Quão piegas é todo o amor
Vivo néscio em cantos de louvor
Ébrio nesse torpor eu vou
Entre a primavera, a bruma, o mar
Entre o que já sou,
Descubro o que é o amar
Ele é fugaz, mordaz, feroz
Um momento a mais, veloz
Creio que aprendi a amar
Amo o conversar descontraído
o se apegar distraído
Aos mais simples detalhes
Às minúcias da simplicidade
Eu amo o simples!
Amo as árvores e os pássaros
Amo a onça, exemplar raro
Não um amor de Jacó,
Afinal tudo retorna ao pó
Mas sim, um amor menino
Puro no momento,
Eterno ritmo
Autor: Guilherme Carvalho
0043. Ato IV – Cena III – O fim
Começa tudo assim:
“O poeta é um fingidor”
ser lírico, um ator
à milímetros do fim
Pronuncio angustiado:
“pra ser feliz eu canto”
música cobre-me, manto
meu ego ajoelhado
0039. Miserere
Finjo viver
Vivo a fingir ser
Sou um só
Que é vivo
Penso, logo sou
Sou ser
Sou fraco, ínfimo
Infinito
Universo micro
Sou infinito
Faço parte do universo
Finito
Quem sou?
Sou finito
Ser, aflito
Para onde?
Macro e micro
Único como todos
Igual a todos
Ser que finge viver
Sempre ser
Sendo ser ao ser
Ao fingir viver
Sou
Finjo, vivo
E irei morrer
Descobrirei algo?
Não sei, só sou
0040. 928, 12:30
Vindos da semi-árida bissetriz de norte e leste
Todos mistos, mamelucos, mulatos e cafuzos
Confusos com suas situações
Preocupados e descontentes com suas resoluções
Cansados, castigados, semi-escravos
Paradoxos pois felizes
Hipérboles pois nervosos
Cristãos por imposição
Vodus por hereditariedade
Indecifráveis e desnecessários peões do jogo
Deseducados por má-educação
Mão-de-obra consumidora,
Que levanta pilares de mercados
Onde, com o suor de seu trabalho,
Gastarão sua mínima-esmola-salário
Mas mesmo assim seguem
Esperando no futuro seu paraíso
Pois “é mais fácil passar um camelo no buraco de uma agulha,
do que um rico adentrar ao reino dos céus.”
E por isso mesmo seguem
Respirando o cheiro do progresso humano nesse coletivo
Esperando por panelas cheias em seus lares
E inconscientes de suas vidas
0041. Ode à primavera em agosto
Emle ela
Emle singela
Emle, simplesmente ela
Simples e concreta
Concreta e abstrata
Grandioso substrato
Da psique humana
Emle, mulher que emana
Boas vibrações
Em boas proporções
Emle,
Uma inspiração viniciana
Seria pouco para transcrever
O que você emana
Emle,
Mesmo existindo infinitas metáforas
Ainda é pouco para descrever-te
Emle,
Tão azul quanto cinza é o céu
Tão Clarice,
Tão atípica quanto ninguém é
Tão você,
Você como ninguém sabe ser
Completa, desperta
Como uma flor de minha primavera
Emle,
Rosa amena e ácida
Corrosão de iluminações
Emle,
Tão Emle que nem sei dizer
Emle, tão primavera…
0036. Álcool
O tempo abafado e lento
Não abafa meus sentimentos
O ar não está em movimento
Mas jogo a verdade ao vento
Letras, lágrimas, momentos
– arrependimentos
Rememorações da inconsciência
Mediocridade, remanência
Andar com a tendência
Acumulando milhas de vivências
Cataclismos e inconveniência
– inconseqüência
Memórias da noite não louca
De uma noite áspera e pouca
Gelo seco, vodka e voz rouca
Fel no céu da minha boca
Depressão, alegria, tudo marca
– ressaca
0037. Palavra psicotrópica
Palavras são meu ópio
Diminuem o dor, o ódio
Amortizam minhas quedas
Aliviando os impactos
Curam a torrencial depressão
Travestindo-se de solução
Amenizam meus instantes
Grafando os mais marcantes
Cultivam as idéias concebidas
Retratam os ressentimentos
Cicatrizando as feridas
Findam-se os tormentos
Agrupando as idas e vindas
Dos meus sentimentos
0038. Menina poesia, agora mulher
Imagem romântica
Segunda geração
Clareza da Arcádia
Hipérbole da perfeição
Menina real
Mulher num meio natural
Símbolo parnasiano da beleza
Revolução moderna de inteligência
Renascimento da poesia sul-real
Clássico poema concretista
Morena pré-tropicalista
Contemporânea face da sabedoria
Esplendor de estilos literários
Mulher, menina, inatingível
Inigualável ser
Que só você,
Eliane, sabe ser
0035. Ambigüidade
Meu espírito conturba-se
A paisagem muda
Ora clara e bucólica
Ora cinza e melancólica
Ora negra e explosiva
Ontem, um dia atípico
Ouvi inimagináveis, confundiu-me
Aliviei-me um pouco
Todos tem dúvidas
Descobri ontem
Não sei o que fazer
O que falar para esta inimaginável?
que outrora inatingível
e agora tão frágil
Tento mostrar meu mundo?
Tento descobrir o dela?
O meu desmorona
Panteísmo
O dela desordena
Monismo
Certo ou errado?
Não sei como fica
Não sei como ela está
Só a incerteza é
0032. Claustrofobia anárquica
Paredes aqui
Paredes acolá
Paredes contraem-se
A me sufocar
Paredes memória
Histerias, histórias
Paredes paranóias
Paredes contraste
Devaneio, desastre
Tijolos e massa
Moldam as paredes
Monótonas paredes
Enclausuram minha mente
Fobia
Paredes de isopor
Apenas superfície
Tijolos e massa
Igualdade, mesmice
Sufocam
Paredes sem alicerce
Frágeis, irão cair
O irá me sufoca
Paredes e mais paredes
São todos paredes
0033. Exílio interno
Poesia,
lasciva liberdade
letárgica prisão
Poesia,
contradigo a realidade
contra a tradição
Poesia,
poente da dor,
outeiro de idéia
Poesia
portentoso torpor
brincadeira séria
Poesia,
casto devaneio
cálido alívio
Poesia,
meu único alento
meu auto-exílio
0034. Momento geral
Acima, as fibras de algodão,
alvas e gris estão
Dispersas, não nos dispersarão
Desnecessária preocupação
incomoda impreocupáveis pré-cidadãos
Pressão.
São futuros tempestuosos
que voam como as fibras
e provocam preocupada indignação
Em meio a isso tudo
células cerebrais se perdem,
células hormonais se agitam
Massarte popular que comanda a perdagitação
Euforia, temores, pretéritos,
vem tudo à tona
confundindo o ser que não sabe a questão
Mas tudo segue seu caminho:
fibras alvas e gris (algodão);
desnecessidade (preocupação);
massarte popular (perdagitação);
rimas pobres (pretensão).
Tudo entre muita informação
e pouca conclusão
0031. Como Djavan
O preenchimento falta,
a falta excede
O excesso exalta,
incomodamente pede
que a queda não seja alta
Tento de pé ficar
Fico pois forçam,
forçam-me a agüentar
Agüento o que mandam
Mandam-me tentar
Queria conseguir
Só consigo te querer
Quero te ver sorrir
Sorrindo irei morrer
quando em meu colo dormir
Difícil é falar-te a frente
Tua fronte me confunde
Confuso quando de ti rente
Rezo para que eu não afunde,
fundo nesse mar horizonte
Apago-me quando está perto
Perto, mesmo discordando,
minha mente é um deserto
Deserdo de mim te coroando
Coroa diamante de brilho certo
Me chamas de último
Último como o moicano, sou
Só me vejo ínfimo
observando teu infinito, vou
Vôo quase louco em meu íntimo,
morrendo por ti de amor
0029. Minha mutação nela
Eu te vejo com diferentes olhos
Não com os olhos leigos e invejosos
Dos que não sabem amar teus modos
Teu trance que hipnotiza meu logos
O teu jeito elétrico me completa
Tu distorces minha realidade
Por osmose meu viver se desperta
Na doce e complexa simplicidade
Em você vejo minh’alma simétrica
Te entendo de consciência a coração
Ser com a mais plena e sublime estética
Está a milímetros da perfeição
Conseguindo desconfigurar a ética
Desta minha pobre imaginação
0030. Alerta vermelho
Todos alertam
Finjo não ouvir
Ego e infância
Quero cair
Maníaco sou
Psicose do amor
Capto tudo
Transformo em dor
Todos alertam
Do azul ao castanho
Criei pedestais
Inatingíveis
Ambas completam
Duas romantizei
Não devo e sei
Sei?
Todos alertam
E como sempre
Sigo outro rumo
0028. Mulheres
As olho, mas não as vejo
as olho, mas não as sinto
Ah mulheres, por vocês eu minto
a mim,
aos outros,
a todos
Mas de que adianta?
Superfície bela e rasa
– não generalizo –
e mesmo assim me arrasa
Vejo colegas a beira da loucura,
já não possuem razão
andam a esmo,
pensando em suas amadas
– pensam em carne, mas pensam –
Insanos e sedentos
Simples poeira ao vento
Ah mulheres
será que existe o amor?
Ou só na fraternidade este existe?
Por que não o amor de opostos?
Ah mulheres,
o que vocês fizeram comigo?
Ah, maldito o dia em fui ser amigo…
0027. Quimera
Beatniks previam ao mundo
Algo novo estava por seguir
Sinto algo no atual semblante da história
Vou a lugares
Sinto todo o peso do universo sobre mim
Todos perdidos
Procuram por mim, por você, por si
Percebo odores de revolução
Ataque massivo de essências desconexas
Doce, fumaça, pó
Todos perdidos, loucos
Insanidade pré-mudança
Conexões humanas
Infovias em busca de prazer
Catalisadores para a inconsciência
Ébrios de imagens num nirvana eletrônico
Nada se cria, tudo reencarna
Átomos, idéias
Moléculas, ideais
Todos perdidos, sem salvação
Esperando salvação de Alguém
Escutando a si como Alguém
Misturando diversão e salvação
Causa e conseqüência
Muda-se a economia
E mais uma geração se perde
0025. Chapada
Seios de terra
verde queimado
Azul do infinito
Ao longe me vejo perto:
Insignificante içá
O mecanismo celeste não pára
Gira, muda
Cumes cristalinos
Fontes de vida
Dias, noites
Crepúsculos, dilúculos
Quartzo verde, azul
Cristais multicoloridos
Cerrado e psicodelismo
Auásca de beleza
Templo natural
Completo e congruente
Mística mítica
Num mundo mundano
Mistério profundo e profano
Sacro e sagrado
Recinto santo
0026. Novidades
Pessoas falam
Será que as conheço?
O tempo passa
Já não sou mais o mesmo
Penso em morenas, mulheres
Será que as amo?
Eu retrocedo
Meu eu não ama alguém,
Ama tudo
Metafísico amor absoluto
Será que o sinto?
Tenho certeza de nada
Meu universo desmoronou
Remonto-o aos poucos
Mas é difícil reagrupar
Idéias, conceitos, verdades,
Reagrupar à realidade
Amor outrora inexistente
Hoje atormenta a minha mente
Devaneio,
O amor em carne e osso
Passa à minha frente
Utopia do amor
Morena?
Não a conheço… e o tempo voa
0022. Ode à garota que emana a felicidade
A fonte de inspiração é infinita
Formosura e sapiência em paralelo
Na mais longínqua expansão do universo
Encontram as virtudes que te agregam
Por isso, eu, inebriado de ti, espero
Quando te vi fui povoado aos montes
Por você, apaixonei-me à primeira vez
Que meus olhos avistaram tua tez
Seu jeito melancólico, lá longe
Belo à mais, tantas vezes, que o horizonte
0023. Bruma
Formosa feiticeira
me encantou
Linda mágica
que me manipulou
Jeito sereno,
luz interior
Olhos de mel,
perfeito resplendor
Mulher mito
Ostenta o belo infinito
Rigor da inteligência
Gera-me um risco:
Amar, verbo intransitivo?
No momento
Norteio-me aflito
Ante sua presença
Ser magnífico
Completa harmonia,
Magia
Sinfonia de belo som
Morganna, serena e linda
Como uma bruma de Avalon
0024. Não mudei, mudaram-me
Mudei,
dialética psico-social
Mudei,
deixei a depressão banal
Mudei,
vivo agora a banalidade real
Mudei,
mas permaneço igual
Mudaram-me,
pois mudei o visual
Mudaram-me,
até meu gosto musical
Mudaram-me,
deixei de ser o conselheiro leal
Mudaram-me,
mas permaneço igual
0020. Utilidade
O que eu quero
ver, sentir e conhecer?
Ou seguir o rumo normal da vida,
olhar, fingir e decorar?
Um quê depressivo
quer se apoderar
Luta para não perder a guerra
mas o que pesa são as batalhas
que de tão constantes
tornaram-se maçantes
Em torno de mim eu sinto,
eu vejo,
eu olho,
eu conheço,
eu decoro,
eu finjo
As vezes acho o poeta
um ser desprezível
banaliza ou enfatiza tudo no papel
esconde de todos o Tudo
numa parede de metáforas
numa sopa de letras
numa coisa não tão importante
que ao poeta é a essência
e para o cidadão é “bonitinho”
é inútil falar da inutilidade dos poemas
pois a utilidade existe
incrustada na minha felicidade
de ver a rotina dos meus pensamentos,
os turbilhões de percepções,
as minhas memórias,
as minhas recordações vitais
grafadas em palavras
0021. Dia-a-dia
Máscaras, máscaras
Por que?
Não é festa à fantasia
Para que?
Estamos em pleno raiar do dia
Todo dia é a mesma coisa
Tudo a mesma rotina
Tem amor todo dia
Tem tristeza na esquina
Tem gula na cozinha
Tem fome na vizinha
Tem volúpia de monte
Tem beleza no horizonte
Rotina tem todo dia
Todo dia a mesma rotina
É, a rotina acaba comigo
0017. Inspiração
Quatro paredes
um teto
um piso
meia luz
um guarda-roupa
duas camas
um jazz no rádio
um quadro
cento e vinco livros
sessenta e três vinis
duas esculturas
um artesanato indígena
dois quadros inacabados
milhares de estrelas
meia lua
um banquinho
um violão
dois amores
cinco folhas amassadas
uma porta fechada
uma mente aberta
um gato pulando a janela
lembranças
imaginação
solidão
0018. Nada mudou
Quinhentos anos de quê?
Miséria, fome e exploração
Quinhentos anos para quê?
Aumentar os ânimos da nação
A escravidão ainda existe
Com mínimos salários ela insiste
Em não sair da nossa história
Marca a ferro e fogo nossa memória
são quinhentos anos
Sigo sentindo o sangue
Do povo pardo e pobre
Que sempre escravo e excluído
Maquinalmente, míngua e morre
Em quinhentos anos
correntes só foram quebradas
Para aumentar a produção em massa
Fingiram acabar com um horror,
aumentaram o mercado consumidor
0019. Transporte
Viajar de ônibus é melhor que lotação
Tem cara de filme asiático
Tem ar de depressão
Tem panorama estranho do asfalto
Tem solidão acompanhada
Tem a impressão de estar lá no alto
Tem o frio da baixada
Tem crente pregando aos montes
Tem gente que não tem nada
Tem a pseudo burguesa quente
Tem um monte de parada
Tem beleza no horizonte
Tem o medo da virada
Tem um longo caminho à frente
Gasto 1,30 para não dar uma caminhada
0014. Querer (São outros quinhentos)
Não quero falar do começo,
cheguei perto do fim
Não quero falar do amor,
estou cercado de ódio
Não quero falar do universo,
sou só um humano
Não quero falar da verdade,
sou uma grande mentira
Não quero falar do nada,
somos um pequeno tudo
Não quero falar da morte,
aparentemente estou vivo
Não quero falar da paz,
vivemos em estado de guerra
Não quero falar da alegria,
tudo é dor
Não quero falar do tempo,
nós o criamos e nele nos perdemos
Não quero falar da inocência,
já me perdi há muito
Não quero falar da religião,
ninguém me dá crédito
Não quero falar da beleza,
tudo é perfeito
Não quero falar de catalisadores,
consigo o efeito sozinho
Não quero falar da igualdade,
há contradições demais
Não quero falar do não falar,
não suporto ficar mudo
Não quero falar…
…agora, escrever…
0015. Rota de fuga redundante
Na alvorada de um novo dia
Todos, cidadãos comuns,
Por ele passam: apenas mais um
Hoje, vejo-o como antes não via
Mundo maravilhoso
Que a luz do sol irradia
Vejo a lua, círculo formoso
Nossa irmã que a luz reflete
E com ela cresce e sem ela míngua
Nova rotação, tudo repete
Dos mistérios do universo
Nada fala mais nossa língua
Criticam os meus versos
Por saírem da lógica da rua
Por falar do vermelho das cinco
Ou da saída de uma falua
A realidade mundana dói demais
A estranha é incompreendida
Por que não falar das duas
Se ambas são reais?
0016. Espera
Nunca provei o amor
Vivenciar o fulgor
de uma paixão avassaladora
Os ímpetos ocorrem aos montes
Sinto-os como desejo, atração ou gosto
Escuto com ouvidos de inveja
As descrição de outras vidas
Embora não acredite muito
No que percebe meus sentidos
Mas mesmo assim, sigo
Espero, quero e estou aberto
Até o momento, para mim,
o amor inexiste
Hoje, tenho fé e sei que um dia
posso viver meu Canaã dos sentimentos
0012. Soneto da rotina
Perguntam-me como vai a vida
Respondo que não vai, tenta
Questionam-me como vou
Digo que não vou, sou levado
Minha vida é uma nau sem rumo
Sem vela, sem mastro, sem nada
Tentando fugir da fúria de Poseidon
Mas não há porto seguro a atracar
Desilusões e decepadas
Como repudiar a depressão?
Derrotas demais destroem minh’alma
Minha vida, sem amor, sem fervor
Muito horror, pavor e torpor
Fazer o quê? Tudo é dor…
0013. Pensar
A única coisa que existe
é o meu pensar
Do resto tudo posso eu duvidar
Não sei se estou realmente acordado
Não sei se escrevo mesmo algo
Penso ter um corpo, penso saber coisas,
mas como acreditar?
Se eu parar de pensar,
tudo pode num piscar de olhos, acabar-se
Não sei nada sobre a vida,
muito menos sobre a morte
somente penso saber
somente penso temer
Só posso pensar,
mergulhar no oceano da minha mente
e viajar
Posso pensar ser tudo mentira
que um dia irei eu desvendar
Pode ser em morte ou vida
Eu não sei,
nada posso afirmar,
só posso pensar…
0009. A festa
O ápice da escuridão se aproximava
As ilusões se iniciavam
Muitas expectativas
E a certeza de muitas desilusões
O odor de cigarro se espalhava
O de álcool também
Mentiras sobre mentiras
Todos estavam com suas máscaras
E nem era noite de fantasias
Meus olhos se perdem na opulência de muitas
Finjo apreciar o intelecto
É nessa hora que ponho minha máscara
0010. Chico comum
Como sempre fizera
Hoje, ainda crepúsculo, saíra
Ia andando apressado
Corria, sem olhar para os lados
Onde ia? Lugar comum, seu trabalho
sem vida, ia aComodado
sem buscar melHor salário
apenas confinado a Ignorância
de ser um ser Comandado
sem remorso, nãO à esperança!
Anda Chico, não pare
O tempo não pára e o amanHã já está aí
Corre Chico vaI pegar tua estrada
Pois quem não Corre contra o tempo não vive…
Você mOrre
e esquecem que um dia você passou por aqui
Emle P.
Guilherme C.
Maria Helena
0011. Estados
Levemente passou pelo portal da intolerância
Levemente, em busca de alívio
Sorrateiramente afanou o veículo
Sorrateiramente, sem despertar ninguém
Aflita começou a escrever
Aflita, redigiu suas últimas palavras
Chorando pensou em tudo
Chorando, molhou as letras
Cansada arrumou o local
Cansada, sentou-se em sua cama
Confusa e perturbada, pensou
Confusa, não achou outra solução
Pelo portal da intolerância, tudo tranqüilo
Pelo portal do sofrimento, um barulho
Inesperadamente ninguém ouviu
Dormiam um sono profundo
Dormiam o sono dos justos
Pela manhã, indignados, todos não entendiam
Sofriam, choravam, fingiam
Não entendiam, pois não queriam
0007. Identidade neo-liberal
Deturparam nossa identidade
Confundiram-na com futilidade
O que identifica não é o eu
O que identifica é o que é meu
Minh’alma é meu capital
Acabou-se a essência original
Não dão mais valor à mente
E sim ao modo de usar o pente
Você vale o que você veste
Se na moda não se encontra
Talvez na vida não preste
Fale idiotices e sem pensar
Não use a sua identidade
Hoje, ser autêntico é errar
0008. Uma imagem do amor
Sei que não me ama
ou penso saber
Não tenho certeza de nada
e nem pretendo ter
Gosto de ficar sentindo
que posso estar errado
mas não erro, minto
No momento a única coisa
que eu quero realmente
Era do seu lado ficar
Mas na vida real
não consigo me expressar
Falar o que sinto por você,
não dá…
Num ato individualista
Esqueço as guerras e a fome
Pois você é só amor
Só não sei se você pode compreender
que o amor não é feito de imagem
Não só os gregos são belos
0004. Marasmo blues
Eu vivo blues
Perdido no saudosismo
dos teus olhos azuis
Perdido nas curvas do teu corpo
Perdido em todo o teu rosto
Eu me perco no teu lado louco
Quero acabar com essa solidão acompanhada
Quero que tu sejas para sempre minha amada
Fico perdido em pensamentos
Que não devem ser pensados
Vem logo aqui ficar do meu lado
Queria saber como é o teu pensar
Queria saber como é, para eu te amar
Você me chegou simples e linda
Mudou todo o rumo da minha vida
Machucou meu coração, deixou ferida
Seu jeito sereno e tranqüilo
Por um infortúnio, só foi um jeito amigo
O que faço agora, já que só consigo te amar?
Mesmo parecendo que você quer se afastar
O que faço agora se não me lamentar?
0005. S.O.S.
Estou preso e cercado
Por onde passo sou fuzilado
Por uma cultura pseudopopular
Feita para nos ludibriar
Deturpando os valores
Produzindo em massa horrores
Vendendo-nos idiotices
Nem percebemos as mesmices
Somos enganados
Como palhaços tapeados
Servindo de escravos
Para um sistema autoritário
Você ouve e você vê
Sem se perguntar o quê
Paga o preço que pedem
Sem questionar a que servem
Tudo merda
E de nada presta
0006. O sol dos tristes
Olho para o teto celeste
Finjo somente não ver
A doce penumbra ir embora
E novas esperanças alvorecer
Esperança para quem as quer
A penumbra foi embora
Claridade me ofusca a alma
A penumbra foi embora
Os candeeiros do firmamento se apagam
Alguns já até mortos
Filtrada por uma cortina verde
Uma claridade quase imperceptível
Incomoda-me muito
Os minutos voam pelo ar
Misturados a odores mórbidos
De uma sociedade capitalista
O astro principal cai
Muitos se entristecem
Eu me entristeço menos
Pois sei que meu sol nasce
Afinal, o sol dos tristes é a lua
0002. Não?
!
Não!
Não pense
Não pense tanto
Não pense tanto em você
Não pense tanto em você se quiser
Não pense tanto em você se quiser mudar
Não pense tanto em você se quiser mudar algo
No mundo inteiro há egoístas como você
Como você, no mundo inteiro há
Não pense tanto para mudar
Para mudar, não pense
Não pensar pára?
Não pensar?
Não!
?
0003. Às garotas do meu colégio
Sinto a volúpia de muitas
Num constante dançar de Mara
Corpos sem consciência vagueiam
Propícios a muitas taras
Sinto no odor puritano do pecado
O barulho do tecido na derme
Mulheres a venda num mercado
Expostas como batatas e alfaces
Atos forçados como mau um ator
Num pensam somente agem
Produtos de uma sociedade de horror
Mundanas serviçais do capitalismo
Escravas inconscientes da mídia
Vítimas bitoladas do modismo
0001. Dias, procuras e encontros
Um dia quis eu ser poeta
Num belo dia amanheci,
comprei um caderno e escrevi
Briguei com as palavras
Procurei sinônimos e adjetivos,
encontrei desilusões
Um dia quis eu ser filósofo
Num belo dia acordei,
não me penteei e me calei
Pensei comigo mesmo
Procurei todas as respostas,
encontrei mais indagações
Um dia quis eu ser músico
Num belo dia levantei,
arranjei um violão e tentei
Cansei meus membros
Procurei algum dom,
encontrei desafinações
Um dia quis eu ser romancista
Num belo dia anoiteci,
liguei-me e muito tramei
Pelejei com minha mente
Procurei uma história única,
encontrei desgosto
Um dia quis eu ser intelectual
Num belo dia me deitei
abri um livro e o li
Assisti a filmes cults
Procurei falar bonito,
encontrei decepções
Um dia quis eu ser pintor
Num belo dia entardeci,
uma tela em branco consegui
Branca ela continuou
Procurei inspiração,
encontrei aflição
Um dia quis eu ser escultor
Num belo dia me sentei
e peguei a pedra que encontrei
Lapidei-a, modulei-a, tentei
Procurei as formas,
encontrei o nada
Um dia quis eu ser revolucionário
Num belo dia madruguei
uma bandeira vermelha pintei
Colei cartazes em muros
Procurei mudar algo,
encontrei liberais
Um dia quis eu ser hippie
Num belo dia caminhei,
mochila nas costas coloquei
Sai pelo mundo andando
Procurei um sentido pra vida,
encontrei labirintos
Um dia quis eu ser
Num belo dia existi,
respirei fundo e tremi
Vi a mim e o mundo
Procurei algo,
encontrar-me-ei