“Amor, poesia e liberdade…”
Tateio os segundos
esperando no toque
algo mais que o tempo.
Busco a matéria
texturizada deste
que há de me trazer
o amanhã e que
alicerçou o ontem
em seu devido
lugar.
É macia sua pele
e tenra.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
“Amor, poesia e liberdade…”
Tateio os segundos
esperando no toque
algo mais que o tempo.
Busco a matéria
texturizada deste
que há de me trazer
o amanhã e que
alicerçou o ontem
em seu devido
lugar.
É macia sua pele
e tenra.
Eu brinco com as palavras
como se vagassem por meu rosto.
Recostam-se em meu peito
e dão o sentido que faltava
a esse domingo paradoxal.
Era a intenção e a intensidade,
agora o marasmo e a memória:
dimensões que consolam
com o vagar das letras.
Não sou músico, escrevo.
Me digo facilmente
porque difícil é ter
em mãos palavras
que te contemplem.
Um vão entre você
e toda letra.
Anarcomorfismo
transliteral
e uma barata
passou aqui
agora mesmo
era a consonância
entre as horas
(01:15)
e a conseqüência
das palavras
boas de se dizer
(foi por isso que as escrevi)
A singularidade de todo o encontro
não merece menção só pelo fato
de que a sincronia é marca de
uma vasta gama de possibilidades
nesse caos urbano tão contido
em que nós vivemos
Não pelo fato de que o desejo
percorre até mesmo o reino
do inconsciente e me mostra
certas cores que trazem de
volta o contato íntimo e suado
despreocupado e procurado
À revelia de que fosse alva
a cor que me passava a
sua calcinha
Eu sou o perigo
do carinho nas costas cansadas
do beijo suave nos lábios miúdos
do encontro dos sexos
Eu sou o martírio
de gemidos nas costas arqueadas
de lábios em caminhos turvos
do côncavo e convexo
Se em cada rosto
eu achasse uma saída
nada mais restaria
a se fazer.
Ao meio-dia os
rostos são todos
imobilidade.
Perigo
Perigo
Perigo
Perigo
Disseram-me que sou um
Perigo
Será perigo
Querer ser
Um abrigo?
Viveria na Itália se fosse preciso
Teria cinco filhos contigo
E não conheceria família alguma para isso
Lancei todas as mensagens, pois eu cria
transformarem elas motivos prováveis
para que o perigo dito àquele dia
forjasse o início de encontros adoráveis.
O vão das respostas feito à revelia
de que supusesse eu haverem afáveis
retornos em palavras que assim leria
em retinas ao monitor ilumináveis.
Fiquei assim descrente que poderia
jazer quão logo o fim desses incansáveis
dias de definição do que seria
esses nossos encontros inomináveis
onde meu corpo em seu corpo só queria
que não pudessem ser identificáveis.
Em toda ela
Algo que distancio
Das palavras
Não sei porque invento
Isso tudo, mas meu intento
É de o mundo ser nosso alento
Profundo
Pelo que sei
E pouco sei
Realmente
Ignoro ser o
Guilherme
O mal de tudo
Se conhecesse o meu vazio
saberia que o seu não o é.
Se eu pudesse preencher o
seu vazio com o meu vazio
iria assim te saber
e descobriria uma forma
de não precisar de catalisador
algum para o encontro
de nossos vazios.
E assim, vaziamente preenchidos,
nos saberíamos.
Não problematizo
Mas que preciso
De uma solução
Isso é definitivo
(à mãe de Gabriel e Clarice, os filhos que não terei)
Queria te mostrar um disco
do Chico e te ensinar
uma canção da Fátima Guedes.
Queria te levar para
dar pães aos patos no parque.
Queria recitar Leminski
e Neruda depois da
meia-noite deitado em
seu colo.
Queria te escrever
sonetos e elegias
exaltando o nosso amor.
Queria tomar sorvete
de creme com cobertura
de chocolate na
sua barriga.
Queria fazer sexo
contigo debaixo
de uma cachoeira,
num açude e até
num ônibus de madrugada.
Queria tomar uma
cerveja contigo e
te contar uma
verdade indiana.
Queria te dar presentes
num dia qualquer
sem motivo algum
aparente.
Queria descobrir os
teus defeitos e
entendê-los à luz
da realidade.
Queria ficar em silêncio
com você
quando desse vontade.
Queria desse jeito
te dar a liberdade.
caneta e papel
sempre fáceis:
nunca se sabe
quando vai se
precisar de morfina…
Amor, fina flor
que entorpece,
vicia e enlouquece.
Mas dor, alivia-a
e mesmo também é.
Faço esse poema
como se estivesse
assim, a um centímetro
de sua boca.
Roço as palavras
em sua orelha
e as desço até
mordiscarem os
seus seios.
E as palavras percorrem
mais a veste de
sua alma e a
invadem, tentando
desvelar e elevar
esta que se veste
tão bem.
O Guilhermecarvalho deve
ser morto a pauladas
e voadoras na jugular,
porque chover no piquenique
é pouco, ele ainda vai
acabar é por nos secar.
Preciso de uma mulher louca
que me ligue às três da madrugada
dizendo no escuro não se achar
e eu iria até lá com uma vela,
tateando e vasculhado, a encontrar.
Já me falaram
que eu só sirvo
como amante
e cada vez mais
levo isso adiante:
amo minha liberdade
de depois e de antes.
Meia noite
cinco cervejas
dez cigarros
um encontro
furado.
eu quero todos os amores
que me couberem
e caber em cada peito
que me deixar entrar
de qualquer forma
pois que isso é amar
Sempre começo pelo fim
preencho os meus cantos
não olho ao espelho
e troco o meu moletom.
Desligo a TV
e me ligo em qualquer canal.
Nem como, só bebo.
Aí começo a terminar tudo
que eu possa iniciar.
Arme as estruturas
de seu sonho
não de concreto
mas sim de fibras
de algodão
que aí, de tão leve,
ele há de se sustentar.
Cada coisa em seu lugar
Pois as palavras são poucas
Para todo sentido grafar
Para cada sentimento grafar
Todas as coisas são poucas
Pois todas elas têm seu devido lugar
Hoy, yo voy a mostrarte un futuro gran suceso
es una música que habla del amor
una música que habla acerca del dolor en mi pecho
es una música que toca el corazón e me toco derecho
es una música muy fuerte
es mi canción de suerte
entonces que yo la digo, cante conmigo este próximo ritmo
Yo compré un par de perros
y eran perros tan bonitos
yo compré un par de perros
y eran perros tan bonitos
pero solo después yo miré
no eran perros eran catitos
después yo miré
no eran perros eran catitos
Ai catitos, catitos
Ai catitos mios!
Sou esse amor
que de tão vazio
quando derramado
nem sequer vazou.
Só meio cheio de
nada, esse amor que sou.
Dizem que desculpas não valem de nada
mas àqueles que destruíram o perfeito
nada mais cabe do que o vagar Caim
pelo mundo, amargando a dor de ser
o promotor do caos.
Um estado de contenção
Com o que se tem e com a ação
Contém ação
Contenção
A melhor definição pra livramar é a não definição…
Sinta o que te der no(s) peito(s) ou em qualquer outra (p)arte do corpo (e porque não da alma?).
Ame sem enquadramentos ou conceituações.
Livra(-)me-se e descubra outras possibilidades do amor.
Livramor…
(Livralma)
Palavras correm esse instante como se fossem trazer algo mais que elas mesmas.
O gelo que percorre o sangue e incorre em palavras como essas é mero refresco,
sorvido em uma taça medíocre e idiota dentro de um órgão chamado cérebro.
As oscilações de humor cansam como se fosse um árduo obstáculo a se vencer
e ao invés, são só meros paradigmas auto criados e inventados, meras questões
trazidas à luz do mundo para serem elas mesmas motivos de seus próprios seres.
Não quero dizer nada, mas infelizmente digo.
Não quero sentir nada, mas por acaso, existo.
A máxima da ilusão (ou da felicidade): acordar e descobrir que nunca existiu.
o começo é sempre assim
é uma reciprocidade da
falta de olhar,
é toda uma ausência de tema
que o caos informacional
torna-se the only choice
esta concupiscência lingüística
dá o tom y el sonido e
torna a libido da transpiração
poética uma necessidade
premente e pornográfica
(a essência posta e gráfica)
this is the world in words
just the world, our only word
regozijemos-nos poetas em
pô-lo gráfico (essencial)
há todo esse vazio
marginal como se coubesse
meu riso agora
esse que não me contém
ali nem sei o que ocorre
Fiquei com esse gosto na boca:
a perfeição está longe de Deus
eu sou Deus
(com meu pau de ouro).
E em meio a uma roda
Ardi os neurônios em loucura,
Um tragar de não-saber
E um riso de não-sentir o chão…
E foi bem assim que,
Fechei os olhos
E a ti me faltei.
De um lado ao outro por
um fio invisível
você me via de alguma forma
acordei
suor e resquícios tesos
de algo insone
um tanto acordado
mesmo em sono profundo,
mas era sono confuso
as vozes nas letras de um monitor
e as letras dizendo o suor
uma fogueira e mais suor
acordei
ao sinal menor
quase imperceptível que fosse
despertei ainda teso
suado
e a mensagem ao lado
me dizia suave:
um encontro
noite alta
mais que um sonho
creio que ficou faltando algo
nessa terça-feira prelúdio de sexta
algo imerso entre a brisa da noite
o abraço e o sorriso
Eu só te queria assim bem simples
e você com esse papo de não-monogamia
ética e consensual
Ouvi todas as suas histórias de amores
mesmo você falando do mito do amor romântico
Entreguei minha carne e te envolvi em sangue
pela única vez que pude
e você falando sobre o ego e o prazer
e sobre o seu ego e o seu prazer
Amei tua condição de ponte
e realmente só te quis, mesmo a mim
sendo dor por vezes
Na realidade não vi outras pessoas ao meu redor
Não via
Eticamente eu era sua
parceira, companheira e amante
e muitas vezes mãe, irmã e filha
Consensualmente me entreguei a você
Miticamente te romantizei
Hoje, você só é essa constatação
lá atrás, bem no fundo de mim
Porque eu só te queria assim, fácil, simples e leve
e você preferiu o complexo e a loucura
Adeus, não fácil, mas simples e leve
meu azimute em teu encontro
tua definição extrema, meu zênite
a virtude do equinócio outro
uma constatação que é tênue
o caminho do desenredo
construção tua em meu ar
no desalinho do desprezo
armação toponímica de amar
o solstício dado à revelia
de que o encontro fosse novamente
dado o início que já tido não se ia
num tombo do céu pausadamente
tua lua era de uma classe espectral
forjada para dar fim ao amor
toda nua e sem o justo cabedal
de motivos para evocar minha dor
inexisto à tua lua que não existe
viro o sol que te dá o contorno
e que promove a luz que insiste
em existir tua lua de novo
Essa nossa condição humana
que alicerça o fim do desejo
tudo o que eu possa possuir
já não me é o começo
somente o que eu não tenho
é tudo o que anseio
Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo
Talvez uma mediação insana
que erige assim o desfeito
nada que você use usufruir
já não te é o desfecho
novamente o que tenho:
só o que não me diz respeito
Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo
Nunca existirá noção tamanha
que demonstre o que enleio
quase o que restará ruir
em qualquer um inteiro
avidamente o que eu não tenho
é todo o meu alento
Busco em você a esmo
destruir a ponte que me liga ao
que vai além de mim mesmo
se soubesse o tanto que
tais presentes me agradam
teria cuidado ao dá-los
ainda mais porque vêm
de suas mãos
Não se preocupe em esquecer de vez
quando chegar lá você dá um jeito
Pense bem se foi só meu o defeito
ou se o erro foi de nós três
Naquele dia eu não falhei
aquela mão sobre o meu peito
Naquele eu apenas me intimidei
não soube o que fazer direito
Essa proposição feita num boteco
anunciação de uma pretensa liberdade
e a intenção era a intensidade
mas eu não pensava que fosse no meu teto
Ele também não compreendia
dizia amei e agora só a loucura
Você apenas rodava e se dividia
tuas penas fechando a patética moldura
Velho e moço ao som,
vinho e velas ao chão
Vida doida e marrom
nem vermelho ao menos o batom
Noite finda assim, dia aceso ou não
em vocês e em mim tentando ser um nós
Sinto que não deu o encontro então
tudo foi em vão, parco, pouco e atroz
acabou já há horas
teus olhos vivos nessa
eu sem garganta por conta
idealizações e memória
não, não me lembro de teus pés
só me encontro em tuas pernas
mergulhado nisto que és
e eu insensível ao que eras
tu não estavas tonta
eu zonzo em teu sono
achei melhor sair pelos fundos
e não pagar a conta
a conta pelo sonho tido
e o medo pelo enlace de pernas
na intenção de tudo contido
(embriagues e letras eternas)
(desejos con(e)tidos nellas)
Isso que nos coincide
que acorda em nós
e dá asas às faces.
Sem controle
ou só a perda deste,
vêm a nós toda hora.
É como um verso
que cabe o incontido
do que é sentido em nós.
Se pudesse estaria não nesse lugar
mas naquele em que você fosse todo o afago
(e nesse lugar não estaria em paz, mas sim em êxtase).
Só sussurrando o incontido
do inaudível de todo o som
posso pensar no que há de ser
Só sibilando o desdito
do crível de qualquer dom
ouso sentir o que há de ser
Só um devir demoníaco
imponderável pode transpor
as notas que me abraçam
Só a languidez dos metais
adorável ao se disporem
pode traduzir o meu acalanto
Só esse jazz por ele mesmo
pode se transcrever
Eu apenas tento grafar
o que percorre meu ser
nestas ondas que movimentam o ar
Angélica manhã:
sonho, sol e sorriso,
dilúculo e devaneio,
vento e fim do mundo.
E ao lado, Angélica
Angélica tarde:
faces, flashes e fumaça,
incidência e insides,
introspecção e melancolia.
Mas ao lado, Angélica.
Angélica noite:
rosto, realidade e riso,
crepúsculo e calor,
estrelas e gênese.
Angélica.
Poderia ter procurado
a obviedade dos teus atos
e catado tuas metáforas
que deixavas ao lado
Quando falou que era
apenas um sentimento
sem causa e só causa
compreendi tudo errado
e causei a hemorragia
de versos todos sem nexo
Poderia ter encontrado
a singularidade das palavras
e posto minhas metáforas
bem longe e nem ao lado
Quando falei que era
somente um sofrimento
sem causa e toda causa
compreendeu tudo e além
e causaste a supuração
de todo nexo em algum verso
Poderia ter desencontrado,
em tuas palavras e atos, o amor
e convertido em metáforas
o que não existiu de fato
Quando falamos que era
tão só esse amor
causa e efeito
compreendemos o erro
e estancamos todos
os versos e todo o nexo e amamos