flâmulas boiantes
no mar verd’oiro
das manhãs
Categoria: Poesia
3554.
concordo avesso
com o poetinha:
é sim, fundamental
está em todas, todos
é alicerce de tudo
tal e qual
3553.
a luz do fim
galhos pousada
folhas fotossintetizadas
brilha amanhecendo
deixa a epígrafe
assim
se des
sendo
3552.
até parece que
nesse amontoado de aço
ferro, vidro e borracha
há paz,
palha.
3551. redundância
L I V R (Á) M O R
3550. Valsa para um
INTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)
Amanhece lá fora. Da escuridão das janelas cerradas, acho que chove. Há um fino murmúrio de gotas insones desde há muito. Sento-me na cama burocrático, o celular ainda não despertou. Olho o celular, faltam três minutos para o despertador tocar. Sempre assim, perco os três últimos minutos do sono, sentado na cama, esperando que ele desperte. Se ficasse na cama, não dormiria mesmo, continuaria aquela insana perspectiva de saber que o sono já tem de ir e ainda estar um tanto imerso nele. Prefiro a dor de contemplar os três minutos, sentado na cama, olhando o celular, esperando cada minuto ir e, finalmente, me levantar. Esses três minutos demoram bastante, já pensei em meditar nesses três minutos, esvaziar a cabeça, deixar que a inflamação pousada no meu cérebro se contente em ir embora com o lavar da mente. Nunca consegui. Mundos e mundos se emaranham em minha mente, mesmo de manhã cedo. O celular toca, desligo o despertador. Levanto-me. Na cozinha já é dia, olhos todos aqueles objetos e tento imaginar o que devo fazer. Comer algo é a melhor solução, sempre. Tomar o remédio pra pressão, tomar o multivitamínico, tomar o ômega 3. Com goles de água gelada direto da garrafa. O que comer? As bananas estão passando, a última maçã, podre. Jogo fora. Dentro da geladeira tem um resto de mamão picado desde há muito. Faço uma vitamina com o que ainda deu para aproveitar de duas bananas passadas. Faço uma xícara de café. Bebo devagar, o amargo e quente me entranha. Uma letargia suplicante me atinge, preciso tomar banho. Procrastino no celular, leio quatro horóscopos, em diagonal, passo o olho nas notícias. Abro e-mail, apago cinco, tudo spam. Abro dois. Notícias. Abro mais um, horóscopo personalizado. Olho o banheiro. Vou pra fora e fumo um cigarro. Procrastino mais um tanto no Twitter, revoltas, ataques, ciberataques, altas, baixas, ódios, músicas, poesias, tudo em transversal. Tenho uma ideia brilhante para 144 caracteres. Escrevo. Leio-a cinco vezes. Fecho o aplicativo sem enviar o tuíte. De que vale uma brilhante constatação acerca da vida? Ninguém vai ler. Alguém vai ler. Cinco pessoas lerão. Eu lerei cinco vezes depois de publicado. Volto pra cozinha, olho o banheiro. Se ainda tivesse Facebook seria mais meia hora de procrastinação. Tomo banho finalmente. O ato é mecânico, rápido. Nem sinto meu corpo. Nem sinto a água escorrer pelo meu corpo. Nem sinto o sabonete deslizar pela minha pele. Não sinto os dedos junto ao xampu massageando a cabeça e a barba. Não sinto o sabonete de enxofre no rosto. Não sinto o frio que se instala quando desligo o chuveiro. Não sinto a toalha que precisa ser trocada secando o meu corpo. Não sinto meu corpo nu diante da pia. Não vejo meu corpo nu. Não sinto o hidratante em minha pele. Não sinto o desodorante em minhas axilas. Não sinto a escova e a pasta em meus dentes. Não sinto o perfume que passo. Não sinto as roupas que me cobrem. Não sinto o ritual que se segue: pasta, espelho, olhar turvo, oblíquo, insensível, chave, porta, portão, rua. Não sinto.
EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)
Entre a casa e a parada de ônibus, poucos metros, poucos passos. Meu corpo pouco, insensível, passa pelas ruas como se não as houvessem. A chuva já não há. Só as calçadas molhadas, as poças no asfalto, a urgência de quem esperou que ela cessasse. O horizonte é chumbo e denso, ainda há de vir outra chuva. Ainda há de desabar aos cântaros tudo sobre nós. O céu ainda há de se estatelar líquido sobre nossas cabeças. O firmamento ainda há de derreter bases, desmoronar rios, enfeitar lagos em nossas cabeças, infiltrar mares em nosso peitos. Como em todo fim de ano. A parada é só um ponto. Nela estou eu. Um ponto. Um ponto. Um ponto. .
ÔNIBUS – DIA (INTERIOR – NOITE)
A estrada é longa, sucessão de paisagens que não param. O espaço não para. No fundo, depois de espasmos corporais para não espremer ninguém, não roçar em nada, não existir para além do incômodo de percorrer todo o corredor, bem lá no fundo, sempre há vaga. Um vaga. Nela eu me instalo. Planeta solitário em meio àquelas tantas constelações. Cada uma delas, interna, em seus gadgets. Galáxias explodirão em algum momento. A paisagem é lenta. Um carro por minuto. Uma vastidão de solidões protegidas em metal e vidro. Ninguém se importa com isso. Nem eu. EU me importo com o sêmen gasto, os óvulos ocupados, nove meses de trabalho para isto. Proteínas perdidas num mar sem fim de auto-criações, cada uma mais grotesca que a outra. Eu devo parecer um demônio. Alma. Ninguém me vê. Eu não me vejo. O livro derrama enredos, histórias, pesquisa, dedicação, eu me enredo nas imagens, sem paciência, só paciência. Meio carro por minuto. Depois do gargalo tudo flui. E a manhã continua. A luz que sai de dentro das nuvens é qualquer coisa para lá de luz, é como se a matéria da luz pudesse tomar a forma de todas as cores e todas as árvores refletissem essa matéria, reflexo da perfeição, momento da imperfeição do caos. As árvores são as coisas mais lindas que existem. Uma epifania. A luz da manhã é uma das coisas mais lindas que existem. Outra epifania. Juntas, sou só enternecimento. É como se eu derretesse e me espalhasse em tudo. Ainda vale. Algo ainda vale. Elas ainda valem. Eu só preciso delas.
EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)
A massa de constelações turbilhona. O caos se antecipa, se antevê. Logo mais tudo arderá. Agora, só um balé apressado. Nascimento de galáxias. Minha mente. Caminho, pelo caminho, apenas os vazios arquitetados, as pistas, imensas aos lados. O concreto armado. Minha mente, solta. Mundos e mais mundos. Nada me centra. Tudo me tenta, me atenta. Flashes o caminho. Flashes. Ruídos. Céu aberto. Peito incerto. Tudo dentro de mim.
INTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)
Sento-me em frente ao computador. Em. Frente. Ao. Computador. Enfrente. Eu, enfeite. As horas desmoronam me erodindo. Às vezes vozes vem. Imagens vem. Cliques. Pedaços delas lá fora. Algo vale. Elas valem. Vivo para que elas valham. Sentado. As horas inundam meus olhos. Um mar de luz branca me invade, luz fria, ela não vale. O que me invade? Nada me invade. Covarde. Horas, horas e mais horas e mais nada. Parece que acabou. Por hoje. Amanhã é terça.
EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)
No fim do ano, o dia nunca acaba.
ÔNIBUS – DIA (INTERIOR – NOITE)
A mortalha negra do céu parece querer cobrir aos poucos a terra. Daqui a pouco, só luzes e flashes, e paisagens limítrofes. Mas ainda é dia. Encosto a cabeça na janela. Parece que durmo. Acordo ainda dia. Duas à frente, a minha parada. Enfrente.
EXTERIOR – DIA (INTERIOR – NOITE)
Quando a noite há de chegar mesmo? A vida no subúrbio tem momentos muito específicos de acontecer. Esse é um deles. É quando a vida vaze. E ela vaza, por todos os lados. Abro o portão. Anoitece.
INTERIOR – NOITE (INTERIOR – NOITE)
Os rituais se restabelecem. Menos roupa. Menos ânimo. Menos fome. Menos líquidos. Como torradas secas, sem nada de acompanhamento. Bebo água, várias vezes, direto da garrafa. Procrastino no celular um pouco. Estraçalho o celular no chão. É assim, todas as noites. Fico sentado na cozinha algum tempo ainda. Olho lá fora. Fumo um cigarro aqui dentro. Bebo mais água. Molho as plantas. Meus olhos me molham. Fumo um cigarro pelos olhos, para me secar. Molho os gatos. Dou comida para os animais. Fumo os molhos. Algo vale. O que mesmo? O peito parece ser número 55 vestindo 38. Um demônio que ninguém vê. Alma penada apertada. Passeio com o cachorro, cheira todas as árvores, caga duas vezes, mija em todas as árvores, se alvoroça com qualquer animal. 15 minutos de duração, duas quadras à frente. A gente volta. Eu passo minhas roupas para o dia seguinte. O que valia mesmo? Bebo muita água, desabo mais, olhos afora, peito adentro. Me adentro. Fumo um cigarro pela cabeça, minha cabeça toda fuma um cigarro. Lá fora, no chão molhado, fumo, passo ali o tempo fumando. Quebro outro celular. Todas as luzes da casa apagadas. Eu não me vejo. Não me sinto. Deito no chão do quintal molhado, por instantes, eu sinto o chão molhado tocar minha pele. Alguns segundos, frio. Molhado. Meus olhos se conectam com o chão, como se tudo fosse uma única e mesma matéria. Um fluxo constante. Alimento o chão molhado horas à fio. Mundos em minha cabeça expelidos olhos afora. Me enrolo no chão Me molho todo. Algo vale. Algo vale. Me levanto tonto. Fumo mais um cigarro. Bebo mais água. Me seco. A cama parece ser o lugar mais aprazível. Deito no escuro. Frio. Mergulho no escuro, não sei se estou de olhos abertos ou fechados. Não sei se sonho ou se penso. É tudo uma continuação só. Minha cabeça não para. Abro os olhos e vejo os sonhos. Fecho os olhos e me afogo, real. Noite adentro. Dentro de mim. Talvez eu já sonhe. Talvez. Talvez. Sento na cama. Olho o celular, todo estilhaçado. Duas ampulhetas quebradas jogam areia em meus olhos. A lama é escura. A noite é escura. Eu estou no escuro. Dentro de mim. Lá fora chove. Eu escuto o silêncio dela. É um murmúrio quente. Abafado. Bem no centro da cabeça. Deito de novo. Acho que durmo. Não há música alguma, não há qualquer movimento. É só, quando danço.
INTERIOR – INTERIOR (NO INTERIOR)
3549.
se diante da matéria
eu já desimportava
quase inexistindo,
o que restará,
diante do divino?
3548. marcha
cada história ali posta
andante, em marcha
cabeça punho erguidos
conta o absurdo mais inglório
de um momento histórico que não cessa
cada corpo ali composto
construído
milhares de partículas de diásporas
desafia a cultura engessada
asco e aspecto da perversão humana
cada sangue ali corrente
atravessadas léguas de mares
em correntes
transmutado pela e para a violência
expõe a permanência da barbárie
macha e branca
cada uma ali presente
é o presente de outras
caladas, invisibilizadas
assassinadas, violadas
e é o seu avesso
a luta e a reversão
é a voz e a vez
o horizonte e o agora
o que há de ser
e será
cada ela ali aguerrida
é ela e tantas mais
coletivas, próprias
delas e para elas
em lutas que deveriam ser de todos nós

3547. intento
antes que as paisagens
se coloquem no outro
lado da lua
que os mares soterrem
a visão e que desacreditemos
nas formas das nuvens
há ao menos o ameno do amor
para que praias em nuvens
avancem sobre nós
e ao molharem nossos tecidos
nos coloquem antes
bem antes
do ermo findo das paisagens
3546.
oco
nada atinge
nem soco
por fora tinge
por dentro
nem corpo
nem coco
tão oco
que nem ar há
para o eco
só oco
3545. treta
o problema não é a nossa massa grossa
é essa casca fina que a cobre
alcochoada por esse emaranhado inútil
de pelos e testosterona
e ser historicamente dotados de tônus e músculos
e essa aderência com nada mais que a violência
o problema é construir-se homem
em meio a essa massa podre
cinzenta de dejeto, desejo e desterro
o problema é que não é fácil desconstruir-se
homem
3543. e nem fazem questão de se esconder
a piada é propaganda
graça-desgraça
dada de graça
enredo para a dominação
projeto político
a piada é a arma ideológica
os fins são os seus meios e começos
e o começo é esse carne e poder
por detrás da piada
querem o sangue
de seus brinquedos sexuais
e fetos preservados para o próximo abuso
baba e líquidos e mentes entupidas de pornografia
testosterona e mma
cheiram porra podre
por debaixo do milimetrismo de topete barba e perfume
querem brinquedos para tudo
e não estão brincando
tão violando violentando vis
vigiando gravando dentro de vagões
tomando corpos à força
querendo a próxima forca
eles se esparramam por todos os lados
viscosos como suas porras
em rede e em toda esquina
assoviam e constrangem
papam hóstia e são pais policiais
berram bíblias quando lembram
batem em bichas por poder
matam
eles estão em todos os cantos
não são piada
urram merda em todo canto
e tem quem faça coro
só não core quando o couro lhe tingir de ferro o lombo
não ria deles
faça como o sol fará
antecipando o golpe
degole a piada ao menor sinal de qualquer pio
deles:
sem garganta não há piada
3542. geracional
o amor só existe em superfícies planas.
no amassado da realidade não.
o que existe é coito, cópula;
um bando de enredo para novelas,
a educação que disse que era assim
até ficarem assados, assadas
e o vão da morte presente para sempre:
mamífera insistência de que somos bichos,
apenas.
mas o amor fica bem mesmo em superfícies planas,
cartesiano, metódico, hiper-real.
no 3-D da realidade não.
o que existe é exploração, abuso;
fórceps passional retirando goelas afora
diálogo possível em fotos minúsculas de monóculos envelhecidos
como no tempo de antepassados, antepassadas
e a prisão da vida por correntes de todos os calibres:
míticas evas, místicas heras, dominadas como bichos,
natureza.
definitivamente, o amor fica bem mesmo é em superfícies planas,
lisas, reflexas, linhas, luzes, lentes, telas, páginas, telas, formas
recipientes das projeções sublimes dos projetos de dominação.
no mágico da realidade não.
o que existe é carne, disfarce;
controle das pulsações alheias, rancoroso e garboso
encenação que domina todos os impulsos cerebrais, alma, tez os que tais e totais
feito o que se diz que livra algozes; expiação
e a via única para se culminar no pico do bem-estar consigo:
controlar corpos, vontades, desejos, estampar exemplo, puros, castos, virgo-sexuais.
alarido ecoante, desde o passado, avante.
3541.
querida, calma.
não vê que não há como,
quando ou onde?
façamos como o céu:
a água demora
pra limpar todo
o horizonte.
ainda somos céus.
3540.
há a tristeza de magda
ela parece que é de corpo
há a tristeza de heloisa
ela é de descompasso
há a tristeza de carlos
ela se dá com o tamanho
há a tristeza de aurora
ela pode ser de descoberta
há a tristeza de regina
ela se parece de cansaço
há a tristeza de paulo
ela é de desenredo
há a tristeza de sofia
ela vem de deus
há a tristeza de rosa
ela se dá pelo ávido
há a tristeza de heitor
ela ocorre por método
há a tristeza de silas
ela desaba pelos poros, magnética
há a tristeza de iara
ela é oriunda de mágoa
há a tristeza de cecília
ela vem de excesso de doçura
há a tristeza de cleiton
ela é de raiva do mundo
há a tristeza
ela é da gente
de tudo
3539. passagem de Xangô
concreto me desfaço em mínimos escombros
as eras se reconduzem embaralhadas
sou tudo o que pesa pelo frágil do corpo –
sou rocha –
desde sempre
magma tecido, os nós de minha pele
estrelas mortas meus pensamentos
um enredo passado
acertado hoje
estalo nos céus do universo, feito em fogo
aqui se faz, eu sou a paga
dois gumes minha cabeça
3538. lombra
a tarde doura
labareda inconteste no pescoço
colar líquido, salgado
roça a coberta do peito
não há o que não queime
vidro afora tudo arde
nessa tarde casta e infernal
3537. d’ares dantes navegados
no vento, escafandrista
espreita brisas e vendavais
coleta sons de pássaras
mergulha rompendo nuvens
atravessa vapores, corpos
exploradora das abissais do ar
{observa a pele núbia da noite
[flu(tu)a]
todo um céu adornado de organdi}
3536.
a barba como um cultivo
resquícios jorrados
adubando os pelos
– não tira
os aromas do frêmito
refrescando a memória
– não tira
um dia todo alisando
a barba que, espasmos,
emaranhou outros pelos
– não, não tiro
3535. chave de fenda
fiz força redobrada
a posição não dava mão
suei tudo
pra prender o quadro
aquele retrato
ele e eu
coloridos pelo retratista
o quadro ficou torto
eu e ele
pensos, um tanto morto
acreditei que era
algo entre nós
mas o problema foi
a chave de fenda:
o quadro pendia pro meu lado
3534.
caixa fechada de mármore
alvos entalhes num encarnado
quase arabescos desdelineados
parte caixa e parte alçapão
abri a tampa lá dentro meu olho
me olhou desde o infinito
meu olho agressivo equino
interminável e assustador me
olhou profundo eu me olhando
tapei a caixa légua e meia
a mão encaixando a tampa
meu olho inundado lá dentro
a caixa de mármore lacrada
o olho gritava ainda olho
não abri vivo cego então
3533. Libriano
Me pedia leveza
e poesia,
enquanto, didática, despejava
esse editorial de chumbo
só com meio olhar.
Me atrevi crônicas
; parti no meio do trânsito,
novo recorde de congestionamento
na cidade.
3532. Cadernos de Bilu – Notas etnográficas de um extraterrestre III
Burocratizam.
A namanhacitude, por exemplo,
é um estado de espírito
em que não há mais
frêmitos espasmódicos
e onde tudo é manejável.
Parece que não há como não ter.
3531.
A infância é um bloco
monolítico de memória.
Stonehenge flutuante,
avoa, aboia, boia.
A parte que a constrói
é uma só, uma rocha
apenas, alicerce disso
feito, que dá em mim.
A infância me existe,
como pedra a ser polida,
num largo de mim solto
em espaço que habito.
Pedra sagrada, fincada
no meu solo.
3530. pró atinar
antecede o presságio
antes que finde a véspera
não amanhece
nem amanhã
: agora
3529. Quatro paredes
Pegajoso, o tempo grudava nas telas
Pegajoso meu caminho, traço de lesma
No quarto. Meu mundo.
Oh, “tempo de fúria sem tempo para contemplar!”
Poucas vezes estive inteira dentro do mundo
Nos peitos
E parecia ser confortável e livre, sem espasmos. Por todo lado.
3528. sobre escombros e sob eles
cantos sagravam todo o plantio
e sacralizavam toda colheita
naquele pedaço de terra
cercado de vida por todos os lados
nas noites eclipsais
abismávamos nos abismos celestiais
vestidas de lua vermelha e breu
e tínhamos aquele tom
mais próximo do crepúsculo
plantávamos na terra doente
buscando sua cura, corpura,
regando com a água
colhida diretamente dos cachos
de frutas gasosas, sumo e néctar
incolor
cada casa morava uma deusa
um deus, dois adeus, ateus
em cada casa de barro
moldávamos cabeças
preenchíamos cabaças
e com um batuque cadenciado
fazia-se a luz, mais um anjo
amontoava-se o espaço
entre céu e terra
renunciávamos o pecado
e vivíamos de nossas naturezas
ofídicos
as conversas junto ao pé de pau
ali perto das cabras pastando
iam de lá pra cá, submersas
nos cem mil tons do ocaso
éramos poucas, o tanto
suficientes em si
e à porção ocupada
muitos para a festa
nos amávamos como amantes
aos primeiros dias e todos os dias
entre o trato e o trabalho
e o pulsar das rotações
abríamos nosso corpos
nos descorporificávamos
antes do sono restaurador
onde líamos cartas,
borras, bolas, astros, mãos
e o que se via
viria
3527.
pelo cômodo
falarei só de sóis
meu incômodo
amarro em cegos nós
3526.
Falar-te à água
– quando caída dos céus,
torrente
: provar-me os nervos;
como algo vibra entre
os pólos de um imã.
Olhar-te aos ventos
– quando agreste todo pó,
redemoinha.
Tudo se terremota, até
o remoto de mim
: tua persistência ouriça
chacras.
3525. dando com a cara no chapisco
dentro da cinza veloz
dentro da noite das horas
eu varo a cidade
cada poste me distancia
mais do teu ventre de flores
eu te busco
ainda que rebusco
bruto
porque ela eu já encontrei
3524. Estação
Amora, há gerânios ao largo do ano.
Isso indica que é a época
de cores rústicas.
Tempo de colher tons
com a boca, tempo de tudo.
E da forma das pétalas
ainda agarradas a seus caules:
sua beleza é uma liberdade
ancorada no vento.
3523. Cheio de cicatrizes
Sutura de lua, relevo dourado
Tramas de rio, cachoeira, a pele
Montanhas, vales profundos de pôr sol
Um estado de bailarino
Geomorfológico
Levemente desmorona, eólico
Escombros para novas paisagens. Assim te vejo
3522. altas noites
alta noite
tateei teu hálito
era uma textura quente
atravessando o medo
me encaixei em tua concha
dorso encostando teu ventre
cada respiração tua
em meus ouvidos
desenhava a sinuosidade
das tuas curvas
no meu horizonte rochoso
dentro do meu sonho
te espalhei por cada
rio e folha que percorria
acordei árvore te despertando corredeiras
teu hálito insuflava calor
em minha boca
3521.
Amor, estive amando,
era a gente,
enquanto
quando.
3520. Teoria Geral da Liberdade
“Quero morrer num dia breve
Quero morrer num dia azul
Quero morrer na América do Sul”
Reconhecer a matéria humana:
corpos agrestes
agregados de inércia
histórica
viva
aparte
– que cabe no
latifúndio divino –
um ego solto no breu
um soco, baque
corda que tremeu
entre o animal e o além
Reconhece
Toda matéria, humana,
ama, emana e atrai
trai, repele,
tem coisa de pele
relativa e subatômica
Sente as grades
grossas
nela se agregam
como as formas dos cristais,
conglomerados de padrões
E o humano não tem forma,
se conforma
transforma
transtorna
toda sua extensão
nasceu para se compor
por entre os vãos
do que não contém:
a matéria, feita de fibras
luminosas,
são escolhas
Poder ter escolhas,
caminhos,
o que dá forma à liberdade
3519. Entropia
Da nossa troca de calores,
obstante o que regulava
a temperatura dos corpos
ao sal de nossos
suores,
restou irreversível desordem
num sistema
de dois amores.
3518.
o sangue nos olhos pelo suor escorre
o tempo não socorre
corre
e um compasso no peito arritmado
cardíaco contrário
contraio
implode a caixa torácica
partes tóxicas
escorrem
artérias adentro, veneno, veias afora
3517. esvoaçar
quebremos concreto
comecemos por perto
tnt peito aberto
estilhaço incerto
pairando deserto
no ar me deserdo
3516.
educar células
genes
tem quem
trabalhe para
e até tente
mas as minhas
os meus,
já aviso
: quem cuida sou eu,
ainda que só disso
não saia eu
3515. rapinagem
amor?
quimera de abutres
sem asas
em céu como palco
e presas presas
lá em baixo
se não as pega,
cadafalso
3514. alberto costa santos
pegava o esplanada todo dia
com cartão integração
calor, seca, confusão
um dia entrou cismando
questionou-se que logo
no outro dia, teria que voltar
morava longe dali
o filhos moravam com ele, longe
tinha saúde, a morte, longe
a esposa na cama, longe
a salvação do pastor, longe
tudo longe
decidiu ficar ali mesmo no ônibus
voltas infinitas entre a esplanada e a rodoviária
nunca mais saiu
reza a lenda que alberto costa santos
virou um memorando
endereçado a si mesmo
e nunca dado como recebido no sistema
3513. na 1ª e 2ª edição
nunca vi tanta exposição
pra derrubada dos
barraco de madeirite
em qualquer expansão,
mas essa galera na televisão,
cheia de prazo, porquê
história e conclusão
ganha enredo, pena e paga
até mesmo um certo perdão
afinal, o bagulho torto
é na mansão
3512. paisagem
aqui terra escarlate
aveluda o horizonte
falta ar mesmo só
ele existindo em
forma de abóbada
cópula planetária
com o vasto envolvente
aqui tudo é plano
falta a sinuosidade
das pedras e das areias
mas aqui, pelo menos,
de tão aberto e exposto
nada se fecha
tudo está escancarado
: moramos no azul
sem asas adentramos
em tocos fumegantes
para melhor acessá-lo
a fumaça é o que
nos conduz e conecta
– fazemos sinais com ela
para que nos saibam
em outras paragens
3511.
parecia que tudo se diluiria conexo
que trafegaríamos em transe eterno
era certo que daria certo
horizonte lilás, querubins
normatizados, heteroamplexos
jogo ganho, eros dominado
super-sublimado, era tão certo
ai veio um desejo vadio
e fodeu todo o rolê
3510. lambe-lambe e cia.
me cola na parede
e passa a língua
intervém em mim
ao largo de toda cidade
me ocupa de sentidos
onde o vago
invade
me grafita
me leva na tua fita
me colore, me decore
hard-core
e hip-hop
que te abro
toda a extensão
das minhas esquinas
e toda tela livre
das minhas paredes
minha rua
nua
para a introdução
da tua arte
de amor
ou de combate
a delicadeza
das tuas linhas
no emaranhado dos meus pelos
meu apelo
é pra que dê função sexual
à minha propriedade de pele
pega logo as tuas formas
e em mim adere
3509.
pelo celular, no metrô,
às vistas de outrem bem guardado,
a moça vislumbrava um lindo caralho
sorria, disfarçava, quando em vez olhava de soslaio
era um misto de vergonha e letargia ao contrário
um entumecimento logo abaixo
lhe deixava ensimesmada, não queria apenas
mas um pouco mais ao centro,
entre as pernas desabado
restava aquele úmido e quente estado molhado
e por um segundo se atreveu ao imenso de um disparo:
era dela, só dela, naquela tela, no metrô, aquele belo caralho.
3508.
Lamberia os teus encontros todos
os teus cantos
todas as tuas letras e palavras
e carnes e líquidos
Lamberia teu íntimo
Lamberia tuas partes e cada parte do teu todo
e quando a língua transladasse
toda a circunferência do teu corpo
começaria de novo
Lamberia lamberia infindo
ao meu gozo
no teu gozo
3507.
passavammmmm
mmmmmm mmmmm P A S S O U
nada passoummmmm
mmmmmm
mmmmmm mmmmm passado
3506.
o vento vário vem
de todos os lados
vaza
entre as folhas
vago
3505. triz
por pouco
não se emparedou
naquela pira
não fosse a proposta
mesmo não havendo parede
emparedaria-se
no ar