2954.

no início era só o que cabia e podia
o tórrido se instalava no fim do dia…

hoje há um atrito
entre o espontâneo
e o rito
fricciona a pele
do diário
com a derme
do sinistro

e o tédio nos faz
travestidos de
chapação
por trás da breja amiga
o que resta é solidão

mas eu não sou
silêncio
e tão pouco solidão
sou só todos
os outros
em nu vem ebulição

2949.

Quanto vale
flutuar hoje?
O preço das
pegadas amassando
nuvens.
Quantos pontos
na bolsa
os lances galgados,
pegar aquela
flor de luz redonda
com a mão pinçada
e, bem-me-quer
mal-me-quer,
pingá-la aos poucos
no quadro negro
sem fim.
Quanto vale?
Como faz mesmo?

2943.

a mente não cansa de te construir na memória
de te pontuar as partes e ligá-las
uma a uma horas a fio nos rumores áridos do sol
a mente te faz na luz que prateia as ondas
na espuma deslizada da prancha
em tudo te tem, te reflete
não que seja prata, prancha, sol
mas porque tudo que se avista
se reflete no que deixa a vista embevecida
você alocada em todo neurônio ativo

2942. #EuSouGay

e o amor ocorre ao largo
do ódio que não se contrapõe
quiçá a antípoda houvesse
pois que indiferença mata menos
– e oxalá – há de vir! – nada matasse
anatomicamente igual
(e nem lembrem de tamanho, forma, cor…)
humanamente – sempre – diferente

igual assim quando ele diz:
“meu homem é lindo”,
tal qual se dá quando ela sussurra:
“quando com ela, não vejo o tempo passar”,
o amor ocorre não entre iguais
ao que nem gêmeos podem ser:
isso de iguais

isso de iguais não cola
(imã mostra, velcro prova,
mas a gente não é metáfora)
gentes são mesmo diferentes
e nunca – provem o contrário! –,
nunca mesmo, iguais

cada tudo é um único
e o amor se dá aí
entre diferentes
isso que se torna igual

me pergunto mesmo o que define:
é um membro, um órgão, uma condição, uma condução,
um cromossomo ou um status?
e o amor aí se dá, se doa e se faz
sem a definição precisa
ou mesmo a imprecisão cirúrgica das prisões simbólicas dos discursos

e nem mesmo só o amor,
se dá igual é o tesão
a passionalidade, a explosão
o toque ocorre entre essas diferentes
entre as únicas, exclusivas em si

entre, dentro e fora
no meio, no centro, na borda
amor igual nunca igual
amor apenas
sem pena, com penas, plumas e paetês
com barbas, pelos, bigodes
com peitos, bundas, coxas, com o que pode
paixão serena
e quando dê, tensa

porque único, diferente e cada qual
amor é – sempre – assim:
igual que nem,
igualzim…

#EuSouGay

2940. Pira pora ar

sabe, eu não compreendo esse meu realismo
e penso
onde se escondeu a fé que a liquidez liquidou?

sabe, às vezes quando creio
eu sinto mesmo sobrevoar a chapada
no meio da água condensada
percorro as longas gerais em cima do horizonte
sem ser ara
fico voando feito ave de escamas
sem penas
sem planos altiplanos

sendo sim pira
pirado peixe fora d’água
sendo pora
habitado de vôo, dentro do ar
sendo pirapora vossa
sem hora desaparecida
tucunaré das nuvens
pacu alado
dourado ícaro lançado ao léu
papa-terra do meio do firmamento
piracará mais leve que pluma

curimatã que não volta
mergulhado na chuva
pairado
e sendo pira
ser pora
peixe pirado
dentro de um ybapiranga
de fim de tarde

2939. Desconstrução

Trepou daquela vez
Como se fosse a única
Ficou com um qualquer
Como se fosse o único
E tuitou aos seus
Como se fosse o último
E atualizou tudo
Num modelo elétrico
Fez-se desconstruído
Um tanto cibernético
Ruiu todos os alicerces
Paradigmático
Bites por bites presos
Num fractal esquálido
Seu corpo embalsamado
Por hormônio e plástico
Saiu para agitar
Como se fosse sábado
Comeu sua própria mão
Um tanto pornográfico
Depois vagou pelo espaço
Como um apóstolo
Quebrou até o chão
Numa rebolada cândida
Fumou até o céu
Como se fosse por hábito
E arroxou por Deus
Como se fosse pároco
E ficou pelo meio
Do estrato econômico
Gozou em três segundos
De modo biônico
Viveu com ler na mão
No seu serviço público…
  
  
Trepou com pilha azul
Para ficar mais túmido
Fritou com um qualquer
Como se fosse químico
E abortou os seus passos
Para o pulo trágico
E atualizou tudo
Como era o seu hábito
Se desconstruiu
Em elétrons cibernéticos
Ruiu-se anoréxico
E se quedou esquálido
No seu alicerce
Uma arquitetura lógica
Seu corpo transformado
E posto para o público
Saiu para agitar
De modo pornográfico
Comeu no japonês
Um sushi meio arábico
Vomitou junto a vodca
Num lance bulímico
Girou moinho de vento
Meio supersônico
E se integrou ao céu
Como se entrasse em êxtase
E bolinou os seus
Como se fosse pároco
E saiu bem no meio
Da orquestra sinfônica
Gozou por toda a rave
Num momento lúdico
Viveu na contramão
Propagando o místico…
  
  
Comeu e vomitou
Toda moça bulímica
Trepou com todo macho
Do modo mais cálido
Ergueu o seu lar
Reaproveitando plástico
Saiu para agitar
Um carnaval metálico
E boiou num mar
De sêmen pornográfico
E ficou pelo meio
De um estrato quântico
Ressuscitou da vida
Apaixonando o público…

2938. Cidade I (Um sample de forma)

O espaço quadrante pelas torres digitais
geometricamente compondo o permear entre pontos
imensas curvas periféricas.
 
 
O espaço
              fluindo concreto
              (rio aprisionando a
              quem o navega)
tem prazo de validade
até a permanência
                       da eternidade
beatificado nas sacolas
nas teses dos juristas
sortido alegre ardido de paixão
paixão homogeneizada
mass media de eucalipto
não existir paulatinamente
                       um espírito quando a dor entra e se perde
fazendo do futuro nenhuma continuação horizontal de expectativas
como se espera a paga
que apaga a dívida no banco
                       naquele abril quente
                       de fogo abrasado
                       pelo sorvete devido na parada de ônibus.
Fogo fato adentrado
em vias respiratórias outras
revoltas
                       naquele lugar onde as raízes se entranham
                       tórridas
                       ao que geneticamente se mistura inorgânico
                       que o artificializa
                       como se muros libertassem
parede espessa
prisão e piche.
 
 
O burro na calçada
(pra que pastar mato se os restos dos carrinhos de x-tudo são iluminados?).
Antigamente vendiam terrenos no céu hoje em dia financiam o céu próximo loteando
todo o espaço
vertical que o burro não nota posto que a azia o co-in-funde tapando-lhe os sentidos
                                                                                                                                tidos
dentro de algo que poderia ter sido um cérebro.
 
 
De dentro de feixes de tarde
                               portados em paus de
concretos, emaranhados
de arames bem atados
                               que me dispõem a mesma coisa
que são tal e qual imagens
                               ou
                               nós
amarrando os satélites
que despencam bolsas e valores
foices em seringas
                               que me curam
                               e me movem
                               pois me ouvem
ou me cobrem
feito a noite mortalha a tarde
                               que oculta meus ares impuros
a pornografia de um abril desfeito e quente
                               (a aldeia inteira arde as correntes
                               em abril!)
labaredas esquecidas e fé
                               mimético e mítico
                               pura religião sem símbolos.
 
 
A manhã tarda essa noite longa e banhada de humores e líquidos
gozo ao outro
                               liberdade de possibilidade
                               (noites fogos esquecimentos lugares)
que lhe retribuirá endiabrado
músculo tencionado e relaxado
                               perto da brasa
daí soltar os pavões:
a ilha de calor cândida
na armada brita
(células na argamassa
cimento e água)
rolar voluptuoso e sério
por uma noite sem vida pulsante
                               paz nos ossos dos orifícios.
 
 
Naquela noite naquele deserto naquele abril
a prosa
orquídea dengosa
insere-se
plug-and-play no usb 4.0
ralo dado no esgoto
                               minotauro – tarado – beija
o chão e chupa a manga
convencendo que labirintos
já não bastam como esgotos
                               roçam o espírito do prosador.
 
 
Espírito que queimará sempre
                               naquele mês de abril
                               longe de tudo
antes de todo ardor sucumbido
por musas que cercam e embasbacam.
 
 
Epírito que precisa aparar
pois que se enfeia
                               o real materialista
que ouve os vãos como os vôos silenciam
o espaço percorrido de céu
                               e ainda calam a realidade enfeitiçada
                               tão sólida
que ouve pouco
com aparelho
                               a um xamã prismado que canta sem voz
                               cativando portas e janelas
                               pisos que ouvem
quando houve a necessidade de se torrar as sensações.
 
 
Epírito que precisa aparar
pois que se enfeia
                               a telepatia cinza entre os mundos
infovias de comunicação quântica entre humanos
como um não-lugar se dá em outros
desconhecendo quadras, casas, conjugados.
                               Fixa o diluído chão
                               mobilidade castrada
(Aṣé, Vandana Shiva,
                               múltipla política terrena!).
Espírito que precisa aparar sempre
pois que enfeiam mesmo as mortes
                               fino fio que certifica a passagem ao inorgânico.
 
 
Até a beleza se dar em felicidade bela.
Iluminando.
 
 
Ao que se enquadra
                               (arranha o céu, veja)
foi ou será
todo o globo gleba utópica densidade medida
                               de restos e sons.
Como o que se transpira é cálculo
                               (ou arranha um céu visto de cima ou de dentro)
equação que precisa se errar
mesmo que seja apenas eterna
                               naquela noite de abril
ou por certo aquela velocidade
                               no espírito ou no ar.

2937. Tenta³ (Um poema teórico sobre a práxis)

1. Introdesenconclusão

“Levante e dance como o Michael Jackson”¹
sabendo que
“viver é uma atividade irremediavelmente diletante e autodidata”²

2. Referências Bibliográficas

¹ SKOL. Jogo Redondo. Cervejaria do Baiano: Mesa de Plástico Amarela, bolota s/nº.
² CABRERA, Julio. Diário de um filósofo no Brasil. Ijuí: Unijuí, 2010, p. 62-63.
³ DE LAS TCHOLAS, D. Vitim. Discurso sobre a vida. Taguatinga: Edição do Autor, 2010, Antarctica nº 7.

2935. Metrômanas

Primeira Estação

o espaço exige
fôlego. toda prisão
é territórrida

Segunda Estação

claras, alvas
e quando o março
em abril despedaça águas?

Terceira Estação

o emplastro alívio
unguento de chorume
sorvo cores que curam

Quarta Estação

onde lobos?
nos pés caçadores
que esmagam barro
e bosta

Quinta Estação

tudo um real
da diversão líquida
aos amores sólidos

Sexta Estação

consumo o corroído.
já na barriga
todo plástico alivia

Sétima Estação

o ermo dos ossos
a caverna, sem
sombras, me espera

Oitava Estação

toda reta tem
um início, toda
torta, um suplício

Nona Estação

há que se salvar
em crises, cristas, cristais
em cifras boiar

Décima Estação

quem desce
oito passos para
o claro inferno, no céu?

Décima Primeira Estação

três para render-se
arrebatado num mar
de céu arrebentado

Décima Segunda Estação

como arte, o estado
inanimal de não ver faces,
mas ossos

Décima Terceira Estação

o centro. Roma.
alma morta numa
escada quebrada. pro céu.

2934.

Veio do norte na fissura de tudo,
o imperador urbano.
A todos o estado cativo era
tudo o que cabia.
Junto a ele, pólvora, ferro, germes,
várias idolatrias. Dionísio.
Voou ares de mares.
Desbravador. Apontando
no astrolábio o centro da civilização,
o lugar donde jorrava mel,
sem vida.
Travestiu-se de terra, deus,
contudo escravizando pelo seu tato.
Parecia belo e justo,
parcimonioso nos modos
o imperador urbano.

2932. Salmo da chuva radioativa

No claro momento explodido
os córregos de iodo dançam
nos átomos mutantes
– em cogumelos e macacos –,
pelos prédios grossos
os humores pesam, vaporizados
e rumo ao globo, abraçam
concreto e carbono
manto isotópico que nos aquece.

Dia a dia, em tudo,
nuvens cegas-surdas tremem,
respingando nos corpos éticos.
Avalia se não se sabe a divisão:
mil vezes mil – às vezes –
alterando o chão onde pisam
pregos e pedaços de mundo
puro amor ao fim dos atos.
Coito alento, atento
aos mínimos pedaços
para o prazer do fim.

2929.

A realidade fragmentada.
Alinhando o céu, o continente e o subsolo,
num grave risco,
num longo verso,
pausada e candente dança
que a luz embaça.
A esmurro abertamente bento,
desnudando o desejo e o dia.
O que te acorda ainda não morre.
E se vê toda a espera,
brevidade póstuma predestinada,
irromper em teu espírito
o fluxo e a ideia.

2926.

Ataca a face a dor e a escuridão
naquela noite indigna da mesma cama.
Fixa a teia que nos une
como a presa à aranha será uma,
introduzindo no veneno a apatia e a cidade
o todo refletido nos arranha-céus espelhados.
Avançando em tua face,
milímetros de labaredas
em rios de lava, a rocha bruta,
livre da solidão da solidez. Flutuada.
Certo que dormes neste tempo de trevas
à alta hora. O afago vário
te dilata já no estômago
um murmúrio de ódio:
fetiche e brado.

2925. Para o Pássaro Proibido, com carinho.

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me encena um ato público
Me ensina uma canção
Me acena uma gesto mímico
Me insinua a cultura da produção

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me insere na indústria midiática
Me insufla a inspiração
Me encerra no ato poético
Me estatiza toda a criação

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me acentua a espontaneidade
Me assessora na elaboração
Me inculca o drama
Me assiste na televisão

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me encoraja o dom
Me introduz a projeção
Me envolve nas cifras
Me investe apenas um milhão

2924. não é ideia

o corte é na pele
e quem disse que alma não sangra?
verte um líquido viscoso e verde
a geração de caim
não quer se alimentar dessa esperança
e mesmo os hematófagos com sua sede anêmica
não lambem

mas o corte é na pele
e a ferida é na alma
laços entre a planta e o animal
quase um fungo
um cogumelo cinza aberto na tampa e azul embaixo
orelha de pau pregada na cabeça

com esse corte na pele
a alma morre
como se atar aos prédios
pelo pulo
e pelo espaço singular entre o topo e o asfalto
massa entre vários reinos no fundo
sangue verde coagulado na pedra
alma é matéria

2923. proposta

se liga na proposta
não se faz jocosa
para, leva a sério
escuta a rosa
sente eu dormindo
em suas costas
o vento murmurando
eu quero, cê gosta
então tá, a gente sabe
que mundo bosta
mas não faz troça
vamo aí
só um quê de bossa
parar a fossa
aquecer o que possa
daqui a pouco o inverno vem
a cama é nossa
a rima roça
dois pés gelados
meu fogo toca
nós dois assim
pralém de troca
um tanto zen
o incenso percola
dois doizim
só pra ver se descola
um riso fácil
pro piratão da hora
eu levo o beiju
e um beijo
pra larica que assola
eu paro, vixi, extasiado,
enquanto você me olha
a gente apaga
abraçado, a noite demora
bem de manhã
você acorda
me dá corda
me namora
te amo e, ih, já deu a hora
um banho ligeiro os dois
juntim pra economizar por agora
um café forte, uma piada
e a cara pra ir para fora
cada um prum lado
pro corre do din que logo torra
e o dia inteiro, ligeiro, na tora
pensando que logo mais
eu chego, cê volta
meu beijo, você dengosa:
“macarrão meu bem?”
ok, eu corto a cebola
e você faz o que gosta
assim, não sei se aposta
aprova e se topa,
mas e aí, curtiu a proposta?

2917. então eu vou

em algum hoje
andando num agora
morrerei amanhã

sem o afã da surpresa
sem esgueira
sem a eira e a beira
talvez escorado numa ribanceira

em algum hoje
o agora será visto
quando morri no amanhã

sem a perplexa tristeza
sem o plexo das teias e das veias
sem inteira
ou meia parcela de presença

em algum hoje será
quando for agora
minha morte no avesso do amanhã

sem o tombo da rasteira
sem o pé da dianteira
sem a lida das feiras
certo que igual
só sem minha teima

2913. a hora presa no umbral

do batente pra lá
o concreto torra
certo de que no
asfalto longe
o que emana é a loucura

do batente pra cá
o tempo se transporta
em vagos decibéis
de muriçocas e tapas pelo corpo
e sal liquefeito na pele a escorrer

vibra uma calma tensa
beirando o tesão

único e impossível
resultado para essa equação
cujo coeficiente
é essa hora que avança
e chega mais para trás

2912. científica ficção postética 8

Depois da ceifa do sorgo
na noitinha vindoura
faríamos saraus espontâneos
recitando loas e estrofes
para a cara redonda da lua

Enquanto isso a marica
ajoelhava um a um na roda
e um samburá de amendoim torrado
no meio dava a liga da fome

Um disquim do Emicida
compartipirateado pra finalizar
e Dom Vitim contando histórias
para os filhos dos outros
enquanto pitava um porronco
sobre um tempo em que arte
chegou a valer milhões
não como naquele agora
em que ela valia o mesmo tanto
que se vivia, pois que
como as ondas que no ar nos uniam
ela era então também a própria vida

2909.

caem reis
dinastias imperialistas
apoiados pela demo-cristã-cracia
da águia
que não mais voa
rodopia
do tio de mente não sã
mas sadista
da união idílica das
nações de hipocrisia
com seus paraísos terrenos
feitos em areia sem argila
bradam aos berros
quase por telepatia
com todo o seu aparato de mídia
que caiam todos os reis
sem qualquer nostalgia
mas do mouro cairo rouco
que sequer disse metade
do que se queria
mostram apenas as imagens
dos gritos
da correria
penso sempre que alá
mostrou outra forma
de fazer política
e que talvez um conflito entre deuses
ponha jeová na berlinda
e quem sabe até essa aparente
chinesa falta de fé esquisita
não entra na fita e nos diga
que no fim a Verdade
só se mostrou pros jainistas