3702. Departamento de Ortofrenia e Higiene Mental

Será revitalizado dentro do novo Ministério da Moral e dos Bons Costumes
na Secretaria de Defesa da Ordem Social
vizinho ao Departamento de Fomento ao Civismo
e ao Departamento de Fiscalização da Família Tradicional

Será responsável pela implementação da Política Nacional de Contenção dos Desvios
com o objetivo de extirpar anormalidades e anomalias sociais

                         – dessas que se nos ajustam,
                         o cambiante da razão
                         junto ao todo do espírito
                         ao aprumado da alma, para quem acha que tem
                         e ao bem feito do corpo ao ser feito como quer e usado como gosta –

Será comandando com pulso firme, bolso avaro, eficiência e eficácia
aos auspícios do Exmo. Sr. Dr. Cel. Asdrúbal de Deus
originário do Terceiro Destacamento da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão
cuja ferramenta primordial para o alcance dos objetivos colimados
será o CANALHA (Cadastro Nacional de Anormais e Loucos em Higienização Atávica)

Terá recursos, além de um programa de renúncia fiscal para
empresas que aderirem à CAGUETA (Campanha de Gestão Uniforme de Empresas que Tratam Anormais)

Ganhará o Prêmio de Práticas Inovadoras na Gestão Pública
no ano seguinte à sua instituição
 

Será privatizado até o fim do mandato,
após a 25ª versão do Programa Smart-Estado “Minimizar é Melhorar”

3701. catarse

cometa comentários
como cometas cáusticos
colidindo com cosmos caóticos

comente cometas
curta como cársticas
cordilheiras caladas
camadas compressas

compreenda como casos
compartilhamentos coisificados
contraídas colagens cantadas

conte cantos com
carcomida condução cortical
conduzindo comprimidos computadores

controle-se comicamente
com colisores, códex
curtos códigos, códices
captando compassos convalescentes
colérica condução

combatentes cambiantes
codificações contratadas
carregamentos conectados
carga, carro, caminhão

categóricas coreografias combinadas
cartografias corporais colapsadas
corcundas cabisbaixas
 

cosméticas cabeças capturadas
corrosiva comunhão

3700.

o dever é o de libertar afetos
o dever nenhum, pois

não houve empréstimos
ninguém tratou de dívidas
tampouco houve aposta
há sim vida

o som mesmo me afeta
enfeita corpo e cabeça
com o invisível
me sinto mais bonito
quando sons me adornam
mais que quistos e soltos

a sinuosidade dos toques
que me tocam
a síncope e a cadência
que me ritma

seja de qualquer mão que venha

há quem não goste
e arranje artes de desgostar
esquece de libertar os afetos

como aquele primeiro de todos
de dentro de si
 

liberta
deixa-se gostar

3699. O Teu Canto

Retalha-me a pele, tatuado auto-relevo,
corta-me o espírito em três, mas
continue o canto.

Não me negues a nota
o ar que dança ao teu movimento,
a boca que trisca o céu
e em som se faz,
as mãos que ondulam
mares em meus ouvidos.
Ou me negue.

O mundo se arruína em degredos.
Sempre volto com a alma em frangalhos
quando me aventuro em seus labirintos
– essa infinita mudança prostrada,
mas quando o teu canto atravessa
espaços e me traz paisagens
estelares em manhãs douradas,
pulso vida aberta.

Mas não é amor, é flutuação
e claridade que estonteia
em mim teu canto, sem a face
dos grilhões debaixo da terra
a surgir flores carnívoras.
Canta, porque teu canto será para o mundo
esmaecendo a dor.

Em meio aos vales ecoantes,
o teu canto não deve nada
será canto e doçura,
estação precisa dentro do ano,
para desabrochar flores,
cair folhas, chover mares,
chorar frios e calores.
Será teu canto.

Canta o escuro,
a brisa, a bruma,
canta as cidades
os rios e as pessoas,
canta tua vida
pra mim que não te ama,
para o universo que te faz
e já te refez
indo e vindo nas mesmas forças,
feitas de cantos,
como o teu.
Destroça-me as partes,
todas e de além,
e teu canto também
se quiseres,
porque ele é teu.
 

Mas lhe peço humildemente,
continua o canto.

3692.

fui passear com a minha
camisa no samba
no samba iaiá
no samba iaiá

fui passear com a minha
camisa no samba
camisa iaiá
que ela me deu

camisa medida
bem mais que bonita
que ela me deu

de pano da costa
detalhe dourado
e da cor do breu

naquele dia
só quem aparecia
era eu

só que minha menina
que é a que brilha
sendo a noite o corpo seu

naquele mesmo dia
no samba
não apareceu

fiquei só com a
minha camisa
passei com
a dor bem vestida

era a camisa por
ela cerzida
que me conduzia
no salão

engomada e linda
era só a camisa
que deslizava
no samba-canção

3691.

era uma beleza por um fio
de Ariadne
saia das mãos em finas linhas
tramas e mandalas
se ressignificavam no dorso
e transpassavam o umbigo
num ir e vir de segredos
morava um sagrado
uma constância com a mutação
e certezas diluídas

era um não sei quê
de tudo incerto
e charme até nos pés
uma coisa de interior
ainda que com ossos nas orelhas
é que havia singeleza
e calma

pausava atenção para ouvir
e deixava que adentrassem
mostrando os traços
e as cicatrizes
sofrera
como toda beleza

houve parca luz e só
contornos
no assustado da noite
entre a chuva
e uma varanda de existir
juntando cada fio
novelo de enlace
a madrugada dispõe
olho no olho

3690.

doce irmã
sei que já nos deitamos
entre sedas e silêncios
falando esse tato de sentir
e aprendemos a dimensão
dos corpos

aparamos a grama e as
arestas
e debruçamo-nos sobre
muros, intransponíveis

o verso dos ventos
nos deu de dorsos uma à
outra
e ainda assim somos
e permanecemos
soltas à inveja
das labaredas e flamas
que ansiavam nossa morte

doce irmã
as águas nos unem
pacto e laço
igarapé que somos
até dar no mar
destino certo das
vazantes que nos constroem

3686.

Havia uma suspeita
ancorada no porto
à beira do cais

Um navio chamado Caos
em algum momento
enfrentaria a arrebentação

Um acúmulo de nuvens
prateava o céu
anunciando a tempestade

O que haveria em meio
à branca espuma
que se turvaria logo mais?

Assim que zarpasse
a brevidade do Caos se daria

Um naufrágio na inquietação azul

Pedaços do Caos à deriva
se veriam à milhas náuticas
enquanto o resto afundaria
mil léguas submarinas

Destroços recompondo-se corais
morada de peixes

Do Caos um equilíbrio em plenitude
mas só depois do desastre

anunciado

3684. Etnografia de um possível casal

Ela e ele mantêm uma
certa distância
Nunca muito longe
Nunca se tocando
Sempre um quase

Por ser ele e ela
inferi ser um casal
mas pode nem sê-lo

Uma amizade certamente
Um amor lento se
recompondo, as bodas
de um fim, sol de fel
da separação
Companheirismo apenas

Andam vagarosamente
pela praia, da pedra
à foz, todo dia
Falam pouco, muito pouco
monossílabos olhares
mares de já se saberem

Ela olha com cuidado indiferente
a pele vermelha dele,
a forma como puxa os pelos
da longa barba, num auto carinho
repleto de falta,
o jeito como se alonga
espreguiçando e o modo
como alimenta o cão adotado na Cueira

Ele olha ela com saudade
de si mesmo e dela,
vê a areia que se prende
à sua pele preta,
a maneira discreta e centrada
com que move longamente
os braços para gesticular,
o traço da boca molhada
a falar “formidável” com
todas as sílabas

Se levantam e caminham até Moreré
enquanto o mar lhes acompanha,
lavando os seus pés
na mesma cadência lenta
de seus passos

Conversam na língua das ondas,
de quando em quando,
no dialeto do vento
soprando breve os coqueirais

E o cão lhes acompanha cabisbaixo

3681.

Há uma curva
no avolumado das águas

Diziam que por detrás dela
o abissal ganhava vida
na superfície das ondas
e toda a sorte de quimeras
destroçava naus e faluas
engolindo marinheiros
e vomitando rochedos

Tritões estrondavam
os mares, sereias rompiam
a cabeça de desejos
entalhando a loucura

E lá no fim, segredando
o profundo azul,
a súplica dos oceanos
se fazia ao último instante
desabando os fragmentos
restantes numa queda
sem fim dentro da noite
que envolvia a Terra

Por dentro do firmamento
toda água virava espaço
Trevas feitas de mares

Diziam

Era um mundo encantado

Sabiam

3767.

todo mundo ali
menos ela

ele sabe que ela lá
não sei onde

ele sabe que não há o que fazer
a não ser mapear
o zigue-zague das bilocas
suspensas em meio aos olhos

e inferir onde quer dar
essas lágrimas que se restringem
ao aquém da festa

buscando frestas
para onde olhar

3675.

ao lado do elevador lacerda
estava lá, o três de ouros
escondido, virado

eu poderia ser uma chave
só faltava a fechadura
que se prestasse para
destrancar

eu poderia ser um ponto
agregador do infinito
união de tudos para
sermos múltiplas

mas foi assim
um três de ouros só
no chão
pronto para que eu o
encontrasse
e o significasse

transformei-o em três de luas
e congreguei todas as ilusões

3670. domínio do fato

eu não autorizei nada em meu nome
você que amou os rastros
despejou querer por aí esparramado
dando atenção em troca de lealdade apaixonada

eu não disse forma cor textura
nem percebi que coisa assim havia
sequer ponderei que era disso que o mundo precisava

subentendido você executou os amores
bem colorido
e caiu em desgraçada sucumbido
flagrado com êxtases nas cuecas
levando junto uma tropa de apaixonados
todos destruídos

e eu não autorizei nada em meu nome

mas seguiram as evidências por você deixadas
e deram comigo sendo

minha pena

:

vinte e cinco anos de coração esvaziado
e mais três

em regime semiaberto

 
eu não era réu primário.

3668. crediário (casa baiana)

ele não me olha mais nos olhos
desvia capoeira
fala daquilo de tudo de tanto
menos de nós
dos nós
do peito
da garganta
faz roda e arrodeia

ele passa incólume e atento
aos tempos
a tempos
rijo que nem pau de biriba
oco que nem cabaço de berimbau
malemolente

fica tudo lento daí então
maresia pousando no sertão
evaporada de um tanto

me largo na rede e balanço
sem pressa
enquanto tudo se apressa nos dentros
e aperta
e espero

ele vem num toque de são bento pequeno
e me passa uma rasteira
na dianteira do tempo
no adiantado do atraso

tudo acabado
mas a gente faz um novo crediário
longo longo prazo
a juros no correr monetário
da vida e do juízo

uma hora amor volta
atenção vem
a tensão vai
e ele fica

 
meu crer diário.

3665. des-curso

brado alto, altiva a voz
certo o alvo, altaneiros nós

do púlpito azul, limpo a minha tela
para que dela saia a sentença mais bela

(antes bela do que certa)

:

morte àquela, àquele, àquilo
morte às massas, aos quilos
morte à morte, morte ao vivo
morte morte morte será a máxima sorte para o bandido

morte a você, morte ao meu filho

(se assim ele for na conduta do desvio)

morte a mim, se for preciso
para salvar essa pátria em perigo

assim tuitou o menino
que curtiu do pai
que compartilhou do avô
o que enviou o primo
pelo grupo ensandecido

“Qui foi triste aquela função lá na cabicêra
Qui dassanta, a burrega marrã
Foi incontrada num canto do terrêro
Junto c’uns violêro mortos naquela manhã.”

3662.

Em tudo há fins

                        – desde sempre –

onde os meios são todos:
cartas muros papiros suspiros
corpo relva mar

                        – e não os justificam

                        os compõem
                                    são tecitura.

A chave de um verso

                        – feito em prosa
                        olho no olho
                        afago de hálito quente
                        trêmulas mãos que se vestem
                                    umas nas outras –

é o fim

                        – silêncio que transporta
                        transpiração da pele
                        transposição de sensações
                        transformação do desejo
                                    em sentidos –

quando vira poesia
com outro.

3660.

da pedra ainda saltam as águas
que abismam o lusco-fusco, anunciação
do caminho visto, vasto, até a vertente do amanhã

esse entalho de luz no nascimento da noite e das nuvens
é o atalho que um canto faz pra sussurrar
o rasgo da terra por raízes feito

brotos que saltam para o alimento do voo
para o corpo ao vento envolvido
sementes, esperanças, saciam o avesso da falta

e um baobá se lança a todos os cantos
da feitura do tempo, arvorando-se ao vértice do espaço
pois que nele se sabe o início e o fim

feito o ir das estrelas para a vida, simples
unindo todas as dimensões.

3658. rede

a casa agora está vazia

debaixo do que pode definir
o contorno da existência

                                          pele

tanto

esse invólucro vagueia
perambula
peregrina
pelos ermos da casa

                                          para

há uma janela aberta
e o mundo para espreitar
imã ela

pulsa uma luz fria desde a janela
constante
tocá-la choca
e a redoma de pele pega
é um impulso elétrico
                                          magnético

o magma das eras que a forma
a redoma
se apega à janela
passa olhos dedos pele

                                          salta

adentra

e o mundo inteiro faz companhia
como se

 

e a casa agora continua vazia.

3657.

e se eu estranhasse essas paredes?
o largo corredor
o quadro celeste em forma de trapézio do quintal
as três marias sempre ali
essa areia de praia solta no céu
que doura a mortalha azul profundo

e se eu estranhasse você?
essa que me apresenta outra e a mesma
numa metade da maciez dos tecidos
no travesseiro companheiro
você mesma que renasce
sem cabelos

e se você renascer alhueres?

e se eu estranhar as gatas, o cachorro?
e não conseguir levar a mão
aos pelos sedentos de carinho
e se eu estranhar o menino?

e se eu estranhar as plantas?
a espada-de-ogum, a samambaia
a jiboia, a dama-da-noite
a arruda, o manjericão, o gerânio
as bromélias, o boldo e a sem-nome
essas que eu plantei, reguei e conversei

e se eu me estranhar numa manhã de quarta-feira?
olho no olho no olho do olho que me vê
mirando nauseado a calça que não me é
a camisa que não me cabe
o trabalho que não me alcança
o sapato que não me entende
as pernas que me arrancam de mim
os óculos
o cabelo
a barba

a vida

e se eu estranhá-la?

me dá a mão, me abraça?

3656.

como o topo dos cambuís
vão no vento dos céus
e o xixi-de-macaco caindo
até ruivo o barro ficar

como o jambolão derrubado
jabuticabando as ruas
e o algodão leve das painas
a tecer a terra em branca vez

como escorregadias as frutas
das saboneteiras a espatifar
e sementes pisadas crocantes
redondas do jacarandá do cerrado

como essas árvores
sempre no mesmo lugar
atravessa os absurdos

fincada

arbusto

até arvorar.