0793. Olhar mar (amar)

Olhar mar
e como vem ao mar
e quando vem ao mar
e porque vem…

Passou, chegou, se foi
ficou e é
Molhou, marcou, depois
e antes e até

Num ir, num vir, sem fim
em si, se é
Devir, ser só assim
é o mar e fé

Olha o amar
e como vem a amar
e quando vem a amar
e porque vem…

Tocou, encheu de alga
e peixe e ar
Azul, é verde à luz alta
lilás e grená

Um toque, a areia, a água
o sal e o mar
Em outro, a vaga alma
querer e o amar

0790. A história de um beijo

“Quando adormecia na ilha de Lia,
meu Deus eu só vivia a sonhar,
que passava ao largo do barco de Rosa…”

Um sono comeu meu mundo
Foi um sonho, qual um presságio
Até uma pessoa lá morreu
Foi só por uma vida, quase nada…
Eu vi, você me via
E havia lá uns olhos de ressaca
E havia o pecado forjado em bronze
E havia mais um mar
E mais a ressaca do mar
E mais os seus olhos vendo-me

Um mundo comeu o meu sono
Foi uma realidade tal, num adágio
Até uma sinfonia lá se deu
Foi só por toda a vida, quase nada…
Eu ouvi, você me ouvia
E havia cá uma melodia de nada
E havia o amor posto não sei onde
E havia mais um ar
E mais o vazio do ar
E mais os seus ouvidos ouvindo-me

0787. Rodoviária, 8 da manhã.

Pela manhã tudo tem cara de coisa boa. Manhã de sol, doirando o mundo que poderia até ser feio, deixa tudo com ares de coisa irreal, mais que real, briluz. Na rodoviária as pessoas brilham tanto e há ainda as sombras perfilando a luz, que chega a parecer que o mundo ainda pode ser algo mais além dele mesmo. Perco meus pés, não ando, apenas observo as luzes, o brilho, as sombras, aí vejo que a beleza da luz reside na hora das sombras e que a perpendicularidade luminosa deixa as coisas tesas demais, sem vida ou até mesmo só vida. O esplender da luz é a sombra e o dourado que a permeia. As coisas são mais belas quando olhadas pela luz do ângulo de 30º.
Saí da rodoviária, entrei no céu e guardei aquela luz em mim.

0786.

E a solução esperou-te ainda mais um pouco
Quis te mostrar o limoeiro e as amoras
Quis te afagar os cabelos
Quis te tocar os lábios miúdos
E tu, como era de se esperar, ficaste perdida
No desandar do sair atrasada
E a solução esperou-te ainda mais um pouco
(pretensamente pensando em ser alguma solução)
(na verdade deveria ser o avesso de uma solução)
(ainda bem que não veio)

0785. Colo

havia um corpo em seu colo àquela noite
era um corpo bem feito, real, existente
nunca um desses disparates do mundo super-real,
era um corpo branco, posto no lugar,
sua gordura, sua estria, seu pelo, sua mancha
era um corpo que repousava em seu colo
e dentro do corpo havia alguém – lá no fundo
e lá no fundo gritava ao corpo que sim, que fosse
que se deixasse envolver ao seu corpo
e era o que você compreendia nesse então

havia um corpo em seu colo àquela noite
a luz das lâmpadas acesas dizia que era somente noite
quando madrugada já era – e ao seu corpo um corpo
e você percorreu as costas daquele corpo com as mãos
seu corpo estremeceu e o corpo em seu colo calou-se
e você percorreu os fios daquele corpo com as mãos
alguém dentro de você estremeceu
e o corpo em seu colo foi corpo e vocês ficaram lá,
como corpos com alguém em seus fundos
– lá no fundo

0778.

O que alucina é o enclausurante
sentido posto ao amor de então.
Uma ditadura velada à pluralidade
do amor.

Fecharam-no em conceitos,
cassaram-lhe as possibilidades de
seus existires.

Exilaram o amor em seu oposto,
pondo-o na imanência.

Falaram-me certa vez que a prova
máxima do amor divino
foi o livre arbítrio.
E nós aqui, aprisionando
a liberdade…

0777.

Essa poesia eu não te escrevo.
É a poesia que sempre existiu
e nunca foi. Um adeus desmedido
antes do encontro definitivo.
É a poesia feita em homenagem
ao teu filho. Uma retórica, um
acaso dos sentidos. Essa poesia
é pra tua maternidade e tua
descoberta, pra sorte do teu
amor e para o teu amor infinito.
É o segredo que nunca há de ser,
posto que nem a mim foi feito.
Essa poesia é meu afago não ocorrido
e a mitigação de um arrependimento
que é só um devir. Essa poesia é
só um carinho.

Laguna, SC.

0771.

Quanto custa meu corpo?
Qual é o valor de uso
dos meus pés?
Quanto agrega a força
de trabalho empreendida
por minhas mãos?
E o intangível de
minhas idéias, qual é
seu preço?
Quanto vale meus
sentimentos?

Vendo essa poesia por
10 centavos, paga a
tinta da caneta e o papel.

Laguna, SC.

0765.

Algo insone percorre
como sempre seu ciclo
lunar, inflado hoje
como a irmã que
paira ao ar
Algo luminoso,
insuportável
à própria luz,
um estado interessante
feito em meio
a um dia de sangue
Se auto-parindo no
próprio ato de fecundar
Algo flutua ao espaço
e conduz as idéias
algo insone,
dorme sempre em mim.

0763.

Hoje eu segurava uma taça
como se pudesse ter um traço nobre
em minha conduta
Minhas veias não percorrem um
sangue guerrilheiro, só de um
xerente, um canoeiro, um seringueiro
um castanheiro, cafusos,
mulatas, negras e escravas…
Sinto uma verdade em meus ombros
que não se pode calar
E lá fora o sujeito sendo
filmado em orelhas estupidamente
gigantes me leva a crer que
(conjunto aos relâmpagos que aqui
se fazem em Marabá), a verdade está
no peito de cada um e eu,
mesmo sendo mulher, me sinto homem,
mestiço, brasileiro, anarquista e
antes de tudo humanista.

Marabá, PA.

0761. Shoppinganas IV

Uma luz murmurava a tentativa de iluminar
algo em meio ao contínuo dia do shopping.
Era uma luz verde, insignificante à
multiplicidade cromática da branquidão
dos não-lugares.
Lá fora podia estar azul, negro, cinza…
Cá dentro, sempre a imensidão multicor
da monotonia da luz e a aquele embate
insignificante do verde contra o nada.

0759.

Houve um dia em que o que acontecia
não era só o vento
A razão insistia em acalmar dizendo
que era só o ar em movimento
Mas não era,
era mais,
era algo dito, segredado.
Era aquele silêncio sussurrado
pelos lábios antes do primeiro beijo
Era um ensejo, um desejo do mundo
a dizer algo como,
senão se,
além de.
Era isso aqui mesmo escrito
e apazigua o espírito.

0756. Dor

Sobre o corte não firmado
Sangra a dor de uma ferida
não supurada
Escorre a esperança em
lágrimas e ódio
como se fossem o sangue
não vertido pelo corte
abstrato

O limite entre a dor e o desejo é a intenção e o ato:
buscar a coerência entre o desejo e a reação
O desejo não mantém o prazer
O prazer não é a antítese da dor

Há assim que se largar na vida
Há que não se esperar mais nada

0755. Do vazio

Tenho fixação na palavra vazio
Preenchi toda a minha mente
Na pronúncia do vazio
Esvaziei os conceitos e as
bases na busca do vazio
Pus num vazo crisântemos e cravos
imaginários, para adornar o vazio
Vali-me de toda a sorte de sensações,
querendo sentir o vazio
E foi num lampejo de entre o
vislumbrar letras e um papel
que contemplei finalmente o vazio
no firmar dos olhos de palavras
sem sentido

0754. Prelúdio de fim de noite

Sobre os restos dessa hora
Ficam os cacos do preenchido
No preludiar do avesso da aurora
Deitam as réstias de algo vazio

Só sobraram as moças com
calças brancas quase translúcidas
Só sobraram os homens com a
barba mal feita e suas barrigas
Só sobraram as luzes e essa
fumaça famélica do churrasquinho
e eu, tentando ser por inteiro
em meio às trabalhadoras da
noite e os consumidores noturnos

0753. Obviedade XXVI (Respostas postas em poesias)

Que dizer ao se compreender versos?
Quando medida e pesos se fizeram então
Posto que quase sempre anda a alma
Em descompasso com a razão
Posto que quase sempre é a alma
Apenas um momento vão

Que dizer ao se compreender versos?
Dizer melodiosas redundâncias
Para se assegurar essa mesma alma
Em novos versos que ficarão na ânsia
De ser ou ao menos parecer
Possível solução de merecedora importância

Que dizer ao se compreender versos?
Será mesmo que são passíveis de compreensão
Que são até mesmo essas rimas pobres
Também uma outra e possível solução
Que dizem mesmo algo além do simplesmente dito
Essas palavras todas em vão (ou presas num vão)

Por fim, que dizer ao se compreender versos?
Notas, posfácios, teorias ou tratados…
Melhor não, melhor deixar o compreendido
Velado sobre novo poema adornado
De rimas pobres, pieguice e alma
Em prova dum sentimento contemplado