um tudo
funciona seu peito
adentra o que te adentra
desapercebido, percebe
calma
enxerga melhor
fecha os olhos
abre a mente
sente com a visão
as cores, as formas
elas te formam
te informam
deixa a luz te tomar
se assenta no pouco da escuridão
calma
escuta esse tudo
percebe que vibra
saca o tom
as notas
as ideias na melodia
para na ideia
ela cadencia
ela adentra a cabeça
o som virando mais que ideia
sentimento
observa as palavras
os timbres
seus sentidos, sua densidade
calma
prova melhor
permite o sabor
arrebatar a sua boca
seus dentes, sua língua
sua garganta
se permita
experimente
deixa o doce
percorrer o salgado
percorre o azedo
com o canto do maxilar
encontra o prazer
no fundo do amargo
acalenta teu ser
com o apimentado
tenta
calma
toca o mundo
percebe seus pelos
roçando sua pele
pega as texturas
alisa
afaga
encosta
vibra com o quente
dispõe-se ao frio
anda a mão pelas
rugosidades
explora as frestas
expõe-se ao liso
veste a sua derme
ela te engloba
calma
viva melhor
respeita a tradução
enfrenta a tradição
crie o novo
renove a vida
volte ao que era
singeliza
para pra pensar
age
mede, pesa
vale a pena
mesmo as penas
solta suas plumas
voa
se conecte ao mundo
desconecte-se sempre
que os dados te dominarem
e que os impulsos
fizerem morada em si
toma conta do seu envoltório
toma ciência do que gosta
resolve sua noia
abre o peito pra vida
viva o peito
escuta tua intuição
não reclama
clama ao vento
e se ventania houver
arregaça as mangas
e reconstrói
aprende a clamar
erra
calma, muita calma nessa hora
em que tudo ataca
calma
provei
minha masculinidade
tem gosto
de porra nenhuma
Talvez na Ucrânia
nas franjas russas
ou quem sabe alhures
nos Urais
as coisas ainda serão na vera
realidade palpável
como cartas em 1876
ou serão meras cenas
e caracteres
sintetizantes do universo
atualizando a irrealidade
a cada segundo
ou serão amálgamas
entre o que não existe
e essa impermanência
que se borra em ser
Uma estrada de ferro
transíndica
e o mundo dentro de um balão
números, números
e mais dados
“o ido o tido o dito.
O dado o consumido.
O consumado.”
Um trilhão que cruza o infinito e esbarra
no improvável do amor
mel de não se ter
O que importa
se nada mais se exporta?
Tá dentro aqui
por debaixo da pele cansada,
vibra em síncope
o que eu queria
mora aqui
Me ponho avesso
as células a me abraçar
olho para o estetoscópio
e o ponho no ermo do peito
Escuto
tá aí
dentro
saindo pelos poros
O coração pulsa
eu jogo conversa dentro
e redescubro que
da boca sai companhia
e sai de dentro
A felicidade não me cabe
lapsos se assentam
olho um cardume sob o mar
inadvertidamente
Tão pouco sei o nome do tempo
das eras
e acompanho o trotear das paisagens
que me habitam
A amor me empodera
me empareda
e sofro arrepios
presságios
treme o fino do
osso esbarrando na pele
O amor me é matéria
inerte
que me acovarda
As calças não me cabem
apenas pernas se acometem
apesar dos shorts
ando nu
polvilhado por
féculas de felicidade
inexiste o nunca menos fácil,
içar as velas duma nau
rumo ao bravio do passado.
para, escuta
o silêncio da
solidão grita seu
ego
sei quanto é me apagar
resisto da sensação
numa tátil treta
e finalizo a dispor decretos
despatriado
minha mátria
Terra
me entranha
num mundo sem pai
pra quê plantar flores
se o fluxo das cores
se perde no monocromático
se subverte nesse multicor
mais que cor
da linha em série
se o que segue
há de ser
só cor
sem flor
Ela estava ali, sentada numa cadeira de plástico, debruçada sobre uma mesa redonda de plástico, debaixo de um guarda-sol. Seu corpo todo protegia uma caderneta contra qualquer contato com o mundo, como se ali morasse um segredo incomensurável, impossível de ser posto para qualquer ser que não ela. Parecia que escrevia algo na caderneta.
Caía uma luz suave, de nove horas da manhã, uma luz molhada pela umidade das folhas que ainda guardavam os segredos de uma torrencial noite passada. Aquela luz amarelada, enverdecida, líquida, pousava por sobre partes dela. A sombra do guarda-sol não a abarcava plenamente e uma fresta de luz que traspassava folhas e galhos da sibipiruna parada acima da cena, tocava um pedaço de sua coxa e subia até sua cintura. Era como se os raios de sol compusessem uma tatuagem luminosa em seu corpo.
A olhava detidamente, mas com cautela, não queria pousar um olhar opressor de desejo viril por sobre ela, não queria sequer que ela notasse que eu a olhava. Queria apenas olhar aquela cena, na qual ela se situava. Quando ela entortou um pouco a cabeça para o meu lado e mordeu com os dentes da frente a ponta de uma caneta bic, calmamente iniciei um processo de percorrer o meu olhar para longe dela. Sem baque, sem agressividade, sem ansiedade, apenas percorrer o resto da cena que ela, ali, compunha.
O foco não era ela, era a cena.
Beberiquei meu café já morno, adentrei nos meus olhos, molhei a vista sem um motivo e a cena embaçou, ficou marejada. Respirei suspirando e pareceu quase um soluço, um erro do ar não saber o quanto entra ou sai, um vacilo do peito por ser acometido pela surpresa de querer mais ar do que a expectativa corporal havia combinado. Fechei os olhos, e deixei aquela viscosidade quente preencher em tom ferruginoso a escuridão das minhas pálpebras cerradas. Por que chorava, nunca saberia. Porque nunca me deixaria saber.
Uma fresta de sol já me queimava a cara, secava as lágrimas que habitaram a moldura dos meus olhos: minhas olheiras infinitas. Abri os olhos e fui à xícara, na ânsia por conseguir o último gole frio de café e descobri que não havia mais café, que me esquecera que já havia bebido todo o café. Suspirei de verdade. Quando voltei à cena, vi que ela que lá paisageamava, me olhava. Cena olhava cena. Ela acenou com a cabeça, correspondi com um leve levantar de mão, cadenciei os dedos.
Uma manhã que nos bastava. De fato, poesia atrai poema, e sempre há alguém a nos contemplar enquanto beleza, lonjura, infinito. Fechei os olhos mais uma vez, fiquei ali bebendo sol, enfiando luz nos meus poros. Abri os olhos, ela já não estava na cena.
Dia após dia, a dialética das inspirações. Há dialética nas inspirações. Suspirei fundo, fui trabalhar.
Acordo no fim do buraco. Muitos braços, um pedaço de pescoço, uma mão com seu smartphone, um sovaco mais a esquerda, meia careca à frente, cachos adentrado as narinas, um smartphone que sorri, mosaicos em flashes e piscadas, abaixo, pedaços de corpos, pernas, pés, celular, uma nesga da janela: o horizonte, a linha que separa o Orun do Aiyê, monótona e cambiante, no trote dos trilhos, o chumbo das nuvens se permitindo ao calor dos dias passados. Mosaicos. A nesga da janela: a linha de transmissão, as ondas que se esparramam, as conexões que adentram. O suor que arde a vista. Só um olho para ver. As lentes, a armação, depois, mosaicos. A nesga da janela: trovão, um pedaço do dossel, o concreto se arma, a abóboda se arma. Um peito se lança para fora, atravessa o vagão, a nesga, o vidro, a vida, se arma. Braços apressados, sovacos cambiantes, cabeças trôpegas, ríspidas, reviravolta, a porta se abre. Entram e saem, celulares, conexões, smarts, phones, fones de ouvido, murmúrio de manada, batidão do funk, ostentação. Um bigode. Meio sorriso. A cauda de um dragão, meio sovaco. Mosaicos malabares. Tudo para. Um peito explode. Tudo explode, suor, inquietação, mosaicos bêbados. Cada porção se desalinha, guarda-chuva e chapéu, uma boca que gargalha. Ódio escorre pelo olho direito à esquerda do chapéu, um solavanco, um susto, um surto, um piercing no septo, um sexo. Mosaicos sem nexo. Movimento, lento, tudo se recompõe, a luz abafada, a quentura desregrada, nada agrada, um túnel, soturno, melancolia do crepúsculo, uma boca que berra Jesus. Conexões, conexões, conexões, conexões, conexões, conexões, tudo se acalma, velocidade, conexões, conexões, entra, sai, conexões, conexões, conexões, tudo se aplaca, conexões, conexões, tudo se arma, conexões, conexões, entra, sai, braços, pernas, penas, dores, humores, amores, aromas, amoras, flores. Mosaico espiritual. A nesga da janela: o breu do concreto, do ferro. A nesga da janela: luzes, lerdas, loucas, lépidas, nos prédios de lego. Pálpebras que pesam. Conexões, conexões, conexões. O breu avermelhado dos olhos cerrados. Acordo três estações depois.
eu sou guaranis caídos com o sangue quente vertendo pelo peito
eu sou centro e trinta crianças paquistanesas com as cabeças explodidas
eu sou mulheres desfiguradas pelos espancamentos no mundo
eu sou corpos jovens e negros falecidos em autos de resistência
eu sou gays arrebentados morrendo silenciosamente para os jornais
eu sou lésbicas estupradas corretivamente
eu sou valas com trezentas sunitas decapitadas
eu sou crianças, velhos e velhas metralhadas pelo boko haram
eu sou crianças, velhos e velhas atingidos com precisão cirúrgica por drones norte-americanos
eu sou estudantes do méxico desaparecidos pela odisseia tragicômica da war on drugs
eu sou favela que não dorme tranquila com suas múltiplas opressões
eu sou escombros da palestina encrustados de sangue
eu sou paisagem desolada pela fome depois da herança maldita da colonização
eu sou gente esquálida de olhar amarelado e baixo esperando a morte se abater com o ebola transpassando as têmporas
eu sou quem vive com menos de um dólar por dia
eu sou essa náusea chamada humanidade
eu sinto muito,
eu não sou charlie
naquele ano
de seca amargurada
e chuva desalmada
fora a quentura que ardia
e a geada que queimava
o plantio fora grande
deu ódio às pencas
toneladas de raiva
e rancor em sacas
a colheita fora imensa
o cultivo bem adubado
todo dia cada qual
arava um bom bocado
desterrava o próprio peito
e semeava o errado
arrancava qual daninha
o que viesse do outro lado
foi nessa terra abençoada
que plantando tudo dá
nesse mesmo ano de deus
malogrado ao deus dará
que se plantou o germe
do ódio que florescerá
e em sangue, guerra e trevas
esse brasil se lavrará
Elas passaram calmamente
Por aqui
Se modularam no presente
E eu deixei seguir
Compuseram várias formas
Tomaram corpo pouco a pouco
Se acharam nos meus olhos
Se desfizeram com um sopro
Foram confusas na neblina
Se derreteram junto ao sol
Viraram água simplesmente
Ao largo do arrebol
Elas ficaram lindamente
Bem em mim
Foi num agora tão latente
E ainda está porvir
Eu desenhei sobre seus traços
O que de lindo pude ver
A minha vista um compasso
Em suas formas fenecer
Duraram o tempo de tanto
O quanto basta para olhar
E guardar cada pedaço
Do que sempre transformar
flores embrutecidas
velam suas mortas
como se da esperança
brotasse a vida
flores que esperam
a seiva da vida
jorrar por entre
suas pernas
flores que regurgitam
pedaços de carne
e passos de anjos
conflitantes
flores dopadas
se esgueiram entre
os cacos e bebem
o desengano
flores alucinantes
donas do futuro
me calo no calor
de suas previsões
tudo certo
se certo é o que
as flores falam
as casas da minha terra borbulham vida e apatia
cada garagem hermética cada esquina herética
toda família desterrada e enterrada nesse planalto
tão perto do céu tão sem chão por só tê-lo
ainda que nunca por tê-lo por pertencê-lo
as casas da minha terra ergueram-se no brejo
e o fétido e as flores ainda surgem em meio ao cimento
as pessoas tão áridas meio mágicas e mundanas
tentam em vão ir para algum lugar algum tempo
esbarram em si mesmas dilaceram-se e se ajudam
as casas da minha terra guardam segredos e dádivas
e se inspiram em palavras verbos paredes que se pichar
as coisas todas colocadas em cantos absurdos
luzes que piscam num trotear natalino e chinês
as ruas se vestem de lama e pecado salvando-se enfim
as casas da minha terra são o lugar do descanso
e do som atribulado que se mistura a lágrimas e porradas
choros abafados corpos maltratados gente amada
o estalido das máquinas rasga todo o limite do asfalto
e o vão do silêncio pulsa em todo o canto no jornal
as casas da minha terra são pequenas imensas invisíveis
estatísticas de superação de condições enquanto o chicote
ainda estala nos lombos doridos ardidos perfurados
tudo urra e dorme e canta melodias em explosões
tudo brilha na paz da comunidade incendiada e seca
as casas da minha terra submergem no cinza
são pessoas destronadas empoderando-se tanto
quanto o que se fala nos aparelhos conectados
aqui haverá um mundo de promessas e unção
ali queimará a vida em breves lampejos de caos
as casas da minha terra se aglomeram em filas
e cada ser que aqui se instaura ganha um mar
de vida e sonhos tidos na imprecisão do cerrado
desejos que consomem tudo em volta e além
e uma cara de quem ainda assim vive em abundância
Deixa eu te falar
pelo tato
que a palavra já
tá pouca
Deixa a pele estar
com a pele
que elas não cansam
nem ficam roucas
Deixa coladas
as dermes
falantes no contato
que quando a boca cala
a pele fala tanto
que todo desentendimento
passa ao largo
irreversível, essa chaga,
esse corte
na epiderme do tempo
não,
a história não se repete
cada horizonte é único
cada experiência
exprime um universo de expectativas
e cada ser se conecta
infinitamente avante
e atrás
esse agora não finda
e ainda assim sempre
será exclusivo
nunca retorna
o humano vai
e na meta só o passar,
o rio,
nunca igual
o ser,
nunca e o mesmo
a meta, o nunca
incontornáveis e fluidas
o que vai
tudo é uma incessante marcha da história
e a cada fração
há novidade
ele veio bem lentamente
quadro a quadro
página a página
grifada, comentada, marcada
ele veio de caravana
e trouxe tantos outros consigo
exército e bando
ele veio leve
brisa e frescor, perfume
ameno, como amigo
quente, como amante
e um oceano fazia morada
em sua mente
e o universo era a fonte
ele veio maleável
e teso e aberto
feito tronco a rasgar terra
e no topo coroar flores
e talvez frutas
a quem as quisesse
ele veio sonoro
vibrando os pelos e os músculos
virando a pele e os nervos
trovoando na aurora
relampejando à noite escura
calidamente assassino do que excede
feito gatuno, gato na madrugada
fortuito
ele veio colorido
furta-cor
já dorido, explodido
solar
livre flecha lançada
ao espaço sem gravidade
nada grave
veio grávido
e ávido de mim
e do mundo
ele veio forte
veio frágil
lágrimas a molhar minha boca
se bastando
no fim de toda tarde
como quem sempre sentiu dor
e nunca sofreu
ele veio para o mundo
nu
sem grilos ou tamanho
um corpo ornado de marcas
e algas e estrelas do mar e corais
esférico
ele veio hasteando
uma bandeira branca,
amor
e um machado de justiças
decepando o que não se aponta
avante
ele veio futuro
antecipando as horas
na calmaria de um passado
que ainda caberá
ele veio quebrado
desvalorizado
ele veio em mim
me possuiu
um mês inteiro
calmamente me preencheu várias partes
e no fim
quase feito morada em mim
eu lhe dei um pé na bunda
e ele veio novamente
para continuar espalhando
o amor
em mim e no mundo
de vestido branco
barba grande
e coroa de flores na cabeça
ele veio lindo
boiava num vórtex de caos
a cada volta algo se arrebentava
contra a minha cabeça
estilhaços de pessoas
gente inteira
com suas réstias materiais
o fluxo do vórtex
dava para dentro do mar
e lá, esses monstros abissais
o inatingível crível
não que eu quisesse,
eu me deixava
dar voltas, entre o lixo
gente inteira
como se eu assim fosse
o impulso no pulso ou no jugo
nas sinapses ou nos genes
onde o amor se solidifica
onde se liquefaz
ele fica?
ou se perfaz?
te ergue e te liquida
te nasce e te jaz
o amor é só esse sempre
na gangorra
com todo nunca mais
vá por ali, falaram
é uma via de mão única
algumas bifurcações
ao longo do caminho
– a tentação bifurca
(para a esquerda?) –
mas o sentido é um só
não desvie, não ceda
vá por ali
siga em frente
é o que temos
para a eternidade
o que se avista quando a janela aberta
o mundo partes
não é um desalinho, monotônico
mas a vista, o percurso
entre a luz e os olhos
e frações na cabeça
invertidas
A opressão sempre esteve aí
As injustas divisões se perdem nas eras
O preconceito acompanha a humanidade
O ódio, a guerra, a intolerância
Parecem compor par com as prisões e as posses
Parece até que é isso que humaniza
Mas e aí, isso lhe agrada?
Vai estampar uma blusa e gritar aos quatro cantos:
“Me orgulho da merda!”
Vai fazer apologia?
Ou vai olhar para o turvo de si
Desamparar as entranhas
De tudo o que te oprime
A leveza de ser melhor
E bater cabeça com o mundo
Até que a liberdade te componha?
É lindo todo o quando
Elas alisam as pontas dos cabelos
Detidamente
Centradas dentro de si
Imersas em suas coisas
Refletindo sobre o mundo que as habita
Refletindo e luzindo as dúvidas e angústias
No tom de suas luzes e reflexos
Enquanto os olhos vagam lentos
Em busca de pontas duplas
A textura a forma a cor o gosto
Essas que aprendi
Com a métrica da minha
Formam o mar a flor o açaí o mel
Que principiam toda
A memória tátil da minha
Essa sua boca
medra o encanto
enraíza pelos capilares
aduba o ferro líquido vermelho
aquilo que meu corpo
terra
cultiva
possui seu nome
Tem um lado que pende
Outro que fende
E um meio que não tende
Daí que nada atente
Nada tente
Sem o todo
Cada lado só, não sente
A linha que divide os mundos
Pouco usada
Nada pisada
A morada do olhar melancólico
O império de quem sem chão
Reinado de não voantes
Que se arvoram no infinito
Cada caminho não feito
de satélite em satélite
cabo a cabo
onda ao ar
Cada não caminho
Estrada via não desbravada
De cada percurso não ido
vasta dor não sabida
entendimento de desconhecer
Varia modula amplifica
qualquer passo quisto
não dado
Desanda
Como amávamos mesmo
antes da cibernética?
Vinho, quatro mãos,
violão e poesia
Vai vir o dia
em que tudo o que se diga
será parte dessa
sacrossanta magia
Feito vinho, quatro mãos,
violão e poesia
Vento norte, me alcança
Veios d’água, ao ar, esperança
Intento que há em mim
A umidade do por fim
Que tudo toca
Vento norte, calmaria
Tempestade de paz que se abate
E me lança a querer só o que
Pode se desmanchar no chão
E entrar pela terra toda
Vento norte, me apaga
Leva todo grão
E recompõe os castelos esfacelados
Na praia do ribeirão
Alhures de onde resido
O tempo era lento
O pouco que ia trafegava naquele trote
das tardes de domingo
que nunca ardem
e o asfalto vibra calor
A rede nem balançava
O ventilador só embaralhava o ar
O suor estacionava em cada curva do corpo
As partes que compõem a vida
Carinhavam dentro em si
Disso que feito se esfacelava
na lerdice das horas
Como o corpo puro sal
Qualquer tempo apenas ir
Era um acometimento dum pulsar afoito
Que desagoniava as partes
Salgava a vida
Olhava a quentura do ar
Derramar-se nas curvas das horas
Alumbrava o deambular dessas indefiníveis
Como meigo arfar na insistência
do que corre desde sempre
Era uma infusão das partes que limitam o sangue
na quentura das horas
E nada ardia
A nitidez desses dias de fim
Uma luminosidade abafada úmida e quente
Todo um porvir depois do fim
Tudo a brotar florescer germinar
A luz traspassa tudo antes do fim
O juízo se colore brilha pulsa
Clareia-se tudo para que finde
Eis o mundo que acabará
Em jorros de luz e cores
Quando se estampar silenciosamente
A dádiva negra de ver
Amor, amada,
vou ali tomar uns murros da vida
que ela pede não para
anseia por sangue
o meu o nosso
Ela não cessa
Amor, amada,
mesmo que tudo se encaixasse
o que arfa arma
não orna o mundo
não afeta pouco enfeita desagrada
A vida pesa e obstrui as vias dos corações
Amor, amada,
se pudéssemos nos bastar
pelos lençóis, luas e sóis
pelo que somos nós,
dádivas de quereres e vontades
frutos dessas mesmas verdades
e não crias de novelas
bíblias, dogmas e indústria cultural
até daria para sermos
Mas, qual o quê,
sinto que vou ali, apanhar
da vida
do mundo
de tudo
Porque amor
Porque amada
a realidade pulsa
os preços sobem
as bolsas caem os juros explodem
E meu peito que abarca
– amor, amada –
terá real acolhida
no casto da lida
dia após dia
só
todo errado
emaranhado e desatado em tudo
Um vagar de querer
suicida
calado pra sempre
no trabalho da vida
e na apatia que murmura
sê tal e qual todas todos
nos dias