1843. Disparate

Falar sobre o céu
o sul o azul
a chuva que vem a nuvem que vai
o mar distante
o ente errante
enquanto o mundo erra em ser mundo

Falar sobre o ser
o estar o parecer
o sentido que vem a razão que vai
o amar distante
o amor importante
enquanto o imundo enterra o mundo

Falar de que
pra quê e por que
o pois que vem o porém que vai
o talvez displicente
a certeza indecente
enquanto o mundo tende ao submundo

Falar a quem
por quem alguém
algum que vem alguma que vai
nenhum descrente
todo imponente
enquanto o mundo tece o próprio mundo

Falar não
nunca nada
vazio que vem vagar que vai
falta presente
ausência potente
enquanto o mundo só fala o mundo

1842. Mandando ver

Os versos,
são sempre os versos
Mesmo quando caí
em aflição por
entender o velho safado
lá dos altos de quando
ainda era menor de idade
pasmo fiquei
em saber que só aqui
sua poesia não fluía
fiquei boquiaberto em pensar
que até no meio
de moscas de boteco
cervejas quentes e cigarros amassados
poderia brotar a palavra
pela palavra
a palavra em forma
a prosa
no verso
o verso

Este pode sempre ser mais
que o azul, que o sabiá
que a dor de cotovelo eterna
que a lépida e fagueira consternação diante do mundo
Este pode sempre estar
mandando ver

1841.

Eu só produzia quando só
Entre um gole de cerveja
Entre um trago de cigarro
Entre uma bola e outra
Quando a máxima consternação
De uma coisa meramente
Fora da rotina
Abatia-se sobre o corpo
As palavras brotavam como
Na grota brota um broto de bambu
Numa margem assoreada mais ainda
Cheia d’água

Ali naquele momento eu conduzia as palavras
Como um atacante vibrando rumo ao gol

A coisa fluía como todo mês –
Devido à cultura –
Flui o sangue da não procriação anunciada
Corria com gosto de raiva
Com som de não estou pra nada e pra ninguém
Com uma frieza sexual não contida
Com um ar de nada eterno e maldição do mundo

E com você,
Era como estar sempre sozinho

1840. E-pop-éia

A cada momento que passa
você descobre que sabe menos do que deveria saber

Nada sobre juros, indexação monetária, genética,
robótica, gramática, acupuntura médica

Getúlio foi suicidado de quê mesmo?
Juscelino fez o plano de metas ou o plano de metas fez Juscelino?

Ontem eu andava caminhando com o carro
e do outro lado da avenida o som viajava potente corroendo os ouvidos
e eu não sabia quem cantava o funk
e eu não sabia qual era a potência do carro
e eu não sabia o que eram rodas de liga leve
e eu não sabia nem mesmo qual era o tipo de óleo que deveria ser usado na troca de óleo do carro

A cada dia que acaba
e no entremear de cada dia que vivo
e no final de cada dia que vem
e no passar de vinte quatro horas em vinte e quatro horas
e no transcorrer do amanhecer, entardecer e anoitecer,
cada vez mais sei que sei menos
e nem socrática consegue ser a assertiva
e nem dramático consegue meu ser melodia
que componha as notas certas para a sinfonia de mais um dia de informações absurdas absorvidas

Ali uma bunda
Acolá uns peitões
Mais pra frente me chegam coxas e barrigas, cabelos tingidos e escovados
e eu não sei se é melhor uma escova de chocolate ou uma escova com formol
ou mesmo uma chapinha
E o que diabos é afinal uma chapinha?
E o que é vermelho-acaju?

E tem as celebridades
e a vida das celebridades
e os escândalos das celebridades
e a novela que as celebridades fazem
e as músicas que as celebridades ouvem
e as drogas que as celebridades usam
e as comidas que as celebridades comem
e as gafes
e os romances
e as traições
e os beijos
e o sexo
e o nexo?

e o eixo?

e exu?

Mas novamente se avança mais um dia numa sanha,
numa saga,
numa novela vaga,
num porrilhão de idéias,
de que no final você não sabe de nada
e com certeza tem alguém que é especialista
em grampos de grampeador
e você não tem a mínima idéia de como se faz um clipe de papel
quiçá um clipe musical

Mas eu ainda gosto da música e da poesia
e bem dentro de uma teoria musical ou literária
eu não entendo bulhufas de escalas ou de métrica
e nem isso é uma situação tétrica
porque a regra é saber que alguém sabe disso tudo com a devida profundidade
e eu realmente não sei se Luiz Gonzaga ou Cora Coralina eram especialistas em teoria

Mas o dia passa e eu sei que em prática ele e ela eram bons

Bons aos meus ouvidos e aos meus olhos
e no fundo à minha vida e se não são bons a quem quer que seja
que isso seja de quem quer que seja
Mas se saiu no Jornal Nacional ou no Fantástico
ou mesmo no Domingo Espetacular
a coisa deve ser boa e meus sentidos devem se atinar
e com certeza eu devo, pouco a pouco gostar,
mas eu não sei se gosto se pega por indicação, se por contato
ou se por gene,
pode até mesmo ser por vírus ou bactéria
visto que até a febre amarela é matéria de se gostar em dado momento
e de se doar em outro mais
e quem tomou a vacina contra a febre amarela não pode doar sangue nos 28 dias depois de a ter tomado

A coisa se processa mais ou menos assim:
eu tento me concentrar e pensar no que penso
e onde começa o que penso?
Na nascente de um rio começa o que penso,
se ele é perene, temporário, qual é o volume de água
e a qual bacia de drenagem e de que tipo ela é,
se radial, se axial, se sem sal ou se salobra,
eu não sei,
só sei que começa ali o pensamento
e o rio pode de uma hora para outra secar devido ao aquecimento global,
mas se o rio for um rio que nasce perto de uma cadeia de montanhas
o rio pode mesmo ficar mais cheio devido ao degelo
das geleiras das montanhas,
provocado pelo efeito estufa oriundo do acumulo na atmosfera de gases que impedem a liberação do calor da superfície da terra,
e tem o fato de que se as calotas polares estão derretendo e então o nível dos oceanos está ficando mais alto, eu penso que a precipitação poderia ser maior ainda e, por isso, chover mais e daí o rio ficar mais cheio e não secar,
mas o grande lance é que o que penso começa na nascente de um rio
e cada idéia a mais lançada nas correntes deste rio é um sedimento que pode afundar ou ser arrastado até o mar,
este que é o final de todo rio
e o mar é fundo pra caralho

O pior é saber que você não sabe nem sobre o nada
e que cada segundo é bombardeado por mais informação
e de toda e qualquer qualidade
tipo quando você lê uma notícia da Carta Capital e o mesmo assunto na Veja
e tem que é um clichê muito chato pensar que a Veja é escrota e coisa e tal
e que a Carta Capital é muito tendenciosa
e que a Caros Amigos é pior ainda
e que o que é da família Civitas ou da família Marinho ou da família Minhas Bolas de Touca não devem ser levadas a sério
e eu nem li Ulysses de James Joyce
e pra falar a verdade eu nem sei quem foi James Joyce e que porra diz ele ou fez ele para a história da literatura norte-americana

Mas eu estou tentando ler Viva o Povo Brasileiro
e as primeiras páginas foram difíceis de ler e depois o livro ficou mais fácil
só que agora eu parei na página 100 e não consigo prosseguir
porque queria virar artista e fazer música
mas não consigo aprender a tocar violão
e nem a mexer num programa de mixagem que piratiei na internet e conseguir fazer som sem precisar tocar um instrumento
e minhas letras são piegas e nem vão tocar num programa alternativo de rádio
e toda vez que vejo o Big Brother me pego pensando
que seria insuportável ficar no programa
e se eu estivesse lá seria a primeira vez que sairia uma notícia assim:
dormiu o tempo todo no BBB8, acordou, matou três e foi cagar

1 milhão de reais
com todos os parentes e todas as coisas que se quer fazer
a grana não duraria um mês direito
1 milhão
e eu acho que milho era alimento da dieta básica dos povos tupi-guaranis
antes da colonização portuguesa aqui no Brasil
mas pode ser que não
pode ser que seja somente alimento dos incas
e pode até mesmo ser que os tupi-guaranis fossem amiguinhos dos incas
e que os últimos escravizassem os gê
mas isso é assunto para especialistas em cultura pré-histórica americana
e eu sei abrir as páginas de um processo e olhar se tem algumas coisas e se falta algo

A cada segundo sabe-se menos
As conexões neurais se perdem
Os neurônios derretem
O oxigênio fica ralo no peito
O sangue não coagula direito e a pereba na perna não cicatriza
O eito fica pequeno
Oito horas de sono que não satisfazem
Às vezes mais
As vezes menos
e eu não sei se tem crase ou não esses ases aí de cima,
o corretor gramatical
ou ortográfico
do Word está me dizendo que sim,
o “As vezes menos” tem que ter crase sim
só que agora esse último “As vezes menos” e esse mesmo que acabei de escrever
o Word diz que não precisa
que tudo bem
quem sabe na próxima
Talvez isso seja uma conspiração da Microsoft
contra as normas gramaticais da língua portuguesa
e,
cá pra nós,
escrever sobre uma conspiração da Microsoft usando o Word é no mínimo cômico
pra não dizer trágico
ou patético
ou poético
ou épico
ou profético
ou esquálido
ou proparoxítono
e tanto o paroxítono, quanto o oxítono
são palavras proparoxítonas
mas eu não sei o que é o Linux
ou como se faz para ter um Linux
ou se o Linux se pode ter
já que ele é um software livre…
e acabei de descobrir que o Word não reconhece a palavra Linux
mas Word, que é uma palavra em inglês,
ele não está nem aí, diz que existe e tudo mais

Vejamos se ele reconhece Windows

Oh!

Obviamente…

Um dia tudo ainda acaba
Mas certamente eu ainda não saberei nada até que eu acabe
e mesmo depois de acabar continuarei sem saber

Eu digo que isso aqui é poesia
e com certeza há quem diga que não é
Grande já está com certeza
cinco páginas até aqui em Times New Roman 12
com espaçamento simples,
não é que seja grande de grandiosidade do projeto,
posto que não é nem um projeto
ao que comecei a escrever apenas para passar o tempo
e a pilha de documentos em cima da mesa aumenta e o tempo passa
e eu passo no tempo
sempre
Mas sei que existem poesias que são livros inteiros
e tratados sobre essas poesias que são maiores que as próprias poesias
e que vêem mais coisas do que se pode imaginar
Porém, não li nem os tratados nem essas poesias
tipo Morte e Vida Severina
tipo Odisséia
Devo ter as duas lá em casa
mas não li

É que tudo cabe para se falar
mesmo eu que não sei nada

Sobre o nada mesmo eu não sei,
uma vez folheei O Ser e o Nada
nem lembro de qual filósofo é
mas não li

Existem muitas coisas no mundo
Existe tudo
Cada coisa aí existindo
E eu não sei delas
E elas sempre chegam a mim
como idéia
como palavra
como existência
E a minha não dá conta
não conta
nada contra
mas ela simplesmente não conta
é só mais uma possibilidade
dentre uma, dentre muitas, dentre todas
e todas elas existem
ao mesmo tempo
e em lugar nenhum
tocando minha pele,
vibrando em meus tímpanos
iluminando minhas retinas
roçando minha língua
brotando em minha mente
e se delineando no fundo de uma massa estranha
por debaixo de um casulo ósseo:
uma corrente elétrica que anda pelos nervos
eletrônica
ciborgue
andróide
o curto-circuito é próximo
e a gente molha o envoltório
e não dá curto
isso eu curto
usar short curto
isso eu não curto
curto e grosso
eu gosto
engrosso
engesso
o
osso
um nervo tenso
sem movimento
nem curto nem grosso
um nervo em cima do osso engessado
vai da pele até o topo
da cabeça, dentro do crânio
e dentro do cérebro
um neurônio luta
que pode ser paroxítono
ou proparoxítono
depende da divisão silábica feita

O mundo se projeta na tela
a tela se projeta no olho invertida
o cérebro junta as imagens e as vira de ponta a cabeça
o mundo pode estar invertido
e o cérebro é que mente

E como eu vou acreditar em Deus
se diante de raios de sol atravessando uma nuvem eu fico com medo?
Se diante do milagre eu vejo a ciência
e se no fundo da ciência eu vejo fé
e se no poço da fé eu vejo o humano
e se na sombra do humano eu me vejo?

A erudição hoje é impossível e Piaget
ainda ecoa com sua tentativa de uma epistemologia genética
e a sociobiologia toma conta do horário nobre
cortando a machado a cabeça de internos da Febem
Lombroso rindo em sua cova
e Marx com suas hemorróidas rindo em sua cova
e Freud submerso em uma paranóia eterna de cocaína rindo em sua cova
e Deus rindo de Nietzsche em sua cova
e a erudição cada vez mais longe
já que cada vez mais perto
já que cada vez mais google
já que cada vez mais wikipedia
já que cada vez mais blog
já que cada vez mais mar azul de figurinhas em coleção
já que cada vez mais clique
já que cada vez mais

A rede
A teia
A grande teia
Onde tem atéia, ateu, teo, telos, tuas e teus
Tudo:
um diário infinito
um ponto azul no meio de uma imagem toda branca
Onde descobri que em 2012 tudo acaba
Onde tive o primeiro vislumbre de que a poesia deveria fluir e não ficar estática, emoldurada e com estrela na testa de bom comportamento
Onde me apaixonei e desapaixonei vinte e oito vezes num só dia
Onde gozei
Onde ardi em febre de querer sair
Onde ardi em febre de pensar em voltar
Onde fiquei apático
Onde leio todos os dias toda a verdade que os astros tem para me dizer e para saber como devo proceder diante do mundo, do amor, do trabalho, da saúde e até mesmo da diversão
Os neurônios nela fluem
Vão embora para não sei onde
Talvez fiquem ali no meio do caminho
Entre eu, o teclado, o mouse e o monitor
Foi lá que uma vez eu teci uma grande teoria da conspiração
na qual quem usa computador está na verdade sendo filmado e monitorado pelas grandes empresas de informática e todos os dados estão sendo armazenados no servidor da google que na verdade é o FBI
Teoria tão boa quanto a do monitoramento extraterrestre promovido pelas canetas BIC

Uma vez eu comecei a ler A Sociedade em Rede
que tinha até prefácio do Dr. Fernando Henrique Cardoso
talvez PhD
talvez teórico do desenvolvimento latino-americano
com certeza ex-presidente
E eu estava a descobrir muitas coisas interessantes sobre a história
só que aí devo ter sido convidado pra tomar uma cerveja
e a história ficou para depois
e até hoje eu devo estar sendo chamado para uma breja
A breja eterna
envolta em bruma
E eu não sei porque diabos tomo Antarctica
e não Brahma
Ou aquela do baixinho
Ou a outra da Ivete
Ou a do cara que queria criar um bode na sala e a esposa não aceitou, mas ele bateu o pé e disse que queria alguma coisa na sala e ela aceitou e ele colocou um freezer lotado de cerveja no lugar do bode
E ta vendendo carro como água ultimamente
Como água não que como água é difícil
Mas como sorvete
O que será que se vende mais?
Sorvete ou carro?
Mas alguém, com certeza, deve ser especialista nesse assunto

O prédio ao lado cresce
A malha urbana expande
O preço do feijão sobe
E algum bimotor deve ter caído nesse exato momento em algum lugar do mundo
Talvez o prazo de validade dos aviões esteja expirado
Talvez as pessoas estejam voando em TLs 1968 e nem saibam disso
E eu nem sei se o TL já era fabricado em 1968 ou se ainda era fabricado em 1968
Os jornais falam de caos aéreo
mas eles se esquecem de que o caos aéreo já rola há muito mais tempo do que o governo do PT
Lembro de pequeno assistir documentários da National Geographic na TV Manchete
ou talvez na Rede Bandeirantes de Televisão,
certo que aos sábados pela manhã,
mostrando como os furacões, os tornados, os ciclones e as tempestades eram terríveis
Mas tem o Lula e ele perdeu um dedo de uma mão
Ele é hoje presidente da república e pela segunda vez
E teve um cara que perdeu uma mão perto da casa onde morava e acho que ele hoje está aposentado por invalidez
O barulho é alto
e o prédio ao lado cresce,
eu não vejo agora, mas a malha urbana expande,
eu não comprei feijão recentemente, mas me falaram que está mais caro
e eu tenho visões às vezes e sei que algum bimotor caiu

Daqui eu vejo uma bola do Niemeyer e
duas caixas de sabão em pó gigantes
As bacias,
uma emborcada e outra em pé,
não consigo ver
mas sei que elas estão ali
Queria mandar uma bala bem numa das bolas do Niemeyer
não nas de concreto que não surtiria efeito algum,
– o concreto é grosso –
mas numa das bolas que ele deve ainda ter guardada dentro da cueca
E ele completou 100 anos e os jornais encheram a paciência
O cara faz obra de arte para a resistência ao capitalismo em Cuba e mora numa puta cobertura no Rio

Mas enfim, vão me dizer que o cu não tem a ver com as calças
e que existem várias formas de resistência
só que a quantidade de carros aumenta vertiginosamente
e tem um quadro cheio de indiozinhos na minha frente que devem ter morridos todos já
alguns de cirrose
outros de maleita
um de morte matada
e outro até de paixão aguda
mas todos cristãos certamente
e herdarão o reino dos céus
o reino de Deus universal

E o dia passa lento e arrastado
embaixo do dia uma tartaruga o leva
embaixo da tartaruga duas lesmas
e elas vão rumo ao mar
e o mar é salgado
e é fundo pra caralho
O que é mesmo interessante
são as muriçocas que dão rasantes certeiros sobre o dia
sugando todo o sangue possível e dando em troca alguns bacilos
e as muriçocas não conseguem furar a pele lisa e pegajosa das duas lesmas
e nem o casco duro da tartaruga

Os raios de sol já se escasseiam
vão dar nas caras de pessoas com olhos puxados
porque lá se acorda
e aqui se dá corda nos despertadores para que no outro dia vindouro tudo ainda possa parecer que continua
e continua deveras
em aparência e, se a tiver, em essência
afinal, é só um dia
tem tudo nesse dia,
pois que tudo tem todo dia
e eu nunca vou conseguir chegar perto do tudo
sou só um pecado profundo
promissor só amanhã e nunca ao todo no mundo

É como se fossem duas imagens sobrepostas,
uma lenta leva o dia
outra insuportavelmente veloz conduz o sentido
e conjunto vão as informações

As informações

Vorazes são
várias vozes vêm
quase tudo em vão
nunca chego perto do tudo
nem mesmo do quase
fico a margem do que vem
ouço os ruídos do eco do que foi dito
tento processar tudo
penso em processar quem me dá a informação
lembro do IDEC
rememoro que há um PROCON
e pondero que não consumo a informação
ela é que me consome
me vende sonhos sem saber
me entrega verdades sem me explicar o porquê
me dispõe ao seu bel prazer para democratas, liberais, trabalhadores e mesmo republicanos e comunistas cristãos (lá no fundo guaranis)
e eu não pedi por tudo isso
não solicitei que me alertassem para os malefícios do cigarro
não quis que me falassem sobre o próximo ataque terrorista do Osama
não me ative um segundo se quer para saber quem diabos é Barack Obama
não perguntei qual é a próxima armação maquiavélica que o Hugo Chaves está tramando para dominar todos os pobrezinhos latino-americanos ávidos por serem estadunizados a exemplo dos tão coitados cubanos que sonham com as praias de Miami
nem solicitei que me explicassem o que é o risco Brasil
ou qual é a definitiva solução democrática e liberal para a saúde e a educação nos países em desenvolvimento
nunca quis saber como vai o acordo de paz entre os sul e norte-coreanos
e nunca,
nunca mesmo,
pedi que me falassem como é que a moça famosa se sente retornando a sua antiga casa e preparando uma variação da feijoada com queijo brie e anchovas e servindo de acompanhamento um delicioso sorvete de queijo brie e anchovas com casca de pitanga silvestre e calda de feijão doce

Talvez eu devesse fazer um brega com isso tudo até aqui
ou mesmo um axé
mas axé ta fora de moda
mesmo próximo do carnaval
e o brega não cola para a trilha sonora de uma novela das nove
e vou ter que fazer um tecno-brega-timbalense no batidão do funk
mas acho que vou ter que cortar algumas partes para poder tocar na Jovem Pan e aparecer no Gugu
nada que eu não faça tranqüilamente
para conseguir meus quatro milésimos de segundo de fama

Mas antes que esse troço ultrapasse onze páginas
o que eu queria dizer mesmo
é que eu sei que no final
é só ter calma
que a informação vai
e a poesia vem
desesperada,
tipo numa epopéia
e eu realmente não sei muito bem o que é uma epopéia

1838. Intérprete da palavra

Uma salinha basta
Um cômodo alugado de um prédio comercial
Próximo a bares e sindicatos de preferência
De preferência em lugares de fácil acesso
Várias linhas de ônibus
Estação de metrô logo ali

Mas pode ser também algo grandioso
Mármore de carrara
Ornatos vítreos, mosaicos de cerâmica
Luzes néon e tapetes vermelhos

Em qualquer destes espaços
E mesmo na intermediação destes
Eu proponho a cura,
Eu prometo a cura
Eu prego a cura
Eu pré-curo
Eu curo
Eu apresento o casamento
Eu assento o casamento
Eu acerto casamento
Eu caso
Eu soluciono o dinheiro
Eu soluço por dinheiro
Eu ouço o dinheiro
Eu peço dinheiro
Eu sol-dinheiro
Eu sou

Saúde, amor e dinheiro
O paraíso que Jesus vai te dar
Por parcelas mínimas, dizimais, de seus proventos
Eu apresento as condições:
Uma vida rigorosa e mínima
Para a poupança espiritual do porvir do juízo final
Poupe tudo o que puder
E numa corrente me dê mais da metade
Mas poupe seu fígado,
Poupe seus pulmões
Poupe sua libido
Poupe seu cérebro
Poupe seu prazer

No fim, ficamos assim:
Eu interpreto a palavra e consigo o que preciso agora para ter mais do que preciso
E te privo de tudo para você sempre precisar
No juízo você pode acertar tudo com Ele

1836. Nêmesis

Tudo ao mesmo tempo
Parece que nada pode ter fim
É exatamente tudo ao meu alcance
Tudo agora
Um milhão? Dois milhões?
Tudo agora
Nada pode escapar
Duas garrafas de champanhe
Dois tintos
Seco
Cowboy
Da branca
Do pico
Três cortesãs estilo Britney
Caviar
Carpaccio
Mais mulheres
A qualquer hora
Tudo sempre
Tudo sempre
Eu quero música
Eu quero banheiras de hidromassagem
Espelho no teto
Espelho nas paredes
Espelhos no chão
Eu quero meu reflexo eterno
Nunca mutável
Três botox
Cinco lipos
Colágeno
Castanhos
Lentes e todos os tipos de óculos
Armani, Vitton, o melhor, o mais novo
Todo o tudo
Eu quero lugares
Aviões particulares
Paisagens espetaculares
Praias, desertos, paragens
Fotos e foda-se as milhagens
Do exótico, comer formigas
Da tradição, vinho francês
Do social meia lata: indianos banhando-se em meio a defuntos
Eu quero as imagens:
Todas imóveis no HD e eternizadas no meu blog
Nunca acabáveis
Quero estudos antropológicos sobre os índios kaingang
Quero um mapa dos sítios arqueológicos mais antigos dos Ramapithecus
Eu quero viver eternamente presente
Só o agora
Todo o agora
Sempre o agora
As ações são para o agora
Os imóveis são para o agora
As fazendas são para o agora
O senador e os cinco deputados são para o agora
O procurador é para o agora
O juiz é pra o sempre
Advogados tantos, tontos, todos
Secretárias, secretários, gerentes, diretores, serventes, cozinheiros, chefes de divisão, técnicos, polícias, traficantes, mucamas, bóias-frias, carteiros, pilotos, jogadores, publicitários, putas, michês, cabeleireiras, bombeiros, engenheiros, arqueólogas, loucos, médicos, padres, pastoras, professores, professoras, estudantes, marceneiros, marinheiros, milicos, programadoras visuais, web-designers, engenheiros agrônomos, químicas, físicas, matemáticas, presidentes, indigentes são para o ontem
E todos agora
Tíquete, vale-transporte, 10 prestações de 29”: tudo de vocês e para o além
Todos dentro do meu bolso
Para todo o sempre e agora

1837. Oremos pelos inocentes

Do alto de sua missiva
Um pároco em sua missa
Matutina, vespertina, noturna
Propõe ao infante
Revelar-lhe os segredos
Do pecado original

Admirador fervoroso da inocência
Pede ao infante a penitência
De entregar o que Deus guardou
Seu corpo e alma
Para agora e depois
Para o mundano e o além

Por detrás dos salmos de Davi
Há o que freudianamente vai marcar
O infante para sempre
Um cristianismo torpe
Misturando salvação e perdição
Pudor e pecado

O pároco da miséria
Dá aos seus filhinhos
Não as bênçãos de um futuro paraíso
Mas a angústia e a dor
De ser apenas um bibelô
Para um padre desgraçado

1835. Pérola que afia

Lá dos meios da Bahia
Das barreiras do Corrente
E dos cantos das Minas
Da parte seca e quente
Eis que surge esta moça
Ainda humana e gente

Quando ali vi sua lida
Querendo sair de Águas Lindas
Chamei-a para passear
Lá por detrás do Guará
E conversamos no metrô
Para Taguatinga saindo da Rodô

Ela disse que foi mal
Quando foi à Chaparral
Que não teve muita sorte
Nos fundos da M-Norte
E que gostou do samba
Que foi no centro da Ceilândia

Falou que o céu era tão azul
Nas chácaras lá do P-Sul
Disse que a vida era cara
Mesmo lá na Samambaia
E que a morte passou tal
Quando morou no Areal

Gostou muito do mocotó
Que serviam na feira do Setor-O
E que não pôde ficar não
No barraco de São Sebastião
Trabalhou no Lago Sul
Mas morava no Céu Azul

Achou que era seu carma
Quando saiu de Mestre D’Armas
Vislumbrou a solução
E ficou um ano no Varjão
Mas o aluguel ficou tão alto
Que nem pensou na Vila Planalto

Passou só a leite e pão
Quando viveu no Tonhão
Dado pela bolsa feliz
Que lhe entregava seu Roriz
E que fez seu filho passar mal
Na casa da prima da Estrutural

Na eleição juntou-se aos fracos
Seguiu José, Joaquim e Passos
Na ânsia por conseguir seu lote
E talvez no arco-íris, de ouro, um pote
Vendeu sua cidadania
Por mais uma bolsa-família

Mas depois da eleição
Ficou sem lote, sem leite e sem pão
Amargou de pé em pé
Tentando ganhar um qualquer
E pensou meter as caras
E armar uma jogada

Fez mais dois filhos
E pensou em suicídio
Mas num barraco do Valparaíso
Jogou-se num precipício
Começou uma bocada
Que tinha de tudo e quase nada

Fez uma fita bem cara
Lá pros lados de Águas Claras
Assustou a morte
Num assalto na Asa Norte
E vislumbrou seu mundo azul
Com um seqüestro no Lago Sul

Mas num esquema errado
Num condomínio fechado
Viu acabar em peste
A sua vida no Lago Oeste
E passou por coisa séria
Enjaulada na Colméia

Hoje diz que o mundo é outro
E que vai voltar lá pros barrancos
Que o quadrado não dá nada
E que antes o ermo a uma vida errada
Que antes o esquecimento
Do que o concreto de cimento

Essa foi a história que contou a moça
Que não pôde ter sido outra
Uma filha de Brasília
Do mar em derredor desta ilha
Uma moça, tão avó, mãe e filha
Uma pérola que afia

1833.

poucos cantos para se olhar
muitas horas
mas você repousa cálida
à distância de um pé
e meu sangue é vermelho
como as horas que caem
sobre o início da noite

eu toco um pé
e a noite já pode vir
com seus cantos e horas

como se do sangue
um toque apenas o torna-se azul

1828. Difusa

Não foi o fusível que queimou
Não vinha da caixa a fumaça que afagava
Tão pouco a faísca do aparelho que ateou o fogo
A única resposta fatal para a vista difusa na cozinha
Era o George
Porque só o George Foreman
Poderia encher a cozinha com aquela fumaça famélica
De ter um fast-food em sua própria casa
(E sem ter que fritar qualquer gordura trans)

1820.

talvez se eu fosse um servidor público
quase um vassalo dos papéis
tudo fosse mais fácil para se dizer

o respeito estampado no peito
do tamanho de um grande curso acadêmico
da profundidade do vão da porta de uma garganta

poderia ser que se eu o fosse,
um servente do Estado, estando sempre em estado
de servir para ser um coringa numa corte qualquer,
eu não fosse cortado de meus próprios planos

e uma vez tendo casa própria e
anel de brilhante, poderia até esquecer
as idéias brilhantes que me acometem a mente
e viver de idéias tolas, tolhidas de mau senso, só o puro bom senso da classe média

1816. Vela

De cada porto que parto
Deixo minhas marcas no cais
Deixo minhas mágoas na água
E não olho para trás

Vela aberta pro espaço
Velejo sem me atinar
Que o movimento tão feito
Vem pela água e o ar

Sinto um adeus lá na terra
Sinto um adeus cá no mar
Sinto que sente tão triste
Sinto, não posso olhar

Vejo daqui o horizonte
Veja que não me vê mais
Vê que não há uma ponte
Para calar os teus ais

Vou-me na vela ao longe
Levo você por aqui
Pois nesse barco tão parco
Cabe bem mais do que aí

De cada porto que parto
Deixo minhas marcas no cais
Deixo minhas mágoas na água
E não olho para trás

1811. Vou colocar pra mim uma música no teu sorriso

Eu queria que você deixasse me encontrar
mais uma vez
Eu queria que você chegasse para me encontrar
e terminar tudo de uma vez
No fim eu mesmo já
No fim você pra lá
eu pra cá
mas eu mesmo já
mais uma vez
mais uma vez

Poderia você chegar de um lugar
sorriso no ar
E eu mesmo eu assim te deixar
pra sorrir para o mundo
No fim teu riso já
No fim sorriso lá
e eu cá
mas eu mesmo já
mais uma vez
mais uma vez

Tudo seria tão colorido
Tudo seria dorido
Mas tudo seu seria sorriso
e eu mesmo já
mais uma vez
mais uma vez

1812. Por nós

Não adianta mais querer não querer
A gente tá aqui então vamos ver
Não adia, anda, mais querer
Ajeite tudo aqui pra gente ver

Nós dois temos todas as luzes pra nós
Os nós das fibras de luz são pra nós
Nos dois termos azuis com o amarelo
Um elo feito por nós

No meio das trilhas planejadas
Chuvosa noite andamos nós
Cordas atadas em nós por trilhar
O plano que exclui o mundo

Vamos andar?
Por nós…

1807. Doze rostos e um braço

É bonita a imagem
como se fosse bonito
o futuro que agora já presente se reservou
Doze indiozinhos fotografados
em pose ou em sorriso fácil
Quatro quadros compõem
o quadro
no segundo de cima pra baixo
um braço
que não ganhou destaque
não na foto
mas que em trabalho,
com certeza,
se arrebentou um bocado

Não no momento eterno da fotografia,
artigo de decoração,
terão netos e – provável e quase certo – bisnetos
os indiozinhos da foto

É a beleza de uma antropologia
que tira as fotos
e o braço continua ali no canto
sem ser reparado

1803. Tá

A gente brinca de metáfora
É uma das coisas mais lindas que já vi
Você coloca um ponto na vida
Eu faço um traço e a gente completa um i
Tem dores com cheiro de incenso de sal grosso
E léguas com passos lentos e lânguidos

Da relação basta que a seja
Metáfora plena de si mesma
Basta que se deixe embeber
Basta mesmo uma ralação debaixo do lençol
Basta estrelas, estas que são as palavras dos desejos

O que fica da metáfora
Não é ela
Mas o que ela contém

1805. Quase sobre o céu, a chuva e o sol, mais sobre ela

Incessante
embaixo das dez
dentro do céu
quase sob a chuva
ela me propõe
sete viagens
que nunca fará

Incessante
dentro das treze
fugindo do céu
quase dentro do sol
ela ainda tenta novamente:
sete viagens

Guardei a proposta
soldando-a em um bolso
Algum dia
ou mesmo noite
eu retiro ao léu, de uma calha
de papel,
o proposto da fuga,
as sete viagens

De quando em quando
a imagem das sete viagens
sobre uma outra imagem qualquer
resguardada no canto por
um caranguejo
e ao outro lado pelo carro
a ser locado
me bate à mente
como se as sete viagens
ainda fossem presentes

Alguns números para
dar o tom cabalístico final
que na soma eu já perdi
ou mesmo a conta eu não fiz
que se entranham na
proposta de sete viagens
que ela me fez

Ela, que da chuva para o sol
cercada do céu,
deslocou-se meia dezena de metros
me propõe o deslocamento
via aérea de sete viagens
sete contemplações de felicidade
sete momentos de ócio
sete vigas para apoiar o fastio de pensar
sete dias para descansar a existência
dela ter proposto sete viagens,
estas que ela nunca fará

Ainda penso nas sete viagens
como se delas
eu pudesse
ou quisesse
mais que a chuva ou o sol
mais que o céu
e pelo que sei,
ela ainda deve propor
a qualquer que seja
sete viagens
num pedaço colorido de papel