0294.

descomputadorizado
descompostura
descompasso
puta dor
com tortura
computador quebrado

desinternautizado
desinteresse
desinformado
formatiza
esse horror
servidor off-line

Internet
ter na tela
tudo
servidor serve a dor
ter na tela (a dor)

off-line – a liberdade

0292. Lia as partes belas

O belo ser que eu via
planava sobre a serrania
e não era pássaro ou avião
era um ser de escamas, plumas e óculos
e luzes natalinas na cauda e no peito
Suas costas arqueadas
para dar mais imponência,
e seus cinco tentáculos
– tentáculos sim, pois braços não tinha –,
lodosos e briluzes,
carregavam uma flauta,
um pandeiro, uma flecha
um livro dourado e um nada
e nas pernas – que eram pernas realmente –
uma musculatura torpe e em frangalhos

aquele ser pairava ao ar
doce, leve, sinfônico
um anjo sem asas, decaído
menestrel puro, numa forma meta-humana
que planava sem planar
e voava flutuando, lépido
deixando atrás de si
um rastro de arco-íris

ao lho ver tão belo e impetuoso
chamei-o Lia.

0290.

As vezes me percorre um medo
Um medo infundado
De que tudo seja brisa
Seja bruma, seja Brahma
De que minha poesia te canse
Confunda-te, te enlouqueça

É um medo insone
Que dorme quando próxima
E lateja quando longe
E quando me contradigo ao
Responder-te,
Não por não saber,
Mas por ser eu um paradoxo
É um medo que me dilata
Que me expande mais você

Há o medo e há o amor
E um é fruto do outro
Numa relação dialética e tangencial

0288. Sou-me então presente

Sou-me então presente
e o que sou mais não sei
sou-me o avesso do ontem
e o ontem que não perderei.

Sou-me quase como um rei
Sou-me antítese da nobreza
e sou-me o juízo, o valor e a lei
– sou-me o amanhã: realeza
Sou-me o fim da festa e o vômito,
Sou–me aurora, sou-me destreza
Sou-me o fogo que queima a chama
Sou-me a água molhando o líquido
Sou-me o ar se solidificando
Sou-me a cama
e o moinho:
Dom Quixote amando

Sou-me então presente
Sou-me eu mesmo finalmente

0289. Pesadelo

Eu hoje acordei chorando
Pois te vi triste em meu sonho
E tua tristeza se confundiu
Com minha felicidade de a ter
Em meu sonho,
Então, acordei chorando

Chorei um choro contido
Uma lágrima feliz e triste – rouca
– como se saber necessário
a tua existência para a
minha atual completude
e completo-me (completo-te?)
ao lacrimejar a ânsia
de não te ver triste

Por te ver triste
Triste, acordei chorando
Por isso te escrevi
E me escrevo feliz
E choro pois meus nervos jazem
À flor da pele
Pois te vi triste em meu sonho
E choro

0287. Grávido

Sinto aqui em mim
um algo que não é só eu,
que se enraíza
que se expande.
Que me é
e que não me pertence
que está comigo
mas que não sou dono.
É algo que me quer explodir
me deixando mais:
fragmentado em unidade
disperso em totalidade.
Há algo em mim
que me compartilha o ser,
que me confunde o espaço,
que não sabe se aquela
idéia é minha,
se aquele sentimento é meu
ou se me pertence este braço.
Há uma coisa louca
que me prostra mais e mais
num eu pouco conhecido,
que me aumenta
por dentro e por fora.
Há um algo doido
que rasga meu passado,
que acalenta meu martírio
e me faz grávido.
Grávido de um inebriante
embrião de felicidade.
Há uma bomba que vai explodir
E há uma que acende o pavio
junto comigo.

Há o amor que nasce

0285. Transcendência

Um dia louco
sul-real ela diz.
Realidade rompida,
digo eu.
Nós dois como um,
como uma:
música ao longe,
sussurros e sorrisos,
carícias e carinhos.
A mão na mão.
A boca na boca.
O olho no olho.
Eu e o corpo outro:
um,
uma.
Dali não nos pintou
Buñuel não filmou
Breton não registrou
Nem Freud explica
Vivemos
Sentimos
Mágica e confidências
As bocas, as línguas
Os corpos
As almas, as mentes
Os ideais
Eu e ela: uma e um
Nós: uno: ela e eu

0284. À outra

Na plataforma térrea
Lábios junto a lábios
Fazem as almas voarem,
Miro a outra:
Ela brilha em ciúmes
E voa também

O ônibus sai
Meus lábios se vão junto
E os dela ficam
Juntos com sua alma
E por minha alma
Ir com ela
A outra não entende:
Brilha mais
Chora lágrimas cadentes,
Paira no centro do céu

Quando entro em meu ônibus
Kundera me acompanha
E valsamos com adeuses
Aí então a outra enlouquece
E dá um espetáculo
De ciúmes em pleno ar

Mas como é tola esta outra
Não vê que agora sou eu
Quem sempre volta…

0282. Não posso parar de pensar

O que me deixa triste agora
É o que segreda tua tez
E o que deixas para amanhã

O que me incomoda agora
É o que prometi e não cumpro
Uma vez que não sou mais um
E o que é você não segue meu rumo

O que me dói tanto agora
É que não posso parar de pensar
Que o que sinto te incomoda
E sufoca o teu ar

O que me coloca na insônia
É pensar que meu amor
Te é confuso e estranho
E meu não ciúme é dor

O que me questiona meus valores
É esse meu ser liberal
Que não sabe amar possuindo
E ainda pensa ser isso genial

Ah, mas o que me deixa mesmo confuso
É não saber se te possuo como o normal
Ou não mudo, amando-te sem te possuir

0280.

uma após a outra
as mentiras invadem
minha retinas
meus ouvidos
até o cheiro
e o gosto
das mentiras
já se sentem
e a melhor
cocada do mundo
passa ao lado

minha alma
já cansou-se
os marketings
que até a miséria
usam me apavoram
mendigos e mensagens
subliminares
credo!

0281. Um complô das telefonias contra minha felicidade

Maldita seja toda a privatização!
Chego em casa cansado,
Doido a ouvir a voz de meu amor
Pela tão maravilhosa tecnologia
Do telefone e tum-tum-tum,
Trock, traz, truc, chiiiii.

Se não houvesse telefone, tudo bem,
Ficaria feliz só de saber da existência
De minha amada,
Mas uma vez que há,
Gostaria de ouvir sua voz
Acalmar minha ansiedade
Saber se tudo vai bem…
Mas novamente: tum-tum-tum,
Trock, traz, truc, chiiiii.

Malditas sejam essas telefonias
Por me deixarem angustiado
Por não permitirem que eu fale:
“sonhe comigo meu anjo, amanhã
agente se encontra em tal lugar…”
E o que ouço? tum-tum-tum,
Trock, traz, truc, chiiiii.

Ai minha Deusa, o que faço?
Será que o Procon alivia angústia?

0279. Sobre ser um

“esse imenso, desmedido amor
vai além de seja o que for”

Longe num Éden
Imagino-te na chuva
Indo além de minha realidade
Viajo quilômetros,
Além do que sou
Vou à tua imensidão
Me imerso em ti
– imenso desmedido –
E sou-te
Faço-nos um
Ao pensar-te
Ao lembrar-te
Sinto-te em minha imensidão
E a distância dói
Pois sinto-te em mim
Pois vejo a unidade

0277. Pombas

Ali, vejo uma velhinha muito pequena
De longe parece caber em minhas mãos
E colocando-as frente meus olhos, cabe
Ela dá farelo aos pombos
Ela como biscoitinhos de polvilho doce

Agora vejo duas velhinhas
Miúdas, pequeninas
– uma em cada mão –
Elas vêem-me e pedem informação:
“Esse ônibus… ele passa no Centro
de ceilândia, meu fio?”
“Passa não minha senhora, é aquele ali”
Respondo calmamente
Elas sorriem um riso
Que há tempos eu não via: “Brigada”

Em minhas mãos, duas velhinhas
– falam com pombos ao sorrir –,
Pequeninas: duas pombinhas
Arqueadas, esperam a saída

E junto a esse seu azul… uma paz:
Ah, ganhei meu dia

0278. Êxtase

O amargo da língua no ouvido
O beijo salgado do pescoço a suar
O paradoxo da suavidade agressiva
O calor e a língua gélida nos seios
O cheiro do corpo outro na lascívia

A perna, a boa, a barriga, a mão
A volúpia do desejo mais intenso
A perene sensação do prazer ilimitado
A audição forte do peito próximo
A contemplação de que ela dorme leve

Um prazer
Uma noite
Dois corpos respiram na penumbra de lençóis
Dois corpos ainda um

0275.

Por um segundo, uma brevidade infinita
queima em silêncio a fragilidade.
Arrebata os influxos e os refluxos
dos transeuntes que fulguram
o ardor da consumação da matéria.
A imanência do fogo é ceifada por um segundo
e mói-se-a num moinho transcendente
que a joga fora de sua existência
ardendo num ela gélido que exprime
o que também é matéria e o que é vácuo.
Um golpe na cabeça de todos
que suscita a percepção de uma tarde
sem energia elétrica

E nesse segundo esse silêncio
Arde como brasa na fogueira

0276. Terça-feira

Hoje a carne acaba
Amanhã é quarta
Cinza como
Um veio d’água
Cinza como
Após a chuva,
A enxurrada

Hoje acaba o carnaval
Não vi mangueira vendaval,
Pois dormi cedo
E não vi a reprise da globo
– estava num conflito existencial

Hoje acaba
A carne acaba
Acaba o carnaval
E aqueles litros de silicone?
Serão doados como os órgãos?
Ou diluirão esqueletos
Num possível juízo final?

Terça-feira
Hoje acaba
E com toda certeza
No resto do ano
Continua esse “carnaval desengano”
Hoje acaba
(até parece!)

0274. Avirtual

Finjo estar acordado
Pensando muito no passado
O presente já não sei
O futuro apenas sonhei

Deixei meu presente de lado
Para analisar meus passos
Mas o que realmente deixei
Foi o que ainda não conquistei

Finjo estar acordado
E fico olhando para o lado
Vejo você num beco sem saída
Depois de uma grande avenida

Se pudesse não sei o que mudaria
Não entendo tanta correria
Lutou tanto para pouco capital
Agora sua vida vai mal

Virtualmente estamos acordados
Andamos tanto, embora estagnados
A tecnologia só aumentou a fome
O mundo moderno te consome

A nossa realidade está assim:
Só estou ligando para mim
Tento encontrar o meu eu
E nem me importo com o seu

0272. Cadê

eu to no meio do cerrado
e de pavor eu to cercado
a toda hora eu fico horrorizado
êta desmatamento danado
lobo-guará já se acabô
pé de pequi já se findô
os cajuero já secô
siriema o homi matô
gabiroba fogo pegô
tamanduá se vaporô
morreu de fome o tucano
onde é que tá o veado?
jacu, tatu, mutum canário?
onde é que tá o bacuri?
onde se esconde o buriti?
pra onde foi o bem-te-vi?
acabô-se o quebracho
num tem mais barbatimão
mangabeira tá por baixo
por que se foi o gavião?
num entendo tanto horror
cabô carcará e beija-flor
num güento mais
já findo tod’os cristais
já sumiu tudo: sábia, puçá, jequitibá
guariroba, jurubeba e até os jatobás
ai de nos, ai de mim
acabô-se até o capim

0273.

Como num vôo de avião
Pego carona na boléia de um caminhão
Atravesso todo esse planalto
Até chegar lá em Alto
Mas em Alto hoje, eu não fico não
Hoje o paraíso é mais pro lado
O paraíso hoje
É de quem lutou contra o dragão
Espero que alguma carona role
Pra chegar
Pra chegar logo em São Jorge
Jhaia, Jhaia, Jhaia
Eu to aqui na Chapada
E tudo é tão jóia rara
Vejo cristas de cristais no horizonte
Eu vou subir a pé aquele monte
Jhaia, Jhaia, Jhaia
Eu to aqui na Chapada
Sua beleza me deixa de cara
Essa tal de Chapada

0270. O ausente

Sou o ausente, a parca ostentação de um nome
Pretenso ser, que não é e nunca foi
Sou a solidão desacompanhada, o medo e a volúpia
da embriaguez desnuda da roupagem de um ego
Nunca alguém, antes de tudo nem ninguém,
sou o vazio.
E se alguém me sente é somente um acaso de Deus,
um momento de relapso num contingente de nadas
A personificação da inexistência é isso o que sou
A face indiferente do éter.
O nirvana não sentido.
E sou claro e discreto ao dizer que nada sou
e minha busca já não me achou,
mas prostrou sua alcunha de Deusa
e deu-me esse lindo nome:__________
Um acaso planejado por mãos femininas,
um subjetivismo não apreendido,
apenas caracteres neste computador,
e é isso que me dá os fragmentos dos infinitos.
O desejo não findo, a dor do Tudo
a vontade da morte,
o cansaço da rotina, a miséria da condição humana: eu
E neste lindo nada sou-o e não o sou
A companhia em si, a própria solidão
O ímpeto do suicídio, morte do amor que nunca existiu: isso, eu
Aquilo que não é notado ou percebido,
um assassino de positivistas,
um produto de unhas verdes,
a desilusão que não pára,
um pacato cidadão tão néscio quanto bêbedo,
um à margem de tudo, um à margem dos deuses.
Apenas translações no ocaso.
Um vazio e novamente a aspiração à morte: eu.
Quando ando pelas calçados ninguém mo vê,
minha sombra é mais perceptível
que minha infundada carne disforme
e descubro que o amor não existe
a cada passo que dou numa avenida movimentada
Sempre que ando a rua, vejo a dor,
a minha e a de outrem, só gritos de horror,
falta a suavidade,
falta tudo que me faça crer no amor
Sou o ausente.
Sou o amor.

0271.

renunciamos a imortalidade em si
e escolhemos a liberdade da beleza
transcendemos a realidade do agora
e fomos ao além de nós mesmos
tornamo-nos infinitos na mortalidade
nos surpreendemos como alternativa
um universo emerge de nós e vive,
submerge em nossas mãos racionais
que raciocinam sentimentos

0269.

sinto vontade de todos os dias
escrever um soneto
dois acrósticos, cinco elegias
dezoito haicais e sete versos livre
todos a mesma pessoa, todos a ela
todos a Mayra

as mais belas rimas,
somente a Mayra
suaves poesias,
também a Mayra
nos simples haicais
Mayra e nada mais

0268. REP (Ritmo e Poesia)

contra tudo o que é moderno
de encontro ao poder da criação
a favor da contrariedade
e renegando a renovação
reinventando o erudito
copiando a erudição

sampleando poesias
pois “o poeta é um fingidor”
produzindo rimas pobres
e sonetos do não-amor
caçoando do dadaísmo
exprimindo impressões em torpor

exageradamente arcádico
simples e romântico por momentos
elegias, sonetos e acrósticos
trazidos do futuro, voltando tempos

0266. Lendinhas

só sussurram secos sons
sacis saltam seriemas

correm com capivaras
curupiras corajosos

roda Saci ao pé da mata
sopra o pito e a fumaça
solta cavalo, faz travessura
Saci por perto é diabrura

Curupira do pé virado
vive na terra não é alado
corre na mata e a natureza
Curupira guarda qual realeza

se algum vivo pede socorro
Saci travesso já pensa em brincar
e o Curupira só pensa em ajudar
mas se é na água ninguém se mete
porque o Boto não deixa afogar

0264. Anseios numa fronte

ao fim do show o poeta corre
para não perder o ônibus
nada de novo nesse front
e na fronte do poeta versos beatniks
em beats modernos
a sua fronte tal qual linhas de concreto

com a alma longe
e os chakras despertos
pelo som de Zeca Baleiro
o poeta pede uma dose
que lhe finque um pé no chão
e uma mão em marte,
Bukowski e Sartre em um gole

o poeta corre e corre
findou-se o show e o ônibus voa
só um som mudo para indicar
que a perda do ônibus é inevitável
um som e um anseio
a vodka e o vazio:
um eco de Zeca

enfim o poeta fatigado
vê seu ônibus alçar vôo
e os passageiros desabusados
rirem de sua fronte
dessa tez de poema abstrato

assim o vejo todos os dias:
tropeçando em pedras e a ver navios
enquanto todos voam,
e com sua alma presa
e um machado em sua mão direita,
nunca desistindo de levantar,
talha poesias em caras de pau

0263. Soneto de um erro

As notas vivas de um jazz a produzem
O amargo das lembranças mo instruem
Dissonantes diluídas em meu ser
Catalisam poder de a não mais ter

A tendo em plenitude, a joguei ao léu
Não vendo que aqui a ter era a terra o céu
Sonhei com uma solidão perfeita
Perfeição real era dela a presença

Se o martírio agora, o jazz consola
Faz-me percorrer com toda paz e ira
Uma avenida de várias voltas

E minha alma ante minha razão a mira
Desculpas racionais sempre tolas
Aludem-me a sentir: por que não Mayra?

0262.

sentindo o peso da dor
e o uivo da agonia
a D’alva brilhava ao céu
mas o eterno pavor
ofusca as vidas
herança de estar ao léu
sofrendo genes de horror
sem poder fugir a sina
a cultura tirava o véu
a biologia mostrava a cor
e naquela geografia
nunca à boca o mel

0259. A vitória do amor de índia

a lua fez-se ao rio
e a índia foi buscar
a luz dourou-se n’água
e a índia foi brilhar
a luz prata liquefeita
e a índia sólida
a lua cheia ao riacho
e a índia a amar

a lua no ar
e no espelho d’água
a índia a sonhar
e jogar-se a sua saga

o salto ao rio
e a lua dissolveu-se
a índia sucumbiu
à água envolveu-se
partiu no espelho de seu amor
mas a Grande Mãe justa e piedosa
prostrou sua índia em uma linda flor
que vaga nos rios
bendizendo a paixão
e declarando-se à lua
sobre o ribeirão

de forma alguma sua morte foi dor
pois esta planta singela
que hoje chamamos de vitória-régia
é a lunática índia tão bela
perdida de amor

0256. Só

entre o amargo da cevada
e o amor à solidão
penso como seria a companhia,
vivo num mundo tão meu
que se alguém se aproximasse
tudo ruiria
por mais próximo que tudo esteja
todos se encontram em outra galáxia

o mundo é meu só
ninguém mais entra
levanto as portas do meu castelo
faço uma fortaleza de meu ego
tranquei-me a todos
ao tudo, ao sempre
estou de quarentena eterna

0257. Prolixo

produtividade
produtivismo
produção
produto
progresso!
projeção
projetos
prosperidade!

prolixo

pragmáticas
prerrogativas
prioritárias da economia
progridem a miséria em
proles famintas
progresso!

prolixo

prego o social
produzo o sistema
prendo minha alma a
produzir demagogia e
primo por meu umbigo

pro lixo eu e tudo
prolixo!

0254. Do meu descaso

Mayra Maria
um nome composto
uma composição de poesia
um nome que rasga o ocaso
e por acaso reluziu-me a vida

Mayra Maria
a própria poesia
que principia
a tez, o corpo, a alma:
sinergia

Mayra Maria
jogou-se a mim
tecendo doces palavras de companhia
e eu louco, néscio, confuso talvez
fixei-me na apatia

Mayra Maria
como pude não ouvir
a simples sinfonia
que tua totalidade me produzia?

0255. O que vejo e o que pensam

sentado aqui eu e minha cerveja,
olhos mo observam
pupilas homos, íris heteros
pensam que minha alma as deseja
mas meus olhos se cegam
para tomos freudianos de Eros

cego-me a presença de todos
finjo-me estrábica inocência
e canso-me com tantos namorados
estão à volta, amores doudos
que só produzem mais carência
e ainda à volta, insistentes veados

por vezes, instintos tentam se apoderar
miro seis ambulantes
e nádegas passageiras
mas é só carne a se enxergar
e o flerte se cala às transeuntes
que não se aprazem de poéticas tendências
– e ainda devem pensar que sou gay

0253. Das fatalidades de minha conduta

os erros são tantos
são muitos, são todos
renunciei a paixão
fingi intensa indiferença
calei meu ser a uma sentença
e aprisionei minha sina:
não servir a qualquer amor

sorrir à solidão
maldizer enamorados
e sufocar os desejos
assim faço parecer que vivo

os amores foram muitos
as paixões infinitas
só um foi real
e desta o erro foi o maior

compreender o que não mais existe
e que insiste em ter-me triste…
foi só um lapso de amor
que cruzou minha vida
e na realidade não foi lapso,
foi o amor

0252. Ela ao ônibus: + 1 eu

ela corre e alcança
entra sutil, sem presença
em suas mãos uma bolsa
e um saquinho de pipoca doce

ela paga sua passagem
olha em volta e logo senta
em sua mente coisas tais
que nunca conseguiria eu prever

ela senta e não me olha
eu a olho e ela não vê
abre o saco, come a pipoca
mira o horizonte: casas e nuvens

em meu espírito
a certeza de que agora
invariavelmente ela também
me constitui

0247. Sobre as diversas espacialidades que apraz meu juízo (ou espera no conjunto)

é um o universo
não um univverrrso
mas apenas um o verso
eu, tu, todos imersos
submersos neste verso
inscritos no mono verso
unilateral universo
universo disperso
em instâncias tais
que não percebem seu verso
mundo de reverso
que para se apreender o verso
deve-se virar o verso
da folha universo
uno (oni) verso
espaços diversos
espalham-se no verso
universalizam o diverso
no anti-verso (reverso)
dá-se ritmo ao conjunto
que conjura i controverso
uno um, eu (oni), tu, univverrrso

0246. Traduções

significados,
há muito quero sufocá-los
separar pecado e prazer
meu juízo morfou-se espírito
logos incansável
eterno retorno de raciocínios
que eternamente esperam
lograr-se vivências
mas apenas prendem-me à espera
em agonia vegetativa
de lógicas masculinobjetivas
míticas conclusões norteiam meu vegetar

eternamente espero

retorno à somente razão

0244. Estrangeiro

ele se sente um estrangeiro
em uma nação que dele se apoderou
e que agora o cospe
que o põe na sarjeta da solidão
visivelmente imperceptível
e mais à mostra do que nunca
espectro de todos sendo todos e todos não o vendo

ainda há a paz

ele não é daqui
ele é do tudo
estereótipos insanos
pacificidade louca
olhares xenófobos
alhures de nada

ele não é daqui
o mundo é dele

a realidade na palma de suas mãos