2964. Por uma vida mais analógica

Como lidar consigo?
Esse silêncio que te rodeia o em si
por apenas meio metro.
A gente se cerca de técnicas
para não sentir apenas a si mesmo.

Chora a análise perdida
lamuriando-se por meio de
um pequeno retângulo repleto de
petróleo e metais raros,
pluga os ouvidos a pequenos
pontos sonoros
prega os dedos em
teclas apaziguadoras:
não a alguma solidão.

Daí como se sente o cair da vida?
Como se observa ela fluir?
Lidar com uma única informação quista
pelos sentidos: o mergulhão entrando no mar.

A gente já pensa aos pedaços
e conecta uma ideia a outra
pelo impulso de um clique,
cada pensamento no espaço de uma imagem
– que poderia ser mil –
e um resumo já em 140 caracteres.

O tempo não diminuiu,
é só informação confluindo demais.
O espaço não se contraiu,
é só velocidade demais.
Os dias, as horas, os anos
são exatamente os mesmos dos nossos avós,
mas a solidão de um momento,
guardado a sete chaves dentro de si,
não é mais possível.

O voo do olho sobre a luz do sol,
segredo tido dentro do seu sentido,
agora é público.
Daqui uns dias quem saberá o que é seu?

Os paradoxos do liberalismo:
todos somos diferentes por natureza,
mas apliquemos regras iguais
mesmo a quem não tem oportunidade igual.

E o vento continua balançando as amendoeiras
e as pessoas serão mesmo ainda tristes
ou um pouco felizes a cada dose ou falta de.

E detrás da reentrância do mar,
depois da igreja secular,
uma favela pousa seus segredos digitais
na meia encosta de um morro.
Isso que é a prova material
de que nós somos transitórios e obsoletos no mundo.

Mas a solidão é impossível.

Caminhamos para sermos uma massa de multidão
“monstro sem rosto ou coração”.
Não só arranhamos os céus
como arregaçamos as terras.

É isso, a felicidade é um ponto médio
entre a volição e o brejo,
mediada por artefatos materiais e espirituais
e até mesmo drogas para o sexo.

O sono já não basta.
A bosta não alivia.
O besta é a instância mor.
(Altares, custe o que custar
ao pânico da zorra que se vê)
Os bustos são o desajeitado desejo
injetado no peito.

Ok, a solidão não é permitida
e ninguém sabe mais lidar consigo
sem ajuda profissional.

E eu consumo, como todos,
com o sumo do mundo.
É isso aí, como o mundo, comum
e com, sumo.

Rio de Janeiro, RJ.

2961.

a vida tem essas armadilhas
controlar os desejos
as vontades
a ilusão
saber separar o que é cultura
o que é pulsão
onde nasce o querer
qual o reinado da volição
como você alardeia o caos sem contrição
esse galgar da carne
essa aflição
esse silêncio sozinho
essa condição
o arfar pelo melhor
a condução
querer o mudo todo
todinho
na palma da própria mão
o anseio por todo o sim
o medo de todo o não
uma bomba
detonar tudo
mandar ao nada em explosão
a maldita mente
além e início
só essa corda em alta tensão

2959. Amor…

são os rastros
a foto dos pés
a sandália virada
– desvira amor, dá azar –
o aconchego no pescoço
dentro daquele abraço maior de todos
e uma esperança logo de manhã
– “ele agora está mais firme
do que quando começou” amor –
as notas roucas e embaçadas
de sono logo pela manhã
água cai qual enxurrada
– pensa na casa, a moldura. muda a mesa de lugar? –

são os rastros
– amor, onde a vista alcança? –
a sua morada minha
a cama miúda marcada de sal
escalar as cordas rumo a imensidão do pescoço
em uma manhã ávida
– e há vida dentro e fora amor –
pulsam as coincidências do céu
dentro de um pano estendido no chão
– a gente divide as cadentes
e eu te dou todos os cílios amor
os desejos são sempre seus e o real é nosso

são os rastros
em preto e branco ou tecnicolor
os dois sentados
dentro da vida
– deixa estar tudo amor –
marco esse encontro
na foto que tiraremos debaixo da árvore do nosso quintal
rodeada de rastros
marcados em cada ponto em que plantarmos nós dois

pausa: ter o domínio…

Dominium Remixus
Parteum

Apesar dos pesares corro pra ver se anda
não pra saber quem manda ou comprar o que vi na propaganda
sigo meu próprio rumo, me arrumo com minhas condições
pro meu consumo sem maiores ambições materiais
quero minha paz, meu lugar
me livrar das correntes pra mente respirar
coloco ordem no meu caos pessoal
pra encontrar um sentido no qual possa me inspirar
meu motivo pra acordar em qualquer horário
abrir os olhos pra enxergar o itinerário
me guiar mesmo quando embaçar a visão
minha intuição diz que é temporário
e que eu posso bem mais do que imagino
quanto mais tento mais tenho noção
de que depende só de mim pra traçar meu destino
pra trilhar meu caminho com a vida na mão

ter o dominium, mente matéria
coisa séria, jogo de gente grande
minha vez, minha verdade
minha versão, meu modus operante

Prefiro os demônios que me conhecem
quanto mais me aborreço mais crescem
quando mais me despeço mais pedem pra eu ficar
a quem tente duvidar do que faço chover na rima
eu ando pela mente desses, feito enzimas
quando cataliso a oportunidade
domínio do latim, controle de propriedade
verdade seja dita, eu esperava mais da minha geração
concedo a informação
que falta aos mesters pra mudar de direção quando é preciso
talento eu vejo um monte, falta um pouco de juízo
faço dívidas maiores que o salário do seu pai
totalmente iluminado feito filme da Lakai
Parteum, Kamau e Rick
casa de pau-a-pique com essência de mansão
a beira do precipício fazendo meditação
Davi versus Golias todo dia na indústria da adoração

dominium, mente matéria
coisa séria, jogo de gente grande
minha vez, minha verdade
minha versão, meu modus operante

Desde a época de épicos, a época de réplicas
fiéis autenticadas de levada, estilo e métrica
não há mais ética no jogo, to esperto com quem me queima
e por quem eu ponho minha mão no fogo
boatos querendo status de lenda
novatos querem contatos na agenda
querem respeito imediato com frases de efeito imediato
mas não existe jeito imediato pra aprender
nada de supletivo pra compreender
qual o motivo que me tornou autodidata por necessidade
nessa ciência que me pede paciência pra manter a sanidade
será que vale a pena essa dedicação?
será em vão se for pela metade
dou pela verdade pra cumprir a função
pra seguir na missão com o microfone na mão

ter o dominium, mente matéria
coisa séria, jogo de gente grande
minha vez, minha verdade
minha versão, meu modus operante

2958. Basta

quando saio de casa
e submerjo no céu,
naquele instante em que
as pálpebras se tocam e
num mar vinho mergulho,
vejo com os olhos cerrados
nesse seco cerrado
o calor do sol dançar

ele me pousa quente, vermelho
resto-me liquefeito, cálido:
tudo seco e eu sou feito d’água,
lágrimas em ebulição nos olhos
me fazem nascente

calafrio quando toca o vento, sombra
bruma quente quando o ar
seca a roupa dos meus ossos
e ouriça as tramas do tecido, sol

quando abro os olhos
o azul me solidifica
e o vinho vista adentro
vira sangue e me move

passeio dentro do azul
fazendo dessas paisagens em mim,
algo que, andando e fechando os olhos
por poucos segundos de cara pro sol,
basta

2954.

no início era só o que cabia e podia
o tórrido se instalava no fim do dia…

hoje há um atrito
entre o espontâneo
e o rito
fricciona a pele
do diário
com a derme
do sinistro

e o tédio nos faz
travestidos de
chapação
por trás da breja amiga
o que resta é solidão

mas eu não sou
silêncio
e tão pouco solidão
sou só todos
os outros
em nu vem ebulição

2949.

Quanto vale
flutuar hoje?
O preço das
pegadas amassando
nuvens.
Quantos pontos
na bolsa
os lances galgados,
pegar aquela
flor de luz redonda
com a mão pinçada
e, bem-me-quer
mal-me-quer,
pingá-la aos poucos
no quadro negro
sem fim.
Quanto vale?
Como faz mesmo?

2943.

a mente não cansa de te construir na memória
de te pontuar as partes e ligá-las
uma a uma horas a fio nos rumores áridos do sol
a mente te faz na luz que prateia as ondas
na espuma deslizada da prancha
em tudo te tem, te reflete
não que seja prata, prancha, sol
mas porque tudo que se avista
se reflete no que deixa a vista embevecida
você alocada em todo neurônio ativo

pausa: porque poesia toca

[a cada dia que passo tenho mais certeza de que no rap é que tem ocorrido a maior revolução poética da contemporaneidade]

O Tempo e Os Sonhos
Elo da Corrente

Tem coisas que ficam no ar não por acaso.
as caixas te confundem quando batem com atraso.
Meus pés descalços n’água rasa e transparente,
me dão a sensação de liberdade ao consciente.

Mas não, o chão é cinza assim como horizonte,
aqui a água é não potável, não tem fonte.
A gente almeja o que não pode ter sem agradecer,
por tudo que temos e não nos deixa perecer.

Aparecer alguns quiseram… se perderam,
vieram outros; os mesmos erros cometeram.
Não se trata de jogar o jogo, é diferente,
quem fala realmente do que sente?!

O tempo é louco não desdenha eu desenrolo,
sempre pondo em prática os planos que eu bolo.
Descolo por um triz um jeito de burlar e ser feliz,
sendo constante e com caráter de aprendiz.

Coerente com o que vivo, entendo e observo,
interessante às amizades que conservo.
Vagando num pedaço de mundo feito de sonho,
às vezes musicando a tal vivência que eu disponho…

As horas passam, os dias correm,
os anos morrem, os sinais não disfarçam.
Os tempos passam, os homens correm,
os sonhos não morrem, as lágrimas não disfarçam.

Eu me aprumo e toco a vida sob caminhos melódicos,
nesse mundo sem harmonia e de valores tão módicos.
Espaço nada lógico pra quem não crê no trabalho duro,
eu já traçei meu rumo a gente se vê no futuro.

Os apuros que passei me fizeram ser quem sou,
quase tudo que hoje sei foi o tempo que ensinou.
Eu caio mas me levanto, cada vez mais forte.
Meus medos os expulsei, de certo já tenho a morte.

E isso é o bastante pra eu buscar em cada instante,
as respostas pras perguntas desta vida angustiante.
Inquieto eu sigo adiante, calo-me ao que é relevante,
só quero o necessário e não cifras exorbitantes.

Mas não há porque fingir o mundo é torto e confuso,
e a cada dia que passa mais nele me sinto intruso.
Eu recuso os seus atalhos, sei bem como é o trabalho;
faço das minhas linhas uma colcha de retalhos.

Caio e PG comigo nesse árduo caminho,
ninguém falou que ia ser fácil enfrentar o mundo moinho.
As horas passam, os dias correm e nem vemos;
é como Leminski disse: Distraídos venceremos!

As horas passam, os dias correm,
os anos morrem, os sinais não disfarçam.
Os tempos passam, os homens correm,
os sonhos não morrem, as lágrimas não disfarçam.

2942. #EuSouGay

e o amor ocorre ao largo
do ódio que não se contrapõe
quiçá a antípoda houvesse
pois que indiferença mata menos
– e oxalá – há de vir! – nada matasse
anatomicamente igual
(e nem lembrem de tamanho, forma, cor…)
humanamente – sempre – diferente

igual assim quando ele diz:
“meu homem é lindo”,
tal qual se dá quando ela sussurra:
“quando com ela, não vejo o tempo passar”,
o amor ocorre não entre iguais
ao que nem gêmeos podem ser:
isso de iguais

isso de iguais não cola
(imã mostra, velcro prova,
mas a gente não é metáfora)
gentes são mesmo diferentes
e nunca – provem o contrário! –,
nunca mesmo, iguais

cada tudo é um único
e o amor se dá aí
entre diferentes
isso que se torna igual

me pergunto mesmo o que define:
é um membro, um órgão, uma condição, uma condução,
um cromossomo ou um status?
e o amor aí se dá, se doa e se faz
sem a definição precisa
ou mesmo a imprecisão cirúrgica das prisões simbólicas dos discursos

e nem mesmo só o amor,
se dá igual é o tesão
a passionalidade, a explosão
o toque ocorre entre essas diferentes
entre as únicas, exclusivas em si

entre, dentro e fora
no meio, no centro, na borda
amor igual nunca igual
amor apenas
sem pena, com penas, plumas e paetês
com barbas, pelos, bigodes
com peitos, bundas, coxas, com o que pode
paixão serena
e quando dê, tensa

porque único, diferente e cada qual
amor é – sempre – assim:
igual que nem,
igualzim…

#EuSouGay

2940. Pira pora ar

sabe, eu não compreendo esse meu realismo
e penso
onde se escondeu a fé que a liquidez liquidou?

sabe, às vezes quando creio
eu sinto mesmo sobrevoar a chapada
no meio da água condensada
percorro as longas gerais em cima do horizonte
sem ser ara
fico voando feito ave de escamas
sem penas
sem planos altiplanos

sendo sim pira
pirado peixe fora d’água
sendo pora
habitado de vôo, dentro do ar
sendo pirapora vossa
sem hora desaparecida
tucunaré das nuvens
pacu alado
dourado ícaro lançado ao léu
papa-terra do meio do firmamento
piracará mais leve que pluma

curimatã que não volta
mergulhado na chuva
pairado
e sendo pira
ser pora
peixe pirado
dentro de um ybapiranga
de fim de tarde

2939. Desconstrução

Trepou daquela vez
Como se fosse a única
Ficou com um qualquer
Como se fosse o único
E tuitou aos seus
Como se fosse o último
E atualizou tudo
Num modelo elétrico
Fez-se desconstruído
Um tanto cibernético
Ruiu todos os alicerces
Paradigmático
Bites por bites presos
Num fractal esquálido
Seu corpo embalsamado
Por hormônio e plástico
Saiu para agitar
Como se fosse sábado
Comeu sua própria mão
Um tanto pornográfico
Depois vagou pelo espaço
Como um apóstolo
Quebrou até o chão
Numa rebolada cândida
Fumou até o céu
Como se fosse por hábito
E arroxou por Deus
Como se fosse pároco
E ficou pelo meio
Do estrato econômico
Gozou em três segundos
De modo biônico
Viveu com ler na mão
No seu serviço público…
  
  
Trepou com pilha azul
Para ficar mais túmido
Fritou com um qualquer
Como se fosse químico
E abortou os seus passos
Para o pulo trágico
E atualizou tudo
Como era o seu hábito
Se desconstruiu
Em elétrons cibernéticos
Ruiu-se anoréxico
E se quedou esquálido
No seu alicerce
Uma arquitetura lógica
Seu corpo transformado
E posto para o público
Saiu para agitar
De modo pornográfico
Comeu no japonês
Um sushi meio arábico
Vomitou junto a vodca
Num lance bulímico
Girou moinho de vento
Meio supersônico
E se integrou ao céu
Como se entrasse em êxtase
E bolinou os seus
Como se fosse pároco
E saiu bem no meio
Da orquestra sinfônica
Gozou por toda a rave
Num momento lúdico
Viveu na contramão
Propagando o místico…
  
  
Comeu e vomitou
Toda moça bulímica
Trepou com todo macho
Do modo mais cálido
Ergueu o seu lar
Reaproveitando plástico
Saiu para agitar
Um carnaval metálico
E boiou num mar
De sêmen pornográfico
E ficou pelo meio
De um estrato quântico
Ressuscitou da vida
Apaixonando o público…

pausa: Paula Taitelbaum

Tem coisas que são mais que murros na cara, são quase chute nos ovos. Ok, péssima metáfora, ainda mais para alguém que, como eu, não é partidário de experiências masoquistas, esse papo de uma dorzinha aqui, o limiar do prazer, sei não, nunca consegui entender. Ou nunca consegui sentir o tal prazer na dor. Então tá, mudo a história: tem coisas que são mais que lambida nos ovos, são quase um gozo inteiro.

Eu estava no aeroporto (calma, infelizmente não consegui nada com alguma aeromoça dentro do quiosque da Infraero), o avião atrasaria sabia-se lá quanto tempo, papo pro ar, sem nenhum emepetreizinho pra dar uma estia, viagem pá e bola, nenhum livro também. Trouxa. Isso nunca se deve fazer, mesmo que não se vá ler nada durante os dois dias e meio em Vitória – o que se tem pra fazer mesmo em Vitória? – deve-se sempre levar um livro a tira colo, nem que seja só pra tirar uma chinfra com a mina: segura o seu Ao Farol, enquanto relaxa na cadeira do aeroporto com aquela cara de “isso, eu trabalho, viajo de lá pra cá, mas ainda assim, dou um tempo e leio Virgínia Woolf no avião”, enquanto olha pra ela por cima dos óculos… Clichê do clichê total. Mas, tudo bem, às vezes cola.

Aí eu resolvo dar uma olhada na revistaria. Afinal, aeroporto não tem banca, tem revistaria ou, na maioria dos casos, livraria. Enfim, entrei nesses mercadões de papel impresso estabelecidos nos portos aéreos e comecei a procurar algo pra ler: Carta Capital? Puts, sem chance, sem análises macroeconômicas keynesianas por alguns dias. Piauí? No way! CQC em papel não é minha praia… Caros Amigos? Hum, claro que não. Veja? Opa, to brincando! Le Monde? Aff, texto demais, sem saco total hoje. Quase comprei uma palavra-cruzada, o problema é que você não pode tirar uma onda com as meninas com uma palavra-cruzada, mesmo que seja o Super-Desafio Cobrão…

Continuei a tarefa de me distrair. Aquilo de olhar revistas estava ajudando a passar o tempo. Fui até a coleção L&PM Pocket e passei o olho: Receitas Vegetarianas, Pablo Neruda, Eduardo Galeano, Eça de Queiroz, Agatha Christie, enfim, gosto da L&PM, eles tem um critério randômico interessante para suas publicações, ao lado do A Paz Perpétua do Kant, e abaixo de Aline 2: TPM – tensão pré-monstrual do Iturrusgarai estava lá, isso:

Decididamente gostei do título e da capa, e a contracapa também era de um singeleza ímpar, apenas notava: “Desaconselhável para puritanos e menores de 18 anos”. Na orelha do livro uma grata surpresa:

Taitelbaum, Paula
poeta de renome
tem pau até no nome.

A biografia poética era de Claudia Tajes, de quem, graças à L&PM, eu havia adquirido o delicioso Dez (quase) amores, um livro de contos sobre uma mulher que tenta amar e acaba apanhada pela rude realidade desse nosso universo masculino obscuro… Mas tudo bem, isso é papo pra outra hora, o objeto de estudos delimitado aqui é outro, o recorte epistemológico é em Taitelbaum, Paula, que abre seu pocket assim:

Eu abro as pernas
para perpetuar
a tênue
ternura
do infinito
da Fênix
e seu rito.

De cara ela já se abre toda, mais ainda assim, um tanto receosa: tentar e se dar. Renascer a cada novo rito de de novo abrir as pernas exige, pelo menos, alguma ternura, pois que, senão, a faca em nossas cabeças seria fácil. Mas aí, logo na sequência, página seguinte mesmo, ela desata qualquer perspectiva de se conter:

Eu abro as pernas
para enrijecer
o grelo
descontrolar
o grito
gotejar
a gruta
e me perder
no atrito.

Ufa. Na cara essa. Ok, na cabeça, direto, sem preliminares, no máximo dois beijinhos de “prazer em te conhecer” e crau, já era. Li mais alguma coisa e fiquei pensando num adjetivo, naquele momento nada me veio a mente. Taí, agora veio. Taitelbaum, Paula, tem uma poesia friccionável:

Meu lugar preferido
é perto do seu ouvido
nas dobras da sua orelha
onde minha língua passeia
sem sair do lugar
é lá que enfio bem fundo
o verbo mais imundo
que consigo encontrar.

Dá pra esfregá-la em várias partes do corpo:

Ele traduz meu silêncio
reescrevendo com saliva
minhas saliências
no instante do refluxo
no reflexo das quatro pupilas
os pensamentos
são como palavras
ele pode me ler.

Tem quem tenha problemas com o pornográfico, como se o sexo representado para o deslumbramento – na maioria das vezes – solitário, fosse algo apenas intermediário, sem mérito, mas em grande medida, eu penso o contrário:

Na vulva vibra a larva
que logo será borboleta
sairá de seu casulo
vai virar uma boceta.

Há também os moralismos, que hoje se alfinetam em várias ordens possíveis e imagináveis, e ainda se flagelam com espinhos no cacete. Tem gente bem nova – e o pior, bem próxima – que até parece, se vê como a próxima vinda de Cristo, os arautos da moral e dos bons costumes, aqueles que vão trazer a novíssima boa nova. E recriminam o baixo, o impuro, o vil, como se falar palavra de baixo calão fosse melhor que os pensamentos demoníacos que os percolam dia a dia. Prefiro quem bota pra fora a palavra, sublima toda essa porra e diz em alto e bom som, eu trepo e gosto dessa zorra:

Tô cansada
de foda
cronometrada
queria horas
e mais horas
de cravada
depois dormir
em concha
encaixada
com a xota
cheia
e toda
inchada.

A poesia da Paula é paulada na moleira contra mitos. Às vezes o machismo cultural introjetado fala mais alto e eu até penso que essa poesia toda é meio miragem, coisa que não existe, tipo “mulher escrevendo isso?”, mas aí eu dou uma mordida no meu machismo e relaxo, que que tem uma mulher falar que gosta de dar o rabo?

Quando teu dedo
passa perto do meu cu
eu me sinto um pouco tu
tudo turmalina.
Quando teu dedo entra
atrás e através
eu arrepio o dedo do pé
pena perpétua essa minha.
Quando nossas pernas
formam um nó de nós
viramos corpos celestes
não te veste me traveste.
Quanto tua língua busca
o meu maremoto
eu morro subitamente
peixe preso na rede.

Tá, tem mesmo quem falará que ela é que é machista. Se enquadrando em estereótipos sexistas e realizando a fantasia de homens que querem as mulheres vadias, principalmente quanto ao sexo, desses mesmos caras que querem, na verdade, as minas castas para casar. Mas qual o quê, século XXI, porque a gente não deixa as pessoas gostarem do que gostam, principalmente quando o quesito é foder? (Ok, argumentos sobre pedofilia não estão sendo computados, beleza?).

Desenhe círculos
sobre meu clitóris
infinitos pontos finais
um pra cada um
dos meus ais.

Gosto de poesia puta. Gosto de sexo nas palavras. Cheiro de tesão em cada verso. Foi bom pra mim encontrar essa mina na prateleira da revistaria, orgasmo sem pudor. Talvez, foi bom pra ela, se esse lance de publicar livros der alguma grana, ela pode ter pagado um jantar que a levou para uma cama dividida com a minha ajuda…

Bom, sem problemas, que atire a primeira pedra quem nunca gozou:

De seus lábios surgem plumas
que me transformam em plasma
viro puro pleonasmo
pluma plasma pleno
orgasmo.

PS: Sítio dela mesma não encontrei, mas percebi – via Google – que tem muita coisa dela no blog da L&PM (como aqui e aqui). Aqui temos o perfil de autora dela na editora.

2938. Cidade I (Um sample de forma)

O espaço quadrante pelas torres digitais
geometricamente compondo o permear entre pontos
imensas curvas periféricas.
 
 
O espaço
              fluindo concreto
              (rio aprisionando a
              quem o navega)
tem prazo de validade
até a permanência
                       da eternidade
beatificado nas sacolas
nas teses dos juristas
sortido alegre ardido de paixão
paixão homogeneizada
mass media de eucalipto
não existir paulatinamente
                       um espírito quando a dor entra e se perde
fazendo do futuro nenhuma continuação horizontal de expectativas
como se espera a paga
que apaga a dívida no banco
                       naquele abril quente
                       de fogo abrasado
                       pelo sorvete devido na parada de ônibus.
Fogo fato adentrado
em vias respiratórias outras
revoltas
                       naquele lugar onde as raízes se entranham
                       tórridas
                       ao que geneticamente se mistura inorgânico
                       que o artificializa
                       como se muros libertassem
parede espessa
prisão e piche.
 
 
O burro na calçada
(pra que pastar mato se os restos dos carrinhos de x-tudo são iluminados?).
Antigamente vendiam terrenos no céu hoje em dia financiam o céu próximo loteando
todo o espaço
vertical que o burro não nota posto que a azia o co-in-funde tapando-lhe os sentidos
                                                                                                                                tidos
dentro de algo que poderia ter sido um cérebro.
 
 
De dentro de feixes de tarde
                               portados em paus de
concretos, emaranhados
de arames bem atados
                               que me dispõem a mesma coisa
que são tal e qual imagens
                               ou
                               nós
amarrando os satélites
que despencam bolsas e valores
foices em seringas
                               que me curam
                               e me movem
                               pois me ouvem
ou me cobrem
feito a noite mortalha a tarde
                               que oculta meus ares impuros
a pornografia de um abril desfeito e quente
                               (a aldeia inteira arde as correntes
                               em abril!)
labaredas esquecidas e fé
                               mimético e mítico
                               pura religião sem símbolos.
 
 
A manhã tarda essa noite longa e banhada de humores e líquidos
gozo ao outro
                               liberdade de possibilidade
                               (noites fogos esquecimentos lugares)
que lhe retribuirá endiabrado
músculo tencionado e relaxado
                               perto da brasa
daí soltar os pavões:
a ilha de calor cândida
na armada brita
(células na argamassa
cimento e água)
rolar voluptuoso e sério
por uma noite sem vida pulsante
                               paz nos ossos dos orifícios.
 
 
Naquela noite naquele deserto naquele abril
a prosa
orquídea dengosa
insere-se
plug-and-play no usb 4.0
ralo dado no esgoto
                               minotauro – tarado – beija
o chão e chupa a manga
convencendo que labirintos
já não bastam como esgotos
                               roçam o espírito do prosador.
 
 
Espírito que queimará sempre
                               naquele mês de abril
                               longe de tudo
antes de todo ardor sucumbido
por musas que cercam e embasbacam.
 
 
Epírito que precisa aparar
pois que se enfeia
                               o real materialista
que ouve os vãos como os vôos silenciam
o espaço percorrido de céu
                               e ainda calam a realidade enfeitiçada
                               tão sólida
que ouve pouco
com aparelho
                               a um xamã prismado que canta sem voz
                               cativando portas e janelas
                               pisos que ouvem
quando houve a necessidade de se torrar as sensações.
 
 
Epírito que precisa aparar
pois que se enfeia
                               a telepatia cinza entre os mundos
infovias de comunicação quântica entre humanos
como um não-lugar se dá em outros
desconhecendo quadras, casas, conjugados.
                               Fixa o diluído chão
                               mobilidade castrada
(Aṣé, Vandana Shiva,
                               múltipla política terrena!).
Espírito que precisa aparar sempre
pois que enfeiam mesmo as mortes
                               fino fio que certifica a passagem ao inorgânico.
 
 
Até a beleza se dar em felicidade bela.
Iluminando.
 
 
Ao que se enquadra
                               (arranha o céu, veja)
foi ou será
todo o globo gleba utópica densidade medida
                               de restos e sons.
Como o que se transpira é cálculo
                               (ou arranha um céu visto de cima ou de dentro)
equação que precisa se errar
mesmo que seja apenas eterna
                               naquela noite de abril
ou por certo aquela velocidade
                               no espírito ou no ar.

2937. Tenta³ (Um poema teórico sobre a práxis)

1. Introdesenconclusão

“Levante e dance como o Michael Jackson”¹
sabendo que
“viver é uma atividade irremediavelmente diletante e autodidata”²

2. Referências Bibliográficas

¹ SKOL. Jogo Redondo. Cervejaria do Baiano: Mesa de Plástico Amarela, bolota s/nº.
² CABRERA, Julio. Diário de um filósofo no Brasil. Ijuí: Unijuí, 2010, p. 62-63.
³ DE LAS TCHOLAS, D. Vitim. Discurso sobre a vida. Taguatinga: Edição do Autor, 2010, Antarctica nº 7.

2935. Metrômanas

Primeira Estação

o espaço exige
fôlego. toda prisão
é territórrida

Segunda Estação

claras, alvas
e quando o março
em abril despedaça águas?

Terceira Estação

o emplastro alívio
unguento de chorume
sorvo cores que curam

Quarta Estação

onde lobos?
nos pés caçadores
que esmagam barro
e bosta

Quinta Estação

tudo um real
da diversão líquida
aos amores sólidos

Sexta Estação

consumo o corroído.
já na barriga
todo plástico alivia

Sétima Estação

o ermo dos ossos
a caverna, sem
sombras, me espera

Oitava Estação

toda reta tem
um início, toda
torta, um suplício

Nona Estação

há que se salvar
em crises, cristas, cristais
em cifras boiar

Décima Estação

quem desce
oito passos para
o claro inferno, no céu?

Décima Primeira Estação

três para render-se
arrebatado num mar
de céu arrebentado

Décima Segunda Estação

como arte, o estado
inanimal de não ver faces,
mas ossos

Décima Terceira Estação

o centro. Roma.
alma morta numa
escada quebrada. pro céu.

2934.

Veio do norte na fissura de tudo,
o imperador urbano.
A todos o estado cativo era
tudo o que cabia.
Junto a ele, pólvora, ferro, germes,
várias idolatrias. Dionísio.
Voou ares de mares.
Desbravador. Apontando
no astrolábio o centro da civilização,
o lugar donde jorrava mel,
sem vida.
Travestiu-se de terra, deus,
contudo escravizando pelo seu tato.
Parecia belo e justo,
parcimonioso nos modos
o imperador urbano.

2932. Salmo da chuva radioativa

No claro momento explodido
os córregos de iodo dançam
nos átomos mutantes
– em cogumelos e macacos –,
pelos prédios grossos
os humores pesam, vaporizados
e rumo ao globo, abraçam
concreto e carbono
manto isotópico que nos aquece.

Dia a dia, em tudo,
nuvens cegas-surdas tremem,
respingando nos corpos éticos.
Avalia se não se sabe a divisão:
mil vezes mil – às vezes –
alterando o chão onde pisam
pregos e pedaços de mundo
puro amor ao fim dos atos.
Coito alento, atento
aos mínimos pedaços
para o prazer do fim.

2929.

A realidade fragmentada.
Alinhando o céu, o continente e o subsolo,
num grave risco,
num longo verso,
pausada e candente dança
que a luz embaça.
A esmurro abertamente bento,
desnudando o desejo e o dia.
O que te acorda ainda não morre.
E se vê toda a espera,
brevidade póstuma predestinada,
irromper em teu espírito
o fluxo e a ideia.

2926.

Ataca a face a dor e a escuridão
naquela noite indigna da mesma cama.
Fixa a teia que nos une
como a presa à aranha será uma,
introduzindo no veneno a apatia e a cidade
o todo refletido nos arranha-céus espelhados.
Avançando em tua face,
milímetros de labaredas
em rios de lava, a rocha bruta,
livre da solidão da solidez. Flutuada.
Certo que dormes neste tempo de trevas
à alta hora. O afago vário
te dilata já no estômago
um murmúrio de ódio:
fetiche e brado.

pausa: Shakespeare

Sonnet LX

Like as the waves make towards the pebbled shore,
So do our minutes hasten to their end;
Each changing place with that which goes before,
In sequent toil all forwards do contend.
Nativity, once in the main of light,
Crawls to maturity, wherewith being crown’d,
Crooked eclipses ‘gainst his glory fight,
And Time that gave doth now his gift confound.
Time doth transfix the flourish set on youth
And delves the parallels in beauty’s brow,
Feeds on the rarities of nature’s truth,
And nothing stands but for his scythe to mow:
And yet to times in hope my verse shall stand,
Praising thy worth, despite his cruel hand.

Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta:

Soneto LX

Como as ondas se arremessam contra as pedras,
Aproximam-se os minutos de seu fim;
Cada um ocupando o mesmo espaço,
Num incansável e destemido movimento.
Do nascimento, após vir à luz,
Engatinhamos até a maturidade, e somos coroados,
Vencendo estranhos eclipses perante sua glória,
E o Tempo, dado, que hoje nos lega seu presente.
Os dias firmam seu passo na juventude,
E cavam suas sendas sobre a fronte da beleza;
Alimentam-se da raridade da verdade da natureza,
Mas nada impede o firme corte de sua foice.
Porém, às vezes, espero que meu verso prevaleça,
Elevando teu valor, apesar de seu cruel desmando.

[lindo: ele no poema, ela na poesia, eles no fundo e ela na versão]

2925. Para o Pássaro Proibido, com carinho.

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me encena um ato público
Me ensina uma canção
Me acena uma gesto mímico
Me insinua a cultura da produção

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me insere na indústria midiática
Me insufla a inspiração
Me encerra no ato poético
Me estatiza toda a criação

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me acentua a espontaneidade
Me assessora na elaboração
Me inculca o drama
Me assiste na televisão

Mecenas, Mecenas, Mecenas!
Me encoraja o dom
Me introduz a projeção
Me envolve nas cifras
Me investe apenas um milhão

2924. não é ideia

o corte é na pele
e quem disse que alma não sangra?
verte um líquido viscoso e verde
a geração de caim
não quer se alimentar dessa esperança
e mesmo os hematófagos com sua sede anêmica
não lambem

mas o corte é na pele
e a ferida é na alma
laços entre a planta e o animal
quase um fungo
um cogumelo cinza aberto na tampa e azul embaixo
orelha de pau pregada na cabeça

com esse corte na pele
a alma morre
como se atar aos prédios
pelo pulo
e pelo espaço singular entre o topo e o asfalto
massa entre vários reinos no fundo
sangue verde coagulado na pedra
alma é matéria

2923. proposta

se liga na proposta
não se faz jocosa
para, leva a sério
escuta a rosa
sente eu dormindo
em suas costas
o vento murmurando
eu quero, cê gosta
então tá, a gente sabe
que mundo bosta
mas não faz troça
vamo aí
só um quê de bossa
parar a fossa
aquecer o que possa
daqui a pouco o inverno vem
a cama é nossa
a rima roça
dois pés gelados
meu fogo toca
nós dois assim
pralém de troca
um tanto zen
o incenso percola
dois doizim
só pra ver se descola
um riso fácil
pro piratão da hora
eu levo o beiju
e um beijo
pra larica que assola
eu paro, vixi, extasiado,
enquanto você me olha
a gente apaga
abraçado, a noite demora
bem de manhã
você acorda
me dá corda
me namora
te amo e, ih, já deu a hora
um banho ligeiro os dois
juntim pra economizar por agora
um café forte, uma piada
e a cara pra ir para fora
cada um prum lado
pro corre do din que logo torra
e o dia inteiro, ligeiro, na tora
pensando que logo mais
eu chego, cê volta
meu beijo, você dengosa:
“macarrão meu bem?”
ok, eu corto a cebola
e você faz o que gosta
assim, não sei se aposta
aprova e se topa,
mas e aí, curtiu a proposta?