3319. Porque amávamos

Cada caminho não feito
de satélite em satélite
cabo a cabo
onda ao ar
Cada não        caminho
Estrada        via        não desbravada

De cada percurso não ido
vasta dor não sabida
entendimento de desconhecer
Varia        modula        amplifica
qualquer passo quisto
não dado
Desanda

Como amávamos mesmo
antes da cibernética?

3316. Chá de corpo

O tempo era lento
O pouco que ia trafegava naquele trote
das tardes de domingo
que nunca ardem
e o asfalto vibra calor
A rede nem balançava
O ventilador só embaralhava o ar
O suor estacionava em cada curva do corpo

As partes que compõem a vida
Carinhavam dentro em si
Disso que feito se esfacelava
na lerdice das horas
Como o corpo puro sal
Qualquer tempo apenas ir

Era um acometimento dum pulsar afoito
Que desagoniava as partes
Salgava a vida
Olhava a quentura do ar
Derramar-se nas curvas das horas
Alumbrava o deambular dessas indefiníveis
Como meigo arfar na insistência
do que corre desde sempre

Era uma infusão das partes que limitam o sangue
na quentura das horas
E nada ardia

3314. Destinação

Amor, amada,
vou ali tomar uns murros da vida
que ela pede         não para
anseia por sangue
o meu         o nosso
Ela não cessa

Amor, amada,
mesmo que tudo se encaixasse
o que arfa         arma
não orna o mundo
não afeta         pouco enfeita         desagrada
A vida pesa e obstrui as vias dos corações

Amor, amada,
se pudéssemos nos bastar
pelos lençóis, luas e sóis
pelo que somos nós,
dádivas de quereres e vontades
frutos dessas mesmas verdades
e não crias de novelas
bíblias, dogmas e indústria cultural
até daria para sermos

Mas, qual o quê,
sinto que vou ali, apanhar
da vida
                           do mundo
                  de tudo

Porque amor
Porque amada
a realidade pulsa
os preços sobem
as bolsas caem         os juros explodem
E meu peito que abarca
– amor, amada –
terá real acolhida
no casto da lida
dia após dia

todo errado
emaranhado e desatado em tudo

Um vagar de querer
suicida
calado pra sempre
no trabalho da vida
e na apatia         que murmura
sê tal e qual         todas         todos
nos dias

3312. da soltura dentro de um cárcere

as caricaturas correspondem às criaturas
essas crias de sucrilhos, porrada e ternura
essas que criam dentro do si um caso com o caos
que ao acaso infundado de dentro de seus peitos
juntam fragmentos de dados esparsos
sentimentos e pinceladas de informação
esses e essas que se fundem trovoadas de razão

o caos que se acomete é apenas um ato da comédia
pouco mais que um ato de comédias, virulento
há de entrar nos anais da wikipédia
os cânticos entoados destoam no compasso
perdem o prumo, a marcha da história, o enlaço
embarcam numa nau, para a miami dos enjeitados:
a ilha do desespero, do apenas ego, do apego
ao seu universo adorado e de si adornado

3311. sinceridade

quando eu te chamei
para compor a vida
não fui sincero

queria te chamar pra
enfrentar o mundo
dar murros na vida
chamá-la por outro nome
desafiar até mesmo as manadas
inaugurar as sombras
quando tudo fosse apenas luz

mas fiquei com a veleidade
de buscar apenas a luz mesma
aquela luz que cega
que jorra dentro de si a paz de outrem

recompõe, pois, o cenário da acolhida
do chamado
compõe comigo a decomposição
da vida
pelo amor que temos por ela
não pelos laços que o mundo
amarra nas vontades
mas pelo enlace
do que nos liga
com ou sem mundo possível
por dentro do impossível

dentro não dos nós
e sim do que adentra em nós

3310.

sou o teu desejo
invisível e traços na penumbra
a dúvida certa e diuturna
definitivo no infinito sensitivo
racional
sou o que repele
e o que despele mesmo tatuagem
machuca e goza
e jorra afoga
sou aquele que emana
a chama o cacho a cachoeira
e inflama terra em arrepios
magma que sangra de seus seios
ereção até erupção
sou o que te castra
o que te casta
aquilo que cala
sou o teu desejo

3305.

a falta me sacou
perto de onde a terra termina sua espiral
e anuncia aquele temor inesperado
de véspera das festas
bem na borda de quando eu giro pelo sol
compunha-se em ausência
átomo a átomo de não se ter

foi no meio da quebra
que ela me entendeu
eu não saquei que ela havia me fitado
e curtido
mas a falta me curtiu
sacou a fita
e ausentou-me em mim
até que pesou o enredo
capítulo final
sem nem

3304.

a chuva da manhã virá
bem fininha
chuvisco a pôr gotas nas coisas
pra brilhar um cheiro de aurora molhada
na largada da luz

ainda assim erodirá as calçadas
os meios-fios, o asfalto

coletivamente em meio aos anos
e estações
uma chuva bem fininha em cada manhã
na manha
desmanchará o concreto
molhará, pouco a pouco
o que parte a parte junta-se em resto

chuvinha fina
chuvisco pelo largo da vida
uma chuva que já já vinha
virá ainda

3302.

são visagens, premonições,
o que ataca as lentes
ampliado e disforme, ao revés
o largo é sabido, olhando já se vê
tudo implodirá lá de fora para dentro
mas há um ponto que pode ser no meio
pode ser no centro expandindo alhures
até os pelos até os dedos
foca
é lá que mora o escudo
contra os mísseis que já caem

3301. náuseas públicas

em si e lá, tá mal, há falhas
desde são paulo aos rios
e o todo dessa parte
que se reparte no globo
vejo ruir tudo o que veja,
há cruzadas, entradas e bandeiras

vejo já ir, os direitos parando no bolso avaro
um marco infeliz ao longo dos anos
aumentando os celsius, deixando tudo russo
pras minas e pros manos
queda-se tudo tiririca
com o que se esperar da política
da nova, da mesma, da antiga

aberto o flagra, a arma em riste
o pastor é vero e fala alto, quase aos berros
deixa um não leve fim deles:
um ódio cultivado junto a deus
numa conserva de corações embrutecidos
pelo medo de se igualar
no oceano humano das diferenças

3282. Kianda

O sol pincelava algumas linhas pela borda nascente do dia
Recostado entre nuvens negras, esperava apenas o vento mover as coisas,
transpor o nada em raio e redemoinho, agarrar as luzes e cair pelas frestas
As nuvens macias se liquefaziam, gota por gota, nos pés de paus
Lá embaixo no chão, passeavam as nuvens negras entre folhas e cipós
entravam líquidas pela mata, caíam pétalas e frutas num olho d’água
reviravam vida e corredeira descendo a queda até espatifarem-se entre as rochas
As nuvens negras gostavam mesmo era de se admirarem no espelho da calmaria
Vinham flecha entre as águas, rasteiras e sorrateiras
até se encontrarem com elas mesmas, reflexas

Desci das nuvens e peguei o cume de um arco-íris olhando para a terra firme
a constatar que nada me erguia, que não pombas brancas,
sustentando-me ante a transformação das cores que enfaixavam o céu
Senti que as nuvens negras não me mantinham
que o vento e a chuva já me conduziam à paz de mim, ao fim do medo
Dali em diante seríamos eu e o tempo, uma árvore, até a velhice arqueada
até que uma fogueira me consumisse no que sou, a paciência para todo enfim

Desde que conchas narraram o fato, pressagiando, estava tudo traçado
só faltava haver o mar que ver, que entrar e ficar, o mar, sempre mãe
Da sorte que a ela me lancei, e por seu murmúrio me enlacei
Quando quase à beira-mar, na ponta da praia quase,
sentindo o gosto do ar salgar os dentes que se colocavam num sorriso certo,
já me preparava para o salto, para o abraço azul e macio nesse manto que envolve a dureza
era lá que me esperava o ponto final, na aurora do poente que doirava a areia
era lá no mar, porque as conchas já haviam cantado o enredo e o fim, bastava só um salto

A queda parecia vento, era feito que nem o sol se apagando no horizonte
fogueira de uma noite de junho se esvaindo na alvura de um dia vindo
a calma que toca tudo em derredor até que enfim se caiba a noite
A queda vinha, sem medo até o fim, desabava, querida e pronta
Veio toda e tropeçou num som que cortou o ar aparando meu corpo, baque forte
Foi um rodopio, um enrosco, quase cobra feita em som e cores
Me parou ali no ar, me deitou no céu e cadenciou meus olhos até a praia:
deu-se um estrondo e tudo estremeceu

Lá embaixo ela brilhava, cintura abaixo tudo luzia ouro e prata em ondas de inquietação,
desde seu colo até sua tez tudo enredava vontade e mar, perdição
Ela era feita de luzes e gente, de água e cores, humores e amores, era feita em som
Qualquer coisa me mantinha ali parado no ar, baqueado da queda e da visagem
Era qualquer coisa que se fazia nela toda, em seu canto e seu limite
Aquela melodia que saia de sua boca e aquela melodia que a compunha inteira,
era melodia o que me deixava em meio ao ar, era ela: Kianda
a que anda nas águas e enfeitiça nas praias e enamora nas pedras

Nuvens negras prostraram-se em minha cabeça, desabaram durante um mês
mas eu nem o quê, só limitava as retinas no que dispunha aquele ser
Ficava ali, envolto naquela melodia e nem tinha a feita de descer, tocá-la
Estava besta como nunca antes houve alguém e estava bem
Todo ensopado de chuva, todo mareado de sal, mas todo envolvido de som
E todo fincado no ar a olhar aquela que tinha a graça da melodia em tudo

Acho que foi de amor, que as nuvens negras me ajudaram a sair do ar
Elas me abraçaram dóceis e serenas, chuvosamente lacrimosas
me conduziram até o chão, derreteram-se em mim, adentraram minha pele
e moveram meu corpo até a que brilhava e eu todo negro, todo nuvem, todo água,
todo tudo, aquilo que se enraizava desde o tempo até o além
Desaguei no fim da noite em cima de Kianda, desabotoado o peito
desfeito em amor por tudo, amei-a até que sim, bastei-me em paz
Quando acordado, fez-se a luz, que me brilhou desavisada o inteiro do meu amor:
espalhar-se o quanto possa, pelo bem que faça, no que valha
sem queda

3281. Iara

Por quais águas se esconderá?
Até ontem a vi nas correntes dos meus olhos,
desabava por entre aquela cachoeira
Vinha de dentro de mim

Antes, ocupou-me tanto espaço
nem sabia que havia esse mar todo dentro aqui
Mas foi um mar que desabou
durante cinco noites seguidas, aflito
E ela foi indo junto, parte por parte

Se recompôs onde?
Onde agora ela nada?
Não sabê-la mata, não se nada
Esse vazio de mar agora,
derramado olhos afora
E eu aqui todo e sem ela a me ocupar

Por quais águas ela se adorna
de conchas e corais, de algas?
Em qual praia canta sua hipnose,
de qual areia chama o torpe a se enternecer
e marulhar-se no fim da tarde
entre o tórrido e o líquido?

Aqui havia esse tanto de mar,
esse litoral inteiro
pronto para ela
Aqui dentro, amplo
Por que desabei?

3280. Liberdade

Lá por onde o vago da cidade
Anda a pernoitar os sonhos insones
Lá bem no lugar em que a cidade se abre
Entre os limites
Do sonho e as certezas do amor
Há o depois deles
Impuro lugar em que o querer não dorme
E à realidade não cabe o ódio
A cidade da liberdade
Fica num canto escuro de si
Lúcida e consciente, lá sente-se o latejar
De toda saudade sem medo
E o melhor do que a paixão
Lá se ama com os olhos do peito abertos

3268. Mãe d’água

Não cabe exaltação,
nem medo
Não palpitação desmedida
ou o apelo da agonia
prisioneiro da antecipação

Cabe a hipnose
o encanto calmo
da admiração

É ela que anda nas águas
descansa nas pedras
deambula no mar

É ela que é serena
que é a senhora
do que te destinar

Nas águas que a envolvem
no enredo de sua rede
o que te recobre
te prende e afaga

Se rende
abraça logo sua água