correntes
que conformam
confortam
não as de ferro
as de água
mares me amarram
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
correntes
que conformam
confortam
não as de ferro
as de água
mares me amarram
raízes que vem de rios
de cursos rizomáticos e meandrantes
de memórias d’água
minhas paragens aquáticas
meu rio araguaia
Difícil de desatar nó-cego. A proximidade das coisas no agora despedaça a lida de historiografar os sentidos dos fatos do mundo, imagina o que não prega e pega quando o desatino se dá nos apertos tidos dentro do peito? Quando tudo perto demais, o que resta não são as moléculas e os átomos, isso que fica num tudo quase invisível, mas sim a cegueira, combate amazônico de se tratar pela visão. Impossibilidade mesmo. Mas promessa feita, é dívida já arrazoada. Como que sem prazo… basta a paga, sem juros e correções. Trato feito foi da feita, não do além.
O ocorrido já corrido, que agora vou versar, longos dezesseis anos desde então, foi dado lá pelos idos do novo milênio, transcorrida a última mutação minha havida em fins do pré-apocalipse anunciado naqueles iniciados anos de boatos a percorrer virada, como massa de ar se indo de um lado para o outro da Terra. Em gênesis de 2000 mesmo.
Naquele anuviado de novidade se apinhando, desde quanto saí da lida do dia a dia das quebradas de Guariroba, cercania de Ceilândia, num indo vindo apenas desde lá até a Terra da Ave Branca – dos motes chamada Taguatinga – e dar com os costados em Ilhas Brasílicas, pontos de voo de planos e pilotos – dos quais nunca vi – no meio do descampado do cerrado ermo, lá naquele posto dos mais altos estudos e do garbo do conhecimento desmedido, a morada da sabedoria, vez por outra tida como Universidade, pareada com um lago que paira no ar, como tido Paranoá, foi que se acometeu a continuidade daquilo que pelas orelhas adentra, pelos ouvidos avança, pelo amotinado da cabeça faz massa embaralhada e se esparrama desaguado entre coração e peito até dar-se por inteiro no prumo do espírito e fazer morada definitiva, mesmo quando corpo já se for para os buracos de dentro da terra, nisso que não trata de se perder nem nos céus ou nos infernos: alma. A coisa da música. Maldita de bendita essa ela.
Só que essa ela, diferente de até então, ganhou um outro par a que aplacar a mente e cortar em duas bandas, pelo menos, esse músculo tremido dentro das grades do peito, esse que tem por nome coração. Elas, que sempre foram elas, várias, muitas, todas, tantas, músicas para sempre em mim, se ajuntaram a elas outras, tantas, todas, muitas, várias, que de por em mim avessado no grupo a qual pertenço, me fez querê-las assim, tais e quais as músicas me atinavam. Só que delas um bom tanto, posso falar deles também, ao que o amor me é feminino, mas o enlace me é humano. Seja ele ou seja ela. Somos todos e todas. Querentes. Querosas. Querosos. Musicais. Desde sempre.
Mas é dela, a primeira, o interesse posto em falar. “Essa aqui do meu lado, essa minha companheira”, que de outros tempos de atrás ainda agora eu tive por dizer que “de todas as coisas, a que mais me toca”: a danada da música. Do que vinha apois contando em outro mote, o primeiro, acerto que parei por perto de uma serpente lambadeira, treinada por força alagoana, no findo do milênio segundo depois do cristo cristão. Pois que como vinha vindo, continuo. Era em fones instalados no aperto dos ouvidos, que seguia aquele trote de baú, quase cinco léguas diárias de ida e de vinda, desde lá das terras brejeiras e pantanosas, quiçá quase de veredas, donde antes brotou palmitos em palmeiras, guerobas – de modo de dizer sulista, guarirobas – a morada minha de então, até a morada da sabedoria. Dez léguas de trote todo dia em busca do conhecimento.
De modo que para a paga de assim proceder, o holerite da função do estudo, arrumei de sair amando, para ver se dava gosto aquele intento de se formar no rumo profissional, o mesmo que de minha mãe herdei, intento de conhecer da Terra toda, todo o espaço de feição possível e, depois de conhecido o que se desse de tudo, ensinar a molecada de pequena e a velharia de adulta nos segredos que a descrição da Terra há de poder revelar. Era função boa essa do entendimento das coisas, mas cansava e precisava de paga melhor do que a previsão futura de que tudo melhoria com emprego e com empreita, anos postos depois de graduado. Fui atrás do amor então, para ver se me convertia em alegria plena, estar na morada da sabedoria não sendo suficiente como naqueles tempos.
Passei seis meses remido de saber o que ali fazia, nos ares do que se costumava por como Universidade, mas fiquei, sem muita firmeza do que ser, um tanto liquefeito e desaguado pelos lados, ladeado mesmo com o nada, beira lago pairado no ar, sem se ater ou bastar em si e de si para si mesmo. Tava avolumado era de nada. E todo recado me acatava, me atacava e me atava, feito cadarço de all star velho e bege, desgastado e desgostoso, que afrouxa e desata, desabando de tudo em tudo e pelos tudos, como feito qualquer pessoa.
Apartado de si, mas esperançoso. Engrandecido de se ser nada mesmo, mas sendo algo. Caminhada. Ao que fui para os ensinamentos segundos de mais um seis meses de ser quatro, em aulas de filosofia, das introdutórias. Classe que divisamos com as companheiragens educatórias, das que se principiavam serem professoras, dessas de meninada miudinha mesmo. Mestre Ubirajara nos ensinava, me lembro bem de então, falava até de Exu, de ser pé de bode ou cabeça de, em estátuas feitas quando em África ainda, versado como o dinhanho já cá em Pindorama, travestida de Vera Cruz, desenvolvida em revolvimento de se ser Brasil, como sendo o próprio Satanás!
Veja se pode? Fazer da Esfera, daquele que traz os ligamentos e as conversações, que comunica e que destrava, destranca e desaperreia, como sendo o diabo do Diabo que parece há lá entre biblianos e biblianas. Exu abre, não fecha. Mas nos enroscos da filosofia, era aula às vezes boa, às vezes sôfrega, mas ainda com muita gente das bonitas e das inteligentes. O que dava mais ânimo de ali continuar. E continuei.
Ali mesmo, naquela sala, foi que tive três visagens, podia ser mesmo três assombrações, ou mesmo até, três assomações. Me assomei todinho. Me assomei, mas foi delas, das três visagens que ali vi. Era como se até pudesse ser feito de matéria firme, mais que o ajuntado de ideia, de pensamento e de palavrório que se dava dentro da sala, acreditei em voar.
Naquelas três visagens.
A primeira foi uma visagem aproximada bem de perto. Era chamada de Leila do Norte, assemelheva uma pintura, dessas do tempo em que as mulheres ainda eram retratadas em suas formosuras redondas, que arredondeavam de estonteio qualquer passante em distraído. Toda aquela cabelama, arrodeada de loiros não nascidos, mas ali postos como que tingidos, luzes a dourar o natural. Leila do Norte, moça forte, de presença agigantada e leonina, firmou pé do lado, me disse tanta coisa de lá, daquelas bandas de onde eu mesmo começava em linhagem de família verdadeira em sangue. Coqueteávamos ambas, eu e ela e para nós mesmas. Em todo o canto possível daquela cidade universal de conhecimentos múltiplos. Ela me tecia palavras de borboletas com o encanto de ser gênia, sabida no por demais. Era encanto que não se tinha fim. Fiz até de Leila do Norte, Eliane, a que era música, em certos traços escritos e empalavrados que já tive por fazer, donde me travesti de Paulo, professor de ledos enganos. Mas éramos eu e Leila do Norte, saracoteando por toda aquela extensão, e mesmo ali em iniciações filosóficas. Eu olhava Leila do Norte e bem dizia as cores todas, as coisas todas, as belezas mais bonitas, versos simples de feição fácil, calafriosa.
Tinha por certo que ali era amor de não se desencantar, tava no aprumo da certeza de que era. De pacto e de impacto. Era amor. E ia e vinha. Visagem que eu sabia. Ia e vinha. Fluía. Confluía. Motes, cartas, sonetos e ditirambos, à Leila do Norte eu escrevi.
Mas a vida é doideira doida, que endoidece qualquer que tente dela se afastar. E como sempre dentro estive, fui, e de cara – pá! – dei com a própria doidice da vida doida na fuça. Outra visagem assim se fez, e do lado dessa cá, de nome Leila do Norte, graciava aquela outra visagem, que assim se fiava, em minha frente e bem ao lado, por nome de Dourada Rainha, Rainha Dourada, sem ser Senhora. Era triste ela. Como doía. Feito as minhas lágrimas tão eternas, feito aprisionamento dentro de si. Tinha pelo cristo cristão uma relação de amor e medo, que por vezes me assustava, mas eu tinha cá por mim, que enfim, assim, mesmo com aquela confusão, de ser triste e ser devota, eu lhe tinha comoção. Tamanha. E fui tendo mais ainda, emoção mesmo, pelos áridos do trote de léguas diárias posto. Que sempre se fazia com ela por companhia. Desapeava do baú antes de mim, isso era certo, e entrava também bem depois, da sorte que se guardava em casa feito chácara à beira do Vicente Pires, três léguas de onde o teto me dava o sono e a guarida. Me fiz em seus traços, contornos dourados, campeei sua tez no desagravo do meu martírio, para ver se dele me livrava. E havia coisa que não dita, ainda mais me apegava, era oblíquo, mas não dissimulava, eu queria mesmo era adentrar.
Eu lhe quis em tanto agrado, queria pô-la em colo meu, e afagar-lhe as mechas negras e bendizê-la o tanto que desse, pois muito que dava, e eu me quedava frente a ela, miudinha, esparramosa, batatinha pelo chão. Linda, Dourada Rainha de cabelos negros. Pareava junto a mim, nas classes filosóficas, bem no meio eu e no oposto, na canhota, Leila do Norte. Era coisa endoidecida, que me afligia, mas eu nada fazia, só sabia o que eu guardava, aquilo que em mim já conhecia – dois, pelo menos – que havia no meu coração um.
E eu andava meio assim, trafegando entre linhas e brancos papéis, tracejando o que pudesse com palavras apenas, falando de Leila do Norte e tecendo Dourada Rainha no dizer. Melodia é coisa que me adentra e fui fazendo delas tudo aquilo que fazia, serem elas mais que elas, mais algo que em mim me principiava, música elas em mim, o que foi sendo.
Escapei foi nada, e no meio dessa coisa já em si de amorosa desastrosa, me ferrei, por conta do que se impõe como definidor do que se possa ser amar e amor, de se caber em conta feita: um mais uma, quando senão, talvez, somente, um mais um ou uma mais uma. Vá saber. Mas que é essa a conta do possível, isso sim, é feito em fato. E eu ali, tentando conjugar a soma na tabuada da subtração: menos uma, sobra eu e outra, menos outra, sobra eu e uma. Mas divisasse que eu não conseguia fazer a conta!
E de tanto não saber fazer, que meu peito era que se divisava entre elas e assim queria. Foi que chegou a professorinha, dessas que amam tudo quanto é criança. Só pra ser visagem outra, só pra trivisar meu coração já bipartido. Vinda da beira do Rio Preto, lá pra lá das Gerais, bem no estado do café preto e dos motores, dos cinzas. Maria Maria, de nome feito era ela. Gracejada como na música dos mil tons que há. Era que era só sorrisos e esperanças, só delicadezas. Sentada em minha frente no abecedário da introdução do pensar, na classe e na cola. Ela tava o tempo todo lá, na cola. Me colando. Me calando com palhaçada, me calando no riso, olhe só. E eu fui, fiz que não mas fui. E fiquei pasmando com aquelas pintinhas que pintavam a cara dela, que era bela e era diferente. Belezas dessas que se apega e se aprende, se apreende. Coisa de professora. Vai se ensinando e quando se vê, já é linda que por mais linda. Bonita toda em flor, feita como o nome previa: Maria Maria.
Destarte que ninguém tirava, só que nem Maria Maria, nem Dourada Rainha, nem Lia do Norte. Tava tudo lá que era só mistura. Só inquietação. Feito quando o cerrado queima, labaredas e fumaças, esfumando tudo e a bicharada num ligeiro de corrida pra todo lado. Eu mesmo me tremia. Era isso toda terça e toda quinta. Se bem que quando se dava a primeira feira, já se avizinhava a terça, e no destempero de uma quarta, tudo era dor depois do dia passado e tudo era espera pela quinta vindoura. Quando sexta se aprumava e o que em quinta se passou palpitava o coração, vinha o sábado e o domingo, só pra dar saudade e choro. E eu chorava assim, na solidão descabida. No que pouco se sustinha: eu mesmo tomado em mim, de por mim pelo meu quarto, de comigo em meio da rua, por companhia só eu pitando ou pintando. Só esperas. E encantos. Três visagens. Sonhava que era com elas por sempre vir. Me tomavam.
Eram elas e músicas que me achegavam. Pensei ser mal feito do peito, acolhi que devia era de me tratar. Mas desavisei-me do perigo, carecia de carregar meu peito pro conserto não, só precisava era de poder deixar aquelas visagens todas virarem flores no prolongado das ventas, pra regar o que fosse de bom e de bem. Para elas. Em mim. Mas qual o quê? Fiei que não dava. Alertaram. Amigo meu Miguelito anunciou “Dá certo não, Guelé. Por demais de arriscosa essa função. Se ainda fosse lá nos idos de outros tempos, quando livre parecia que seria tudo. Mas cá, hoje, agora, nesse então. Fia no meu dito ‘quem muito quer, nada pode’”. Ou mesmo no dizeres de meu irmão Luz: “Isso é feio, mano meu, amor é um, só vai prum rumo, só toma um prumo. Amor é canoa solitária que desce o Araguaia até se dar parada em barreiras, com a paciência divina, eis que vem outra canoa solitária lhe dar par. Ouve o que eu digo: ‘quem muito quer, nem sabe o que quer’”.
Desouvi foi a todos. Fui no ir ainda. Eu que sabia.
Mas a filosofia já não tava conseguindo ser mais nada. Era só elas. E elas se aperceberam. E foi lança, pedra e pau, estrondo, solavanco e sopapagem de palavório pra todo lado. Acidez que derramava. Queimava até não poder. E eu ali. Em meios. Achando que dava. Que dava. Dava era nada. Dava era o nada. Mais fácil era que eu me continuasse no prolongado da solidão de antes de tudo aquilo havido. Assemelhei que fui falando aquilo pra cada, e as visagens foram dasanuviando, entrando no ermo dos olhos abertos e sabedouros do que é realidade.
Cada qual foi se adentrando na sua tristeza particular e eu me virava que era só ela. Triste, cabisbaixo, macambúzio, no banzo mesmo, banzo brabo. Se tivesse que ter como, eu me carreava era no banzeiro do Araguaia e me ia até sei lá onde. Bico do Papagaio. Até tocantinar, paraar e vir mar. Virar mar. Só pra não ter essa sofrência. Sofreguidão espinhosa. Lamacenta. Lodosa. Ah tristes fins.
Vi Lia do Norte se ir. E chorei quando dei pela falta de Dourada Rainha. A última a me deixar foi Maria Maria, que tramosa, se pôs logo de adiantada. Foi, mas ficou me deixando partes. Em vários apartes, por parte. Eu fui só seguindo. Ela me chamando. Pegou rumo pro Rio Preto, me deixou cá cerradiando, no quase do que se pode ter. Carta enviei, por correios mesmo. Chegou em boa hora e na capa lhe enviava um estado de espírito, porque o amor se deixava surpreender, impossível sendo ser feliz por só. Ao que busquei Maria Maria lá pras bandas do Rio Preto.
Pois que dela eu também gostava. De todas eu gostava, no mais alto querer bem, mas com a destra e a canhota me fugindo, eu só tinha notícia da frenteira. Maria Maria sabia o que fazia. E me deu tino, dela me atinei de todo. Propus: namora? Namoro. Eis que fomos. E nos emaranhamos de estrelas, de cometas e até de coisas sem porquê que se demoravam nos cantos dos céus noturnos. E fomos num indo e vindo de viagem, de cá pra lá dessas terras poucas. Parcas. Mas que nos cabia. Maria Maria era flor e enlace, me cativou, me trouxe o que dela pertencia, tomei gosto.
Mas eu lhe vazei de sentidos também. Ah, isso eu sei. Certeza que lhe digo. Foram dias de se por de antemão contra a contramão de quem vai no rumo do esperado. Corremos outros lados. Se indo. Passo a passo, a passo. Compassado. Se indo no amor de se ser dois, duas e cada uma, cada um. Lindo. Coisa boa é amor dos começos, dos princípios, dos primeiros. Que se segue como paixão até se dizer por boca vã ser sê-lo apenas aquilo: amor. Quase sempre se caí e num se volta. Ou se ama. Ou acaba. Enquanto não, passa-se. Passo a passo, a passo.
Só que a vida nos pega, prega surpresa e nem se arreda, nem arrenega. Apregoa em sabiá. Quiabento. Urtiga mesmo. Conflita e atrita. Sem briga, só sem acordo mesmo. Dá-se assim um esmorecimento, um desânimo de querer. E ainda se continua querendo, veja-se. Só que é muito lá e cá. Diferente. Como se um espelho se colocasse nas costas e nada do que igual se vê. Se avista.
E o que se tem que ser vai ficando avesso. Outra coisa. Quem sabe mesmo, a solidão?
Deixei Maria Maria por perto da boca de um senhor tido por Hermeneu. Lindo homem. Assaz inteligente. Feito a noite: para pouca gente. E eu fiquei ali espiando, o azul do céu me avisava que as visagens ainda vinham. O céu todo me fiava a confidência. Não tinha medo ou receio. Se fosse a solidão, que viesse. Se fosse o sol, que queimasse. Se fosse a bruma leve do que toca a pele e pousa pouca e inteira, toda ela em mim, que fosse. Eu ia. Deixava. Sustinha. Lá nos altos dos céus, descansava uma légua grande se dar em si. Tava me bastando que era um gostar de si. Coisa rara. As visagens ainda vinham em mim. Leila do Norte já casara. Dourada Rainha se encantara. Eu as gostava, nem desgostava. Só queria bem. De bem-querer inteiro. Sempre. Amando mesmo.
Fiquei comigo. Até o próximo capítulo.
pode fazer, pode chamar
hoje eu fico em casa
caçando anjos com lunetas
estarão lá em goiás
provável que sim
certo que
anjos praquelas bandas de lá há
dormindo em esteiras
buscando o àiyé
tô cá, sem tocá-los
os anjos, eledás
me guardando
a aguardar
Era uma coisa, mas – pasmo! – teve vida
Carecia de taxonomia, logo
Situamo-la num reino novo:
Metatranqueira
Do filo dos Inutiae, da classe dos Paravalóricos,
Ordem dos Ostentacus,
Família Hominidae
Seu habitat natural são bolsos e bolsas
Procriam-se através do parasitismo de humanoides de África e Ásia
Consomem minérios e sintetizam ondas e raios
Produzindo presença, companhia, boatos, excitação e ódio
Seus rizomas se mimetizam com esperanças
E se estilhaçam no fim
Em sambaquis de plásticos, papéis e pedras
Sem vida nova
Descartáveis, são a cura
Para noias humanas
E paranoias, para humanas e humanos
Veneno e soro
Além de psicotrópico
Subespécies várias: galaxy sspp, motog sspp, iphone sspp, windows phone sspp.
aindará o ar raro a exentranhar
teu peito de raízes aéreas
tu quandoás nalgum tempo
os ácidos frutos que germinarão
dará limões
azias darão
desse teu solo
que merece correção
por mais púrpura
que seja a estrutura
da flor
da flora
da fúria da beleza
o dano é menor
caso não veja
não haja
não seja
contenha as entranhas
cegue
e só flor será
pura e púrpura
sem dor
sem ganho
vou manter
o meu tamanho
amor
não basta
devasta
devagar, como naqueles tempos
em que assistimos aos capítulos finais
– e estávamos lá, vivemos!
ainda percorrem nossas veias esses tempos
como no compasso de tecer rendas de bilro
moldar o barro em roda até cerâmica
devagar, como nos mitos e nas lendas
como no tempo de pórticos e portais
de umbrais
eu te descubro sem pressa,
demorado lençol de longas tardes
eu te descortino vagaroso,
abrindo ao teu consentimento tuas janelas
alicerce para o voo, firmamento
calmo e devagar
como nas cartas de 1700
como passos no passeio público
pique-nique no bosque e vereda de tardinha
uma imensidão de por-do-sol sem fim
até, lentamente, você me descobrir dentro da tua noite
essa que ainda não sei
a neurose é algo nobre, recobre
aquela fúria dela, truta, consorte
mano meu, Sapien, deixa eu dar a letra
debaixo da bombeta fissura forte, treta
h.aço eu acho, sempre, ideia no pente
e no peito, mole, carne nem sente
tudo monstrão nos ao redor, dixavado
mano meu, Sapien, vai vendo
o pisante dá um choque, transtornado
eu sou só a minha beca? sigo sendo?
alma sem corpo no baldio desovado
alma ainda, bagaceira, se encolhendo?
veneno, lupa baixa, eu me entranho, só pala
pelo afora da pele parda, pelos, placas
tinta na esquina do coração com a costela
e essa pira, noia, para além dos bico
que inflama, aqui dentro tudo descamba
mano meu, Sapien, negro drama
paguei de cabuloso, mas pouco sei
como brisa, fritado, sucumbi
irmão, bagulho loco, essa quebra aqui
foi mó função quando trombei
pipoco pra todo lado, quase caí
firmão, segui suave, sagaz, não zoei
é disso inteiro, junto, misturado, demente
mano meu, Sapien, uma pá de parte
cada uma num corre à parte, tipo arte
nem lá nem cá, é dentro em tudo, ente
que se esparrama por todo onde e arde
essas quebras de dentro da gente
I
espreito tua ânsia
de flores e faíscas
teu corpo delicado de
caligrafia precisa
em versos compostos
pelo alumbramento
do orun
avisto tua imobilidade
de portas abertas
para a mudança
II
cá, detrás desse muro
fito pouco a pouco
tua reconstrução
ouso transpor o muro
e meu corpo pedra bruta
constrói-se a própria parede
o máximo do meu toque
é continuar-me em terra
que sustenta teus pés
III
a nada sou indiferente
e minha pena
ser tocado por tudo
é a desatenção plena
e sempre
tropeço em minhas próprias pedras
E a constatação que vem depois também me adere. É sempre bom se lembrar.
Que susto!
Ó o sol…
Que só,
no meu pasmo…
Adejar,
pois,
há demais ar.
Ademais,
adentrar.
Um jasmim
jaz em mim.
Onde azagaias
brotam.
Não sei rezar,
sei regar.
Será cada flor, um rogar?
Disparo contra o meu
peito. Amparo encontra
o seu, deixo.
– Vó, o matu tá qui é
todo torto.
– Não, mô fí,
ess’é a’rrumação di Deus.
– M’tendi, tudo zuado.
Guarda esse segredo:
em todo peito
há degredo.
viver?
eu me rendo
é certo que não aprendo
“Eu deveria ser transitório como a sombra sobre o campo.”
(V. Woolf)
Há coisas que explodem
e certas que se espremem.
Todas exprimem
algum tipo de exaspero.
A vida só começa
quando podemos
escolher não
mais tê-la.
Farto
do certo,
hirto
no horto,
surto.
Eu serro meus olhos,
daí sim
vejo.
Não se aproxime muito
– todo cuidado é pouco –,
sou do clã do infortúnio.
Dentro do espectro
do possível,
todo relacionamento
é abusivo.
O que se fazer em uma noite sozinho?
Tomar cerveja só.
E deixar o peito rasgar.
vai, sê delicada
dedicada
e despedaça
sua auto-afeição
seu amor-próprio
em cuidado
ou medo
dessa graciosa atenção
azaleias despontarão
e a beleza, roteiro cinematográfico,
cairá em desuso
como gadgets obsoletos
e uma fobia abissal
onipresente
onimpotente
cortará o mundo
nos pulsos
mas delicado,
bem delicado,
como um bisturi talhando a pele
para a plástica
e o plástico.
há beleza no mistério
quando há mistério
as partes sagradas cobrem meu corpo
e eu profano cada átomo
nominando-os e criptografando
cá as mortes assomam
concussões nas esquinas, becos, vielas
dezessete corpos desde a virada
em média
há guerras e ganhos
e há o fascínio do divino
tornar sagrado, religar
como se algo não o fosse
e tudo não se conectasse desde sempre
feitio de fibras luminosas traspassando
o que vive, pedra, peixe, pau
cá nos envolvemos com o sangue
encanta e embeleza o açoite
d’antenas aos céus captando
jorrando e como naus, nós,
singrando oceanos de sangue, bêbedos
do barro ao bento
cada ponto de começar
condiz ao sopro que arremeteu o pó das estrelas
por cada ligação sem nome no sem fim
e deu a maravilha da expansão
de se ver desde esse ponto araçá
cá decapitam aos desígnios da beleza
pelos contíguos do poder
de poder, não ter, ter além
explodir tudo, até que só nos sobre
amém.
cansaço, três doses de insônia numa noite de trinta horas
todos os dias
quatro sonhos trancafiados em pensamentos
sonhava ou pensava?
no cômputo da semana já se avistam umas quarenta e cinco
vezes trinta
doses sobre doses sobre doses
no ano encheria garrafas e mais garrafas de pálpebras
fechadas e nenhum dormitar
afinal, vive-se bem no engodo
o único sono factível
parece ser aquele depois de várias doses
dorme-se confuso, seco, encolhido na cama
uma imobilidade de duas horas
gosto de nicotina por todos os poros
nada em si adormece
tudo acordado: expectativas, ânsias, passados
o presente é apenas um estado eternamente desperto
e cansado.
explode as grades da garganta
as celas cranianas
canta
que tua voz é cristalina
de fonte profunda
indefinida
vem do centro
vem da terra
vem do vento
desorientado das manhãs
dos rasgos do solo
da solidão terçã
canta na língua destemida
de quem não se veste
e não dormita
no que vaga
no que erra
no que nada
transpassa o ar
desafia nuvens
com teu cantar
que tudo que alcança
o tecido a seda da tua voz
emaranha
enreda
trama
de se prender
e apreender
o que der
como dá
teu canto
prazer.
a verdade intocável
reside entre dois corpos
silogísticos
que em plenitude descansam
a máxima racionalidade
relacional
– sem humores e hormônios
: quando o querer é certo
indubitável e pleno
dá-se assim o encontro
a tal ponto
que é possível julgamentos
: oh, pobres mortais
que se atrevem a amar
não sabendo que
desse jeito, é errado
tristes foram os versos
que vieram depois,
humanamente amados
entre erros e incertezas
todos invadem
todas evadem
e tudo esvai
no plano do mundo
tento orientar-me
faltam pontos
e há essa rosa cardíaca
que cá inventa cantos:
normar
pólo líquido
voeste lestrada
céu de se pôr trilha nascente
cálida casa
suolar
hemisférios que se acham
inteiramente descobertos
onde esse mundo termina
do que é feito ele
efeito em mim
nos afeta e nos enfeita
quase aflige
mas de par somos feitos
e fora de nós dois
e em par ficamos
emparelhados na cama
enfermos, nos enfiamos
lençóis adentro
enfins afora
e nenhum fim emparelha em par
o certo é que enfileiramos
estatísticas
daqueles que flertam
por fora
com afinco
Quem me conhece na vida além telas e monitores, sabe que sou geógrafo de formação, segui os passos de minha mãe e fui estudar os fixos, os fluxos, os processos e as estruturas do espaço, dos territórios, das regiões, das paisagens, dos lugares… Fui atrás de territórios culturais, das relações de poder entre lugares, das hierarquias nas redes urbanas, das relações entre campo e cidade, da apropriação dos espaços naturais. Descambei estudando culturas tradicionais em espaços urbanos e fui terminar tentando desvendar o que a geografia escolar tinha para nos mostrar acerca das relações desiguais entre os gêneros.
Na sequência migrei para a arqueologia, fui descobrir as paisagens passadas e sua relação com as formas de ser do ser humano ao longo do tempo. Achei lindo tudo aquilo, o simbolismo das paredes pintadas, os restos de gente que aqui andou e forjou seus lugares, seus territórios, seus sagrados. Acabei estudando como seria possível pensar nas questões de gênero dentro da arqueologia, em como seria possível identificar esse estar “mais próximo” da natureza e a formação das desigualdades entre mulheres e homens tão ainda arraigadas no mundo. Queria ver se o passado podia dar pistas sobre o porquê disso tudo. Acabei me apaixonando pelo estudo da técnica e da tecnologia.
Foi aí que resolvi voltar para a geografia e estudar o diabo desse ciberespaço, dessa construção em rede que demove turbas a perpetuar desigualdades e preconceitos e ao mesmo tempo quer conectar esperanças e propostas para a desconstrução de algumas misérias humanas. Dissertei sobre os territórios do ciberespaço, sobre suas paisagens, sobre as redes e os fluxos informacionais que nos atordoam o tempo todo, que nos deixam sem pé no chão para o encontro de verdades, que deixa tudo frágil e efêmero, na velocidade de um clique.
Essa última imersão acadêmica terminou em 2013, mas desde lá que tenho tido arroubos distintos com o ciberespaço e a internet. Tem horas que quero mandar tudo às favas e me desconectar completamente, voltar às cavernas, sei lá. Em outros momentos, quero iniciar a revolução através das redes e conectar todas as pessoas de bom juízo numa grande massa de seres terrestres que irão tentar deixar isso aqui melhor. Nenhuma das duas coisas me basta e fico vagando entre um pólo e outro.
O fato é que ando meio querendo me livrar um tanto de algumas redes que me meti irrefletidamente e que, na real, não estavam me levando a lugar algum. As tecnologias são coisas que nos adentram de tal forma que depois do contato com elas fica difícil imaginarmos como seria nossa vida sem elas. Mas isso tudo é meramente uma produção de marketing. Nós não precisamos delas tanto assim. Dá pra viver sem certas tecnologias que nos empurraram goela abaixo como o suprassumo da conexão entre as pessoas.
Deletei quase todas as minhas contas nas famosas redes sociais. Percebi que sempre estive imerso em minhas próprias redes sociais, de afetos, de amores, de carinhos, de contatos, de conversas, de compartilhamentos, de vida. E nunca precisei antes de uma empresa que controlasse essas minhas redes e que, de quebra, vendesse minhas informações para alguma empresa de sapatos.
Enfim, esse enredo todo, é só pra dizer que será somente neste espaço que compartilharei as coisas que sempre gostei de jogar ao vento da aleatoriedade do ciberespaço: poesia, prosa, música, ideias. Cá me encontro de quando em vez, para que esse lado que em mim ainda quer a conexão com o mundo através das tecnologias tenha espaço.
Aproveito o ensejo para compartilhar duas descobertas desses dias de downloads frenéticos, em que tentei terminar a minha coleção de discos brasileiros de 2015:
tuas mãos miúdas
cá, colavam quase
eu segurei
como naquela música
vinda daquele poema
chuva que seja
miudinhas
lindas
chuva fina, passageira
outra vez te perdi
quando esse sol de todo tamanho
assomou
os fluxos não vão todos para si
a terra ainda gira em torno do sol
e o cuidado
é aguar uma roseira pequena
dentro de uma estufa num planeta minúsculo
podar um baobá
mas eu não sou eternamente
sou nada
e quem sabe de algo nessa nebulosa?
a saída
labirinto cabuloso
a escolha
como entramos
mas
comentamos
que sabemos
e sentimos
mentimos
e nos metemos
e remetemos
há fontes
sentidos
e sentimentos
outros alhures
referências bibliográficas Gilberto Braga
Leandro e Leonardo
tudo dado
nebuloso
educado
mão única da história
invisível?
se resigna
e não cobre
qualquer revolução
é fácil querer a mudança do mundo
quando em si só se cabe
mas, se é o mundo que queres
vai lá
se abre
ou bebe leite
eu magma, movediço, viscoso, destruidor
ela brisa, passa, fica, pacifica
entranho-me terra
exaspera-se atmosfera
entre nós
água
solidifica-me
chove-a
e nos agarra as partes, todas
talvez você esteja tão
perto, mas tão perto,
que não haja aperto
no peito, dado o
diagnóstico da distância
mas talvez você bem
do lado, possa ser uma
via láctea, entre nossas
lentes de enxergar o mundo
e aí só uma lerdeza
haja entre nós
talvez nem longe nem
perto, mas tal qual tudo
o que dista e une: para
todo magnetismo
há possibilidade
a cada aprovação, ela
sorri desajeitada
a cada minuto, ela
cai mais na cadeira
a cada bocejo, ela
se assemelha mais à lua
a cada arrumada de cabelo,
nela, meu desmantelo
a cada estacionar-se em si,
dela, é mais minha atenção
a cada suspiro longínquo,
aquela, se torna meu ritmo
a cada tristeza abafada,
por ela, o fim do suplício
pra ela: sou todo sorriso
Estou agora deitado,
de frente à porta do inferno, contam,
porque de enxofre é minha espécie
Meu juízo não dá conta de me por à lume
o que se dá. Porque há esse
tempo parado, estáticos segundos
e eu não sei se estou a ir
ou se ainda imerso no mesmo ermo
Labaredas azuis,
que assim é o inferno,
vem a mim por outros olhos
Não os meus
Olhos de algozes, de anjos,
encantados que esbarrei
e me projetam suas entranhas
tão límpidas, cristalinas
de paraísos mediúnicos, aleias, cometas
com a graça de uma dança
Acho que estou ali deitado ainda
com uma serpente por travesseiro
acho que de vez enquanto, enrolo-a
em meu pescoço, para passar mais calor
O problema é achar tanto, quando nada perdido
Estou encantando nalgum lugar
Ouço ao longe o trote dos anjos
suas asas batem como mariposas
Sempre há quem em mim veja
o condenado do peso demasiado,
que erra preso a uma bola de ferro,
por campos de humores ácidos,
dissolvendo espumas,
mas esse não sou eu
Sou sim, o próprio erro que avassala
Eu não lutei por nada, ninguém, nunca
só sangrei as luas não dominadas de outras bocas
E era só a guerra que contava
só os destroços e os espólios
Fui rio de lava para enredos de outros
e minha idade nem mais sei
Até diria as eras,
se o tempo voltasse a transcorrer
e me atirasse ao mar de magma, princípio, sempre
Sem algozes ou anjos
Saciei todos os pesadelos
esses mesmos que nunca me ocorreram
nos dias em que meu vulcão erupciona
Anos-luz me atravessaram,
falaram-me quem me via
E o espelho era irreflexível, turvo
desfigurava torto
Se cá estiveram,
deitados sob nuvens
querubins, fantasias,
incitaram em mim certos infernos?
Sei que deito:
o odor me alcança,
o calor me trai, mas não disseram
Eu vi o inferno à minha frente,
fui eu que bati na porta, espero abrir
Agora me resta levantar
e casto, árvore, procurar
o precipício do paraíso
por fim, resto-me por companhia
dura, bruta, pouco acolhedora
mas que me firma como raiz de castanheira
extraio dessa companhia
não os frutos
não sementes
mas o sempre,
vívido pulsante do agora
estar presente em si por companhia
me acontece assim
esse estado de coisas
de que céus astrais foi forjada
a complacência opulenta dos castanhais?
se na escuridão da mata, no mergulhar do sol
o que resta são os barulhos de bichos
a perturbar as partes
e o estalar fino de sua própria casca só
me tenho por companhia
e é nesse triste acontecimento
que se sente o soerguer-se
sinto-me galho e folhas
despontando aos céus astrais
sinto-me, bojo, caule, firme
contornando a minha existência
deparo-me com o que é mais segredado,
só a mim árvore:
no emaranhado da terra
entre o podre que permite a vida
sinto minhas raízes rasgando
terras, pedras, rochas, veios
fincando espaço de existência
sugando o néctar do solo
que há de me conduzir seiva
esse estado inanimado
que me humaniza árvore
enquanto solo
comigo só
por companhia
É um time sem reservas
técnico, técnica ou tática
Quando entra em campo
cem juízes e juízas
mais 300 bandeirinhas
dentro de campo,
na arquibancada e
telesperando nossa mancada
pela televisão.
É sempre um descompromisso
nossa escalação
nunca muda o time
pra perder de goleada,
nunca nem uma virada,
rebaixamento é a função.
Nossa linha de defesa
tenta ser bem azeitada:
são cinco só na zaga
Uma muralha intransponível
que só vive vazada.
Dessa barreira torpe
a primeira é Natália
gata nova bem arisca
nem um tanto feminina
curte mano e também mina
e em lágrima e sentimento
se destila.
Na sequência vem o Silas
celibata por opção
tem dez anos que não trepa
sem caretice ou chateação.
Bem do lado tem Tainá
essa curte mesmo é dar
mas de tão tão doada
pela rua é toda zoada
que chega a magoar.
Como quarta da barreira
vem a Bruna bem faceira
ainda mantém um aparato
no calção bem guardado
o avesso do outro lado
teso de não ser mulher.
Fechando essa fronteira
vem o capitão Guelé
que um dia mais sem menos
resolveu ser quem ele é
e amou o mundo inteiro
sem qualquer preocupação
e por ser em demasia
sua marca foi a traição.
Bem atrás dessa barreira
vem a nossa goleira
Chiquinha Caminhoneira
na retranca a vida inteira
resolveu alvissareira
declarar-se sapatão
e depois de por seis anos
ser casada com Tonhão.
Um pouco mais avançado
à direita vem Bernardo,
vulgo Pura Tentação
De longe o mais dotado
físico inabalável
é por si apaixonado
e pra alguns iguais é dado
só por sexo e tesão.
Do outro lado, pela esquerda,
bidestra com certeza
vem Fátima liberada
tão sincera em seu ardor
da entrega ao amor
que em meio a tanta gente,
sempre fica só com a dor.
De volante, quase ao centro
só um tanto à frente deslocado
vem o maestro desse time
Otávio, o otário
Vez por outra sempre apaixonado
perdidamente por aquele
que dura uma semana
e é por ele abandonado
mesmo até trocado por ela
a quem o amor não emana.
Sei que o time é incompleto
há duas vagas e sem reservas,
mas no rol de quem não se adéqua
sempre há espaço pruma tabela
cruzamento ou esbarrada
até chute na canela
e carrinho por trás,
seja ele, ela ou dela
aquilo, aquele ou aquela
na pelada há vagas por demais.
O problema é que a vitória
ou empate nunca rola
especialistas em derrotas
nossa equipe inadequada
perde sempre de goleada.
Uma coisa deixo claro,
nosso time até se estrepa
mas o jogo é cadenciado
todo mundo que experimenta
não quer sair desse lado.
A gente gosta mesmo
é do jogo aberto
tudo às claras
quando em vez nas escuras
mas, nossa inadequação é certo
só não se adéqua por ser rara
é só jogada que perdura
pelas eras, pelos séculos
deixando geral de cara.
meu amor
tem sangue
nos olhos
não escolho
de encarnado me molho
ferro doce líquido colho
o árduo esforço
sanguíneo de erguer
moradas casas
primeiro o alicerce
fundação fundamento
ego concreto escudo
esteio abrigo
o que sobra após
as sombras dos
escombros quando
desabado desmorona
se frágil não sobra
nem sombra só partes
tudo cacos pedaços
perfeitos enquanto em pé
depois as paredes
tijolo a tijolo
por cimento ligados
projeção do conforto
erguidas a duras penas
se o projeto é falho
as paredes enclausuram
tem que haver espaço
para janelas claraboias
portas portais umbrais
o livre ir e vir
de ventos e vidas
de luzes e astros
senão se amofina
se infiltra e casa
alguma se atina
sem um fora que
ao redor se avizinha
uma morada erguida
só a é envolvida
quando alguém a habita
e dá sentido de dentro
contraposta ao circundante
que a conflita
mas há que se cobrir
as paredes com uma
camada protetora
contra tudo que do
céu desaba caído
raio chuva meteorito
uma assustosa trovoada
com telha telhado zinco
palha tá pronto
o básico do abrigo
estruturada a morada
feita com tudo o que
vem de fora para
se proteger do lado
de fora e num dentro
se pertencendo
é por isso que depois
do básico feito para
o abrigo se enfeita
se adorna se arruma
dá brilho as cores
as formas ladrilhos
aquilo que encanta
mosaicos vidros
o que é feito para
se gostar um patuá
um feitiço o superficial
sensorial meramente
contemplativo no fim
na morada habitação
de fora protegida
por dentro construída
descansar justa medida
até uma reforma qualquer
medita só
olha o
sol que lhe dão