0402. Sorrisos

Existem sorrisos que não se entendem
Uns que nada querem dizer
E dizem tudo mesmo assim
E uns que querem e qual nada aparecem
E somem, sem nada dizer

Sorrisos medrosos que tremem em ter sentido
E com seu medo tudo transpassam
Sorrisos apagados que falam mais ainda
Sorrisos loucos, qual notas de Milles Davis
Sorrisos lacrimosos
(Putos, pagãos, corroendo desejos)
Litorâneos sorriso em forma de recifes

Há tantos sorrisos
E esse que eu não sinto ou compreendo
Prova do infinito

0401. Agora

Não quero coisa alguma
Não aspiro mais ao eterno
Não desejo o calor humano
Nem os prazeres materiais
Não espero pelo vida
Nem almejo um futuro
Nem dinheiro, nem orquestras
Nem filhos
Paz, casas, sonhos, deuses
Frutas ou prostitutas
Deusas ou carnavais ou felicidade
Nem virgens de lábios de mel…

Não quero a morte
Não quero a vida
Não o que me basta
Nem o que me abarca
Nem o tao

Não existir, simples

0399. O amor

É somente de ilusão
É ferida
É coração despedaçado
É descompasso
É solidão
É valsa trash-punk
É medo
É medíocre esperança
É aquele terreno infértil
É a máxima mentira
É riso dissimulado
É dor do gozo
É a castidade do prazer
É o além que se fecha em si
É só metáfora
E machuca

0397.

o ser humano se mata a cada silêncio
a cada palavra, a cada ato
o ser humano destrói seu mundo
no silêncio, na palavra, no ato
e ainda se prioriza a realidade
o ser humano se humaniza
em contato com a animalidade
com seu silêncio, sua palavra, seu ato
se sufoca com seu silêncio
se agoniza com sua palavra
se fere com seu ato
se constrói destruindo
uma realidade animalizada
(já morta)
um ser suicida

0396. Sem saída

Já não espero os teus beijos
Teu sorriso ou tua dor
Já não sinto seios
Teu acalento ou te odor

Já não te vejo
Já não te toco
Já não te velejo
Já não te provoco

Já não sei onde andas
Com que e onde vais
Já não sei quem amas
Se amas e quanto a mais

Já não te beijo
Já não te abraço
Já não te atrevo
Já não me acho

Já não sei se vale a pena
Por mim mesmo ou por alguém
Já não olho quem me acena
Quando não é tu que vens

Já não escuto tuas dores
Teu dias de tempestade
Já não enxergo tuas cores
Que a minha alma invade

0392. X

urge meu coração
o acalento do passado
a doce incógnita
da dor de ser-me a solidão
ser-me vento
de banhar-me no acre-amargo
de elogios à loucura
de endoidar e evanecer
na agonia do desespero
basta de me dissimular
de me trair
de não me ser
sou-me a solidão
sou a visão turva e desfigurada
do ângulo promovido pela cama e a janela
riscando de poste o quadro idiota
sou-me incógnita
X

0391. Dejá vu

ser triste era melhor
a desesperança não traia
o amor simplesmente
não existia

ser triste era mais saudável
a dor não incomodava
só a utopia platônica
tinha vez

ser triste era mais eu
a felicidade não me cabe
o riso me é inumano,
não me tem

ser triste sempre me volta
e eu abarco a tristeza
com um abraço esperançoso
de que me encontre só

0388. Julho cerrado

“onde foi parar o prazer à lentidão?”

Tudo fugaz e flébio
Adnâmica seca de julho
O vento colore
O movimento é multicor
A essência é gris
E deságua a seca

A poesia permeia
A lágrima é de lama
A essência é suja
E tosse-se a seca
E os lábios ressecam
— preto ao branco

O sol arde, colore
Dá a velocidade da luz
Uma lágrima que brilha
Seca, suja, rápida
Segundos sussurrados
Lépidos atrozes, ávidos
Contumaz seca

0387. Esperança

faz-se um zum de grilos acima da cabeça
e passos de saltos em marcha lenta
um chaveiro balançando ressoa o metal
e o nhéco-nhéco dos tênis aumentam
murmúrios melódicos, maestria medíocre
passos curtos de crianças livres
leves sussurros apaixonados por si
e urros apáticos quando mais si ainda

um segundo se encerra qual os passos
que se dão em falso na calçada
um ego mudo em meu eterno
emudece os segundos e encerra os passos
quebra os metais e cala os urros

só se ouvem passos curtos — livres
murmuram a única estrofe de esperança

0386.

o peso de dizer sim, cai sobre o inventado
eu não queria me dizer adeus
mas como sem sua mão ao lado?
derramei o meu pranto sobre o espelho
e molhei o meu avesso
encarei minha face crua
e cessei minha existência num anseio

agora eu choro sim, tudo o que foi passado
eu já passei de mim mesmo
e me vejo rumo a um outro espaço
separei o joio do trigo
e fiz um pão com o que estava estragado
provei minha conduta
e ela tinha um sabor amaro

0383. Definitivo

Todos só desejam o aparente
Ninguém fica com alguém pela essência
Todos querem a superfície do real
A aparência que se esvai com as auroras
Todos fogem ao encontro da essência
A essência dá medo, apavora
A aparência dá o momento, o impulso
Todos se agarram ao aparente
Não vendo que ao toque do eterno
Ele se quebra e nos dá sua vida,
Sua essência

Nós corremos pelo outro lado (definitivo)
Pois da essência só queremos sua máscara
Que nos veste tão bem…

0380.

Medeias a amizade?
Angarias meu ser mais uma vez?
Yansã na me diz — ri
Respostas mudas em mim
Arquétipos da dúvida outra e mais uma vez

Milhas nos percorreram
Ajustados ou a mercê de nós dois
Recorrer a minha falta de senso
Indo a mim e me dizendo:
“Ah, você está lindo, eu te canto novamente…”

0377.

Lucidez na fuga
Yemanjá há de dizer
Veloz na súbita
Ida contra meu ser
Ainda que por mar incerto
Navega sempre e vai!

Como infante sem meus
Rumos, ventos, direções
Ilhas, buscas, tesouros
Seus enterrados na areia
Tempestades de nosso agora
Interrompem nossa maresia
Namoras aquelas feras
Aonde eu sou só um nativo

0368. Dos dias

dos dias que passam
passam por não parar
das dores que perpetuam
primam por não findar

das decisões que provocam
provam que saída não há
dos desejos que evocam
provocam o suspirar

desses dias tão intensos
intenções não são o ausente
e tensões quase o permanente

dessas insanidades diferentes
só sobram os seus acenos
sussurros do não confesso

0366. Inventando ilusões

Quando te inventei em meus braços
Achei que haveria um triunfo
Tramei um futuro de nobreza
Mas no fim o que resta é a incerteza
Que consome o cotidiano, os segundos
Hoje penso em juntar-me aos estilos imundos
Que inventam outra possível solução
A de não acreditar que o amor é coisa do coração
Que é um ilusionismo passageiro
Talvez seja a ilusão do mundo inteiro

Como mágico, ilusionista e inventor eu continuo
Inventando amores e seguindo a sina da dor
Crucificando meu coração como bom amador

Sem resposta, penso na próxima invenção
E procuro em outros rostos, outra ilusão

Acho que encontrei. Ou será que não?

(Dalglis Luz e Luz e Guilherme Carvalho da Silva)

0365. Crença

Olho o telefone
Pergunto se estás
Vais me querer
Ou é cedo demais?

Consulto os astros
Conselhos banais
Vais me querer,
Escutar os meus ais?

Eu miro o passado
Futuros casais
Vais me atender,
Fantasmas a mais?

Não creio
Ou creio
Será que o amor já se inventou em mim?
Não creio
Ou creio
Vais querer um inventor assim?

(Dalglis Luz e Luz e Guilherme Carvalho da Silva)

0364. Fugidia

Quebraste a promessa
Calaste a chegada
Ferveste o meu peito
Lágrimas em brasa

Fugiste com medo
Apagaste o passado
Deixaste em remessa
Coração machucado

Falaste com os olhos:
“Não sei o que sinto”
Não deste notícias
Te odeio, te minto

Te esqueço Mayra
Te apago em ira
Te espero Mayra
Te amo em lira

Quebraste meu peito
Calaste a promessa
Deixaste o passado
Lágrima remessa

Fugiste com os olhos
Apagaste a chegada
Não deste o que sinto
Coração em brasa

Falaste com medo:
“Não sei o que sinto”
Espero notícias
Te esqueço, te minto
Me esqueces Mayra?
Me apagas em ira?
Me esperas Mayra?
Me amas em lira?

0363. Acorda!

quão inebriante era viver
sentindo-se a exceção da vida
pesando só a natureza ter razão
passando por árvores
e dizendo a elas:
“olá minhas irmãs,
como vai nessa solidão?”
e elas se rindo em concordância
balançando suas folhas, seus galhos
e me dando um perfume gostoso
seguia minha solidão feliz,
completo, repleto de um vazio suave
não almejando nada
que não me fosse impossível
e agora eu nessa,
pensando só em restaurar
um amor que se finda…
Guilherme, acorda!
A vida ainda continua!
A natureza ainda tem razão!

0362. Sim, ainda há a vida

sim, há toda a vida pela frente
cravada de suposições —
balas do que virá
que supor suposições
de pouco adiantará
sim, nada de amores,
juramentos ou eternidade
sim, dó do sutil os sabores,
o frescor e a suavidade

sim, só seguir em paz
as rotações do mundo
e a beleza de suas ações
sim, sem olhar para trás
o que calou fundo
e foi mar de desilusões
sim, que nenhum amor basta
até sabê-lo já acabou
sim, que a atitude casta
é medíocre quando se findou

0361. Passos aflitos (descompassos de amador) ou o ciúme

sentir tudo em suas mãos
e não abarcá-lo em seu peito
é ter a verdade
num lapso de uma fração de segundo
não entregar-se à essência em suas mãos
é despencar em aflição
por conta de alguns neurônios a menos
que problematizam uma possível depressão
sentir tudo em suas mãos
e nada em seu peito…
como sinto a não-verdade!

ter a solução em milímetros
é espelhá-los no encontrar de paralelas
no oposto da imagem reflexa
que já sucumbiu em realidade

oscila o mundo o tempo todo
e tudo e nada em suas mãos
mas não se preocupem,
sempre hão de aparecer
um antropólogo esquisito,
um pedagogo semi-deus,
ou um advogado brilhante
para te deixar com cara de nada,
com cara de mão
cada um com uma brilhante verdade
para calar-te a mudez
de seu ser mudo à luz
para desmerecer o pouco que
te fez com tanto apreço
aquele pouco que te é
e que lutou odisséias para tê-lo
chega um desses e te marca
a existência numa transcendência
de acasos em mãos
que não acendem chamas em peitos

gira turva a aflição
da entrega à não-verdade
debruça-se numa existência sub-atômica
e o tudo escorregando entre os dedos
de sua mão
e a solução se esvaindo
e a seratonina se acabando
e maracatus, lutas políticas e teses de mestrado
deixando você e seu Bukowski
como restos do que já existiu
– fragmentos de uma grande explosão —
como um universo paralelo néscio e medíocre

sentir tudo em suas mãos
e não integrá-lo em seu peito
é insustentar-se como ser
ainda que nem leve nem pesado
ainda que medíocre e mundo pouco ser

caminho em linhas paralelas
equilibrando o tudo às mãos
o nada ao peito
e as oscilações da alma em aflição
e bombas de antropólogos, pedagogos e advogados
querendo derrubar-me das linhas
mas medíocre, insignificante
mudo, sem neurônios, sem seratonina
– pouco por assim dizer –
sigo a trilha do infinito
e espelho-me no que escorrega
pelas mãos

0360. Chagas

notas de jazz rasgam a solidão
facadas jazzísticas abrem chagas
e escorrem memórias em sangue
– a dor provoca um riso frouxo
dias despreocupados voltam
sobre o corte exposto ao som
uma ferida sutil e alegre
que martiriza o contido antes do jazz

passados. pretéritas passagens
advindas em feridas estupidamente
alegres
e o jazz perfura ainda mais a carne
e o sorriso abre-se mais em minha face
como um corte produzido
pelas notas de um jazz que
rasga a solidão estampada
em uma fronte de incógnita

0359. Um despertar (desertar)

“Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia…”

Daquele sonho esquisito onde te vias
Que tu fugidia águia se ia
Acordei como se não dormido tivesse
E naquela noite creio o sono não houvesse
Havia a ausência do acordado
E a ânsia de tua mão ao lado
Havia-me só à cama e a distância
E tu em minha alma e a relutância
De crê-me solidão ao acordar
E não merecendo ao meu lado te encontrar

Mas acordei, me levantei (de pé esquerdo!)
Olhei a escuridão de ainda cedo
Respirei fundo e tentei captar
Tua essência em meio ao ar
Abri as cortinas, deixei luz entrar

0358. À Maria Bethânia

Canta estridente teu drama
Onde tolos vêem triste tua fama
Desliza em grave paisagem
Do teu timbre uma miragem

Ilumina a escuridão do quarto
Grita e abre cortinas num ato
Dá dramática a voz contida
Na tua dor reverberada e amiga

Uma paz no canto calmo e carnaval
Que entoas noite adentro sem mal
Molha a alma com suavidade
E dá milhas a minha pouca idade

0357. Espelhar a solidão

Falar dessa solidão que me consome
Não me é de gosto agradável
E só me há ela agora
Mas maldizê-la é maldizer-me
É esquecer que a sou também

Um labirinto de paredes de vidro
É o que espelha a solidão que me é
Eu espelho becos sem saída
Dou-me voltas, me invento
Sou-me cada volta a mais, mas solidão

Perco-me nesse labirinto que sou
E só, o percorro me perdendo
Rumo a mais solidão que sou
Descubro-me perdendo-me em mim
Sou-me cada vez que me perco
Mais solidão

0355. Frases que se diz ao vento

Disse ao vento: “pode ir!”
E ele foi-se rindo de mim
Disse ao vento: “fique mais!”
E ele foi-se rindo de mim
Disse ao vento: “ai de mi!”
E ele foi-se rindo de mim

E ele foi-se balançando meus cabelos
Estremecendo-me em calafrios
Ardendo-me os olhos com poeira
E me fez chorar

Lembro quando ele veio
Prometeu-me brisa fresca
Anunciou-me umidade à alma
Acariciou-me a pelo e os pelos
Deu-me ar puro a respirar
Mas agora ele foi-se rindo de mim

E eu ainda disse ao vento: “volta!”
E ele foi-se rindo de mim
E eu disse ao vento: “preciso de ti!”
E ele foi-se rindo de mim
Disse ao vento: “eu te amo!”
E ele foi-se rindo de mim.

0354. Senão…

falar-te anda complicado
quando falo-te, faz-se ela
quando ela, falo-te então
e se só ela por instantes
vem uma que corre por fora
vem derrubando-a ao chão
e quando a que corre pára
surge-te assim em mim
surge uma passada e digo-te não
e a que passou jaz no passado
pois a outra tomou a vez
pois que cai e ela me toma a razão
e ela me domina tudo
até uma desconhecida aparecer
até que tu de novo vem-me ao coração

mas tu, ela, aquela, a outra
e tantas mais que vêm e vão
sempre me deixam só
ou eu mesmo senão…