Nada te supõe
a não ser o silêncio,
esse espaço entre
a intenção
e a palavra.
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
Nada te supõe
a não ser o silêncio,
esse espaço entre
a intenção
e a palavra.
Troca de dádivas,
esse deveria ser o mote
da economia dos relacionamentos
– não lucros ou prejuízos.
Será revitalizado dentro do novo Ministério da Moral e dos Bons Costumes
na Secretaria de Defesa da Ordem Social
vizinho ao Departamento de Fomento ao Civismo
e ao Departamento de Fiscalização da Família Tradicional
Será responsável pela implementação da Política Nacional de Contenção dos Desvios
com o objetivo de extirpar anormalidades e anomalias sociais
– dessas que se nos ajustam,
o cambiante da razão
junto ao todo do espírito
ao aprumado da alma, para quem acha que tem
e ao bem feito do corpo ao ser feito como quer e usado como gosta –
Será comandando com pulso firme, bolso avaro, eficiência e eficácia
aos auspícios do Exmo. Sr. Dr. Cel. Asdrúbal de Deus
originário do Terceiro Destacamento da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão
cuja ferramenta primordial para o alcance dos objetivos colimados
será o CANALHA (Cadastro Nacional de Anormais e Loucos em Higienização Atávica)
Terá recursos, além de um programa de renúncia fiscal para
empresas que aderirem à CAGUETA (Campanha de Gestão Uniforme de Empresas que Tratam Anormais)
Ganhará o Prêmio de Práticas Inovadoras na Gestão Pública
no ano seguinte à sua instituição
Será privatizado até o fim do mandato,
após a 25ª versão do Programa Smart-Estado “Minimizar é Melhorar”
cometa comentários
como cometas cáusticos
colidindo com cosmos caóticos
comente cometas
curta como cársticas
cordilheiras caladas
camadas compressas
compreenda como casos
compartilhamentos coisificados
contraídas colagens cantadas
conte cantos com
carcomida condução cortical
conduzindo comprimidos computadores
controle-se comicamente
com colisores, códex
curtos códigos, códices
captando compassos convalescentes
colérica condução
combatentes cambiantes
codificações contratadas
carregamentos conectados
carga, carro, caminhão
categóricas coreografias combinadas
cartografias corporais colapsadas
corcundas cabisbaixas
cosméticas cabeças capturadas
corrosiva comunhão
o dever é o de libertar afetos
o dever nenhum, pois
não houve empréstimos
ninguém tratou de dívidas
tampouco houve aposta
há sim vida
o som mesmo me afeta
enfeita corpo e cabeça
com o invisível
me sinto mais bonito
quando sons me adornam
mais que quistos e soltos
a sinuosidade dos toques
que me tocam
a síncope e a cadência
que me ritma
seja de qualquer mão que venha
há quem não goste
e arranje artes de desgostar
esquece de libertar os afetos
como aquele primeiro de todos
de dentro de si
liberta
deixa-se gostar
Retalha-me a pele, tatuado auto-relevo,
corta-me o espírito em três, mas
continue o canto.
Não me negues a nota
o ar que dança ao teu movimento,
a boca que trisca o céu
e em som se faz,
as mãos que ondulam
mares em meus ouvidos.
Ou me negue.
O mundo se arruína em degredos.
Sempre volto com a alma em frangalhos
quando me aventuro em seus labirintos
– essa infinita mudança prostrada,
mas quando o teu canto atravessa
espaços e me traz paisagens
estelares em manhãs douradas,
pulso vida aberta.
Mas não é amor, é flutuação
e claridade que estonteia
em mim teu canto, sem a face
dos grilhões debaixo da terra
a surgir flores carnívoras.
Canta, porque teu canto será para o mundo
esmaecendo a dor.
Em meio aos vales ecoantes,
o teu canto não deve nada
será canto e doçura,
estação precisa dentro do ano,
para desabrochar flores,
cair folhas, chover mares,
chorar frios e calores.
Será teu canto.
Canta o escuro,
a brisa, a bruma,
canta as cidades
os rios e as pessoas,
canta tua vida
pra mim que não te ama,
para o universo que te faz
e já te refez
indo e vindo nas mesmas forças,
feitas de cantos,
como o teu.
Destroça-me as partes,
todas e de além,
e teu canto também
se quiseres,
porque ele é teu.
Mas lhe peço humildemente,
continua o canto.
no mar o vento silencia mentes
parece que nenhum ponto se conecta
é tudo lâmina
navalha azul pro fundo do céu
é tudo banzo, barco, balanço
e nada seu
runas, búzios, cartas, café
o futuro se achega
quando se sabe lê-lo com fé
Tanto que mar tentei
em seus vastos litorais
e tudo que me restou
era cais
Quando eu ondas
me repeliu rochedo
Donde eu corais
para que contemplasses
me despontava florestas
para que não te adentrasses
E sempre aquele nosso
quase encontro
de idas e vindas na areia
Quanta coisa nessa cabeça
dela que não fala
Quanta falta
Quanta percepção
Vem que nem maré
cheia, aluada
muda todo dia
Quanta falta de carinho
Quanto tudo a ser
recíproco
Ela é feita de águas
algas e faltas
Mas preenche o mundo
com o tanto que lhe é
Tem a língua das animais
até mesmo dos humanos
Ela,
cultura
doura-lhe a pele preta
a luz contrasta no tocante
areia explora o restante
champanhe do mar estonteante
a cabeça
dista-se do presente
a mente é todo o instante
em que ela ajeita o turbante
e o rasta salta-lhe avante
a vida sente
dentro dela um
mundo de coisas
te agarram, queimam
espetam
dentro dela se encontra
ela rompendo o chão
lentamente, trazendo
mais chão
dentro dela peixes
para pássaros e pessoas
monstros e sereias
sua superfície de espuma
e ondulações, tapete
das embarcações
adentro-a e ela me
abraça por todos
os lados
fui passear com a minha
camisa no samba
no samba iaiá
no samba iaiá
fui passear com a minha
camisa no samba
camisa iaiá
que ela me deu
camisa medida
bem mais que bonita
que ela me deu
de pano da costa
detalhe dourado
e da cor do breu
naquele dia
só quem aparecia
era eu
só que minha menina
que é a que brilha
sendo a noite o corpo seu
naquele mesmo dia
no samba
não apareceu
fiquei só com a
minha camisa
passei com
a dor bem vestida
era a camisa por
ela cerzida
que me conduzia
no salão
engomada e linda
era só a camisa
que deslizava
no samba-canção
era uma beleza por um fio
de Ariadne
saia das mãos em finas linhas
tramas e mandalas
se ressignificavam no dorso
e transpassavam o umbigo
num ir e vir de segredos
morava um sagrado
uma constância com a mutação
e certezas diluídas
era um não sei quê
de tudo incerto
e charme até nos pés
uma coisa de interior
ainda que com ossos nas orelhas
é que havia singeleza
e calma
pausava atenção para ouvir
e deixava que adentrassem
mostrando os traços
e as cicatrizes
sofrera
como toda beleza
houve parca luz e só
contornos
no assustado da noite
entre a chuva
e uma varanda de existir
juntando cada fio
novelo de enlace
a madrugada dispõe
olho no olho
doce irmã
sei que já nos deitamos
entre sedas e silêncios
falando esse tato de sentir
e aprendemos a dimensão
dos corpos
aparamos a grama e as
arestas
e debruçamo-nos sobre
muros, intransponíveis
o verso dos ventos
nos deu de dorsos uma à
outra
e ainda assim somos
e permanecemos
soltas à inveja
das labaredas e flamas
que ansiavam nossa morte
doce irmã
as águas nos unem
pacto e laço
igarapé que somos
até dar no mar
destino certo das
vazantes que nos constroem
Casca não fala
Concha não conta
Esse segredo de pérola
Toda água pro mar retorna
Espuma e sal nessa bruma
Doce cai e aqui transborda
longe dos ondes
preso nos quandos
uma vida de não
estar aqui
Havia uma suspeita
ancorada no porto
à beira do cais
Um navio chamado Caos
em algum momento
enfrentaria a arrebentação
Um acúmulo de nuvens
prateava o céu
anunciando a tempestade
O que haveria em meio
à branca espuma
que se turvaria logo mais?
Assim que zarpasse
a brevidade do Caos se daria
Um naufrágio na inquietação azul
Pedaços do Caos à deriva
se veriam à milhas náuticas
enquanto o resto afundaria
mil léguas submarinas
Destroços recompondo-se corais
morada de peixes
Do Caos um equilíbrio em plenitude
mas só depois do desastre
anunciado
se te falasse continentes
que mares me responderia
com qual sotaque de
vento acentuarias as palavras
e que abissal me segredarias?
Ela e ele mantêm uma
certa distância
Nunca muito longe
Nunca se tocando
Sempre um quase
Por ser ele e ela
inferi ser um casal
mas pode nem sê-lo
Uma amizade certamente
Um amor lento se
recompondo, as bodas
de um fim, sol de fel
da separação
Companheirismo apenas
Andam vagarosamente
pela praia, da pedra
à foz, todo dia
Falam pouco, muito pouco
monossílabos olhares
mares de já se saberem
Ela olha com cuidado indiferente
a pele vermelha dele,
a forma como puxa os pelos
da longa barba, num auto carinho
repleto de falta,
o jeito como se alonga
espreguiçando e o modo
como alimenta o cão adotado na Cueira
Ele olha ela com saudade
de si mesmo e dela,
vê a areia que se prende
à sua pele preta,
a maneira discreta e centrada
com que move longamente
os braços para gesticular,
o traço da boca molhada
a falar “formidável” com
todas as sílabas
Se levantam e caminham até Moreré
enquanto o mar lhes acompanha,
lavando os seus pés
na mesma cadência lenta
de seus passos
Conversam na língua das ondas,
de quando em quando,
no dialeto do vento
soprando breve os coqueirais
E o cão lhes acompanha cabisbaixo
em si o
mesmo mar
te entra’
qui te sai
netuno
asas abertas
o vento te leva
em descoberta
Há uma curva
no avolumado das águas
Diziam que por detrás dela
o abissal ganhava vida
na superfície das ondas
e toda a sorte de quimeras
destroçava naus e faluas
engolindo marinheiros
e vomitando rochedos
Tritões estrondavam
os mares, sereias rompiam
a cabeça de desejos
entalhando a loucura
E lá no fim, segredando
o profundo azul,
a súplica dos oceanos
se fazia ao último instante
desabando os fragmentos
restantes numa queda
sem fim dentro da noite
que envolvia a Terra
Por dentro do firmamento
toda água virava espaço
Trevas feitas de mares
Diziam
Era um mundo encantado
Sabiam
Deixar no cais
é a primeira instrução,
sem despedidas
e sem retornos.
Quando vais
voltas nova construção,
mesmas medidas
outros transbordos.
A percepção do tempo é só demoras.
Tudo parece atrasado.
E toda decisão adiantada.
O imponderável é a única certeza.
o neguinho bonitinho
não queria mais
olhar para mim
quando ele virava
os olhinhos
e sambava
bem no miudinho
sambei no bem largo
tombei sem encontrá-lo
todo mundo ali
menos ela
ele sabe que ela lá
não sei onde
ele sabe que não há o que fazer
a não ser mapear
o zigue-zague das bilocas
suspensas em meio aos olhos
e inferir onde quer dar
essas lágrimas que se restringem
ao aquém da festa
buscando frestas
para onde olhar
vem cá cuidá d’eu
vem cá cuidá de mim
vem cá cuidá do todo
que as parte é bem facim
ao lado do elevador lacerda
estava lá, o três de ouros
escondido, virado
eu poderia ser uma chave
só faltava a fechadura
que se prestasse para
destrancar
eu poderia ser um ponto
agregador do infinito
união de tudos para
sermos múltiplas
mas foi assim
um três de ouros só
no chão
pronto para que eu o
encontrasse
e o significasse
transformei-o em três de luas
e congreguei todas as ilusões
toda pele é linda
e vai ficando mais
conforme o tempo
cada camada de vida
lhe deixa traços
marcas dos trajetos
das mudanças variações
até a pele das cidades
de pedras pós piches
cimento e asfalto
cada ruga um assomo
cada flacidez um delírio
todo tempo é lindo
seja perto do começo
ou porto para o fim
o tempo todo comigo
será bênção castigo
paz de espírito
ou amargo suplício?
a face do desequilíbrio
tem uma tez clara
e cansada
desperta por alcaloides
carrega nos genes
séculos de vitórias
nunca aprendeu a perder
tem olhos que vibram
feito cocaína
pupilas em sangue
músculos inflamados
bronzeados por leds
é uma pele lustrosa
couro esticado
estrias controladas
rugas aplainadas
tudo lixado e envernizado

Quiçá haja tranquilidade no meio das águas
Que desse encontro de paz e mar, de onde emergiu Oxum Pandá
Possa não me ressurgir, mas me ser, um pouco mais que seja
Entre Oxalá e Yemanjá
Algum dia desses, aporto por aqui de novo.
quando a gente se lembra de respirar
às vezes vem que num sufoco
é tanta imensidão de ar
que só um peito resta pouco
e ele se deixa alongar
pelo reboco do corpo
é quando a pele ajuda a terminar
o que no peito se fez em esboço.
eu não autorizei nada em meu nome
você que amou os rastros
despejou querer por aí esparramado
dando atenção em troca de lealdade apaixonada
eu não disse forma cor textura
nem percebi que coisa assim havia
sequer ponderei que era disso que o mundo precisava
subentendido você executou os amores
bem colorido
e caiu em desgraçada sucumbido
flagrado com êxtases nas cuecas
levando junto uma tropa de apaixonados
todos destruídos
e eu não autorizei nada em meu nome
mas seguiram as evidências por você deixadas
e deram comigo sendo
minha pena
:
vinte e cinco anos de coração esvaziado
e mais três
em regime semiaberto
eu não era réu primário.
o verde não existe
mas árvores
e a imitação das folhas.
ele não me olha mais nos olhos
desvia capoeira
fala daquilo de tudo de tanto
menos de nós
dos nós
do peito
da garganta
faz roda e arrodeia
ele passa incólume e atento
aos tempos
a tempos
rijo que nem pau de biriba
oco que nem cabaço de berimbau
malemolente
fica tudo lento daí então
maresia pousando no sertão
evaporada de um tanto
me largo na rede e balanço
sem pressa
enquanto tudo se apressa nos dentros
e aperta
e espero
ele vem num toque de são bento pequeno
e me passa uma rasteira
na dianteira do tempo
no adiantado do atraso
tudo acabado
mas a gente faz um novo crediário
longo longo prazo
a juros no correr monetário
da vida e do juízo
uma hora amor volta
atenção vem
a tensão vai
e ele fica
meu crer diário.
num mundo líquido
dados vazam
vazios
próxima fatura liquidada.
caiu feio feito pato federado
made in china
mas era só um plágio
apanágio do conto do vigário
.
no final, o sílvio perguntava:
por cinquenta reais,
qual era a cor da camiseta do montanha?
brado alto, altiva a voz
certo o alvo, altaneiros nós
do púlpito azul, limpo a minha tela
para que dela saia a sentença mais bela
(antes bela do que certa)
:
morte àquela, àquele, àquilo
morte às massas, aos quilos
morte à morte, morte ao vivo
morte morte morte será a máxima sorte para o bandido
morte a você, morte ao meu filho
(se assim ele for na conduta do desvio)
morte a mim, se for preciso
para salvar essa pátria em perigo
…
assim tuitou o menino
que curtiu do pai
que compartilhou do avô
o que enviou o primo
pelo grupo ensandecido
“Qui foi triste aquela função lá na cabicêra
Qui dassanta, a burrega marrã
Foi incontrada num canto do terrêro
Junto c’uns violêro mortos naquela manhã.”
é uma espiral de energia
cada qual completa a graça
nas correntes da desgraça
sem perdão
só pala
milimetricamente memética
a zoeira nunca acaba.
a memória dilui-se em caracteres e pixels
oralidade tortuosa das mãos
tudo armazenado no silício
e todo o lítio sugado das têmporas
a energizar os artefatos da memória
e as artes da inteligência
artifícios sem fogo
explosões controladas sem céu
ânima fora de área
trêmulos corpos em ânsia:
amanhã, tudo se acalma
amanhã.
Em tudo há fins
– desde sempre –
onde os meios são todos:
cartas muros papiros suspiros
corpo relva mar
– e não os justificam
os compõem
são tecitura.
A chave de um verso
– feito em prosa
olho no olho
afago de hálito quente
trêmulas mãos que se vestem
umas nas outras –
é o fim
– silêncio que transporta
transpiração da pele
transposição de sensações
transformação do desejo
em sentidos –
quando vira poesia
com outro.
infiltrar-se
plasma entre nuvens
alumiando de um tudo
os dentes do céu
desde lá espocar
mil pós de estrelas
serenando boca sedenta
de braseiro e fogarel
estremecer cometas
fervor no encontro de formas.
da pedra ainda saltam as águas
que abismam o lusco-fusco, anunciação
do caminho visto, vasto, até a vertente do amanhã
esse entalho de luz no nascimento da noite e das nuvens
é o atalho que um canto faz pra sussurrar
o rasgo da terra por raízes feito
brotos que saltam para o alimento do voo
para o corpo ao vento envolvido
sementes, esperanças, saciam o avesso da falta
e um baobá se lança a todos os cantos
da feitura do tempo, arvorando-se ao vértice do espaço
pois que nele se sabe o início e o fim
feito o ir das estrelas para a vida, simples
unindo todas as dimensões.
Lilás, laranja, chumbo
Acende o gigante, poente
Contorna cor ao fundo
a casa agora está vazia
debaixo do que pode definir
o contorno da existência
pele
tanto
esse invólucro vagueia
perambula
peregrina
pelos ermos da casa
para
há uma janela aberta
e o mundo para espreitar
imã ela
pulsa uma luz fria desde a janela
constante
tocá-la choca
e a redoma de pele pega
é um impulso elétrico
magnético
o magma das eras que a forma
a redoma
se apega à janela
passa olhos dedos pele
salta
adentra
e o mundo inteiro faz companhia
como se
e a casa agora continua vazia.
e se eu estranhasse essas paredes?
o largo corredor
o quadro celeste em forma de trapézio do quintal
as três marias sempre ali
essa areia de praia solta no céu
que doura a mortalha azul profundo
e se eu estranhasse você?
essa que me apresenta outra e a mesma
numa metade da maciez dos tecidos
no travesseiro companheiro
você mesma que renasce
sem cabelos
e se você renascer alhueres?
e se eu estranhar as gatas, o cachorro?
e não conseguir levar a mão
aos pelos sedentos de carinho
e se eu estranhar o menino?
e se eu estranhar as plantas?
a espada-de-ogum, a samambaia
a jiboia, a dama-da-noite
a arruda, o manjericão, o gerânio
as bromélias, o boldo e a sem-nome
essas que eu plantei, reguei e conversei
e se eu me estranhar numa manhã de quarta-feira?
olho no olho no olho do olho que me vê
mirando nauseado a calça que não me é
a camisa que não me cabe
o trabalho que não me alcança
o sapato que não me entende
as pernas que me arrancam de mim
os óculos
o cabelo
a barba
a vida
e se eu estranhá-la?
me dá a mão, me abraça?
como o topo dos cambuís
vão no vento dos céus
e o xixi-de-macaco caindo
até ruivo o barro ficar
como o jambolão derrubado
jabuticabando as ruas
e o algodão leve das painas
a tecer a terra em branca vez
como escorregadias as frutas
das saboneteiras a espatifar
e sementes pisadas crocantes
redondas do jacarandá do cerrado
como essas árvores
sempre no mesmo lugar
atravessa os absurdos
fincada
arbusto
até arvorar.