antes que eu te ame
eu te digo que não te amo
porque te amo
Categoria: Poesia
4050. ♀ casa XII
quando minha mulher me adentra o meu profundo espesso conexo espelho do além medo e correspondência dos céus cá, meu amor é por mim, meu desejo eu mesmo.
4049. expoente zero
força e leveza como
a soma e resultado
da equação em elevação de paz
mas na raiz
todo amor guerreia
4048.
li nas pedras da ruela
em letras pretas
que escorriam pequenos
fios de sangue
“o mundo é das pessoas que sonham”
e todo pesadelo é sonho
e todo algoz dorme
e todo sonho acordado
vive
4047.
Te amo,
como as nuvens ao encontro do lamaçal;
como o pântano esbarrando em beijo o arco-íris vindouro após o temporal;
como a chuva irradiante de clarões solitários dentro do estrondoso encontro das paragens solares que esfacelam o lodo, o limo, o lume, o brejo e o adentram em ondas fluidas de espessura e cor;
como o movediço manancial de plantas derretendo ao ácido dos alagadiços pegajosos de visgos de terra e barro e matos feitos betume incorpóreo e denso diante do céu límpido e azul de aprofundar-se nos vastos retalhos fractais que engendram engrenagens invisíveis até a escuridão do profundo sideral que é teia e movimento e espelho daqui e de além.
Te amo,
e é livre.
4046.
Para que esse estertor torto todo?
O controle te controla: trave!
Tolde e molde e tolha.
Aceite essa trolha
que tudo te prende
te ata.
Carvalho, o carnaval
é só orvalho, o aval da carne
para os nódulos das grades cinzas,
caralho!
Um cala boca loka
no grito efusivo e explosivo
da turba turva confusa.
Não há desbunde,
só controle
só consolo
como troll, freak control,
fucking trolha.
Abaixe a guarda, Carvalho,
não existe voz interna,
só o aglomerado urrante
das expectativas outras
marchando na sua cabeca,
mexendo nas suas têmporas:
sentido!
4045. tautologia do espírito entre a destruição e a ascensão
recuperar o ar e o arrepio na cabeça
entre o anseio pelas granadas e a degola das cabeças
meditar cada dia cinco minutos a mais adentrando o céu
transmutar a dor dessa terra pelo céu que nos é imposto
admirar o barco zarpando pela pele até tocar as folhas das árvores
rebocar as paredes com sangue e cimento cozidos durante os périplos dos vagabundos
arrebentar-se nos corais das bocas em palavras multicoloridas de peixes e paus
significar os estratos das camadas de gente empilhada e as hordas de terroristas puros
de perto tudo se ocasiona nos ocasos do oriente que arrebenta e cinde as camadas dos hemisférios místicos
é tudo uma constatação abaulada e desidratada que busca as nuvens
nenhuma utopia ainda
heterotopias de heroicos héteros habilis rasgam minha face
e as granadas e as cabeças rolando
e o arrepio na pele à primeira hora da manhã
ainda há de ser um encontro possível
para a vida
como permitir-se pássaros pela cabeça
diante de uma serena explosão
4044. Carvão ativado
sob meus poros
luz calor e pressão
diamante bruto brota
4043. OU
Sem cascos nos olhos
o branco do lado escuro da Lua
desentranha o arranha-céu
pulverizado em pétalas de cravos
e o galope da vista dilata as premissas
de enxofre e metano
que se sentem com as costas das mãos
e com o dentro do trabalho de outrora
o sangue cerca o eclipse solar em marte
halo de labor afetando os vales
e meu amor se estaciona num avarandado
de 1935
cá nas brenhas dos trópicos
dum intento de arrancar corações
e costas dos pombos negros das mesas redondas
de gravatas borboletas e helicópteros
que capturam a aurora da vida
Mas se em cascos d’olhos
em trote e pupilas diante do barlavento
a escuridão do solar lado lunar
e suas flexões de uma fluida chama
que antecede as órbitas dos seres
e desorganiza as águas moventes
descampa as folhas monolíticas
e puxa a seiva da raiz mais magmática
magneto que conclama o ar à vida
e a água à morte
como toda pedra abre-se ao gosto acre da flor
e toda casca silencia-se num grito de humos
numa gargalhada de terra
num silvo de solo
que me livra o amor a ser sertão
quando da chuva betuminosa se preciso
ou se precioso mandacaru de flor lilás
e teiú caxinguelê anil laranja
cuspindo o fogo a chama a brasa
de manter corações
e costas dos caburés vermelhos das rodas
de batas brancas e nuvens
que arregaçam a aurora da morte
4042. bodas de plástico
500 anos de relacionamento
como essa garrafa
agarrada na praia
grudada pregada
semi pra sempre
presente
sem deixar vida
nas margens
pet por amor
puro
amor
4041.
um amor calmo
isolado
margeado
de reality
terças quais domingos
e lá fora vivente o mito
todo amor
reduzido
ao umbigo
4040.
o pai do santo
não se importava
com suas crias
qualquer livre
arbítrio
era seu amor
infinito
terceirizada a onipotência
até o fogo do fim
4039. Significante flutuante
Cá nos pós Equadores tropicais
a trupe-tropel-tropa
troca a liberdade
pelos livros do mercado
a traz no peito o espírito libertário
da pátria amada não idolatrada,
pois para ela não cabem ídolos,
só Deus.
E aspiram à sublimação
igualitária na ânsia
diferencial de que todos
voltem para o aperto de seus armários.
Mar de indivíduos únicos à deriva
é uma massa inerme e armada,
inerte tsunami
– “A ONDA” –
que não transpassará a costa, o litoral,
apenas o submergirá
em grades e frames,
desejosa prisão.
E no final desse poema
não esqueça de dar o seu like
e se inscrever para receber
as atualizações do meu canal.
4038.
um mundo de sinais
os dedos de pólvora
cavalo louco sem papas
os mano preto aos bardos
pipoca é dois real
ela loira no palanque
o sol salgando o couro
as paradas repletas
de peles pintadas
querendo a morte
dos pele pintadas
sinais e mais sinais
dos ermos dos tempos
que a terra percorreu
até aqui, os sinais
4037.
borboleta fênix
flash no céu
feixe e fogo fátuo
no meio do mato
relampeia
4036.
Eu,
enquanto dor
morrerei
conquanto corpo
morrerei
como árvore
morrerei
entanto marca
morrerei
portanto futuro
morrerei
enfim camada
morrerei
todavia liberdade
morrerei
senão movimento
morrerei
porquanto além
morrerei
entretanto pássaro
morrerei
consoante tricerátops
morrerei
tão trôpego
morrerei
embora deus
morrerei
porque macaco
morrerei
eu.
4035.
vivíamos entre as massas
e se olhássemos o horizonte
lá estava a linha
entre o chumbo e o sangue
que produziria o por do sol
mais tóxico que já existiu
honradas as gerações
que viram as chagas e os cancros
e agora ensinam que o horizonte
tem de ser sempre cinza
para se cumprir a palavra
desonraremos todas as histórias
que nos coloquem em fumos
o avanço das auroras
diante do sol
que sempre será vermelho
4034. todo amanhã é hoje
aproveitamos a brisa quente desses dias
nos encontremos, choremos
suemos o que pudermos
o difuso do horizonte desprovido ainda
é uma imagem embaçada
nos amemos enquanto amor há
como ar
o respiremos por dentro
e piremos
enquanto há
depois de amanhã há de haver
ainda algo
meio não existente
mas tomemos esse gole
sorvemos essa cerveja
nos amemos
amemos
a mais agora
não a menos
a luta há de ser bruta
e nossas foices cegas serão parcas
mas serão foices
alguma força e ceifaremos
todos os campos brutos
amanhã
enquanto hoje
ainda amamos
4033. Moto perpétuo
Quando o discurso
contra a violência é
uma mera apologia à violência
as classes não lutam,
se perpetuam
apenas tela quente
mais furiosos.
4032.
a democracia direta
prometida para o século 21
será feita de curtidas em redes sociais
4031.
a pólis do dilema
não fica em Saquarema, Piedade, Botafogo
a pólis do dilema
fica num globo todo
sem fôlego
4030.
a orientação etílica é uma coisa qualquer coisa
não qualquer bobagem
sair de prédios desconhecidos
é tarefa hercúlea
onde o elevador?
seria escada?
depois de uma carteira de cigarros,
não
após aquele baseado infame,
nunca
uma vez passei três dias tentando sair
de um prédio de águas claras
saí do apartamento
desconhecida claridade do dia
infusão de ressaca e desmembramento
pós coito confuso
onde qualquer coisa?
peguei o contato
que nome seria?
celular descarregado
de qual apartamento eu saí?
uma escada
um elevador
outro
uma saída pra dentro
no segundo dia descobri onde punham o lixo
sobrevivi de restos de pizzas
por jah como comem pizzas em águas claras
vaguei por parquinhos e piscinas
salões de festas e halls
fiz amizade com três pets
billy, zinha e jethro
umas lindezas
dormi num quartinho que até agora não sei para que servia
flanco escroto
no terceiro dia, já sucumbido e desistente
depois de brincar de gangorra com o joãozinho
me atinei com um cara de uniforme,
segui-o
e lá estava ela, a saída
bela e espelhada
mármore bem lisinho
nunca senti saudade desses momentos
só insisto neles
4029.
não estou aí
isto é uma ausência
cada posto tira
daqui desde o agora
e transpõe o
que interna
até o que tem alta
e conduz o impulso
armazenado em impulsos
como se estivesse
mas não está
cada palavra é
uma ausência
construindo uma ponte
eferente
entre um instante e
outro
cada lapso é
uma presença
destruindo a autoria
aferente
entre o tido o dito e
o dado
[consumido consumado]
4028. périplo XXXVI: fecha VIIII abrindo

“Se não tens fé, olha para o outono.
As folhas amarelecem e caem, caem,
cobrindo ao mesmo tempo a montanha e o rio.”
era baco exu do blues
repetições de padrões energéticos
de matéria translúcida
navegando pelas eras de brahma
stellium de sol mercúrio júpiter
em escorpião na casa IX
ema no céu de novembro
quetzalcoatl vomitando vênus
guiado por viracocha e oxalufã
cajado rompendo a areia branca
as nuvens de algodão
molhadas de chumbo de água agridoce
da célula matter rainha herdada
da avó materna e sempre mãe
yemonjá que era rio que virou mar
que banhou o ar a evaporar
que virou chuva fina de ayrá
e fogo de brasa pisada de pisar
era a repetição magnética
encarnada em alvo manto
a consciência retomada parte a parte
o momento que retorna e retoma
a forma das formas sheldrakeanas
virtualidade da árvore na semente
frondosas faces de uma gameleira
donde repousa guaraci e marabô
de raízes que rompem o barro
desagregado pelas mãos de shiva
remodelado pela própria manutenção
solo seiva dentro das sendas de vishnu
sete campos abertos espiralados
pelas vias das galáxias
um termo desperto que visualiza
osíris em sua barca pelo leito lácteo
no emaranhado da matéria negra
um termo que dorme o pouso
sereno das plumas avoadas
de uma pomba branca envolto num alá
tapete mágico dos sufis do deserto
um eremita ilumina o sol do sacerdote
a solidão súmula do desafio
da iniciação interna e aderente
prenúncio da libertação luminosa
a respiração recolhida da gruta
chama a terra a viver
há que se caminhar com alguma luz
o antigo caminho do mistério
4027.
nesses últimos dias de domingo
falarei dessa massa
definida entre garganta e ventre
redoma dos pesos que saltam
ardidos das costas ao peito
nesses últimos dias de domingo
o sal da terra, de frutas,
fervilhando as imagens
absorvidas pelos dedos,
gástrica emoção não digerida
os solavancos desses últimos
dias de domingo
no refluxo da dilaceração que queima,
amanhecerão segundas e terças
e últimas quartas e sextas
com meios de quintas e brasas
o eterno retorno das semanas
4026. coração, o terapeuta de bolso
salgará
calmamente o
estanho do projétil:
meu amor
como as farpas
de uma Transilvânia
mítica,
meu amor
como os solilóquios sequiosos
de pássaros nauseabundos,
meu amor
como um ventre
cauterizado por filhos
irrisórios e risíveis,
meu amor
como a lua embaçada
pelo míope clarão
das órbitas,
meu amor
como veneno
sorvido num pic-nic
colorido e colaborativo,
meu amor
como as marcas dos relhos
dos homens
pálidos, rosas e vermelhos,
meu amor
sem nenhum alento
4025. baba
o que se quer?
já se quis?
a liberdade contingenciada
nessa máquina de volição
o livro do arbítrio comprimido
nessa cápsula de vontades
livres
a tradicional família cristã
herança de pai e mãe
e domingos de chacrinha
escorregando pela boca
loka
e a falta de potência
canonizando mais um
guru filho da puta
carcomido
4024.
acordei num solavanco
quatro horas se muito de sono
e um sobressalto
suado
havia sido um sonho desses acordados
meio controlado
como visualizar a palma
da mão até o voo desprendido
contudo
não existia mais o resquício
o vestígio
só uma pista:
eu havia dormido
e quando acordei queria
a morte
suada
não sei o que me sabota
se a insônia ou o sopro
raivoso de lá de fora
e ainda tem a possibilidade
do de dentro
meus olhos estão baixos
e tudo me abandonou
como os pássaros diante da noite
repousam o que não dormi
eu quero a morte
como quem se desprende
de todos de todos os pesadelos
somem mais um bom punhado
nessa equação onírica e espiritual:
meu carma não está em coma
é mais como um abscesso
300 gramas esperando
parar para a próxima tentativa.
4023. Pois, quando quereis?
Fiz trovoar as páginas de notícias
adentrando-lhes as nuvens carregadas.
De pronto
de cada território descolado
soergueu-se um olor de terra
molhada por sangue visceral.
Por dentro do novo milênio
Maiakóvski sampleia
seus estrondos retumbantes.
Estamos tristes,
é certo,
e como nunca por que motivo
poderíamos dançar a ciranda?
O céu do espaço
é diluído chumbo.
As zoeiras
e os relhos
iremos transpassá-los,
dissipá-los aos pedaços,
rasgando-os
como um míssil despedaça
as nuvens.
4022.
sereno espero as bombas
no sereno da noite
e o momento em que me
calarão com um clarão
e um estrondo
envoltos em uma bandeira
em coro de torcida
dentro de um barril
de troia de pólvora,
até me subjugarem
com amor me degolarão
a mim e à outra,
outro a eles pois se nasce apenas
minha, nossas cabeças rolando
ladeira abaixo
chutadas como bolas
olhos transitando entre
o céu e a terra,
serenos, pelo sereno da noite,
com a chave decodificadora
do apocalipse que urdem
vazando em nossos peitos abertos
e chacras despertos
até que eles virão e tacarão
fogo em nossos restos
no espelho da fogueira
que acenderá o pavio
dentro do próprio barril
de troia de pólvora
4021.
não colonizarei
pois não carrego a verdade
e nem anseio percorrer
os mares e enfrentar
os monstros abissais
no lombo de uma 4×4
alada e que fala com
os deuses astronautas
não, não colonizarei
não possuo a lanterna,
a luz, o fogo
a faca, a foice e a bala
se a dor do outro
é puro ardor adormecido
e não adentra
é porque a tua dor
é tão intensa que
nada além perpassa
e quando o corte for perpetrado
no invisível diário
não se assuste
lembre que você não foi
minha colônia
eu te acolho
4020. liberte-o
nada é igual
toda semelhança
não é fruto, fruta,
polpa, sumo, seiva
do outro
é a sua raiz
presa a um solo infértil
presa, há um predador estéril
4019.
onde estará aquela fluidez
das pessoas desamparadas?
hoje qualquer pele vira vício
e uma voz reticente: se você…
todo espírito vira mestre
e um treinador: se você…
onde andarão os desamparados
que vagavam sem esteios e estacas,
ávidos?
morreram nas próximas temporadas
e na cova das fábulas literárias
apregoados no campo aberto
por onde o vento segue em todas as direções
e amparados pelo próprio fim
4018.
Quando vem e somem
preguiçosas por mover a mão
ou esfumaçadas na semi-lucidez
da penumbra
Olhos cerrados
e as destemporizações
do inaudível
Os mais belos versos
dormem com meus sonhos,
inaudíveis além
Todas as interlocuções
alquebradas na alucinação
do princípio,
finalidade da realidade
Os cânticos urdidos
na esculhambação
embaciada dos horizontes
Só eu os ouvi
Mais que melodias
foram melanomas
manuseados pela mutação
do universo
a cada rajada
da artilharia dos céus
Silencia os sonhos
e só responde quando perguntado:
por que a verdade
é inimiga da realidade?
4017. vozes
qual seu lado que fala?
fala?
escuta?
quando ouve o que vem,
vem? veio?
quando fala que timbre tem
a voz?
tem voz?
toca dentro, há tom?
é uma repetição
eco de algo sem identificação
sem rosto, tônus, boca, corpo
ou é visível, seu?
vem de montanhas
do peito
entranhas?
por que, então, senão, fala?
4016. Orgônio
Andar por entre esse complexo de átomos é coisa que não depreende liberdade. Os signos tatuam um certo sentido de coesão. Coesão. O eletromagnetismo pós-gravitacional também. Tudo meio, canal, conducto. Conluio. Eu espero e não espero. A prisão de ficar bem, a cadeia de ficar zen, a masmorra de ficar mal, os grilhões de ficar caos. Cada aglomerado de moléculas é uma traição perceptiva. Todo embaralhamento mental cerebral é apenas manifestação desse ponto, desde aqui, que reflete o todo. Engodo. Sombra e luz como ângulos e adentros e porforas. A musculatura é reflexo do estado total, fleuma, fórmula doentia. Eu te espero no fim, ou seja, desde quando começou. Gametas mais gametas, produto não quisto, pau atravessado na buceta, entre líquidos viscosos de tesão e tensão, uma decisão e a coisa dada: existência. Talvez mais, talvez menos, mas do mesmo. Existe postulação mais carregada de fado? É sina. Liberdade não existe. Existir é momento, não escolha. Contínuo do universo. Com ti, nó, nu, de um e verso. Universe.
4015. Dias d’s
dissolvendo digitais
digitando digitanto
digerindo diagramas diagonais
displays distantes dentro
diametrais
dedos duros difamando
diferindo disparando
dharmas deletérios
deletando descomprimindo
dias demônios destemporais
destemperadas digressões
domadas dóceis demais
deduzimos dedos dízimos
dores de dados decimais
dados dados deliberados
delivery de dunas disponíveis
dispersos demais
4014. Anatomia do desterro
Um corpo grato
aberto opaco, pedra difusa,
ranhuras externas
no semibrilho das lentes quebradas
Alquebrado, o corpo inerte,
reveste-o os próprios cacos;
parte nascida por ali
um pedaço made in Thailand
a junção axial restada alhures
visgo da águia reconhecido
nos tecidos ideológicos
do amor à violência
Digno de nota: o corpo se contrai
ainda passado trinta e duas horas
do dispositivo desligado,
ritmos cíclicos de dez em dez minutos
os dedos deslizam no éter
Massa lodosa à semelhança de
molho pesto receita tradicional
pilada à mão em pilão de pedra,
localizada na terceira interseção
de bílis – negra – e sangue pisado
– à direita do lóbulo inchado
intestinos adentro
Localizados dezenove olhos
todos aos pares
vesgados ao mesmo sentido central
umbílico, denota-se sensitividade
epigástrica morta
neste repositório – quente ainda
por ventura – desfuncionado por
gorduras trans e pans
Nenhum reconhecimento pátrio,
solo desgastado abaixo de um
rasgo de tecido amarelo canário
parecendo haver havido um músculo
involuntarioso sem ciclos ou ritmos,
parado desde antes do desligamento,
notável visualização
Todo o sangue ainda envolvente,
full hd vívido red and blue,
escorre sentido norte
motivo gravitacional plano
para onde vivente almejou
Algo coreano, passível pâncreas,
passivo duodeno, possível pulmão
resfolegado de fuligem
desindexada e livre cambiante,
possui uma bala israelense
terrificada como testemunho testamento
Muito pus, muito mesmo
não havia mais raízes,
só abcessos ancestrais
do proterozoico superior
diluídos por uma camada de
bacon, cheddar e gasolina
O odor dos órgãos ganhava o globo
4013.
Os ipês tão florindo na chuva
e os mortos enfileirados
cantam para Iku.
E eu amo Jorge, amo o cavalo,
amo o dragão, a espada e a lua.
Eguns comem pipoca de
canjica branca,
eu moro na roda dos coletivos
num agosto frígido,
cativo do coletivo morto
perto da feira que brota
novamente
revigorada e enramada
pela chuva de agosto,
rara,
que expele flores de ipês
aos solavancos de Oyá.
4012.
a pornografia dessacraliza o ritual
– os ritos eróticos mortos –
poda o processo imaginativo da fantasia
exacerba a expectativa
em desempenho e potência
a pornografia é uma escrita
na memória das horas que rasura
toda tecitura do gozo
destoca o elaborado do toque
desaproxima pela próxima do próximo toque próprio
a pornografia é irmã do moralismo
4011.
quantas vezes eu me estuprei?
ao me exigir uma potência inexistente
uma voracidade impalpável
e ainda assim ali
mente em estado fantasmático
corpo em modulação mecatrônica
igual à fábula pornográfica
ansiosidade meia bomba
a qualquer momento ele brocha
eu
só partes em animismo esquizoide
caçador de imagens meio afeto
meio objeto
eu
abjeto
nojo interno, bastaria um não:
não precisa, não agora, não
pelo dever composto
de dar substrato aos pelos
e à paisagem pélvica
morro testemunho do macho habitado
potencialmente inerosível
a lição do consentimento
inegavelmente vinda da outra
também tem de partir de mim a mim
4010.
quando desci até o profundo
havia uma disposição enramada,
em cada bifurcação mais uma
e só se avistavam bifurcações
qual das mil me levaria
eu deambulava em digressões
em cada ponto bifurcado
algo que transitava nos dois lados
e um cérbero cobrando do cérebro
um óbulo pela travessia
nada era fácil depois que minha face
havia se estampado no mundo
era preciso retomar o rosto
o contorno da minha imagem
as curvas que transpassaram os anos
e enrugavam ao solavanco dos outros
no profundo da superfície
qualquer jogo te diz quem você é
mas as sendas era múltiplas
e nenhuma era minha, eram marcos
onde eu perdi o trajeto
já não era possível o percurso
nenhuma visão se contempla espelho
quando a luz não vem de si
cada caminho era o calcanhar dos outros
que pouco intuíam do arrazoado
dos passos a serem dados,
apenas formavam faces com os pés
e os pés bifurcavam dedos e dores
que eu seguia no profundo da superfície
para
onde
4009. Treme
Um tempo de têmporas e reviradas,
sempre soube que o passar desvia o eixo
que o fato não acalenta a lida
e o pouso se intromete nas cercas
Um trajeto de sangue e revoadas,
nunca disse que a trilha era do início ao fim
que o marco não enganaria os horizontes
e que o fluir não desintegraria as raízes
Eu ponderei o pó por onde andei
e perdi o rastro na poeira levantada
As partes não se encaixam
num mundo de calor e gelo
Há o que comprime e o que expande,
uma revoada de bichos solitários
na noite mais clara que já existiu
Perdi a tessitura da claridade e da escuridão
como todos os bichos se esquecem agora
o translado para onde
Onde urge um fim
4008.
a cada dia a carne cansa mais
as noites, todas iguais
as camas, subnormais
as festas, farsas, sinais
o espírito do tempo, sem cais
o sorriso, obrigado, não traz
uma pressa de esperas
de esporos por abrir plantas
de esporas nas costas
de esporros internos
os infernos não esperam a morte
eles nascem e renascem
todas as vidas em dias
4007. azeviche
dentro
pedra negra
lapidada
encrustada
de lápis-lazúli
seu brilho negro
não cega,
ilumina sonhos
mar de ônix
no breu que se enxerga
4006.
Dentro da caixa
apenas fios emaranhados
novelos embolados
nós,
cortes bruscos
retalhos
coloridos sinais
Alguns nós já cegos
não desatam mais
viraram cordões de macramê,
outros uniram pontas
secretas
os fios do passado
preenchendo os carreteis futuros
Outros fios permanecem ali
meio soltos
meio presos
meio tecido desfiapando
Tem esses fios que insistem
em ser ponta para uma costura
linha pra pipa
papagaio, pandorga
voo ao vento no céu de inverno,
o que liga as mãos
ao que voa ao ar
Não são fios emaranhados,
são bem conhecidos, soltos,
se puxar eles se vão
De quando, eu puxo
mas não tem fim
passam pelo todo
se aninham além novelos
dão o contorno solto
pelo todo do embolado
E são longos, firmes,
todas as cores
os mais visíveis
nunca acabam
O amor não tem fim.
4005.
Nos campo do Sete Estrelo
ficou tanto bem-querer…
Mas é um mundo que impede o amor
Ponta de sabre na garganta
apartagem de dá aperto no peito –
sem aproximação
É um mundo exclusivo, vip,
para poucos não,
fora raros,
para-egos.
4004.
A poeira toma conta do chão,
dos móveis, dos imóveis, das coisas
imateriais
A poeira toma conta da mente,
do espírito, da
fé
É um pó fino, restolhos de papel,
grãos de arroz, pelos, partículas de peles
primatas
Eu me perco na poeira
fico parco,
pó
Me entremeio
nesse mar de
fragmentos
Em qual lufada de vento que
me perdi, não
sei
Parece que não há como juntar
e às vezes junto tudo debaixo do
tapete
Mas tudo espalha de novo
pela casa, pelo todo, sem
firmeza
Só voos e estacionar
Poderia ser bom, ser lindo,
delicado, livre, mas não
é
É apenas um espalhado
de partes e sujeiras, por toda
parte
Sem fim,
sem firme, ser
despedaçado
4003.
o que sobra são as partículas de pó de julho
junto a junho e vento seco
som de lua e luz de cheia quase ainda
o que sobra o peito aberto sem espanador
por perto um observador
interno externo
ego superego
rolê de rolas
ambulantes falos
falantes paus
proto pensantes
e tudo antes que algo preencha
o que sobra é a sombra solene
selvagem e silenciante da paz
semblante de sóis ao sal dos olhos
o que sobra é o assombro de uma
tarde que finda
sob olhares herméticos
de alfas-ômegas machos
no ocaso dos bastiões
bastões e porretes
o que sobra são os seixos
que rolaram eras atrás
rocha e rolagem
findada pelo explode pop
das engrenagens
roldanas por erguer
peso morto
como o peito vazio
o que sobra é o insumo
para o consumo
preenchido prisma
refratário de luz
que apaga
o ocaso do horizonte
o orí do azimute
o eixo deslocado
e o córtex da galáxia aproximando
o que sobra é o que completou
a necessidade
essa noite quase são joão
que paira e queima
e inteiramente plena
navega no vazio do peito
até cair breu
e avançar espuma pelo
frio da manhã,
sem vida
4002.
tudo aqui te espreme querendo dizer te espraiar
as células nas mãos espremem mais ainda
a fricção do aperto azul
rasácea figura de áurea elétrica
imãs e mãos