Eu quero é amar irrestritamente
quem passar pela minha frente
Eu quero é sentir o corpo de alguém
colado ao meus pelos e suor
Eu quero é ser livremente amado
por quem quiser me amar
Eu quero é me dar
Eu quero é me entregar para quem for
Eu quero é me doar para quem quiser
Eu quero é a imensidade do conceito
de liberdade na máxima interpretação
do termo amor
Eu quero é externar minha vida
pra quem me apraz e até pra quem não me apetece
Eu quero é a solicitude de uma vida
em minhas mãos e o seu jogar fora sem culpa
Eu quero o que não me dá prazer
e o que mais me enternece a alma
Eu quero é apaziguar meu ânimo
e deixar que os outros cuidem do seu
Eu quero é ser responsável pela conduta
do outro e depois deixá-lo ao léu
sem lenço, documento, sem vida e sem amor
Eu quero é que todos saibam que isso
tudo é a vontade do meu amor e do meu ego
Autor: Guilherme Carvalho
0791. Em Brasília
íamos passeando por entre o céu
víamos nós como o que já havia sido
amávamos o que não nos continha
negávamos qualquer ato conhecido
andávamos entre insanos, ao léu
0792. Amores
quase se descobre o que existe
entre a intenção e o gesto
mas é algo tão lá guardado
que retirar um véu na busca
de um modo de ser é senão
uma intenção e um gesto
e também algo lá guardado
0790. A história de um beijo
“Quando adormecia na ilha de Lia,
meu Deus eu só vivia a sonhar,
que passava ao largo do barco de Rosa…”
Um sono comeu meu mundo
Foi um sonho, qual um presságio
Até uma pessoa lá morreu
Foi só por uma vida, quase nada…
Eu vi, você me via
E havia lá uns olhos de ressaca
E havia o pecado forjado em bronze
E havia mais um mar
E mais a ressaca do mar
E mais os seus olhos vendo-me
Um mundo comeu o meu sono
Foi uma realidade tal, num adágio
Até uma sinfonia lá se deu
Foi só por toda a vida, quase nada…
Eu ouvi, você me ouvia
E havia cá uma melodia de nada
E havia o amor posto não sei onde
E havia mais um ar
E mais o vazio do ar
E mais os seus ouvidos ouvindo-me
0789. Julho: rosa e azul
O céu parece que vai despencar
e logo ficaremos todos loucos,
mas nesta hora, ipês sustentam
o firmamento azul e garantem
roseamente a sanidade mental
0787. Rodoviária, 8 da manhã.
Pela manhã tudo tem cara de coisa boa. Manhã de sol, doirando o mundo que poderia até ser feio, deixa tudo com ares de coisa irreal, mais que real, briluz. Na rodoviária as pessoas brilham tanto e há ainda as sombras perfilando a luz, que chega a parecer que o mundo ainda pode ser algo mais além dele mesmo. Perco meus pés, não ando, apenas observo as luzes, o brilho, as sombras, aí vejo que a beleza da luz reside na hora das sombras e que a perpendicularidade luminosa deixa as coisas tesas demais, sem vida ou até mesmo só vida. O esplender da luz é a sombra e o dourado que a permeia. As coisas são mais belas quando olhadas pela luz do ângulo de 30º.
Saí da rodoviária, entrei no céu e guardei aquela luz em mim.
0788. Essas coisas todas, chamadas, letras e palavras
Essas coisas todas chamadas letras e palavras
Essas coisas todas autochamadas
Essas coisas todas que letras e palavras chamam
Essas coisas todas que são letras e palavras
são todas letras e palavras auto-intituladas
e que formam essas coisas todas
por isso, são coisas, são letras e são palavras
0785. Colo
havia um corpo em seu colo àquela noite
era um corpo bem feito, real, existente
nunca um desses disparates do mundo super-real,
era um corpo branco, posto no lugar,
sua gordura, sua estria, seu pelo, sua mancha
era um corpo que repousava em seu colo
e dentro do corpo havia alguém – lá no fundo
e lá no fundo gritava ao corpo que sim, que fosse
que se deixasse envolver ao seu corpo
e era o que você compreendia nesse então
havia um corpo em seu colo àquela noite
a luz das lâmpadas acesas dizia que era somente noite
quando madrugada já era – e ao seu corpo um corpo
e você percorreu as costas daquele corpo com as mãos
seu corpo estremeceu e o corpo em seu colo calou-se
e você percorreu os fios daquele corpo com as mãos
alguém dentro de você estremeceu
e o corpo em seu colo foi corpo e vocês ficaram lá,
como corpos com alguém em seus fundos
– lá no fundo
0786.
E a solução esperou-te ainda mais um pouco
Quis te mostrar o limoeiro e as amoras
Quis te afagar os cabelos
Quis te tocar os lábios miúdos
E tu, como era de se esperar, ficaste perdida
No desandar do sair atrasada
E a solução esperou-te ainda mais um pouco
(pretensamente pensando em ser alguma solução)
(na verdade deveria ser o avesso de uma solução)
(ainda bem que não veio)
0783.
Ah Ivana, se você escutasse
essas verdades agora,
daríamos várias risadas
da nossa condição humana
e principalmente da condição
dos outros. O que move o mundo
é o pecado consigo mesmo.
0784.
Era um dia de dezembro
Era alguma hora de uma terça
Era em algum lugar
Eram duas pessoas
Era na realidade uma multidão
Era a sensação que os percorria
pra ser sincero, para aqueles dois
“era”, e isso já bastava
0781.
Tua agressividade
é o que me mantém
assim, eternamente
em suas mãos,
dramático, fatal
(pisa que eu gosto…)
0782.
Quando vejo nós dois
é que maldigo a física:
em nosso caso, a menor
distância entre dois pontos,
não é uma linha reta.
0778.
O que alucina é o enclausurante
sentido posto ao amor de então.
Uma ditadura velada à pluralidade
do amor.
Fecharam-no em conceitos,
cassaram-lhe as possibilidades de
seus existires.
Exilaram o amor em seu oposto,
pondo-o na imanência.
Falaram-me certa vez que a prova
máxima do amor divino
foi o livre arbítrio.
E nós aqui, aprisionando
a liberdade…
0779. E se eu falasse amor?
Esse algo que fica bem
no meio do estômago pode
bem ser da ressaca,
mas quase certo é que o
indizível do momento
é escutado aos berros por
minhas entranhas neste então.
0780.
Não fosse pelo fato
de nunca ter de fato sido,
poderia ter o mais belo
e puro do mundo agora.
Por isso prefiro o passado
lá mesmo e pensar que o não
sido, poderá.
São os lampejos
do martírio na esperança.
0777.
Essa poesia eu não te escrevo.
É a poesia que sempre existiu
e nunca foi. Um adeus desmedido
antes do encontro definitivo.
É a poesia feita em homenagem
ao teu filho. Uma retórica, um
acaso dos sentidos. Essa poesia
é pra tua maternidade e tua
descoberta, pra sorte do teu
amor e para o teu amor infinito.
É o segredo que nunca há de ser,
posto que nem a mim foi feito.
Essa poesia é meu afago não ocorrido
e a mitigação de um arrependimento
que é só um devir. Essa poesia é
só um carinho.
Laguna, SC.
0776. A ditadura da visão
Quero é sentir o mundo
com os dedos
Beijar todos com as mãos
Eu quero é sentir o gosto
amargo de lamber meu próximo
e sentir sua vasta gama
de cheiros.
Eu quero é ouvir os
sons desde o vento
percorrendo os pelos,
até o som dos ossos crescendo.
Laguna, SC.
0774.
Quando se retira
o que se encobre,
deve-se ter cuidado
com o onde colocá-lo.
0775.
Eu aqui no mar
Você por todo o aqui
No meu ar, no espaço
que começa e encerra em mim
No que eu não percebo,
No que eu não toco.
Até nestas ondas que não
tocam meus pés.
Laguna, SC.
0772. Elementos e o sono
O sono nos consome.
É o silêncio do não
saber o que falar e
ainda assim falar.
É o zunido do microfone
falho e a carícia
no ego sempre desperto.
É o afago doce e suave
em suas próprias bolas.
É o quadro perfeito
para incitar o sono
dos justos.
Laguna, SC.
0773.
A gente descobre
a vida no ato
de a viver e não
no momento de
a preconceber.
Cada ser em si
é.
Isso basta.
Laguna, SC.
0771.
Quanto custa meu corpo?
Qual é o valor de uso
dos meus pés?
Quanto agrega a força
de trabalho empreendida
por minhas mãos?
E o intangível de
minhas idéias, qual é
seu preço?
Quanto vale meus
sentimentos?
Vendo essa poesia por
10 centavos, paga a
tinta da caneta e o papel.
Laguna, SC.
0769. Búdicas III
Se ao toque do imaginário
o real se esvai, o sonho
é que é a realidade. Uma
pena que o sonho,
o imaginário a realidade
e até o toque não são.
Laguna, SC.
0770. Mar
Em qual litoral o mar começa?
O mar é esse que começa e
termina em si.
O mar é sua forma e seu movimento.
O mar materializa a relatividade.
É bonito, é bonito…
Laguna, SC.
0767. Tao
Somam-se os ocasos
ocasionalmente sobrepostos
aos crepúsculos.
Todos os dias o sol
nasce ao seu morrer
e os diúculos são
sempre e ao mesmo tempo,
indícios da noite.
Laguna, SC.
0768. Búdicas II
O que me faz não é essa
condição masculina, sexo
teso, pelos e fogo.
Não os paroxismos
teoremas e teses
que eu me propus a
adquirir entre a poeira
e o mofo dos alfarrábios.
Não o puro sentido
que foi experienciado,
o que foi vivido.
O que me faz é antes
de tudo, o vazio.
Laguna, SC.
0766. Búdicas I
Não sei as palavras para
indicar os estados da alma
neste modo de ser.
É sempre um vazio se
pondo sonora e graficamente
que penso ser a inteligibilidade
deste encontro chamado
pensamento, algo tão inútil
quanto tudo.
Laguna, SC.
0764.
Se um dia eu precisasse
dizer a máxima da beleza
humana, diria essa palavra
que eu não sei: seu nome.
0765.
Algo insone percorre
como sempre seu ciclo
lunar, inflado hoje
como a irmã que
paira ao ar
Algo luminoso,
insuportável
à própria luz,
um estado interessante
feito em meio
a um dia de sangue
Se auto-parindo no
próprio ato de fecundar
Algo flutua ao espaço
e conduz as idéias
algo insone,
dorme sempre em mim.
0762.
um grande amigo meu
foi anistiado
e a minha anistia
cármica, quando sai?
0763.
Hoje eu segurava uma taça
como se pudesse ter um traço nobre
em minha conduta
Minhas veias não percorrem um
sangue guerrilheiro, só de um
xerente, um canoeiro, um seringueiro
um castanheiro, cafusos,
mulatas, negras e escravas…
Sinto uma verdade em meus ombros
que não se pode calar
E lá fora o sujeito sendo
filmado em orelhas estupidamente
gigantes me leva a crer que
(conjunto aos relâmpagos que aqui
se fazem em Marabá), a verdade está
no peito de cada um e eu,
mesmo sendo mulher, me sinto homem,
mestiço, brasileiro, anarquista e
antes de tudo humanista.
Marabá, PA.
0760.
O pior castigo para um ateu
é quando em meio a uma crise de nada
se clama “ai meu Deus”
0761. Shoppinganas IV
Uma luz murmurava a tentativa de iluminar
algo em meio ao contínuo dia do shopping.
Era uma luz verde, insignificante à
multiplicidade cromática da branquidão
dos não-lugares.
Lá fora podia estar azul, negro, cinza…
Cá dentro, sempre a imensidão multicor
da monotonia da luz e a aquele embate
insignificante do verde contra o nada.
0758.
Poesia sem título já nasce sem
Se se pensou em lhe postar um
É porque um título ela já tem
0759.
Houve um dia em que o que acontecia
não era só o vento
A razão insistia em acalmar dizendo
que era só o ar em movimento
Mas não era,
era mais,
era algo dito, segredado.
Era aquele silêncio sussurrado
pelos lábios antes do primeiro beijo
Era um ensejo, um desejo do mundo
a dizer algo como,
senão se,
além de.
Era isso aqui mesmo escrito
e apazigua o espírito.
0756. Dor
Sobre o corte não firmado
Sangra a dor de uma ferida
não supurada
Escorre a esperança em
lágrimas e ódio
como se fossem o sangue
não vertido pelo corte
abstrato
O limite entre a dor e o desejo é a intenção e o ato:
buscar a coerência entre o desejo e a reação
O desejo não mantém o prazer
O prazer não é a antítese da dor
Há assim que se largar na vida
Há que não se esperar mais nada
0757.
Era só saudade o que
se passava naqueles dias
Era só saudade este
vazio que se acomodava
Era só saudade,
mas doía…
0754. Prelúdio de fim de noite
Sobre os restos dessa hora
Ficam os cacos do preenchido
No preludiar do avesso da aurora
Deitam as réstias de algo vazio
Só sobraram as moças com
calças brancas quase translúcidas
Só sobraram os homens com a
barba mal feita e suas barrigas
Só sobraram as luzes e essa
fumaça famélica do churrasquinho
e eu, tentando ser por inteiro
em meio às trabalhadoras da
noite e os consumidores noturnos
0755. Do vazio
Tenho fixação na palavra vazio
Preenchi toda a minha mente
Na pronúncia do vazio
Esvaziei os conceitos e as
bases na busca do vazio
Pus num vazo crisântemos e cravos
imaginários, para adornar o vazio
Vali-me de toda a sorte de sensações,
querendo sentir o vazio
E foi num lampejo de entre o
vislumbrar letras e um papel
que contemplei finalmente o vazio
no firmar dos olhos de palavras
sem sentido
0752. Obviedade XXV
Poesias boas são aquelas
escritas em 3ª pessoa
e que nos passam uma verdade
Poesia em 1ª pessoa
não é poesia, é lamento
ou louvor estilizado
0753. Obviedade XXVI (Respostas postas em poesias)
Que dizer ao se compreender versos?
Quando medida e pesos se fizeram então
Posto que quase sempre anda a alma
Em descompasso com a razão
Posto que quase sempre é a alma
Apenas um momento vão
Que dizer ao se compreender versos?
Dizer melodiosas redundâncias
Para se assegurar essa mesma alma
Em novos versos que ficarão na ânsia
De ser ou ao menos parecer
Possível solução de merecedora importância
Que dizer ao se compreender versos?
Será mesmo que são passíveis de compreensão
Que são até mesmo essas rimas pobres
Também uma outra e possível solução
Que dizem mesmo algo além do simplesmente dito
Essas palavras todas em vão (ou presas num vão)
Por fim, que dizer ao se compreender versos?
Notas, posfácios, teorias ou tratados…
Melhor não, melhor deixar o compreendido
Velado sobre novo poema adornado
De rimas pobres, pieguice e alma
Em prova dum sentimento contemplado
0750. Obviedade XXIII
Hoje eu acordei da ilusão
e vi que mesmo amando certos
o que me resta é a solidão
0751. Obviedade XXIV
Se pudesse já não
escreveria mais
palavras…
são todas tão
prenhes de essência
Mas qual um viciado
não resisto ao
momentâneo prazer
que estas me dão
É uma viagem única,
insignificante lombra,
mas me acomoda os nervos
0748. Obviedade XXI
Nesses dias em que a palavra quer ter vez
Às vezes tenho o lampejo de que a palavra não basta
E rasgo todas as folhas escritas
(como se o ato fosse mais que alguma coisa)
0749. Obviedade XXII
um dia tentei abraçar
o mundo com uma poesia
desde este então
nunca mais fui poeta
0746. Obviedade XIX
O amor tem uma linguagem
estranha à razão,
o ódio tem uma absurda.
Seus limites não
são uma antítese,
muito menos um paradoxo
0747. Obviedade XX
eu sempre fui um
garoto bom, perdido
entre um mundo sujo
já nasci em meio
à merda e à lama
não há de ser uma
dose de pinga que
vai destruir minha
herança
0746. Obviedade XVIII
Os anos são poucos sobre as costas
mas a práxis de levar a vida como
se fosse uma oração, deu a noção
de que nunca mais há de existir
a impressão da solidão
cada um carrega o mundo em si
cada um é o mundo em si.
0742. Obviedade XV
tirei hoje meus óculos
exceto ao sono e ao banho
(e de quando em vez nem neles)
pouco me recordo de os tê-lo
retirado da frente de minhas retinas
ah, qual surpresa descobri
quando os tirei hoje
quão maravilhado me vi!
há tempos não via o que vi,
vi tudo sobre outro diálogo
com os meus miolos
foi assim que vi que não era luzes
mas sim mandalas luminosas
destacando-se de um quadro
vi que não eram mais indivíduos
ou pessoas, eram todos iguais
uma massa amorfa de corpos
móveis à revelia da beleza ou
da feiúra
vi que não eram mais
nuvens, mas sim tons de
cinza rasgando o céu
vi que não eram mais automóveis
e sim caixas sonoras com duas
mandalas na frente e atrás
vi que não havia mais paisagem,
mas cores, luzes e formas numa
continuidade aparente
vi um mundo mais inteligível à
minha alma do que à minha
construção cultual do mundo
hoje meus amigos e amigas,
como fui feliz!
sem formas, sem informações,
sem conceitos
só um contínuo
só o infinito
só
e confesso amigos e amigas que tenho medo agora
de prosseguir o caminho com essa dura
realidade vítrea em minha face
que descortina o mundo em definições