insanos
insones
somos
uma geração
que não dorme
um mundo
de chás e chats
um tanto
de agonia e lentidão
no claro da madrugada
Meu nome é Guilherme, poeta , professor de geografia da Secretaria de Educação-DF e mestre em geografia (UnB). Tive AVC em maio de 2020 (isquêmico) não consigo falar ainda. Tenho apraxia e afasia. Apraxia é um distúrbio neurológico motor da fala, resultante de um deficit na consistência e precisão dos movimentos necessários à fala. Afasia é uma alteração na linguagem causada por lesão neurológica.
insanos
insones
somos
uma geração
que não dorme
um mundo
de chás e chats
um tanto
de agonia e lentidão
no claro da madrugada
Quase nunca sabemos que lágrimas,
gritos, gemidos ou sorrisos
escorrem pelos fones de ouvido
Essa que agora passou, sorri ao vento
e lá dentro, há o movimento
de Schubert a derretendo
Aquele ali que parado se embalança
e não é samba a sua dança,
é The Cure o que interno sangra
O senhor de bigode aparado
parece curtir um vanerão aprumado
mas o que toca é um bolero do passado
A moça de touca, o que a toca e demove
será um electro qual sua camisa cobre
ou a cadência triste de um choro nobre?
Quase nunca sabemos
o que movimenta o som
interno que temos
talvez exista um som específico para esse céu
o socar das nuvens em meio ao que não tem forma,
só o sem limite,
o que harmoniza e dilui em partes
o que se ceulidifica insólito:
notas para o infinito
um som para esse céu
A solução tá sempre em frente
O projeto é atraente
Na esquerda ou na direita
Todo o centro é quente
O bloco negro passa rente
A escopeta no batente
E os mano lá no morro, tudo presidente
Zela passa o recado tirando de papo reto
Vampiro num aguenta deita, e reza a salvar um feto
Tia sai do meio do mato e apresenta a salvação
Tá dentro de um livro preto que carrega sempre na mão
Maluco são diz que a meta é matar todos os mendigo
E os noia lá da área tão tudo, menos extinto
Zoiudo cresce o olho em tudo o que pode vê
Das biqueira aos condomínio, porque ter mais é que é ser
Modelete de butique se arma na internet
O revoltado e indignado vê xvideo de boquete
Zumbizão de meia soquete
Paralisado, oitavo andar, se pular vira espaguete
Toma um sorvete e chupa chiclete
Tuita mais uma informação sem saber mesmo o que acontece
Se tudo o que diz procede
Se sua própria vida carece
Se a dos outros vai ficar na mão dos mequetrefe
Mas a solução tá sempre em frente
O projeto é coerente
São mil proposições
Postas por quem mente
A massa aflita é só quem sente
E o sangue do inocente
Mas os pleyba das mansão, tudo very crazy
Pode dizer o contrário
A economia vai bem, obrigado
Cada boca, cada esquina, uma pá de noiado
As noites tudo agitada, andarilho pra todo lado
O sexo pelas calçada, freakyzão estriquinado
As perdida, as encontrada, com os zoio esbugalhado
As mina massa, machucada, se mandam nos afluente
As tia corre, maltratada, desandam pelas corrente
As xica fria, injuriada, não são mais sorridente
O bonde passa, na madrugada, as levando pelas torrente
E a virada tá apregoada na pregação dum crente
Que diz com seu pau reluzente
Que o preço é alto mas a cura
É mais do que eficiente
É ampla e paradisíaca, derrama mel de todo ventre
Entre, o céu é para todos os que pedem, podem e pagam
Não se iluda com o mundão que te fodem e esparram
E a solução tá sempre em frente
O projeto é imponente
O templo se estende
Do sol poente ao ocidente
A salvação se faz presente
Uma prisão impotente
Quando pensa liberdade é tudo diferente
a gente deambula
cai pra lá e pra cá no vai e vem das ruas
se mete até em reino de almas nuas
dá as caras no rol das estátuas de alta envergadura
bota o próprio busto pra jogo, na ranhura
finge elegante, finge reticente, pura gastura
mas no fim é só mais um maloqueiro,
que meio se arroga, meio matuta
puro baseado, além força bruta
tanto calado, todo prosa, mesmo na fissura
o que se prostra em seu devido lugar:
a peregrinação da lida da lua
Não tenha amantes em Brasília
Ela pode não ter esquinas
Mas tem amigos de amigos de amigos
na surdina
Não tenha amantes em Brasília
Meia boca te separa do
primo-irmão do cunhado da sogra
da sua vizinha
Não tenha amantes em Brasília
Tenha amores monogâmicos e
monolíticos, aqui na cidade
é a única sina
Desde aquele dia
pesam-me palavras
Toda a densidade
dos coletivos de letras
abarrota os meandros,
quer se instaurar
em todo canto
Desde aquele dia
as imagens desmancham
As palavras lavram
toda a terra
se entrometem
entre a pulsação de sorrir
e o aconchego do
olhar perdido ao longe
Desde aquele dia
todo o peso das palavras
pausou os dias
tão lentamente em tudo
que só se anuvia agora
a pura leveza
de desde aquele dia
Do que me construo e me armo:
De gotas e galhos. De espaço e céu.
Projeto o torto, a correnteza e enlaço:
É etéreo. Descompasso prediz.
Disso basto. Absorvo o vácuo
Ergo o caule, seiva motriz.
Deito-me lago, dentro-me
e disparato: no vivo ou no morto,
casca, movimento, folha, liquefiz
o que estou é momento
e o que sou não feito, não condiz.
Acompanhados desde longe, ficamos
como tudo antes da parada
– a mente em sobressaltos dentro do crânio.
O tempo que se moveu sonolento
despencou em letárgica velocidade
chega esmagou tudo.
A cidade pouca e larga:
cimento, postes, ipês, sol;
e dentro da luz a pino no meio do meio-dia
foi verde o que parou, a praça
em tom brilhante, a ideia com gosto
quando se sabe com a pele,
com a veste dos olhos despida
a desnudar as entranhas
borbulhando aquilo que impele pelos.
Um pombo cruzou o céu
outro pássaro marcou frutas ao largo dos casais.
A paz poderia, mas ficou parada:
“Precisamente, parar é o mote”
antes que alcançasse o céu.
Antes do tempo, ficamos
para ficar com a terra e seus frutos,
alimentar pássaros e se debruçar
pelo largo da cidade, borbulhando
sem sobressaltos
sem céu para voar.
Ficam por murmurar as águas. Entendo pelos meus pés.
Pois que adentram entre o que segue, sendo o que corre.
E fortuitas as nuvens somem em eneagramas azuis
para que eu os decifre e cale com o estampar das flores.
Ficam por explodir amenas. Ainda vejo que o horizonte
abre dentro de meus pulsos seu desejo irrefreável de tocar o sol;
e um vendaval só surge quando uma montanha quer
que lhe façam cócegas em sua dura derme de eras.
Sinto que brotam campos. Sinto que correm pedras.
Levar todo esse mundo quedou-me o tédio em contemplação.
E já não sobra a angústia, queima, sim, aquilo que fala
a língua suave de quando arrebatado pelo não humano.
Só falta tamanha presença
E proximidade
E avanço bem curto
Quase dois versos que já se uniram.
O teclado como um santo
Promovendo
O milagre do contato.
Além de uma conversa.
Diminuta e finda conversa
Perturbadora.
O mundo despedaça inesperavelmente.
naquelas noites de vibração
que não dão para o gasto –
o consumo da vida pede
que tudo seja mais
onde falta a variedade
eles inauguram o velho
os pés destoam vagarosos
e os trejeitos são absurdos
– planejadamente
desplugar-se do que alimenta
como foi lá? totalmente mais que demais
matar os antúrios, plastificá-los
superá-los no 3d da tela esquiva
amá-los desconhecendo-os
ficar nu como sempre
se passa as estações dentro
das vestes da moda
tendo o aroma de si comprado a prazo
essas manhãs de expectativas
enroladas junto ao fumo e ao pó
nada é curto
tudo é videoclipe
nesse dia, pasme, em todos os dias
dou uma realidade insustentável
feito se morresse
deixasse o caixão, subisse sete palmos
livrasse-me dos vermes
e quando silenciada a morte
de camisa verde florida
a alma dividida em mil
pontos flutuando em derredor
conseguiria certo livrar o infinito
do castigo de ser breve
visível, o que se acerca,
aquilo que não pode conter
o lugar
jorrado sem ímpeto pela torneira
banhando os dias, a vida
disparatada que o imponderável
guardou em mim
enquanto as flores estampavam os campos
prontas a ornar mesas, jardins, lápides e dias de mortos e mulheres
abelhas almoçavam ração de frangos confinados
e a Terra, detentora de toda terra a lhes dar raízes
esburacava-se, tremia e rachava
e a cada volta que dava em si
elíptica e helicoidal em seus movimentos soltos no sem fim
seres escapavam de sua órbita
e se lançavam ao alcance de nada
como a beleza das flores
despropositada, própria a ornar
desde o que jaz, até o que jaz
Houve um tempo
Em que a gente digeria
Hoje há toda essa bonança
E profunda azia
Houve um tempo
Em que o que dizer havia
Hoje não há mais saudade
Só todo dia
Houve um tempo
Em que se podia
Não ser feliz, sem agonia
Ou ritalina
Houve um tempo
Quem diria?
Em que o tempo
Só ir, podia
quando dentro
o sol se apaga
e a noite interna
inferna e inverna
de frio os ossos
é um descampado
e noites de amplidão
quando toda luz
interna hiberna
Como imaginar a solidão de Deus?
A perfeição pede contemplação
desde si, desde outro
Aquela superfície de sem nada
e só a si em todo o comprimento
Uma largura de nada mais,
e tudo para ser posto
Como bastar-se com o inexistente?
Sem porquê ou para onde
além da própria presença absoluta
ou só a ondulação
do vago da matéria negra
a preencher as minúcias
Deve ter sido um muxoxo,
um enraivecer, uma depressão,
uma saudade
Deve de ter sido de banzo
que Deus se explodiu na grande explosão
O arbítro do átrio
e do ventrículo
A resignação da vida
atritando com o
mundo: bum, bum, bum
Pela manhã anoiteceu
e veio um sopro de tudo
feito som de trombeta
Tava lá, o gado confinado,
a cerca campeando as perdas
A máquina berrou alto,
os bois se debateram
A relva se deu de ração
e as manhãs nunca mais foram
de sua matéria cristalina,
elas caíram pela falta do despertar
Quase tudo se assombrou
e fantasmas trotavam pelos
canos d’água vindos da represa
Até o que vinha pela brisa,
baixando os olhos dos bois
a serem abatidos,
dormiu
Tudo virou visagem,
espectro, sombra
Era aquilo que podia
no sem fim da noite
vinda pela manhã
Só se aprumava um resquício de luz,
quando se abriu a porta das seis horas,
quando o umbral do tempo
desaguou a escuridão já tomada tudo
A cancela meio erguida
só restavam meias vidas
e todo o confinamento do gado
bastou-se ao chão
Algo explodiu no céu,
e a luz se apagou mais ainda
Do sonido das trombetas,
uma graça de melodia
O fim sem mote,
um bife chorava léguas
Onde meu pai
fugir dos olhares
descansar dentro de si?
Romper a tirania
desse ego coletivo
onipresente
Pousar a mente
não julgar
Nem feio, nem belo
Tocar a realidade
com a palma dos sentidos
Não desejam a paz perpétua,
mas sim a performance cosmética.
Não outros opúsculos,
mas sim vampíricos crepúsculos
Todos, enfim, pelo fim, absortos.
guardar as imagens de si
selfie
guardar as imagens em si
devir
o que
eruptou
em você
vagou
em mim
Eu não quero radicalizar
a política
eu quero mujicalizá-la
até a música,
em benefício próprio,
da própria Terra.
quando da
proatividade
radioativa
Não é a pressão que varia
trazendo a falta de ar
e o horizonte castanho
Tão pouco apenas o pêndulo
da Terra
a carregar tudo aquilo
que erode camadas
e envereda verde pelos cursos
Que alucina o doce
o azedo, o amaro
em arrepios de formas e cores
Redundando em redemoinhos,
sacis e chamas
Não, não é uma sucessão lógica
amarrada num encadear
Cada nó é mais do que magia
Cada nó é apenas magia
Mesmo com suas mil cores,
mil formas, mil tramas,
permanecerão assim,
vestindo pés.
a letra redondinha em cima
do papel amarelado
pressagiava o enredo da saudade
onde foi parar?
no baú do tempo trancado
na imensidão do que não se nega
no desalento de um samba repetido
qual é o ponto em que a carne cega
toda memória?
desabrigar as pétalas
desestrurar a flor
ou colorir o vento
e pincelar de perfume a terra?
e tudo antes do anoitecer
Prospecção de bits.
O que restará camada após camada:
as eras, Eros, heróis?
Fenômenos imaginados em cavernas,
toda essa existência em signos
como essência.
Cavernas digitais
a morada dos seres pós-históricos.
A imanência impermanente dos elétrons
a luz iluminista turva o tempo
transpõe espaços
em vácuo.
As letras grafadas nas paredes
e a ânsia por perpetuar a espécie.
Os dados, as cifras, as listas.
Aprisionados os seres pós-históricos
presentes no presente eterno retornável
prismam as sombras da luz dos monitores.
Todos espelhos
só enxergam a si mesmos
sem voltar dentro.
Tudo o que é certo desmancha no ar
dilui, dissipa-se
wi-fi.
Os cabos correntes
amarram um a um
uma a uma
emaranham-se pela Terra
enraízam cada qual em sua caverna.
Os vestígios tão mínimos
quando escavados, separados, peneirados
mostram apenas
o que em vão se tenta esconder:
não há para onde.
E conhecer fica assim,
esse verbo de quilômetros.
A noite inteira que dá
quando o céu não dorme
A vida inteira que há
quando a morte morre
Um pulso sorriso que vai
depois que ela te acolhe
Um medo todo que cai
depois que se descobre
Que todo ser é o além
e aquilo que se escolhe
Que debaixo do pó porém
brota aquilo que se colhe
Alguém que desplugue
Despolitize
Ressemantize
Que desfaça a razão
Pela sorte de sentir
Que sempre vive,
disse um exemplar de
Homo sapiens sapiens
dentro de uma igreja
ou de um fáscio
que não dava pra distinguir
aos poucos
uma distância
se mede
alcança
cada metro
em lembrança
estende o
passado
à latência
do que no agora
emana
toda história
mora na memória
que permanece
insistente
tensionando a
lentidão que conjuga
o que foi
à pressa do que
há de vir:
o presente da presença
eu me oriento
com o fluxo do desejo
e opto pela variância
dos dias
essas probabilidades
não estáticas da vida
essas estatísticas
não medidas
médias aleatórias
do que pode ser
que prossiga
Não é que nada exista
É que turva pista
Só se vê o que avizinha
Todo além
Não se alcança à vista
Quantos segredos
que ela guarda
na palma da mão?
E nos seus dedos
que ela para
como fosse um não
Pelo que vejo
parece um maneio
que não se concorda
com o coração
E mesmo não sendo
a mão liga ao peito
pelo balanço de
uma pulsação
E pulsa então
pulsa pois não
há mais segredo
apenas aperta
a dela tão certa
com a sua mão
Tudo que ele toca parece perecer
Menino do dedo verde avesso
Menino do mindinho de envermecer
Terá sido a sinastria
Que deixou a casa vazia?
Ou a falta de sintonia
Na tevê de tela fina?
Esperando aquele momento
Inesperado
De se colocar de lado
Calado
Mas alado
Essa coisa amorfa
No espelho absorta
Não morfei, mofei
Paredes comprimem
O sangue imprime
nelas um limite
Essas paredes de pele
que iniciam o infinito
a que em si tudo termine
Cachos enraizados
cultivados
por monotonia e doses de raiva
Olhos baixos
prestando atenção dentro,
mirando fora
A mente alta
desconectada dali
leva o corpo a cultivar cachos
Um corpo se contrai como feto
breves lampejos de sono
inundam sonhos de cafunés
Um frio entra
silencioso
Como passos de um gato ladrão
Algum tecido infinito separa
Corpos marcados de história
respiram cansaço
Coisa que gela
esquentando o estômago
A janela aberta
A brisa que empareda o corredor
Barulhos surrealistas irrompem tudo,
ensurdecem a tevê
quase borram a modulação das sombras
que o aparelho ligado no escuro emana
Passados passam
pipocam
Poucas palavras
Palavras receosas, medrosas
Retornos eternos, infernos
Um exemplo de grama verde pega fogo do outro lado
A mão quase toca a perna
Para
Receosa, medrosa
A janela continua aberta
o frio colhe silencioso o fogo
Olhos se evitam
Algo se perde
A janela sempre aberta
meu ori é da origem
gene que percorre todos nós
meu ori enfrenta todo afã
arqueado em paz
meu ori branco e reluzente
lufada de luz presente
desde o barro
pacifica todo algoz
meu ori
é da origem
do germe da gente
do gene
negro
envolto no tom da paz
apocalípticos e desintegrados
apolíticos proto anarquizados
dionisíacos quase apolíneos
olavizados
caóticos em suma
pelo consumismo consumados
pelo anticomunismo noiados
por quasares quânticos apaixonados
floresceram como ipês em meio à seca
caos, cores e carnaval
alguns blocos bloqueando a paisagem
tática e movimento
enredados em redes, paranoicos
puro “povo” num espetáculo trágico
de carona em algo não visualizado
como sempre, sintomático
daqui alguns séculos, as primaveras austrais
serão comemoradas em junho
num ritual cristo-pagão de malhação
de gente viva
ao final, jogar-se-á uma partida de futebol
com a cabeça de um político
em honra aos áureos tempos em que
o esporte bretão comovia multidões
e o papa do novo anarco-totalitarismo,
como um rei momo,
abrirá oficialmente as festas juninas
sempre risível o destino
suavemente explosivo
sorrirei puxando o pino
A beleza é perversa
seu consenso é fatal
Ela oprime
comprime coisas
pessoas, vidas
em castas de gradação:
mais reto do feio
ao
mais perto da perfeição
A beleza é mórbida
desalinha corpos
deixa marcas no ego
surrupia a felicidade
abusa de quem não recebeu
seu pouso de benfazejo
decepa partes e insere outras
A beleza é dádiva
dada por deus
e deus é injusto e tem planos:
Eis um ser perfeito, ainda que feio
Agora aguente
ou se tiver dinheiro,
intervenha
A beleza é uma farsa
Impiedosamente a história
não a ataca
e converte em mera questão
de proporção e gosto
a opressão que jaz atrás de si
Um dia, oxalá, não veremos
a beleza, veremos
Pelas manhãs,
nesse mundo já
elétrico
eletrificado
eletrizado,
ainda perduram
os estalidos mecânicos
nos tímpanos.
Máquinas
queimando vorazes
eras fósseis
da Terra.
a inenarrável vontade da estrada
quando o futuro é além paragem
e o presente é caminhada
tudo sempre circunscrito
em volta do seu umbigo
as mesas de bar flanam
por léguas de achismos
tão certos e imprecisos
“eu vi na internet”
“não lembro onde”
“talvez no face”
“li em algum lugar”
olvidam que o que
aprenderam nas aulas
de antropologia aplica-se
sempre a si e seu mundo
as mesas de bar burguesas
são relações socioeconômicas cegas
todos os outros são fetiches
para além de chicote e cinta-liga
a foice e o martelo da lida
além da vida, tem vida
os outros têm vida
as mesas, vazias