Tem hora que me
acomete uma saudade
grande daquela dor
Era dor de gente
doída, era dor que
doía mesmo,
que valia a pena
Dor que a gente
abraça e diz,
“nossa! essa dói…”
Tinha gosto de
bem-feito
sabor de devia
ser pior…
Fui trocar aquela
dor por uma paz
medíocre e por
essas dorezinhas
que nem mexem
a espinha
Que saudade daquela
dor que doía!
1592.
As férias acabam
A bola é chutada
com mais força,
a pipa é empinada
com vontade
As férias se findam,
o pique-esconde é
gostoso, será se eu
saio na sala da
Ritinha de novo?
As férias se acabam
dormir depois do
Big-brother e
acordar depois das 10
As férias acabam
passear com o
Fred e tomar banho
de chuva, levar
bronca da mãe
e suar em febre
com um beijo
da mesma boca algoz
É, as férias acabam…
1591.
Sexo às vezes
é só quatro letras
e dois órgãos,
bom mesmo é
quando é um signo
e dois corpos.
1590.
Em princípio
um prognóstico:
Eu já te provei
Provo que eu já sei
das tuas provocações:
a prova está na tua cara
cheia de privações
1589. Quando eu me apaixonei por uma lesma
Eu ainda lembro
nós dois na praia
sob a luz do luar
Eu me arrependo:
você dissolvendo quando
eu te levei pra banhar
1588.
Quero ser tudo não
Quero apenas brincar
de poder ter coração
Quero fazer teatro não
Quero me bastar
com uma invenção
Quero o que cabe
a um desastrado compulsivo,
apenas mais um tropeção
1587.
Um dia meu rosto quis dizer algo
mas foi algo tão breve
que o que restou foram palavras
com um inacreditável ar de neve
Não disse nada o meu rosto
ou disse isso mesmo: nada
do que ele sempre diz mesmo em silêncio
só esse vão basta
Meu rosto diz isso que nem
mesmo ser feio consegue
é esse ar morto de água da dengue
que o feito a todos é de dizer: negue
1586.
Será que você quer trabalhar com as formas
Ou pretende organizar a informação?
Me informa qual a forma da tua escolha
Pra você me formar um pouco…
1585.
Eu só sei falar de amor
E eu nem sei que porra é essa
Eu só dei flanar com a dor
E eu nem gosto dessa porra
Eu só queria falar qualquer outra coisa
E eu nem sei como começo
1584.
São teus cabelos curtos
Que me agridem
É beleza demais pra um ser só
Toda você é uma agressão visual
Porra!
1583. Eu quero ser como um poeta da 2ª geração romântica bebendo vinho até me acabar
Esperar um rosto visto uma vez na vida
Esmurrar minha face até sentir a vida
Espreitar na penumbra o que é mesmo a vida
Esperar, esmurrar, espreitar
Até que me falte o ar
1582. Descobri o que me cabe
Agora eu sei bem
Que o que me cabe
Não cabe bem
É aquilo que falta
Que me serve
Aquilo que não vem
Bem aquilo que
Não preenche
Aquilo que é sem
1581. Queria saber teu nome
Se eu soubesse, escreveria uma carta
Mas aí eu teria de saber o teu endereço
Como eu me contento com pouco
Queria só saber teu nome
Pra escrever uma poesia
Mas eu me contento com tão pouco
Então te coloco uma metáfora
Mas eu nem te conheço pra dizer uma metáfora
Então eu comparo o que eu vejo
Com alguma coisa boa e te escrevo uma poesia
Tipo dizer que você é como uma música linda, mas ao longe
Música ao longe
Mas eu nunca te olhei direito no rosto, nem dá pra dizer mais que isso
Eu já te vi bem só que de costas
Umas duas vezes
E como eu me contento com pouco
Contento-me em tê-la visto essas duas vezes, de costas
E saber que é pra você que eu tenho que dar meu amor
Então eu dou
Mas em metáfora
Dou pra você aquilo que eu posso dar
Uma música ao longe pra te adornar de flores em notas musicais
As mais lindas cores, texturas e aromas saindo de um som
1580. Dê meu Derby, por favor…
Lá vem você com esse papo furado de amor
Quero isso não,
Já vejo vir com essa culpa de ladrão
Roubou meu peito e tal
Arroz sem sal
Deixou o desejo pra depois
Dê meu Derby, por favor…
Que eu só quero fumar
Aquecer meu peito
Esse já roubado
Esquecer meu peito
Todo tão furado
Lá vem você dizer que me ama
Quero isso não
Te vejo dizer amor pura fama
Deixou pedra e cal
Arroz sem sal
O que roubou
Dê meu Derby, por favor…
Porque eu só quero fumar
Ferver meu sangue
Já coagulado
Fazer mais sangue
Pois já foi drenado
Lá vem você com a mesma história antiga
Quero isso não
Deixa eu viver de acaso e mandinga
Botou no osso um mal
Arroz sem sal
Qualquer câncer mesmo
Dê meu Derby, por favor…
Deixa eu fumar
Vou no meu peito
Me enrolar no fumo
Vou tragar meu peito
Tomar meu prumo
1579. Do incrível dia árabe em que encontrei um francês manauara
Subia calmamente a alameda silvestre
De campos em flor e galhos secos de andiroba
Ouvia as palavras gravadas em mp3 do mestre
E dava tempo de sentir revoltar a gororoba
E como as luzes luziam mais forte a dor
Das tardes cálidas de um deserto chuvidio
Ah e os dissabores que brotavam como flor
Por todos os cantos do tudo partido
Eis que vejo aquela intrépida figura pálida
De olhar puxado no mais que tudo longínquo
Era a lenda viva do mítico francês manauara
Que se abria para o marco do infinito
1578. Potência e poder
Vês estas luzes brilhando no horizonte
Dou-te tudo isso, é tudo teu ao teu alcance
Um dedo de prosa apenas e garanto
Tudo é teu, dado, sem preço ou quanto
Guarda essas almas todas para ti
E embebe o vento que as toca aí
Não as solte assim de qualquer modo
Toma o que é teu sem engodo
Olha as luzes que te dou à revelia
Aprisiona as almas, é tudo o que querias
Preveja tudo o quanto antes melhor
Que seja assim mesmo, tu o senhor
Doma tudo, desde o acaso à certeza
Reina soberano sobre a alegria e a tristeza
É tudo teu. Doce, sal, sentido e vida
Tudo teu, todas as histórias e lidas
Pode ter certeza que é teu o poder
Potência toda tua de ter poder
De ser potência em poder
Pior seria se fosse outro a ganhar tudo
Governa o que é mesmo o absurdo
Dou-te tudo e tu tens o que querer
Toda a potência e todo o poder
Cresce, infla, explode em teu ego
Que é tudo teu, veja e não seja cego
Despreza tudo e cospe em cima
É tudo teu mesmo, o que precisas
É tudo teu, vais fugir agora?
1577. Duas
Uma teve a impressão
De sair por aí
Outra teve a visão
De ficar por aqui
Uma bebeu a taça
Outra virou a garrafa
Uma quis se safar
Outra quis se sarrar
Uma lambeu o chão
Outra sentou a mão
Uma chorou um segredo
Outra riu o malfeito
Uma se sepultou
Outra fez um aborto
Uma viveu a alegria
Outra fez um morto
1576. Ela
Ela tão só, com ela e mais ninguém
Ela pudera ser outra, mas não ninguém
Ela e seus acordes em dó maior
Ela sem dó, tão só, quando vem
Quando vem
Quando vem
Por aqui de novo?
Ela e sua solidão em dó maior
Ela que toca, só toca sua nota dó
Ela que não tem dó de mim
Ela que é só, só assim
Só assim
Só assim
Que outra não
Ela que toca suas notas tão só
Ela que me acorda em dó
Ela tão ela como não mais há
Ela que é tão, tão ela, que é
E o que é
E o que é
Que me toca nela?
Ela arruma maneiras de se ocupar
Ela me ocupa a cabeça sem se notar
Ela que é dissonante em notas sim
Ela me nota quando eu em mim
Eu em mim
Eu em mim
Que ela toca em dó
1575. Um momento
Nesse que eu posso te dizer
Nesse que eu sei
Não é você
1574.
Queixa, diz logo o que tem pra dizer
Deixa, eu sei que nada se há de fazer
Mexa, faz do barraco um coito
Seja, assume o que é teu ser
Veja, eu sou assim tão você
1573. Macondo via Curitiba
O dia em que quiser
A estrada vai estar livre
Nenhum tráfego e a sombra dos pinheirais
Eu só vou querer
Um pouco do seu sangue
Pra maquiar os meus olhos como rimel
Fofocando com vizinhas numa tarde chuvosa
1572. Gozo fabuloso
Eu tenho que te dizer
Estou com um problema sério
De poesia no peito
Já te coloquei metáforas
Tantas que nem sei mais o
Que é sua mão e o que é seu umbigo
1571. O movimento
Bastava apenas um passo e tudo sairia do lugar
Era só tirar o foco e tudo seria diferente
E aquele movimento parado em minha mão agora é só isso:
sem ângulo, sem luz, sem enquadramento
uma alma aprisionada em pixels.
1570. "O amor é um rock e a personalidade dele é um pagode…"
Eis que surge a Dama da Noite
Uma única noite ela aparece
Exala seu aroma adocicado
Apresenta sua voluptuosa consistência
Hipnotiza em eternidade
E na manhã seguinte
Perdida ela está dentro de mim
Nada de matéria para comprovar seu ser
Só me está em mim
Some em estar em mim
A Rosa, delicada presença,
Chora uma lágrima de orvalho
Quando vê meu semblante distante
Na ânsia de encontrar novamente
A Dama da Noite
Nem que fosse por um segundo apenas
A Rosa chora
Eu também
E quem há de dizer qual lágrima é a mais bonita?
1569. Não pertencimento
Nem esse corpo é meu,
Minha mente
Nem mesmo a alma
(essa eu perdi numa mesa de sinuca)
Nada
As unhas sujas de terra
O copo de pinga pela metade
A dor do amor que não se apodera
A carne de bode frita num domingo
A não propriedade
O não dono
Ter, esse verbo vago a mim
Não tenho, talvez por isso, eu seja.
1568. Leia-se: “o que é a liberdade?”
Queria te dar a coisa mais livre do mundo
A prenda mais rara que pudesse te levar ao espaço
Queria te dar a sinceridade mais absurda
Pra que você pudesse sorrir
E te dei a falta que poderia ser teu ápice
Livrei minha carne de sê-la somente aos teus
E te dei o amor que poderia ser mágoa
Quis te dar a liberdade
“nunca te prender, tanto que forjei asas nos teus pés”
Mas o limite do que é se lançar
Fica preso no cume mais ermo da companhia
Quis te dar a coisa mais bonita
A página daquele livro que nós dois lemos entre goles de vinho
A nuvem mais branda pros dias de sol
O sol mais suave pra dourar as noites de insônia
Meu erro mais grave talvez seja esse de crer na liberdade
Como a panacéia da impaciência sobre o marasmo
Eu quis o pulsar
Sentir a vida com você
Beijar os pés de ipês ao teu lado
Saber a idade da Terra
E te levar comigo rumo ao jardim
Quis colher você aos poucos, sem pressa, lentamente
Sem a sensação de que tudo é luz
Quis ficar com você na penumbra:
Lençóis, suores, sabores e sons, bem leves
Sem pressa, sem pressão, sem prisão
E nem sei se você quer ser livre
Você é o homem afinal, já é livre por cultura
Eu quero só te amar
E que seja livre
1567.
em ti um ente distante
diz tanto em si que nem sei
saboreio a distância
em ânsia de ter em ti
um desexistir que diga
tanto o que diz prazer
pra mim e a ti em si
1566. Feliz
O vento soprou as velinhas
Trouxe desejos tais
As brisas eram minhas
Fiz-me desejo de paz
1565.
do podre brotam brotos
do pútrido a vida
da morte a vida
vida é uma palavra
de quatro letras, pois.
onde jaz a palavra então?
ressuscita os fragmentos
daquilo que já é vivo
e regozija-se com a morte
1564. Destilaria
Parágrafo lido (ponto final)
Alguém para ser esquecido (sem reticências)
Memória (axiologia a quem quiser)
Página virada (acaso vago)
Palavra dita (em boca fechada)
Gole amargo (em boca fechada)
1563. Outra Flor
Hoje de manhã eu passei por aqui
E não havia essa flor posta assim
Tão em manha passando esse perfume
1562. Desespero
Dê-me o visível
Para eu me conhecer melhor
Dê-me o que existe
Para eu resistir melhor
Não num tempo definido
Não o que me é próprio
Dê-me o que existe
Para doer melhor
Dê-me o que não acaba
Exposto num calendário
Posto num relógio parado
Dê-me o ritmo da espera
Que eu espero incessante
Dê-me progressivamente
Os sinais de que vivo
Para doer melhor
Dê-me a dor
Dê-me dez esperanças
Dê-me o verde
Pra ver dez esperanças
Embebidas em dor
1561.
Daqui eu vejo o horizonte
Ele não cabe nos meus olhos
Ele está sempre no infinito
Machucando estas retinas
Com um milagre não percebido
De dentro dessa distância
Cabe meu olhar e seu além
Cabe a dor e os raios de sol
Transpassando o vão das nuvens
Com uma força equatorial
Dali no meio de nós dois
Olha o infinito para si
Olha os olhos sobre o sempre
Crivando de estrofes a linha
Com o rumo de mim para o mundo
1560. Choice
Você decide:
ou eu abro as cortinas agora
ou eu continuo assim em você até amanhã
Eu decido:
ou você abre o amanhã agora
ou você me descortina assim
A gente decide:
abre-se, continua-se, amanhece-se, descortina-se
deixa assim, preguiçoso mesmo…
1559. Rosa
Naquele dia a praia vazia
Fumaça no céu
Pegando fogo o dia
Pra botar lenha na noite
Vamos botar lenha na noite
Vamos jogar álcool
Pro fogo pegar melhor
A noite vai ser lenha
Brasa mesmo, mora?
Tomara que você venha
Brasa mesmo, vambora?
O dia ainda ardia
Merda, de dia que não acaba mais
E essa praia vazia
Mas você não gosta do dia
Então, eu espero a noite
Chegar pra colocar
Lenha nela
A noite vai ter lenha
Nela mesmo, mora?
Tomara que você tenha
Brasa mesmo, vambora?
O sol fica ardendo
E a fumaça na cabeça
Pegando fogo aqui dentro
E essa praia vazia
Mas você não gosta do dia
Quer só à noite pra
Mostrar a brasa
Tomara que a noite tenha
Brasa mesmo e nossa
A noite eu ponho a lenha
Na sua fogueira Rosa
1558. Agora eu sei
Pego o pagamento
Paga o meu pensar
Perco meus neurônios
Para me acabar
Será que paga o meu penar?
Puta que pariu
Assim não vai dar
Fudeu
Agora eu sei que
Fudeu
Perco mais minutos
Pra depois pagar
Pego um copo e viro
Prum médico procurar
Será que pista eu vou penar?
Puta que pariu
Assim não vai dar
Fudeu
Agora eu sei que
Fudeu
1557. Cair
Eu paro, penso e olho
Eu quase consigo sair do chão
Esforço o estorvo de novo
Eu trago, eu caio
Continuo no chão
Abrem-se as portas num lapso
Eu quase consigo dizer
O que não
Pode ser dito num mito
Eu tento, eu me lanço
Não consigo não
Rodo à procura de outro
Um gole, um desvio
Agora é hora eu vou conseguir
Desprendo tudo que tenho
Me jogo, é um jogo
Eu posso cair
Mas já estou cá no alto
Daqui eu vejo o asfalto
Brilhando com a água da chuva
Passo de frente a um prédio
Vejo minhas amigas perdidas
Perdendo seu corpo a qualquer um
Vejo a batida do alto
Mando um abraço prum anjo que cai
Sou eu
Sou eu
Sou eu
Caio pra cima das nuvens
Encontro os gases
Eu sou só mais um
Anjo caído pro alto
Mirando o asfalto que sangra sua luz
Sou eu
Sou eu
Caído no alto
Sou eu
Sou eu
Mirando o asfalto
Sou eu
Sou
1556. A repetição da Rosa
Ela ali parada a olhar o nada me condoia a alma.
Queria pousar em seus sonhos naquele então.
E da matéria formada entre seu inconsciente
e meu corpo, doces frutos de novembro seriam
sorvidos pelos beija-flores assustados.
Ela ali, intrépida, aguerrida, altiva em sua suavidade.
E eu, como um doudo a cercar aquela existência,
deixava no âmago da contemplação uma ação inerte
quase que só quase-ser, como um devir ainda.
E ela era mais linda do que as mais lindas.
Eu flébil, lacrimante como as gotas de orvalho
espalhadas por seu corpo, deixava fluir facilmente
qualquer suspiro que fosse só amor, essa semente
tácita do andar no mundo, essa incólume poeira
que me ligava àquela rosa em meu jardim.
1555.
Iansã
murmurava
a Iemanjá
que essa
coisa toda
boa não
ia passar.
1554. Pardón
Ai minhas bolas
de touca em
Teresina…
Descobri o lugar
do caralho em
Fortaleza!
Fortaleza, CE.
1553.
O gameta pós-moderno
deu-nos o balão
com seu prefácio marginal
e com certeza ele
nem viu um cu
É, Fortaleza é legal.
Fortaleza, CE.
1552.
Eu visto saias em você
e você com minha barba
diz qualquer coisa sobre opostos
Nós dois postos, saímos,
bravos, contra o mundo
a postos em desconstruir
os opostos e postar
um para além de
barba e saia em mim,
em ti, em si.
1551.
Quase antes
de calar eu
falei em casar
mas o acaso
me encaixou
num quasar
e quântico
eu fiquei lá
quase com
você, mas no ar.
1550.
pintar de verde
e ver-te
verter-se em
mim isso
que não
se falou
(amor)
1549.
tudo muda
do tu mudo
em mundo
muda de
mudar o
imundo
1548.
No céu azul nu
vem no céu azul
nuvem não vem
no céu azul nu
No ventre do céu
azul nu vem
o vento no céu
azul nu o sol
vento, que dissolve
a nuvem que
não vem no céu
azul nu
1547. Baú pro Hawai
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
E no meio da ponte
uma tsunami da pororoca
quis nos pegar
mas o motora era roda
e conseguimos escapar
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
Eu não sabia que o Hawai
era longe tanto assim
mas o motora pisava
pra gente chegar enfim
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
No meio dessa viagem
a pista molhada
o freio falhou
mas o motora segurou
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
Quando chegamos no Hawai
foi aquela alegria
pura diversão
e o motora surfou
porque o motora era campeão
Peguei um baú pro Hawai
Mas tava chovendo
1546. O amor pode causar sentimentos necrófilos
Sei que me disseram que não
vai mais dar
Sei que me falaram que não
dá mais não
Só porque você está a sete
palmos do chão
Mas eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez
Numa cessão espírita
você vai chegar
E desencarnada eu
vou te amar
No corpo daquele médium
te beijar
E mesmo em pelo
e barba eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez
Eu já posso até ver
Naquele caixão lindo
eu e você
Quem sabe eu até
venha a perecer
E aquele cova fria
vai se aquecer
Porque…
eu vou tentar
vou tentar
vou tentar
mais uma vez
1545.
Há mar ante o
amar, gozo
do amor.
Dentro do mar
Dentro de alguém
Só preciso penetrar
As ondas fazem o resto
E quase ninguém suspeita
Sal sob o sal
em suspensão
suspiros salgados
indo e vindo
salgados os
seres que são
em si o mar
Guilherme Carvalho e Gerson Deveras
1544. Primeira
cadeiras não se apavoram
cadeiras são pacientes
cadeiras não que estejam doentes
cadeiras são pacientes
cadeiras esperam sentadas
não se evaporam
Cadeiras não se cansam
cadeiras cá, são
E nos bares
caçam cadeiras
como um cão.
no mar cação juntas
se se quebram
é um concerto
pra se requebrar
já que cadeiras dançam
cadeiras cem ninguém
são cadeiras em família
família madeira
cadeiras não estão nem aí
e cadeiras sempre estão por aí
Guilherme Carvalho e Gerson Deveras