3266. Fone

Quase nunca sabemos que lágrimas,
gritos, gemidos ou sorrisos
escorrem pelos fones de ouvido

Essa que agora passou, sorri ao vento
e lá dentro, há o movimento
de Schubert a derretendo

Aquele ali que parado se embalança
e não é samba a sua dança,
é The Cure o que interno sangra

O senhor de bigode aparado
parece curtir um vanerão aprumado
mas o que toca é um bolero do passado

A moça de touca, o que a toca e demove
será um electro qual sua camisa cobre
ou a cadência triste de um choro nobre?

Quase nunca sabemos
o que movimenta o som
interno que temos

3264. Ria no final

A solução tá sempre em frente
O projeto é atraente
Na esquerda ou na direita
Todo o centro é quente
O bloco negro passa rente
A escopeta no batente
E os mano lá no morro, tudo presidente

Zela passa o recado tirando de papo reto
Vampiro num aguenta deita, e reza a salvar um feto
Tia sai do meio do mato e apresenta a salvação
Tá dentro de um livro preto que carrega sempre na mão
Maluco são diz que a meta é matar todos os mendigo
E os noia lá da área tão tudo, menos extinto
Zoiudo cresce o olho em tudo o que pode vê
Das biqueira aos condomínio, porque ter mais é que é ser
Modelete de butique se arma na internet
O revoltado e indignado vê xvideo de boquete
Zumbizão de meia soquete
Paralisado, oitavo andar, se pular vira espaguete
Toma um sorvete e chupa chiclete
Tuita mais uma informação sem saber mesmo o que acontece
Se tudo o que diz procede
Se sua própria vida carece
Se a dos outros vai ficar na mão dos mequetrefe

Mas a solução tá sempre em frente
O projeto é coerente
São mil proposições
Postas por quem mente
A massa aflita é só quem sente
E o sangue do inocente
Mas os pleyba das mansão, tudo very crazy

Pode dizer o contrário
A economia vai bem, obrigado
Cada boca, cada esquina, uma pá de noiado
As noites tudo agitada, andarilho pra todo lado
O sexo pelas calçada, freakyzão estriquinado
As perdida, as encontrada, com os zoio esbugalhado
As mina massa, machucada, se mandam nos afluente
As tia corre, maltratada, desandam pelas corrente
As xica fria, injuriada, não são mais sorridente
O bonde passa, na madrugada, as levando pelas torrente
E a virada tá apregoada na pregação dum crente
Que diz com seu pau reluzente
Que o preço é alto mas a cura
É mais do que eficiente
É ampla e paradisíaca, derrama mel de todo ventre
Entre, o céu é para todos os que pedem, podem e pagam
Não se iluda com o mundão que te fodem e esparram

E a solução tá sempre em frente
O projeto é imponente
O templo se estende
Do sol poente ao ocidente
A salvação se faz presente
Uma prisão impotente
Quando pensa liberdade é tudo diferente

3263. Maloqueiro

a gente deambula
cai pra lá e pra cá no vai e vem das ruas
se mete até em reino de almas nuas
dá as caras no rol das estátuas de alta envergadura
bota o próprio busto pra jogo, na ranhura
finge elegante, finge reticente, pura gastura
mas no fim é só mais um maloqueiro,
que meio se arroga, meio matuta
puro baseado, além força bruta
tanto calado, todo prosa, mesmo na fissura
o que se prostra em seu devido lugar:
a peregrinação da lida da lua

3261. Quando pesa, leve

Desde aquele dia
pesam-me palavras
Toda a densidade
dos coletivos de letras
abarrota os meandros,
quer se instaurar
em todo canto

Desde aquele dia
as imagens desmancham
As palavras lavram
toda a terra
se entrometem
entre a pulsação de sorrir
e o aconchego do
olhar perdido ao longe

Desde aquele dia
todo o peso das palavras
pausou os dias
tão lentamente em tudo
que só se anuvia agora
a pura leveza
de desde aquele dia

3259. Antes do céu

Acompanhados desde longe, ficamos
        como tudo antes da parada
        – a mente em sobressaltos dentro do crânio.
O tempo que se moveu sonolento
        despencou em letárgica velocidade
        chega esmagou tudo.

A cidade pouca e larga:
        cimento, postes, ipês, sol;
e dentro da luz a pino no meio do meio-dia
        foi verde o que parou, a praça
        em tom brilhante, a ideia com gosto

quando se sabe com a pele,
        com a veste dos olhos despida
a desnudar as entranhas
        borbulhando aquilo que impele pelos.

Um pombo cruzou o céu
        outro pássaro marcou frutas ao largo dos casais.
A paz poderia, mas ficou parada:
        “Precisamente, parar é o mote”
        antes que alcançasse o céu.

Antes do tempo, ficamos
        para ficar com a terra e seus frutos,
alimentar pássaros e se debruçar
        pelo largo da cidade, borbulhando
        sem sobressaltos
sem céu para voar.

3258. Obrigado

Ficam por murmurar as águas. Entendo pelos meus pés.
Pois que adentram entre o que segue, sendo o que corre.
E fortuitas as nuvens somem em eneagramas azuis
para que eu os decifre e cale com o estampar das flores.

Ficam por explodir amenas. Ainda vejo que o horizonte
abre dentro de meus pulsos seu desejo irrefreável de tocar o sol;
e um vendaval só surge quando uma montanha quer
que lhe façam cócegas em sua dura derme de eras.

Sinto que brotam campos. Sinto que correm pedras.
Levar todo esse mundo quedou-me o tédio em contemplação.
E já não sobra a angústia, queima, sim, aquilo que fala
a língua suave de quando arrebatado pelo não humano.

3256. fica

naquelas noites de vibração
que não dão para o gasto –
o consumo da vida pede
que tudo seja mais
onde falta a variedade
eles inauguram o velho
os pés destoam vagarosos
e os trejeitos são absurdos
– planejadamente
desplugar-se do que alimenta
como foi lá? totalmente mais que demais
matar os antúrios, plastificá-los
superá-los no 3d da tela esquiva
amá-los desconhecendo-os
ficar nu como sempre
se passa as estações dentro
das vestes da moda
tendo o aroma de si comprado a prazo
essas manhãs de expectativas
enroladas junto ao fumo e ao pó
nada é curto
tudo é videoclipe

3255. possível

nesse dia, pasme, em todos os dias
dou uma realidade insustentável
feito se morresse
deixasse o caixão, subisse sete palmos
livrasse-me dos vermes
e quando silenciada a morte
de camisa verde florida
a alma dividida em mil
pontos flutuando em derredor
conseguiria certo livrar o infinito
do castigo de ser breve
visível, o que se acerca,
aquilo que não pode conter
o lugar
jorrado sem ímpeto pela torneira
banhando os dias, a vida
disparatada que o imponderável
guardou em mim

3254. translação

enquanto as flores estampavam os campos
prontas a ornar mesas, jardins, lápides e dias de mortos e mulheres
abelhas almoçavam ração de frangos confinados
e a Terra, detentora de toda terra a lhes dar raízes
esburacava-se, tremia e rachava
e a cada volta que dava em si
elíptica e helicoidal em seus movimentos soltos no sem fim
seres escapavam de sua órbita
e se lançavam ao alcance de nada
como a beleza das flores
despropositada, própria a ornar
desde o que jaz, até o que jaz

3251. Deve de ter sido

Como imaginar a solidão de Deus?
A perfeição pede contemplação
desde si, desde outro

Aquela superfície de sem nada
e só a si em todo o comprimento
Uma largura de nada mais,
e tudo para ser posto

Como bastar-se com o inexistente?
Sem porquê ou para onde
além da própria presença absoluta
ou só a ondulação
do vago da matéria negra
a preencher as minúcias

Deve ter sido um muxoxo,
um enraivecer, uma depressão,
uma saudade

Deve de ter sido de banzo
que Deus se explodiu na grande explosão

3249. Aboio

Pela manhã anoiteceu
e veio um sopro de tudo
feito som de trombeta

Tava lá, o gado confinado,
a cerca campeando as perdas

A máquina berrou alto,
os bois se debateram
A relva se deu de ração
e as manhãs nunca mais foram
de sua matéria cristalina,
elas caíram pela falta do despertar

Quase tudo se assombrou
e fantasmas trotavam pelos
canos d’água vindos da represa

Até o que vinha pela brisa,
baixando os olhos dos bois
a serem abatidos,
dormiu

Tudo virou visagem,
espectro, sombra

Era aquilo que podia
no sem fim da noite
vinda pela manhã

Só se aprumava um resquício de luz,
quando se abriu a porta das seis horas,
quando o umbral do tempo
desaguou a escuridão já tomada tudo

A cancela meio erguida
só restavam meias vidas
e todo o confinamento do gado
bastou-se ao chão

Algo explodiu no céu,
e a luz se apagou mais ainda
Do sonido das trombetas,
uma graça de melodia

O fim sem mote,
um bife chorava léguas

3242. Magia

Não é a pressão que varia
trazendo a falta de ar
e o horizonte castanho
Tão pouco apenas o pêndulo
da Terra
a carregar tudo aquilo
que erode camadas
e envereda verde pelos cursos
Que alucina o doce
o azedo, o amaro
em arrepios de formas e cores
Redundando em redemoinhos,
sacis e chamas

Não, não é uma sucessão lógica
amarrada num encadear

Cada nó é mais do que magia
Cada nó é apenas magia

3238. Feed

Prospecção de bits.
O que restará camada após camada:
as eras, Eros, heróis?

Fenômenos imaginados em cavernas,
toda essa existência em signos
como essência.

Cavernas digitais
a morada dos seres pós-históricos.
A imanência impermanente dos elétrons
a luz iluminista turva o tempo
transpõe espaços
em vácuo.

As letras grafadas nas paredes
e a ânsia por perpetuar a espécie.
Os dados, as cifras, as listas.

Aprisionados os seres pós-históricos
presentes no presente eterno retornável
prismam as sombras da luz dos monitores.
Todos espelhos
só enxergam a si mesmos
sem voltar dentro.

Tudo o que é certo desmancha no ar
dilui, dissipa-se
wi-fi.

Os cabos correntes
amarram um a um
uma a uma
emaranham-se pela Terra
enraízam cada qual em sua caverna.

Os vestígios tão mínimos
quando escavados, separados, peneirados
mostram apenas
o que em vão se tenta esconder:
não há para onde.

E conhecer fica assim,
esse verbo de quilômetros.

3237.

A noite inteira que dá
quando o céu não dorme
A vida inteira que há
quando a morte morre
Um pulso sorriso que vai
depois que ela te acolhe
Um medo todo que cai
depois que se descobre
Que todo ser é o além
e aquilo que se escolhe
Que debaixo do pó porém
brota aquilo que se colhe

3232. Naturalista

Quantos segredos
que ela guarda
na palma da mão?
E nos seus dedos
que ela para
como fosse um não
Pelo que vejo
parece um maneio
que não se concorda
com o coração
E mesmo não sendo
a mão liga ao peito
pelo balanço de
uma pulsação
E pulsa então
pulsa pois não
há mais segredo
apenas aperta
a dela tão certa
com a sua mão

3226. A janela aberta

Cachos enraizados
cultivados
por monotonia e doses de raiva
Olhos baixos
prestando atenção dentro,
mirando fora

A mente alta
desconectada dali
leva o corpo a cultivar cachos
Um corpo se contrai como feto
breves lampejos de sono
inundam sonhos de cafunés

Um frio entra
silencioso
Como passos de um gato ladrão

Algum tecido infinito separa

Corpos marcados de história
respiram cansaço
Coisa que gela
esquentando o estômago

A janela aberta

A brisa que empareda o corredor
Barulhos surrealistas irrompem tudo,
ensurdecem a tevê
quase borram a modulação das sombras
que o aparelho ligado no escuro emana

Passados passam
pipocam
Poucas palavras
Palavras receosas, medrosas
Retornos eternos, infernos

Um exemplo de grama verde pega fogo do outro lado
A mão quase toca a perna
Para
Receosa, medrosa

A janela continua aberta
o frio colhe silencioso o fogo
Olhos se evitam
Algo se perde

A janela sempre aberta

3224. primaveras juninas

apocalípticos e desintegrados
apolíticos proto anarquizados
dionisíacos quase apolíneos
olavizados
caóticos em suma
pelo consumismo consumados
pelo anticomunismo noiados
por quasares quânticos apaixonados

floresceram como ipês em meio à seca
caos, cores e carnaval
alguns blocos bloqueando a paisagem
tática e movimento
enredados em redes, paranoicos
puro “povo” num espetáculo trágico
de carona em algo não visualizado
como sempre, sintomático

daqui alguns séculos, as primaveras austrais
serão comemoradas em junho
num ritual cristo-pagão de malhação
de gente viva
ao final, jogar-se-á uma partida de futebol
com a cabeça de um político
em honra aos áureos tempos em que
o esporte bretão comovia multidões
e o papa do novo anarco-totalitarismo,
como um rei momo,
abrirá oficialmente as festas juninas

3221. A beleza como farsa

A beleza é perversa
seu consenso é fatal
Ela oprime
comprime coisas
pessoas, vidas
em castas de gradação:
mais reto do feio
ao
mais perto da perfeição

A beleza é mórbida
desalinha corpos
deixa marcas no ego
surrupia a felicidade
abusa de quem não recebeu
seu pouso de benfazejo
decepa partes e insere outras

A beleza é dádiva
dada por deus
e deus é injusto e tem planos:
Eis um ser perfeito, ainda que feio
Agora aguente
ou se tiver dinheiro,
intervenha

A beleza é uma farsa
Impiedosamente a história
não a ataca
e converte em mera questão
de proporção e gosto
a opressão que jaz atrás de si

Um dia, oxalá, não veremos
a beleza, veremos

3218. pulsa a intelectualidade no bar

tudo sempre circunscrito
em volta do seu umbigo
as mesas de bar flanam
por léguas de achismos
tão certos e imprecisos

“eu vi na internet”
“não lembro onde”
“talvez no face”
“li em algum lugar”

olvidam que o que
aprenderam nas aulas
de antropologia aplica-se
sempre a si e seu mundo

as mesas de bar burguesas
são relações socioeconômicas cegas
todos os outros são fetiches
para além de chicote e cinta-liga
a foice e o martelo da lida
além da vida, tem vida

os outros têm vida
as mesas, vazias