Acendo um incenso e uma vela
(o racionamento traz poesia)
ligo o som e penso se ela ouve esta música
o frio me aprisiona em cobertores
e a solidão pergunta:
será que o sono nela se faz vivo?
Eu não consigo,
rolo nesta pequena cama,
parecendo um infinito
pois a solidão de uma cama de solteiro
é infinita
que se rola, se vira, se encolhe
e ainda sobra todo o espaço
A fumaça do incenso me hipnotiza
e a vejo em minhas retinas tristes
ela me beija a boca
à luz e meia
e só assim consigo dormir
0302. Gênesis Cármico (cósmico e amoroso)
Mais de MI possibilidades em minha frente
Um Q nirvana de opções
Um \ e Q’s [’s em minha vida
Existe uma (C) que me dá mais rumos,
Caminhos que minha mente (…) não via
Havia aquele g dentro de mim
E agora vejo-me²
Eu era relativo mặya de causalidades
E ela ordenou meus neurônios
E ecologizou minha alma
E sucumbiu a ilusão
Desprendi-me de retóricas ($)
Não aprazíveis ao [ da felicidade
E encontrei-me com a OO nela
Ela que tem nome de Deusas e
Semblante de anjo
Ela que é Mayra que é espiral retilínea e ramificada
Ela que é Maria que é mãe
Ela que me é em profusão
0301.
Nunca cri no amor
E só cria-o inexistente
Nem opaco ou transparente
Só da cor do nada
Da forma do ausente
Até que um dia
Uma menina-mulher me disse
Que me amava sem me saber
E ao saber-me, mais ainda
E eu: hum? Eu heim…
Só que também ocorreu o seguinte:
Gostei da menina-mulher
E percebi os contornos do outrora ausente
E senti as cores do nada
E a luz daquele transparente
Hoje ilumina meu espírito
Colore minha mente
Da forma ao meu sorriso
E a menina-mulher faz tudo isso
Ah, estou amando
0300. Explodido
“Não dá mais pra segurar
… explode coração…”
Distância
Ela dista
E eu na ânsia
De a sentir
Em minhas vistas
Sobre a cama
Saborear suas retinas
Enxergar sua mente
Escutar seu gosto
Tocar seu prazer
Degustar seu cheiro
Explodir dentro dela
E ela me implodir
Até a distância
inexistir
0299.
tanto ódio me cerca
e eu amando tanto
amando todos
e mais a mais a uma
e todos mordendo-se
e eu nela, não em mim
ou nos outros
e ela me acalmando mais
e de mais a mais
eu nela e nada mais
que me faça escutar
os tantos dolosos ais
tanto ódio nos rodeis
e eu vivendo o amor
fazendo um bolo
e pensando:
“será que ela irá gostar?”
tanto amor dentro de mim…
0298.
Não consigo falar: meu amor
Pois sinto algo nosso
Nosso amor
Não vejo minha realidade
Pois só nós dois existimos
Nossa vida
(e uma borboleta amarela pousou o meu pé!!)
amor e vida
você e eu
nós,
sendo o amor
vivendo
0297. Lilás Mayra
Imerso no azul
Só me vem Mayra na alma
Mayra que é azul (e lilás)
Mayra que foi sonho
E é
Mayra que foi promessa
E é
Mayra que me completou
E que me é
Mayra que foi desafio
E é
Mayra que foi amor
E é (infinita)
Imerso em Mayra
Só me vem amor na alma
Amor que é Mayra (e lilás)
0296.
Num nada há um tudo
Que é meta e é aqui
Que possui um lócus no não-lugar
Num topos e numa utopia
Há um nada por definição
E um nada tangível
Que é matéria e transcendência
Que é alma e imanência
Que é tudo
Há um tudo hermético no nada
E um nada permeando o tudo
Há a ausência que é
0295. Das artes
E há os e as que fazem arte com o corpo
Lançam-se em sua matéria e mitificam-se
Existem as e os que tornam movimento arte
E o percurso do indivíduo sobe longe
Têm aqueles e aquelas que produzem arte com a voz
Reverberam a garganta e entorpem o ar
Há esses e essas que arte fazem com as cores
Sussurram timbres luminosos em telas e paredes
Existem alguns e algumas que fazem arte com as formas
Observam a realidade e modelam sonhos
Têm uns e umas que são a própria arte
Seguem seus caminhos simplesmente
Já vi seres fazendo arte com a imaginação
Mergulham fundo em suas existências e além
E aqueles e aquelas que gravam arte em caixas
E dão movimento a suas loucuras
E uns e umas produzem arte do mascarar-se
Dando nova vida em encarnações
E essas e esses como eu
Que vislumbram arte nas palavras
Constroem símbolos em letras e voam
0294.
descomputadorizado
descompostura
descompasso
puta dor
com tortura
computador quebrado
desinternautizado
desinteresse
desinformado
formatiza
esse horror
servidor off-line
Internet
ter na tela
tudo
servidor serve a dor
ter na tela (a dor)
off-line – a liberdade
0293.
Não fale sobre sua feiúra
Esta que lhe é inexistente
E que a ti parece ser latente
Fale sobre os seus olhos
Essas duas gemas de mel
Que são chaves para uma alma de anjo
Não fale sobre a sua dessimetria
Esta que lhe é irreal
E que a ti, aparenta ser natural
Fale sobre seus lábios
Esses portais róseos
Para o âmago do desejo
Não fale sobre a sua aspereza
Esta que lhe é algodão
E que a ti, aparenta ser pedra sabão
Fale sobre a sua alma,
Essa sua face multicor
Que é o que catalisa toda reação de amor
0292. Lia as partes belas
O belo ser que eu via
planava sobre a serrania
e não era pássaro ou avião
era um ser de escamas, plumas e óculos
e luzes natalinas na cauda e no peito
Suas costas arqueadas
para dar mais imponência,
e seus cinco tentáculos
– tentáculos sim, pois braços não tinha –,
lodosos e briluzes,
carregavam uma flauta,
um pandeiro, uma flecha
um livro dourado e um nada
e nas pernas – que eram pernas realmente –
uma musculatura torpe e em frangalhos
aquele ser pairava ao ar
doce, leve, sinfônico
um anjo sem asas, decaído
menestrel puro, numa forma meta-humana
que planava sem planar
e voava flutuando, lépido
deixando atrás de si
um rastro de arco-íris
ao lho ver tão belo e impetuoso
chamei-o Lia.
0291.
o mundo me chama à vida
e eu estou a chamar:
eu grito, eu berro e até esperneio
mas o mundo e/ou a vida,
tais e quais eu, só ignoram
e eu oro frente a um monitor
as imagens gritam dilemas
0290.
As vezes me percorre um medo
Um medo infundado
De que tudo seja brisa
Seja bruma, seja Brahma
De que minha poesia te canse
Confunda-te, te enlouqueça
É um medo insone
Que dorme quando próxima
E lateja quando longe
E quando me contradigo ao
Responder-te,
Não por não saber,
Mas por ser eu um paradoxo
É um medo que me dilata
Que me expande mais você
Há o medo e há o amor
E um é fruto do outro
Numa relação dialética e tangencial
0289. Pesadelo
Eu hoje acordei chorando
Pois te vi triste em meu sonho
E tua tristeza se confundiu
Com minha felicidade de a ter
Em meu sonho,
Então, acordei chorando
Chorei um choro contido
Uma lágrima feliz e triste – rouca
– como se saber necessário
a tua existência para a
minha atual completude
e completo-me (completo-te?)
ao lacrimejar a ânsia
de não te ver triste
Por te ver triste
Triste, acordei chorando
Por isso te escrevi
E me escrevo feliz
E choro pois meus nervos jazem
À flor da pele
Pois te vi triste em meu sonho
E choro
0288. Sou-me então presente
Sou-me então presente
e o que sou mais não sei
sou-me o avesso do ontem
e o ontem que não perderei.
Sou-me quase como um rei
Sou-me antítese da nobreza
e sou-me o juízo, o valor e a lei
– sou-me o amanhã: realeza
Sou-me o fim da festa e o vômito,
Sou–me aurora, sou-me destreza
Sou-me o fogo que queima a chama
Sou-me a água molhando o líquido
Sou-me o ar se solidificando
Sou-me a cama
e o moinho:
Dom Quixote amando
Sou-me então presente
Sou-me eu mesmo finalmente
0287. Grávido
Sinto aqui em mim
um algo que não é só eu,
que se enraíza
que se expande.
Que me é
e que não me pertence
que está comigo
mas que não sou dono.
É algo que me quer explodir
me deixando mais:
fragmentado em unidade
disperso em totalidade.
Há algo em mim
que me compartilha o ser,
que me confunde o espaço,
que não sabe se aquela
idéia é minha,
se aquele sentimento é meu
ou se me pertence este braço.
Há uma coisa louca
que me prostra mais e mais
num eu pouco conhecido,
que me aumenta
por dentro e por fora.
Há um algo doido
que rasga meu passado,
que acalenta meu martírio
e me faz grávido.
Grávido de um inebriante
embrião de felicidade.
Há uma bomba que vai explodir
E há uma que acende o pavio
junto comigo.
Há o amor que nasce
0286. Amor de louco
Ela diz: “um e dois: eu”
e eu: bum!
um e dois também
élêu
êula
bem bum também
ela flutua
e eu espoco
bum no espaço
eu diria,
e ela diz:
“eu flutuei à noite
e fui-te”
e eu sou-te,
espocado.
0285. Transcendência
Um dia louco
sul-real ela diz.
Realidade rompida,
digo eu.
Nós dois como um,
como uma:
música ao longe,
sussurros e sorrisos,
carícias e carinhos.
A mão na mão.
A boca na boca.
O olho no olho.
Eu e o corpo outro:
um,
uma.
Dali não nos pintou
Buñuel não filmou
Breton não registrou
Nem Freud explica
Vivemos
Sentimos
Mágica e confidências
As bocas, as línguas
Os corpos
As almas, as mentes
Os ideais
Eu e ela: uma e um
Nós: uno: ela e eu
0284. À outra
Na plataforma térrea
Lábios junto a lábios
Fazem as almas voarem,
Miro a outra:
Ela brilha em ciúmes
E voa também
O ônibus sai
Meus lábios se vão junto
E os dela ficam
Juntos com sua alma
E por minha alma
Ir com ela
A outra não entende:
Brilha mais
Chora lágrimas cadentes,
Paira no centro do céu
Quando entro em meu ônibus
Kundera me acompanha
E valsamos com adeuses
Aí então a outra enlouquece
E dá um espetáculo
De ciúmes em pleno ar
Mas como é tola esta outra
Não vê que agora sou eu
Quem sempre volta…
0283.
“eu quero uma casa no campo, onde
eu possa compor muitos rocks rurais…”
entre jacas e tomates
um Hegel ou um Marx
criando abelhas e tirando mel
maiêutica e Maquiavel
fazendo doce de mamão
Dostoievski e Platão
0282. Não posso parar de pensar
O que me deixa triste agora
É o que segreda tua tez
E o que deixas para amanhã
O que me incomoda agora
É o que prometi e não cumpro
Uma vez que não sou mais um
E o que é você não segue meu rumo
O que me dói tanto agora
É que não posso parar de pensar
Que o que sinto te incomoda
E sufoca o teu ar
O que me coloca na insônia
É pensar que meu amor
Te é confuso e estranho
E meu não ciúme é dor
O que me questiona meus valores
É esse meu ser liberal
Que não sabe amar possuindo
E ainda pensa ser isso genial
Ah, mas o que me deixa mesmo confuso
É não saber se te possuo como o normal
Ou não mudo, amando-te sem te possuir
0281. Um complô das telefonias contra minha felicidade
Maldita seja toda a privatização!
Chego em casa cansado,
Doido a ouvir a voz de meu amor
Pela tão maravilhosa tecnologia
Do telefone e tum-tum-tum,
Trock, traz, truc, chiiiii.
Se não houvesse telefone, tudo bem,
Ficaria feliz só de saber da existência
De minha amada,
Mas uma vez que há,
Gostaria de ouvir sua voz
Acalmar minha ansiedade
Saber se tudo vai bem…
Mas novamente: tum-tum-tum,
Trock, traz, truc, chiiiii.
Malditas sejam essas telefonias
Por me deixarem angustiado
Por não permitirem que eu fale:
“sonhe comigo meu anjo, amanhã
agente se encontra em tal lugar…”
E o que ouço? tum-tum-tum,
Trock, traz, truc, chiiiii.
Ai minha Deusa, o que faço?
Será que o Procon alivia angústia?
0280.
uma após a outra
as mentiras invadem
minha retinas
meus ouvidos
até o cheiro
e o gosto
das mentiras
já se sentem
e a melhor
cocada do mundo
passa ao lado
minha alma
já cansou-se
os marketings
que até a miséria
usam me apavoram
mendigos e mensagens
subliminares
credo!
0279. Sobre ser um
“esse imenso, desmedido amor
vai além de seja o que for”
Longe num Éden
Imagino-te na chuva
Indo além de minha realidade
Viajo quilômetros,
Além do que sou
Vou à tua imensidão
Me imerso em ti
– imenso desmedido –
E sou-te
Faço-nos um
Ao pensar-te
Ao lembrar-te
Sinto-te em minha imensidão
E a distância dói
Pois sinto-te em mim
Pois vejo a unidade
0278. Êxtase
O amargo da língua no ouvido
O beijo salgado do pescoço a suar
O paradoxo da suavidade agressiva
O calor e a língua gélida nos seios
O cheiro do corpo outro na lascívia
A perna, a boa, a barriga, a mão
A volúpia do desejo mais intenso
A perene sensação do prazer ilimitado
A audição forte do peito próximo
A contemplação de que ela dorme leve
Um prazer
Uma noite
Dois corpos respiram na penumbra de lençóis
Dois corpos ainda um
0277. Pombas
Ali, vejo uma velhinha muito pequena
De longe parece caber em minhas mãos
E colocando-as frente meus olhos, cabe
Ela dá farelo aos pombos
Ela como biscoitinhos de polvilho doce
Agora vejo duas velhinhas
Miúdas, pequeninas
– uma em cada mão –
Elas vêem-me e pedem informação:
“Esse ônibus… ele passa no Centro
de ceilândia, meu fio?”
“Passa não minha senhora, é aquele ali”
Respondo calmamente
Elas sorriem um riso
Que há tempos eu não via: “Brigada”
Em minhas mãos, duas velhinhas
– falam com pombos ao sorrir –,
Pequeninas: duas pombinhas
Arqueadas, esperam a saída
E junto a esse seu azul… uma paz:
Ah, ganhei meu dia
0276. Terça-feira
Hoje a carne acaba
Amanhã é quarta
Cinza como
Um veio d’água
Cinza como
Após a chuva,
A enxurrada
Hoje acaba o carnaval
Não vi mangueira vendaval,
Pois dormi cedo
E não vi a reprise da globo
– estava num conflito existencial
Hoje acaba
A carne acaba
Acaba o carnaval
E aqueles litros de silicone?
Serão doados como os órgãos?
Ou diluirão esqueletos
Num possível juízo final?
Terça-feira
Hoje acaba
E com toda certeza
No resto do ano
Continua esse “carnaval desengano”
Hoje acaba
(até parece!)
0275.
Por um segundo, uma brevidade infinita
queima em silêncio a fragilidade.
Arrebata os influxos e os refluxos
dos transeuntes que fulguram
o ardor da consumação da matéria.
A imanência do fogo é ceifada por um segundo
e mói-se-a num moinho transcendente
que a joga fora de sua existência
ardendo num ela gélido que exprime
o que também é matéria e o que é vácuo.
Um golpe na cabeça de todos
que suscita a percepção de uma tarde
sem energia elétrica
E nesse segundo esse silêncio
Arde como brasa na fogueira
0274. Avirtual
Finjo estar acordado
Pensando muito no passado
O presente já não sei
O futuro apenas sonhei
Deixei meu presente de lado
Para analisar meus passos
Mas o que realmente deixei
Foi o que ainda não conquistei
Finjo estar acordado
E fico olhando para o lado
Vejo você num beco sem saída
Depois de uma grande avenida
Se pudesse não sei o que mudaria
Não entendo tanta correria
Lutou tanto para pouco capital
Agora sua vida vai mal
Virtualmente estamos acordados
Andamos tanto, embora estagnados
A tecnologia só aumentou a fome
O mundo moderno te consome
A nossa realidade está assim:
Só estou ligando para mim
Tento encontrar o meu eu
E nem me importo com o seu
0273.
Como num vôo de avião
Pego carona na boléia de um caminhão
Atravesso todo esse planalto
Até chegar lá em Alto
Mas em Alto hoje, eu não fico não
Hoje o paraíso é mais pro lado
O paraíso hoje
É de quem lutou contra o dragão
Espero que alguma carona role
Pra chegar
Pra chegar logo em São Jorge
Jhaia, Jhaia, Jhaia
Eu to aqui na Chapada
E tudo é tão jóia rara
Vejo cristas de cristais no horizonte
Eu vou subir a pé aquele monte
Jhaia, Jhaia, Jhaia
Eu to aqui na Chapada
Sua beleza me deixa de cara
Essa tal de Chapada
0272. Cadê
eu to no meio do cerrado
e de pavor eu to cercado
a toda hora eu fico horrorizado
êta desmatamento danado
lobo-guará já se acabô
pé de pequi já se findô
os cajuero já secô
siriema o homi matô
gabiroba fogo pegô
tamanduá se vaporô
morreu de fome o tucano
onde é que tá o veado?
jacu, tatu, mutum canário?
onde é que tá o bacuri?
onde se esconde o buriti?
pra onde foi o bem-te-vi?
acabô-se o quebracho
num tem mais barbatimão
mangabeira tá por baixo
por que se foi o gavião?
num entendo tanto horror
cabô carcará e beija-flor
num güento mais
já findo tod’os cristais
já sumiu tudo: sábia, puçá, jequitibá
guariroba, jurubeba e até os jatobás
ai de nos, ai de mim
acabô-se até o capim
0271.
renunciamos a imortalidade em si
e escolhemos a liberdade da beleza
transcendemos a realidade do agora
e fomos ao além de nós mesmos
tornamo-nos infinitos na mortalidade
nos surpreendemos como alternativa
um universo emerge de nós e vive,
submerge em nossas mãos racionais
que raciocinam sentimentos
0270. O ausente
Sou o ausente, a parca ostentação de um nome
Pretenso ser, que não é e nunca foi
Sou a solidão desacompanhada, o medo e a volúpia
da embriaguez desnuda da roupagem de um ego
Nunca alguém, antes de tudo nem ninguém,
sou o vazio.
E se alguém me sente é somente um acaso de Deus,
um momento de relapso num contingente de nadas
A personificação da inexistência é isso o que sou
A face indiferente do éter.
O nirvana não sentido.
E sou claro e discreto ao dizer que nada sou
e minha busca já não me achou,
mas prostrou sua alcunha de Deusa
e deu-me esse lindo nome:__________
Um acaso planejado por mãos femininas,
um subjetivismo não apreendido,
apenas caracteres neste computador,
e é isso que me dá os fragmentos dos infinitos.
O desejo não findo, a dor do Tudo
a vontade da morte,
o cansaço da rotina, a miséria da condição humana: eu
E neste lindo nada sou-o e não o sou
A companhia em si, a própria solidão
O ímpeto do suicídio, morte do amor que nunca existiu: isso, eu
Aquilo que não é notado ou percebido,
um assassino de positivistas,
um produto de unhas verdes,
a desilusão que não pára,
um pacato cidadão tão néscio quanto bêbedo,
um à margem de tudo, um à margem dos deuses.
Apenas translações no ocaso.
Um vazio e novamente a aspiração à morte: eu.
Quando ando pelas calçados ninguém mo vê,
minha sombra é mais perceptível
que minha infundada carne disforme
e descubro que o amor não existe
a cada passo que dou numa avenida movimentada
Sempre que ando a rua, vejo a dor,
a minha e a de outrem, só gritos de horror,
falta a suavidade,
falta tudo que me faça crer no amor
Sou o ausente.
Sou o amor.
0269.
sinto vontade de todos os dias
escrever um soneto
dois acrósticos, cinco elegias
dezoito haicais e sete versos livre
todos a mesma pessoa, todos a ela
todos a Mayra
as mais belas rimas,
somente a Mayra
suaves poesias,
também a Mayra
nos simples haicais
Mayra e nada mais
0268. REP (Ritmo e Poesia)
contra tudo o que é moderno
de encontro ao poder da criação
a favor da contrariedade
e renegando a renovação
reinventando o erudito
copiando a erudição
sampleando poesias
pois “o poeta é um fingidor”
produzindo rimas pobres
e sonetos do não-amor
caçoando do dadaísmo
exprimindo impressões em torpor
exageradamente arcádico
simples e romântico por momentos
elegias, sonetos e acrósticos
trazidos do futuro, voltando tempos
0267. Um instante
atravesso a avenida
e um verso minha vida
por templos de consumo
e templos de salvação
percorro sendo o tudo
o ritmo de uma nação
0266. Lendinhas
só sussurram secos sons
sacis saltam seriemas
correm com capivaras
curupiras corajosos
roda Saci ao pé da mata
sopra o pito e a fumaça
solta cavalo, faz travessura
Saci por perto é diabrura
Curupira do pé virado
vive na terra não é alado
corre na mata e a natureza
Curupira guarda qual realeza
se algum vivo pede socorro
Saci travesso já pensa em brincar
e o Curupira só pensa em ajudar
mas se é na água ninguém se mete
porque o Boto não deixa afogar
0265. Eterno retorno II
do que volta
do que vai
vai e volta
vem e vai
do que dói
do que volta
dói e vai
vem e volta
do que marca
do que dói
marca e fica
fica e dói
do que chega
foi e voltou
marca e fica
vai e vem
de tudo isto
nada mais
mas sempre volta
e dói
0264. Anseios numa fronte
ao fim do show o poeta corre
para não perder o ônibus
nada de novo nesse front
e na fronte do poeta versos beatniks
em beats modernos
a sua fronte tal qual linhas de concreto
com a alma longe
e os chakras despertos
pelo som de Zeca Baleiro
o poeta pede uma dose
que lhe finque um pé no chão
e uma mão em marte,
Bukowski e Sartre em um gole
o poeta corre e corre
findou-se o show e o ônibus voa
só um som mudo para indicar
que a perda do ônibus é inevitável
um som e um anseio
a vodka e o vazio:
um eco de Zeca
enfim o poeta fatigado
vê seu ônibus alçar vôo
e os passageiros desabusados
rirem de sua fronte
dessa tez de poema abstrato
assim o vejo todos os dias:
tropeçando em pedras e a ver navios
enquanto todos voam,
e com sua alma presa
e um machado em sua mão direita,
nunca desistindo de levantar,
talha poesias em caras de pau
0263. Soneto de um erro
As notas vivas de um jazz a produzem
O amargo das lembranças mo instruem
Dissonantes diluídas em meu ser
Catalisam poder de a não mais ter
A tendo em plenitude, a joguei ao léu
Não vendo que aqui a ter era a terra o céu
Sonhei com uma solidão perfeita
Perfeição real era dela a presença
Se o martírio agora, o jazz consola
Faz-me percorrer com toda paz e ira
Uma avenida de várias voltas
E minha alma ante minha razão a mira
Desculpas racionais sempre tolas
Aludem-me a sentir: por que não Mayra?
0262.
sentindo o peso da dor
e o uivo da agonia
a D’alva brilhava ao céu
mas o eterno pavor
ofusca as vidas
herança de estar ao léu
sofrendo genes de horror
sem poder fugir a sina
a cultura tirava o véu
a biologia mostrava a cor
e naquela geografia
nunca à boca o mel
0261.
o tédio
a incontrolável
gravidade
do marasmo
as costas n’alma
a alma à fraqueza
e o peso do tédio
a maltratar
caio de joelhos
aos chãos
chamo a fé
fé se esvai
vence o tédio
tédio às costas
alma morta
0260. Singelo
becos e viadutos
após um Verdi
e a paz ao percorrer o mundo
o ônibus, a via
a pressa e o não-ser
luzes laranjas estancam a dor
ou a aumenta mais ainda
a sinfonia, a poesia
na maestria da rotina,
a vida
o dia, após um dia
num beco, numa esquina
um Verdi
simples e etéreo
singelo
0259. A vitória do amor de índia
a lua fez-se ao rio
e a índia foi buscar
a luz dourou-se n’água
e a índia foi brilhar
a luz prata liquefeita
e a índia sólida
a lua cheia ao riacho
e a índia a amar
a lua no ar
e no espelho d’água
a índia a sonhar
e jogar-se a sua saga
o salto ao rio
e a lua dissolveu-se
a índia sucumbiu
à água envolveu-se
partiu no espelho de seu amor
mas a Grande Mãe justa e piedosa
prostrou sua índia em uma linda flor
que vaga nos rios
bendizendo a paixão
e declarando-se à lua
sobre o ribeirão
de forma alguma sua morte foi dor
pois esta planta singela
que hoje chamamos de vitória-régia
é a lunática índia tão bela
perdida de amor
0258.
chora o choro em meus fones
chama a chama de meu peito
chega a chaga a queimar
acende a senda aos montes
acalenta o caliente órgão leito
ávido de viver a alma o amar
0257. Prolixo
produtividade
produtivismo
produção
produto
progresso!
projeção
projetos
prosperidade!
prolixo
pragmáticas
prerrogativas
prioritárias da economia
progridem a miséria em
proles famintas
progresso!
prolixo
prego o social
produzo o sistema
prendo minha alma a
produzir demagogia e
primo por meu umbigo
pro lixo eu e tudo
prolixo!
0256. Só
entre o amargo da cevada
e o amor à solidão
penso como seria a companhia,
vivo num mundo tão meu
que se alguém se aproximasse
tudo ruiria
por mais próximo que tudo esteja
todos se encontram em outra galáxia
o mundo é meu só
ninguém mais entra
levanto as portas do meu castelo
faço uma fortaleza de meu ego
tranquei-me a todos
ao tudo, ao sempre
estou de quarentena eterna
0255. O que vejo e o que pensam
sentado aqui eu e minha cerveja,
olhos mo observam
pupilas homos, íris heteros
pensam que minha alma as deseja
mas meus olhos se cegam
para tomos freudianos de Eros
cego-me a presença de todos
finjo-me estrábica inocência
e canso-me com tantos namorados
estão à volta, amores doudos
que só produzem mais carência
e ainda à volta, insistentes veados
por vezes, instintos tentam se apoderar
miro seis ambulantes
e nádegas passageiras
mas é só carne a se enxergar
e o flerte se cala às transeuntes
que não se aprazem de poéticas tendências
– e ainda devem pensar que sou gay
0254. Do meu descaso
Mayra Maria
um nome composto
uma composição de poesia
um nome que rasga o ocaso
e por acaso reluziu-me a vida
Mayra Maria
a própria poesia
que principia
a tez, o corpo, a alma:
sinergia
Mayra Maria
jogou-se a mim
tecendo doces palavras de companhia
e eu louco, néscio, confuso talvez
fixei-me na apatia
Mayra Maria
como pude não ouvir
a simples sinfonia
que tua totalidade me produzia?