1936. Temores reais

Não tenho receio dos
senhores trancados em
salas fechadas de coberturas
de arranha-céus que
tramam o futuro da humanidade

Não tenho medo dos engravatados
reunidos nas bolas tortas
do falo nacional ou dos
burocratas dos dominós
que hão de cair um dia
um após o outro

Não tenho medo nem dos
homens de preto empunhando
seus falos prontos a me
atacar pelo meu fumo

Mas do bicho-papão…
Esse me causa os maiores pesadelos.

1938. Nojo

Sempre me causou asco,
desde a mais remota infância,
aqueles mosquitinhos que
antevêem a chuva,
que ficam zanzando
pelo chão sem saber se voam
ou não
que parecem formigas
mas não são
que podem só ser um
estágio de mutação

Talvez tal asco seja só
fruto de uma própria previsão:
me ver tal qual esses mosquitinhos
nojentos rodando e rodando
por um chão

1926. Cortar a arte

foi quando estas letras se juntaram
dando cor ao entrelinhas branco
que eu pude rever onde estavam as palavras
submersas por detrás das páginas
era só se calar e lá as estavam
umas grandes, outras foneticamente aprazíveis
mais ainda haviam aquelas que
não queriam ser ditas
pois, carregadas de sentimento,
ou, mesmo de além de si mesmas,
ficam na penumbra do surgir

é posto que se precisa tatear as margens
para achá-las e esforço ainda é o de se saber
onde colocá-las ou porque ou para quem
mas sempre se acha um modo qualquer
modo vário, vagabundo, versado que seja,
mas válido

uma palavra que seja
somada a outra e mais outra
definitivamente,
sempre põem mesa
de fato a frase me pegou
vou cortar a arte
e fatiá-la miudinho, miudinho
até que eu possa espalhá-la toda
por tudo o que for possível

1923. Corrosivamente

Causticamente amando o mundo
porque a cada angústia
o mundo brilha
e em cada pétala nascida
me brota um riso.

O acaso me compadece
e a sorte me causa asco.
Disso feito, restam as aléias
e o desterro para que a vida
pulse junto a lágrimas de dor e gozo.

Corrosivo e amante,
pois canto o erro e a melancolia
que gorjeiam a solidão
e que pousam taciturnos
sobre o âmago da felicidade.

Ao que vejo as novelas
e ainda me arrisco nos livros
sinto o sal da terra
em todo ato
e o joio é mais importante que o trigo
E nas tardes de julho
o vento frio me diz que a vida
ainda pode.
E aí eu posso.

E da falta de posse
num lapso de se esquecer
eu ouso ser esperançoso,
ainda que o medo do futuro
irrompa a porta da sala
a toda hora.

Ácido e lânguido sinto,
não por pena de conduta,
tímida ou temerária,
que bom ou ruim
a dor dói
e o riso afaga.

1918.

De alguma forma flui
como aos que vêem,
a imagem simplesmente
entra e se assenta.

Qualquer coisa ainda líquida
como às que ainda tem idade tanta,
corre ao mundo o fruto
não gestado.

Num sentido ainda corre,
como dos que gozam aos borbotões,
segue eletricidade
do genital ao cérebro.

Mas não se vê ou sente
como ao rio morto,
não se identifica montante,
jusante ou leito.

Piraju, SP.

1919. Hotel com má companhia

Esqueceram de olhar para dentro do rio
antes de saltar para a margem,
deixaram para trás uma pitada
de cor que fosse,
pois agora se se canta
o véu da lua a refletir na poça de lama,
dizem que não se pode haver motivo para esse cantar

Não se pode deixar cativo o olhar
sobre uma lágrima que seja
já que os olhos devem se pousar
para o lado duro do mundo
e gozar, mesmo com a poesia
da música pop, somente o tempo
suficiente de um intervalo comercial

Piraju, SP.

1917.

Uma trama há muito posta
para encobrir a paisagem do hélio
Para tapar as vítimas de Adão e Eva
Para esconder o mundo
por uma fina película
Para a tara reprimida de saber
que é só essa coisa íntima
a colocar pudor
Um emaranhado mínimo,
figura representativa de um super-ego
em panos
Uma trama há muito posta
para se pensar que apenas o sol é o vilão
incomensurável ao sono
Mas lá neste, nas entrelinhas das imagens
eis que surge uma outra cortina
para nos assegurar a fuga
de um mundo de instintos

Piraju, SP.

1916.

Há um Cristo no lugar do
morcego a pairar sobre
a neblina de Gothan City
Uma chuva que não cessa,
uma coisa de cada gota
querer o chão para depois
subir de novo
Uma nuvem negra sobre
toda a paragem
e um Cristo resplandecente
com seus braços abertos
e em eterno crucificar-se
pelo resto da humanidade
O Cristo e a água,
num moto-perpétuo

Piraju, SP.

1914.

A comunhão seria feita
no ato de dividir o mundo
Há espaço tanto
e tamanha imaginação
que seria tarefa fácil a partilha
Pra este simplório,
bastaria uma nuvem carregada
que se dissipasse ao encontro
do mar
Assim minha parca propriedade
– este corpo, envoltório de acasos –
teria seu rincão instaurado
nos calmos turvos vãos
abissais

1912. Que tal?

Eu te pergunto que tal
nós dois em nosso quintal
Muitas frutas espalhadas
Manga e o buriti
Mangabas e graviolas
e também o açaí
Amora, jaca e o abacate
juntinho do murici

E na frente do quintal
que tal uma casinha
nós embaixo do umbral
da porta lá da varanda
um jardim cheirando
cânhamo sem ter tempo
para o mal

Ervas de todas as cores
e para todas as curas
Para aliviar as dores
e uma vida mais pura
Pra benzer com várias flores
nosso amor com brandura

Eu te pergunto que tal
bem junto ao nosso quintal
um corguinho de água fresca
com sombra pra nossa sesta
Toda noite será sexta
e por qualquer deve ter festa

Bem juntinho da noite
um cheirinho de café
pra ficar bem acordado
e brincar de homem e mulher
Um incenso bom ligado
nosso desejo e uma fé

E lá no nosso quartinho
na vitrola um som antigo
eu te traria um chá por mimo
de capim-santo ou camomila
pra mostra que eu não minto
quero sua vida com a minha

1906.

Acho que cansei da história
vou ficar com a estória
macular o fardo dos fatos
em fábulas
travestir as simbólicas letras
em lendas
Vou ser estória
pouco me importa a história,
o que ficou,
quero o conto que conte
tanto a mais que o marco
das eras
tanto a mais que Augusto Comte
Quero a flor posta a falar,
o enlevo do timbre narrativo,
um diálogo monolítico sem
sobras de teoria

Minha vida como estória
sem contexto histórico,
sem pormenores do que não foi
escrito ou registrado
Só uma história qualquer

1905. Tocado

Tocado de poesia agora
meus olhos não querem ver
o sangue derramado fora
nas sobras do bem-querer

Tocado de poesia agora
o átimo da vida ao chão
que segue ao campo que doura
brotando um pé de cada grão

Tocado de poesia agora
o que vejo não é uma América Latina
é sim feito de outro feitio, ora
a cor indefinível de uma Afroameríndia

Tocado de poesia agora
açu agudá a terra inteira
de abaixo de Capricórnio estoura
de um sem Ocidente, toda fronteira

Tocado de poesia agora
são dessas veias abertas
que a qualquer não logra
banharem em rubro as terras

Tocado de poesia agora
no centro pacífico e atlântico
num rincão gigante de sobras
faço-me num porto lânguido

1899.

Há buzinas
Mesmo, deve haver cores,
trânsito, deve estar lá.
Bandeiras hasteadas,
brados de vitória.

Tudo lá fora,
o mundo se escolhendo
se encolhendo
entre a possibilidade
da merda e o
cogito da bosta.

Há buzinas azuis,
bandeiras rotas,
trânsito de possibilidades.

Quem ganha? Quem perde?
Eu me encolho
E me escolho

1900.

Adélia, Adélia…
Te vejo agora Adélia,
e da outra vez você me
trouxe cá consigo.
Pois que não era eu quem te
carregava, mas você
que me conduzia com
teu texto.

Se o tivesse agora,
o leite tinha derramado
todo pelo fogão,
pois que todo o sentido
era teu e não o
possuiria ao ponto
de notar outras sutilezas.

Adélia, Adélia,
se os tivesse nessa luz,
daria a ti todos os
gerânios das mais variadas
cores e os poria,
em cima da mesa,
junto a uma goiabada
com queijo.