ao lado do ponto
de ônibus
pontas de cigarros
se espalham…
…
…a espera é mesmo
a rainha dos
atos falhos
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
ao lado do ponto
de ônibus
pontas de cigarros
se espalham…
…
…a espera é mesmo
a rainha dos
atos falhos
procuro beijos de unguento
pássaros perdidos entre morros de minas
manter a paz achada após a chuva
chover aos cântaros com essa
minha cara de carência eterna
procuro, pois, esses beijos de unguento
arma
d’alma
em carne
nova
tem algo preso na garganta
sem nenhuma pretensão santa
só uma explosão tanta
que vem vindo como trombeta
pronta a anunciar a vendeta
e findar todo esse planeta
poesificada
poesifitada
poesifincada
poesifilha da…
amar algo tanto
assim tão tudo
é algo assim tão
duro
foi uma coisa atenta e louca
nesse momento exato
em que veio isso louco saindo de dentro de algo
explodindo um sorriso absurdamente duro e bom na boca inteira
deixando músculos e lábios tensos de tanto não conter
dentes cerrados e observando um pouco do mundo
dentre lábios
e elas tocando a minha cabeça
cada uma me tocando de um jeito diferente
e sendo cada uma o meu amor inteiro
pousado nas têmporas de todas
pois que nelas vôo
e o riso brotado pela trajetória percebida
atentamente louco no exato ponto em que se pode não ser
além daquilo que se percebe
que o amor é por todas as que pousam
e todas pousam sempre após seus vôos e suas vidas
bem-vindas todas as que pousam
e todas pousam
pois que todas voam
e me sendo outras me é mais que outros
e me deixam bem tão tanto louco
atentado pela tentação trazida bendita
dos ventres quentes dessas benditas
todas as que pousam
e todas de mim voam
logo lá pousam, pois
Eu quero isso
Um quarto gigante
Uma vida em volta
Envolvendo
Envolvendo
Levando
Um enlevo
Um quarto de fino
Relevo
Num mundo sem senhas
Meu quarto gigante
De paredes e varandas
E uma vida entalhando
Voltas e mais voltas
Lívidas
Dentro e entre leve
Envoltório de lava
Porque eu quero
A Terra gira trazendo consigo todos os dias
o nascimento de uma estrela
Gira até que a estrela morra
e seja enterrada no horizonte
para que noutras paragens de além-tudo
renasça novamente
Para que no além do fim do mundo
ela brilhe cada coisa em que possa pousar
Todo dia o mesmo movimento
que traz o próprio dia
Repetidamente a vagar em derredor
de uma estrela
a Terra gira
Gira
Gira em torno de si
em torno da estrela
dentro de uma espiral que se consome
dentro de um tudo que se explode
e que no fim dele mesmo
que não se pode ver ou sentir
já começa a se implodir
Incessantes giros
Dentro da Terra
cá eu com esses botões
girando em torno de mim mesmo
gravitando entre ocasos, crepúsculos e manhãs
dentro dessa que gira
explodo e implodo cada vez
que me passa um dia
girado entre uma estrela ou outra
qualquer
arde essa vontade
coisa que invade
a pele os poros
atiça toda carne
alcança além olhares
mete-se no meio
no entre nos pares
quer ser dentro parte
abrasa um disparate
partir em metades
indo fundo tudo dentro
divino amor arte
você é promessa
de que o ontem
desejo do que possa
seja todo o agora
ou amanhã em remessa
não me contem sobre seus casos
histórias tortas, atos falhos
falem-me somente sobre seu amor
e sobre as formas belas de seu silêncio
não me falem de seus homens
ou mesmo de suas mulheres
falem-me sobre a alegria incontida
entre uma canção e o maneio dos quadris
e não me digam nunca a palavra traição
essa que da existência do burlar o sagrado
é o maior dos pecados contra si
trair inexiste
viver sim é que insiste
o resto causa tédio e penar
Quero oráculos
búzios borras
rezas rodas
cartas e linhas de mão
Quero astros
garrafadas bênçãos
mandingas amuletos
banhos e velas
Quero o corpo fechado
ao ruim:
alhures de amores
amontoados de paixões
e sem zica alguma
Dependendo do lugar
sou branco
Já fui tratado por
bugre
e chamado de negro
Tenho esse nó na madeira
de cristão novo
no nome
e cabelos carajá escorridos
que enrolaram com
o passar do tempo
Trago um silva
da selva
mato-grossense e
um lusitanismo
ao que protege alemão
Uma resistência
malê nas têmporas
e essa pele que
doura fácil
como as areias das
praias araguaias
Nascido no cerrado
goiano quadrado
do pé rachado
roedor de pequi
Sou esse interior
amontoado num
distrito urbano,
sou isso tudo aqui
Pra poesia bastam
palavras, intenção
e interlocutor
Não academias, que cortam
valas e enterram
todo o torpor
Pra poesia bastam
essas três coisas
que vão além
Que à teoria faltam
e que nesta sempre
há de ficar sem
Oito poemas em um dia,
que doidera,
sete só com cerveja e meia,
nove talvez, para
pedir a saideira.
Quem me lê sou eu,
um V vadio que
pode ser de vingança,
mais um ou dois
amigos cansados
da rotina
e a História
Essa me lê
todos os dias
esperando um em
que eu possa entrar
nela e dizer que
o caos temático feito
é marco espacial
de algo atemporal
Amo você como nunca
Suas pernas, braços, bunda
Suas idéias, risos e seus cachos
escorregadios na nuca
Amo tanto e tão
loucamente que prova
maior desse amor
é sair mansamente
sem que só reste dor
Amo você ao extremo
de abdicar desse
mesmo e não repousar
em jaula medida
nossas vidas a
finalmente compassar
Amo você e te quero sempre
e como o amor se dá ao luxo
do imensurável
deixo-a se ir qual
rumo queira
sabedor de que nada
eu tenho de deixar
Só esse amor já seu
que não preciso lhe dar
para que saiba em si
O sol implacável
só podia dar nesse
deus único e fervoroso
Inclemente senhor
dos ditames da vida
Prefiro a lua
e os deuses dela
saídos
Essa que some, volta,
fica meia,
clareia,
se apaga inteira
dentro da noite
e sempre carrega
esse ar de mulher,
doce mistério que
provoca turbilhões
de sentidos
Fujo agora de todo
contato que possa
conduzir-me dentro
de alguém ou que
me deixe com mais
alguns pedaços no
peito arfante
Dá-me pânico conhecer
gente e ver que
é possível o esbarrar
de além corpo aprazível
Bato na madeira toda vez
que uma voz provoca
em mim um arrepio
Faço-me calhorda
insensível sempre que
anseio pelo seio
novamente à luz de uma
manhã entrando
sorrateira pelas frestas
da cortina e borrando
de dourado o corpo
bem quisto e nu
Tangencio o meu discurso
para o lado avesso
do que queria dizer
só pra não redundar
novamente na língua
essa teima dita amor
Não quero destruir
nossos sonhos
essa válida linguagem
do inconsciente
Quero mostrar a liberdade
como a prova de
amor maior que
posso dar
Ama-me só assim,
livre para experimentar
a vida
Agora eu vou esperar
a cerveja ao chão
o santo tomar
só pra não dizer
que sou chato
e que não costumo
ninguém acompanhar
Existirmos
se destina
a termos rima
ainda mais aqui
em Teresina.
Teresina, PI.
no cérebro
eu celebro
a Cérbero
eu sinto palavras até
na fumaça
desse que queima
mesmo na brasa
eu as vejo
não sei qual vício
há de me conduzir
ao reinado da morte
pelo lado direito pulsa
o fogo que dá a ignição
para a labuta diária
a própria lida nesse lado fica
morada das equações e elucubrações
que mantém o mundo erguido
sobre os pés
pelo lado esquerdo borbulha
a lava que queima
a alma e se evapora a ganhar os céus
e que conduz os sonhos
em líquida pedra que
mantém os desejos acesos
sobre o peito
todo o universo ainda por vir:
os becos não sentidos
as vielas dos labirintos
o rodopiar sem rumo pelo impossível
a eternidade de palmas de mãos
o durar do sempre mutável
os olhos que piscam e sonham
o gosto de ouvir com a língua
esse todo que propulsiona
é que se faz merecedor do sacrifício feito
de se imputar vida por aí
todo o universo ainda por vir
se encontra no alinhado das paralelas
do ímpeto com a vida
e o infinito abre as portas para que viva
é tipo ficar num
tiroteio
sem alvo nenhum
certeiro
quando de criança eu lembro
daquela fantasia de ser gente grande
de ter vinte e poucos anos
e ganhar o mundo
ser homem feito e sabedor de tudo
hoje sou isso ainda
mas cada vez mais uma memória diluída
pela ação do tempo
ainda assim fantasiosa
de que aquela onda que percorreu
montanhas longínquas de meninices
retumba aqui forçosamente
e sem força, fraca como anêmica
a me lembrar o que posso dizer de mim
para eu mesmo
e me abrigar em ser algo
que foi proposto tantos anos atrás
para identificar o hoje
fugir
ato além repertório
fato não ensaiado
para a saída da situação
transgredir o território
fixado
abrir mão do superego
encontrar a rota de escape
pela contramão da via única
lócus ingrato
fluido
pelas bifurcações atemporaris
de textos repetidos
exaurir-se pelos ramos
que descambam para o céu
finalizar
num mero contratempo
da música que silencia
toca e repete infinda
cessar o poder do infinito
vagueio entre uma teia
de discursos que me cabem
como luva feita sob encomenda
corro a procurar a proposta livre
em que me encaixe sempre
o senso louco de que
identidade e eu
são coisas conexas e paradoxais
desenterro as raízes que
se ocupam fixas
e me fixo em cada eletrodo
transeunte que me dê
o choque de se sentir livre
por pelo menos alguns segundos
até que nova palavra-prisão
me oprima e eu mude de habitat
para nova ligação eletrônica
que me diga eu agora sem carga
o espelho me junta de mim
uma porta para um eu invisível diuturnamente
no espelho, meu igual avesso
me avexa e envergonha
mas me põe ali em mim num outro lado
no espelho eu me espalho em mim
como poucas vezes me percorro tanto
é lá, nele, que fico eu medindo
se por destreza de acidente
me assento mesmo assim ou assado
o espelho é o lugar em que me encontro
não me sendo posto que eu vejo
mas sendo eu posto que me vejo
é lugar de encontro contrário feito
no reluzir de luzes em modo vário
não é não lugar
é o topo do pouso da minha imagem
a se enxergar
“Que importa o sentido se tudo vibra?”
seguir só nessa vastidão
monge peregrino sem rumo
aventureiro sem ventura
restando bruxa na fogueira
após o fogo ateado
sem corpo mais que aguente
seguir só nessa vastidão
sentindo as vezes da lida
passando pelas horas
como eras de Clio
sem os pés tocarem outra
coisa que não a terra
seguir só nessa vastidão
retirante do mundo aquecido
por ideais sem idéias
só imagens mais nítidas
que o mundo fora da caverna
em tela plasmática de pleno
plano cristalino
seguir só nessa vastidão
em espasmos compassados
tropicando e troteando
qual centauro embriagado
sem seta para o alvo
e sem rumo certo para o trote
seguir só nessa vastidão
cego de coisas do espírito
material como a sorte
rindo e indo sem ter como
empurrando o mundo
goela abaixo e a seco o palo
seguir só nessa vastidão
sem maneira de amar
tolamente contente com
apenas a dor como fardo
a preencher os poros
que ficam entre os átomos
seguir só nessa vastidão
docemente acompanhado
por sementes de esperança
de centelhas de permanência
iludindo todo o mundo
com essa pretensa solidez
mas sempre só
como essa rocha a virar
solo lentamente
eu me torno solo
lentamente
cada camada minha
dissolvendo-se
até se espalhar por tudo
e virar chão
me desintegrando
em vários minúsculos pedaços
de fina areia
para saber o devido
valor do pouso mínimo
que a solidão promove
nas partes
eu tão assim toá
uma rocha bruta
num morro suave
em pleno processo
de decomposição
Je ne parle pas bien français
mas eu sei que queria
esse som no ouvido vindo doce d’ocê
vagaroso
com a carne no osso
curtindo uma bela fossa
esperando as dilatações
do carbono
e o fim do fosso
pausadamente
esperançoso por nada
uma paulada na mente
para que aquiete
e deixe a toada
para a tiete
choroso
demente
aquoso
descrente
passeando pela beira
na esgueira
de um dia de melancólica bobeira
ao puis
do corte
impus
a sorte
e pus
na morte
da pele
um norte
vida nova
no quelóide
suportar o absurdo
como os elefantes
que erguiam o mundo
e lentamente junto
à tartaruga que
levava às costas tudo
“…mulé bunita e pimenta a morte pros’óio é…”
“…quando você menos espera ela chega…”
“…deve ter parte com o mar…”
“…don’t leave me dry…”
“…por mais que eu me mate, são só palavras…”
Queria conversar com um amigo
e disposição para suportar mais uma semana
de suor ensandecido
ter trazido mais dois livros
e paciência para os lentos domingos
de sol a sol
sem indício
de solstício
segue assim
o suplício
desse febril
ofício
de pousar
na rocha bruta
orifícios
Paes Landim, PI.
(Para ler escutando Iara Rennó)
Loucura, loucura, loucura
Vozes
Vidas
vibrando no ar
Entre
Naipis, Naipis, Naipis
vêm cortando o ar
contra o vento
Naipis, Naipis, Naipis
entre
o velado vivo
de vozes nossas
de cada cabeça tontas
tateando o tato
de ar que sulca
os ouvidos como
navalha na garganta
Entre
Naipis, Naipis, Naipis
Som de sangue espirrado
pela garganta vibrado
Entrando
Essas vozes, vidas, vibrações
Naipis
Eta nego maldito
bendito
com essa negra música
de pedra e mar
que rodopia
na cabeça como
pião de menino
Eta preto brasileiro
pauliceiamente desvairado
virado no diabo
de melodia mole
lambuzada de dendê
como o quê
Eta homem de mil
lágrimas milagrosas
e cigarras quistas
Eta gente que
é meio árabe
e meio paulista
e sendo homem
soube que a mulher
deve ter parte com
o mar
Eta mar que musicou
tanta assunção
eu verto o sabor da imagem
vetor meu indo aí
para
doar
do ar
migalhas de matéria
suprindo a necessidade
de te criar
ilusão que seja
na ponta do pendão
dessa cabeça
torta
pronta
a te atacar
quando menos
te bastar todo o ar
doado
causar
caos ar
em ti o tempo
preciso para que perceba
que a dureza rude
da reta que me implode
te levaria
estar dentro esse
e gozar
gás ar
insuflando prazer em teus poros
desde quando sempre
meia-noite andando a pé
uma nota no sopé
da página dita vida que é:
ainda resta um quê de fé
eu sei que acabou
mas precisa levar
por isso o cogente
mergulho no mar
quando eu digo que é paranóia
me dizem que é charme de poeta
mas é isso mesmo, não sou asceta
de diários versos em leda inglória
sem lampião de querosene que suficiente
insufle luz para o suspiro
de contemplar essa armação
verde-viva feita assim parecida
com uma alma ramificada aos céus
erguendo os infinitos braços para
o alcance do firmamento despedaçado
em gotículas de poeira
pousa-se ele imponente
retumbante ante o imponderável
de ser pouso de água boa
entre alinhados de espinhos
essas garras de proteção que se agrupam
para dar aos que tentam
a dor de saber imprescindível
o saciar de uma sede latente
Paes Landim, PI.
é pura pretensão
espúria tensão
e puro tesão
te fazer presente
na ponta da mão
essa caixinha
que dentro fica
essa pedra lapidada
turmalina
fui eu que fiz
pra que abra
e veja essa pedrinha
dentro dessa
que fiz pr’ocê
caixinha