2385. todas as que pousam

foi uma coisa atenta e louca
nesse momento exato
em que veio isso louco saindo de dentro de algo
explodindo um sorriso absurdamente duro e bom na boca inteira
deixando músculos e lábios tensos de tanto não conter
dentes cerrados e observando um pouco do mundo
dentre lábios
e elas tocando a minha cabeça
cada uma me tocando de um jeito diferente
e sendo cada uma o meu amor inteiro

pousado nas têmporas de todas

pois que nelas vôo

e o riso brotado pela trajetória percebida
atentamente louco no exato ponto em que se pode não ser
além daquilo que se percebe
que o amor é por todas as que pousam
e todas pousam sempre após seus vôos e suas vidas
bem-vindas todas as que pousam

e todas pousam

pois que todas voam

e me sendo outras me é mais que outros
e me deixam bem tão tanto louco
atentado pela tentação trazida bendita
dos ventres quentes dessas benditas
todas as que pousam

e todas de mim voam

logo lá pousam, pois

2384.

Eu quero isso
Um quarto gigante
Uma vida em volta
Envolvendo

Envolvendo

Levando

Um enlevo
Um quarto de fino
Relevo
Num mundo sem senhas

Meu quarto gigante
De paredes e varandas
E uma vida entalhando
Voltas e mais voltas
Lívidas
Dentro e entre leve
Envoltório de lava

Porque eu quero

2383. Do irrisório

A Terra gira trazendo consigo todos os dias
o nascimento de uma estrela
Gira até que a estrela morra
e seja enterrada no horizonte
para que noutras paragens de além-tudo
renasça novamente
Para que no além do fim do mundo
ela brilhe cada coisa em que possa pousar
Todo dia o mesmo movimento
que traz o próprio dia

Repetidamente a vagar em derredor
de uma estrela
a Terra gira

Gira

Gira em torno de si
em torno da estrela
dentro de uma espiral que se consome
dentro de um tudo que se explode
e que no fim dele mesmo
que não se pode ver ou sentir
já começa a se implodir

Incessantes giros

Dentro da Terra
cá eu com esses botões
girando em torno de mim mesmo
gravitando entre ocasos, crepúsculos e manhãs
dentro dessa que gira
explodo e implodo cada vez
que me passa um dia
girado entre uma estrela ou outra
qualquer

2380. Por favor

não me contem sobre seus casos
histórias tortas, atos falhos
falem-me somente sobre seu amor
e sobre as formas belas de seu silêncio

não me falem de seus homens
ou mesmo de suas mulheres
falem-me sobre a alegria incontida
entre uma canção e o maneio dos quadris

e não me digam nunca a palavra traição
essa que da existência do burlar o sagrado
é o maior dos pecados contra si

trair inexiste

viver sim é que insiste
o resto causa tédio e penar

2379. Geográfico e antropológico

Dependendo do lugar
sou branco
Já fui tratado por
bugre
e chamado de negro
Tenho esse nó na madeira
de cristão novo
no nome
e cabelos carajá escorridos
que enrolaram com
o passar do tempo
Trago um silva
da selva
mato-grossense e
um lusitanismo
ao que protege alemão
Uma resistência
malê nas têmporas
e essa pele que
doura fácil
como as areias das
praias araguaias
Nascido no cerrado
goiano quadrado
do pé rachado
roedor de pequi
Sou esse interior
amontoado num
distrito urbano,
sou isso tudo aqui

2374.

O sol implacável
só podia dar nesse
deus único e fervoroso
Inclemente senhor
dos ditames da vida
Prefiro a lua
e os deuses dela
saídos
Essa que some, volta,
fica meia,
clareia,
se apaga inteira
dentro da noite
e sempre carrega
esse ar de mulher,
doce mistério que
provoca turbilhões
de sentidos

2373. Pra você meu anjo

Amo você como nunca
Suas pernas, braços, bunda
Suas idéias, risos e seus cachos
escorregadios na nuca

Amo tanto e tão
loucamente que prova
maior desse amor
é sair mansamente
sem que só reste dor

Amo você ao extremo
de abdicar desse
mesmo e não repousar
em jaula medida
nossas vidas a
finalmente compassar

Amo você e te quero sempre
e como o amor se dá ao luxo
do imensurável
deixo-a se ir qual
rumo queira
sabedor de que nada
eu tenho de deixar
Só esse amor já seu
que não preciso lhe dar
para que saiba em si

2371. Amorfobia

Fujo agora de todo
contato que possa
conduzir-me dentro
de alguém ou que
me deixe com mais
alguns pedaços no
peito arfante

Dá-me pânico conhecer
gente e ver que
é possível o esbarrar
de além corpo aprazível

Bato na madeira toda vez
que uma voz provoca
em mim um arrepio

Faço-me calhorda
insensível sempre que
anseio pelo seio
novamente à luz de uma
manhã entrando
sorrateira pelas frestas
da cortina e borrando
de dourado o corpo
bem quisto e nu

Tangencio o meu discurso
para o lado avesso
do que queria dizer
só pra não redundar
novamente na língua
essa teima dita amor

2366. Sagrado

todo o universo ainda por vir:

os becos não sentidos
as vielas dos labirintos
o rodopiar sem rumo pelo impossível
a eternidade de palmas de mãos
o durar do sempre mutável
os olhos que piscam e sonham
o gosto de ouvir com a língua

esse todo que propulsiona
é que se faz merecedor do sacrifício feito
de se imputar vida por aí

todo o universo ainda por vir
se encontra no alinhado das paralelas
do ímpeto com a vida

e o infinito abre as portas para que viva

2365. Yin e Yang

pelo lado direito pulsa
o fogo que dá a ignição
para a labuta diária
a própria lida nesse lado fica
morada das equações e elucubrações
que mantém o mundo erguido
sobre os pés

pelo lado esquerdo borbulha
a lava que queima
a alma e se evapora a ganhar os céus
e que conduz os sonhos
em líquida pedra que
mantém os desejos acesos
sobre o peito

2363. Pós IV – Eco fantasioso

quando de criança eu lembro
daquela fantasia de ser gente grande
de ter vinte e poucos anos
e ganhar o mundo
ser homem feito e sabedor de tudo

hoje sou isso ainda
mas cada vez mais uma memória diluída
pela ação do tempo
ainda assim fantasiosa
de que aquela onda que percorreu
montanhas longínquas de meninices
retumba aqui forçosamente
e sem força, fraca como anêmica
a me lembrar o que posso dizer de mim
para eu mesmo
e me abrigar em ser algo
que foi proposto tantos anos atrás
para identificar o hoje

2362. Pós III – Nomadismo

vagueio entre uma teia
de discursos que me cabem
como luva feita sob encomenda
corro a procurar a proposta livre
em que me encaixe sempre
o senso louco de que
identidade e eu
são coisas conexas e paradoxais
desenterro as raízes que
se ocupam fixas
e me fixo em cada eletrodo
transeunte que me dê
o choque de se sentir livre
por pelo menos alguns segundos
até que nova palavra-prisão
me oprima e eu mude de habitat
para nova ligação eletrônica
que me diga eu agora sem carga

2361. Pós II – Rizomas

fugir
ato além repertório
fato não ensaiado
para a saída da situação
transgredir o território

fixado
abrir mão do superego
encontrar a rota de escape
pela contramão da via única
lócus ingrato

fluido
pelas bifurcações atemporaris
de textos repetidos
exaurir-se pelos ramos
que descambam para o céu

finalizar
num mero contratempo
da música que silencia
toca e repete infinda
cessar o poder do infinito

2360. Pós I – Heterotopia

o espelho me junta de mim
uma porta para um eu invisível diuturnamente
no espelho, meu igual avesso
me avexa e envergonha
mas me põe ali em mim num outro lado

no espelho eu me espalho em mim
como poucas vezes me percorro tanto
é lá, nele, que fico eu medindo
se por destreza de acidente
me assento mesmo assim ou assado

o espelho é o lugar em que me encontro
não me sendo posto que eu vejo
mas sendo eu posto que me vejo
é lugar de encontro contrário feito
no reluzir de luzes em modo vário
não é não lugar
é o topo do pouso da minha imagem
a se enxergar

2359. Toá

como essa rocha a virar
solo lentamente
eu me torno solo
lentamente
cada camada minha
dissolvendo-se
até se espalhar por tudo
e virar chão

me desintegrando
em vários minúsculos pedaços
de fina areia
para saber o devido
valor do pouso mínimo
que a solidão promove
nas partes

eu tão assim toá
uma rocha bruta
num morro suave
em pleno processo
de decomposição

2358. Porventura

“Que importa o sentido se tudo vibra?”

seguir só nessa vastidão
monge peregrino sem rumo
aventureiro sem ventura
restando bruxa na fogueira
após o fogo ateado
sem corpo mais que aguente

seguir só nessa vastidão
sentindo as vezes da lida
passando pelas horas
como eras de Clio
sem os pés tocarem outra
coisa que não a terra

seguir só nessa vastidão
retirante do mundo aquecido
por ideais sem idéias
só imagens mais nítidas
que o mundo fora da caverna
em tela plasmática de pleno
plano cristalino

seguir só nessa vastidão
em espasmos compassados
tropicando e troteando
qual centauro embriagado
sem seta para o alvo
e sem rumo certo para o trote

seguir só nessa vastidão
cego de coisas do espírito
material como a sorte
rindo e indo sem ter como
empurrando o mundo
goela abaixo e a seco o palo

seguir só nessa vastidão
sem maneira de amar
tolamente contente com
apenas a dor como fardo
a preencher os poros
que ficam entre os átomos

seguir só nessa vastidão
docemente acompanhado
por sementes de esperança
de centelhas de permanência
iludindo todo o mundo
com essa pretensa solidez
mas sempre só

2350. Eta Itamar

Eta nego maldito
bendito
com essa negra música
de pedra e mar
que rodopia
na cabeça como
pião de menino

Eta preto brasileiro
pauliceiamente desvairado
virado no diabo
de melodia mole
lambuzada de dendê
como o quê

Eta homem de mil
lágrimas milagrosas
e cigarras quistas

Eta gente que
é meio árabe
e meio paulista
e sendo homem
soube que a mulher
deve ter parte com
o mar

Eta mar que musicou
tanta assunção

2349. Vibratos vivos vêm

(Para ler escutando Iara Rennó)

Loucura, loucura, loucura
Vozes
Vidas
vibrando no ar
Entre

Naipis, Naipis, Naipis
vêm cortando o ar
contra o vento

Naipis, Naipis, Naipis

entre
o velado vivo
de vozes nossas
de cada cabeça tontas
tateando o tato
de ar que sulca
os ouvidos como
navalha na garganta

Entre

Naipis, Naipis, Naipis

Som de sangue espirrado
pela garganta vibrado
Entrando
Essas vozes, vidas, vibrações
Naipis

2346. Caos ar

eu verto o sabor da imagem
vetor meu indo aí
para

doar

do ar

migalhas de matéria
suprindo a necessidade
de te criar
ilusão que seja
na ponta do pendão
dessa cabeça

torta
pronta
a te atacar
quando menos
te bastar todo o ar
doado

causar

caos ar

em ti o tempo
preciso para que perceba
que a dureza rude
da reta que me implode
te levaria

estar dentro esse
e gozar

gás ar

insuflando prazer em teus poros
desde quando sempre

2344. Cacto

sem lampião de querosene que suficiente
insufle luz para o suspiro
de contemplar essa armação
verde-viva feita assim parecida
com uma alma ramificada aos céus
erguendo os infinitos braços para
o alcance do firmamento despedaçado
em gotículas de poeira

pousa-se ele imponente
retumbante ante o imponderável
de ser pouso de água boa
entre alinhados de espinhos
essas garras de proteção que se agrupam
para dar aos que tentam
a dor de saber imprescindível
o saciar de uma sede latente

Paes Landim, PI.