0435.

Um chuvisco rompe o calor da dúvida
Junto à leve brisa balouça folhas e
Umedece a seca percursada da incógnita
O pingo faz crer ser um lapso

De um pingo a um pingo, então há a chuva
E trovoadas tórridas tropeçam em
Compulsória propensão de existir mesmo
Ao frio, mesmo à dor, mesmo só

0434.

O amor é sempre uma falta
Nunca pode se exceder
nunca consegue a completude
O amor é um devir

O amor é um grande objetivo
Antes de tudo uma metáfora
para o sentido de uma busca
O amor é uma meta

O amor nunca é em si
Ele sempre vai além de sua falta
e se dá numa luta
O amor se completa num paradoxo

O amor nunca é sem explicação
Ele se explica quando se esvai,
quando se finda o ciclo
O amor se completa ao final

O amor é mutação
Nunca início
Nunca findo
O amor

0431. Um pouco de mim

o tênis surrado dá mostras
dos descaminhos já corridos
e dessas cicatrizes que saltam
aos olhos, momentos a mais

na fita do Senhor do Bonfim
um pedido e uma dúvida
memórias de um desejo ao cubo
já em pedaços — traços de mentira

sobre os pêlos esparsos e curtos
a inexatidão dos sonhos, dos anos
e nas mãos não calejadas e lisas
o anseio da permuta de vida

por debaixo das unhas sujas
e doas coágulos nas cutículas
muitos medos e a sensação
de que a vida vai-se apenas

nas meias sujas e desfiadas
doses de passado e de dor
e o mesmo desprezo a tudo
que se vê na barriga caída

nesses cachos negros e desfiados
o mesmo mistério que se põe
debaixo das lentes riscadas
no centro de olheiras eternas

desta boca miúda e parca
a ostentação de uma medíocre
beleza esquálida e comum
quase que morta se não fosse rósea

por debaixo da pele um raso
oceano de migalhas de alma
querendo ser um algo que
inegavelmente ainda valha

0428. Banzô Blues

Qual a minha cor?
Pergunta a placa ao lado
Qual a saída:
Qual a sublimação?

Me lanço entre os postes
Me arremesso contra o meio-fio
Meu semblante de vidro
segreda o gosto amargo

Salvação?
Quem falou de salvação?
sabendo que o mar é
de fado, é de rocha
O vinho do descaso
sorvido na taça rasa
do amor morto
E no debruçar pela janela
o anseio da queda
(talvez do vôo)

Na queda invertida
se principia o medo
e o fado estridente
é tão somente
a gota de suor ácida
que escorre junto às
poucas lágrimas
melancólicas
(já mortas)

0426. Nau de vento

Vago sem o que me falta
E ainda não me completei
Sobre o mar do destempero
Intemperiso meu casco
E a tripulação já se laçou ao mar

Desbravo o fim da Terra
E descubro o precipício
No fim do meu mastro principal

Monstros me perseguem
Bestas demoníacas de
um mito alcalóidico

Chega o fim da rota, paro,
pois o vento se cessou
Sou uma nau de vento

0425.

Se a iminência da revolução
capitalista estatal fato fosse
Qual fundamentalismo
seria o Cramunhão agora?

(metáforas do passado no futuro)
(guitarras podem disparar eqüidade?)

Em meio a dúvida caótica
Gritei e escutei meu grito
antes de gritá-lo

(em nome de Quem?)

0420. O fim é só epílogo do início

Cato em todos os atos
sinais prelúdicos dói fim
Contemplo uma oração intermitente
pensando que o êxtase ali é dado
Vendo Deus ser inventado
em passos não factíveis de teorização
numa auto-hipnose dual
Sinto o Espírito Santo ali,
sendo criado, surgindo da mística
vindo do homem ao transcendente
(um apenas)

O finalmente fenece
no entoar de um mantra cristão
E as luzes atravessam nuvens
num apocalíptico quadro de recomeço
O fim é só epílogo do início

0419. Ruínas de um fim

O imponderável torna-se fato
às migalhas de Nova Iorque
Um apocalipse é esperado
sobre escombros de um pentágono
O fim se almeja
em invisível peleja
de sistemáticos monstros
Mortos sobre mortos
Sem se vislumbrar o motivo do fim
Pondera-se que o fato
seja turvilínea conspiração de fé
e sepulta-se milhares sobre a égide
de uma fé material

O fim chega?
Ou será que aspiramos ao fim?

0416. ¿Futuro?

O menino brinca com a bola
Sem saber do World Trade Center
A bola rola e leva o menino
ou será que o menino leva a bola
e rola pela sarjeta do fim?
O menino pára, olha e ri
A bola rola e o menino já morto
corre atrás da bola

Explode um prédio em palmas,
lágrimas e apatia
O menino apático, cai e chora
Mas levanta e em festa
chuta a bola

0415.

“Bom dia”
diz-me o canto da aspereza
“já morreste hoje?”
completa em sarcasmo
“já morri duas vezes
em menos de meia hora”
respondo bucolicamente
sem esperança alguma
e morro realmente
mas uma morte avessa
que me dá a forma de pluma
uma morte cortiça podre
boiando em um lago
onde apodreço incrustado
de seres eus

0412. Sutilezas

Nossas concupiscências nos torturam
E nossos amores nos permeiam
Tiramos pesos circuncidantes
Torturamo-nos inventando tantos mais
Desejamos a lascívia em lânguidas mãos
Aspiramos com as nossas a solução
Soluçamos em desespero por palavras
Por afagos, por amores, por carne

Um vento sutil nos passa desapercebido
E nós, perdidos em nuances de soluço e lágrima
Não vemos a solução que se vai com o vento

0409. Desencadear de um ciclo

ao lado do beco
a boca promete
de fumaça, de pó
se entorpece
alicia aliados
abarca moleques
viagens, loucuras
a vida se esquece

a barca cruza o beco
nem luz reflete
do beco ao mundo
a carteira: “entregue!”
do beco, da boca, ao banco
e Deus? renegue
astutos no caixa:
“rápido, não espere!”

pneu queimado
“cabrito não berre!”
a barca, o beco
a alma se despede
um tiro, um peito
a vida não pede
o sangue no carro
o luto na Leste

ao lado do beco
a boca ainda promete
de fumaça, de pó,
de doce enriquece
alicia aliados
centenas de estepes
viagens, loucuras,
são todos moleques…

0407.

buscar matéria poética
em unhas vermelhas
de uma criança de
seis anos é
catar na imoralidade
do fim da infância
a chave para abrir
as portas que fechei outrora

procurar matéria-prima
poética em mulher
completamente vestida
mas ainda assim
semi-nua é uma
árdua missão
e como resultado
tem-se um cheiro
ridículo de tesão
em meio a versos

0405. O primeiro poema

Falas que nunca lhe fizeram um poema
Também pudera
Quando já se é um então!
Fica difícil se falar de um tema
Que já beira a sublimação
Mas por te ver na desesperança
E a mal dizer o mundo
Tento cumprir esta árdua missão
De escrever-te um poema
E quando te penso fica mais fácil
E só complica
Quando coloco a felicidade
Que me produz em contraste
À incógnita do que sou
Ah, e tu és linda (inclusive)

0402. Sorrisos

Existem sorrisos que não se entendem
Uns que nada querem dizer
E dizem tudo mesmo assim
E uns que querem e qual nada aparecem
E somem, sem nada dizer

Sorrisos medrosos que tremem em ter sentido
E com seu medo tudo transpassam
Sorrisos apagados que falam mais ainda
Sorrisos loucos, qual notas de Milles Davis
Sorrisos lacrimosos
(Putos, pagãos, corroendo desejos)
Litorâneos sorriso em forma de recifes

Há tantos sorrisos
E esse que eu não sinto ou compreendo
Prova do infinito

0401. Agora

Não quero coisa alguma
Não aspiro mais ao eterno
Não desejo o calor humano
Nem os prazeres materiais
Não espero pelo vida
Nem almejo um futuro
Nem dinheiro, nem orquestras
Nem filhos
Paz, casas, sonhos, deuses
Frutas ou prostitutas
Deusas ou carnavais ou felicidade
Nem virgens de lábios de mel…

Não quero a morte
Não quero a vida
Não o que me basta
Nem o que me abarca
Nem o tao

Não existir, simples

0399. O amor

É somente de ilusão
É ferida
É coração despedaçado
É descompasso
É solidão
É valsa trash-punk
É medo
É medíocre esperança
É aquele terreno infértil
É a máxima mentira
É riso dissimulado
É dor do gozo
É a castidade do prazer
É o além que se fecha em si
É só metáfora
E machuca

0397.

o ser humano se mata a cada silêncio
a cada palavra, a cada ato
o ser humano destrói seu mundo
no silêncio, na palavra, no ato
e ainda se prioriza a realidade
o ser humano se humaniza
em contato com a animalidade
com seu silêncio, sua palavra, seu ato
se sufoca com seu silêncio
se agoniza com sua palavra
se fere com seu ato
se constrói destruindo
uma realidade animalizada
(já morta)
um ser suicida

0396. Sem saída

Já não espero os teus beijos
Teu sorriso ou tua dor
Já não sinto seios
Teu acalento ou te odor

Já não te vejo
Já não te toco
Já não te velejo
Já não te provoco

Já não sei onde andas
Com que e onde vais
Já não sei quem amas
Se amas e quanto a mais

Já não te beijo
Já não te abraço
Já não te atrevo
Já não me acho

Já não sei se vale a pena
Por mim mesmo ou por alguém
Já não olho quem me acena
Quando não é tu que vens

Já não escuto tuas dores
Teu dias de tempestade
Já não enxergo tuas cores
Que a minha alma invade