aindará o ar raro a exentranhar
teu peito de raízes aéreas
tu quandoás nalgum tempo
os ácidos frutos que germinarão
dará limões
azias darão
desse teu solo
que merece correção
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
aindará o ar raro a exentranhar
teu peito de raízes aéreas
tu quandoás nalgum tempo
os ácidos frutos que germinarão
dará limões
azias darão
desse teu solo
que merece correção
por mais púrpura
que seja a estrutura
da flor
da flora
da fúria da beleza
o dano é menor
caso não veja
não haja
não seja
contenha as entranhas
cegue
e só flor será
pura e púrpura
sem dor
sem ganho
vou manter
o meu tamanho
amor
não basta
devasta
devagar, como naqueles tempos
em que assistimos aos capítulos finais
– e estávamos lá, vivemos!
ainda percorrem nossas veias esses tempos
como no compasso de tecer rendas de bilro
moldar o barro em roda até cerâmica
devagar, como nos mitos e nas lendas
como no tempo de pórticos e portais
de umbrais
eu te descubro sem pressa,
demorado lençol de longas tardes
eu te descortino vagaroso,
abrindo ao teu consentimento tuas janelas
alicerce para o voo, firmamento
calmo e devagar
como nas cartas de 1700
como passos no passeio público
pique-nique no bosque e vereda de tardinha
uma imensidão de por-do-sol sem fim
até, lentamente, você me descobrir dentro da tua noite
essa que ainda não sei
a neurose é algo nobre, recobre
aquela fúria dela, truta, consorte
mano meu, Sapien, deixa eu dar a letra
debaixo da bombeta fissura forte, treta
h.aço eu acho, sempre, ideia no pente
e no peito, mole, carne nem sente
tudo monstrão nos ao redor, dixavado
mano meu, Sapien, vai vendo
o pisante dá um choque, transtornado
eu sou só a minha beca? sigo sendo?
alma sem corpo no baldio desovado
alma ainda, bagaceira, se encolhendo?
veneno, lupa baixa, eu me entranho, só pala
pelo afora da pele parda, pelos, placas
tinta na esquina do coração com a costela
e essa pira, noia, para além dos bico
que inflama, aqui dentro tudo descamba
mano meu, Sapien, negro drama
paguei de cabuloso, mas pouco sei
como brisa, fritado, sucumbi
irmão, bagulho loco, essa quebra aqui
foi mó função quando trombei
pipoco pra todo lado, quase caí
firmão, segui suave, sagaz, não zoei
é disso inteiro, junto, misturado, demente
mano meu, Sapien, uma pá de parte
cada uma num corre à parte, tipo arte
nem lá nem cá, é dentro em tudo, ente
que se esparrama por todo onde e arde
essas quebras de dentro da gente
I
espreito tua ânsia
de flores e faíscas
teu corpo delicado de
caligrafia precisa
em versos compostos
pelo alumbramento
do orun
avisto tua imobilidade
de portas abertas
para a mudança
II
cá, detrás desse muro
fito pouco a pouco
tua reconstrução
ouso transpor o muro
e meu corpo pedra bruta
constrói-se a própria parede
o máximo do meu toque
é continuar-me em terra
que sustenta teus pés
III
a nada sou indiferente
e minha pena
ser tocado por tudo
é a desatenção plena
e sempre
tropeço em minhas próprias pedras
Que susto!
Ó o sol…
Que só,
no meu pasmo…
Adejar,
pois,
há demais ar.
Ademais,
adentrar.
Um jasmim
jaz em mim.
Onde azagaias
brotam.
Não sei rezar,
sei regar.
Será cada flor, um rogar?
Disparo contra o meu
peito. Amparo encontra
o seu, deixo.
– Vó, o matu tá qui é
todo torto.
– Não, mô fí,
ess’é a’rrumação di Deus.
– M’tendi, tudo zuado.
Guarda esse segredo:
em todo peito
há degredo.
viver?
eu me rendo
é certo que não aprendo
“Eu deveria ser transitório como a sombra sobre o campo.”
(V. Woolf)
Há coisas que explodem
e certas que se espremem.
Todas exprimem
algum tipo de exaspero.
A vida só começa
quando podemos
escolher não
mais tê-la.
Farto
do certo,
hirto
no horto,
surto.
Eu serro meus olhos,
daí sim
vejo.
Não se aproxime muito
– todo cuidado é pouco –,
sou do clã do infortúnio.
Dentro do espectro
do possível,
todo relacionamento
é abusivo.
vai, sê delicada
dedicada
e despedaça
sua auto-afeição
seu amor-próprio
em cuidado
ou medo
dessa graciosa atenção
azaleias despontarão
e a beleza, roteiro cinematográfico,
cairá em desuso
como gadgets obsoletos
e uma fobia abissal
onipresente
onimpotente
cortará o mundo
nos pulsos
mas delicado,
bem delicado,
como um bisturi talhando a pele
para a plástica
e o plástico.
há beleza no mistério
quando há mistério
as partes sagradas cobrem meu corpo
e eu profano cada átomo
nominando-os e criptografando
cá as mortes assomam
concussões nas esquinas, becos, vielas
dezessete corpos desde a virada
em média
há guerras e ganhos
e há o fascínio do divino
tornar sagrado, religar
como se algo não o fosse
e tudo não se conectasse desde sempre
feitio de fibras luminosas traspassando
o que vive, pedra, peixe, pau
cá nos envolvemos com o sangue
encanta e embeleza o açoite
d’antenas aos céus captando
jorrando e como naus, nós,
singrando oceanos de sangue, bêbedos
do barro ao bento
cada ponto de começar
condiz ao sopro que arremeteu o pó das estrelas
por cada ligação sem nome no sem fim
e deu a maravilha da expansão
de se ver desde esse ponto araçá
cá decapitam aos desígnios da beleza
pelos contíguos do poder
de poder, não ter, ter além
explodir tudo, até que só nos sobre
amém.
cansaço, três doses de insônia numa noite de trinta horas
todos os dias
quatro sonhos trancafiados em pensamentos
sonhava ou pensava?
no cômputo da semana já se avistam umas quarenta e cinco
vezes trinta
doses sobre doses sobre doses
no ano encheria garrafas e mais garrafas de pálpebras
fechadas e nenhum dormitar
afinal, vive-se bem no engodo
o único sono factível
parece ser aquele depois de várias doses
dorme-se confuso, seco, encolhido na cama
uma imobilidade de duas horas
gosto de nicotina por todos os poros
nada em si adormece
tudo acordado: expectativas, ânsias, passados
o presente é apenas um estado eternamente desperto
e cansado.
explode as grades da garganta
as celas cranianas
canta
que tua voz é cristalina
de fonte profunda
indefinida
vem do centro
vem da terra
vem do vento
desorientado das manhãs
dos rasgos do solo
da solidão terçã
canta na língua destemida
de quem não se veste
e não dormita
no que vaga
no que erra
no que nada
transpassa o ar
desafia nuvens
com teu cantar
que tudo que alcança
o tecido a seda da tua voz
emaranha
enreda
trama
de se prender
e apreender
o que der
como dá
teu canto
prazer.
a verdade intocável
reside entre dois corpos
silogísticos
que em plenitude descansam
a máxima racionalidade
relacional
– sem humores e hormônios
: quando o querer é certo
indubitável e pleno
dá-se assim o encontro
a tal ponto
que é possível julgamentos
: oh, pobres mortais
que se atrevem a amar
não sabendo que
desse jeito, é errado
tristes foram os versos
que vieram depois,
humanamente amados
entre erros e incertezas
todos invadem
todas evadem
e tudo esvai
no plano do mundo
tento orientar-me
faltam pontos
e há essa rosa cardíaca
que cá inventa cantos:
normar
pólo líquido
voeste lestrada
céu de se pôr trilha nascente
cálida casa
suolar
hemisférios que se acham
inteiramente descobertos
onde esse mundo termina
do que é feito ele
efeito em mim
nos afeta e nos enfeita
quase aflige
mas de par somos feitos
e fora de nós dois
e em par ficamos
emparelhados na cama
enfermos, nos enfiamos
lençóis adentro
enfins afora
e nenhum fim emparelha em par
o certo é que enfileiramos
estatísticas
daqueles que flertam
por fora
com afinco
tuas mãos miúdas
cá, colavam quase
eu segurei
como naquela música
vinda daquele poema
chuva que seja
miudinhas
lindas
chuva fina, passageira
outra vez te perdi
quando esse sol de todo tamanho
assomou
os fluxos não vão todos para si
a terra ainda gira em torno do sol
e o cuidado
é aguar uma roseira pequena
dentro de uma estufa num planeta minúsculo
podar um baobá
mas eu não sou eternamente
sou nada
e quem sabe de algo nessa nebulosa?
a saída
labirinto cabuloso
a escolha
como entramos
mas
comentamos
que sabemos
e sentimos
mentimos
e nos metemos
e remetemos
há fontes
sentidos
e sentimentos
outros alhures
referências bibliográficas Gilberto Braga
Leandro e Leonardo
tudo dado
nebuloso
educado
mão única da história
invisível?
se resigna
e não cobre
qualquer revolução
é fácil querer a mudança do mundo
quando em si só se cabe
mas, se é o mundo que queres
vai lá
se abre
ou bebe leite
eu magma, movediço, viscoso, destruidor
ela brisa, passa, fica, pacifica
entranho-me terra
exaspera-se atmosfera
entre nós
água
solidifica-me
chove-a
e nos agarra as partes, todas
talvez você esteja tão
perto, mas tão perto,
que não haja aperto
no peito, dado o
diagnóstico da distância
mas talvez você bem
do lado, possa ser uma
via láctea, entre nossas
lentes de enxergar o mundo
e aí só uma lerdeza
haja entre nós
talvez nem longe nem
perto, mas tal qual tudo
o que dista e une: para
todo magnetismo
há possibilidade
a cada aprovação, ela
sorri desajeitada
a cada minuto, ela
cai mais na cadeira
a cada bocejo, ela
se assemelha mais à lua
a cada arrumada de cabelo,
nela, meu desmantelo
a cada estacionar-se em si,
dela, é mais minha atenção
a cada suspiro longínquo,
aquela, se torna meu ritmo
a cada tristeza abafada,
por ela, o fim do suplício
pra ela: sou todo sorriso
Estou agora deitado,
de frente à porta do inferno, contam,
porque de enxofre é minha espécie
Meu juízo não dá conta de me por à lume
o que se dá. Porque há esse
tempo parado, estáticos segundos
e eu não sei se estou a ir
ou se ainda imerso no mesmo ermo
Labaredas azuis,
que assim é o inferno,
vem a mim por outros olhos
Não os meus
Olhos de algozes, de anjos,
encantados que esbarrei
e me projetam suas entranhas
tão límpidas, cristalinas
de paraísos mediúnicos, aleias, cometas
com a graça de uma dança
Acho que estou ali deitado ainda
com uma serpente por travesseiro
acho que de vez enquanto, enrolo-a
em meu pescoço, para passar mais calor
O problema é achar tanto, quando nada perdido
Estou encantando nalgum lugar
Ouço ao longe o trote dos anjos
suas asas batem como mariposas
Sempre há quem em mim veja
o condenado do peso demasiado,
que erra preso a uma bola de ferro,
por campos de humores ácidos,
dissolvendo espumas,
mas esse não sou eu
Sou sim, o próprio erro que avassala
Eu não lutei por nada, ninguém, nunca
só sangrei as luas não dominadas de outras bocas
E era só a guerra que contava
só os destroços e os espólios
Fui rio de lava para enredos de outros
e minha idade nem mais sei
Até diria as eras,
se o tempo voltasse a transcorrer
e me atirasse ao mar de magma, princípio, sempre
Sem algozes ou anjos
Saciei todos os pesadelos
esses mesmos que nunca me ocorreram
nos dias em que meu vulcão erupciona
Anos-luz me atravessaram,
falaram-me quem me via
E o espelho era irreflexível, turvo
desfigurava torto
Se cá estiveram,
deitados sob nuvens
querubins, fantasias,
incitaram em mim certos infernos?
Sei que deito:
o odor me alcança,
o calor me trai, mas não disseram
Eu vi o inferno à minha frente,
fui eu que bati na porta, espero abrir
Agora me resta levantar
e casto, árvore, procurar
o precipício do paraíso
por fim, resto-me por companhia
dura, bruta, pouco acolhedora
mas que me firma como raiz de castanheira
extraio dessa companhia
não os frutos
não sementes
mas o sempre,
vívido pulsante do agora
estar presente em si por companhia
me acontece assim
esse estado de coisas
de que céus astrais foi forjada
a complacência opulenta dos castanhais?
se na escuridão da mata, no mergulhar do sol
o que resta são os barulhos de bichos
a perturbar as partes
e o estalar fino de sua própria casca só
me tenho por companhia
e é nesse triste acontecimento
que se sente o soerguer-se
sinto-me galho e folhas
despontando aos céus astrais
sinto-me, bojo, caule, firme
contornando a minha existência
deparo-me com o que é mais segredado,
só a mim árvore:
no emaranhado da terra
entre o podre que permite a vida
sinto minhas raízes rasgando
terras, pedras, rochas, veios
fincando espaço de existência
sugando o néctar do solo
que há de me conduzir seiva
esse estado inanimado
que me humaniza árvore
enquanto solo
comigo só
por companhia
É um time sem reservas
técnico, técnica ou tática
Quando entra em campo
cem juízes e juízas
mais 300 bandeirinhas
dentro de campo,
na arquibancada e
telesperando nossa mancada
pela televisão.
É sempre um descompromisso
nossa escalação
nunca muda o time
pra perder de goleada,
nunca nem uma virada,
rebaixamento é a função.
Nossa linha de defesa
tenta ser bem azeitada:
são cinco só na zaga
Uma muralha intransponível
que só vive vazada.
Dessa barreira torpe
a primeira é Natália
gata nova bem arisca
nem um tanto feminina
curte mano e também mina
e em lágrima e sentimento
se destila.
Na sequência vem o Silas
celibata por opção
tem dez anos que não trepa
sem caretice ou chateação.
Bem do lado tem Tainá
essa curte mesmo é dar
mas de tão tão doada
pela rua é toda zoada
que chega a magoar.
Como quarta da barreira
vem a Bruna bem faceira
ainda mantém um aparato
no calção bem guardado
o avesso do outro lado
teso de não ser mulher.
Fechando essa fronteira
vem o capitão Guelé
que um dia mais sem menos
resolveu ser quem ele é
e amou o mundo inteiro
sem qualquer preocupação
e por ser em demasia
sua marca foi a traição.
Bem atrás dessa barreira
vem a nossa goleira
Chiquinha Caminhoneira
na retranca a vida inteira
resolveu alvissareira
declarar-se sapatão
e depois de por seis anos
ser casada com Tonhão.
Um pouco mais avançado
à direita vem Bernardo,
vulgo Pura Tentação
De longe o mais dotado
físico inabalável
é por si apaixonado
e pra alguns iguais é dado
só por sexo e tesão.
Do outro lado, pela esquerda,
bidestra com certeza
vem Fátima liberada
tão sincera em seu ardor
da entrega ao amor
que em meio a tanta gente,
sempre fica só com a dor.
De volante, quase ao centro
só um tanto à frente deslocado
vem o maestro desse time
Otávio, o otário
Vez por outra sempre apaixonado
perdidamente por aquele
que dura uma semana
e é por ele abandonado
mesmo até trocado por ela
a quem o amor não emana.
Sei que o time é incompleto
há duas vagas e sem reservas,
mas no rol de quem não se adéqua
sempre há espaço pruma tabela
cruzamento ou esbarrada
até chute na canela
e carrinho por trás,
seja ele, ela ou dela
aquilo, aquele ou aquela
na pelada há vagas por demais.
O problema é que a vitória
ou empate nunca rola
especialistas em derrotas
nossa equipe inadequada
perde sempre de goleada.
Uma coisa deixo claro,
nosso time até se estrepa
mas o jogo é cadenciado
todo mundo que experimenta
não quer sair desse lado.
A gente gosta mesmo
é do jogo aberto
tudo às claras
quando em vez nas escuras
mas, nossa inadequação é certo
só não se adéqua por ser rara
é só jogada que perdura
pelas eras, pelos séculos
deixando geral de cara.
meu amor
tem sangue
nos olhos
não escolho
de encarnado me molho
ferro doce líquido colho
o árduo esforço
sanguíneo de erguer
moradas casas
primeiro o alicerce
fundação fundamento
ego concreto escudo
esteio abrigo
o que sobra após
as sombras dos
escombros quando
desabado desmorona
se frágil não sobra
nem sombra só partes
tudo cacos pedaços
perfeitos enquanto em pé
depois as paredes
tijolo a tijolo
por cimento ligados
projeção do conforto
erguidas a duras penas
se o projeto é falho
as paredes enclausuram
tem que haver espaço
para janelas claraboias
portas portais umbrais
o livre ir e vir
de ventos e vidas
de luzes e astros
senão se amofina
se infiltra e casa
alguma se atina
sem um fora que
ao redor se avizinha
uma morada erguida
só a é envolvida
quando alguém a habita
e dá sentido de dentro
contraposta ao circundante
que a conflita
mas há que se cobrir
as paredes com uma
camada protetora
contra tudo que do
céu desaba caído
raio chuva meteorito
uma assustosa trovoada
com telha telhado zinco
palha tá pronto
o básico do abrigo
estruturada a morada
feita com tudo o que
vem de fora para
se proteger do lado
de fora e num dentro
se pertencendo
é por isso que depois
do básico feito para
o abrigo se enfeita
se adorna se arruma
dá brilho as cores
as formas ladrilhos
aquilo que encanta
mosaicos vidros
o que é feito para
se gostar um patuá
um feitiço o superficial
sensorial meramente
contemplativo no fim
na morada habitação
de fora protegida
por dentro construída
descansar justa medida
até uma reforma qualquer
medita só
olha o
sol que lhe dão
vim dizer vozes que se fazem
vim dizer ventos que se arrastam
vim dizer veios d’água pelas veias
vim dizer vórtices que embaralham
vim dizer velas abertas e acesas
vim dizer vazios que se preenchem
vim dizer você que não cala
há quem eu acompanhe
obra posta
tudo já aglutinado
livro e coletânea
no seu caso
o acaso me deu você
verso a verso
Às vezes é puro binário
combinações aleatórias ou programadas
algoritmo insensível ou molécula – varia
me conduz mares ou montanhas,
os condutos dos prazeres.
Mas sendo binário é nunca
impossível
e se agrupa ao meu toque, avança territórios
descortina mundos
falsamente.
Tanto faz se tecla ou toque
sendo binário é nunca a verdade.
E às vezes é denso magma
de derivas erupções ou ilhas
encarnado e negro de massas, teatro
não bem interpretado
catastrófico
Mas sendo magma é rocha
indestrutível, mutável
ao longo de eras, quânticas agora, sub-atômicas.
E sendo magma é raro
morre
câmbio incessante, sendo magma
logo se infunde e
arrasta pelos ares, magma, em ondas
se transmuta em códigos
binários.
se deixar
como se estivesse
na banguela
deixar o corpo fluir
como carrinho de rolimã
numa manhã de terça-feira
de um julho qualquer
numa ladeira toda
deixar correr o corpo
corar a alma
desabotoa as vestes
desabrocha
se deixa
dá
a gente vive um jogo
efêmero de captar obviedades
e reerguer discursos
do meio de escombros
mas cada nova palavra
gera um rombo
entre o turvo
espaço curvo
de nossas bocas
táteis
é tanto urro em meio a murmúrio
saltando do óbvio ao absurdo
que nossas bocas bipolares
nem sabem
que se atraem
opostas
não frita
nem atrita,
não é paradoxo
é encontro e desoprime
e brilha:
a liberdade é segura
e a segurança é livre
mudo, como o vento
de pressão em pressão
e minha cabeça
ao relento
mudo, como o vento
a poeira – palavras –
pouco pousam
percorrendo
mudo, como o vento
nuvens nublam
descortinam sol;
céu cinzento
mudo, como o vento
nada diz o vagar,
mas sim o silêncio,
me sendo.
carrego uma dor comigo
que eu não sei de onde brota
mas carrego
há muito que carrego
ela me rega
e depois jorra