de repente eu me pego
cruzando de novo a cidade
não existe perto ou longe
existe necessidade
e de quando em quando, vontade
Categoria: Poesia
2956. Idade das luzes
nesse mar de luzes
nesse horizonte diluído em luz
nesse plano luzido
nesse pleno luzir
pequenos sóis em tormentas
constantes, tentando impor
cada um seu campo gravitacional
e explodir sua luz para um mundo
já cego de luminosidade
há luz demais e vendem que o problema é a escuridão
2955. Categorias sociais
o pau antropológico
é um mistério
meio mágico
será que ele
é menos falo
ou ele só quer
comer seu rabo?
2954.
no início era só o que cabia e podia
o tórrido se instalava no fim do dia…
hoje há um atrito
entre o espontâneo
e o rito
fricciona a pele
do diário
com a derme
do sinistro
e o tédio nos faz
travestidos de
chapação
por trás da breja amiga
o que resta é solidão
mas eu não sou
silêncio
e tão pouco solidão
sou só todos
os outros
em nu vem ebulição
2953. Recompor
vagar na periferia
da alma
vendo as vastas
pausas de vivacidade
que tentam definir
um ponto claro,
específico, rítmico
que componha algo
entre o eterno
tudo, batuque sincopado,
e esse local melódico
situado em mim
mística vista
música vida
minha via
2952. Tampa
quando a angústia
provoca frio
talvez o problema
seja de escolha
quando ela se espalha
e rola um calafrio
aí eu acredito que
o lance é do que se colha
quando tudo salta fora
numa explosão
tipo um brilho
a parada é falta de rolha
2951.
estilos, palavras,
paradigmas
será que não
se é só
uma sombra
estatística?
destampa, desfira
o discurso
certo que tão
só se é
um lapso
absurdo.
2950. bestinha
não me importam os genes
tão pouco a escolha
mesmo a criação
meu amor é feito
de fato, de feto, afeto
sintomático
meu amor
esse que beira tudo além da paixão
sendo
2949.
Quanto vale
flutuar hoje?
O preço das
pegadas amassando
nuvens.
Quantos pontos
na bolsa
os lances galgados,
pegar aquela
flor de luz redonda
com a mão pinçada
e, bem-me-quer
mal-me-quer,
pingá-la aos poucos
no quadro negro
sem fim.
Quanto vale?
Como faz mesmo?
2948. Letrada
Lua,
lenta
luz.
Lusa
letra
limita-a
literária,
lá
longe.
2947.
o pipoqueiro na porta
parado, cada pacote,
pouca paga, pira com
o preço, passa a
parada, parece piada,
mas pia nada, é o que
lhe paga, sem pala…
2946. antropologia filosófica
o compacto do conceito de cultura
sobre o receptáculo de ser humano
e esse lance de se crer que não se
é só guano: pré-adubo sapiens
2945. quebra-alma
das antiga havia os que
quebravam pedras
por obrigação
hoje há esses tantos
atrás de pedras
por adicção
quais anseios, quais desejos
continuação?
2944. espírito evoluído
não, não sacrifiquemos mais
bodes ou galinhas pelos espíritos
mas matemos ratos e pombos
em nome do progresso científico
2943.
a mente não cansa de te construir na memória
de te pontuar as partes e ligá-las
uma a uma horas a fio nos rumores áridos do sol
a mente te faz na luz que prateia as ondas
na espuma deslizada da prancha
em tudo te tem, te reflete
não que seja prata, prancha, sol
mas porque tudo que se avista
se reflete no que deixa a vista embevecida
você alocada em todo neurônio ativo
2942. #EuSouGay
2941. A identidade cultural no supercapitalismo tardio
Eu indo,
cindindo
o líquido revolto
que borbulha
em meu corpo,
navego sem
rumo a cachoeira
que rola do
corte em meu pulso.
E sem pulso
a canoa em que
remo, cinde
o sangue sem
impulso.
Quase cortiça,
quase só bóio,
eu vou indo.
Eu-índio.
2940. Pira pora ar
sabe, eu não compreendo esse meu realismo
e penso
onde se escondeu a fé que a liquidez liquidou?
sabe, às vezes quando creio
eu sinto mesmo sobrevoar a chapada
no meio da água condensada
percorro as longas gerais em cima do horizonte
sem ser ara
fico voando feito ave de escamas
sem penas
sem planos altiplanos
sendo sim pira
pirado peixe fora d’água
sendo pora
habitado de vôo, dentro do ar
sendo pirapora vossa
sem hora desaparecida
tucunaré das nuvens
pacu alado
dourado ícaro lançado ao léu
papa-terra do meio do firmamento
piracará mais leve que pluma
curimatã que não volta
mergulhado na chuva
pairado
e sendo pira
ser pora
peixe pirado
dentro de um ybapiranga
de fim de tarde
2939. Desconstrução
Trepou daquela vez
Como se fosse a única
Ficou com um qualquer
Como se fosse o único
E tuitou aos seus
Como se fosse o último
E atualizou tudo
Num modelo elétrico
Fez-se desconstruído
Um tanto cibernético
Ruiu todos os alicerces
Paradigmático
Bites por bites presos
Num fractal esquálido
Seu corpo embalsamado
Por hormônio e plástico
Saiu para agitar
Como se fosse sábado
Comeu sua própria mão
Um tanto pornográfico
Depois vagou pelo espaço
Como um apóstolo
Quebrou até o chão
Numa rebolada cândida
Fumou até o céu
Como se fosse por hábito
E arroxou por Deus
Como se fosse pároco
E ficou pelo meio
Do estrato econômico
Gozou em três segundos
De modo biônico
Viveu com ler na mão
No seu serviço público…
Trepou com pilha azul
Para ficar mais túmido
Fritou com um qualquer
Como se fosse químico
E abortou os seus passos
Para o pulo trágico
E atualizou tudo
Como era o seu hábito
Se desconstruiu
Em elétrons cibernéticos
Ruiu-se anoréxico
E se quedou esquálido
No seu alicerce
Uma arquitetura lógica
Seu corpo transformado
E posto para o público
Saiu para agitar
De modo pornográfico
Comeu no japonês
Um sushi meio arábico
Vomitou junto a vodca
Num lance bulímico
Girou moinho de vento
Meio supersônico
E se integrou ao céu
Como se entrasse em êxtase
E bolinou os seus
Como se fosse pároco
E saiu bem no meio
Da orquestra sinfônica
Gozou por toda a rave
Num momento lúdico
Viveu na contramão
Propagando o místico…
Comeu e vomitou
Toda moça bulímica
Trepou com todo macho
Do modo mais cálido
Ergueu o seu lar
Reaproveitando plástico
Saiu para agitar
Um carnaval metálico
E boiou num mar
De sêmen pornográfico
E ficou pelo meio
De um estrato quântico
Ressuscitou da vida
Apaixonando o público…
2938. Cidade I (Um sample de forma)
O espaço quadrante pelas torres digitais
geometricamente compondo o permear entre pontos
imensas curvas periféricas.
O espaço
fluindo concreto
(rio aprisionando a
quem o navega)
tem prazo de validade
até a permanência
da eternidade
beatificado nas sacolas
nas teses dos juristas
sortido alegre ardido de paixão
paixão homogeneizada
mass media de eucalipto
não existir paulatinamente
um espírito quando a dor entra e se perde
fazendo do futuro nenhuma continuação horizontal de expectativas
como se espera a paga
que apaga a dívida no banco
naquele abril quente
de fogo abrasado
pelo sorvete devido na parada de ônibus.
Fogo fato adentrado
em vias respiratórias outras
revoltas
naquele lugar onde as raízes se entranham
tórridas
ao que geneticamente se mistura inorgânico
que o artificializa
como se muros libertassem
parede espessa
prisão e piche.
O burro na calçada
(pra que pastar mato se os restos dos carrinhos de x-tudo são iluminados?).
Antigamente vendiam terrenos no céu hoje em dia financiam o céu próximo loteando
todo o espaço
vertical que o burro não nota posto que a azia o co-in-funde tapando-lhe os sentidos
tidos
dentro de algo que poderia ter sido um cérebro.
De dentro de feixes de tarde
portados em paus de
concretos, emaranhados
de arames bem atados
que me dispõem a mesma coisa
que são tal e qual imagens
ou
nós
amarrando os satélites
que despencam bolsas e valores
foices em seringas
que me curam
e me movem
pois me ouvem
ou me cobrem
feito a noite mortalha a tarde
que oculta meus ares impuros
a pornografia de um abril desfeito e quente
(a aldeia inteira arde as correntes
em abril!)
labaredas esquecidas e fé
mimético e mítico
pura religião sem símbolos.
A manhã tarda essa noite longa e banhada de humores e líquidos
gozo ao outro
liberdade de possibilidade
(noites fogos esquecimentos lugares)
que lhe retribuirá endiabrado
músculo tencionado e relaxado
perto da brasa
daí soltar os pavões:
a ilha de calor cândida
na armada brita
(células na argamassa
cimento e água)
rolar voluptuoso e sério
por uma noite sem vida pulsante
paz nos ossos dos orifícios.
Naquela noite naquele deserto naquele abril
a prosa
orquídea dengosa
insere-se
plug-and-play no usb 4.0
ralo dado no esgoto
minotauro – tarado – beija
o chão e chupa a manga
convencendo que labirintos
já não bastam como esgotos
roçam o espírito do prosador.
Espírito que queimará sempre
naquele mês de abril
longe de tudo
antes de todo ardor sucumbido
por musas que cercam e embasbacam.
Epírito que precisa aparar
pois que se enfeia
o real materialista
que ouve os vãos como os vôos silenciam
o espaço percorrido de céu
e ainda calam a realidade enfeitiçada
tão sólida
que ouve pouco
com aparelho
a um xamã prismado que canta sem voz
cativando portas e janelas
pisos que ouvem
quando houve a necessidade de se torrar as sensações.
Epírito que precisa aparar
pois que se enfeia
a telepatia cinza entre os mundos
infovias de comunicação quântica entre humanos
como um não-lugar se dá em outros
desconhecendo quadras, casas, conjugados.
Fixa o diluído chão
mobilidade castrada
(Aṣé, Vandana Shiva,
múltipla política terrena!).
Espírito que precisa aparar sempre
pois que enfeiam mesmo as mortes
fino fio que certifica a passagem ao inorgânico.
Até a beleza se dar em felicidade bela.
Iluminando.
Ao que se enquadra
(arranha o céu, veja)
foi ou será
todo o globo gleba utópica densidade medida
de restos e sons.
Como o que se transpira é cálculo
(ou arranha um céu visto de cima ou de dentro)
equação que precisa se errar
mesmo que seja apenas eterna
naquela noite de abril
ou por certo aquela velocidade
no espírito ou no ar.
2937. Tenta³ (Um poema teórico sobre a práxis)
1. Introdesenconclusão
“Levante e dance como o Michael Jackson”¹
sabendo que
“viver é uma atividade irremediavelmente diletante e autodidata”²
2. Referências Bibliográficas
¹ SKOL. Jogo Redondo. Cervejaria do Baiano: Mesa de Plástico Amarela, bolota s/nº.
² CABRERA, Julio. Diário de um filósofo no Brasil. Ijuí: Unijuí, 2010, p. 62-63.
³ DE LAS TCHOLAS, D. Vitim. Discurso sobre a vida. Taguatinga: Edição do Autor, 2010, Antarctica nº 7.
2936. Até a manhã
2935. Metrômanas
Primeira Estação
o espaço exige
fôlego. toda prisão
é territórrida
Segunda Estação
claras, alvas
e quando o março
em abril despedaça águas?
Terceira Estação
o emplastro alívio
unguento de chorume
sorvo cores que curam
Quarta Estação
onde lobos?
nos pés caçadores
que esmagam barro
e bosta
Quinta Estação
tudo um real
da diversão líquida
aos amores sólidos
Sexta Estação
consumo o corroído.
já na barriga
todo plástico alivia
Sétima Estação
o ermo dos ossos
a caverna, sem
sombras, me espera
Oitava Estação
toda reta tem
um início, toda
torta, um suplício
Nona Estação
há que se salvar
em crises, cristas, cristais
em cifras boiar
Décima Estação
quem desce
oito passos para
o claro inferno, no céu?
Décima Primeira Estação
três para render-se
arrebatado num mar
de céu arrebentado
Décima Segunda Estação
como arte, o estado
inanimal de não ver faces,
mas ossos
Décima Terceira Estação
o centro. Roma.
alma morta numa
escada quebrada. pro céu.
2934.
Veio do norte na fissura de tudo,
o imperador urbano.
A todos o estado cativo era
tudo o que cabia.
Junto a ele, pólvora, ferro, germes,
várias idolatrias. Dionísio.
Voou ares de mares.
Desbravador. Apontando
no astrolábio o centro da civilização,
o lugar donde jorrava mel,
sem vida.
Travestiu-se de terra, deus,
contudo escravizando pelo seu tato.
Parecia belo e justo,
parcimonioso nos modos
o imperador urbano.
2933. Teoria
No continente insular
do feitio humano
– bem no dentro –
mora um delta
desaguado pro interior
de água mareada
olhos adentro:
dois globos de íris-ilhas
que almejam outros astros
postos alhures de suas órbitas.
2932. Salmo da chuva radioativa
No claro momento explodido
os córregos de iodo dançam
nos átomos mutantes
– em cogumelos e macacos –,
pelos prédios grossos
os humores pesam, vaporizados
e rumo ao globo, abraçam
concreto e carbono
manto isotópico que nos aquece.
Dia a dia, em tudo,
nuvens cegas-surdas tremem,
respingando nos corpos éticos.
Avalia se não se sabe a divisão:
mil vezes mil – às vezes –
alterando o chão onde pisam
pregos e pedaços de mundo
puro amor ao fim dos atos.
Coito alento, atento
aos mínimos pedaços
para o prazer do fim.
2931.
No teu cabelo negro
se ocultam raios prismados,
feixes.
Em que velocidade andará ele,
tão beija-flor parado no néctar,
extasiado?
– Anda, deixa eu enrolá-lo,
aqui neste colo
florindo, um jardim
como a primavera.
2930. Chama chama
Esse agudo
no peito
que embaça
a visão,
é o grave
de dentro
que queima
em combustão.
2929.
A realidade fragmentada.
Alinhando o céu, o continente e o subsolo,
num grave risco,
num longo verso,
pausada e candente dança
que a luz embaça.
A esmurro abertamente bento,
desnudando o desejo e o dia.
O que te acorda ainda não morre.
E se vê toda a espera,
brevidade póstuma predestinada,
irromper em teu espírito
o fluxo e a ideia.
2928.
amor, diz assim no ouvido
que basta
que esse caos acometido
não tá metido
até na minha cara
2927. ignição, ignorância, matéria pura
a ígnea ação
transporta, bruta
a ígnea ânsia
abjeta, puta
2926.
Ataca a face a dor e a escuridão
naquela noite indigna da mesma cama.
Fixa a teia que nos une
como a presa à aranha será uma,
introduzindo no veneno a apatia e a cidade
o todo refletido nos arranha-céus espelhados.
Avançando em tua face,
milímetros de labaredas
em rios de lava, a rocha bruta,
livre da solidão da solidez. Flutuada.
Certo que dormes neste tempo de trevas
à alta hora. O afago vário
te dilata já no estômago
um murmúrio de ódio:
fetiche e brado.
2925. Para o Pássaro Proibido, com carinho.
Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me encena um ato público
Me ensina uma canção
Me acena uma gesto mímico
Me insinua a cultura da produção
Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me insere na indústria midiática
Me insufla a inspiração
Me encerra no ato poético
Me estatiza toda a criação
Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me acentua a espontaneidade
Me assessora na elaboração
Me inculca o drama
Me assiste na televisão
Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me encoraja o dom
Me introduz a projeção
Me envolve nas cifras
Me investe apenas um milhão
2924. não é ideia
o corte é na pele
e quem disse que alma não sangra?
verte um líquido viscoso e verde
a geração de caim
não quer se alimentar dessa esperança
e mesmo os hematófagos com sua sede anêmica
não lambem
mas o corte é na pele
e a ferida é na alma
laços entre a planta e o animal
quase um fungo
um cogumelo cinza aberto na tampa e azul embaixo
orelha de pau pregada na cabeça
com esse corte na pele
a alma morre
como se atar aos prédios
pelo pulo
e pelo espaço singular entre o topo e o asfalto
massa entre vários reinos no fundo
sangue verde coagulado na pedra
alma é matéria
2923. proposta
se liga na proposta
não se faz jocosa
para, leva a sério
escuta a rosa
sente eu dormindo
em suas costas
o vento murmurando
eu quero, cê gosta
então tá, a gente sabe
que mundo bosta
mas não faz troça
vamo aí
só um quê de bossa
parar a fossa
aquecer o que possa
daqui a pouco o inverno vem
a cama é nossa
a rima roça
dois pés gelados
meu fogo toca
nós dois assim
pralém de troca
um tanto zen
o incenso percola
dois doizim
só pra ver se descola
um riso fácil
pro piratão da hora
eu levo o beiju
e um beijo
pra larica que assola
eu paro, vixi, extasiado,
enquanto você me olha
a gente apaga
abraçado, a noite demora
bem de manhã
você acorda
me dá corda
me namora
te amo e, ih, já deu a hora
um banho ligeiro os dois
juntim pra economizar por agora
um café forte, uma piada
e a cara pra ir para fora
cada um prum lado
pro corre do din que logo torra
e o dia inteiro, ligeiro, na tora
pensando que logo mais
eu chego, cê volta
meu beijo, você dengosa:
“macarrão meu bem?”
ok, eu corto a cebola
e você faz o que gosta
assim, não sei se aposta
aprova e se topa,
mas e aí, curtiu a proposta?
2922. adereços preliminares
colares
contas
todas
tantas
cores
pescoços
calores
pecados
peitos
pulsos
arrebentando
colares
contas
todos
corpos
tantas
cores
agora
pelos
pelo
chão
entre
cores
gotas
pausas
apelos
pelos
súplicas
entre
entes
gotas
pingos
cores
corpos
pelo
chão
pelos
vãos
vão
2921. oṣun
2920. céu da pele
essa coisa amorfa
que se limita diante dos estratos do céu
mesmo que apesar do céu
são os verbos que acionam estrelas
e também existência do que morreu anos-luz
e eu existindo ainda assim
resistindo tanto céu
no infinito aconchegante dos átomos
que se iludem desde que ao mundo vim
2919. ocidente incidental
de lá do além adiante
desse oriente acidente
sente-se todo o acinte
de estilhaçar o horizonte
ao óleo negro que besunte
2918. na folia
enquanto o caos o acompanha
ele apanha seus sentidos e apanha
da companhia dos rostos, da sanha
enquanto o turbilhão agita a massa
sua compressão é tamanha
de dimensão tacanha
pura manha
cama feita no asfalto não acalenta, arranha
2917. então eu vou
em algum hoje
andando num agora
morrerei amanhã
sem o afã da surpresa
sem esgueira
sem a eira e a beira
talvez escorado numa ribanceira
em algum hoje
o agora será visto
quando morri no amanhã
sem a perplexa tristeza
sem o plexo das teias e das veias
sem inteira
ou meia parcela de presença
em algum hoje será
quando for agora
minha morte no avesso do amanhã
sem o tombo da rasteira
sem o pé da dianteira
sem a lida das feiras
certo que igual
só sem minha teima
2916.
antes de ser provado
preciso ser provocado
provar o oco da
minha cabeça
só depois de negado
2915. passeio público
cada pouso
do pé no piso
pulsa peso
e pia poesia
– pausas digitais
pegadas de
havaianas na
pedra fria –
pedaços de
percalços
pregados pelo
passado de uma trilha
2914. caa antiga mata cantiga, canção que são
2913. a hora presa no umbral
do batente pra lá
o concreto torra
certo de que no
asfalto longe
o que emana é a loucura
do batente pra cá
o tempo se transporta
em vagos decibéis
de muriçocas e tapas pelo corpo
e sal liquefeito na pele a escorrer
vibra uma calma tensa
beirando o tesão
único e impossível
resultado para essa equação
cujo coeficiente
é essa hora que avança
e chega mais para trás
2912. científica ficção postética 8
Depois da ceifa do sorgo
na noitinha vindoura
faríamos saraus espontâneos
recitando loas e estrofes
para a cara redonda da lua
Enquanto isso a marica
ajoelhava um a um na roda
e um samburá de amendoim torrado
no meio dava a liga da fome
Um disquim do Emicida
compartipirateado pra finalizar
e Dom Vitim contando histórias
para os filhos dos outros
enquanto pitava um porronco
sobre um tempo em que arte
chegou a valer milhões
não como naquele agora
em que ela valia o mesmo tanto
que se vivia, pois que
como as ondas que no ar nos uniam
ela era então também a própria vida
2911. De raspão
Quando o silêncio ocupava
o percurso entre dois pontos,
esse quando virava onde:
o espaço diluído que preenchia
o lugar havido entre os dois:
uma reta final
ou uma curva na abissal do infinito.
2910. sete da noite
assim no afã
do calor louco
brisa bate sã
corre forte até
que no vento
vem grave
dona iansã
2909.
caem reis
dinastias imperialistas
apoiados pela demo-cristã-cracia
da águia
que não mais voa
rodopia
do tio de mente não sã
mas sadista
da união idílica das
nações de hipocrisia
com seus paraísos terrenos
feitos em areia sem argila
bradam aos berros
quase por telepatia
com todo o seu aparato de mídia
que caiam todos os reis
sem qualquer nostalgia
mas do mouro cairo rouco
que sequer disse metade
do que se queria
mostram apenas as imagens
dos gritos
da correria
penso sempre que alá
mostrou outra forma
de fazer política
e que talvez um conflito entre deuses
ponha jeová na berlinda
e quem sabe até essa aparente
chinesa falta de fé esquisita
não entra na fita e nos diga
que no fim a Verdade
só se mostrou pros jainistas
2908.
quando é
físico o
cansaço
quando a
fome é
o enlaço
você não
pensa
direito
e muito
menos
esquerdo
você é
guerra
no centro
veneno


