one hundred resons
but not next seson
an open window
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
one hundred resons
but not next seson
an open window
Recuperar a solidão,
sentir as escamas da
deusa roçar.
Perceber a forma do
firmamento por dentro
da pele dele.
Ver a derme aerada,
branda, nuvem, espuma,
pluma de pomba branca.
Ter dimensão das próprias costas,
a firmeza, o cansaço,
a justiça umidamente em brasa.
Centelha divina
de gotícula de chuva fina
e torrente caudalosa de fogo em brasa.
Estar só para que não.
Sair das telas,
fazer de telas as lentes
dos óculos para a composição divina,
beyond HD.
Projeto de dentro para fora
o mundo que me invade de fora para dentro.
Meus olhos como enigma do divino.
Minhas moléculas que espraiam.
Adentrar,
Orun traz
a cá lentar
o Ayiê.
Para-montanha:
suprema Elza
anuncia a nova luz
num grito esférico de Exu.
meu problema não é descer depois,
é descer antes
o dedo no botão
a mão na corda
quem me tombará?
em qual curva meus pés
perderão o assoalho?
em qual baque do freio
no feriado forçado?
o corpo de cristo
nem consegue mais ascender
o fogo, a chama, falha
não há combustível
sequer fagulha
e tudo à beira da combustão
a análise
os fractais, as fissuras, as filas, o fórceps, a foice, a fábrica, os feixes, a fábrica, as facas, as farsas, o fake, o face, as faces, o fácil, as fórmulas, a filantropia, a ferrugem, o folião, o free market place, a fuligem, o fim, a folga, o fole, a fatura, o fôlego, o futuro, as formigas, a família, a fechadura, a ferradura, a fé, o ficar o
que fica, o que finca
a foz
onde acaba, deságua
que não desencarna,
desalma
meu problema não é descer depois,
é descer antes
a estrutura é inacabada, obra por fazer
células, corpo
a placa é de inauguração
e eu não me perdôo
e é uma dor intermitente
a upa fechada
opa, fachada
ofídico veneno de rato
na lata
são camadas e mais camadas
terra em cima de terra,
em cima de rocha
debaixo de lava,
dilema da futura pedra,
corpo da faca projetada na mente a fogo,
fato que enxada e pá
a cavar as camadas e mais camadas
de sangue, suor e lárimas
(e sorrisos e almas tristes,
centenárias, milenares, imemoriais,
perdidas repetições em lendas longíquas
intercontinentais
consumidas em nossas cabeças)
camadas dilaceradas, estratos,
classes, filos e ordens
progressão incomunicável do futuro
pelas vias do passado
o que me silencia é
a voz de todas
retumbo, eco, explosão
a dilatação do infinito
que me entranha
meu carvão, petróleo e gás
minhas plantas que
sobrevivem o sol de bilhões passados
a cada queima,
agora e sempre e até seu fim
minhas plantas que me falam a linguagem
incompreensível dos elétrons e dos polos
a divisão da humanidade
as boas e as más companhias
que decidirão o julgamento do passado
na próxima parada
que não é a que desço,
pois já desci antes,
já apertei o botão,
já puxei a corda,
já me ajoelhei e clamei ao deus shell,
lubrax para os sumérios,
que me leve, me livre, nos livre
sentença e distração
para o processo das galáxias,
um sorriso falso e tudo
se acalma, o bombom
que paga a faculdade
e tudo certo
a janela da alma trincada,
o coração apertado,
partido, mil desejos,
cem mil culpas,
nada basta,
tudo besta, bosta
o dedo rola, passa,
próximo, próxima,
aproxima que o engodo é bento
é banto e basco
bárbaro
meu problema não é descer depois,
é descer antes
como nada mais suspira,
só arfa
afã do arpão na própria glote
te chamaria mar
se fosse líquida e o houvesse
soterra
soterrado por cada vez mais
ar
se eu pudesse ter duzentas vidas
para sentir o que sinto
e viver tudo o que me abarca
se eu tivesse trezentas chances
para construir o que me cresce
se eu tivesse quatrocentos peitos
para ousar todas as flores
se eu virasse quinhentos seres
para dignificar todas as possibilidades
se eu pudesse ser o que me habita
não seria o punhado que nas mãos
vira areia solta, grãos, fragmentos
seria o imponderável
onipotente como deus
que dá a graça de ser só isso
que anseia o espelho do espelho
além além além
do que é possível
No começo do ano passado eu tive um surto, em diversos sentidos e significados da minha vida. Recomposição de tudo. No meio disso, por causa e para além disso, dizendo disso e do resto todo, estando no mundo e o vendo ir, tive e síncope de um livro de poesias. Veio vindo de uma vez, vazando por todas as partes. Vi que tudo ia e resolvi dar vazão a esse veio de versos tortos. O resultado foi este IA.

Subversão da inteligência artificial num verbo substantivado para demonstrar o que minha constituição percebia que ocorria no mundo, e que ainda ocorre. Não é um livro de amor, não fala de amor, o pensa pouco. É um livro de política, de crítica da cultura, de historiografia geográfica póstuma, de antropologia filosófica besta, feito com algum amor ainda pelo mundo, que flerta com a esperança, através da desesperança plena. Amor tal e qual o que anda no mundo cotidianamente: o que ia por aí.
A sincronia ocorreu plena neste ano, uma Editora da Paraíba, chamada Editora Escaleras, topou a empreitada de publicar meu IA. O resultado é este livro, minha primeira publicação impressa. Feito com muito cuidado, profissionalismo e qualidade pela Editora.
O lançamento será logo mais, avisarei pelos caminhos das redes quando ocorrerá. Quem quiser adquirir desde já o livro, entre em contato nos comentários ou pelo e-mail: gcarvalho.silva@gmail.com.
Axé.
As coisas andam
de mar a pior,
abissal de aquários,
agora.
Isso não vai nos livrar
da merda do peso
dos cacos arrastados
garganta abaixo
com areia
isso não vai
O teu íntimo mais precioso
na boca do povo,
cada êxtase luminoso,
uma nova notificação.
Meu pensamento sussurrou três emoções
senti que não entendi nenhuma
meditei três dias seguidos
sobre o que não sentira
raciocinei nada
somei sentidos
desabri a procura
desutilizado
Quem morre primeiro
a cabeça ou o coração?
Aquele que inicia
acima como abaixo
– fagulha cintila
centelha binária
dentro da expansão
que implode
O brilho da explosão
nos emoldura
antes do universo
o próprio contraespelho
O silêncio da matéria
reverbera na luz
que só emoldura a beleza
pela beleza do negro
A cada manhã o sol
tapa a imensidão da escuridão
com sua luz
e a mentira do azul
– o brilho e o anil que cegam
Toda noite o sol apaga
a sua razão
para o infinito não visto
enquanto cabeças dormem
O sol mente e trai
– atrai
todos os dias
esconde suas irmãs heliocentricamente
ego
Apagar o sol dentro
dois instantes
três
até reencontrar todas as estrelas
aqui embaixo
O estado das coisas,
anunciação
Foi a diáspora empreendida
fora de qualquer êxodo
Todo êxodo, agora
A gestação inabitada
no ventre
– o futuro
Milhares de células
segregadoras
Desterro de manada
Deserto de tronos em torno,
disparada
Sete palmos
Sete céus
Sete taças
Sete léguas sempre à frente,
jornada
O horizonte circular
– todo ponto retorna a ele mesmo
Esfera
A imensidão vocifera a luz do início
– ponte entre lá e cá
ponto de ouro para a mudança da prata
O que virá é só
o que vai
é só o que volta
assim como algoritmos
são machistas
bits são binários
na cabeça de quem
os compilou
Stalkeio a mim mesmo
fuçando memórias musicais
na minha lasftm
– é um cara que sofre
Quando me levanto,
por quem?
Quantos me habitam?
algum eu mesmo não sei
Quem observa minha trilha?
Quem se despede na partida?
Quem mensura a chegada?
Os desvios desavisados
por quem?
As fugas forjadas
por quem?
As encruzilhadas perdidas
por quem?
Quem, senão eu mesmo?
que não sei quantos quens
caminham dentro dos meus caminhos
cruzo a diagonal da cidade
nordeste sudoeste
ando por quem?
de quem são meus pés
afobados
de quem minhas pernas
cansadas
corro com meus pés de quem?
busão febril
cá dentro
cada baque no
buraco do asfalto
um tiro no
tímpano redundando
em todo o encéfalo
agonizar sem
nenhum ferimento
a ansiedade da virada
sem ter onde apoiar
cada buraco do asfalto
um precipício
hospício
em que nos jogamos
coletivos
não por agora,
disse
a máquina da ansiedade
ligada
o motor mercurial de marte alucinado
antecipa o passado
reticências insistentes
passa o futuro
eu não sei o que se passa
só o que passa presente
como em mil novecentos e oitenta e um
ana c e paulo paes,
mora?
saí das redes, não sei o que se passa
se instalou lá onde não estou
eu disse oi para o éter
fiquei com o momento presente
traços cinzas das cinzas sem respostas
não como em mil novesentes e oiatenta e ruim
liberdade, construção caduca ideacional
não sei mais o que se passa
a teletela do desejo como dois animais
não há mais segredos
não há mais degredos
há medo e mote e glosa
nada se mete
nada responde
fiquei no vácuo das redes
afirmado para o quê
contradizendo o quê
te vi de relance
depois sumiu
não tinha mais redes
nem sei mais o que cê pensa
nem sei mais,
mora?
como em 1981
eu te quis, como se diz, com todo o ardor
você olhou o buraco do meu assoalho
falou “põe um tapetinho, fica mara”
e me ardeu por meses a fio
eu vi o brilho nos olhos em todos os olhos
o brio
a flama
a flâmula
a chama
encharcada
havia um horizonte azimute estelar
jorro de estrelas pelas beiras
cópula constelar helicoidal no entremeio da galáxia
havia uma doçura dourada persa
camafeu de marian protetura
os séquitos entrelaçados
esbanjavam o alarido hálito árido
compensando a chuva desabrida
lírios bojudos ressuscitavam
o que nada suscitava; a música do ar
e eu te quis, como se diz, como a planta suga
o néctar do sol
fotossintético e fotoanalítico
fótons teus, tons de cor de cachos de cabeça
um pouco mais dos andares da lua
um tanto menos que o percurso do sol
até que o desabrido do começo do céu
da minha cabeça vomitou o urro do breu
e uma brecha para fora de tudo se vomitou em mim
epítome do desaprendido eterno da vida
eu te
é fogo
mas
é chuva
que Ayrá
me assuma
fiquei de espreita atrás do espelho
quando me vi esgueirando diante dele
e lá me prostrei
quebrei-o em trapos, retalhos
segurei meu próprio pescoço
e me costurei cada fragmento do espelho
com garbo e estilo
sou só esse reflexo ensanguentado
Uma marcha trôpega
capenga
bracaleônica,
rumávamos um tropel desalinhado
novelo de teias dispersas
dissolvidas no ar
tudo passava imaginário
Nossas armas eram retângulos
abaulados
e dizimávamos a nós no percurso
Cada baixa era policrômica
unicórnica
tergiversante
falaciosa
Enquanto isso o front contrário contava
as adesões e gritava que a vida branca importa
Nossos deuses morriam de inanição
e nossos cânticos de guerra
nos levavam os cus aos chãos
Nosso exército sem exercícios militares
e sem milicias que apoiassem
Rumávamos ao léu
nenhures de nada além
e bem sabíamos
the reality is
faith
and fake
somos deus e demos
todos demos
nossa gratidão à luz
que se apaga
Aqui, parado pregado
na parada da pista,
pondero as pedras
do cais imaginário
e as partes das nuvens
que caem:
quando o céu acabará,
para que caibamos?
O lado dos tiros
a impresa não fala
São dois os lados dos tiros:
o que aperta
e o que abarca
Há seleção da fala
Quando ameaça a sua
privada
proriedade
há fala
e falos, porretes, pauladas
Quando não,
nem se aplaca
A ira pra cá
já tarda
Deu match
Os fogos orgíacos
Nero sorri
O gozo não é pelo fim
é pelo momento
selfie-explosão nos céus
Putas amordaçadas
cidadãos de dem
além do bem
Jornais jornadas
roubadas de junhos
até o infinito
O que veio vindo
não vaza
escorre visgo de ar
tomando todo o fôlego
Doutrina do choque
sem tirar de dentro
Não tem mais centro
é só extremo
Estrume infértil
que alimenta egos
Tudo há de dar
incerto
essa alternativa rancorosa
lateja.
tudo primeiro
que seja uno dentro.
fazer algo por si
se esquecer dos laços.
fácil, como a água
nesse abril atípico,
enxurrada abaixo.
amor nem salva
nem seiva
saliva
A coisa se mede com um contorno desmedido, tudo trava, tudo quebra, nada arrebata, só arrebenta. O mundo da cabeça desajusta com o mundo do lado de fora do orí, o plexo solar não funciona, os chacras entupidos por gárgulas e fadas, as imagens de algo não realizado que insuflam o desejo e um alento nada cativante que teima em se coordenar mais que o necessário para tentar ser vida. O surrealismo da falta de lastro de realidade cria um imobilismo nonsense num instante fantasmático. Os polostícos paleolíticos paranormais não priorizam a vida de dentro. O que se falar? Nada além de nadas ensimesmados. É uma sexta, é um vinho, é Fátima e nada. Nada ao redor a não ser todos os velhinhos e velinhas do meu prédio assistindo a Globo. A janela do nono andar é uma coisa ancoradora. No nada. Nem lá nem cá, o aéreo dissipado mundo que fora líquido agora nem aterra nem desterra, ninguém é dono de nada. O cansaço disruptivo te enfia dentro da realidade, amanhã, sábado, dia de trabalho, folga de Deus, nem será de dádivas, só de dívidas, 0,01% para quem detém os dividendos de 99,99% de vida. As auroras já não refazem o caminho contínuo até as noites, elas prismam uma luz difusa até que percebamos que nada mais se encaixa. As noites eram mais bonitas nos meus sonhos de criança.
Quando as sirenes passam
giroflex faiscando as margens da noite,
me pergunto:
serei eu?
Quando os helicópteros
sobrevoam rompendo o ar nenhum,
me acomete:
me buscam?
Quando as botas se aproximam
ecos em marcha em volume compassado,
me estremesse:
qual próximo serei eu?
Uma culpa em vestes de medo
sem culpa alguma,
mas a intuição que
frita as têmporas
e descama o dentro:
assombra o mundo
que me habita:
a liberdade é só um conceito transparente.
A humanidade racha
mímese da própria Terra
síntese das fissuras
tudo se separa
– até rachar –
apenas seguimos
os campos mórficos terrenais
Divergências, convergências
de placas e peitos
lava em magma de erupções
Terra treme
terra racha
terra nós
rocha
até aterrar-nos
o peito aberto ao baque
atento ao bote
olhando o baú
aboio de manada a partida
absurdos obtusos
abcessos abruptos
um trago abnegado
turbilhão
o choro da criança
fissura
e a mão na cara para onde voa
Fiz uma viagem
para além de mim
divagando obtusamente
um oceano de
identidades não mais
liquefeitas, mas rarefeitas
Não sei porque sorri,
ousei ossos para a
travessia e cumpri
metas esquisoanalíticas
– piscavam somaticamente
antes de as cumprir
Medi distâncias
do além de mim
dentro de mim
e fui perseguido
por botas e dedos
e ninguém quis afagar ou cortar
minhas bolas
nem eu ou a honradez
só a desfaçatez
Andei esses muros psicoides
com as mãos em bananeira
Rotas desencontradas
na perpendicular avessa
dos muros
– rotas que nunca vi
nem quando passava por elas
Rasguei minhas roupas
na travessia e me
atravessei para o além
de mim
de tão apartado que
andava comigo
apenas adentrei-me
Dentro era todo o além
quem é que te ensinaria
menino
como ir mais devagar?
quem diria como ser
homem sem pisar?
onde a imagem espelho olhar?
desabado os olhos carregam peso
e só o ódio lhe comove
o que tem nessas entranhas
que quando sai estranhas
e transfere a outras vísceras
todo o ardor borbulhante
do que interna em ti?
as execuções sumárias
sumarizadas nos jornais
só afirmam as sentenças
que pululam nas cabeças descabidas:
menos um, menos uma, menos um, menos uma, menos um, menos uma
menos
talvez eu sobre
as tropas se alinharam
nossas gargantas de dedos rígidos e flácidos espasmam
num fluxo aceitação
as armas distam
um frio em nossas têmporas
tudo rio
o desespero calça botas
o desencanto pé na porta
o dedo aponta
lombra torta
tentar o ego o belo
que nem prego
enquanto do lado
depois do pipoco o berro
esperei demais que
viesse a paz
a luz vindo das nuvens
por detrás
e de cada poema não nascido
um b.o. a mais dado
e um julgamento proferido
na madruga
beco escuro
na nuca
maluco só na madruga
não sabe se escapa
não saca se é os corre
não fita se é a fuga
mas tem algo na captura
algo que catapulta
algo pra fora algo por dentro
um bardo urra
vai meter o loko à frente
vai mandar um teco avante
sinistrão jaco na peita
ninguém guenta
se tromba corre
se num corre deita
do pouco que propusemos
sobrou a antítese perfeita
o malogro da intuição falha
o não se observar
o fato fausto intento
foi o que houve
as sobras do que será
o passado sempre
ocorrendo corroendo
correndo para repetir
como se a andança
versasse mais que
o próprio tempo a transcorrer
uma falta que se
compõe lentamente
manifestamente insistente
em não passar
os pregos postos
nas mãos e pés
e punhos e coroas
e cruzes eternas
campos mórficos ressignificados
as formas que nunca acabam
eternamente a ser o agora
aquilo que a gente sempre fez a vida toda
não por fuga ou tratamento
mas por necessidade
os passos que salvariam alguns reais
um cigarro ou uma breja
os passos que te aliviariam a mente
e correntes de aço ou elétricas
e o silêncio
não de quem não tem o que dizer
mas de quem não precisa
ou se cala por força de ego não robusto
agora é tudo estratégia revolucionária
mindfulness libertação
ando a pé e me calo
desde sempre
e continuo tão prisioneiro
quanto qualquer que seja
vociferar
vísceras
dar voz
às feras
vívidas
calar o que
te sucumbe
porta à fora
dar foz
endorreica
até o que
te nasce
submergir
silenciosamente
no grito
as estruturas não vão ruir
todos cá não veremos o fim
boiaremos infinitamente enquanto espécie
num vão de ir
e rir
sem fim
entre o capim
navalha e o santo
– limão nunca –
apenas milhares
troncos separados
tantos
que faço chá de faca
e adormeço tonto
do que enfim
acorda em mim
o jogo de cortázar
é atraente, mas não
precisa ser atrativo
ainda que inerte
menos ativo
menos entumescido
pode ser sem ter sido
só o metrô e o vidro
os vidros vivos armados
em minha face e aqueles
transparentes, refletidos
do mundo cá lá
o contínuo
desde sempre o contrário
paralelo – toda vez que
o olho – eu como –
garoto refletido no piso
do banheiro molhado –
não me arrisco
a vida de cá
é o preciso
a mentira das nuvens
reside na sua verdade
água dissecada etérea
no emaranhado mutável
do céu é rio –
traveste-se dessas formas
de espuma como
onda banzeiro maré
fios esticados d’água
atando o firmamento
transversal de tempo
transpassa o peito
tão momento como
se diluirá
a construção do amor às farsas
o que ele aspira
a ser
o pó dela lha
guiando
a juventude é desencantadora
mas o cheiro do tabaco dela é suave
feito a terra em cima da terra
era após era
diamante que dera
com frufru, filó e franjinha
entre o espesso do escuro
e a luz que às vezes brilha
Demorou apenas três dias para que eu cruzasse todas as ruas da cidade e cumprimentasse, com sorriso franco, todas as pessoas que encontrasse. O pasmo e o desconjuro eram sempre os mesmos, apenas as crianças e alguns jovens não fingiam seu espanto e demonstravam, mesmo que de quando em quando, alguma admiração. Talvez fosse pelas minhas tatuagens que cobriam desde a testa até os pés, passando pelo enegrecido à tinta do branco dos meus olhos, mas também devia ser pelos meus alargadores que escancaravam locas nos lóbulos de minhas orelhas, boca, bochechas e nariz. Talvez fosse pela minha farta gordura que despencava banhas por fora das roupas. Talvez fosse porque eu era mulher. Só sei que por onde eu passava gerava uma certa aflição.
Cá estava eu, pronta a assumir o cargo de professora de Educação Infantil do Colégio Estadual Belarmino Malaquias, pacato distrito de Menelau de Dentro, zona rural da comarca de Poricoté do Norte, província de Fronteiras Centrais, região centro-sul do amado país de Mogno, parte central da porção oriente-austral do subcontinente íbero-cabralino.
Poricoté do Norte. Me causava assombro que houvesse uma Poricoté primordial, ou mesmo, apenas, uma Poricoté do Sul. Imagino as tropas percorrendo as gerais desse mato séculos atrás, chegantes e escudeiros percorrendo florestas e brenhas na captura de escravos fugidos ou vermelhos da terra. Um vilarejo ficando por aqui, fruto de uma preguiça rosa-olímpia de botar as outras pessoas para trabalhar à força em seus lugares e do estupro sistemático de nativas. Uns diamantes e um ouro qualquer em algum momento da história, a urbe fincando raízes no meio da selva e eis a nossa atual Poricoté do Norte com toda a sua tradição e herança existindo até agora.
Apresentei-me na escola conforme indicado pelo memorando que impunha em mãos, no dia vinte e três. No início não quiseram me atender. Quando cheguei à escola, uma senhora me atendeu, vi o assombro em sua face. Era como se o diabo estivesse ali em sua frente, e o diabo era eu. Quando passou seu espanto e finalmente ela percebeu que eu era uma pessoa de verdade e que tinha um memorando nas mãos, pegou-o com um certo asco e saiu em disparada porta afora. Não sei quanto tempo passei ali, em pé, à espera de algo. A mulher voltou meio ressabiada, me olhou de cima abaixo e só conseguiu dizer, trêmula: “a diretora não está agora, volte amanhã”.
Voltei para o hotel em que havia me instalado. Lá o pasmo já havia virado diversão. “E aí, professora, já conheceu sua escola?”. Respondi com um olhar meio tristonho e só entrei para o meu quarto. Pensava em como eu tinha me proposto àquilo. Mas agora era pagar para ver. Veria. Resolvi tomar uma cerveja. Saí do quarto e perguntei pro moço da recepção onde tinha um bar com cerveja gelada. Ele disse que o melhor era o Tonhão, não era longe e lá sempre tinha uma cerveja gelada.
Cheguei no Tonhão seguindo o caminho indicado. Lá, novamente mais uma cena de choque. Tonhão me olhou de cima abaixo e perguntou se eu era hippie. Falei que era uma das novas professoras do colégio provincial. Ele riu e preguntou o que eu queria. Pedi uma Skol, ele veio com uma e um copo, antes pediu pra eu pagar adiantado. Dei uma nota de cinquenta, ele ficou com um ar mais ameno. Foi para dentro do bar e eu fiquei ali no balcão tomando minha cerveja.
Um sujeito corpulento, massudo, gordo forte, entrou no bar e me olhou. Parou num susto. Olhou pra mim e perguntou: “é pegadinha?”. Não respondi nada. Fez um ar de foda-se e gritou pelo Tonhão. Pediu uma quentinha. Tonhão encheu um copo americano com uma pinga de uma garrafa pet de refrigerante. O sujeito tomou tudo de um gole e pediu mais uma. Virei pro Tonhão e pedi uma da mesma. Ele botou e dessa vez não pediu adiantado. Tomei num trago e o sujeito me olhou com cara de assombro. De repente ele virou e me perguntou: “tu é mulher?”. Fiz que sim com a cabeça. Ele não falou mais nada. Ficava só me olhando de cima abaixo sem se fazer de rogado. Não dei a mínima pro sujeito. Peguei minha cerveja e fui pra uma mesa do lado de fora do bar. Tomei três cervejas do lado de fora. Foi aí que olhei para o lado e vi uma massa de gente se aproximando. Fiquei pensando se seria uma procissão. Achei curioso. A turba vinha vindo, mas não havia nenhuma coisa que me remetesse a algo religioso. De repente a massa se aproximou do bar e parou em minha frente. Não tive tempo de pensar em muita coisa, só senti um golpe duro de madeira na minha cabeça, desmaiei imediatamente.
Depois vieram vários outros golpes. De facão, de machado, de pau, de pedra. Dilaceraram minhas partes. Me esquartejaram. Mulheres chutavam a minha cabeça. Homens brincavam com minha buceta, chutando-a de um lado para o outro. Rasgaram-me todas as partes. Fui largada, pedaço por pedaço, ao largo da rua que dava no bar. Alguns ainda tentavam atear fogo em algumas partes minhas.
Nunca entendi porquê. Morri esquartejada em Menelau de Dentro, distrito de Poricoté do Norte, província de Fronteiras Centrais, Mogno. E meu sangue ainda pode se ver em algum cascalho que se junta na beira da rua.