Existem pessoas
que são como
espelhos
para sua
conduta
Mira-se uma
e ali, naquele
rosto avesso,
projeta-se a luz
do que se fez.
Temor, terror
ao se ver
não o que se
projeta, mas
o limbo do
que se fez
e como
se fez.
Autor: Guilherme Carvalho
1943.
Vã idade
esta em que
a vaidade
é vista
com tanta
seriedade
1944.
Quente
eu derreto
e de reto
não me paro
Quente
que ente
agüenta
sem ungüento
este calor?
Quente
cálido ar
sem quase
ar, sem vento,
só o lento,
quente,
tempo
1939.
Tenho medo de sair
passar por esta porta
Lá fora há todo um
mundo de ir e vir
que a segurança
me prostra
1940. A vaidade
Vá idade
dizer que
a gravidade
nada perdoa
dizer que é
grave a idade
que a cerca
Vá idade
dizer que a
pele se aglutina
e enruga
e seca
e perde o brilho
Venha idade
toma-me de
assalto e
me leva ao
alto do que
não sou mais.
1936. Temores reais
Não tenho receio dos
senhores trancados em
salas fechadas de coberturas
de arranha-céus que
tramam o futuro da humanidade
Não tenho medo dos engravatados
reunidos nas bolas tortas
do falo nacional ou dos
burocratas dos dominós
que hão de cair um dia
um após o outro
Não tenho medo nem dos
homens de preto empunhando
seus falos prontos a me
atacar pelo meu fumo
Mas do bicho-papão…
Esse me causa os maiores pesadelos.
1937. Esprema!
Como o estrume do ser
E o supra-sumo do parecer
É o que costumo ser
1938. Nojo
Sempre me causou asco,
desde a mais remota infância,
aqueles mosquitinhos que
antevêem a chuva,
que ficam zanzando
pelo chão sem saber se voam
ou não
que parecem formigas
mas não são
que podem só ser um
estágio de mutação
Talvez tal asco seja só
fruto de uma própria previsão:
me ver tal qual esses mosquitinhos
nojentos rodando e rodando
por um chão
1933. Acho que veio primeiro a galinha
Destoar
De estorvar
Destôo
Do ovo
1934. De navegar
Do rumo
Do prumo
Da proa
Da rota
Devagar
Navego
Nas minhas
próprias veias
1935. Bum!
Por motivo de força maior
Me envergonho das letras
Qualquer uma me causa pavor
Escondo-as, portanto, assim
Qual soneto meu pra mim
Qual amor-bomba perto do estopim
1931. A onisciência da ciência
Tudo é teoria
em tudo está a teoria
te olhando dentro do banheiro,
travestindo-o de percentual,
fantasiando-o de amostragem.
Em qualquer lugar,
em todo lugar
Do ártico ao antártico
passando pelo deserto
e pela savana
Um olho que tudo vê e tudo sabe
1932. Lamúrias
Chorar graças
Sorrir mágoas
só rios em águas
chover graves
grávido de amálgamas
Lama mortuária
embebendo os cômodos do peito,
preenchendo cada alvéolo pulmonar
1929. Siamescos
somos só mais
um amontoado
de cacos mal colados
de macacos
1930.
Tudo é uma questão de linguagem
Vinte e cinco,
um quarto de século,
cinco ao quadrado…
Só não muda a constatação
dos anos indo
e vindo…
1927. A saudade é uma questão rítmica
Ela brota na alma e no esqueleto
Se sente num lugar não preciso:
para além do fim do mundo
e a oriente do Tratado de Tordesilhas
1928. Toda linha deve ser preenchida
Uma porta aberta
cabe ar
nela pode mesmo
caber dois corpos de lado
em repouso ou
em ato falho
Cabe mais, cabe menos
mas nunca preenchido
por completo o espaço,
entre um e outro,
sempre cabe mais.
1924. Meados
Seis segundos se irrompem
Poderiam ser doze
Mas não mais que isso
Não
É o tempo,
até que sobrem algumas
pétalas em meio ao caos
1925. Tudo se sente sim
Tudo tem graça
mesmo na roupa
nova, a traça
Tudo tem gosto
como lamber o
perfume no pescoço
Tudo tem cores
como ao mesmo tempo
o fim de dois amores
Tudo tem textura
como tatear na brasa
toda a quentura
Tudo tem som
como no dormir
no sonho um tom
Tudo tem cheiro
mesmo a lavanda
no chão do banheiro
1926. Cortar a arte
foi quando estas letras se juntaram
dando cor ao entrelinhas branco
que eu pude rever onde estavam as palavras
submersas por detrás das páginas
era só se calar e lá as estavam
umas grandes, outras foneticamente aprazíveis
mais ainda haviam aquelas que
não queriam ser ditas
pois, carregadas de sentimento,
ou, mesmo de além de si mesmas,
ficam na penumbra do surgir
é posto que se precisa tatear as margens
para achá-las e esforço ainda é o de se saber
onde colocá-las ou porque ou para quem
mas sempre se acha um modo qualquer
modo vário, vagabundo, versado que seja,
mas válido
uma palavra que seja
somada a outra e mais outra
definitivamente,
sempre põem mesa
de fato a frase me pegou
vou cortar a arte
e fatiá-la miudinho, miudinho
até que eu possa espalhá-la toda
por tudo o que for possível
1921. Sublimar
Subir até o mar
Descer até o ar
Para tentar
não
rememorar
1922. Noite
A cada minuto
o céu perde um tom de azul
ou ganha um tom de branco
até que, crepuscular,
doma-se a claridade
e vem uma sucessão dourada,
até o negro
que clareia tudo.
1923. Corrosivamente
Causticamente amando o mundo
porque a cada angústia
o mundo brilha
e em cada pétala nascida
me brota um riso.
O acaso me compadece
e a sorte me causa asco.
Disso feito, restam as aléias
e o desterro para que a vida
pulse junto a lágrimas de dor e gozo.
Corrosivo e amante,
pois canto o erro e a melancolia
que gorjeiam a solidão
e que pousam taciturnos
sobre o âmago da felicidade.
Ao que vejo as novelas
e ainda me arrisco nos livros
sinto o sal da terra
em todo ato
e o joio é mais importante que o trigo
E nas tardes de julho
o vento frio me diz que a vida
ainda pode.
E aí eu posso.
E da falta de posse
num lapso de se esquecer
eu ouso ser esperançoso,
ainda que o medo do futuro
irrompa a porta da sala
a toda hora.
Ácido e lânguido sinto,
não por pena de conduta,
tímida ou temerária,
que bom ou ruim
a dor dói
e o riso afaga.
1920. Panacéia
Mais que idéia
é juntar,
no ar,
amor e
dor.
1918.
De alguma forma flui
como aos que vêem,
a imagem simplesmente
entra e se assenta.
Qualquer coisa ainda líquida
como às que ainda tem idade tanta,
corre ao mundo o fruto
não gestado.
Num sentido ainda corre,
como dos que gozam aos borbotões,
segue eletricidade
do genital ao cérebro.
Mas não se vê ou sente
como ao rio morto,
não se identifica montante,
jusante ou leito.
Piraju, SP.
1919. Hotel com má companhia
Esqueceram de olhar para dentro do rio
antes de saltar para a margem,
deixaram para trás uma pitada
de cor que fosse,
pois agora se se canta
o véu da lua a refletir na poça de lama,
dizem que não se pode haver motivo para esse cantar
Não se pode deixar cativo o olhar
sobre uma lágrima que seja
já que os olhos devem se pousar
para o lado duro do mundo
e gozar, mesmo com a poesia
da música pop, somente o tempo
suficiente de um intervalo comercial
Piraju, SP.
1917.
Uma trama há muito posta
para encobrir a paisagem do hélio
Para tapar as vítimas de Adão e Eva
Para esconder o mundo
por uma fina película
Para a tara reprimida de saber
que é só essa coisa íntima
a colocar pudor
Um emaranhado mínimo,
figura representativa de um super-ego
em panos
Uma trama há muito posta
para se pensar que apenas o sol é o vilão
incomensurável ao sono
Mas lá neste, nas entrelinhas das imagens
eis que surge uma outra cortina
para nos assegurar a fuga
de um mundo de instintos
Piraju, SP.
1915.
A oferta sempre
está de pé
A hora certa
é qualquer
Pena que a sesta
maior que
a vontade é
1916.
Há um Cristo no lugar do
morcego a pairar sobre
a neblina de Gothan City
Uma chuva que não cessa,
uma coisa de cada gota
querer o chão para depois
subir de novo
Uma nuvem negra sobre
toda a paragem
e um Cristo resplandecente
com seus braços abertos
e em eterno crucificar-se
pelo resto da humanidade
O Cristo e a água,
num moto-perpétuo
Piraju, SP.
1913.
Falar numa linguagem
que não se fez ainda
Prever no som do silêncio
o que se gesta no futuro
Um mundo de imagens
e ninguém consegue compreender
os sons cálidos dos gestos
1914.
A comunhão seria feita
no ato de dividir o mundo
Há espaço tanto
e tamanha imaginação
que seria tarefa fácil a partilha
Pra este simplório,
bastaria uma nuvem carregada
que se dissipasse ao encontro
do mar
Assim minha parca propriedade
– este corpo, envoltório de acasos –
teria seu rincão instaurado
nos calmos turvos vãos
abissais
1912. Que tal?
Eu te pergunto que tal
nós dois em nosso quintal
Muitas frutas espalhadas
Manga e o buriti
Mangabas e graviolas
e também o açaí
Amora, jaca e o abacate
juntinho do murici
E na frente do quintal
que tal uma casinha
nós embaixo do umbral
da porta lá da varanda
um jardim cheirando
cânhamo sem ter tempo
para o mal
Ervas de todas as cores
e para todas as curas
Para aliviar as dores
e uma vida mais pura
Pra benzer com várias flores
nosso amor com brandura
Eu te pergunto que tal
bem junto ao nosso quintal
um corguinho de água fresca
com sombra pra nossa sesta
Toda noite será sexta
e por qualquer deve ter festa
Bem juntinho da noite
um cheirinho de café
pra ficar bem acordado
e brincar de homem e mulher
Um incenso bom ligado
nosso desejo e uma fé
E lá no nosso quartinho
na vitrola um som antigo
eu te traria um chá por mimo
de capim-santo ou camomila
pra mostra que eu não minto
quero sua vida com a minha
1910. Quatro
Quatro rostos viram
Um permanece estático
Acompanham néscios
o movimento de um
rebolado
Pra lá e pra cá
Pra cá e pra lá
Mais sexo que
visão e andado
1911.
A moça atenta
tenta,
mas há algo
que atenta:
há tentação tanta,
que a atenção
desanda.
1907. Brecha
Lá fora cabe a noite
Aqui tem espaço pra ela
E mais aqui ainda
1908. Quase poesia (ou inscrições para trilhas ecoturísticas)
Na floresta
uma flor está
flor esta
que floresce o estar
em tom vário
do verde que há
1909. Coisas inspiradas e atos mecânicos
Uma roldana
que na ponta
pende um rasgo
de alma
Quanto mais
roldanas,
menor a força
e, em impressão,
o peso
Eu puxo a corda
de um lado
e do outro
eu subo
1906.
Acho que cansei da história
vou ficar com a estória
macular o fardo dos fatos
em fábulas
travestir as simbólicas letras
em lendas
Vou ser estória
pouco me importa a história,
o que ficou,
quero o conto que conte
tanto a mais que o marco
das eras
tanto a mais que Augusto Comte
Quero a flor posta a falar,
o enlevo do timbre narrativo,
um diálogo monolítico sem
sobras de teoria
Minha vida como estória
sem contexto histórico,
sem pormenores do que não foi
escrito ou registrado
Só uma história qualquer
1905. Tocado
Tocado de poesia agora
meus olhos não querem ver
o sangue derramado fora
nas sobras do bem-querer
Tocado de poesia agora
o átimo da vida ao chão
que segue ao campo que doura
brotando um pé de cada grão
Tocado de poesia agora
o que vejo não é uma América Latina
é sim feito de outro feitio, ora
a cor indefinível de uma Afroameríndia
Tocado de poesia agora
açu agudá a terra inteira
de abaixo de Capricórnio estoura
de um sem Ocidente, toda fronteira
Tocado de poesia agora
são dessas veias abertas
que a qualquer não logra
banharem em rubro as terras
Tocado de poesia agora
no centro pacífico e atlântico
num rincão gigante de sobras
faço-me num porto lânguido
1904.
Foi o vento do sul
que desabou o céu
um instante
Abriu o sol
de relance e armou
um sorriso
distante
Foi um calor tão
breve que foi
faísca a neve
A tarde inteira
bastou
O sol de fim
me levou
O sul, assim,
sonhou
Florianópolis, SC.
1901.
Enternecido
nessa tarde
entristecido
entre tramas
de tecido
entremeio-me
no trauma,
até que o tremor
se tenha ido.
1902.
Passam pela flora
pensando que não ora
a pétala ao vento
da passiflora.
1903.
Palavras sagradas
são aquelas segredadas
não essas dadas
a todo momento.
São aquelas degustadas
no abafar de
um juramento.
Sacras palavras
guardadas no profano
do silêncio.
1899.
Há buzinas
Mesmo, deve haver cores,
trânsito, deve estar lá.
Bandeiras hasteadas,
brados de vitória.
Tudo lá fora,
o mundo se escolhendo
se encolhendo
entre a possibilidade
da merda e o
cogito da bosta.
Há buzinas azuis,
bandeiras rotas,
trânsito de possibilidades.
Quem ganha? Quem perde?
Eu me encolho
E me escolho
1900.
Adélia, Adélia…
Te vejo agora Adélia,
e da outra vez você me
trouxe cá consigo.
Pois que não era eu quem te
carregava, mas você
que me conduzia com
teu texto.
Se o tivesse agora,
o leite tinha derramado
todo pelo fogão,
pois que todo o sentido
era teu e não o
possuiria ao ponto
de notar outras sutilezas.
Adélia, Adélia,
se os tivesse nessa luz,
daria a ti todos os
gerânios das mais variadas
cores e os poria,
em cima da mesa,
junto a uma goiabada
com queijo.
1897.
Quem sabe ainda
dê pra fugir
A gente se prepara
e vai de remo
(barco a remo,
é claro) não pra
Austrália, mas para
Kiribati, e lá a
gente não constrói
nada novo, depois
que tudo acabar e
os ets aparecerem
lá, a gente vive do
velho mesmo.
1898. Prova de amor
– Onde você vai?
– Não tenho a mínima idéia…
– Posso ir junto?
1895.
Acontece
que sem você
aqui nada
acontece
e aquela canção se
acomete,
e aqui,
nada acontece.
1896. Profissionais da memória
Eu, como um deles,
Quero preservar o nome flor
para que ao amanhã
se faça, sempre, pelo menos
na palavra, essa que não
se usa mais como a
prova da estética,
como o ethos da imagem
da beleza, mas sim
como o adorno de forma e cor.
1893.
Eu falo
e tu não escutas
talvez nem ouvir
Eu falho
e tu me executas
talvez só um porvir
Meu falo
pra tu que és culta
não serve para ir ou vir