3749.

perdidos entre a areia branca
e o céu atordoado
de linhas auroreais
pequenos sulcos de luz
advertiam às nuvens
que a tempestade não viria
sem luta

perdido entre a areia branca
num longe de qualquer fim
um olhar estendido mar
tinha por olhos o oceano

perdida na areia branca
o mar a engolia
em ondas de branca espuma
a luz

perdida dentro da areia branca
ela via tudo acinzentar
enquanto a noite caía por tudo
e aprisionava entre os grãos de areia
a luz

3748. produtora de mundos

i

não aquieta
mesmo quieta
fluxo infindo
que afoga e carrega
                 fragmentos
                 inteirezas

                 inunda

vai corroendo pedras
esculpindo formas

 
ainda que se desvele
– das formas
uma verdade elétrica
vinda além do céu

 
 
ii

enquanto a revelação não vem
ela revolta
molda terrenos
de dentro pra fora

 
 
iii

a liberdade é um relevo
                 acidentado
                 dentro de sua paisagem

 

3747.

um mundo feito de migrações
êxodosdiásporas
antes de toda a manifestação
das fronteiras
apenas algumas muralhas
e os caminhos como limites

 
                  na próxima bifurcação
                  é melhor cada ir para um lado

 
                  em solidão remota
                  sem controle

                  sem juízo, tudo acabado
                  de início

3738. Torrent-e

Para conhecer os nós
eu teria de ser o ar que os envolve –
amarras sequenciais, fluidas
atam e desatam, viram teias.

A natureza dos nós
é dada por dedos precisos
que escolhem as qualidades: cegos ou frouxos.

Atam memórias, anseios, horizontes
agrupando cordas que enforcam e subjugam.

Os nós tecem as redes que abrigam cardumes –
habitat temporário de quem será devorado.

A vida tem sido feita de nós
que conectam arremedos passados,
meio presentes, parcialmente futuros.

Diante dos nós
os laços são clones
sem estudos dos impactos,
os nós – tatuagens híbridas, intervenções.

Massas amarradas, como gado pro abate,
atando mais nós, armadilhas,
os nós nos ligando
ponto a ponto
emaranhando.

Eu e você já nos aprisionamos
entre todos os tipos possíveis,
deles, os nós, que somos nós apenas se tivermos nós.

Já possuem vida própria.
Tantos e tamanhos, da textura de tecidos
que vibram como se ondas d’água fossem.

3736. Périplo

“Nas minhas andança dentro do cerrado
Já vi coisa do invisivi e do malassombrado”
Elomar

 
Andarilho de chinelos gastos arrastando
passos pelos quatro ângulos do quadrado
tendo o ocaso a anunciar os findos dias.

Dos pés que chicoteiam o chão e da pele
vermelha de barro ruidoso, o sangue em
pó, nuvem rasteira, se afasta de mim, lá pra trás

poeira minha, de terra minha, erguida
do cansaço longo dos meus próprios pés
vão virando redemoinhos de criança

– num tempo em que começou a dor de andar
viração de viver sem ter escolha, fumaça de saci
só cerrado e sertão se descampando.

Cada grão elevado, levado para onde pisei
distando os passos desde onde já estive
pousa num canto obtuso entre capim e raiz.

Como sei que caminhei, caminho
sempre atrasado no horizonte, no sentido
de onde o sol diuturnamente se esvai

vermelho como o chão que arrasto
nas tardes dos dias que inefavelmente existem
onde ando, antevendo o abismo da noite.

O sentido do poente, onde atrás tudo já
se apaga, cobrindo meus rastros com
o manto de chumbo de acolher estrelas

é o sentido do percurso, até que num cardinal
encruzilhado, o fio da comunicação
há de mostrar-se esfera e admoestar passos

“segue outro rumo, vira os pés austral”
Já alfabetizados nessa língua dos ventos
meus pés então se permitem não procurar o sol

e como foram as horas que andei
quando de lá de cima muito além não se vê
caminhei apenas pelo tempo, feito de barro vermelho

pós me arrodeando, paus secos meus irmãos
passos lentos, passamentos, buracos na mente
pensamentos, como se se fosse possível sê-los.

Andante, prossigo, caminhando até sobre as águas
dentro delas o sangue em pó vira lama
costela e marcha, incessante e adiante.

É que no meio da noite, quando se anda
é preciso fechar os olhos e com as palmas dos pés
ler o braile dos relevos, as formas nas pernas

há o estalido dos gravetos e o mato amassando
e o assombro das corujas pelo assomo
de minha presença, fortuita e humana

dentro do breu, um mundo de betume
e esses silêncios assustados, luzindo vagos
e lumes ao longe, zumbindo coisas em línguas mortas.

É que eu ando como a força da Terra
oscilando de cá pra lá sem saber ao certo
qual é o centro ou se o centro é em todo onde

sendo assim, indecidido como a Terra
volvem-se meus pés rumo ao nascente,
à espera talvez de que o sol se apresse em me beijar

e ainda assim, há que se passar pelas trevas
já que a hora dada é a de que durmam
seres rastejantes só que não, espreitando meus pés

mas eu sigo a vazante das estrelas rumo ao beiral
do dia, um porto de claridade atracados barcos
de vida, prontos a acordar e zarpar, meus pés insones

há morros no percurso, bem dentro do escuro
contornando córregos que tagarelam águas
em manadas, cardumes palavreiam dentro da noite

falam motes: “lava os pés, limpa a sola, lambo
rio de descansar tua caminhada”, eis que paro
ainda que o orvalho já floresça em meus pelos.

Diante do sentido tido, ido, o sol há de me encarar
borrando cárstico a anunciação das horas
o sol nunca dorme, como os meus pés

que se principiam ao sol alcance, seu
de todo modo ele há de vir, e afugentar os espíritos
que me rondam, voando baixo sobre a poeira

instalada atrás dos meus passos, anunciadoras
do que já andei, vestígios de que fui
a esperança de que desvanecer é apenas ir.

Sei que o que alcanço é a própria caminhada
moto-perpétuo de se projetar alhures
– o rumo de nunca ter pra onde nem porque.

Mas há espíritos que me contam segredos
durante a caminhada, falam palavras de cansaço
e querem me prender no molhado do chão matutino

de manhã cedinho e de tardinha,
todos os espíritos saem de suas tocas
e querem me tocar, almas, plumas de painas

penadas, até que pássaros emplumados
saem de dentro da manhã nascente e me dizem:
“lá vem o sol, siga boreal, queime a destra”

meu pés refazem o percurso e angulam-se
em noventa os graus, fechando a senda
geométrica que governa os meus caminhos.

Com o sol despontando candeeiro disposto
a roubar qualquer outra luz, aquietei-me
dentro do azul, passante quase em repouso

passaredo em solitário, coletivado na estrada
voo baixo de se ter em terra, barro e pó
irmanado ao desassossego de se ter prostrado

num mesmo sítio, minha morada é por onde
ando, meu arranjo nômade feito me desterrar
o peito diante do assombro, de ir.

Meu corpo é feito de pés e passos
arrastados dentro do cerrado e vagueiam
deixando atrás de si, um rastro de poeira.

Lá na frente foi a partida, desde quando não sei
ainda agora lá morarei pelo raso das horas
me acertando novo prumo poente, outra vez.

3735.

quando não se deseja,
dois afagos lhe são dados
vivenciados sem expectativa
e de plena a carícia

um deles é o chão
superfícies irregulares
rasgadas de tons múltiplos
terra, pó, cimento, ardósia
mesmo o lixo entre as pedras
instiga de se ver

o outro é o céu
superfícies mutantes ao
longo do dia
morada do invisível
e de tudo o que desmancha
onde a gente vive sem ver

 
quando não se deseja,
se olha pouco para os rostos
que transitam seu caminho

olha-se o chão ou o céu

o problema são os tropeços
dada a desatenção
que ocorre quando não se deseja

 
e meu problema é o enleio
de quando não desejo
que mesmo nada vendo
se acomete em mim pelos cheiros

3734.

entre a árvore e o espasmo
navego
e é uma distância
de pelo menos vinte séculos

além do tremor
há o futuro e chamas
abaixo e acima da terra,
antes da seiva
houve a casca e um
momento que nunca começou

a permanência me permuta
entre dois cais
e às vezes meu corpo
se dilacera entre o lá e o lá
quebro-me barco contra o
rochedo
e meu naufrágio gira
num redemoinho de agora

nem lá nem lá
sigo-me inteirando os
fragmentos

entre a árvore e o espasmo
um mar
puxando-me às abissais
do tempo

3733.

Abaixo do manto noturno
uma legião de insones
a trafegar de lá para cá
sem sair de suas cadeiras
sem sair de suas camas

Enquanto isso
correntes queimam
os sonhos de quem pouco
ainda dorme

O clã das olheiras
Na cidadania global da insônia

 
Só durmo, porque desisti
E a fissura dormente dos insones
queima meus sonhos

 
O wi-fi nunca desliga

3731. eu vejo

pelo retrovisor da bicicleta
o sol me acerta
à frente
minha sombra projeta

leste a oeste
leste a oeste
são minhas pernas
à sombra
na bicicleta

ao fim da via viro boreal
e a meta poente vira o norte
quando viro à direita

atrás austral
e o sol à leste
meu yin acerca
com seus raios de seta

e a sombra dos raios
das rodas da bicicleta
caem poentes
donde o sol ao fim do dia
certamente resta

3728.

quando seu universo não é comungável
quando se é alienígena
quando em sua língua só há um ser ainda falante
quando ninguém lhe tem empatia
quando um mar de sorrisos obrigados avança
quando você não mora sequer na memória
quando se é dos transmundos
quando a palavra companhia é sinônima do seu tronco
quando se escreve para avatares
quando se ri para aparelhos
quando se fala com teclados
quando se toca em busca de prazer
quando tudo o que o contorna é segredo
quando nada mais se faz sagrado
quando não existe troca
quando entre o peito e a garganta um mundo
quando é um mundo que ninguém trafega
quando você resta

está no adiantado da hora, pois

é quando o horizonte se mostra mais amplo
é quando a liberdade não é mera palavra
é quando os instrumentos reverberam
é quando o canto ecoa solitário em si
é quando as cores te dominam
é quando o céu lhe acaricia
é quando os enredos te comovem
é quando o sabor se assemelha à infância
é quando você se enxerga
é quando você escuta
é quando a mente clareia as formas
é quando seu corpo dança no escuro
é quando o quando não importa
é quando todo onde você está
é quando partir chegando
é quando o peito desoprime e a culpa foge
é quando você vai

3726. a-deus

vi três estrelas cadentes no céu
desde o começo do ano
e hoje no vagão da volta
três pedintes clamaram
por qualquer trocado

o número três não é cabalístico
tampouco há providência

no jardim dos acasos
eu e mais duas pessoas
somos apenas três

            – coincidências entre
            espermatozoides e óvulos

e o único óbvio
é que só a aleatoriedade explica
tanto quanto,
não salva

3723.

quem sairá da sua redoma
do seu trono
e oferecerá o apoio
o esteio
ou pelo menos a pergunta:
“precisa de ajuda?”

não serão os reis, as rainhas
nobres e fidalgos
tampouco a sua irmã ao lado
nem seu pai ou seu amigo

será ninguém

regozija-se, pois, consigo
e a revolução não será televisionada
será espelhada
 

empatia é mato
no planeta dos egos em colisão

3722. totalitalirismo

será a comunhão dos sentidos, a falta de
e o equilíbrio da razão quando precisa
contemplaremos
teias, linhas, pontos
tudo em movimento

dança pura propagada

nada serve, é ser
nada serve ninguém e é seiva

            – admire seus segundos
            secretamente sutis
            dias seguidos
            vivos

            sinta, medite…

3721. totalitarismo

é o império dos cinco sentidos
junto ao domínio da razão pura
nada é contemplável
é apenas um fio longo de ideias conexas
só meada

política bruta semeada

tudo serve para algo
tudo serve a alguém e é alvo

            – ocupe seus segundos
            seguidamente úteis
            dias seguidos
            cegos

            sentido! marche…

3720. mor ar dá

haveria espaço para os passos?
ou seria tudo apertado, atabalhoado
ou seria corredor amplo, largo

seria casa, o que mais?
varanda e quintal
seria quarto e sala?
fogão ao lado do sofá
seria cortiço?
belzebu transando no cômodo ao lado
seria mansão?
a vasta experiência da solidão

não sabia qual seria
tamanho, lugar, nascente, poente
vista pro nada
sem vista
só paisagem
uma rodovia junto à cama
23º andar para pular
madeirite e papelão
bem localizada

nada dizia como seria
quando seria

mas havia um porquê
guardado no fundo dos seus olhos
quando encontravam os meus
e flutuavam juntos
no ar

e foi nele que moramos

3719. O fim da estória

De onde vem o saber do mundo,
o nome das coisas,
os sons com seus significados,
os gestos e sua sabedoria?

Quem habitou tudo com sentidos,
ensinou a enxergar,
separar formas no todo embaralhado
distinguindo contornos?

            – um telefone sem fio de milhares de milênios
            transcorridos, tudo cortado desde
            a origem

Desde a mente primitiva, animal,
forrageando no meio dos cerrados,
o mundo vem sendo criado

Quantos deuses nascidos de trovões, do fogo?
Quantos deuses ceifados?
Quantas destruições e recomposições do humano?
Quantos sopros de vida?
Quantas almas nasceram e sucumbiram
carmas divididos, juntados, transtornados?

E ainda assim, o passado vem à tona
Múltiplos armazenamentos para explicar
para contar essa história feita de bifurcações
que bifurcam e que bifurcam e depois
bifurcam e, então, bifurcam

Separações e fusões
sangue e amor
percorrendo e fazendo as eras

Cabeça após cabeça,
a narrativa de todas as diásporas
dos mares de migrações
ambientes tomados, partilhados, cercados,
livres

Uma Terra como o todo

E sempre há aquela, que falou para aquele, que ouviu
daquilo – pois que até pedra era gente –
que foi segredado por um bicho:
que depois daquele morro,
por trás daquela serra,
além daquele mar,
alhures do deserto,
no meio da geleira,
por dentro da floresta,
léguas deste lago,

morada há
e bom paraíso
Que é lá que os espíritos nascem

E cabeça após cabeça,
após cabeça após
os pés se guiaram para o agora

Milhas e mais milhas de memórias
transcorridas boca a boca
gesto a gesto
toque a toque

até dar nesse vórtex de dispersar conhecimento e informação
chamado hoje

 
Eras, eras e mais eras, de mais eras do que se pode supor
descontinuadas para um futuro
que engole o que foi e o que é

3718. Outros gênesis

Aqui começou o Azul,
tenho certeza
E foi nesse
mesmo ponto do ano

Assim que se separou
aquela massa de
trevas, lama e lava,
foi a primeira coisa
que Ela criou

Calma e feliz, Ela disse:
“Permita-se, Azul”
E dele todas as cores
foram jorrando em cascata
e se depositando
em cada forma que,
inexplicável,
se criava

Dos frutos do Azul,
todas as impossíveis
formas se adornaram
Germinaram beleza
desde o Azul

que aqui se permitiu
pela primeira vez.

3717. Horóscopo Floral

Queria construir outras constelações
e a cada traço imaginário
unindo os pontos, as candeias,
reverter os destinos

rastrear o plasma arremessado
por estrelas passadas
ardendo eltro-magneticamente
a fagulha dos contornos

Não destruir os signos,
mas distrair os sentidos tidos
e recompor o firmamento

Faria em cada nova constelação
uma flor, ou seus cachos:

Quem nascesse sob o signo das Gerberas
seria solar, raiante
A quem pousasse a constelação de Gerânio
múltipla e ímpar se faria delicadamente
Quando no horizonte despontasse
em acensão as estrelas que compõem as Begônias
o eu de quem assim surgisse
irradiaria a suculência da vida
Sob os auspícios da Rosa
teria personalidade de quem
fere retinas dado o belo
O signo da Açucena
oposto complementar ao de Jasmim
traria a elegância opulenta
contrapondo-se à fineza discreta
E se Marte repousasse aplicativo
à constelação da Flor de Manacá
sua ação seria doce e leve
Pelo signo de Violeta, o mistério, o segredo
e a necessidade do velado
No trígono entre Vênus e Dama-da-noite
a suavidade e o perfume exalariam
da sorte desse encontro
Entre a Lua e Lírio
um ser de sentimento aberto e calmo
dado à emoção
Se no Meio do Céu se formasse
a constelação de Tulipa na hora do nascimento
trabalharia com o coração, abençoando todos
os frutos de seu labor
E quando na 12ª Casa, repousassem as candeias
no feitio da Orquídea, o mundo espiritual
seria contagiado pela plenitude
ciente da brevidade

dessa nossa matéria
feita de pó de estrelas

3709.

houve um tempo
em que amávamos devagar
e quando do dissabor
curava-se com solidão
e um vermute, anos a fio
era uma velocidade
de caminhar a pé
de cartas transoceânicas
levava-se bodas de ouro
até se aperceber do amofinado
até se juntar rusgas
e se tocar pelo invisível
do desenredo

não é que amávamos mais
ou doêssemos melhor

é que sentíamos lento