0893. Do tratado geral da poesia eterna – Tomo II

Poesia não tem de ser triste
pode ser apenas um estado
de contemplação sóbria
ou mesmo uma incongruência
fluída e louca

Pode ser o gosto de éter
ou mesmo das radiações de carbono
que percorrem a língua de teus dedos
Pode ser o vazio pleno e irrestrito
de uma madrugada insone

Poesia não precisa ser o grito
da alma ao ocaso final,
pode ser o sussurro de uma
condição aprazível e imperceptível

Pode até mesmo ser a própria
vida.

0891. Te amo

A imensidão de teu ser me dá a aurora
de minha parca ostentação.
Tu contrariaste toda o intenção
que me levava a crer ainda.

Hoje sustento apenas um copo de pinga
em minhas mãos, porque o ardor
na garganta é mais suportável
que o fel de toda a tua conduta.

Hoje conduzo apenas meus dedos sobre
este teclado, que a cada dia torna-se
menor e menos salvador.
Te guiar é-me impossível agora.

Perdi-te ao nada e te agradeço infindo
por conta disso.
Deu-me a oportunidade de reinventar todo
o prazer.

São em momentos como esse que compreendo
o quanto de amor foi meu e quando foi seu.
O amor é esse que surge do imponderável.
Sem se dizer.

0890. O poeta e o livramor

ser metáfora em
um verso triste

saber tua culpa a
morte de todo o sonho

sentir-se o motivo
de um desengano

fazer-se início de algo
sem pé nem cabeça

formar-se em própria
desilusão

constituir a dúvida
e alicerçar o ódio

transformar-se no
anseio da indiferença

dar vida ao medo
da companhia

virar somente
lágrimas e melancolia

esses são apenas
algumas dimensões
de ser poeta e
livramar

0888. Só pra constar umas palavras, caso seja hoje.

Hoje pode ser o dia de minha morte,
saibam vocês que me aprazem a companhia.
O arfar de uma vida de conjecturas
tolas pode hoje descambar em minha morte.
Uma morte estúpida hei de dizer desde já,
mas invariavelmente, uma morte.
Pode ser em meio a um shopping
em plena euforia do horário de almoço.
Pode ser que seja estatelado de um
viaduto e estraçalhado por carros lá em baixo.
Pode ser ainda que seja ao descompasso
de um tiro que há de perpassar não só minha carne.
Mas há de ser uma morte, a minha.

Hoje, meu amigos, pode ser que eu morra.
A vida ainda há de continuar,
o trânsito não vai parar de vez,
o tráfego aéreo nem irá notar nada,
lá em casa, quem sabe, se importem
(na certa se importarão, caso seja hoje mesmo).
Caso eu morra com certeza meu corpo
sentirá o sentido definitivo entre o fardo e a pluma,
entre o vento e a atmosfera
e lançará minha alma por caminhos tantos.
Esta que ganhará a altura de todo o mundo
e será apenas uma que um dia foi.
Tudo isso neste que pode ser o dia de minha morte.

0885. Das vontades

Minhas estradas, todas abertas
Meu silêncio, perdido
ao teu lado

Meu colo sempre posto para
descansar teu rosto, tua respiração
e nele meu afago

Meus olhos para te observar
e buscar o que há além
do visível e até em mim

Meu torpor ao teu êxtase,
almejando o cheiro teu,
contido ou impuro

Meus lábios apenas esses miúdos
que esperam teu gosto

Meu eu se encontrando, perdido,
em teu descompromisso…

0884.

Não era pra ter sido assim
mas minha vida louca
volta, vai-se, fica e vem.

Meu juízo é esse que não há
e perde-se em meio a minha
infância, tão sabida e ainda
assim, arriscada.

Esses versos não hão de
ser nada, a não ser
a prova da minha loucura
que insiste em não
querer tua tristeza.

E se eles pudessem ser
mais do que palavras
e te dessem uma paz
que fosse, eu ficaria também.

Não por mim, pois que
não importa, mas por ti…

0880. Em outro mundo, talvez…

O que eu amo é essa tua gordura localizada
teus centímetros a menos
teus cabelos que – juro – nunca fizeram mal a ninguém
teu mundo de vidas sobrepostas
tua vista dos pontos
e mesmo desses miúdos
que se escondem atrás das lentes

Hoje quando acordei
não havia outra ao meu lado
tu estavas sabe se lá onde e com quem
mas isso que tu és e me faz
dava a certeza da companhia

Não é essa perfeição tua que me encanta
mas sim, a tua realidade
Em outro mundo, talvez, nos compreendam

0881. Escrita

Quis te escrever e te escrevi
em mim como se fosse tatuagem
só que foi debaixo da pele
debaixo até da alma

Começou quando eu estava em ti
e se prolonga a cada momento
em que me recordo a união
Nada eterno, só o possível

Escrevi bem no meio
com letra forte e de forma
sem sangue (ou talvez um pouco)
É bom te ler em mim

0879. Culpa?

Num toque esvai-se todo o sentido.
O júbilo da posse diz que o feito
foi completamente antiético,
meus braços não compreendem essa máxima,
meus lábios têm sede de completude.

Você disse que não suporta
a minha condição livre.
Eu não disse nada disso.

Queria teu sono ao meu lado
mas confesso que agora queria outro abraço.
Quero aquela que me diz:
– descompromisso –
e me beija a boca suavemente.
Quero a outra que me acaricia e diz:
– Hoje não… –
e ri de tudo e todos.
Quero o que meus braços e lábios permitem
e se você não consegue entender isso, paciência…
Meu ser sempre foi este que,
por acaso, você se apaixonou.

0877. Prefiro

prefiro a dor e o vazio das horas
prefiro dizer mentiras e coisas grotescas
prefiro calar meu peito e tomar uma dose
prefiro os atos desmedidos
prefiro esse momento perdido
prefiro o frio da cama sozinho
prefiro o amargo da cevada e o amor à solidão
prefiro esse breu e bethânia
prefiro o filme repetido às duas da madrugada
prefiro a noite sem sono e o dia fatigado
prefiro tudo isso,
mas não perco a poesia novamente
(prefiro até mesmo você outra vez)

0875. Creio que é um adeus

Eu tento gritar,
mas a voz que
sai da caneta é rouca,
míngua, parca e pouca.
Só um amontoado de porquês.

Solto um lamento
alto e em tom menor,
abafado e incerto,
inaudível a quem importa e
intangível a quem perto.

Canto este como o último:
a derradeira tentativa
de acalentar o espírito,
último abraço às palavras,
o resultado esperado e mínimo.

Posto que não há como
com letras provocar o carinho,
com palavras pintar a beleza,
nas idéias reinventar a natureza
ou em metáforas obter a mansidão.

Neste que é o definitivo,
mas não o é todo dia,
despeço-me então:
adeus poesia.

0876. Eu vejo assim…

vejo seres de alma
não esses seres que se fazem de pvc e de pet
esses que empurram nas capas das revistas
que se usa para forrar a casinha do cachorro
vejo espíritos imerso em sangue
vidas em sentido e além
sinto seres em um ser
prontos a explodirem o véu do sacrossanto
estado de normalidade
e darem aos outros um momento de
êxtase ímpar através de simples questões

quem? a não ser estes podem
ser mais que a realidade?

0867. Passagens

“de vergonha eu não morri
to firmão, eis me aqui
você não, você não passa
quando o Mar Vermelho abrir…”

histórias sobrepostas
rurais reminiscências
numa urbanidade falida
dramas de vidas
passados mal-vividos
origens desconhecidas

venda da re-ligação
comércio do ostentar
desejo da volúpia numa blusa
manequim de bunda enorme
riso à cantada
músicas superpostas

eu flutuo em meio ao caos
sou mais um seu fruto
em meu peito só ele
arranjado por essas imagens que
contribuo por produzir
fala onde este mora tudo isso que senti

só uma feira

0863.

ela me deu um jazz
eu fiquei extasiado
compulsivo o escuto
como se não fosse acabar
é um carnaval na cidade
e nesse espírito da carne
eu banco o advogado do diabo
e digo que o jazz é tão ou
mais prazeroso quanto
tomar uma cerveja no calor
e até mesmo do que
ficar acompanhado no frio…

0864. Nesse instante

queria a paz de uma palavra que bastasse
para apaziguar teus sentidos
queria ser teu norte ou quem sabe teu leste
e se teu acaso quisesse poderia ser
tua base e teu sustento

queria ser tua liberdade e dar-me a ti sem medo
sentindo tuas palavras saírem em paz
num hemisfério qualquer

queria dizer teu nome agora
mas este doura demais em dor
que não consigo nem pronunciá-lo

queria ser tua dúvida e teu sono
ou até mesmo tua completa indiferença
e quando tu fosses degustar a noite
poderia eu ser o espaço entre a lua e a rua
entre tua intenção e teu gesto

queria essas coisas todas que começam
em mim e a ti nem sabem que terminam

queria mesmo era teu colo

0865. De sonhos

em um lócus talvez existente
fomos alhures do que nos coube
fizemos nossa morada nele
choupana de reações neurais

subvertemos a plenitude do que
poderíamos ter sido e ordenamos
os dias contando que em um
estaríamos ao lado e sempre

foi num lapso de existência
que descortinei o engodo até
hoje ainda quisto e não dito:
o amor se ruminava há tempos

e ao final não era amor
eram amores e todas essas
figuras que seguem par-e-passo
ou até mesmo e ainda em desalinho

0862. Da Ceilândia ao Plano – poema e mundo

Com Basquiat nos olhos
e Racionais na mente,
o quadro é este:
à tia em pé
tive de ceder
meu espaço
e perder estes
poucos centímetros
que ocupava
sentado

Ao redor, a vastidão,
metáfora plena
à alma
Dentro, só o cercear
das possibilidades
Dentro, fora, ao redor
e além, um sol
sem fim, vasto

Um céu azul e marrom
e um rubor dourado
sobre a ruiva inerte –
explosões de hélio
queimando as faces
das impossibilidades

Lá fora as painas
quase a cair
e a floração esguia
dos eucaliptos à míngua

Nesse imenso colorido
possível me imerso
e chego pontual
ao trabalho

0859.

Por que raios tem de haver
essa comoção em mim?
Por que o coração não basta?
Por que sempre esse enternecer-se
com a flor ao lado?
Por que não o vazio das horas
e a aspereza dos sentimentos?
Por que não com a certeza de um
Deus eu preenchesse tudo?
Por que esse anseio pelo além,
pelo imponderável não crido?
Pra que?

0860. Morada

“Esse imenso desmedido amor, vai além de seja o que for…”

Moro num barril
dentro de um quadrado,
sumidouro de energia,
no coração de algum lugar

Meu coração tentar ser
mas não mora cá ou lá,
mora na vastidão
descompromissada do
horizonte, mesmo sendo
ele vertical…

Mora onde mora
o acaso e a sorte,
no incontido das possibilidades
na incerteza das escolhas
no definido e definitivo

Moro onde me cabem os cantos
e todo canto é infinito,
mas este barril de pólvora onde vivo
parece que implode

0858. O 4º último poema para Lyvian Cristina

Vendo-te assim a falar até pelos joelhos
inquieta, dançando, levantando a saia
e ajeitando os cabelos
chamando o mundo a si
e apagando todos ao redor,
com teu filho a tira colo,
com todos esses teus amores
teus pesares, neuras e deprês
ainda sabendo que me esqueces
como a notícia da semana,
queria um que fosse do milésimo
de tua atenção.
Um abraço de mais de dez segundos
e eu até entenderia a monogamia.

0852. Beijo

o avesso do dia em seu estado pleno
obrigava o abraço e o aconchego
abrigava braços sobre braços e coxas,
pés, pernas e até os cotovelos
o arfar do peito próximo acalentava
mais o infinito sonho do desejo
fazia frio e cobertas não bastavam
mesmo porque o importante fosse
ao final de tudo um simples beijo

0848. Contemplações de algo insone

este que parece ser outro
não é nada mais que o desejo
que está alicerçado sobre o poente
do que não se há de ser
mas que queremos veementemente

este que passa desapercebido
pelo imã entre nossos pólos
é aquele que não diz nada mais que o óbvio
e que fingimos não ver
como se fosse só uma sombra no escuro

mas hoje foi visto sentado em meio a nós
puxava meus pelos aos seus pelos
e minha pele à sua pele e queria o imponderável
da sobriedade num afã de bocas:
mostras de que o desejo é mais do que a existência

0849.

se eu não fosse apenas um menininho perdido
entre o tentar se entender e o procurar ser
diria coisas singelas como tomar um sorvete
e olhar o pôr-do-sol contigo
mas remeto-me ao que me confunde e não
deixa que me torne um estado de estabilidade
tal ao ponto de dizer-te algo mais direto
do que isso

0846.

um inside de fora pra dentro
traz-me o momento
em que nos conhecemos
foi um dia azul com certeza
e as coisas aconteciam
à revelia do que aconteceria
faz-se alguns anos então
e você hoje também
não muitos, mas mais um
e essas recordações
sem nexo, são só pra
dar um prefácio razoável
ao dizer-te: feliz translação!