A linha que divide os mundos
Pouco usada
Nada pisada
A morada do olhar melancólico
O império de quem sem chão
Reinado de não voantes
Que se arvoram no infinito
3319. Porque amávamos
Cada caminho não feito
de satélite em satélite
cabo a cabo
onda ao ar
Cada não caminho
Estrada via não desbravada
De cada percurso não ido
vasta dor não sabida
entendimento de desconhecer
Varia modula amplifica
qualquer passo quisto
não dado
Desanda
Como amávamos mesmo
antes da cibernética?
3318. 1970 esbarrou ainda agora
Vinho, quatro mãos,
violão e poesia
Vai vir o dia
em que tudo o que se diga
será parte dessa
sacrossanta magia
Feito vinho, quatro mãos,
violão e poesia
3317. Vento norte
Vento norte, me alcança
Veios d’água, ao ar, esperança
Intento que há em mim
A umidade do por fim
Que tudo toca
Vento norte, calmaria
Tempestade de paz que se abate
E me lança a querer só o que
Pode se desmanchar no chão
E entrar pela terra toda
Vento norte, me apaga
Leva todo grão
E recompõe os castelos esfacelados
Na praia do ribeirão
Alhures de onde resido
3316. Chá de corpo
O tempo era lento
O pouco que ia trafegava naquele trote
das tardes de domingo
que nunca ardem
e o asfalto vibra calor
A rede nem balançava
O ventilador só embaralhava o ar
O suor estacionava em cada curva do corpo
As partes que compõem a vida
Carinhavam dentro em si
Disso que feito se esfacelava
na lerdice das horas
Como o corpo puro sal
Qualquer tempo apenas ir
Era um acometimento dum pulsar afoito
Que desagoniava as partes
Salgava a vida
Olhava a quentura do ar
Derramar-se nas curvas das horas
Alumbrava o deambular dessas indefiníveis
Como meigo arfar na insistência
do que corre desde sempre
Era uma infusão das partes que limitam o sangue
na quentura das horas
E nada ardia
3315. D’arma germe dia
A nitidez desses dias de fim
Uma luminosidade abafada úmida e quente
Todo um porvir depois do fim
Tudo a brotar florescer germinar
A luz traspassa tudo antes do fim
O juízo se colore brilha pulsa
Clareia-se tudo para que finde
Eis o mundo que acabará
Em jorros de luz e cores
Quando se estampar silenciosamente
A dádiva negra de ver
3314. Destinação
Amor, amada,
vou ali tomar uns murros da vida
que ela pede não para
anseia por sangue
o meu o nosso
Ela não cessa
Amor, amada,
mesmo que tudo se encaixasse
o que arfa arma
não orna o mundo
não afeta pouco enfeita desagrada
A vida pesa e obstrui as vias dos corações
Amor, amada,
se pudéssemos nos bastar
pelos lençóis, luas e sóis
pelo que somos nós,
dádivas de quereres e vontades
frutos dessas mesmas verdades
e não crias de novelas
bíblias, dogmas e indústria cultural
até daria para sermos
Mas, qual o quê,
sinto que vou ali, apanhar
da vida
do mundo
de tudo
Porque amor
Porque amada
a realidade pulsa
os preços sobem
as bolsas caem os juros explodem
E meu peito que abarca
– amor, amada –
terá real acolhida
no casto da lida
dia após dia
só
todo errado
emaranhado e desatado em tudo
Um vagar de querer
suicida
calado pra sempre
no trabalho da vida
e na apatia que murmura
sê tal e qual todas todos
nos dias
3313. intestinos do brasil
estranhas entranhas
essas que expelem
espécies exóticas
ao próprio espaço
e à sua espécie
3312. da soltura dentro de um cárcere
as caricaturas correspondem às criaturas
essas crias de sucrilhos, porrada e ternura
essas que criam dentro do si um caso com o caos
que ao acaso infundado de dentro de seus peitos
juntam fragmentos de dados esparsos
sentimentos e pinceladas de informação
esses e essas que se fundem trovoadas de razão
o caos que se acomete é apenas um ato da comédia
pouco mais que um ato de comédias, virulento
há de entrar nos anais da wikipédia
os cânticos entoados destoam no compasso
perdem o prumo, a marcha da história, o enlaço
embarcam numa nau, para a miami dos enjeitados:
a ilha do desespero, do apenas ego, do apego
ao seu universo adorado e de si adornado
3311. sinceridade
quando eu te chamei
para compor a vida
não fui sincero
queria te chamar pra
enfrentar o mundo
dar murros na vida
chamá-la por outro nome
desafiar até mesmo as manadas
inaugurar as sombras
quando tudo fosse apenas luz
mas fiquei com a veleidade
de buscar apenas a luz mesma
aquela luz que cega
que jorra dentro de si a paz de outrem
recompõe, pois, o cenário da acolhida
do chamado
compõe comigo a decomposição
da vida
pelo amor que temos por ela
não pelos laços que o mundo
amarra nas vontades
mas pelo enlace
do que nos liga
com ou sem mundo possível
por dentro do impossível
dentro não dos nós
e sim do que adentra em nós
3310.
sou o teu desejo
invisível e traços na penumbra
a dúvida certa e diuturna
definitivo no infinito sensitivo
racional
sou o que repele
e o que despele mesmo tatuagem
machuca e goza
e jorra afoga
sou aquele que emana
a chama o cacho a cachoeira
e inflama terra em arrepios
magma que sangra de seus seios
ereção até erupção
sou o que te castra
o que te casta
aquilo que cala
sou o teu desejo
3309.
difícil o chá
a volta
o longo concreto cru
as horas difíceis
leve a vida
a volta
a ida
toda partida
as partes
os apartes
as horas
leve
difícil
quando pesado
e rachado
e recomposto
em apenas meio sol
3308. pólen
polinize amor
porque de cada
minúcia,
por mais minúscula,
existe o potencial
de uma flor
por isso
pólen, por aqui
por ali, poli
todo o amor
3307.
o presente passa
pressente que basta
que seja e se faça
pois o futuro
não se arrasta
3305.
a falta me sacou
perto de onde a terra termina sua espiral
e anuncia aquele temor inesperado
de véspera das festas
bem na borda de quando eu giro pelo sol
compunha-se em ausência
átomo a átomo de não se ter
foi no meio da quebra
que ela me entendeu
eu não saquei que ela havia me fitado
e curtido
mas a falta me curtiu
sacou a fita
e ausentou-me em mim
até que pesou o enredo
capítulo final
sem nem
3304.
a chuva da manhã virá
bem fininha
chuvisco a pôr gotas nas coisas
pra brilhar um cheiro de aurora molhada
na largada da luz
ainda assim erodirá as calçadas
os meios-fios, o asfalto
coletivamente em meio aos anos
e estações
uma chuva bem fininha em cada manhã
na manha
desmanchará o concreto
molhará, pouco a pouco
o que parte a parte junta-se em resto
chuvinha fina
chuvisco pelo largo da vida
uma chuva que já já vinha
virá ainda
3303.
Todo dia o mundo me encanta,
por todos os cantos
são cantos que tocam os sentidos.
Como, conquanto tudo quisto,
traduzi-los?
3302.
são visagens, premonições,
o que ataca as lentes
ampliado e disforme, ao revés
o largo é sabido, olhando já se vê
tudo implodirá lá de fora para dentro
mas há um ponto que pode ser no meio
pode ser no centro expandindo alhures
até os pelos até os dedos
foca
é lá que mora o escudo
contra os mísseis que já caem
3301. náuseas públicas
em si e lá, tá mal, há falhas
desde são paulo aos rios
e o todo dessa parte
que se reparte no globo
vejo ruir tudo o que veja,
há cruzadas, entradas e bandeiras
vejo já ir, os direitos parando no bolso avaro
um marco infeliz ao longo dos anos
aumentando os celsius, deixando tudo russo
pras minas e pros manos
queda-se tudo tiririca
com o que se esperar da política
da nova, da mesma, da antiga
aberto o flagra, a arma em riste
o pastor é vero e fala alto, quase aos berros
deixa um não leve fim deles:
um ódio cultivado junto a deus
numa conserva de corações embrutecidos
pelo medo de se igualar
no oceano humano das diferenças
3300.
Quando o amor não chama
Qualquer paixão abrasa
O brado de toda fala
3299. Porque a noite vem
Ainda é de tarde
E a noite já toma o corredor
Calma, quista e negra
Com seus laços de visões
Fantasmas e perigos
Ela vem corrente
Rio intrépido a afogar toda luz
Deixando o tato a reinar carícias
Domando a lida
Ansiosa por cobrir a aurora
Da claridade
Ela vem para escurecer tudo
Porque enegrecer é preciso
3298. Catadora
Ela cantava sempre viva
Catava flores para viver
Encantava flores pela vida
Encantada de flores ia viver
3297.
Na pedra um casal queima
Atrás a moldura de água
A tela toda liquefeita,
Liquefrita
3296.
Encerro o mundo em mim
E inauguro o universo
Mil versos genéticos
Mil variações ancestrais
Mais eu do que possa
Quando o meu é o que mais
3295.
O fascínio da delícia não engana
Todo mundo no fim queria mesmo
O requebro envolvente da cigana
3294. metralhadora de charme
quando a bala bate
ela até alarde
há quem arfe
mas não arde
3293. lição
contemplo
com o tempo
como um templo
como ter temperamento
3292. Arrebento
Assim como
as ondas sobre
a costa
Assim como
a gravidade sobre
as costas
Assim como
a pata da fera
na presa encosta
O arrebento há de vir
em boa hora
Bora?
3291. Taguatinga
tem algo que
apavora,
tem algo que
aproxima,
como assim
um certo intento
de tanta vida
num pulo suicida
3290.
Era o pavio do desatino
O fogo que vinha comigo
Era pra já ter acendido
Era pra ter tudo explodido
Mas ficou na era, sem ter sido
3289. Caminhando e cantando
O que te resta na rodoviária?
Os restos de rostos,
o roto, o esbarrão?
A rês desgovernada,
a manada
a armada
ou a equiparação?
Ela igual ele,
nós agregados,
o contínuo histórico
degredado
para lá do outro lado
O que me resta
é à massa incorporada
Como pão para todos
quando circo que somos
nesse fluxo que vamos
3288.
Só não me mande
embora, porque
tudo o que ocorre
só espera ser agora.
3287.
Quando a rima
suscita o que
não cola nem
medita
quando sincroniza
quando a hora
passa aflita
sem saber o dia
da desdita
quando o coração
descompassa
despalpita
Quando mesmo é
que a gente
se permita?
3285. Preço
Nada se ajusta impunemente
cada pedaço da noite
por mais lindo que seja
– sempre é –
tem um preço
A frase de efeito
o feito dos encontros
o encontro dos olhos
na falta de clareza
da noite
Nada se ajusta impunemente
e a noite é uma juíza algoz
3284.
O sol vinha,
quase nos tocava
e assim nos
rodeava e deixava
e alaranjava,
a franja do amor,
a franja das cores
tudo corava.
3283. Discussão
Quando as falas
vão como as faluas
no mar bravio
Quando as palavras
são lavras
em descampados
vazios
3282. Kianda
O sol pincelava algumas linhas pela borda nascente do dia
Recostado entre nuvens negras, esperava apenas o vento mover as coisas,
transpor o nada em raio e redemoinho, agarrar as luzes e cair pelas frestas
As nuvens macias se liquefaziam, gota por gota, nos pés de paus
Lá embaixo no chão, passeavam as nuvens negras entre folhas e cipós
entravam líquidas pela mata, caíam pétalas e frutas num olho d’água
reviravam vida e corredeira descendo a queda até espatifarem-se entre as rochas
As nuvens negras gostavam mesmo era de se admirarem no espelho da calmaria
Vinham flecha entre as águas, rasteiras e sorrateiras
até se encontrarem com elas mesmas, reflexas
Desci das nuvens e peguei o cume de um arco-íris olhando para a terra firme
a constatar que nada me erguia, que não pombas brancas,
sustentando-me ante a transformação das cores que enfaixavam o céu
Senti que as nuvens negras não me mantinham
que o vento e a chuva já me conduziam à paz de mim, ao fim do medo
Dali em diante seríamos eu e o tempo, uma árvore, até a velhice arqueada
até que uma fogueira me consumisse no que sou, a paciência para todo enfim
Desde que conchas narraram o fato, pressagiando, estava tudo traçado
só faltava haver o mar que ver, que entrar e ficar, o mar, sempre mãe
Da sorte que a ela me lancei, e por seu murmúrio me enlacei
Quando quase à beira-mar, na ponta da praia quase,
sentindo o gosto do ar salgar os dentes que se colocavam num sorriso certo,
já me preparava para o salto, para o abraço azul e macio nesse manto que envolve a dureza
era lá que me esperava o ponto final, na aurora do poente que doirava a areia
era lá no mar, porque as conchas já haviam cantado o enredo e o fim, bastava só um salto
A queda parecia vento, era feito que nem o sol se apagando no horizonte
fogueira de uma noite de junho se esvaindo na alvura de um dia vindo
a calma que toca tudo em derredor até que enfim se caiba a noite
A queda vinha, sem medo até o fim, desabava, querida e pronta
Veio toda e tropeçou num som que cortou o ar aparando meu corpo, baque forte
Foi um rodopio, um enrosco, quase cobra feita em som e cores
Me parou ali no ar, me deitou no céu e cadenciou meus olhos até a praia:
deu-se um estrondo e tudo estremeceu
Lá embaixo ela brilhava, cintura abaixo tudo luzia ouro e prata em ondas de inquietação,
desde seu colo até sua tez tudo enredava vontade e mar, perdição
Ela era feita de luzes e gente, de água e cores, humores e amores, era feita em som
Qualquer coisa me mantinha ali parado no ar, baqueado da queda e da visagem
Era qualquer coisa que se fazia nela toda, em seu canto e seu limite
Aquela melodia que saia de sua boca e aquela melodia que a compunha inteira,
era melodia o que me deixava em meio ao ar, era ela: Kianda
a que anda nas águas e enfeitiça nas praias e enamora nas pedras
Nuvens negras prostraram-se em minha cabeça, desabaram durante um mês
mas eu nem o quê, só limitava as retinas no que dispunha aquele ser
Ficava ali, envolto naquela melodia e nem tinha a feita de descer, tocá-la
Estava besta como nunca antes houve alguém e estava bem
Todo ensopado de chuva, todo mareado de sal, mas todo envolvido de som
E todo fincado no ar a olhar aquela que tinha a graça da melodia em tudo
Acho que foi de amor, que as nuvens negras me ajudaram a sair do ar
Elas me abraçaram dóceis e serenas, chuvosamente lacrimosas
me conduziram até o chão, derreteram-se em mim, adentraram minha pele
e moveram meu corpo até a que brilhava e eu todo negro, todo nuvem, todo água,
todo tudo, aquilo que se enraizava desde o tempo até o além
Desaguei no fim da noite em cima de Kianda, desabotoado o peito
desfeito em amor por tudo, amei-a até que sim, bastei-me em paz
Quando acordado, fez-se a luz, que me brilhou desavisada o inteiro do meu amor:
espalhar-se o quanto possa, pelo bem que faça, no que valha
sem queda
3281. Iara
Por quais águas se esconderá?
Até ontem a vi nas correntes dos meus olhos,
desabava por entre aquela cachoeira
Vinha de dentro de mim
Antes, ocupou-me tanto espaço
nem sabia que havia esse mar todo dentro aqui
Mas foi um mar que desabou
durante cinco noites seguidas, aflito
E ela foi indo junto, parte por parte
Se recompôs onde?
Onde agora ela nada?
Não sabê-la mata, não se nada
Esse vazio de mar agora,
derramado olhos afora
E eu aqui todo e sem ela a me ocupar
Por quais águas ela se adorna
de conchas e corais, de algas?
Em qual praia canta sua hipnose,
de qual areia chama o torpe a se enternecer
e marulhar-se no fim da tarde
entre o tórrido e o líquido?
Aqui havia esse tanto de mar,
esse litoral inteiro
pronto para ela
Aqui dentro, amplo
Por que desabei?
3280. Liberdade
Lá por onde o vago da cidade
Anda a pernoitar os sonhos insones
Lá bem no lugar em que a cidade se abre
Entre os limites
Do sonho e as certezas do amor
Há o depois deles
Impuro lugar em que o querer não dorme
E à realidade não cabe o ódio
A cidade da liberdade
Fica num canto escuro de si
Lúcida e consciente, lá sente-se o latejar
De toda saudade sem medo
E o melhor do que a paixão
Lá se ama com os olhos do peito abertos
3279. Timing
eu lhe disse para
que ficasse: pera
e ela pressa, pira
eu assim caipora
só vi a fuga pura
3278. Timing
nada se espera
tudo conspira
certo que para
o que se espora
e lento depura
3277. Pra ver se dá certo
Fazer as vezes de voz
de vento de ver
de vida
se fazer de vez
de volta de vir
demover
voraz o que te vara
em verde
e sempre-vivas
3276.
é fácil,
o difícil
é imposto
pelo posto
do outro lado
3275. Onde pôr as mãos?
Quando a dor da presença
não supera
a imensidão da falta.
3274. todo o fôlego
respirar a terra
toda entrando
nu seu peito
virado em barro
ainda se aspira
feito assim, ar
atordoado pó
pelo pulmão
espalhando
dentro desse
seu vasto vão
lama em sangue
pelos capilares
da cara até o
bojo do coração
3273.
Eu a convidei para lavar uns pratos
Ela disse não,
pois ia à casa de uma amiga
ensaiar a revolução
No fim pensei, minha querida
a revolução, eu diria,
começa lavando-se a louça
da própria pia
3272. Brasília
Um árido verde concreto
Quase amarelo
Eu no meio, como inseto
3271. Chiclete de jurubeba
amor que amarga
e agarra
que se masca
e no final fica
duro, que nem bala
3270. rizoma leve
broto bruto
broto breve
bruma e brisa
muito em breve
3269. Em menos de 30 segundos
um movimento sutil,
o casal na estação,
ela longe
ele todo ali alimentando
o amor dentro de si
pousando leve os lábios
sobre a mão dela a
sustentar a cabeça
ela lá
onde só ela anda
o amor é difícil
nesses tempos tão
urgentes e blasé
o amor é impossível
só o ar parado e seco
que os rodeia
não é
e a constatação de
que o tempo segue o ar