3550. Valsa para um

INTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)

Amanhece lá fora. Da escuridão das janelas cerradas, acho que chove. Há um fino murmúrio de gotas insones desde há muito. Sento-me na cama burocrático, o celular ainda não despertou. Olho o celular, faltam três minutos para o despertador tocar. Sempre assim, perco os três últimos minutos do sono, sentado na cama, esperando que ele desperte. Se ficasse na cama, não dormiria mesmo, continuaria aquela insana perspectiva de saber que o sono já tem de ir e ainda estar um tanto imerso nele. Prefiro a dor de contemplar os três minutos, sentado na cama, olhando o celular, esperando cada minuto ir e, finalmente, me levantar. Esses três minutos demoram bastante, já pensei em meditar nesses três minutos, esvaziar a cabeça, deixar que a inflamação pousada no meu cérebro se contente em ir embora com o lavar da mente. Nunca consegui. Mundos e mundos se emaranham em minha mente, mesmo de manhã cedo. O celular toca, desligo o despertador. Levanto-me. Na cozinha já é dia, olhos todos aqueles objetos e tento imaginar o que devo fazer. Comer algo é a melhor solução, sempre. Tomar o remédio pra pressão, tomar o multivitamínico, tomar o ômega 3. Com goles de água gelada direto da garrafa. O que comer? As bananas estão passando, a última maçã, podre. Jogo fora. Dentro da geladeira tem um resto de mamão picado desde há muito. Faço uma vitamina com o que ainda deu para aproveitar de duas bananas passadas. Faço uma xícara de café. Bebo devagar, o amargo e quente me entranha. Uma letargia suplicante me atinge, preciso tomar banho. Procrastino no celular, leio quatro horóscopos, em diagonal, passo o olho nas notícias. Abro e-mail, apago cinco, tudo spam. Abro dois. Notícias. Abro mais um, horóscopo personalizado. Olho o banheiro. Vou pra fora e fumo um cigarro. Procrastino mais um tanto no Twitter, revoltas, ataques, ciberataques, altas, baixas, ódios, músicas, poesias, tudo em transversal. Tenho uma ideia brilhante para 144 caracteres. Escrevo. Leio-a cinco vezes. Fecho o aplicativo sem enviar o tuíte. De que vale uma brilhante constatação acerca da vida? Ninguém vai ler. Alguém vai ler. Cinco pessoas lerão. Eu lerei cinco vezes depois de publicado. Volto pra cozinha, olho o banheiro. Se ainda tivesse Facebook seria mais meia hora de procrastinação. Tomo banho finalmente. O ato é mecânico, rápido. Nem sinto meu corpo. Nem sinto a água escorrer pelo meu corpo. Nem sinto o sabonete deslizar pela minha pele. Não sinto os dedos junto ao xampu massageando a cabeça e a barba. Não sinto o sabonete de enxofre no rosto. Não sinto o frio que se instala quando desligo o chuveiro. Não sinto a toalha que precisa ser trocada secando o meu corpo. Não sinto meu corpo nu diante da pia. Não vejo meu corpo nu. Não sinto o hidratante em minha pele. Não sinto o desodorante em minhas axilas. Não sinto a escova e a pasta em meus dentes. Não sinto o perfume que passo. Não sinto as roupas que me cobrem. Não sinto o ritual que se segue: pasta, espelho, olhar turvo, oblíquo, insensível, chave, porta, portão, rua. Não sinto.

EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)

Entre a casa e a parada de ônibus, poucos metros, poucos passos. Meu corpo pouco, insensível, passa pelas ruas como se não as houvessem. A chuva já não há. Só as calçadas molhadas, as poças no asfalto, a urgência de quem esperou que ela cessasse. O horizonte é chumbo e denso, ainda há de vir outra chuva. Ainda há de desabar aos cântaros tudo sobre nós. O céu ainda há de se estatelar líquido sobre nossas cabeças. O firmamento ainda há de derreter bases, desmoronar rios, enfeitar lagos em nossas cabeças, infiltrar mares em nosso peitos. Como em todo fim de ano. A parada é só um ponto. Nela estou eu. Um ponto. Um ponto. Um ponto. .

ÔNIBUS – DIA (INTERIOR – NOITE)

A estrada é longa, sucessão de paisagens que não param. O espaço não para. No fundo, depois de espasmos corporais para não espremer ninguém, não roçar em nada, não existir para além do incômodo de percorrer todo o corredor, bem lá no fundo, sempre há vaga. Um vaga. Nela eu me instalo. Planeta solitário em meio àquelas tantas constelações. Cada uma delas, interna, em seus gadgets. Galáxias explodirão em algum momento. A paisagem é lenta. Um carro por minuto. Uma vastidão de solidões protegidas em metal e vidro. Ninguém se importa com isso. Nem eu. EU me importo com o sêmen gasto, os óvulos ocupados, nove meses de trabalho para isto. Proteínas perdidas num mar sem fim de auto-criações, cada uma mais grotesca que a outra. Eu devo parecer um demônio. Alma. Ninguém me vê. Eu não me vejo. O livro derrama enredos, histórias, pesquisa, dedicação, eu me enredo nas imagens, sem paciência, só paciência. Meio carro por minuto. Depois do gargalo tudo flui. E a manhã continua. A luz que sai de dentro das nuvens é qualquer coisa para lá de luz, é como se a matéria da luz pudesse tomar a forma de todas as cores e todas as árvores refletissem essa matéria, reflexo da perfeição, momento da imperfeição do caos. As árvores são as coisas mais lindas que existem. Uma epifania. A luz da manhã é uma das coisas mais lindas que existem. Outra epifania. Juntas, sou só enternecimento. É como se eu derretesse e me espalhasse em tudo. Ainda vale. Algo ainda vale. Elas ainda valem. Eu só preciso delas.

EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)

A massa de constelações turbilhona. O caos se antecipa, se antevê. Logo mais tudo arderá. Agora, só um balé apressado. Nascimento de galáxias. Minha mente. Caminho, pelo caminho, apenas os vazios arquitetados, as pistas, imensas aos lados. O concreto armado. Minha mente, solta. Mundos e mais mundos. Nada me centra. Tudo me tenta, me atenta. Flashes o caminho. Flashes. Ruídos. Céu aberto. Peito incerto. Tudo dentro de mim.

INTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)

Sento-me em frente ao computador. Em. Frente. Ao. Computador. Enfrente. Eu, enfeite. As horas desmoronam me erodindo. Às vezes vozes vem. Imagens vem. Cliques. Pedaços delas lá fora. Algo vale. Elas valem. Vivo para que elas valham. Sentado. As horas inundam meus olhos. Um mar de luz branca me invade, luz fria, ela não vale. O que me invade? Nada me invade. Covarde. Horas, horas e mais horas e mais nada. Parece que acabou. Por hoje. Amanhã é terça.

EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)

No fim do ano, o dia nunca acaba.

ÔNIBUS – DIA (INTERIOR – NOITE)

A mortalha negra do céu parece querer cobrir aos poucos a terra. Daqui a pouco, só luzes e flashes, e paisagens limítrofes. Mas ainda é dia. Encosto a cabeça na janela. Parece que durmo. Acordo ainda dia. Duas à frente, a minha parada. Enfrente.

EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)

Quando a noite há de chegar mesmo? A vida no subúrbio tem momentos muito específicos de acontecer. Esse é um deles. É quando a vida vaze. E ela vaza, por todos os lados. Abro o portão. Anoitece.

INTERIOR – NOITE (INTERIOR – NOITE)

Os rituais se restabelecem. Menos roupa. Menos ânimo. Menos fome. Menos líquidos. Como torradas secas, sem nada de acompanhamento. Bebo água, várias vezes, direto da garrafa. Procrastino no celular um pouco. Estraçalho o celular no chão. É assim, todas as noites. Fico sentado na cozinha algum tempo ainda. Olho lá fora. Fumo um cigarro aqui dentro. Bebo mais água. Molho as plantas. Meus olhos me molham. Fumo um cigarro pelos olhos, para me secar. Molho os gatos. Dou comida para os animais. Fumo os molhos. Algo vale. O que mesmo? O peito parece ser número 55 vestindo 38. Um demônio que ninguém vê. Alma penada apertada. Passeio com o cachorro, cheira todas as árvores, caga duas vezes, mija em todas as árvores, se alvoroça com qualquer animal. 15 minutos de duração, duas quadras à frente. A gente volta. Eu passo minhas roupas para o dia seguinte. O que valia mesmo? Bebo muita água, desabo mais, olhos afora, peito adentro. Me adentro. Fumo um cigarro pela cabeça, minha cabeça toda fuma um cigarro. Lá fora, no chão molhado, fumo, passo ali o tempo fumando. Quebro outro celular. Todas as luzes da casa apagadas. Eu não me vejo. Não me sinto. Deito no chão do quintal molhado, por instantes, eu sinto o chão molhado tocar minha pele. Alguns segundos, frio. Molhado. Meus olhos se conectam com o chão, como se tudo fosse uma única e mesma matéria. Um fluxo constante. Alimento o chão molhado horas à fio. Mundos em minha cabeça expelidos olhos afora. Me enrolo no chão Me molho todo. Algo vale. Algo vale. Me levanto tonto. Fumo mais um cigarro. Bebo mais água. Me seco. A cama parece ser o lugar mais aprazível. Deito no escuro. Frio. Mergulho no escuro, não sei se estou de olhos abertos ou fechados. Não sei se sonho ou se penso. É tudo uma continuação só. Minha cabeça não para. Abro os olhos e vejo os sonhos. Fecho os olhos e me afogo, real. Noite adentro. Dentro de mim. Talvez eu já sonhe. Talvez. Talvez. Sento na cama. Olho o celular, todo estilhaçado. Duas ampulhetas quebradas jogam areia em meus olhos. A lama é escura. A noite é escura. Eu estou no escuro. Dentro de mim. Lá fora chove. Eu escuto o silêncio dela. É um murmúrio quente. Abafado. Bem no centro da cabeça. Deito de novo. Acho que durmo. Não há música alguma, não há qualquer movimento. É só, quando danço.

INTERIOR – INTERIOR (NO INTERIOR)

3548. marcha

cada história ali posta
andante, em marcha
cabeça punho erguidos
conta o absurdo mais inglório
de um momento histórico que não cessa

cada corpo ali composto
construído
milhares de partículas de diásporas
desafia a cultura engessada
asco e aspecto da perversão humana

cada sangue ali corrente
atravessadas léguas de mares
em correntes
transmutado pela e para a violência
expõe a permanência da barbárie
macha e branca

cada uma ali presente
é o presente de outras
caladas, invisibilizadas
assassinadas, violadas
e é o seu avesso
a luta e a reversão
é a voz e a vez
o horizonte e o agora
o que há de ser
e será

cada ela ali aguerrida
é ela e tantas mais
coletivas, próprias
delas e para elas
em lutas que deveriam ser de todos nós

Sem título

3547. intento

antes que as paisagens
se coloquem no outro
lado da lua
que os mares soterrem
a visão e que desacreditemos
nas formas das nuvens
há ao menos o ameno do amor
para que praias em nuvens
avancem sobre nós
e ao molharem nossos tecidos
nos coloquem antes
bem antes
do ermo findo das paisagens

3545. treta

o problema não é a nossa massa grossa
é essa casca fina que a cobre
alcochoada por esse emaranhado inútil
de pelos e testosterona
e ser historicamente dotados de tônus e músculos
e essa aderência com nada mais que a violência

o problema é construir-se homem
em meio a essa massa podre
cinzenta de dejeto, desejo e desterro

o problema é que não é fácil desconstruir-se
homem

3543. e nem fazem questão de se esconder

a piada é propaganda
graça-desgraça
dada de graça
enredo para a dominação
projeto político
a piada é a arma ideológica
os fins são os seus meios e começos
e o começo é esse carne e poder

por detrás da piada
querem o sangue
de seus brinquedos sexuais
e fetos preservados para o próximo abuso
baba e líquidos e mentes entupidas de pornografia
testosterona e mma
cheiram porra podre
por debaixo do milimetrismo de topete barba e perfume

querem brinquedos para tudo
e não estão brincando
tão violando violentando vis
vigiando gravando dentro de vagões
tomando corpos à força
querendo a próxima forca

eles se esparramam por todos os lados
viscosos como suas porras
em rede e em toda esquina
assoviam e constrangem
papam hóstia e são pais policiais
berram bíblias quando lembram
batem em bichas por poder
matam

eles estão em todos os cantos
não são piada
urram merda em todo canto
e tem quem faça coro

só não core quando o couro lhe tingir de ferro o lombo
não ria deles
faça como o sol fará
antecipando o golpe
degole a piada ao menor sinal de qualquer pio
deles:

sem garganta não há piada

3542. geracional

o amor só existe em superfícies planas.
no amassado da realidade não.
o que existe é coito, cópula;
um bando de enredo para novelas,
a educação que disse que era assim
até ficarem assados, assadas
e o vão da morte presente para sempre:

mamífera insistência de que somos bichos,
apenas.

mas o amor fica bem mesmo em superfícies planas,
cartesiano, metódico, hiper-real.
no 3-D da realidade não.
o que existe é exploração, abuso;
fórceps passional retirando goelas afora
diálogo possível em fotos minúsculas de monóculos envelhecidos
como no tempo de antepassados, antepassadas
e a prisão da vida por correntes de todos os calibres:

míticas evas, místicas heras, dominadas como bichos,
natureza.

definitivamente, o amor fica bem mesmo é em superfícies planas,
lisas, reflexas, linhas, luzes, lentes, telas, páginas, telas, formas
recipientes das projeções sublimes dos projetos de dominação.
no mágico da realidade não.
o que existe é carne, disfarce;
controle das pulsações alheias, rancoroso e garboso
encenação que domina todos os impulsos cerebrais, alma, tez os que tais e totais
feito o que se diz que livra algozes; expiação
e a via única para se culminar no pico do bem-estar consigo:

controlar corpos, vontades, desejos, estampar exemplo, puros, castos, virgo-sexuais.
alarido ecoante, desde o passado, avante.

3540.

há a tristeza de magda
ela parece que é de corpo
há a tristeza de heloisa
ela é de descompasso
há a tristeza de carlos
ela se dá com o tamanho
há a tristeza de aurora
ela pode ser de descoberta
há a tristeza de regina
ela se parece de cansaço
há a tristeza de paulo
ela é de desenredo
há a tristeza de sofia
ela vem de deus
há a tristeza de rosa
ela se dá pelo ávido
há a tristeza de heitor
ela ocorre por método
há a tristeza de silas
ela desaba pelos poros, magnética
há a tristeza de iara
ela é oriunda de mágoa
há a tristeza de cecília
ela vem de excesso de doçura
há a tristeza de cleiton
ela é de raiva do mundo

há a tristeza
ela é da gente
de tudo

3539. passagem de Xangô

concreto me desfaço em mínimos escombros
as eras se reconduzem embaralhadas
sou tudo o que pesa pelo frágil do corpo –
sou rocha –
desde sempre
magma tecido, os nós de minha pele
estrelas mortas meus pensamentos
um enredo passado
acertado hoje
estalo nos céus do universo, feito em fogo
aqui se faz, eu sou a paga

dois gumes minha cabeça

3534.

caixa fechada de mármore
alvos entalhes num encarnado
quase arabescos desdelineados
parte caixa e parte alçapão

abri a tampa lá dentro meu olho
me olhou desde o infinito
meu olho agressivo equino
interminável e assustador me
olhou profundo eu me olhando

tapei a caixa légua e meia
a mão encaixando a tampa
meu olho inundado lá dentro
a caixa de mármore lacrada
o olho gritava ainda olho
não abri vivo cego então

3528. sobre escombros e sob eles

cantos sagravam todo o plantio
e sacralizavam toda colheita
naquele pedaço de terra
cercado de vida por todos os lados

nas noites eclipsais
abismávamos nos abismos celestiais
vestidas de lua vermelha e breu
e tínhamos aquele tom
mais próximo do crepúsculo

plantávamos na terra doente
buscando sua cura, corpura,
regando com a água
colhida diretamente dos cachos
de frutas gasosas, sumo e néctar
incolor

cada casa morava uma deusa
um deus, dois adeus, ateus
em cada casa de barro
moldávamos cabeças
preenchíamos cabaças
e com um batuque cadenciado
fazia-se a luz, mais um anjo
amontoava-se o espaço
entre céu e terra
renunciávamos o pecado
e vivíamos de nossas naturezas
ofídicos

as conversas junto ao pé de pau
ali perto das cabras pastando
iam de lá pra cá, submersas
nos cem mil tons do ocaso

éramos poucas, o tanto
suficientes em si
e à porção ocupada
muitos para a festa

nos amávamos como amantes
aos primeiros dias e todos os dias
entre o trato e o trabalho
e o pulsar das rotações

abríamos nosso corpos
nos descorporificávamos
antes do sono restaurador
onde líamos cartas,
borras, bolas, astros, mãos
e o que se via
viria

3522. altas noites

alta noite
tateei teu hálito
era uma textura quente
atravessando o medo
me encaixei em tua concha
dorso encostando teu ventre
cada respiração tua
em meus ouvidos
desenhava a sinuosidade
das tuas curvas
no meu horizonte rochoso
dentro do meu sonho
te espalhei por cada
rio e folha que percorria
acordei árvore te despertando corredeiras
teu hálito insuflava calor
em minha boca

3520. Teoria Geral da Liberdade

“Quero morrer num dia breve
Quero morrer num dia azul
Quero morrer na América do Sul”

Reconhecer a matéria humana:
corpos agrestes
agregados de inércia
histórica
viva
aparte
– que cabe no
latifúndio divino –
um ego solto no breu
um soco, baque
corda que tremeu
entre o animal e o além

Reconhece

Toda matéria, humana,
ama, emana e atrai
trai, repele,
tem coisa de pele
relativa e subatômica

Sente as grades
grossas
nela se agregam
como as formas dos cristais,
conglomerados de padrões

E o humano não tem forma,
se conforma
transforma
transtorna
toda sua extensão
nasceu para se compor
por entre os vãos
do que não contém:
a matéria, feita de fibras
luminosas,
são escolhas

Poder ter escolhas,
caminhos,
o que dá forma à liberdade

3514. alberto costa santos

pegava o esplanada todo dia
com cartão integração
calor, seca, confusão
um dia entrou cismando
questionou-se que logo
no outro dia, teria que voltar
morava longe dali
o filhos moravam com ele, longe
tinha saúde, a morte, longe
a esposa na cama, longe
a salvação do pastor, longe
tudo longe
decidiu ficar ali mesmo no ônibus
voltas infinitas entre a esplanada e a rodoviária
nunca mais saiu
reza a lenda que alberto costa santos
virou um memorando
endereçado a si mesmo
e nunca dado como recebido no sistema

3512. paisagem

aqui terra escarlate
aveluda o horizonte
falta ar mesmo só
ele existindo em
forma de abóbada
cópula planetária
com o vasto envolvente

aqui tudo é plano
falta a sinuosidade
das pedras e das areias
mas aqui, pelo menos,
de tão aberto e exposto
nada se fecha
tudo está escancarado

: moramos no azul
sem asas adentramos
em tocos fumegantes
para melhor acessá-lo
a fumaça é o que
nos conduz e conecta

– fazemos sinais com ela
para que nos saibam
em outras paragens

3510. lambe-lambe e cia.

me cola na parede
e passa a língua
intervém em mim
ao largo de toda cidade
me ocupa de sentidos
onde o vago
invade

me grafita
me leva na tua fita
me colore, me decore
hard-core
e hip-hop

que te abro
toda a extensão
das minhas esquinas
e toda tela livre
das minhas paredes

minha rua
nua
para a introdução
da tua arte
de amor
ou de combate

a delicadeza
das tuas linhas
no emaranhado dos meus pelos

meu apelo
é pra que dê função sexual
à minha propriedade de pele
pega logo as tuas formas
e em mim adere

3509.

pelo celular, no metrô,
às vistas de outrem bem guardado,
a moça vislumbrava um lindo caralho
sorria, disfarçava, quando em vez olhava de soslaio
era um misto de vergonha e letargia ao contrário
um entumecimento logo abaixo
lhe deixava ensimesmada, não queria apenas
mas um pouco mais ao centro,
entre as pernas desabado
restava aquele úmido e quente estado molhado
e por um segundo se atreveu ao imenso de um disparo:
era dela, só dela, naquela tela, no metrô, aquele belo caralho.