Sem sentido
Não se sente
Se ausente
Ou se rendido
Sem sentir
Falta sentido
No desmedido
Ou no medir
Se infinito
Ou se já findo
Não se sente
Mas presente
Mas se sente
Não pode realmente
Saber ter sentido
Se o sentir é infinito
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Sem sentido
Não se sente
Se ausente
Ou se rendido
Sem sentir
Falta sentido
No desmedido
Ou no medir
Se infinito
Ou se já findo
Não se sente
Mas presente
Mas se sente
Não pode realmente
Saber ter sentido
Se o sentir é infinito
Existem sorrisos que não se entendem
Uns que nada querem dizer
E dizem tudo mesmo assim
E uns que querem e qual nada aparecem
E somem, sem nada dizer
Sorrisos medrosos que tremem em ter sentido
E com seu medo tudo transpassam
Sorrisos apagados que falam mais ainda
Sorrisos loucos, qual notas de Milles Davis
Sorrisos lacrimosos
(Putos, pagãos, corroendo desejos)
Litorâneos sorriso em forma de recifes
Há tantos sorrisos
E esse que eu não sinto ou compreendo
Prova do infinito
Não quero coisa alguma
Não aspiro mais ao eterno
Não desejo o calor humano
Nem os prazeres materiais
Não espero pelo vida
Nem almejo um futuro
Nem dinheiro, nem orquestras
Nem filhos
Paz, casas, sonhos, deuses
Frutas ou prostitutas
Deusas ou carnavais ou felicidade
Nem virgens de lábios de mel…
Não quero a morte
Não quero a vida
Não o que me basta
Nem o que me abarca
Nem o tao
Não existir, simples
um quarto trancado
cortinas cerradas
janelas herméticas
uma alma vazia
os deuses à quilômetros
à espera do sol dos tristes
o corpo colchão
dor nos olhos, pelos olhos
lágrimas secas
samplers de fados
mar de desilusões
gritos pela caneta
o marasmo do sax
as gotas de esperança evaporando
uma expressão sul-real
a agonia
É somente de ilusão
É ferida
É coração despedaçado
É descompasso
É solidão
É valsa trash-punk
É medo
É medíocre esperança
É aquele terreno infértil
É a máxima mentira
É riso dissimulado
É dor do gozo
É a castidade do prazer
É o além que se fecha em si
É só metáfora
E machuca
as nuvens não têm mais forma
não se abstrai mais nada…
as nuvens estão já mortas
sepultadas sobre as águas
sobre as peles
o azul grita a dor
de não mais ser quadro
ser só amplidão sozinha
ser imensidão incoerente
e as nuvens em nós
não valem nada
o ser humano se mata a cada silêncio
a cada palavra, a cada ato
o ser humano destrói seu mundo
no silêncio, na palavra, no ato
e ainda se prioriza a realidade
o ser humano se humaniza
em contato com a animalidade
com seu silêncio, sua palavra, seu ato
se sufoca com seu silêncio
se agoniza com sua palavra
se fere com seu ato
se constrói destruindo
uma realidade animalizada
(já morta)
um ser suicida
Já não espero os teus beijos
Teu sorriso ou tua dor
Já não sinto seios
Teu acalento ou te odor
Já não te vejo
Já não te toco
Já não te velejo
Já não te provoco
Já não sei onde andas
Com que e onde vais
Já não sei quem amas
Se amas e quanto a mais
Já não te beijo
Já não te abraço
Já não te atrevo
Já não me acho
Já não sei se vale a pena
Por mim mesmo ou por alguém
Já não olho quem me acena
Quando não é tu que vens
Já não escuto tuas dores
Teu dias de tempestade
Já não enxergo tuas cores
Que a minha alma invade
as horas não passam
o amanhã nunca vem
penso nesse hoje,
só a (há) morte.
Não faço falta
— mas falta coragem!
Não faço falta
— nem mesmo a mim!
Não faço falta
— não faço nada!
sou só esse hoje…
0394. pelo corredor o murmúrio do silêncio zomba de minha face sonolenta, zomba de minha face sonolenta, berra uma noite mal dormida a frio, traz um vento sinistro que dói os pés — o corredor quer minha morte.
Assassinato
0393. nada completa algo. tudo é parte. sem nexo, sem referencial. Tudo é vazio. Nada é. tudo pode (incompleto).
Incompleto
urge meu coração
o acalento do passado
a doce incógnita
da dor de ser-me a solidão
ser-me vento
de banhar-me no acre-amargo
de elogios à loucura
de endoidar e evanecer
na agonia do desespero
basta de me dissimular
de me trair
de não me ser
sou-me a solidão
sou a visão turva e desfigurada
do ângulo promovido pela cama e a janela
riscando de poste o quadro idiota
sou-me incógnita
X
ser triste era melhor
a desesperança não traia
o amor simplesmente
não existia
ser triste era mais saudável
a dor não incomodava
só a utopia platônica
tinha vez
ser triste era mais eu
a felicidade não me cabe
o riso me é inumano,
não me tem
ser triste sempre me volta
e eu abarco a tristeza
com um abraço esperançoso
de que me encontre só
Poemo migalhas
Podres como minha
Pérfida face
Pondero palavras
Plásticas como
Os peitos que passam
Pormenores, pigarro,
Piadas como as partes
Do que chamo vida
Procuro putas
Porque o amor não
Me convém agora
Provoco pesadelos
Pictogramas, premissas
Do que vegeto
(já chutei o balde)
deve ser de deuses
a incógnita de amar
deve ser capricho dos deuses
a fábula do amor maior
deve ser maldição
a retina que te olha fugindo
tangenciando a culpa
deve ser morte
ou ciclo quem sabe talvez,
talvez a própria vida
deve ser o vazio
a distância entre os infinitos
deve ser tudo,
mas certamente é amor
“onde foi parar o prazer à lentidão?”
Tudo fugaz e flébio
Adnâmica seca de julho
O vento colore
O movimento é multicor
A essência é gris
E deságua a seca
A poesia permeia
A lágrima é de lama
A essência é suja
E tosse-se a seca
E os lábios ressecam
— preto ao branco
O sol arde, colore
Dá a velocidade da luz
Uma lágrima que brilha
Seca, suja, rápida
Segundos sussurrados
Lépidos atrozes, ávidos
Contumaz seca
faz-se um zum de grilos acima da cabeça
e passos de saltos em marcha lenta
um chaveiro balançando ressoa o metal
e o nhéco-nhéco dos tênis aumentam
murmúrios melódicos, maestria medíocre
passos curtos de crianças livres
leves sussurros apaixonados por si
e urros apáticos quando mais si ainda
um segundo se encerra qual os passos
que se dão em falso na calçada
um ego mudo em meu eterno
emudece os segundos e encerra os passos
quebra os metais e cala os urros
só se ouvem passos curtos — livres
murmuram a única estrofe de esperança
o peso de dizer sim, cai sobre o inventado
eu não queria me dizer adeus
mas como sem sua mão ao lado?
derramei o meu pranto sobre o espelho
e molhei o meu avesso
encarei minha face crua
e cessei minha existência num anseio
agora eu choro sim, tudo o que foi passado
eu já passei de mim mesmo
e me vejo rumo a um outro espaço
separei o joio do trigo
e fiz um pão com o que estava estragado
provei minha conduta
e ela tinha um sabor amaro
Havia uma flor ainda viva em mim
Com as pétalas capengas
Como o perfume desgastado
E um espinho também vivo
Por debaixo da minha pele
Minha pele qual minh’alma
Já rasgada, já ferida
Fertiliza flores mortas
Fortalece espinhos venenosos
Não conte-me tudo o que você viveu
tão depressa
porque depois do quarto beijo
nada mais para se dizer
e aí o amor acaba
Todos só desejam o aparente
Ninguém fica com alguém pela essência
Todos querem a superfície do real
A aparência que se esvai com as auroras
Todos fogem ao encontro da essência
A essência dá medo, apavora
A aparência dá o momento, o impulso
Todos se agarram ao aparente
Não vendo que ao toque do eterno
Ele se quebra e nos dá sua vida,
Sua essência
Nós corremos pelo outro lado (definitivo)
Pois da essência só queremos sua máscara
Que nos veste tão bem…
sem luz as trevas seriam um devir de si mesmas
abstraio do que ela me diz
lanço meu olho às luzes
que dão vida à morte
em cada feixe de luz que me chega
divago nas palavras dela
me seduzo com o que ilumina
de sua boca e corpo
abstraio o amor contido
e mergulho nesse mar de luzes
Completa-me a essas tardes
As vésperas do desistir
Rolamos risos e enfados
Omitindo qualquer meta
Lampejos de medo e amor
Igualdade de versos e vidas
Namoro de signos e ascendentes
As coisas hão de se dar
Medeias a amizade?
Angarias meu ser mais uma vez?
Yansã na me diz — ri
Respostas mudas em mim
Arquétipos da dúvida outra e mais uma vez
Milhas nos percorreram
Ajustados ou a mercê de nós dois
Recorrer a minha falta de senso
Indo a mim e me dizendo:
“Ah, você está lindo, eu te canto novamente…”
Morre à fatiga do crescer
Acolhe-me ao peito irmão
Refaz-se todo instante
Inventa seres a si
Numa tentativa de escapar
À solidão que é mais fastio
Ir pela contramão, ao acaso
Vértice tangente à cartas marcadas
Ainda que conflituoso caminho
Nefasto talvez pela razão
Amigos hão de me crucificar
Lucidez na fuga
Yemanjá há de dizer
Veloz na súbita
Ida contra meu ser
Ainda que por mar incerto
Navega sempre e vai!
Como infante sem meus
Rumos, ventos, direções
Ilhas, buscas, tesouros
Seus enterrados na areia
Tempestades de nosso agora
Interrompem nossa maresia
Namoras aquelas feras
Aonde eu sou só um nativo
A mim só o aparente
Nome de um fim
A ti, quem enganas?
Louca, néscia ou centrada
Uma a uma possibilidades
Ilhada em si e iludida
Zumbi de pretéritos perdidos
Antes findo, mas por fim, eterno
Flui já não sei
Loucura e inércia
Ávida por não sentir
Vida em mim
Imagem recíproca
Alhures do nada
Rosto de expressão
Esgota as possibilidades
Gosto de ? ao olhar
Imagem recíproca
Nativos piscianos
Andam rumo ao nada
Ao que me parece
Lá bem no fundo
Incógnito talvez
Nasce meu ser
Em teu peito
Signos
“Eleovaldo + Brazlândia:
história de am©r”
dizia o adesivo no carro.
do jeito que andava
pela Ceilândia
a traição era certa
um, dois,
três,
quatro, cinco
seis… se eu contasse
todas as luzes acesas,
descobriria alguma verdade?
Devem os ter muitos poetas
Nestas redondezas por onde passo
Esse sol, essa paisagem,
Nem que sejam poetas forjados
KINGSTOWN
HOTEL
R
IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS
AMERICANAS
FUJIOKA
a
poesia
que
sai
de
letreiros falhos
dos dias que passam
passam por não parar
das dores que perpetuam
primam por não findar
das decisões que provocam
provam que saída não há
dos desejos que evocam
provocam o suspirar
desses dias tão intensos
intenções não são o ausente
e tensões quase o permanente
dessas insanidades diferentes
só sobram os seus acenos
sussurros do não confesso
MARAMOR
SECALMA
PEIXEU
Quando te inventei em meus braços
Achei que haveria um triunfo
Tramei um futuro de nobreza
Mas no fim o que resta é a incerteza
Que consome o cotidiano, os segundos
Hoje penso em juntar-me aos estilos imundos
Que inventam outra possível solução
A de não acreditar que o amor é coisa do coração
Que é um ilusionismo passageiro
Talvez seja a ilusão do mundo inteiro
Como mágico, ilusionista e inventor eu continuo
Inventando amores e seguindo a sina da dor
Crucificando meu coração como bom amador
Sem resposta, penso na próxima invenção
E procuro em outros rostos, outra ilusão
Acho que encontrei. Ou será que não?
(Dalglis Luz e Luz e Guilherme Carvalho da Silva)
Olho o telefone
Pergunto se estás
Vais me querer
Ou é cedo demais?
Consulto os astros
Conselhos banais
Vais me querer,
Escutar os meus ais?
Eu miro o passado
Futuros casais
Vais me atender,
Fantasmas a mais?
Não creio
Ou creio
Será que o amor já se inventou em mim?
Não creio
Ou creio
Vais querer um inventor assim?
(Dalglis Luz e Luz e Guilherme Carvalho da Silva)
Quebraste a promessa
Calaste a chegada
Ferveste o meu peito
Lágrimas em brasa
Fugiste com medo
Apagaste o passado
Deixaste em remessa
Coração machucado
Falaste com os olhos:
“Não sei o que sinto”
Não deste notícias
Te odeio, te minto
Te esqueço Mayra
Te apago em ira
Te espero Mayra
Te amo em lira
Quebraste meu peito
Calaste a promessa
Deixaste o passado
Lágrima remessa
Fugiste com os olhos
Apagaste a chegada
Não deste o que sinto
Coração em brasa
Falaste com medo:
“Não sei o que sinto”
Espero notícias
Te esqueço, te minto
Me esqueces Mayra?
Me apagas em ira?
Me esperas Mayra?
Me amas em lira?
quão inebriante era viver
sentindo-se a exceção da vida
pesando só a natureza ter razão
passando por árvores
e dizendo a elas:
“olá minhas irmãs,
como vai nessa solidão?”
e elas se rindo em concordância
balançando suas folhas, seus galhos
e me dando um perfume gostoso
seguia minha solidão feliz,
completo, repleto de um vazio suave
não almejando nada
que não me fosse impossível
e agora eu nessa,
pensando só em restaurar
um amor que se finda…
Guilherme, acorda!
A vida ainda continua!
A natureza ainda tem razão!
sim, há toda a vida pela frente
cravada de suposições —
balas do que virá
que supor suposições
de pouco adiantará
sim, nada de amores,
juramentos ou eternidade
sim, dó do sutil os sabores,
o frescor e a suavidade
sim, só seguir em paz
as rotações do mundo
e a beleza de suas ações
sim, sem olhar para trás
o que calou fundo
e foi mar de desilusões
sim, que nenhum amor basta
até sabê-lo já acabou
sim, que a atitude casta
é medíocre quando se findou
sentir tudo em suas mãos
e não abarcá-lo em seu peito
é ter a verdade
num lapso de uma fração de segundo
não entregar-se à essência em suas mãos
é despencar em aflição
por conta de alguns neurônios a menos
que problematizam uma possível depressão
sentir tudo em suas mãos
e nada em seu peito…
como sinto a não-verdade!
ter a solução em milímetros
é espelhá-los no encontrar de paralelas
no oposto da imagem reflexa
que já sucumbiu em realidade
oscila o mundo o tempo todo
e tudo e nada em suas mãos
mas não se preocupem,
sempre hão de aparecer
um antropólogo esquisito,
um pedagogo semi-deus,
ou um advogado brilhante
para te deixar com cara de nada,
com cara de mão
cada um com uma brilhante verdade
para calar-te a mudez
de seu ser mudo à luz
para desmerecer o pouco que
te fez com tanto apreço
aquele pouco que te é
e que lutou odisséias para tê-lo
chega um desses e te marca
a existência numa transcendência
de acasos em mãos
que não acendem chamas em peitos
gira turva a aflição
da entrega à não-verdade
debruça-se numa existência sub-atômica
e o tudo escorregando entre os dedos
de sua mão
e a solução se esvaindo
e a seratonina se acabando
e maracatus, lutas políticas e teses de mestrado
deixando você e seu Bukowski
como restos do que já existiu
– fragmentos de uma grande explosão —
como um universo paralelo néscio e medíocre
sentir tudo em suas mãos
e não integrá-lo em seu peito
é insustentar-se como ser
ainda que nem leve nem pesado
ainda que medíocre e mundo pouco ser
caminho em linhas paralelas
equilibrando o tudo às mãos
o nada ao peito
e as oscilações da alma em aflição
e bombas de antropólogos, pedagogos e advogados
querendo derrubar-me das linhas
mas medíocre, insignificante
mudo, sem neurônios, sem seratonina
– pouco por assim dizer –
sigo a trilha do infinito
e espelho-me no que escorrega
pelas mãos
notas de jazz rasgam a solidão
facadas jazzísticas abrem chagas
e escorrem memórias em sangue
– a dor provoca um riso frouxo
dias despreocupados voltam
sobre o corte exposto ao som
uma ferida sutil e alegre
que martiriza o contido antes do jazz
passados. pretéritas passagens
advindas em feridas estupidamente
alegres
e o jazz perfura ainda mais a carne
e o sorriso abre-se mais em minha face
como um corte produzido
pelas notas de um jazz que
rasga a solidão estampada
em uma fronte de incógnita
“Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia…”
Daquele sonho esquisito onde te vias
Que tu fugidia águia se ia
Acordei como se não dormido tivesse
E naquela noite creio o sono não houvesse
Havia a ausência do acordado
E a ânsia de tua mão ao lado
Havia-me só à cama e a distância
E tu em minha alma e a relutância
De crê-me solidão ao acordar
E não merecendo ao meu lado te encontrar
Mas acordei, me levantei (de pé esquerdo!)
Olhei a escuridão de ainda cedo
Respirei fundo e tentei captar
Tua essência em meio ao ar
Abri as cortinas, deixei luz entrar
Canta estridente teu drama
Onde tolos vêem triste tua fama
Desliza em grave paisagem
Do teu timbre uma miragem
Ilumina a escuridão do quarto
Grita e abre cortinas num ato
Dá dramática a voz contida
Na tua dor reverberada e amiga
Uma paz no canto calmo e carnaval
Que entoas noite adentro sem mal
Molha a alma com suavidade
E dá milhas a minha pouca idade
Falar dessa solidão que me consome
Não me é de gosto agradável
E só me há ela agora
Mas maldizê-la é maldizer-me
É esquecer que a sou também
Um labirinto de paredes de vidro
É o que espelha a solidão que me é
Eu espelho becos sem saída
Dou-me voltas, me invento
Sou-me cada volta a mais, mas solidão
Perco-me nesse labirinto que sou
E só, o percorro me perdendo
Rumo a mais solidão que sou
Descubro-me perdendo-me em mim
Sou-me cada vez que me perco
Mais solidão
um acordeom acorda a alma
e diz que não nasci agora
nasci não nesse mundo néon
e me fiz num tempo de calma
em que acordeons tinham hora
nasci no avesso do presente
mas saí cuspido só agora
um tanto doído, não ileso
senti-me vivo sendo ausente
nos avessos do que estou fora
Disse ao vento: “pode ir!”
E ele foi-se rindo de mim
Disse ao vento: “fique mais!”
E ele foi-se rindo de mim
Disse ao vento: “ai de mi!”
E ele foi-se rindo de mim
E ele foi-se balançando meus cabelos
Estremecendo-me em calafrios
Ardendo-me os olhos com poeira
E me fez chorar
Lembro quando ele veio
Prometeu-me brisa fresca
Anunciou-me umidade à alma
Acariciou-me a pelo e os pelos
Deu-me ar puro a respirar
Mas agora ele foi-se rindo de mim
E eu ainda disse ao vento: “volta!”
E ele foi-se rindo de mim
E eu disse ao vento: “preciso de ti!”
E ele foi-se rindo de mim
Disse ao vento: “eu te amo!”
E ele foi-se rindo de mim.
falar-te anda complicado
quando falo-te, faz-se ela
quando ela, falo-te então
e se só ela por instantes
vem uma que corre por fora
vem derrubando-a ao chão
e quando a que corre pára
surge-te assim em mim
surge uma passada e digo-te não
e a que passou jaz no passado
pois a outra tomou a vez
pois que cai e ela me toma a razão
e ela me domina tudo
até uma desconhecida aparecer
até que tu de novo vem-me ao coração
mas tu, ela, aquela, a outra
e tantas mais que vêm e vão
sempre me deixam só
ou eu mesmo senão…