0241. Quem sou?

o que fazer
quando se está ninguém
quando não se sabe se foi ou é alguém?
perdi meus eus
na última rajada de vento
que por aqui passou
levou meu nome qual poeira
surrupiou minha identidade
prostrou em minha marca
a alcunha do vazio
a amplidão da dúvida

reflito alguns instantes
depois do vendaval que me cometi:
quem pode afirmar ser alguém,
senão tudo qual ninguém?

0238. À noite

mas que a noite não se finde
e que o nocturno nos faça presente
em eternidade qual o agora
e vença a luz
e rompa a clara dor
e em laços negros de inefável amor
a noite ainda há de se debruçar
sobre nosso gozo e dir-nos-á:
“acolhe-me em poesia, acolhe-me em vida
e eu não provocarei nenhum pesar,
pois a luz que não brilha em minhas entranhas
é a máxima do amor que se pode descobrir”

0237. Sobre parar vidas

(para uma internauta das minhas madrugadas e de muitos)

Qual mundo a parar
– a perder sua eterna sincronia de acasos
a esvair suas rotações em caos
descubro-te em meu espaço a orbitar

Se eu pudesse re-configurar as leis
e dar ordem a um novo mundo
escolheria a máxima da perfeição impossível
– pretenderia o universo
em que só tu fosses a realidade

0235.

Como num vôo de avião
Pego carona na boleia de um caminhão
Atravesso todo esse planalto
Até chegar lá em Alto
Mas em Alto hoje, eu não fico não
Hoje o paraíso é mais pro lado
O paraíso hoje
É de quem lutou contra o dragão
Espero que alguma carona role
Pra chegar,
Pra chegar logo em São Jorge

0236.

Ando tão desacreditado
O amor não mais existe
Ando tão desacreditado
O amor só em filmes
Você acha que encontrará
O amor na esquina?
Não corra atrás
O verdadeiro amor
Não existe mais
Entendeste minha moça
Escutaste meu rapaz?
O gostar é impaciente
A paixão é fugaz
E o amor?
O amor não existe mais

0234.

finja acreditar em Deus,
sabendo que há muito mais
finja acreditar no Diabo
sabendo que nós criamos o mal
finja viver,
sabendo que a vida é uma rotina
finja vegetar,
sabendo que a alegria começa
finja felicidade
sabendo que tudo é dor
finja tristeza,
sabendo que a comédia se inicia
finja ódio,
sabendo que procura o amor
finja doença,
sabendo que há a cura
e na hora de sua morte,
finja surpresa,
mesmo sabendo que ela já era prevista
afinal,
fingir é viver

0233. Sentido da vida

(para B.B. King e Celso Blues Boy)

Quando eu olho pro oeste
E sinto minha alma delirar
Em minha mente me perco
E tenho vontade de rimar

Bebo uma dose de conhaque
Lembro um velho rock’n’roll
De novo olho paro o oeste
E o velho sol já se abaixou

Vejo a cor púrpura do céu
Me distraio com os pensamentos
E uma leve brisa bate
Trazendo de volta os velhos tempos

0231. O colorido saúda o pretérito

o verde faz-se tão verde
como há muito não se via
e a abóbada celeste
anil como nunca
cores que perpassam vida
refrações, reflexões, absorções
as mais várias
variam o vivo
e mostram vida à terra, ao barro
distanciam segundos
na realidade de luz
e em milésimos tudo se conecta
em fibras coloridas

essa feliz psicodelia
faz-me recordar
os idos dias de domingo ao clube
quando de minha meninice
quando tudo brilhava muito mais

0232.

Asvezessonhoquesaiodemeutemplo
eusuboatéasestrelasparasentirasluzes

osolbrilhaparatodos
invademeutemplomesmocomcortinasfechadas
ediz-me:”nãovátãoaltoagora,
sintaasproximidadesesejafelizàsuavolta,
depoisvoeoquantoquiser.”
Suaspalavrasfizeram-medançaremmeutemplo,
umadançaacompanhadadefalsasolidão
umavalsadepuramaestriasobremeussímbolos
girava,bailavaebendiziaosátomos
todasasforçasquedeslizavamfrenteossignos
apoéticadasenergiassolúveisemmeuespírito
umtangodeestrelasnochãoenoteto
sobreaóperadadivindadeMãe.

0230. Na Babilônia eu cantei ao amor um dia

ah escrever versos de paixão nefelibática
enquanto o mundo jaz em desigualdades,
conquanto os homens e as mulheres perdem-se em corrupções

de que me serve o platonismo?
por que não escrevo um operário construído
ou como Brecht demonstro os reais heróis?

é tanta miséria em toda esquina
deveras falta de dignidade humana
e eu chorando amores invisíveis, metafísicas

culpa talvez de tanta literatura precoce
tanto filme europeu e bossa-nova
e o árduo é ligar a tv e ver a fome
a culpa também deve ter sido de eu nunca a ter passado

0227. Ver o agora no meu ontem

vi um jovem chorar sua solidão
vi-o num botequim pedreiro
de uma esquina qualquer
suspirava derradeiras dores
primórdios do obstáculo que nascia
ele não conseguia discernir
felicidade de acompanhamento
talvez por Tom Jobim suscitá-lo a pensar
que “é impossível ser feliz sozinho”
vertia ele tácitas lágrimas
e bebia como se o álcool fosse
um símbolo de um ritual solene
e a cada gole sorvido
lá se iam as esperanças e planos
cada lágrima trazia consigo
a mensagem da solidão perpétua
e ele a se maldizer,
vi-o sem a roupa do ego
vi-o nu em sua essência
seduzido pela beleza plácida
e voluptuosa de sua tristeza
agonizava

é jovem mesmo…
ainda não sabe o que há por vir
(na minha época…)

0228. Ritmo natura-normal

Cria ser tácito
Sentia um soneto encoberto
Sobre o véu negro do medo
Bendizia o oculto
A poético do segredo
E deixava o amor crescer em mistério

O silêncio foi seguindo
O amor se tatuando
Minha alma desesperadamente
Abria-se ao inefável
E forjava alvoradas de paixão

Oh tolo
É sempre assim:
A indiferença toma frente
E eu sempre verto poesias
Em aflição

0224. + 1 desistência

“o amor se deixa surpreender
enquanto a noite vem nos envolver”

talvez esteja eu surpreendido
por sentir que ñ haverá envolvimento
e q só a noite irá me acompanhar
até a chegada dos sóis
mas pq desesperar-se?
é somente + 1
+ 1 fim s/ começo
por sorte, + 1 fim s/ começo.
+ 1 proto-começo desfeito
segredado somente a mim.
preparava-me p/ doar-me
e vacilante rompo c/ o início
nasço novamente
e furto outro futuro
q indiscutivelmente,
há d se morfar em utopia
perecer em nova quizilenta quimera
e fatigar minhas retinas

pq sempre transformo paixões
em sonhos?

0223. Delírio real

inspiração:
aspirar e
expirar a poesia
do cotidiano,
pirar.
ser louco
por ver beleza
no dia-a-dia.
respirar:
a loucura,
o poema,
a simplicidade.
transpirar
metáforas
transpassar o ar
da rotina
reinventar o ar.
estar apaixonado
pela vida
inspirar a vida
e expirar sonetos
poesia
olhar cada
momento
cada
fragmento
da loucura
chamada
vida
como fontes
de fina
inspiração

0222. Mendelssohn e Flávia

escutava eu Concerto para Violino e Orquestra em Mi Menor
inebriava-me com a sua suave introdução
e sentia a música invadir meus poros
sobre seu frenético e difuso violino
de olhos fechados deixava o som percorrer meu corpo
quando uma imagem se inicia em minha mente
as notas traziam uma tez suave
um rosto de menina
construía-se aos poucos a imagem dela
uma certa aceleração na música
produzia cabelos negros ao voar do vento
qual seda de finíssima raridade
a volta da serenidade fazia-me mirar lábios
róseos lábios no negrume de meus olhos cerrados
e vislumbrava agora olhos vívidos
de um castanho da cor de um stradivarius
e o primeiro alegro se findava
com a entrada do segundo movimento
a imagem já se fazia sólida
e o tom intimista da sinfonia
trazia-me a tecer a alma que sentia
um tanto confusa como a música,
mas simples e bela
um ar de maturidade num manancial de pureza
e o violoncelo à mostrar-me a fragilidade,
quando soam-se os metais
e ouço o pranto, a dúvida e a certeza
creio escutar sus ais
a orquestra se acalma
chega-se ao final, Allegretto non troppo
de suavidade tal
somente igualável ao que imagem emana
e imagino-a mulher
e presenteio-a menina
o solo de clarineta
conduz-me à linha que une inocência e maturidade
de certa forma o som perfaz-se um espelho
e mirando a imagem
contemplo alguns de meus eus
a sinfonia vai acabando-se
mas imagem perdura ainda
Flávia,
como será que Mendelssohn preveu-te
décadas atrás?

0214.

o que pensar?
meus sentidos me confundem
meus desejos se revelam:
sobrevivo.
sobrevôo sentindo meus desejos
(sozinho)
penso fatos impossíveis
como fotos do meu assassinato
e levo-me a visualizar-me aos quarenta:
uma foto preto e branca
démodé:
solidão.
brindando a minha falta de coragem
as minhas fugas na pretensa realidade

nunca sigo meus desejos (devaneios?) utópicos
e começo a pensar-me louco
por sonhar não só
por aspirar a não só
e não só arquiteto-me só
somente louco
que mente o seu futuro
a não ver-se só

enfermo de ilusões
leio versos e releio (e complico)
o que não existe
e que insiste em me dizer:
“não só”
mas sempre inteligivelmente
trilho curvas rumo a solidão

0215. Um leão em mim

era uma vez um leão
que inesperadamente enamorou-se
de uma borboleta dourada
uma radiante e linda borboleta
esta, voava até ele todos as auroras
e lhe segredava,
pousada em seu nariz,
pormenores de seus idos dias.
certa vez, confessou-lhe um assassinato que cometera
contra uma mariposa companheira
e o leão ficou impressionado
mas ainda assim,
seguiam a mesma trilha até suas casas
numa doce e secreta rotina.
por se achar desiludido de outras épocas
o leão deixava tal amor de lado.
não aceitava.
estava feliz demais urrando à toa
para estragar tudo com um amor
(ainda mais, outra espécie!)
o leão prosseguia sua vida
escondendo de todos
esta paixão não consumada
que o consumia em silêncio
e todos os dias ele via a borboleta
que passa e dizia:
“como é bom ter-te como amigo caro leão,
teus olhos trazem paz”
e o leão fingia indiferença
enquanto por dentro explodia:
“oh doce borboleta,
não me fale somente em amizade,
se meu desejo é proteger-te em minhas patas
e preservar-te de todo o mal…”
coragem faltava ao nosso amigo leão
sua boca não condizia seus sentimentos
e esta urrava em agonia
(seguindo os preceitos do egocentrismo de um “rei”)
“tudo bem borboleta,
sê minha amiga,
mas não te apega,
pois sou só como o sol e esta é minha sina!”
ah leão tolo!
não vês que a borboleta foge?
uma vez que tu não correspondes
nem compreendes a alma desta mutante…
uma pena leão,
este que escreve não ser tua cabeça
para gritar-te aos ouvidos
que tua sina é a solidão,
esqueça!
te atrevas, busque teus ideais
a borboleta não te confidenciou um assassinato?
ficastes assustado leão?
logo tu, um facínora sem igual?
vá leão, balance esta juba
estufe o peito
e perca este orgulho
e vença este medo!
Mas quem sou eu para ser tua consciência,
senão um reles e momentâneo observador?
é amigo leão,
a borboleta se esvai
começa a seguir trilhas que não as tuas
só para evitar tua presença
só para extirpar a paz de teus olhos
creio que ela tem medo também,
mas com razão!
tu és o leão
ela,
apenas uma borboleta tímida e confusa
que por azar do Acaso
assassinou outrem

é amigo leão,
corra atrás de tua borboleta
antes que as rotações ocorram
e o medo se torne real indiferença

0213. ?

(para a dourada)

uma exclamação
e ganho uma poesia em meu dia
presenteiam-me com um fragmento
desta Fênix que há de ressurgir das cinzas
uma fênix-iara-poema-doirada
que brota da poetiza não finda
e seu verso morto tão vivo
assombra meus neurônios
e meu espírito

mas qual será o desejo oculto?
verdades não conheço
e tento satisfazer tua alma faminta
com estas linhas
tal qual sopas de letrinhas
(se a sopa te amargas os olhos, por favor, desculpa-me já agora, e não continue lendo então, mas se as palavras são inocentes de um sentimento qualquer em ti ou se te fazem gosto, degustes mais algumas colheradas e faça teu juízo sobre mim)

dizes que estás seca e sem fé
e eu oro por tua umidade
falas de novelas, aromas, beijos e finais…
e eu a imaginar e tecer começos –
me confundo
minguo, e vejo em tuas letras
uma aurora, uma essência
e meu sempre e eterno MAR
queria ousar, queria poder
e como tu, me calo o observo
e tento jorrar timbres doces
que saciem tuas dores

tuas linhas amenizam minhas retinas
e ao lê-las procuro o mistério
o secreto e o oculto irrevelável
e tento revelar
mas “não ouso, não posso, não devo”
parafraseio-te e tento te desvendar
mas não sei o que há
e o que há em mim,
também não ousei constatar

meu espírito suspira
e fulgura em dúvidas flúidas

poetiza,
revela-me teus mistérios
que te mostro meus eus
(será ousadia?)
(será que devo?)
e que fique assinalado
vacilarei na hora de te entregar esta confissão (?)

0212. A anarquia me espera?

Nunca palavras aparentaram ser tão inúteis
como agora
nada do que eu escrever
pode dilucidar meu espírito
neste instante
parece que caio num precipício
sem princípio ou fim
um precipício ornado de facas
afiadas por Deus
ou Krishna
ou Alá
ou Ogum
ou Buda
ou Tupã
ou Tudo
ou eu
eu caio
caio
caio
e nunca acabo
e às vezes me agarro a cabos
cabos de guerra
puxados na outra extremidade
por Deus
ou Krishna
ou Alá
ou Ogum
ou Buda
ou Tupã
ou Tudo
ou eu mesmo
eu mesmo me fazendo de palhaço
num circo infinito
circo abismo
onde rio
e rio
rio
rio
mergulho num rio
que acaba numa queda para cima
uma cachoeira invertida
tímida
para o espaço abissal
sideral
e subo
subo
subo
e nunca paro
pois no espaço não há cima ou baixo
por isso não sei se subo ou caio
tanto faz
frente ou trás
e neste espaço
onde o que expande é minha alma
eu vago
vago
vago
e vagabundo, vadio no espaço
e nunca acabo
olho para o tempo
e o descubro a quarta dimensão
e depois descubro infinitas dimensões
no espaçalma
e discos-voadores carregados voam
incrustados com sentimentos
alegria
tristeza
amor
ódio
e todo o infinito pulsante do sentir
pilotados por Deus
ou Krishna
ou Alá
ou Ogum
ou Buda
ou Tupã
ou Tudo
ou eu viajante
comandante dos orbitais
onde cada estrela é um desejo
cada cometa é um desejo desfeito
e o universo se mostra na minha pele
onde a espada da solidão me rasga
e fere o universo
que cai em gotas por entre a ferida
e por entre as pálpebras
e molham o abismo
pelo qual caio ou subo
e quando menos espero
vôo no céu anil do abismo
e vôo
vôo
vôo
vou voando veloz, voraz, vívido, vespa, vértice, vórtice, voz, feroz
lutando contra pássaros guerreiros
que me marcaram
com o seu pouco caso à minha pessoa
e provaram que o amor não vale uma migalha
não vale nada
se comparado ao coração uivante do vento
que não se apega a nada
a ninguém
vive por passar pelos outros
tão somente
tão só
e sigo só


somente acompanhado por Deus
ou Krishna
ou Alá
ou Ogum
ou Buda
ou Tupã
ou Tudo
ou eu companheiro
eu sei que
eu caio, rio, subo, vago, vôo, só
mas o que eu queria mesmo
era fazer um piercing na sobrancelha
e esperar minha companheira
que virá não num cometa
(pois este já foi desfeito)
mas sim num luar resplandecido por estrelas
lá no sol
a arder a espera
essa era de Eros
que marca a mente
esse ente de Tânatos
que marca a alma
essa palma de Deus
ou Krishna
ou Alá
ou Ogum
ou Buda
ou Tupã
ou Tudo
ou eu egoísta
ego agnóstico
panteísta
que vive
e vivo
vivo
vivo
e morro
morro
morro
morro abaixo (ou acima) no vivo abismo
e num sonho
Buda voava como um rabino
e me disse que Jesus Cristo
cristalizado no espírito de Ogum
vai voltar como Alá
na cabeça de um Hare Krishna
que lia Alan Kardec
numa aldeia indígena
na beira do rio protegido por Janaina
aí então encontrarei meu amor
e até lá eu vivo
e vivo
vivo
vivo… (?)

0210. Escatologia

Não.
Não há como se esconder da grande merda,
pois grande merda já consumiu tudo
de fato é ate meio que um pecado
chamar de grande merda a grande merda
uma vez que a merda é um presente divino.
Estou em meio a pequenos patrícios
que derrubam seus “amigos” de cadeiras
“amigos”, pois afinal são todos uns merdas
fumam seus cigarros, bebem suas cervejas
e gozam com a desgraça dos outros “amigos”
Ah, grandes merdas tão desprezíveis quanto eu
Batidas eletrônicas simplistas e enfadonhas
deturpam a música eletrônica
e a cada hora, chegam hordas de bostas
para dançar a música, que poderia ter sido inteligente
mas que foi transformada numa bela cagada
e este cheiro de perfume da moda
que todas as garotas por aqui usam,
tem cheiro de esterco doce
fazem as apetitosas e suculentas garotas
parecerem grandes cocôs, cocôs com bolsas iguais
brincos iguais e celulares iguais e tamancos iguais

como eu sou um merda também!
desejo todas

0211. Uma face da comédia

o que faço eu aqui?
a luta já morreu
o amanhã não existe

agressividade…
a luta
as palavras são de ordem (ou tentam ser)
o ideal é válido
mas e a realidade?
esta perdeu-se em retóricas

uma longa caminhada
para um futuro circular
o fim iniciou-se a muito
os revolucionários?
estes nunca existiram

andamos por estradas privatizadas
há muito já reteram
o nosso direito de ir e vir
vermelhos…
a doce comédia humana
manifestamo-nos em prisões
cordões de domínio
o que reclamamos?
se somos frutos e motores do sistema
apenas peças de manutenção

risos falsos
ânimos ébrios
máquinas de pensamento discordante
fantoches
“eles” nos ensinam a nos revoltar

dentro do céu…
estamos dentro do céu
e queremos melhorias,
igualdade

ah, a doce comédia humana
um nada e um ninguém
dentro dos concretos modernos
linhas simples
que guardam outros fantoches
fantoches

alguns riem-se por fora
outros por dentro
ao meu lado
a segurança olha a cor reprimida
e não se enxerga reprimida
dentro da concreta modernidade

ah, eu me rio
do discurso retórico
da revolução social
e não sei o que almejar,
confesso.

tudo que qualquer um
acredita é ilusório
Babilônia queima em vida

o semblante concreto da humanidade
a fuga do sistema

ando a esmo em meio a turba de revoltos
mecanicamente

nada realmente importa!

0209. Canonisas

senhoras da vida
donas da verdade
em negríticos becos fétidos
vendem suas gastas mocidades
maturam-se ao se vender.
a poucos metros destas
camélias noturnas
rodas de diamba ardem
plasmam fumaça ao
reinado das damas
singularizam a cidade
chapam-na até forçar
o vômito
que a noite debruça
à solar ressaca
e as damas esvaem-se
na fumaça golfada
e seu reino dá lugar aos
respeitáveis cidadãos apressados
que de quando em quando
infiltram-se na noite
à procura de prazerosas verdades

0207. Levas de letras ao acaso

leve,
como leve pluma muito leve pousa

subtraio o meu acaso
dessincronizado como a vida.
sou levado

como um infante conduz sua imaginação
à lápis e folhas em branco,
o acaso perpetua minha sorte,
a possível sincronia como norte.
sou levado

qual folha a esmo, ao vento
pétala eu mesmo
subtraída no mal-me-quer
conduzida ao relento.
vôo imaginário, sendo levado

a sincronia, a imaginação
e o vento norte
provocam em mim a alusão do riso
rio, mesmo sendo levado,
da imaginária sincronia do acaso
(e sou levado)

0204.

pequena, por que insistes em me amar?
por que este erro de me querer?
pequena, prometa-me não verter lágrimas
faça um juramento a teu deus
proferindo ser sempre feliz
apague os resquícios do possível incêndio
que eu a tenha cometido

pequena, palavras bonitas são os ouvidos que produzem
poetas se encontram em todas as esquinas
a vida é somente a sincronia do Acaso
e um acaso fez-me vivo em alguns momentos seus
não nego tal acaso maravilhoso
como certamente o foi em dobro
mas esqueça-me em amor
ou ainda, ame-me como a um árvore

0205. Sacer Fare

já não há como mirar os olhos
encontrar a luz destes oblíquos e dissimulados
já não é possível
colocar olhar a olhar
alma a alma
faz-se a máxima do martírio
já não torna mais sagrado
mas quer ser sacrifício
sacer fare
e mirar os olhos não consigo
não sei se amor demais
ou então medo contumaz
só sinto que os negros olhos
nunca mais

0206. Eterna idade da espera

uma eternidade lateja e pulsa meus neurônios
a ânsia da mísera espera de um telefonema
enrubesce minha alma
que, ainda indignada de si, espera
o aparelho toca
a ao tocar, faz-se um iceberg
e toca meu espírito que se congela
mas como sempre,
volto ao meu estado de espera

tento ler,
as letras lidas não possuem sentido algum
a mente inclina-se ao espírito
o espírito à espera,
à promessa
à misera espera pelo telefonema prometido

é domingo para piorar a espera
Fausto Silva, Sílvio Santos
futebol show
e o telefone não toca
o rádio a lançar-me amor às idéias
à piorar a espera

as letras turvas e desconexas
as imagens profanas da tv
o amor que corre em melodias pretensiosas
e não salvadoras
contribuem por impedir meu sono
por fim, complicam a espera
e, como sempre, o telefone para outrem

eternidade do presente na espera
incômoda sensação de platonismo
impressão de indiferença e solidão

será que já posso afirmar ser amor?

o telefone toca…

mais uma vez volto à minha eternidade
(foi engano)

0203. Mítica nova

vejo discos-voadores planando sobre as campinas do cerrado
vejo buracos negros caleidoscopiais sugando tais discos
e vejo que delírios de amor consomem meus neurônios
tão doidamente que as metáforas rompem-me a razão
descubro tudo com olhos de um possível provável poeta
por isso, conversei com Hércules ontem
e admiro Afrodite quase todos os benditos dias
Afrodite que mora em uma concha no fim do mar
e assim – poeta – declarei-me entre linha a ela
aparentemente ela que ir embora no disco-voador
e eu fico aqui, mirando o mar abissal do céu noturno
pensando eu ser o próprio Vulcano dos presentes
indo integrar-me à calda de um cometa fulgurante
desfigurando-me mais ainda, mais do que já sou
pretendo entregar-me e integrar-me ao cosmos
ao cosmos discoidal, fulgurante, preso a uma concha de Afrodite
mas disco voadores continuam e robôs herculóides avançam
autômatos autônomos e vivos, é Poseidon que escorre
e molha, dando vida nova à minha parca morte
dando vida nova ao disco voador que jaz sugado

0202. Desliguem os aparelhos

constato que o constante pode ser muito instável
que a qualquer momento a hora clara é apagada
ela muta-se num eterno momento breu
então tranco-me entre quatro paredes curtas
negras, escuras; dentro de minha mente
órgão independente do fantasmagórico eu irreal
multiplico-me e apagam-se minhas luzes
como se a fonte de energia chamada vida
resolvesse acabar ou então oscilar
minha alma encontra-se em coma
ocupando o leito de um mendigo moribundo
intensivamente, sofro um ataque de banalidade
meus amigos prostraram-se a me ajudar
dar-me-ão doses de mesmices e outras necessidades
que o ser precisa para não ver o escuro
e externa e internamente, distinguirei só arco-íris
em paisagens tortuosas do futuro
mas o instável quer se tornar constante
e como uma onda propagada, aumenta e diminui a escuridão
e como uma partícula lançada ao vácuo, vagueia na escuridão
então contemplo o quão difícil é manter a luz acesa
quando a fonte de energia está perdida
perdida num espaço físico e metafísico
da sua própria e falsa teoria relativamente quântica

0201.

balança de pagamento
paga o momento
do perdido pensamento
perdido na balança de pagamento?

a balança de pagamento
lança o momento ao vento
e deturpa o pagamento
do perdido momento

a balança de pagamento
abala e lança o pensamento
a se perder no momento
de se pensar na balança de pagamento

0198.

eu não sou um novo hippie
sou apenas um retrô
compro calças em brechós
e uso o chapéu do meu avô

tem gente que diz que é pose
meu estilo é diferente
não sou doidão nem crente
eu apenas sigo em frente

sou estranho mesmo
gosto de música antiga
não ligo pra minha vida
muito menos pra barriga

vago pela noite
não sei se to lá no fundo
ando por aí sem rumo
descalço nesse mundo

0194. Soneto à Eliane

um blues gira triste no rádio
e vibra a dor em melancolia
a madrugada rasga o passado
e derrama em pranto meu dia

ergo-me confuso, escrevo apático
uma luz tenta nortear a apatia
irradia meu ser ainda estático
recordo-me de outrora com nostalgia

ela surge, excelência radiante
imagem excelsa que ilumina
dulcíssima luz, viva e radiante

quando já claro procuro a rima
chora minh’alma e ele adiante
Eliane, um passado que se faz sina

0195. Bucolismo

morar no mato em uma cabana
esquecer que existe semana
arranjar uma mulher linda e profana
meio cristã, meio cigana

pensar no que a vida me emana
esquecer de toda essa gana
fazer um vaso de porcelana
disforme, porém bacana

sentar, tomar um gole de cana
esquecer o dinheiro que me esgana
não limpar minha choupana
sendo certo e sacana

ouvir uma coisa amena
esquecer que a vida era uma arena
e só pensar naquela pequena
que de longe me acena

0196. Apologia ao suicídio

o mundo em que vivemos
não é mais o mesmo
o mundo de outrora
era mais bonito,
era mais ameno
não vejo nada de belo
só vejo desgraça
só vejo corrupção
só vejo tristeza
não há mais união
é um mundo ao avesso
é a degradação da humanidade
é o fim dos tempos
é a última viagem
faça-me querer morrer
ou me dê o significado da vida
me diga se ela é bonita
faça-me querer morrer
ou me declame a retórica poesia
me sopre uma simples e breve brisa
você é insignificante
e você sabe disso
você realmente conhece este suplício
isto é apenas uma apologia ao suicídio