0053. Elegia, quase um desabafo

Parece o mar o que se chama amor
Água insípida com um certo sabor
Só um sonho, devaneio líquido
Imperfeito mas com um equilíbrio
Que te preenche tal qual enchente
E realmente não se sente

Sento na areia e calmamente observo
O amor ir e vir, então espero
Espero as ondas a mim chegarem
Mas não chegam nunca
Quando próximas vejo voltarem
Próxima mesmo, nenhuma

Aquele que não sabe nadar
Se aventura, afoga e morre
Morre sem conseguir contemplar
Que morrer de amor é sorte
Pois o amor não pode matar

0052. Verde pérola

Nem o silêncio de Einstein
Conseguiria desenvolver
Uma teoria capaz
De explicar o que é este ser

Esta garota que provoca
As mais diversas sensações
Que em mim evoca
Todas as amorosas alusões

Que é tão eu
E que desperta ciúmes
Que sabe acordar o meu
E deste mal não é imune

Amo esta garota maravilhosa
Que é como uma pérola
Tão lida e brilhosa
Mas esconde-se numa concha

Amo e não há como esconder
Todos têm consciência disto
E quem eu amo já deve saber
Quando vê meu rosto aflito

Mas como não se apaixonar
Por esta garota pequena
Que lembra um filme noir
Com somente belas cenas

Que mistérios tem tal pérola
Criando raízes em mim
Tão belas como as pétalas
De uma rosa que só dissesse sim

Amo, admito que é platônico
Não posso controlar meu íntimo
Por isso sigo monogâmico
Acompanhando de longe seu ritmo

Contemplo as duas pérolas verdes
Que brilham naquela face
O martírio é apenas olhar partes
Daquela beleza que mais nasce

Amo está que é acompanhada
Não sei porque me aventuro
Em continuar tal mancada
E pensar num amoroso futuro

Não sei como consigo viver
Afinal noutros braços ela está
Isso não consigo esquecer
A única coisa a fazer é esperar

0051. Ao amigo João Paulo

Hei camarada, fique tranqüilo
Você faz parte de nossa história
Hei companheiro, hei amigo
Você está guardado em nossa memória

As respostas agora são sonhos seus
Uns dizem que você está com Deus
Outros dizem que reencarnou
Alguns acham que o tudo você encontrou

Você tinha seus sonhos e não os realizou
O nosso também se findou
Pois ninguém pensava que não estivesse para ver
Que no nosso futuro não fosse comparecer

Todos sabem que a morte está ao nosso lado
À nossa esquerda, à distância de um braço
Mas a conformação é algo lento
É como ficar sozinho ao relento

Meu consolo agora é saber que todos se vão
Infelizmente uns mais cedo e outros não
O porquê dito tudo é a grande questão
Que desafia a lógica e a razão

Quero acreditar que esteja num lugar belo
Como um sítio do Pica-pau Amarelo
Sabendo a verdade do universo
Espero que meu querer esteja certo

João Paulo
Nem profeta, nem seguidor
João Paulo, você se foi
E agora todos têm uma grande dor

0049. Para onde vai Gaia?

E agora mundo?
Terminam como começam
E começam quase sempre mal
No mundo inteiro, submundo
Sabem e dizem que sei e digo muito
E ao mesmo tempo, sei e digo nada
E agora mundo?
Você acaba-se
O resto passa
E nós?
Como é que ficamos?

E agora mundo?
Falta tudo em grandes quantidades
E sobra demais
Muito paradoxo para um mundo tão pequeno
Com muitas pessoas que pouco têm e recebem
E poucas que as controlam e tudo têm
E a elas mesmas se dão; tudo e mais

E agora mundo?
Aqui convive-se com tudo
E tudo virou normal
Agressões de toda parte
Contra nossa consciência
Para nada, despejam-nos fórmulas e teorias
Tanta evolução e tecnologia,
Mas para onde?
Tantos deuses e nada resolvido
Apenas esperas

E agora mundo,
O que fazer?
Rebelar-se, aceitar, ou sair dessa realidade?
(Se é que ainda existe outra realidade)
Transformamos e controlamos tudo
E às vezes até o nada

E agora mundo?
Ando por aí e te vejo doente
Essa humanatite te pegou feio
Homo sapiens vírus maléfico
Último ser da evolução ou criação
E primeiro no ranking de destruição e pouco caso
É, te pegou feio…
Mesmo com seus furacões, maremotos e terremotos terroristas-anticorpos
Nada se pode fazer
Seu sistema imunológico anda fraco
Então, aceite um conselho:
Ou nos destrua,
ou se suicide.

0048. Normalidade única

Se o amanhã não existisse
Viveria como se deve viver
Olhando para frente
Sem se perguntar o porquê

Se o amanhã não existisse
Observaria sem julgar
Falaria o que penso
Sem nada me preocupar

Se o amanhã não existisse
Seria cômico demais
Contemplar os humanos
Insanos, parecendo animais

Se o amanhã não existisse
Não faria tudo o que sempre quis
O queria deveria ter feito
Quando o amanhã ainda estava aí

Se o amanhã não existisse
Enfim iria constatar
Que seria muito tarde
Para se deixar e amar

Se o amanhã não existisse
Hoje seria um dia comum
De todo os que nós vivemos
Apenas mais um

Se o amanhã não existisse
Descobrir eu iria
Que este nunca existiu
Tudo foi só um grande dia

Se o amanhã não existisse
Escutaria a explosão
De todos os seres dementes
Aproveitando toda a paixão

Se o amanhã não existisse
Faria minha última meditação
Esquecendo a carne
E toda e qualquer libação

O amanhã já não existe
Para que tanto concreto e aço
Já não há mais futuro
Me sinto sufocado nesse espaço

Não falo nada demais nessa poesia
Na verdade não tenho
A mínima idéia do que faria
Só escrevo sobre um tema estranho
Tentando fazer algumas rimas

É inútil falar em “se”
Mas, se o amanhã não existisse
Hoje não escreveria,
Hoje eu viveria

0047. Você é a questão e a solução (Diálogo interior)

Eu preciso de respostas
Tirar esse peso de minhas costas
Por que vim parar nesse mundo,
Impiedoso, injusto e soturno?

Pelo fato de eu ser o absoluto
E você parte desse tudo

As drogas estão me enlouquecendo
Até vozes já estão aparecendo
Será que é a falta do que comer?
Ou esta síndrome, a qual tenho de conviver?

Pare com todos estes rodeios
Pergunte-me, isto não é um devaneio

Então Deus é você…
Tenho perguntas a lhe fazer
O que aconteceu à minha família?
Por que a separação foi a única família?

Porque o mundo está mudando
E a família não está mais suportando

Você fala como se fosse um sociólogo
Bem, continuemos o nosso diálogo
Se amas tanto a humanidade,
Por que criastes a AIDS?

Não criei essa doença para punir
Só achei que HIV deveria existir

Sua imagem, por nós, é muito respeitada
Mas o que falas parece piada
Me responda agora,
Por que deixastes existir as drogas?

Por que deixei você existir?
Pela mesma razão das drogas estarem aí

Novamente o que falas é tolo
Parece que queres me fazer de bobo
Por que o mundo está assim?
Este caos que não tem mais fim

Entenda: eu lhes dei a existência
Se não souberam administrá-la, paciência!
Não possuo essa onipotência,
Saiba que você faz parte do tudo
Tudo o que existe faz parte desse mundo
Não considere isso um absurdo
A verdade é que sou,
Aquilo que o universo montou
Sou a arma que destrói
Sou o tijolo que constrói
Você não é insignificante,
Nesse universo tão importante
Você não é algo banal
Nesse mundo sobrenatural
Tudo existe, isso é o que importa,
Não fique dando voltas,
Tentando achar respostas
Viva, pense, faça
O momento de interação total não tarda
Certo, errado, ninguém pode dizer…
Preste atenção: quem está falando isso,
Não sou eu, é você

O quê?!

Como consegue não entender
Se é você que está a responder
As respostas você quem está fazendo
Elas estão aí, aparecendo
Eu só estou conversando com você
Ou eu estou conversando com o outro eu

Agora sim entendo tudo
Como pude ser tão estúpido
E não vivermos sempre juntos?

Nós produzimos a verdade
Nós somos a verdade
Nós somos Você
Você sou eu
Eu tenho a resposta
Eu tenho a verdade
A verdade é só que a morte está ao meu lado
E tenho de viver de fato
Viver como um guerreiro
Sem ter medo ou arrependimento
Viver pelo prazer e pelo dever
VIVER!

0046. Juramento-manifesto de repúdio ao amor

Quão certo estava Mário de Andrade,
“Amar, verbo intransitivo”
Descobri que o amor não se conquista,
Não se descobre,
Não existe
O amor é uma face da dor
A face mais cruel e desumana
Um disfarce para os tolos

Oh, como fui um tolo!
Acreditar que o amor traz felicidade…
Mais tolo ainda quando confundi atração com paixão
E pensei estar caído nas garras do amor

Receio agora meu lamento ser inútil
Que como todos sou vil e fútil
Mas se não lamentar, desabafar,
O que farei?
Seguir minha vida simplesmente
Imaginando que só foi mais um,
Que logo a dor passa
Será mesmo que não devo olhar para trás?
Que devo erguer minha cabeça?

Em outros momentos até poderia
Mas hoje estou cansado de fingir
Fingir que sou frio e que não ligo,
Fingir que foi só mais um…
Ah, isso não!
Cansei!
Cansei dessa vida de mentiras a mim mesmo
Hoje quero olhar para trás e perguntar:
Por que?
Por que a vida me deu tudo
E não me deu o poder de entender a mente feminina?

Me sinto medíocre por pensar isso,
Mas sinceramente é isso o que passa aqui na minha psique
Em toda a minha vida só tive desilusões
Só tive quases
Meu problema foi ter assistido a muito filme europeu
Julietas, romeos…
Romantizei demais a vida
O que devera era batalhar mais

Mais?!

Todas as batalhas amorosas eu perdi
Achei que o amor fosse como um grão
Então reguei
Mas o solo era infértil
Achei que o amor fosse um contentamento descontente
Então me joguei
Mas o abismo era pequeno
Achei que o amor fosse desilusão
Então dancei sozinho
Mas a música não começou
Achei que o amor fosse um grande laço
Então me amarrei
Mas o nó cedeu
Achei que o amor proteger-me-ia
Então comprei-o
Mas não sou rico

Achei tantas coisas
Mas destas só encontrei antônimos,
Paradoxos e antíteses
Metáfora para o amor só conheço uma:
O mar
Pois quanto mais se entra nele,
Mais se torna perigoso
Mesmo que saibas nadar,
O menor vacilo e pronto,
Você é afogado nas profundezas
Na agonia perturbadora da morte

Acho (detesto esse verbo),
Acho que sei o que farei,
Acho que irei me condicionar a ser um ser insensível
Sem a mínima expectativa em relação ao nada
Há tempos penso assim
Mas ontem foi a mola propulsora dessa loucura

Que digam: “devaneio”
Que falem: “sonhador”
Que pensem: “pretensioso”
Mas minha fé foi abalada
Cansei de sofrer por algo inexistente,
Irreal, ilusório e infundado

Que essas linhas
Sejam um juramento
Que faço a mim mesmo
Um juramento-manifesto
Um grito de desprezo e asco
Um grito de liberdade!
A partir de agora nada espero da vida,
Ou de Deus, ou de mim,ou de outrem
A partir de agora não sei o que farei
Só sei que quero passar a centenas e centenas de quilômetros
De qualquer idéia de amor

0045. Ambição boêmia

Gostaria que a vida fosse um filme europeu
Sempre surpreendente, dramático, envolvente
Romance de diálogos perfeitos:
A mulher ideal num bar da esquina,
Análise psicológica fora de rotina
Imigrantes africanos
Música eletrônica e bossa-nova
Festa hip-hop sem preconceitos
Tudo animado e com cara de fossa
Ideal socialista sem ser retórico
Sexo seguro e sem envolvimento
Instinto, amor e ódio
Madrugadas, clubes noturnos, amigos
Dinheiro no bolso, sem compromisso
De quando em vez, uma depressão
Só para sair do dia-a-dia
Findando-a na cama, com uma marroquina
E pela manhã tomar um café
Ler um livro ou uma revista
Essa era a vida que eu queria

0044. Barroco

Não sei mais de nada,
Pois nada mudou,
Mesmo assim tudo está diferente
Olho qualquer um,
Meu prisma os filtra:
Luzes e estados
Meu prisma prepotência,
Ego e ciência

Vivo no concreto,
Ele me atormenta
Preciso de consolo
Não vejo ninguém realmente
Só vejo o que quero:
Loucos filtrados,
Carnes levigadas,
Sábios peneirados,
Idiotas centrifugados

Tento saber
– não sei o quê –
Me confundo mais
Confesso que ia me
entregar ao Onipotente
Mas algo me apareceu à frente
Incertezas, luzes, estados
Dúvidas peneiradas
Algo à frente, igual
Angústia momentânea – iguais
Não sei mais,
Tudo mudou…

0042. O amar

Quão piegas é todo o amor
Vivo néscio em cantos de louvor
Ébrio nesse torpor eu vou
Entre a primavera, a bruma, o mar
Entre o que já sou,
Descubro o que é o amar
Ele é fugaz, mordaz, feroz
Um momento a mais, veloz
Creio que aprendi a amar
Amo o conversar descontraído
o se apegar distraído
Aos mais simples detalhes
Às minúcias da simplicidade
Eu amo o simples!
Amo as árvores e os pássaros
Amo a onça, exemplar raro
Não um amor de Jacó,
Afinal tudo retorna ao pó
Mas sim, um amor menino
Puro no momento,
Eterno ritmo

0041. Ode à primavera em agosto

Emle ela
Emle singela
Emle, simplesmente ela
Simples e concreta
Concreta e abstrata
Grandioso substrato
Da psique humana
Emle, mulher que emana
Boas vibrações
Em boas proporções
Emle,
Uma inspiração viniciana
Seria pouco para transcrever
O que você emana
Emle,
Mesmo existindo infinitas metáforas
Ainda é pouco para descrever-te
Emle,
Tão azul quanto cinza é o céu
Tão Clarice,
Tão atípica quanto ninguém é
Tão você,
Você como ninguém sabe ser
Completa, desperta
Como uma flor de minha primavera
Emle,
Rosa amena e ácida
Corrosão de iluminações
Emle,
Tão Emle que nem sei dizer
Emle, tão primavera…

0040. 928, 12:30

Vindos da semi-árida bissetriz de norte e leste
Todos mistos, mamelucos, mulatos e cafuzos
Confusos com suas situações
Preocupados e descontentes com suas resoluções
Cansados, castigados, semi-escravos
Paradoxos pois felizes
Hipérboles pois nervosos
Cristãos por imposição
Vodus por hereditariedade
Indecifráveis e desnecessários peões do jogo
Deseducados por má-educação
Mão-de-obra consumidora,
Que levanta pilares de mercados
Onde, com o suor de seu trabalho,
Gastarão sua mínima-esmola-salário
Mas mesmo assim seguem
Esperando no futuro seu paraíso
Pois “é mais fácil passar um camelo no buraco de uma agulha,
do que um rico adentrar ao reino dos céus.”
E por isso mesmo seguem
Respirando o cheiro do progresso humano nesse coletivo
Esperando por panelas cheias em seus lares
E inconscientes de suas vidas

0039. Miserere

Finjo viver
Vivo a fingir ser
Sou um só
Que é vivo
Penso, logo sou
Sou ser
Sou fraco, ínfimo
Infinito
Universo micro
Sou infinito
Faço parte do universo
Finito
Quem sou?
Sou finito
Ser, aflito
Para onde?
Macro e micro
Único como todos
Igual a todos
Ser que finge viver
Sempre ser
Sendo ser ao ser
Ao fingir viver
Sou
Finjo, vivo
E irei morrer
Descobrirei algo?
Não sei, só sou

0038. Menina poesia, agora mulher

Imagem romântica
Segunda geração
Clareza da Arcádia
Hipérbole da perfeição
Menina real
Mulher num meio natural
Símbolo parnasiano da beleza
Revolução moderna de inteligência
Renascimento da poesia sul-real
Clássico poema concretista
Morena pré-tropicalista
Contemporânea face da sabedoria
Esplendor de estilos literários
Mulher, menina, inatingível
Inigualável ser
Que só você,
Eliane, sabe ser

0037. Palavra psicotrópica

Palavras são meu ópio
Diminuem o dor, o ódio
Amortizam minhas quedas
Aliviando os impactos

Curam a torrencial depressão
Travestindo-se de solução
Amenizam meus instantes
Grafando os mais marcantes

Cultivam as idéias concebidas
Retratam os ressentimentos
Cicatrizando as feridas

Findam-se os tormentos
Agrupando as idas e vindas
Dos meus sentimentos

0036. Álcool

O tempo abafado e lento
Não abafa meus sentimentos
O ar não está em movimento
Mas jogo a verdade ao vento
Letras, lágrimas, momentos
– arrependimentos

Rememorações da inconsciência
Mediocridade, remanência
Andar com a tendência
Acumulando milhas de vivências
Cataclismos e inconveniência
– inconseqüência

Memórias da noite não louca
De uma noite áspera e pouca
Gelo seco, vodka e voz rouca
Fel no céu da minha boca
Depressão, alegria, tudo marca
– ressaca

0035. Ambigüidade

Meu espírito conturba-se
A paisagem muda
Ora clara e bucólica
Ora cinza e melancólica
Ora negra e explosiva
Ontem, um dia atípico
Ouvi inimagináveis, confundiu-me
Aliviei-me um pouco
Todos tem dúvidas
Descobri ontem
Não sei o que fazer
O que falar para esta inimaginável?
que outrora inatingível
e agora tão frágil
Tento mostrar meu mundo?
Tento descobrir o dela?
O meu desmorona
Panteísmo
O dela desordena
Monismo
Certo ou errado?
Não sei como fica
Não sei como ela está
Só a incerteza é

0034. Momento geral

Acima, as fibras de algodão,
alvas e gris estão
Dispersas, não nos dispersarão
Desnecessária preocupação
incomoda impreocupáveis pré-cidadãos
Pressão.
São futuros tempestuosos
que voam como as fibras
e provocam preocupada indignação
Em meio a isso tudo
células cerebrais se perdem,
células hormonais se agitam
Massarte popular que comanda a perdagitação
Euforia, temores, pretéritos,
vem tudo à tona
confundindo o ser que não sabe a questão
Mas tudo segue seu caminho:
fibras alvas e gris (algodão);
desnecessidade (preocupação);
massarte popular (perdagitação);
rimas pobres (pretensão).
Tudo entre muita informação
e pouca conclusão

0032. Claustrofobia anárquica

Paredes aqui
Paredes acolá
Paredes contraem-se
A me sufocar
Paredes memória
Histerias, histórias
Paredes paranóias
Paredes contraste
Devaneio, desastre
Tijolos e massa
Moldam as paredes
Monótonas paredes
Enclausuram minha mente
Fobia
Paredes de isopor
Apenas superfície
Tijolos e massa
Igualdade, mesmice
Sufocam
Paredes sem alicerce
Frágeis, irão cair
O irá me sufoca
Paredes e mais paredes
São todos paredes

0031. Como Djavan

O preenchimento falta,
a falta excede
O excesso exalta,
incomodamente pede
que a queda não seja alta

Tento de pé ficar
Fico pois forçam,
forçam-me a agüentar
Agüento o que mandam
Mandam-me tentar

Queria conseguir
Só consigo te querer
Quero te ver sorrir
Sorrindo irei morrer
quando em meu colo dormir

Difícil é falar-te a frente
Tua fronte me confunde
Confuso quando de ti rente
Rezo para que eu não afunde,
fundo nesse mar horizonte

Apago-me quando está perto
Perto, mesmo discordando,
minha mente é um deserto
Deserdo de mim te coroando
Coroa diamante de brilho certo

Me chamas de último
Último como o moicano, sou
Só me vejo ínfimo
observando teu infinito, vou
Vôo quase louco em meu íntimo,
morrendo por ti de amor

0029. Minha mutação nela

Eu te vejo com diferentes olhos
Não com os olhos leigos e invejosos
Dos que não sabem amar teus modos
Teu trance que hipnotiza meu logos

O teu jeito elétrico me completa
Tu distorces minha realidade
Por osmose meu viver se desperta
Na doce e complexa simplicidade

Em você vejo minh’alma simétrica
Te entendo de consciência a coração
Ser com a mais plena e sublime estética

Está a milímetros da perfeição
Conseguindo desconfigurar a ética
Desta minha pobre imaginação

0028. Mulheres

As olho, mas não as vejo
as olho, mas não as sinto
Ah mulheres, por vocês eu minto
a mim,
aos outros,
a todos
Mas de que adianta?
Superfície bela e rasa
– não generalizo –
e mesmo assim me arrasa
Vejo colegas a beira da loucura,
já não possuem razão
andam a esmo,
pensando em suas amadas
– pensam em carne, mas pensam –
Insanos e sedentos
Simples poeira ao vento
Ah mulheres
será que existe o amor?
Ou só na fraternidade este existe?
Por que não o amor de opostos?
Ah mulheres,
o que vocês fizeram comigo?
Ah, maldito o dia em fui ser amigo…

0027. Quimera

Beatniks previam ao mundo
Algo novo estava por seguir
Sinto algo no atual semblante da história
Vou a lugares
Sinto todo o peso do universo sobre mim
Todos perdidos
Procuram por mim, por você, por si
Percebo odores de revolução
Ataque massivo de essências desconexas
Doce, fumaça, pó
Todos perdidos, loucos
Insanidade pré-mudança
Conexões humanas
Infovias em busca de prazer
Catalisadores para a inconsciência
Ébrios de imagens num nirvana eletrônico
Nada se cria, tudo reencarna
Átomos, idéias
Moléculas, ideais
Todos perdidos, sem salvação
Esperando salvação de Alguém
Escutando a si como Alguém
Misturando diversão e salvação
Causa e conseqüência
Muda-se a economia
E mais uma geração se perde

0026. Novidades

Pessoas falam
Será que as conheço?
O tempo passa
Já não sou mais o mesmo
Penso em morenas, mulheres
Será que as amo?
Eu retrocedo
Meu eu não ama alguém,
Ama tudo
Metafísico amor absoluto
Será que o sinto?
Tenho certeza de nada
Meu universo desmoronou
Remonto-o aos poucos
Mas é difícil reagrupar
Idéias, conceitos, verdades,
Reagrupar à realidade
Amor outrora inexistente
Hoje atormenta a minha mente
Devaneio,
O amor em carne e osso
Passa à minha frente
Utopia do amor
Morena?
Não a conheço… e o tempo voa

0025. Chapada

Seios de terra
verde queimado
Azul do infinito
Ao longe me vejo perto:
Insignificante içá
O mecanismo celeste não pára
Gira, muda
Cumes cristalinos
Fontes de vida
Dias, noites
Crepúsculos, dilúculos
Quartzo verde, azul
Cristais multicoloridos
Cerrado e psicodelismo
Auásca de beleza
Templo natural
Completo e congruente
Mística mítica
Num mundo mundano
Mistério profundo e profano
Sacro e sagrado
Recinto santo

0023. Bruma

Formosa feiticeira
me encantou
Linda mágica
que me manipulou
Jeito sereno,
luz interior
Olhos de mel,
perfeito resplendor

Mulher mito
Ostenta o belo infinito
Rigor da inteligência
Gera-me um risco:
Amar, verbo intransitivo?
No momento
Norteio-me aflito
Ante sua presença

Ser magnífico
Completa harmonia,
Magia
Sinfonia de belo som
Morganna, serena e linda
Como uma bruma de Avalon

0021. Dia-a-dia

Máscaras, máscaras
Por que?
Não é festa à fantasia
Para que?
Estamos em pleno raiar do dia

Todo dia é a mesma coisa
Tudo a mesma rotina
Tem amor todo dia
Tem tristeza na esquina
Tem gula na cozinha
Tem fome na vizinha
Tem volúpia de monte
Tem beleza no horizonte

Rotina tem todo dia
Todo dia a mesma rotina
É, a rotina acaba comigo

0020. Utilidade

O que eu quero
ver, sentir e conhecer?
Ou seguir o rumo normal da vida,
olhar, fingir e decorar?
Um quê depressivo
quer se apoderar
Luta para não perder a guerra
mas o que pesa são as batalhas
que de tão constantes
tornaram-se maçantes
Em torno de mim eu sinto,
eu vejo,
eu olho,
eu conheço,
eu decoro,
eu finjo
As vezes acho o poeta
um ser desprezível
banaliza ou enfatiza tudo no papel
esconde de todos o Tudo
numa parede de metáforas
numa sopa de letras
numa coisa não tão importante
que ao poeta é a essência
e para o cidadão é “bonitinho”

é inútil falar da inutilidade dos poemas
pois a utilidade existe
incrustada na minha felicidade
de ver a rotina dos meus pensamentos,
os turbilhões de percepções,
as minhas memórias,
as minhas recordações vitais
grafadas em palavras

0019. Transporte

Viajar de ônibus é melhor que lotação
Tem cara de filme asiático
Tem ar de depressão
Tem panorama estranho do asfalto
Tem solidão acompanhada
Tem a impressão de estar lá no alto
Tem o frio da baixada
Tem crente pregando aos montes
Tem gente que não tem nada
Tem a pseudo burguesa quente
Tem um monte de parada
Tem beleza no horizonte
Tem o medo da virada
Tem um longo caminho à frente
Gasto 1,30 para não dar uma caminhada

0018. Nada mudou

Quinhentos anos de quê?
Miséria, fome e exploração
Quinhentos anos para quê?
Aumentar os ânimos da nação

A escravidão ainda existe
Com mínimos salários ela insiste
Em não sair da nossa história
Marca a ferro e fogo nossa memória

são quinhentos anos
Sigo sentindo o sangue
Do povo pardo e pobre
Que sempre escravo e excluído
Maquinalmente, míngua e morre

Em quinhentos anos
correntes só foram quebradas
Para aumentar a produção em massa
Fingiram acabar com um horror,
aumentaram o mercado consumidor

0017. Inspiração

Quatro paredes
um teto
um piso
meia luz
um guarda-roupa
duas camas
um jazz no rádio
um quadro
cento e vinco livros
sessenta e três vinis
duas esculturas
um artesanato indígena
dois quadros inacabados
milhares de estrelas
meia lua
um banquinho
um violão
dois amores
cinco folhas amassadas
uma porta fechada
uma mente aberta
um gato pulando a janela
lembranças
imaginação
solidão

0016. Espera

Nunca provei o amor
Vivenciar o fulgor
de uma paixão avassaladora
Os ímpetos ocorrem aos montes
Sinto-os como desejo, atração ou gosto
Escuto com ouvidos de inveja
As descrição de outras vidas
Embora não acredite muito
No que percebe meus sentidos
Mas mesmo assim, sigo
Espero, quero e estou aberto
Até o momento, para mim,
o amor inexiste
Hoje, tenho fé e sei que um dia
posso viver meu Canaã dos sentimentos

0015. Rota de fuga redundante

Na alvorada de um novo dia
Todos, cidadãos comuns,
Por ele passam: apenas mais um
Hoje, vejo-o como antes não via
Mundo maravilhoso
Que a luz do sol irradia

Vejo a lua, círculo formoso
Nossa irmã que a luz reflete
E com ela cresce e sem ela míngua
Nova rotação, tudo repete

Dos mistérios do universo
Nada fala mais nossa língua
Criticam os meus versos
Por saírem da lógica da rua
Por falar do vermelho das cinco
Ou da saída de uma falua

A realidade mundana dói demais
A estranha é incompreendida
Por que não falar das duas
Se ambas são reais?

0014. Querer (São outros quinhentos)

Não quero falar do começo,
cheguei perto do fim

Não quero falar do amor,
estou cercado de ódio

Não quero falar do universo,
sou só um humano

Não quero falar da verdade,
sou uma grande mentira

Não quero falar do nada,
somos um pequeno tudo

Não quero falar da morte,
aparentemente estou vivo

Não quero falar da paz,
vivemos em estado de guerra

Não quero falar da alegria,
tudo é dor

Não quero falar do tempo,
nós o criamos e nele nos perdemos

Não quero falar da inocência,
já me perdi há muito

Não quero falar da religião,
ninguém me dá crédito

Não quero falar da beleza,
tudo é perfeito

Não quero falar de catalisadores,
consigo o efeito sozinho

Não quero falar da igualdade,
há contradições demais

Não quero falar do não falar,
não suporto ficar mudo

Não quero falar…

…agora, escrever…

0013. Pensar

A única coisa que existe
é o meu pensar
Do resto tudo posso eu duvidar

Não sei se estou realmente acordado
Não sei se escrevo mesmo algo
Penso ter um corpo, penso saber coisas,
mas como acreditar?
Se eu parar de pensar,
tudo pode num piscar de olhos, acabar-se

Não sei nada sobre a vida,
muito menos sobre a morte
somente penso saber
somente penso temer

Só posso pensar,
mergulhar no oceano da minha mente
e viajar

Posso pensar ser tudo mentira
que um dia irei eu desvendar
Pode ser em morte ou vida
Eu não sei,
nada posso afirmar,
só posso pensar…

0012. Soneto da rotina

Perguntam-me como vai a vida
Respondo que não vai, tenta
Questionam-me como vou
Digo que não vou, sou levado

Minha vida é uma nau sem rumo
Sem vela, sem mastro, sem nada
Tentando fugir da fúria de Poseidon
Mas não há porto seguro a atracar

Desilusões e decepadas
Como repudiar a depressão?
Derrotas demais destroem minh’alma

Minha vida, sem amor, sem fervor
Muito horror, pavor e torpor
Fazer o quê? Tudo é dor…

0011. Estados

Levemente passou pelo portal da intolerância
Levemente, em busca de alívio
Sorrateiramente afanou o veículo
Sorrateiramente, sem despertar ninguém

Aflita começou a escrever
Aflita, redigiu suas últimas palavras
Chorando pensou em tudo
Chorando, molhou as letras

Cansada arrumou o local
Cansada, sentou-se em sua cama
Confusa e perturbada, pensou
Confusa, não achou outra solução

Pelo portal da intolerância, tudo tranqüilo
Pelo portal do sofrimento, um barulho
Inesperadamente ninguém ouviu
Dormiam um sono profundo
Dormiam o sono dos justos

Pela manhã, indignados, todos não entendiam
Sofriam, choravam, fingiam

Não entendiam, pois não queriam

0010. Chico comum

Como sempre fizera
Hoje, ainda crepúsculo, saíra
Ia andando apressado
Corria, sem olhar para os lados
Onde ia? Lugar comum, seu trabalho

sem vida, ia aComodado
sem buscar melHor salário
apenas confinado a Ignorância
de ser um ser Comandado
sem remorso, nãO à esperança!

Anda Chico, não pare
O tempo não pára e o amanHã já está aí
Corre Chico vaI pegar tua estrada
Pois quem não Corre contra o tempo não vive…
Você mOrre
e esquecem que um dia você passou por aqui

Emle P.
Guilherme C.
Maria Helena

0009. A festa

O ápice da escuridão se aproximava
As ilusões se iniciavam
Muitas expectativas
E a certeza de muitas desilusões
O odor de cigarro se espalhava
O de álcool também

Mentiras sobre mentiras
Todos estavam com suas máscaras
E nem era noite de fantasias
Meus olhos se perdem na opulência de muitas
Finjo apreciar o intelecto
É nessa hora que ponho minha máscara

0008. Uma imagem do amor

Sei que não me ama
ou penso saber
Não tenho certeza de nada
e nem pretendo ter
Gosto de ficar sentindo
que posso estar errado
mas não erro, minto
No momento a única coisa
que eu quero realmente
Era do seu lado ficar
Mas na vida real
não consigo me expressar
Falar o que sinto por você,
não dá…
Num ato individualista
Esqueço as guerras e a fome
Pois você é só amor
Só não sei se você pode compreender
que o amor não é feito de imagem
Não só os gregos são belos

0007. Identidade neo-liberal

Deturparam nossa identidade
Confundiram-na com futilidade
O que identifica não é o eu
O que identifica é o que é meu

Minh’alma é meu capital
Acabou-se a essência original
Não dão mais valor à mente
E sim ao modo de usar o pente

Você vale o que você veste
Se na moda não se encontra
Talvez na vida não preste

Fale idiotices e sem pensar
Não use a sua identidade
Hoje, ser autêntico é errar

0006. O sol dos tristes

Olho para o teto celeste
Finjo somente não ver
A doce penumbra ir embora
E novas esperanças alvorecer

Esperança para quem as quer
A penumbra foi embora
Claridade me ofusca a alma
A penumbra foi embora

Os candeeiros do firmamento se apagam
Alguns já até mortos
Filtrada por uma cortina verde
Uma claridade quase imperceptível
Incomoda-me muito

Os minutos voam pelo ar
Misturados a odores mórbidos
De uma sociedade capitalista

O astro principal cai
Muitos se entristecem
Eu me entristeço menos
Pois sei que meu sol nasce
Afinal, o sol dos tristes é a lua

0005. S.O.S.

Estou preso e cercado
Por onde passo sou fuzilado
Por uma cultura pseudopopular
Feita para nos ludibriar
Deturpando os valores
Produzindo em massa horrores
Vendendo-nos idiotices
Nem percebemos as mesmices
Somos enganados
Como palhaços tapeados
Servindo de escravos
Para um sistema autoritário
Você ouve e você vê
Sem se perguntar o quê
Paga o preço que pedem
Sem questionar a que servem
Tudo merda
E de nada presta

0004. Marasmo blues

Eu vivo blues
Perdido no saudosismo
dos teus olhos azuis
Perdido nas curvas do teu corpo
Perdido em todo o teu rosto
Eu me perco no teu lado louco

Quero acabar com essa solidão acompanhada
Quero que tu sejas para sempre minha amada
Fico perdido em pensamentos
Que não devem ser pensados
Vem logo aqui ficar do meu lado

Queria saber como é o teu pensar
Queria saber como é, para eu te amar
Você me chegou simples e linda
Mudou todo o rumo da minha vida
Machucou meu coração, deixou ferida

Seu jeito sereno e tranqüilo
Por um infortúnio, só foi um jeito amigo
O que faço agora, já que só consigo te amar?
Mesmo parecendo que você quer se afastar
O que faço agora se não me lamentar?