0094. Acerca do tempo

No porta-retratos
Ao meu lado
Lembranças de um passado
Descompassado

E na parede branca
Em minha frente
Um futuro perene
Segue rente

Marcas pretéritas
Do que virá
E ao presente marcará
Apenas máscaras

O tempo voa em imagens
Que não sei se podem vir
O tempo voa em imagens
Que não posso conseguir
O tempo voa

O céu escurece
E na minha mente
Segue-se o presente
Ainda ausente

No quarto escuro
A vida ofusca
Envolta em bruma
Que vem da rua

E tudo contorce
Na melancolia
Que aumenta dia-a-dia
Sem alegria

O tempo voa em imagens
Que não sei se podem vir
O tempo voa em imagens
Que não posso conseguir
O tempo voa

0092. Deixai mostrar-se

Pensei em querer te amar
E por pensar, realizei o ato
E por querer, quis-te de fato
Quis-te agora
Quis-te naquela hora
Quis-te por todo o tempo
E ele se mostrou eterno
E se mostrou lento
Mostrou-se vento, lenda
Mostrou-se amor, sendo
Foi tempo e amor
Ao mesmo tempo
E o amor amadureceu
Pois foi andando com as horas
E de cansaço e pieguice
O amor-tempo não morreu
Pois o amor-tempo é flora
E com o passar do tempo
O calor da chama se renova
O amor-tempo é primavera
E por se mostrar ele prima, verá que é assim
E o espaço é tio do amor-tempo
E a lua sua prima, verá espaço sem fim
O amor tempo é verão
É chama renovada, todos verão
O tempamor é inverno
E todos verão e dirão:
Vim ver no fim do dia
Vim ver no inverno a alegria
O tempamor é outono
E por ver e ser todos dirão:
Ou to no passado
Ou to no futuro
O outono trás novos rumos
Para o amor-tempo que corre
Que cresce e escorre
E molha e banha
Banha a mim e a você
Pois o tempo-amor é sorte
A sorte de um acalento
E quando pensei em querer te amar
Sabia que este amor
Seria amor e tempo

0089. Grito de liberdade

O que há para pensar?
Agora você é outro
Sua flora consciente mudou
E sua floresta da vida
Renasce como Fênix
Das cinzas de seu outro
E ainda dizem que você não mudou

Dizem também
Que você não está bem
Mas eu sei que você está bem
E sei também
Que você só anda preocupado
Com seu tudo que virá

Eu sei que você quer gritar
Um grito de liberdade
Que correrá por todas as suas veias
Por todo o seu sangue
Até se misturar ao seu suor
E sair por seus poros
Decretando que você está livre
Livre para agir conscientemente
Livre para agir emocionalmente
Livre para agir por si
E só sei isso tudo
Porque você sou eu

0091. Proposta

Nunca pude viver desse jeito assim
Este banhar-se em prazer sem fim
Prazer que se confunde com tu
Como mergulhar numa nascente azul

Para mim tu és amiga, irmã e mãe
Tua boca, saliva e champanhe
Tens a fonte que ilumina meu viver
Sem teu sol a minha lua irá morrer

Mas morrer de amor é sorte
Se tu te personificares em morte
E viver será quase um sonho
Quando puderes me amar, proponho

Foi latente, esse amor foi como luz
Este raio agora só a ti conduz
Envolver e aprisionou a minha alma
Que só perto de ti é que se acalma

E por isso é que eu rogo: me fale agora
Pois não posso esperar mais a hora
De escutar que me ama e me adora
E do teu coração não posso ficar fora

0088. Kiribati e aqui

Em Kiribati há igualdade
Aqui quem tem é tão igual a mim
Quanto uma parede ao ar
Em Kiribati a igualdade há

Em Kiribati não há tempo
Aqui quem, como eu, nada tem corre atrás
Pois tempo é dinheiro
Em Kiribati o tempo não há

Em Kiribati não há dinheiro
Aqui quem tem, explora os iguais a mim
Porque quem tem, nunca tem suficiente
Em Kiribati o dinheiro não há

Em Kiribati não há televisão
Aqui quem, como eu, nada tem (e quem tem também), adora
Pois é mais fácil escutar um cubo do que a si ou a outrem
Em Kiribati a televisão não há

Em Kiribati há água azul e limpa
Aqui quem tem vai para Kiribati banhar-se
E quem nada tem ¬– como eu – escreve:
Em Kiribati a água azul e limpa há…

0087. Surreal abstrato

Meu futuro é um quadro de Salvador Dali
Que nunca foi feito
E que nunca o será
Assim como este nunca que nunca se consolidará
Meu quadro está seno pintado
Por mãos invisíveis
E tinta invisível
Invisível vida que escorre numa tela em branco
Futuro,
Só a idéia eu não aturo
Como a invisível tela em branco de Dali
Que dali tão cedo não sairá
Pois meu Dali neuronial espiritual está cego
E não distingue a tinta viva da morta
E assim, deixo o acaso pintar o quadro
O quadro não é mais meu
É do acaso

0085. Novo de novo

Há momentos em que o homem deve parar
Para fazer algo
Hoje parei e limpei o meu quarto
E por fazê-lo, limpei tudo completamente
Esvaziei o quarto e minha vida e minha mente
Pois já não há mais motivos
Para continuar a ser como antes,
Um louco errante
Agora estou limpo
Meu cabelo diminuiu
Minha barba cresceu
Meu teatro mudou
A temática é outra
Mas agora estou limpo
Meu passado e meu doente convulsionam
E não querem morrer
Sempre fui dois
Um são e um doente
Mas me limpei deste doente
E não mais tentarei sustentar
Este indivíduo insano
O qual lhe faltava tudo
Não mais sujarei-me em vão
Com aquele ser que sempre foi insão
E que dividia a consciência e a razão
Do ser limpo e são
Sinto agora apenas espasmos
Do ser que ainda tenta vegetar

0086. Amaramar

O ar, maravilha
O mar, maravilha
Amar, maravilha
Mara, a vi em uma ilha
Maravilha
Mara, certa de ar
Mara, cercada de amar
Ah Mara, maravilha
Cercada em uma ilha
Cercada de ar, mar e amar
Acerca do mar e o ar e o amar
Somente Mara há
Só na mente de Mara há
Amar, mar e ar
Ah Mara, amaramar
Maravilha
Ah Mara, saia logo desta ilha
E não vire Maria

0083. Consciessência

Confuso distúrbio difuso
Eu e o mundo
Cansei-me de tudo
Não sei qual o rumo
A vida apresenta-se
Como o tempo do cerrado
Ora a vida é seca
Ora a vida jorra dádivas divinas
Só vejo olhos oblíquos e dissimulados
Deve ser a minha ressaca
Que amarga o que meus olhos tocam
Depois de um licor de neurônios perdidos
Ainda outrora senti a faca
Que rasgou minha alma em duas
Uma facada dada por mim mesmo
À traição, pelas costas, sorrateiramente
Mas lobos me avisaram para não me apunhalar
E coberta de vermelho fui atrás de lobos
E eles me aceitaram não aceitando
E aos poucos fui assimilado
Flashbacks cortam o tempo
E minha consciência convulsiona e soluça
À procura de sua essência

O que quero mesmo pe fulgurar-me
Em uma calda de Boitatá
Ou na cabeça velada de uma mula sem esta
Ou então gostaria de girar
Como um saci-ciborgue em seu redemoinho
Até banhar-me junto às sereias
Numa lagoa bonita
Onde Mãe D’água reina soberana
Até que Tupã mancomunado com Zeus
Mande-me ao exílio
Um exílio interno em plutão
Plutão encefálico e encoberto

Uma névoa de gererê incomoda
Mas Hércules fala para não me importar
E para lembrar-me do passado
Agora ondas sonoras graves e agudas
Batem estaca em minha psique
E eu viajo e nem preciso da névoa
Porém, o mundo continua conturbado
Dentro e fora
In and out
Acá y afuera

Ai, ai… o que quero mesmo é integrar-me à banalidade

0084. Ex eu

Era como um marginal,
Embora não tivesse controvertido
Nenhum mecanismo legal
Ou sequer cometido
Um pecado capital
De todo seu tempo perdido,
Apenas um mal:
Não ter tomado partido
Do seu medo natural
Podia ter sido bandido
Seguindo a regra normal

Mas rumos diferentes tomou
Nem paz nem guerra
De nova maneira orou
Abrangendo toda a terra
E o normal não cobiçou
Deixou o seu meio e subiu a serra
E pra trás não olhou,
Pois assim o homem erra
E tudo de matéria largou
Pois esta tudo emperra
Marcando que ficou

Agora a vida dele é mistério
E seu depois é incerto
Seu eu é estado etéreo
De um sonho desperto
Resta apenas um sortilégio
Saber se o materialismo repleto
Em seu meio aéreo
Não seria completo
Do que o estado minério
Que não se sabe se é o certo
E que pode ser deletério

0082. Flor

Procuro a poesia perfeita
É difícil encontrar algo
Diante de tantas oscilações
Ainda assim procuro
Em becos sujos e fétidos
Em montes limpos e belos
Entre meninos de rua
E suas viagens de cola
Ou cupidos ameríndios
E suas flechas certeiras
Entre desigualdades e ambigüidades
Cercadas por uma pseudopreocupação
De todos os pseudo-incomodados
Assim como eu

Eu procuro
Fingindo não constatar
Que a poesia perfeita não existe
Pois esta nunca vai ser escrita
Por mãos humanas como as nossas
Rodeadas de tanta humanidade

A poesia perfeita é inumana
A poesia perfeita é uma flor

0080. Nunca sozinho

Estou sempre só
Mesmo quando estou sozinho
Estou sempre só
Quando sigo o meu caminho
Estou sempre só
Faça chuva ou faça frio
Estou sempre só
Mesmo quando estou juntinho
Estou sempre só
Até quando acompanhado
Estou sempre só
Olha só esse ditado:
“Antes só do que mal acompanhado”
Estou sempre só
A qualquer momento
Estou sempre só
Sem lenço ou documento
Estou sempre só
Mesmo não sabendo
Estou sempre só
Quando fico ao relento
Estou sempre só
Perdido no pensamento
Estou sempre só
E essa é a saída
Ficar sempre só
Pra não ter mais briga

0081. Fugaz

A incerteza dói
A dor incomoda
Esta metonímia do amor
Incerta e incômoda

Amo-te
Acho
Tudo outra vez

Amo-te
Tudo
Da alma à tez

Então,
Dá-me logo esta resposta
Um sim ou um mão
Pois a cada grão o amor diminui
E pode durar mais
Que uma canção

O gostar é impaciente
A paixão é fugaz
E estou começando a achar
Que o amor não existe mais

0079. Nado Tuda

Tudo vale o mesmo preço
Nada é igual a tudo
Tudo é igual a todo mundo
Nada é igual a mim
Tudo é igual a vós
Nada é igual a nós
Tudo de novo
Nada é tão bobo
Começo a ver o tudo dar mancada
Tudo igual ao nada
Tudo de novo
Nada à vista
O tudo ta numa pista…
… de dança de salão
Um nada igual a um baião
Nada de novo
Tudo de velho
Como o efeito elétrico
De um tudo atravessando um nada
No meio da madrugada
De uma noite cheia de verão
Nada é não
Todo nada é tudo
Tudo nada no todo
Nada é só um absurdo
O tudo é mudo
Nada vale o mesmo preço
Tudo é só um apetrecho

0077. A viagem da mutação

Um fato passado
Uma magoa guardada ao lado
Tais lembranças deixadas
No início da estrada
Que invariavelmente
Marcam uma nova virada
Pelo caminho muita poeira ao vento
Todas sendo fotografadas
E de tudo tirei um quê de felicidade
Pois ao final da jornada
Havia um porto seguro
O qual, embriagado, aproveitei
Joguei-me e a todos amei
Foram pensamentos correndo soltos
Foram verdades consolidadas
Não falta seratonina em meu cérebro
Não existe um buraco em minha alma

O melhor modo de se viver é viajar
Numa boemia louca de se deixar
Travar a consciência um pouco
E novas experiências vivenciar
Pois o que é certo ou errado
Se você não experimentar?

0078. Porto seguro

Quão lindo e sereno é ficar à beira-mar
A nova valsa voluptuosa ocorre atrás
E eu e ela somente a conversar
Coincidências, abraços e rubor nas faces
Uma gélida brisa acompanha as ondas

Tudo se mistura e irradia luz
Hippies, nativos, argentinas
Paulistas sempre a olhar pro céu
Batuque afro-brasileiro sem cessar
Fogo interior espalhando-se no ar

Garotos legais com raiva da solidão
Embebidos de amor, jogados ao chão
Gafanhotos se apaixonam nas areias
A lua se escondendo das sereias
Muita lábia para sobreviver

Todos entregam-se às brincadeiras
Como crianças correndo numa ladeira
Passeando pela passarela infernal
Onde tudo é beleza pura
Onde é tão lindo o mundo normal
Onde sempre se colhe fruta madura
Onde abelhas voam sem mal
Sete dias de protoperfeição
Ainda bem que deixei o sonho no passado
E apliquei tudo neste futuro de ação
E como vejo tudo claro no futuro
Chega dos domínios da razão
À qual há tempos me saturo
Pois muitos momentos bons virão
Depois dessa viagem à Porto Seguro

0075. Pré-caos

Contemplo a cidade
Com paz no peito
Guerras ao vento
Veias de desigualdade

São todos ciclopes
Em mediocridade
Não possuem vozes
Ou sequer liberdade

O néon de uma pousada
Ofusca e cobre minh’alma
E a velocidade dos carros
Objetos não tão raros

Corpos metálicos no céu
Não os reconheço
Não sei os seus preços
Eu sou apenas um réu

Estamos sem saída
Cobertos em véu
Humanidade destruída
Gosto amaro de fel

0073. Súplica

Felicidade é como o amor
E por aqui ele já passou
Eu vou atrás da felicidade
Que se esconde na vaidade

Eu vou em busca da alegria
Eu vou em busca da fantasia
Que se renova a cada dia
Quando te vejo, oh maravilha

Quem dera pudéssemos ficar
Alguns momentos à beira do mar
E você conseguisse evitar
Esse seu jeito de indiferença

Eu queria um pequeno instante
E te mostraria como és importante
Em minha vida, és a primeira e única
Então, escute a minha súplica

0074. No dia em que eu voltei

No dia em que eu voltei
Minha mãe sorria em grana
Minha irmã sorria em fama
E eu não ligava para tais
No dia em que eu voltei
Não teve nada de ais
Laptop modelo novo,
Que não tinha chegado aqui
Minha mãe já quase morta
Minha irmã seminua lá na porta
O meu pai no meio da rua
E do pedágio até a casa só eu
O qual não pensou em nada
Durante toda a corrida
E quando me vi acompanhado
Vi que fingia entender tudo
O porquê de eu ter voltado
E dos sonhos que acordava
Sentia apenas que o laptop
Que eu carregava
Embora estando informado
Não fedia nem cheirava
Afora isso ia indo,
Estressado dirigindo
Nem sorrindo, nem sorrindo
Sozinho pra minha casa
Sozinho pra minha casa
Sozinho pra minha casa
Sozinho pra minha casa

0072. Morenicer

Oh menina morena
Note a minha presença
Não finja que eu não existo
Não venha com esse martírio

Oh menina morena
Que culpa tem o meu ser?
Se só teu ser sabe ver,
Amar e querer?

Oh menina morena
Me dê um beijo,
Peço à estrela Dalva
Que realize este desejo

Oh estrela Dalva
Um beijo vindo a mim
Daquela que só eu
Vejo assim:

A morena menina
A morena elétrica
A morena esperta
A morena mais bela
A morena que irradia
A morenice que turbilha

Oh estrela Dalva
Realize o que eu peço
Ter-me ao menos uma vez
Banhado de prazer
Por ser envolvido neste morenicer

0069. Meu erro

Tentei avisar ao pobre garoto:
“Não entre o mar é revolto”
Mas o garoto não me ouviu
Como se acabasse de conhecer a vida
Jogou-se ao mar se corpo e alma
E tudo por fim se partiu

Sinto muita pena desse garoto
Porque eu poderia ter feito mais
Deveria ter com força bradado
Para que sentisse meus sinais
Deveria tê-lo puxado quando podia
Pois fingindo não saber, eu sabia

Previa que o garoto não saberia
Que ele nunca havia nadado
Seus banhos não foram fatos consumados
Mas nada fiz logo de imediato
Agora é difícil de se constatar
Há o garoto, quando o espelho vou mirar

Oh! Pobre garoto…

0067. Rio alma

Sigo o curso das águas turvas e gélidas
Desse rio revolto de fontes intrépidas
Em que, às margens, as flores amarelas
Jazem murchas, tentando ainda ser as belas

Na nascente a paisagem é elegíaca
Onde uma musa ecoa cantos da Ilíada
E as divas abdicam de seus tronos
Entrando nos sonhos, profundos sonos

Reza-se nas antigas crenças lendárias
Que o rio termina numa queda de fogo
Banhando as divas em águas mortuárias

Molha o espiritual, deixando-no novo
Águas viram verdades hereditárias
Que fluem por caminhos sentidos soltos

0068. Novas verdades

Desejo apenas curvas
Curvas voluptuosa
Sem nenhuma profundidade
As profundezas só
existem para confundir
e para sofrer

O que eu quero mesmo
é não amar
E que ninguém me ame também
Eu quero mesmo é viver
Sem nenhum compromisso

Eu quero agora utilizar
as palavras da moda
Banhar-me nesse mundo
mundano e banal
Onde todos fingem a felicidade
E por tanto mentir,
o são felizes realmente

Não quero mais amar
Não me deixarei mais amar
Fugirei de qualquer paixão
E do gostar me esconderei
E se o amor insistir,
irei matá-lo

Hoje só quero ficar
Sem nenhum perigo
Ficar, beijar, uma noite apenas
Cansei de tentar ser correto
E sempre ser esquecido

0065. Mudou, pois o etéreo é mutável

Não consigo falar como antes,
Pois há um grito que quer explodir,
Uma bomba terrorista
Ou um ataque kamikaze,
Suicídio em letras
Suicídio em palavras
Morte lenta e dolorosa,
Como um tiro no estômago
No âmago das tristezas e desilusões
Um tiro dado pela vida com a arma do eu
Que tantas vezes cego,
Tantas vezes louco
Tantas vezes mil
Tantas vezes, mil outras,
Proferiu injúrias contra si

Não consigo ser como antes,
Pois antes havia um motivo quase nobre
Para ser como uma árvore
Ou um colérico ébrio excluído
Ou um simples monte coberto de grama verde
Tão verde como as cortinas sujas
E amassadas do meu quarto
Que outrora sentiu na pele
O luto em que estava meu eu
Assim sendo não consigo mais
Pois só o nada é meu realmente
E não é mais o nada que era,
O nada que sentia antigamente

0066. Ego extremista

O homem é um ser complicado
As sensações que ele emana são inexplicáveis
Falam que é o ego,
Que quer ser um Hitler à sua maneira
Mas não sei,
Realmente queria eu entender
Por que o homem é tão mau?
O que é este ímpeto de superioridade inflexível?
O que é?
Para que se sentir bem em ver os outros mal?
Inveja, avareza, egocentrismo
Tudo parte da combinação de três:
Volúpia, cobiça, inquietude
Como apagar tais demônios da memória?
Como? Se a todo momento, o homem é atacado
Por petardos lançados à sua consciência
E então o homem atingido
Larga mão de sua dignidade
E cai
Num poço tão fundo de idéias ruins
Que laçam-no num inferno
O inferno psíquico do arrependimento

0063. Pré complemento

Começo a entender
O que sou eu
E o que é você
O que somos nós
E o que é o universo
A iluminação vem inesperadamente
Ao me lavar compreendi

Vejo agora
Vejo que no momento não há nada
Só o eu para ser vivido
E por acaso entendido
É complicado e não há como explicar
Só compreender e experimentar
É difícil e pode te perturbar
Mas se quiseres realmente vivenciar
O que a mente pode superar
Basta apagar-se e continuar a pensar

Pensar em nada e ser o nada
Que é a relevância do tudo
Que é a espada que rasga a alma
Nas veias do absoluto

É complicado compreender que tudo importa
Que como o nada, é da mesma forma
Que é tudo aqui e ao redor
Que é supremo e ignóbil
Que supera as fronteiras da causa
Que ignora as barreiras da conseqüência
É ação e reação, inércia e ficção

Muitos, mas muitos mesmo, não irão compreender
E irão me atacar
Parafrasearão escritos antigos
E me provarão o contrário
Mas deles mesmo, nada
Tão nada quanto o que os envolve
Dirão a mim que têm pena e que,
Não como eu, possuem a razão
Embora, creio eu, eles não a usem
E, também embora, eu os ame

Mas como falar que a dicotomia
Só existe neste mundo pequeno do olhar
Que se a mente for despedaçada
Formar-se-á um mundo múltiplo
E tão múltiplo que chega a ser único
Que é tão belo, tão lindo, tão perfeito
Ao qual eu não preciso dizer que é assim porque é a vontade
E que eu posso compreender
E por isso aceitar e crer

Não quero que todos me dêem ouvidos
Pois eu os amo
E sei que é mais fácil para todos
Viver sem compreender
E como um ser sem razão, venerar
E como um livre prisioneiro, escutar a verdade que não há

Agora eu creio e sou como um pássaro
Não falo da boca para fora
E me sinto feliz e bem por me amar
Amar-me em mim e em outrem
E, já pássaro, livre para voar
No eterno tudo em que entendi acreditar

Só o agora existe
E o agora abrange a existência desse tudo que se percebe
E o tudo é encoberto de nada humano
Um nada que me embebe
E que me faz feliz e triste
E que me faz ser completo
E que me faz ser

0062. Catarse a la Freud e Castañeda

Ao escrever mergulho
Procuro ir fundo em minha psique
O ato poético de escrever
É para mim uma auto-hipnose
Deixo fluir os traumas
Os infantis e os momentâneos
A poesia é a terapia que indico
Se o mundo está problemático
E a vida não vele uma migalha
Descubra a poesia do cotidiano
E tente tratar-se com isso
Se a neurose invade a vida
E quer lhe da a pura morte
Sê como eu, admira o simples
Aquilo ao qual você passa
E nunca outorga importância
Aquilo que pode te fazer feliz
Veja a selva concreta e estática
Da criação/destruição humana
E se a isso não puder admirar
Observa a magia da luz do sol
E se bronzeie e, pelas manhãs,
Tome boas doses de vitamina D
Pois é o mundo a nossa volta
O único mundo agora possível
O único mundo que você, “normal”,
Pode conseguir observar e ver
Mas se você não é e nem quer ser
Esse protótipo de ser normal
Abra a mente e veja o além
Pois você é mais complexo
Então, como numa auto-hipnose,
Abra a mente e veja seres luminosos
O mundo é feito de fibras luminosas
E que o sonho pode ser tudo
Entre em seus sonhos e aprenda a sonhar
Veja o que se passa neles
E os torne uma outra realidade
Usando-os para resolver seus problemas
Usando-os para aprender a viver
Portando sê anormal e construa seu divã
E se deite e durma e sonhe
Pois o sonho é a sua válvula de escape
E se o mundo normal te dá neurose e medo
Fuja dele de qualquer maneira

0060. Duas

Minha irmã vive duas vidas
Dentro de minha irmã esconde-se uma pequena criatura
Que já viva, contorce, cresce, cria-se e dança quando cantamos
Minha irmã parece uma bolinha
Uma bolinha que guarda um ser a mais para povoar o mundo
Mundo este que povoado só por bolinhas e pequenas criaturas, seria bem mais lindo
Dá pena pressentir que este novo lindo ser viverá aqui
Mas contrario Sidarta e prego que, para esta nova criatura
Tudo será felicidade e bem-estar e alegria e paz
Minha irmã irradia beleza; vida
Porque minha irmã, além de (por natureza) ser linda
Hoje é ela e mais uma
Hoje é duas
Minhas meninas estão agora serenas e amenas
As duas: minha irmã Janine e minha sobrinha Ravena

0061. Outra elegia

Acho que achei alguém que me faz querer viver
Há presságios de felicidade quando a vejo
Há momentos de tensão, pois a sinto longe
Há sinos sacros de matrimônio quando sorri
Há cupidos e querubins voando em nossa volta
Acho que fatalmente é isso o que chamam amor

Há momentos de tensão, pois não tenho certeza
Acho que nesta que falo pode até ser recíproco
Acho uma eternidade de coisas num só segundo
Acho que ela se parece em demasia comigo
Acho que ela se difere somente em sua beleza
Há muito medo rodeando a minha louca mente

Vivo a pensar nessa pequena
Vejo-a em meu fechar de olhos
Sinto sorrindo que ela sente
Volto-me a ela todos os dias
Amor pode ser a definição

Certeza, quero eu poder ter
Recíproco sentimento queria ver
Segundos, ao seu lado, voam
Beleza se mostra cada vez mais
Mente minha: felicidade e confusão

0058. Agora

Altos e baixos
Etéreo estado, meu ser
Dúvidas, confusão
Incerteza
Letargia
Lágrima seca
Áspera e baixa
Sorriso falso
Alto e incerto
Meu ser
Fantasio de mais, a mais
Por nada e por tudo
Alto e baixa
Só dúvidas
Quero algo – sei o quê –
Só não sei dizer
Algo alto, mas baixo
Profundo (Utopia)
Dúvidas e mais dúvidas
Só há dúvidas

0059. Ode às minhas amigas

São vocês,
Que me animam e consolam
Que me enaltecem e sobem o sangue
Que são tão eu, tão eu
Que me formam de físico à mente
Que me confortam
São vocês,
O mar, a primavera, a bruma, o morenicer, a poesia, a menina mulher, o sol
E tantas outras que me completam
Despertam para a vida
E para a beleza da vida
E para o amor
E para a dor
São vocês,
Minhas amigas
Todas, tão lindas!
Em perfeita união: de fora à dentro
Vocês não são poeira ao vento
Pois marcaram
A ferro e fogo minha alma
E por isso canto a vocês
Minhas sempre eternas amigas
Canto para que sejam felizes
Por todo o infinito
Que sejam amadas
Com o meu amor e o amor de todos
Que suas vidas sejam sempre
Uma poesia sublime
Que a Vida as abençoe
Minhas queridas amigas!

0057. A verdade torrencial

Sinto o poder do vento
Que sopra em minha alma
A qualquer momento virá a tempestade
Que minha psique talhará
Abrirá ferida de faca
Na realidade corrosiva
Dessa que não há
Minha única felicidade
É escrever um soneto a luz do luar
Esconder-me em minha mediocridade
Sendo o poeta do “amo, mas não se deve amar”
A verdade me revelará
Que ela é um dilúvio
Relatar-me-á, indo fim ao prelúdio
E então num sopro difuso,
Por fim irá me matar

0056. Vergonha

Não sei o que são essas lágrimas
Que insistem em querer chover
Sobre meu caderno
Que insistem em ser e parecer
Um algo certo
Quando em realidade
Não possuem finalidade
A não ser a de me envergonhar
Perante meu ego
Gostaria de saber a solução
Para tal questão
Que conturba minha razão
Só não sei ao certo
O que me questionar:
O motivo dessa amor,
Ou se o amor tem motivo,
Ou se o amor existe,
Ou por que me aflijo.

0053. Elegia, quase um desabafo

Parece o mar o que se chama amor
Água insípida com um certo sabor
Só um sonho, devaneio líquido
Imperfeito mas com um equilíbrio
Que te preenche tal qual enchente
E realmente não se sente

Sento na areia e calmamente observo
O amor ir e vir, então espero
Espero as ondas a mim chegarem
Mas não chegam nunca
Quando próximas vejo voltarem
Próxima mesmo, nenhuma

Aquele que não sabe nadar
Se aventura, afoga e morre
Morre sem conseguir contemplar
Que morrer de amor é sorte
Pois o amor não pode matar

0054. Algumas das coisas mais belas do mundo

A paz
A liberdade
O sol se pondo no horizonte
A estrela Dalva no céu do cerrado
Um soneto amoroso de inspiração verdadeira
Uma gota de orvalho numa folha pela manhã
Uma rosa na primavera
Uma conversa amigável
O luar
O sorriso puro de uma criança pobre
Uma mulher grávida
O sorriso puro de um portador de necessidades especiais
Uma mulher charmosa sem vulgaridade
Uma cachoeira
O sorriso puro e cansado de um idoso
As nuvens
O mar
Uma árvore frutífera
Um gato dormindo no sofá
Uma bossa cantada por Elis Regina
Um rio
A chuva
Um arco-íris cortando uma cidade
Cristais
As luzes de uma cidade no horizonte
O vento balançando as árvores
O som de um gaita
O céu estrelado
Uma pintura sul-realista
Minha família
Uma noite sem energia elétrica
O campo
Uma floresta tropical
Um sítio arqueológico
A cor verde
O vôo de um bando de pássaros
O sorriso dela
Ela
Pérolas esverdeadas
O psicodelismo do sol raiando nas nuvens
Um filme alternativo

0052. Verde pérola

Nem o silêncio de Einstein
Conseguiria desenvolver
Uma teoria capaz
De explicar o que é este ser

Esta garota que provoca
As mais diversas sensações
Que em mim evoca
Todas as amorosas alusões

Que é tão eu
E que desperta ciúmes
Que sabe acordar o meu
E deste mal não é imune

Amo esta garota maravilhosa
Que é como uma pérola
Tão lida e brilhosa
Mas esconde-se numa concha

Amo e não há como esconder
Todos têm consciência disto
E quem eu amo já deve saber
Quando vê meu rosto aflito

Mas como não se apaixonar
Por esta garota pequena
Que lembra um filme noir
Com somente belas cenas

Que mistérios tem tal pérola
Criando raízes em mim
Tão belas como as pétalas
De uma rosa que só dissesse sim

Amo, admito que é platônico
Não posso controlar meu íntimo
Por isso sigo monogâmico
Acompanhando de longe seu ritmo

Contemplo as duas pérolas verdes
Que brilham naquela face
O martírio é apenas olhar partes
Daquela beleza que mais nasce

Amo está que é acompanhada
Não sei porque me aventuro
Em continuar tal mancada
E pensar num amoroso futuro

Não sei como consigo viver
Afinal noutros braços ela está
Isso não consigo esquecer
A única coisa a fazer é esperar

0049. Para onde vai Gaia?

E agora mundo?
Terminam como começam
E começam quase sempre mal
No mundo inteiro, submundo
Sabem e dizem que sei e digo muito
E ao mesmo tempo, sei e digo nada
E agora mundo?
Você acaba-se
O resto passa
E nós?
Como é que ficamos?

E agora mundo?
Falta tudo em grandes quantidades
E sobra demais
Muito paradoxo para um mundo tão pequeno
Com muitas pessoas que pouco têm e recebem
E poucas que as controlam e tudo têm
E a elas mesmas se dão; tudo e mais

E agora mundo?
Aqui convive-se com tudo
E tudo virou normal
Agressões de toda parte
Contra nossa consciência
Para nada, despejam-nos fórmulas e teorias
Tanta evolução e tecnologia,
Mas para onde?
Tantos deuses e nada resolvido
Apenas esperas

E agora mundo,
O que fazer?
Rebelar-se, aceitar, ou sair dessa realidade?
(Se é que ainda existe outra realidade)
Transformamos e controlamos tudo
E às vezes até o nada

E agora mundo?
Ando por aí e te vejo doente
Essa humanatite te pegou feio
Homo sapiens vírus maléfico
Último ser da evolução ou criação
E primeiro no ranking de destruição e pouco caso
É, te pegou feio…
Mesmo com seus furacões, maremotos e terremotos terroristas-anticorpos
Nada se pode fazer
Seu sistema imunológico anda fraco
Então, aceite um conselho:
Ou nos destrua,
ou se suicide.

0051. Ao amigo João Paulo

Hei camarada, fique tranqüilo
Você faz parte de nossa história
Hei companheiro, hei amigo
Você está guardado em nossa memória

As respostas agora são sonhos seus
Uns dizem que você está com Deus
Outros dizem que reencarnou
Alguns acham que o tudo você encontrou

Você tinha seus sonhos e não os realizou
O nosso também se findou
Pois ninguém pensava que não estivesse para ver
Que no nosso futuro não fosse comparecer

Todos sabem que a morte está ao nosso lado
À nossa esquerda, à distância de um braço
Mas a conformação é algo lento
É como ficar sozinho ao relento

Meu consolo agora é saber que todos se vão
Infelizmente uns mais cedo e outros não
O porquê dito tudo é a grande questão
Que desafia a lógica e a razão

Quero acreditar que esteja num lugar belo
Como um sítio do Pica-pau Amarelo
Sabendo a verdade do universo
Espero que meu querer esteja certo

João Paulo
Nem profeta, nem seguidor
João Paulo, você se foi
E agora todos têm uma grande dor

0047. Você é a questão e a solução (Diálogo interior)

Eu preciso de respostas
Tirar esse peso de minhas costas
Por que vim parar nesse mundo,
Impiedoso, injusto e soturno?

Pelo fato de eu ser o absoluto
E você parte desse tudo

As drogas estão me enlouquecendo
Até vozes já estão aparecendo
Será que é a falta do que comer?
Ou esta síndrome, a qual tenho de conviver?

Pare com todos estes rodeios
Pergunte-me, isto não é um devaneio

Então Deus é você…
Tenho perguntas a lhe fazer
O que aconteceu à minha família?
Por que a separação foi a única família?

Porque o mundo está mudando
E a família não está mais suportando

Você fala como se fosse um sociólogo
Bem, continuemos o nosso diálogo
Se amas tanto a humanidade,
Por que criastes a AIDS?

Não criei essa doença para punir
Só achei que HIV deveria existir

Sua imagem, por nós, é muito respeitada
Mas o que falas parece piada
Me responda agora,
Por que deixastes existir as drogas?

Por que deixei você existir?
Pela mesma razão das drogas estarem aí

Novamente o que falas é tolo
Parece que queres me fazer de bobo
Por que o mundo está assim?
Este caos que não tem mais fim

Entenda: eu lhes dei a existência
Se não souberam administrá-la, paciência!
Não possuo essa onipotência,
Saiba que você faz parte do tudo
Tudo o que existe faz parte desse mundo
Não considere isso um absurdo
A verdade é que sou,
Aquilo que o universo montou
Sou a arma que destrói
Sou o tijolo que constrói
Você não é insignificante,
Nesse universo tão importante
Você não é algo banal
Nesse mundo sobrenatural
Tudo existe, isso é o que importa,
Não fique dando voltas,
Tentando achar respostas
Viva, pense, faça
O momento de interação total não tarda
Certo, errado, ninguém pode dizer…
Preste atenção: quem está falando isso,
Não sou eu, é você

O quê?!

Como consegue não entender
Se é você que está a responder
As respostas você quem está fazendo
Elas estão aí, aparecendo
Eu só estou conversando com você
Ou eu estou conversando com o outro eu

Agora sim entendo tudo
Como pude ser tão estúpido
E não vivermos sempre juntos?

Nós produzimos a verdade
Nós somos a verdade
Nós somos Você
Você sou eu
Eu tenho a resposta
Eu tenho a verdade
A verdade é só que a morte está ao meu lado
E tenho de viver de fato
Viver como um guerreiro
Sem ter medo ou arrependimento
Viver pelo prazer e pelo dever
VIVER!

0048. Normalidade única

Se o amanhã não existisse
Viveria como se deve viver
Olhando para frente
Sem se perguntar o porquê

Se o amanhã não existisse
Observaria sem julgar
Falaria o que penso
Sem nada me preocupar

Se o amanhã não existisse
Seria cômico demais
Contemplar os humanos
Insanos, parecendo animais

Se o amanhã não existisse
Não faria tudo o que sempre quis
O queria deveria ter feito
Quando o amanhã ainda estava aí

Se o amanhã não existisse
Enfim iria constatar
Que seria muito tarde
Para se deixar e amar

Se o amanhã não existisse
Hoje seria um dia comum
De todo os que nós vivemos
Apenas mais um

Se o amanhã não existisse
Descobrir eu iria
Que este nunca existiu
Tudo foi só um grande dia

Se o amanhã não existisse
Escutaria a explosão
De todos os seres dementes
Aproveitando toda a paixão

Se o amanhã não existisse
Faria minha última meditação
Esquecendo a carne
E toda e qualquer libação

O amanhã já não existe
Para que tanto concreto e aço
Já não há mais futuro
Me sinto sufocado nesse espaço

Não falo nada demais nessa poesia
Na verdade não tenho
A mínima idéia do que faria
Só escrevo sobre um tema estranho
Tentando fazer algumas rimas

É inútil falar em “se”
Mas, se o amanhã não existisse
Hoje não escreveria,
Hoje eu viveria

0044. Barroco

Não sei mais de nada,
Pois nada mudou,
Mesmo assim tudo está diferente
Olho qualquer um,
Meu prisma os filtra:
Luzes e estados
Meu prisma prepotência,
Ego e ciência

Vivo no concreto,
Ele me atormenta
Preciso de consolo
Não vejo ninguém realmente
Só vejo o que quero:
Loucos filtrados,
Carnes levigadas,
Sábios peneirados,
Idiotas centrifugados

Tento saber
– não sei o quê –
Me confundo mais
Confesso que ia me
entregar ao Onipotente
Mas algo me apareceu à frente
Incertezas, luzes, estados
Dúvidas peneiradas
Algo à frente, igual
Angústia momentânea – iguais
Não sei mais,
Tudo mudou…

0045. Ambição boêmia

Gostaria que a vida fosse um filme europeu
Sempre surpreendente, dramático, envolvente
Romance de diálogos perfeitos:
A mulher ideal num bar da esquina,
Análise psicológica fora de rotina
Imigrantes africanos
Música eletrônica e bossa-nova
Festa hip-hop sem preconceitos
Tudo animado e com cara de fossa
Ideal socialista sem ser retórico
Sexo seguro e sem envolvimento
Instinto, amor e ódio
Madrugadas, clubes noturnos, amigos
Dinheiro no bolso, sem compromisso
De quando em vez, uma depressão
Só para sair do dia-a-dia
Findando-a na cama, com uma marroquina
E pela manhã tomar um café
Ler um livro ou uma revista
Essa era a vida que eu queria

0046. Juramento-manifesto de repúdio ao amor

Quão certo estava Mário de Andrade,
“Amar, verbo intransitivo”
Descobri que o amor não se conquista,
Não se descobre,
Não existe
O amor é uma face da dor
A face mais cruel e desumana
Um disfarce para os tolos

Oh, como fui um tolo!
Acreditar que o amor traz felicidade…
Mais tolo ainda quando confundi atração com paixão
E pensei estar caído nas garras do amor

Receio agora meu lamento ser inútil
Que como todos sou vil e fútil
Mas se não lamentar, desabafar,
O que farei?
Seguir minha vida simplesmente
Imaginando que só foi mais um,
Que logo a dor passa
Será mesmo que não devo olhar para trás?
Que devo erguer minha cabeça?

Em outros momentos até poderia
Mas hoje estou cansado de fingir
Fingir que sou frio e que não ligo,
Fingir que foi só mais um…
Ah, isso não!
Cansei!
Cansei dessa vida de mentiras a mim mesmo
Hoje quero olhar para trás e perguntar:
Por que?
Por que a vida me deu tudo
E não me deu o poder de entender a mente feminina?

Me sinto medíocre por pensar isso,
Mas sinceramente é isso o que passa aqui na minha psique
Em toda a minha vida só tive desilusões
Só tive quases
Meu problema foi ter assistido a muito filme europeu
Julietas, romeos…
Romantizei demais a vida
O que devera era batalhar mais

Mais?!

Todas as batalhas amorosas eu perdi
Achei que o amor fosse como um grão
Então reguei
Mas o solo era infértil
Achei que o amor fosse um contentamento descontente
Então me joguei
Mas o abismo era pequeno
Achei que o amor fosse desilusão
Então dancei sozinho
Mas a música não começou
Achei que o amor fosse um grande laço
Então me amarrei
Mas o nó cedeu
Achei que o amor proteger-me-ia
Então comprei-o
Mas não sou rico

Achei tantas coisas
Mas destas só encontrei antônimos,
Paradoxos e antíteses
Metáfora para o amor só conheço uma:
O mar
Pois quanto mais se entra nele,
Mais se torna perigoso
Mesmo que saibas nadar,
O menor vacilo e pronto,
Você é afogado nas profundezas
Na agonia perturbadora da morte

Acho (detesto esse verbo),
Acho que sei o que farei,
Acho que irei me condicionar a ser um ser insensível
Sem a mínima expectativa em relação ao nada
Há tempos penso assim
Mas ontem foi a mola propulsora dessa loucura

Que digam: “devaneio”
Que falem: “sonhador”
Que pensem: “pretensioso”
Mas minha fé foi abalada
Cansei de sofrer por algo inexistente,
Irreal, ilusório e infundado

Que essas linhas
Sejam um juramento
Que faço a mim mesmo
Um juramento-manifesto
Um grito de desprezo e asco
Um grito de liberdade!
A partir de agora nada espero da vida,
Ou de Deus, ou de mim,ou de outrem
A partir de agora não sei o que farei
Só sei que quero passar a centenas e centenas de quilômetros
De qualquer idéia de amor