1593.

Tem hora que me
acomete uma saudade
grande daquela dor
Era dor de gente
doída, era dor que
doía mesmo,
que valia a pena
Dor que a gente
abraça e diz,
“nossa! essa dói…”
Tinha gosto de
bem-feito
sabor de devia
ser pior…
Fui trocar aquela
dor por uma paz
medíocre e por
essas dorezinhas
que nem mexem
a espinha
Que saudade daquela
dor que doía!

1592.

As férias acabam
A bola é chutada
com mais força,
a pipa é empinada
com vontade

As férias se findam,
o pique-esconde é
gostoso, será se eu
saio na sala da
Ritinha de novo?

As férias se acabam
dormir depois do
Big-brother e
acordar depois das 10

As férias acabam
passear com o
Fred e tomar banho
de chuva, levar
bronca da mãe
e suar em febre
com um beijo
da mesma boca algoz

É, as férias acabam…

1587.

Um dia meu rosto quis dizer algo
mas foi algo tão breve
que o que restou foram palavras
com um inacreditável ar de neve

Não disse nada o meu rosto
ou disse isso mesmo: nada
do que ele sempre diz mesmo em silêncio
só esse vão basta

Meu rosto diz isso que nem
mesmo ser feio consegue
é esse ar morto de água da dengue
que o feito a todos é de dizer: negue

1581. Queria saber teu nome

Se eu soubesse, escreveria uma carta
Mas aí eu teria de saber o teu endereço
Como eu me contento com pouco
Queria só saber teu nome
Pra escrever uma poesia
Mas eu me contento com tão pouco
Então te coloco uma metáfora
Mas eu nem te conheço pra dizer uma metáfora
Então eu comparo o que eu vejo
Com alguma coisa boa e te escrevo uma poesia
Tipo dizer que você é como uma música linda, mas ao longe
Música ao longe
Mas eu nunca te olhei direito no rosto, nem dá pra dizer mais que isso
Eu já te vi bem só que de costas
Umas duas vezes
E como eu me contento com pouco
Contento-me em tê-la visto essas duas vezes, de costas
E saber que é pra você que eu tenho que dar meu amor
Então eu dou
Mas em metáfora
Dou pra você aquilo que eu posso dar
Uma música ao longe pra te adornar de flores em notas musicais
As mais lindas cores, texturas e aromas saindo de um som

1580. Dê meu Derby, por favor…

Lá vem você com esse papo furado de amor
Quero isso não,
Já vejo vir com essa culpa de ladrão
Roubou meu peito e tal
Arroz sem sal
Deixou o desejo pra depois

Dê meu Derby, por favor…
Que eu só quero fumar
Aquecer meu peito
Esse já roubado
Esquecer meu peito
Todo tão furado

Lá vem você dizer que me ama
Quero isso não
Te vejo dizer amor pura fama
Deixou pedra e cal
Arroz sem sal
O que roubou

Dê meu Derby, por favor…
Porque eu só quero fumar
Ferver meu sangue
Já coagulado
Fazer mais sangue
Pois já foi drenado

Lá vem você com a mesma história antiga
Quero isso não
Deixa eu viver de acaso e mandinga
Botou no osso um mal
Arroz sem sal
Qualquer câncer mesmo

Dê meu Derby, por favor…
Deixa eu fumar
Vou no meu peito
Me enrolar no fumo
Vou tragar meu peito
Tomar meu prumo

1579. Do incrível dia árabe em que encontrei um francês manauara

Subia calmamente a alameda silvestre
De campos em flor e galhos secos de andiroba
Ouvia as palavras gravadas em mp3 do mestre
E dava tempo de sentir revoltar a gororoba
E como as luzes luziam mais forte a dor
Das tardes cálidas de um deserto chuvidio
Ah e os dissabores que brotavam como flor
Por todos os cantos do tudo partido

Eis que vejo aquela intrépida figura pálida
De olhar puxado no mais que tudo longínquo
Era a lenda viva do mítico francês manauara
Que se abria para o marco do infinito

1578. Potência e poder

Vês estas luzes brilhando no horizonte
Dou-te tudo isso, é tudo teu ao teu alcance
Um dedo de prosa apenas e garanto
Tudo é teu, dado, sem preço ou quanto
Guarda essas almas todas para ti
E embebe o vento que as toca aí
Não as solte assim de qualquer modo
Toma o que é teu sem engodo

Olha as luzes que te dou à revelia
Aprisiona as almas, é tudo o que querias
Preveja tudo o quanto antes melhor
Que seja assim mesmo, tu o senhor
Doma tudo, desde o acaso à certeza
Reina soberano sobre a alegria e a tristeza
É tudo teu. Doce, sal, sentido e vida
Tudo teu, todas as histórias e lidas

Pode ter certeza que é teu o poder
Potência toda tua de ter poder
De ser potência em poder

Pior seria se fosse outro a ganhar tudo
Governa o que é mesmo o absurdo
Dou-te tudo e tu tens o que querer
Toda a potência e todo o poder
Cresce, infla, explode em teu ego
Que é tudo teu, veja e não seja cego
Despreza tudo e cospe em cima
É tudo teu mesmo, o que precisas

É tudo teu, vais fugir agora?

1577. Duas

Uma teve a impressão
De sair por aí
Outra teve a visão
De ficar por aqui
Uma bebeu a taça
Outra virou a garrafa
Uma quis se safar
Outra quis se sarrar
Uma lambeu o chão
Outra sentou a mão
Uma chorou um segredo
Outra riu o malfeito
Uma se sepultou
Outra fez um aborto
Uma viveu a alegria
Outra fez um morto

1576. Ela

Ela tão só, com ela e mais ninguém
Ela pudera ser outra, mas não ninguém
Ela e seus acordes em dó maior
Ela sem dó, tão só, quando vem
Quando vem
Quando vem
Por aqui de novo?
Ela e sua solidão em dó maior
Ela que toca, só toca sua nota dó
Ela que não tem dó de mim
Ela que é só, só assim
Só assim
Só assim
Que outra não
Ela que toca suas notas tão só
Ela que me acorda em dó
Ela tão ela como não mais há
Ela que é tão, tão ela, que é
E o que é
E o que é
Que me toca nela?
Ela arruma maneiras de se ocupar
Ela me ocupa a cabeça sem se notar
Ela que é dissonante em notas sim
Ela me nota quando eu em mim
Eu em mim
Eu em mim
Que ela toca em dó

1570. "O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode…"

Eis que surge a Dama da Noite
Uma única noite ela aparece
Exala seu aroma adocicado
Apresenta sua voluptuosa consistência
Hipnotiza em eternidade
E na manhã seguinte
Perdida ela está dentro de mim
Nada de matéria para comprovar seu ser
Só me está em mim
Some em estar em mim

A Rosa, delicada presença,
Chora uma lágrima de orvalho
Quando vê meu semblante distante
Na ânsia de encontrar novamente
A Dama da Noite
Nem que fosse por um segundo apenas

A Rosa chora
Eu também

E quem há de dizer qual lágrima é a mais bonita?

1568. Leia-se: “o que é a liberdade?”

Queria te dar a coisa mais livre do mundo
A prenda mais rara que pudesse te levar ao espaço
Queria te dar a sinceridade mais absurda
Pra que você pudesse sorrir
E te dei a falta que poderia ser teu ápice
Livrei minha carne de sê-la somente aos teus
E te dei o amor que poderia ser mágoa

Quis te dar a liberdade
“nunca te prender, tanto que forjei asas nos teus pés”
Mas o limite do que é se lançar
Fica preso no cume mais ermo da companhia
Quis te dar a coisa mais bonita
A página daquele livro que nós dois lemos entre goles de vinho
A nuvem mais branda pros dias de sol
O sol mais suave pra dourar as noites de insônia

Meu erro mais grave talvez seja esse de crer na liberdade
Como a panacéia da impaciência sobre o marasmo

Eu quis o pulsar
Sentir a vida com você
Beijar os pés de ipês ao teu lado
Saber a idade da Terra
E te levar comigo rumo ao jardim

Quis colher você aos poucos, sem pressa, lentamente
Sem a sensação de que tudo é luz
Quis ficar com você na penumbra:
Lençóis, suores, sabores e sons, bem leves
Sem pressa, sem pressão, sem prisão

E nem sei se você quer ser livre
Você é o homem afinal, já é livre por cultura
Eu quero só te amar
E que seja livre

1562. Desespero

Dê-me o visível
Para eu me conhecer melhor
Dê-me o que existe
Para eu resistir melhor
Não num tempo definido
Não o que me é próprio
Dê-me o que existe
Para doer melhor

Dê-me o que não acaba
Exposto num calendário
Posto num relógio parado
Dê-me o ritmo da espera
Que eu espero incessante
Dê-me progressivamente
Os sinais de que vivo
Para doer melhor

Dê-me a dor
Dê-me dez esperanças
Dê-me o verde
Pra ver dez esperanças
Embebidas em dor

1561.

Daqui eu vejo o horizonte
Ele não cabe nos meus olhos
Ele está sempre no infinito
Machucando estas retinas
Com um milagre não percebido

De dentro dessa distância
Cabe meu olhar e seu além
Cabe a dor e os raios de sol
Transpassando o vão das nuvens
Com uma força equatorial

Dali no meio de nós dois
Olha o infinito para si
Olha os olhos sobre o sempre
Crivando de estrofes a linha
Com o rumo de mim para o mundo

1559. Rosa

Naquele dia a praia vazia
Fumaça no céu
Pegando fogo o dia
Pra botar lenha na noite
Vamos botar lenha na noite
Vamos jogar álcool
Pro fogo pegar melhor

A noite vai ser lenha
Brasa mesmo, mora?
Tomara que você venha
Brasa mesmo, vambora?

O dia ainda ardia
Merda, de dia que não acaba mais
E essa praia vazia
Mas você não gosta do dia
Então, eu espero a noite
Chegar pra colocar
Lenha nela

A noite vai ter lenha
Nela mesmo, mora?
Tomara que você tenha
Brasa mesmo, vambora?

O sol fica ardendo
E a fumaça na cabeça
Pegando fogo aqui dentro
E essa praia vazia
Mas você não gosta do dia
Quer só à noite pra
Mostrar a brasa

Tomara que a noite tenha
Brasa mesmo e nossa
A noite eu ponho a lenha
Na sua fogueira Rosa

1558. Agora eu sei

Pego o pagamento
Paga o meu pensar
Perco meus neurônios
Para me acabar
Será que paga o meu penar?
Puta que pariu
Assim não vai dar

Fudeu
Agora eu sei que
Fudeu

Perco mais minutos
Pra depois pagar
Pego um copo e viro
Prum médico procurar
Será que pista eu vou penar?
Puta que pariu
Assim não vai dar

Fudeu
Agora eu sei que
Fudeu

1557. Cair

Eu paro, penso e olho
Eu quase consigo sair do chão
Esforço o estorvo de novo
Eu trago, eu caio
Continuo no chão
Abrem-se as portas num lapso
Eu quase consigo dizer
O que não
Pode ser dito num mito
Eu tento, eu me lanço
Não consigo não

Rodo à procura de outro
Um gole, um desvio
Agora é hora eu vou conseguir
Desprendo tudo que tenho
Me jogo, é um jogo
Eu posso cair

Mas já estou cá no alto
Daqui eu vejo o asfalto
Brilhando com a água da chuva

Passo de frente a um prédio
Vejo minhas amigas perdidas
Perdendo seu corpo a qualquer um

Vejo a batida do alto
Mando um abraço prum anjo que cai
Sou eu

Sou eu

Sou eu

Caio pra cima das nuvens
Encontro os gases
Eu sou só mais um
Anjo caído pro alto
Mirando o asfalto que sangra sua luz

Sou eu

Sou eu

Caído no alto
Sou eu

Sou eu

Mirando o asfalto
Sou eu

Sou

1556. A repetição da Rosa

Ela ali parada a olhar o nada me condoia a alma.
Queria pousar em seus sonhos naquele então.
E da matéria formada entre seu inconsciente
e meu corpo, doces frutos de novembro seriam
sorvidos pelos beija-flores assustados.

Ela ali, intrépida, aguerrida, altiva em sua suavidade.
E eu, como um doudo a cercar aquela existência,
deixava no âmago da contemplação uma ação inerte
quase que só quase-ser, como um devir ainda.
E ela era mais linda do que as mais lindas.

Eu flébil, lacrimante como as gotas de orvalho
espalhadas por seu corpo, deixava fluir facilmente
qualquer suspiro que fosse só amor, essa semente
tácita do andar no mundo, essa incólume poeira
que me ligava àquela rosa em meu jardim.

1547. Baú pro Hawai

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

E no meio da ponte
uma tsunami da pororoca
quis nos pegar
mas o motora era roda
e conseguimos escapar

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

Eu não sabia que o Hawai
era longe tanto assim
mas o motora pisava
pra gente chegar enfim

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

No meio dessa viagem
a pista molhada
o freio falhou
mas o motora segurou

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

Quando chegamos no Hawai
foi aquela alegria
pura diversão
e o motora surfou
porque o motora era campeão

Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo

1546. O amor pode causar sentimentos necrófilos

Sei que me disseram que não
vai mais dar
Sei que me falaram que não
dá mais não
Só porque você está a sete
palmos do chão
Mas eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez

Numa cessão espírita
você vai chegar
E desencarnada eu
vou te amar
No corpo daquele médium
te beijar
E mesmo em pelo
e barba eu vou tentar

vou tentar
vou tentar
mais uma vez

Eu já posso até ver
Naquele caixão lindo
eu e você
Quem sabe eu até
venha a perecer
E aquele cova fria
vai se aquecer
Porque…

eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez

1545.

Há mar ante o
amar, gozo
do amor.

Dentro do mar
Dentro de alguém
Só preciso penetrar
As ondas fazem o resto
E quase ninguém suspeita

Sal sob o sal
em suspensão
suspiros salgados
indo e vindo
salgados os
seres que são
em si o mar

Guilherme Carvalho e Gerson Deveras

1544. Primeira

cadeiras não se apavoram
cadeiras são pacientes
cadeiras não que estejam doentes
cadeiras são pacientes
cadeiras esperam sentadas
não se evaporam

Cadeiras não se cansam
cadeiras cá, são
E nos bares
caçam cadeiras
como um cão.

no mar cação juntas
se se quebram
é um concerto
pra se requebrar

já que cadeiras dançam
cadeiras cem ninguém
são cadeiras em família
família madeira

cadeiras não estão nem aí

e cadeiras sempre estão por aí

Guilherme Carvalho e Gerson Deveras