Num ato quase sincero
se avista possível Nero
Louco, ingênuo, assim néscio
Com palavras queima o certo
esperando prazer mero
(mas só há este vazio)
0442. E se…
E se eu te dissesse
toda a verdade?
Seria verídico a mim?
E se o ato o fosse
própria inverdade?
Seria eu mentiroso?
E se eu me calasse?
Teria mencionado a
Proposta?
0441. Frações
Neste jogo de idéias
Neste fogo de paixões
Nesta lava de palavras
Neste vai-e-vem
Nesta mesma hora
Nesta simbiose d’alma
Neste ínterim de possibilidades
O infinito explode em frações
0440. Mil coisas
Mil coisas
Nesta seção
Seccionam
O que circula
No meu sangue
De terça a
Sábado
Espero dessas
Mil coisas
O louvor,
A lavoura
O árcade
Artifício
Do milhar
Esperando mil coisas…
0439. Vá
Pegue um pingo de chuva e parta-o em dois. Pegue uma parte do pingo e parta em duas e com essa parte da parte do pingo pense ser o dilúvio em suas mãos.
0438. Deixa
Deixa entrar o vento
soprar o movimento
transgredir o lento
e estático pensamento
o apático momento
o murmúrio do lamento
Deixa entrar o vento
0437. Uma oração, um fado, um blues
só se for por ti
o levantar, o labutar
o caminhar, o vir
só se for maior
(como o é)
o perpetuar
o prosseguir
(mesmo a pé)
só se for assim
o despertar, o atuar
o andar, o ir
só se for amor
(ou mesmo fé)
o contemplar
o resistir
(além até)
só se for divino
o vegetar, o debruçar
o separar, o seguir
só se for dor
(o frio café)
o respirar
o existir
(o fim numa ré)
0436.
a utopia é uma meta-verdade
não uma mentira ou inverdade
é somente um eterno além
não uma proposta falsa
um ornamento de ingênuos
é antes uma esperança terna
uma idéia de cessar a dor
um sentido de abraçar o amor
um momento de sair de si
0435.
Um chuvisco rompe o calor da dúvida
Junto à leve brisa balouça folhas e
Umedece a seca percursada da incógnita
O pingo faz crer ser um lapso
De um pingo a um pingo, então há a chuva
E trovoadas tórridas tropeçam em
Compulsória propensão de existir mesmo
Ao frio, mesmo à dor, mesmo só
0434.
O amor é sempre uma falta
Nunca pode se exceder
nunca consegue a completude
O amor é um devir
O amor é um grande objetivo
Antes de tudo uma metáfora
para o sentido de uma busca
O amor é uma meta
O amor nunca é em si
Ele sempre vai além de sua falta
e se dá numa luta
O amor se completa num paradoxo
O amor nunca é sem explicação
Ele se explica quando se esvai,
quando se finda o ciclo
O amor se completa ao final
O amor é mutação
Nunca início
Nunca findo
O amor
0433. Por onde andas?
Quando começo a inventar-te
e a ter-te como algo eu
tu voas para sabe lá onde
dá-me uma encruzilhada
que penso por vezes ser
maldição
0432.
saio da tua vida pela porta dos fundos
fugitivo de tua presença dentro dos meus poros
dou-te adeus sem o profundo dos olhos
e me arrepia o que virá sem tê-la em minhas mãos
debuto no avesso da eternidade e me
imerso em pontos finais
0431. Um pouco de mim
o tênis surrado dá mostras
dos descaminhos já corridos
e dessas cicatrizes que saltam
aos olhos, momentos a mais
na fita do Senhor do Bonfim
um pedido e uma dúvida
memórias de um desejo ao cubo
já em pedaços — traços de mentira
sobre os pêlos esparsos e curtos
a inexatidão dos sonhos, dos anos
e nas mãos não calejadas e lisas
o anseio da permuta de vida
por debaixo das unhas sujas
e doas coágulos nas cutículas
muitos medos e a sensação
de que a vida vai-se apenas
nas meias sujas e desfiadas
doses de passado e de dor
e o mesmo desprezo a tudo
que se vê na barriga caída
nesses cachos negros e desfiados
o mesmo mistério que se põe
debaixo das lentes riscadas
no centro de olheiras eternas
desta boca miúda e parca
a ostentação de uma medíocre
beleza esquálida e comum
quase que morta se não fosse rósea
por debaixo da pele um raso
oceano de migalhas de alma
querendo ser um algo que
inegavelmente ainda valha
0430.
Não agora,
mas noutro
plano ou mundo
Não abaixo
das terras
acima do céu
Não no meio.
No início
também não
Não no fim
e o final
também não há
Não incontido
no nublado
do que morfou
não,
bem fácil
0429.
Foda-se, simples e claro,
as pressões ao governo
O mundo é muito mais
E se verba não há para nada
reinventemos a necessidade
0428. Banzô Blues
Qual a minha cor?
Pergunta a placa ao lado
Qual a saída:
Qual a sublimação?
Me lanço entre os postes
Me arremesso contra o meio-fio
Meu semblante de vidro
segreda o gosto amargo
Salvação?
Quem falou de salvação?
sabendo que o mar é
de fado, é de rocha
O vinho do descaso
sorvido na taça rasa
do amor morto
E no debruçar pela janela
o anseio da queda
(talvez do vôo)
Na queda invertida
se principia o medo
e o fado estridente
é tão somente
a gota de suor ácida
que escorre junto às
poucas lágrimas
melancólicas
(já mortas)
0427.
Doses de depressão logo de manhã
Hão de ser domadas a sol e vento
a pombos e pardais
a árvores e grama
a berimbau e banalidade
a vastidão azul
ao subliminar de meu conteúdo
0426. Nau de vento
Vago sem o que me falta
E ainda não me completei
Sobre o mar do destempero
Intemperiso meu casco
E a tripulação já se laçou ao mar
Desbravo o fim da Terra
E descubro o precipício
No fim do meu mastro principal
Monstros me perseguem
Bestas demoníacas de
um mito alcalóidico
Chega o fim da rota, paro,
pois o vento se cessou
Sou uma nau de vento
0425.
Se a iminência da revolução
capitalista estatal fato fosse
Qual fundamentalismo
seria o Cramunhão agora?
(metáforas do passado no futuro)
(guitarras podem disparar eqüidade?)
Em meio a dúvida caótica
Gritei e escutei meu grito
antes de gritá-lo
(em nome de Quem?)
0424.
ponto no fim da frase
o fim da frase
ou causa de outra idéia?
0423.
passos sobre o corredor
calças bem curtas
uma pressa que sonha
0422.
um Buda alado nasce
das chagas vivas
de um prédio em chamas
0421.
Já faz calor
Jaz com a dor
O frio fórmico
O fim forjado
0420. O fim é só epílogo do início
Cato em todos os atos
sinais prelúdicos dói fim
Contemplo uma oração intermitente
pensando que o êxtase ali é dado
Vendo Deus ser inventado
em passos não factíveis de teorização
numa auto-hipnose dual
Sinto o Espírito Santo ali,
sendo criado, surgindo da mística
vindo do homem ao transcendente
(um apenas)
O finalmente fenece
no entoar de um mantra cristão
E as luzes atravessam nuvens
num apocalíptico quadro de recomeço
O fim é só epílogo do início
0419. Ruínas de um fim
O imponderável torna-se fato
às migalhas de Nova Iorque
Um apocalipse é esperado
sobre escombros de um pentágono
O fim se almeja
em invisível peleja
de sistemáticos monstros
Mortos sobre mortos
Sem se vislumbrar o motivo do fim
Pondera-se que o fato
seja turvilínea conspiração de fé
e sepulta-se milhares sobre a égide
de uma fé material
O fim chega?
Ou será que aspiramos ao fim?
0418.
Sua voz me entorpeceu
e o planejado se calou
ao sentir sua voz
Certezas diluídas
ao tropel macio
numa prosa atroz
Murmura a confusão
contida na antípoda
do que somos nós
0417. Tangente de nós
Toda pena vale
Sobre nossas costas
Toda outra é puta
Todo beijo é pena
Todo fim já feito
Sobre nossas costas
Tudo vale a pena
Quando a pena é feita
0416. ¿Futuro?
O menino brinca com a bola
Sem saber do World Trade Center
A bola rola e leva o menino
ou será que o menino leva a bola
e rola pela sarjeta do fim?
O menino pára, olha e ri
A bola rola e o menino já morto
corre atrás da bola
Explode um prédio em palmas,
lágrimas e apatia
O menino apático, cai e chora
Mas levanta e em festa
chuta a bola
0415.
“Bom dia”
diz-me o canto da aspereza
“já morreste hoje?”
completa em sarcasmo
“já morri duas vezes
em menos de meia hora”
respondo bucolicamente
sem esperança alguma
e morro realmente
mas uma morte avessa
que me dá a forma de pluma
uma morte cortiça podre
boiando em um lago
onde apodreço incrustado
de seres eus
0414. Não há ponte
Onde jaz aquele mundo outrora meu?
Perdi-me em mundo algum
Num relance do que cri em demasia
E aflige-me a quintessência do inexistente
O amálgama do meu mundo à realidade
Não há ponte, não há parto
Todos já se foram
E me deram a mim em demasia
Fiquei na inconstância de dois mundos
0413. Delírio
o som do tempo nublado
sibila a vastidão das nuvens
se cala ante feixes de luz
ante o concreto da luminosidade
faz um quadro de milagre
onde tudo é vastidão
onde tudo é som e silêncio
— Onde estou?
Nas nuvens ou nos milagres?
0412. Sutilezas
Nossas concupiscências nos torturam
E nossos amores nos permeiam
Tiramos pesos circuncidantes
Torturamo-nos inventando tantos mais
Desejamos a lascívia em lânguidas mãos
Aspiramos com as nossas a solução
Soluçamos em desespero por palavras
Por afagos, por amores, por carne
Um vento sutil nos passa desapercebido
E nós, perdidos em nuances de soluço e lágrima
Não vemos a solução que se vai com o vento
0411.
pensei sonetos, haikais, elegias
mas nada elucidaria
o que se passa nesses dias
e tento gotas com essa poesia
mas nenhuma palavra mudaria
o que se passa nesses dias
nem solução o poema seria
nem descanso a rima traria
para o que se passa nesses dias
0410. Um querer
Queria ser algo leve
A todas as almas do mundo
Queria ser o peso necessário
Ao equilíbrio dos espíritos
Queria ser a sutileza que marca,
Ser a brisa que
Acompanha a calmaria
Queria o poder do sublime
Em minhas frágeis mãos
Queria que todos assim quisessem
0409. Desencadear de um ciclo
ao lado do beco
a boca promete
de fumaça, de pó
se entorpece
alicia aliados
abarca moleques
viagens, loucuras
a vida se esquece
a barca cruza o beco
nem luz reflete
do beco ao mundo
a carteira: “entregue!”
do beco, da boca, ao banco
e Deus? renegue
astutos no caixa:
“rápido, não espere!”
pneu queimado
“cabrito não berre!”
a barca, o beco
a alma se despede
um tiro, um peito
a vida não pede
o sangue no carro
o luto na Leste
ao lado do beco
a boca ainda promete
de fumaça, de pó,
de doce enriquece
alicia aliados
centenas de estepes
viagens, loucuras,
são todos moleques…
0408. Um velho lento e belo
um velho lento e belo
embeleza a via pública
com belos cabelos grisalhos
(longos)
com bela barba grisalha
(longa)
com quase um século
de vida e vai-e-vens
em vias públicas
(longas)
um velho lento e belo
dá sentido ao caos
(longo)
não belo, não lento,
mas velho
um velho lento e belo
passa ao meu lado
me olha lentamente
— um olhar longo…
0407.
buscar matéria poética
em unhas vermelhas
de uma criança de
seis anos é
catar na imoralidade
do fim da infância
a chave para abrir
as portas que fechei outrora
procurar matéria-prima
poética em mulher
completamente vestida
mas ainda assim
semi-nua é uma
árdua missão
e como resultado
tem-se um cheiro
ridículo de tesão
em meio a versos
0406.
“solidão é lava, cobre tudo…”
Solidão
Antes lava fosse
Pois assim matava
Não consumia
Em silêncio
Como veneno ao ar
Decigramamente
Jorrado
Para torturar
Não construindo
0405. O primeiro poema
Falas que nunca lhe fizeram um poema
Também pudera
Quando já se é um então!
Fica difícil se falar de um tema
Que já beira a sublimação
Mas por te ver na desesperança
E a mal dizer o mundo
Tento cumprir esta árdua missão
De escrever-te um poema
E quando te penso fica mais fácil
E só complica
Quando coloco a felicidade
Que me produz em contraste
À incógnita do que sou
Ah, e tu és linda (inclusive)
0404. Sonho
Tive um sonho lindo
Sonhei com um boneca de pano
E um palhaço apaixonante
Os dois faziam estripulias
Pulavam, saltavam, corriam no ar
Traziam alegria ao meu sonho cinza
Davam cor e carnaval
Medicavam-me tão bem
Que ao acordar
Pensei ter quatro anos
E percorri leve meu dia
0403. Nonsense
Sem sentido
Não se sente
Se ausente
Ou se rendido
Sem sentir
Falta sentido
No desmedido
Ou no medir
Se infinito
Ou se já findo
Não se sente
Mas presente
Mas se sente
Não pode realmente
Saber ter sentido
Se o sentir é infinito
0402. Sorrisos
Existem sorrisos que não se entendem
Uns que nada querem dizer
E dizem tudo mesmo assim
E uns que querem e qual nada aparecem
E somem, sem nada dizer
Sorrisos medrosos que tremem em ter sentido
E com seu medo tudo transpassam
Sorrisos apagados que falam mais ainda
Sorrisos loucos, qual notas de Milles Davis
Sorrisos lacrimosos
(Putos, pagãos, corroendo desejos)
Litorâneos sorriso em forma de recifes
Há tantos sorrisos
E esse que eu não sinto ou compreendo
Prova do infinito
0401. Agora
Não quero coisa alguma
Não aspiro mais ao eterno
Não desejo o calor humano
Nem os prazeres materiais
Não espero pelo vida
Nem almejo um futuro
Nem dinheiro, nem orquestras
Nem filhos
Paz, casas, sonhos, deuses
Frutas ou prostitutas
Deusas ou carnavais ou felicidade
Nem virgens de lábios de mel…
Não quero a morte
Não quero a vida
Não o que me basta
Nem o que me abarca
Nem o tao
Não existir, simples
0400. À flor do passado
um quarto trancado
cortinas cerradas
janelas herméticas
uma alma vazia
os deuses à quilômetros
à espera do sol dos tristes
o corpo colchão
dor nos olhos, pelos olhos
lágrimas secas
samplers de fados
mar de desilusões
gritos pela caneta
o marasmo do sax
as gotas de esperança evaporando
uma expressão sul-real
a agonia
0399. O amor
É somente de ilusão
É ferida
É coração despedaçado
É descompasso
É solidão
É valsa trash-punk
É medo
É medíocre esperança
É aquele terreno infértil
É a máxima mentira
É riso dissimulado
É dor do gozo
É a castidade do prazer
É o além que se fecha em si
É só metáfora
E machuca
0398. Súbita morte
as nuvens não têm mais forma
não se abstrai mais nada…
as nuvens estão já mortas
sepultadas sobre as águas
sobre as peles
o azul grita a dor
de não mais ser quadro
ser só amplidão sozinha
ser imensidão incoerente
e as nuvens em nós
não valem nada
0397.
o ser humano se mata a cada silêncio
a cada palavra, a cada ato
o ser humano destrói seu mundo
no silêncio, na palavra, no ato
e ainda se prioriza a realidade
o ser humano se humaniza
em contato com a animalidade
com seu silêncio, sua palavra, seu ato
se sufoca com seu silêncio
se agoniza com sua palavra
se fere com seu ato
se constrói destruindo
uma realidade animalizada
(já morta)
um ser suicida
0396. Sem saída
Já não espero os teus beijos
Teu sorriso ou tua dor
Já não sinto seios
Teu acalento ou te odor
Já não te vejo
Já não te toco
Já não te velejo
Já não te provoco
Já não sei onde andas
Com que e onde vais
Já não sei quem amas
Se amas e quanto a mais
Já não te beijo
Já não te abraço
Já não te atrevo
Já não me acho
Já não sei se vale a pena
Por mim mesmo ou por alguém
Já não olho quem me acena
Quando não é tu que vens
Já não escuto tuas dores
Teu dias de tempestade
Já não enxergo tuas cores
Que a minha alma invade
0395. Hoje morto
as horas não passam
o amanhã nunca vem
penso nesse hoje,
só a (há) morte.
Não faço falta
— mas falta coragem!
Não faço falta
— nem mesmo a mim!
Não faço falta
— não faço nada!
sou só esse hoje…
0394.
0394. pelo corredor o murmúrio do silêncio zomba de minha face sonolenta, zomba de minha face sonolenta, berra uma noite mal dormida a frio, traz um vento sinistro que dói os pés — o corredor quer minha morte.
Assassinato