0940. Contato

A singularidade de todo o encontro
não merece menção só pelo fato
de que a sincronia é marca de
uma vasta gama de possibilidades
nesse caos urbano tão contido
em que nós vivemos

Não pelo fato de que o desejo
percorre até mesmo o reino
do inconsciente e me mostra
certas cores que trazem de
volta o contato íntimo e suado
despreocupado e procurado

À revelia de que fosse alva
a cor que me passava a
sua calcinha

0935. Um soneto por ela

Lancei todas as mensagens, pois eu cria
transformarem elas motivos prováveis
para que o perigo dito àquele dia
forjasse o início de encontros adoráveis.

O vão das respostas feito à revelia
de que supusesse eu haverem afáveis
retornos em palavras que assim leria
em retinas ao monitor ilumináveis.

Fiquei assim descrente que poderia
jazer quão logo o fim desses incansáveis
dias de definição do que seria

esses nossos encontros inomináveis
onde meu corpo em seu corpo só queria
que não pudessem ser identificáveis.

0928. Para quem servir a carapuça (ou pra quem quiser experimentá-la)

(à mãe de Gabriel e Clarice, os filhos que não terei)

Queria te mostrar um disco
do Chico e te ensinar
uma canção da Fátima Guedes.
Queria te levar para
dar pães aos patos no parque.
Queria recitar Leminski
e Neruda depois da
meia-noite deitado em
seu colo.
Queria te escrever
sonetos e elegias
exaltando o nosso amor.
Queria tomar sorvete
de creme com cobertura
de chocolate na
sua barriga.
Queria fazer sexo
contigo debaixo
de uma cachoeira,
num açude e até
num ônibus de madrugada.
Queria tomar uma
cerveja contigo e
te contar uma
verdade indiana.
Queria te dar presentes
num dia qualquer
sem motivo algum
aparente.
Queria descobrir os
teus defeitos e
entendê-los à luz
da realidade.
Queria ficar em silêncio
com você
quando desse vontade.
Queria desse jeito
te dar a liberdade.

0915.

Hoy, yo voy a mostrarte un futuro gran suceso
es una música que habla del amor
una música que habla acerca del dolor en mi pecho
es una música que toca el corazón e me toco derecho
es una música muy fuerte
es mi canción de suerte
entonces que yo la digo, cante conmigo este próximo ritmo

Yo compré un par de perros
y eran perros tan bonitos
yo compré un par de perros
y eran perros tan bonitos
pero solo después yo miré
no eran perros eran catitos
después yo miré
no eran perros eran catitos
Ai catitos, catitos
Ai catitos mios!

0912. Búdicas III

Palavras correm esse instante como se fossem trazer algo mais que elas mesmas.
O gelo que percorre o sangue e incorre em palavras como essas é mero refresco,
sorvido em uma taça medíocre e idiota dentro de um órgão chamado cérebro.
As oscilações de humor cansam como se fosse um árduo obstáculo a se vencer
e ao invés, são só meros paradigmas auto criados e inventados, meras questões
trazidas à luz do mundo para serem elas mesmas motivos de seus próprios seres.
Não quero dizer nada, mas infelizmente digo.
Não quero sentir nada, mas por acaso, existo.
A máxima da ilusão (ou da felicidade): acordar e descobrir que nunca existiu.

0909. Começando pelo mundo

o começo é sempre assim
é uma reciprocidade da
falta de olhar,
é toda uma ausência de tema
que o caos informacional
torna-se the only choice

esta concupiscência lingüística
dá o tom y el sonido e
torna a libido da transpiração
poética uma necessidade
premente e pornográfica

(a essência posta e gráfica)

this is the world in words
just the world, our only word

regozijemos-nos poetas em
pô-lo gráfico (essencial)

0905.

De um lado ao outro por
um fio invisível
você me via de alguma forma

acordei

suor e resquícios tesos
de algo insone
um tanto acordado
mesmo em sono profundo,
mas era sono confuso

as vozes nas letras de um monitor
e as letras dizendo o suor
uma fogueira e mais suor

acordei

ao sinal menor
quase imperceptível que fosse
despertei ainda teso
suado
e a mensagem ao lado
me dizia suave:
um encontro
noite alta
mais que um sonho

0904.

Eu só te queria assim bem simples
e você com esse papo de não-monogamia
ética e consensual
Ouvi todas as suas histórias de amores
mesmo você falando do mito do amor romântico
Entreguei minha carne e te envolvi em sangue
pela única vez que pude
e você falando sobre o ego e o prazer
e sobre o seu ego e o seu prazer
Amei tua condição de ponte
e realmente só te quis, mesmo a mim
sendo dor por vezes

Na realidade não vi outras pessoas ao meu redor
Não via
Eticamente eu era sua
parceira, companheira e amante
e muitas vezes mãe, irmã e filha
Consensualmente me entreguei a você
Miticamente te romantizei

Hoje, você só é essa constatação
lá atrás, bem no fundo de mim
Porque eu só te queria assim, fácil, simples e leve
e você preferiu o complexo e a loucura

Adeus, não fácil, mas simples e leve

0902. A lua que não existe

meu azimute em teu encontro
tua definição extrema, meu zênite
a virtude do equinócio outro
uma constatação que é tênue

o caminho do desenredo
construção tua em meu ar
no desalinho do desprezo
armação toponímica de amar

o solstício dado à revelia
de que o encontro fosse novamente
dado o início que já tido não se ia
num tombo do céu pausadamente

tua lua era de uma classe espectral
forjada para dar fim ao amor
toda nua e sem o justo cabedal
de motivos para evocar minha dor

inexisto à tua lua que não existe
viro o sol que te dá o contorno
e que promove a luz que insiste
em existir tua lua de novo

0903. Ponte

Essa nossa condição humana
que alicerça o fim do desejo
tudo o que eu possa possuir
já não me é o começo
somente o que eu não tenho
é tudo o que anseio

Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo

Talvez uma mediação insana
que erige assim o desfeito
nada que você use usufruir
já não te é o desfecho
novamente o que tenho:
só o que não me diz respeito

Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo

Nunca existirá noção tamanha
que demonstre o que enleio
quase o que restará ruir
em qualquer um inteiro
avidamente o que eu não tenho
é todo o meu alento

Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo

0900. Ho[ménage]m à falha

Não se preocupe em esquecer de vez
quando chegar lá você dá um jeito
Pense bem se foi só meu o defeito
ou se o erro foi de nós três

Naquele dia eu não falhei
aquela mão sobre o meu peito
Naquele eu apenas me intimidei
não soube o que fazer direito

Essa proposição feita num boteco
anunciação de uma pretensa liberdade
e a intenção era a intensidade
mas eu não pensava que fosse no meu teto

Ele também não compreendia
dizia amei e agora só a loucura
Você apenas rodava e se dividia
tuas penas fechando a patética moldura

Velho e moço ao som,
vinho e velas ao chão
Vida doida e marrom
nem vermelho ao menos o batom

Noite finda assim, dia aceso ou não
em vocês e em mim tentando ser um nós
Sinto que não deu o encontro então
tudo foi em vão, parco, pouco e atroz

0899. Poesia na segunda

acabou já há horas
teus olhos vivos nessa
eu sem garganta por conta
idealizações e memória

não, não me lembro de teus pés
só me encontro em tuas pernas
mergulhado nisto que és
e eu insensível ao que eras

tu não estavas tonta
eu zonzo em teu sono
achei melhor sair pelos fundos
e não pagar a conta

a conta pelo sonho tido
e o medo pelo enlace de pernas
na intenção de tudo contido
(embriagues e letras eternas)
(desejos con(e)tidos nellas)

0895. Dizeres de um jazz

Só sussurrando o incontido
do inaudível de todo o som
posso pensar no que há de ser
Só sibilando o desdito
do crível de qualquer dom
ouso sentir o que há de ser

Só um devir demoníaco
imponderável pode transpor
as notas que me abraçam
Só a languidez dos metais
adorável ao se disporem
pode traduzir o meu acalanto

Só esse jazz por ele mesmo
pode se transcrever

Eu apenas tento grafar
o que percorre meu ser
nestas ondas que movimentam o ar

0896. Desses dias

Angélica manhã:
sonho, sol e sorriso,
dilúculo e devaneio,
vento e fim do mundo.
E ao lado, Angélica

Angélica tarde:
faces, flashes e fumaça,
incidência e insides,
introspecção e melancolia.
Mas ao lado, Angélica.

Angélica noite:
rosto, realidade e riso,
crepúsculo e calor,
estrelas e gênese.
Angélica.

0894. Historinha

Poderia ter procurado
a obviedade dos teus atos
e catado tuas metáforas
que deixavas ao lado

Quando falou que era
apenas um sentimento
sem causa e só causa
compreendi tudo errado
e causei a hemorragia
de versos todos sem nexo

Poderia ter encontrado
a singularidade das palavras
e posto minhas metáforas
bem longe e nem ao lado

Quando falei que era
somente um sofrimento
sem causa e toda causa
compreendeu tudo e além
e causaste a supuração
de todo nexo em algum verso

Poderia ter desencontrado,
em tuas palavras e atos, o amor
e convertido em metáforas
o que não existiu de fato

Quando falamos que era
tão só esse amor
causa e efeito
compreendemos o erro
e estancamos todos
os versos e todo o nexo e amamos