1744. Sambaqui

Areia cobre o vão
da sua presença
e eu jogo sal.
Areia corre e encobre
a sua sentença
e eu jogo sal.
A concha constrói
o casulo da sua
ausência
e eu tão sem sal.
A concha dissolve
em calcário a
minha falência
e eu tão sem sal.
Aqui eu me enterro
Aqui eu me erro
Aqui no horizonte
tão vasto do mar
de água e sal.

Florianópolis, SC.

1742. Eu vi primeiro…

O senhor quase a
sentar-se sentencia
a máxima de Cristo,
como quase um fardo
o ato de amar,
como quase um brado
a ti o mesmo dos
outros.
A senhora quase
morta prenuncia
a do fatídica:
sempre o descompasso
entre a intensidade
e a intenção.
A garota faz
a trança bocejando
o anseio niilista
moreno, sair da
ética e desprovar
a liberdade, despovoar
a verdade.
E os anjos em cima
de seus carros
esperando o fálico
da cultura numa
linguagem para além
da Babel perdida.
Vou tentar arrancar
suas cabeças como
bom guerreiro jê
e pendurá-las nos
topos dos postes,
para que a luz
artífice seja mais
que cem mil sombras,

sobras do discurso
e da vontade.

Florianópolis, SC.

1737. Ode à puta

Ai linda puta que
passa, fazendo quase
de graça o que te
falam em desgraça,
o fardo da força de
trabalho da tua
milenar profissão.
Lindas as tuas pernas
que pecam ao vender
o dito lindo ventre
materno, o teu digno
ganha pão.
Lindos os teus olhos
que viram aqueles
quase castos e tímidos
comprarem o prazer
no transar de uma
ilusão.
Linda a tua fantasia
de guerra que tapa
pouco os teus seios,
avantajadas forças
que contorcem a razão.
Linda você, dessa e
de outras esquinas
que embaralham as
retinas dos que passam
meia que seja das
horas da tua vida,
pagando o preço do
tesão.
Linda toda puta,
que se digna a vender
a maior obra da
criação!

Tangará da Serra, MT.

1735. Social

Me mostra o mote
da falta que aos
imberbes da cascata
dizem o segredo
de ser feliz.
Dia passa, noite
alta e àquele que
rasteja sobre o lixo
da lata mostra
o que se quis
quando ele pára
come o lixo e diz:
“ai de mim marvada,
que a tua lua me
condiz!”
E lá na beira da
cachoeira, os imberbes
se deleitam e seguem
naquela verve de:
“ai minha amada lá
da ribanceira, a ti todo
ouro, aos outros
a poeira”.

Tangará da Serra, MT.

1731.

Os músculos todos
tensos e relaxados,
um tipo de sexo,
solitário, mas ainda.
Nada que se pensar,
as mãos calejadas
do dia de trabalho,
a vingança a noite
de papo pro ar.
A cigarra, o grilo.
O cigarro, um pigarro.
Não se pensa.
Pensa talvez o que
pulsa a veia jê.
Esperas-se o próximo
ponto em que o
céu caiba no centro de
uma peneira.

Tangará da Serra, MT.

1728. Taguá

Tenta-se entender
Aqui pulsa
A pedra rola
Um reduto
para além
dois viadutos
Para aqui
putos
Cerveja assim
posta sobre a
mesa
Um ar de
qualquer coisa
antiga, um
ar de mil
novecentos e
antigamente
Uma fachada
outra, um
bueiro aberto
A gente se olha,
se nota
E sempre vem
a nota
de tão grave
quase obtusa
O forró ao lado
e a gente se
afoga no álcool
Eu olho, ela
olha, tudo isso
em volta,
envolto em uma
explosão
É o pé frenético
de uma noite
perdida de
domingo
O cu seco que
passa ao lado,
o esteio,
o vão do decote,
quase inteiro
um seio
E a gente pesca
palavras no
vento

1730.

Por que ele não
fala nada?
Não tenta
qualquer coisa,
a noite vazia,
a breja finda
o caco no chão
refletindo a lua.
Ela sem graça,
cheia de graça
e tudo de graça,
mas ele parece
que antevê a
desgraça,
o não talvez,
quem sabe o talvez
mesmo.
E ele não faz
nada quando
ela passa a
língua pelos lábios
tentando dar
umidade nesse
mar de secura.
Ele nada, nessa
uma de não
dar mancada.

1724.

Será que a música chegou?
Será que o som sussurrou o que eu queria?
A carta, a letra, o som…
A música falando do amor
Como três quartos de tudo que se musicou
O amor, a panacéia do mundo

A carta, simples, nem escrita à mão
O veio d’água
A seca
No tempo se saca, o quanto falta
Todo tempo é ressaca
Pro embeber-se da falta

Daqui do avesso do tempo
O espaço se curva aspirando a uma notícia
Sua
Pode ser sem música
Pode ser assim, a imagem de uma begônia em flor

1725. Ter gosto

É preciso ter gosto

Sentir gosto
Está ligado a sentir os cheiros
Pra gostar se precisa do gosto
E do aroma que vem junto
Tem gosto que vem com o cheiro
Tem cheiro que vem com o gosto
Tem essa coisa que se gosta
E vem por acaso
Ao se degustar frases num monitor
E o cheiro vem junto
De tarde junto
De noite junto
De manhã, rindo, junto
No fino das palavras resvaladas e desesperadas
No parque
No surreal
No dizer que não se quer mais
Na loucura da madrugada
Do telefonema infindo
Dos recados em flertes poéticos
Dos sustos patéticos
Dos surtos

O gosto que veio
Eu gosto
O aroma que veio
Falta

1722. Explosões

Por toda parte
Da arte à catarse
Caos em todo canto
Do carste ao campo
Dor em todo peito
Das damas ao defeito
Sangue no mundo
Dos sãos aos suínos

O morro vai descer
Vai descer pro asfalto
Que morram eu e todos
Explodam lá do alto

Me matem por favor
Tirem tudo o que eu tenho
Desçam, sem disco voador
Tirem meu maior pertencimento
Me enterrem no cimento
Estrangulem meus amigos
Tornem caos suas libidos

O morro vai descer
Vai descer pro asfalto
Que morram eu e todos
Explodam lá do alto

Rajadas de PT
AR-15 em minhas fuças
Explodam o que aparecer
Que é isso que tipos como eu merecem

1721.

E no final ela ama o babaca
Podia falar filho da puta
Mas as putas não têm nada a ver com isso
Elas são muito legais pra serem mães de um merda como ele
Podia falar débil mental
Mas os loucos não precisam pagar o pato por ele
Podia dizer que no final ela ama o asno
Mas os asnos são tão gente boa
Deixa eles pastando tranqüilamente
Só sei que no final ela ama aquele porra
Idiota dos infernos
Mas só podia dar nisso mesmo
Ela é a mais idiota de todas
Imagina eu então que lamento

1720. Diferente

É assim a primeira intenção
A volta que não volta
Um azul pra você
Um anseio de Iemanjá
Um verde pra completar
Algo perdido
Entre o céu e a terra

A liberdade vem sutil
Por entre as frestas dos poros
Há sempre outros pelos
Há sempre poesia
Sempre

Sinais sempre vêm
Se vêem
Sem mais, só vêm
Diferentes, outras versões
Tudo novo

1717. Prometo

Tá bom, aí então eu faço uma poesia cheia
De esmero, falando até sobre Édipo Rei
Tudo bem, eu falo, é um pena que eu não sei
Aí eu floreio também com um pouco
De processo histórico e lutas de classes
Aí fica assim, redondinha a poesia
Cabe até numa antologia
Porque eu também vou colocar uma metáfora
Para a condição humana, como os mamutes da
América do Norte
Coisa grandiosa mesmo
Projeto para depois da vida
Imagem maior que a vida
Traduzível em todas as línguas
Transponível a todos sos corações do mundo
Poesia de verdade, né?

1718. Nada para além

Depois do advento da internet
E sua conseqüente popularização
Temos poetas por todos os lados
Fotógrafas em cada esquina do espaço virtual
Músicos pra cada ouvido do mundo
Artistas reinterpretando a realidade
Em cada comunidade do Orkut

Aos que ambicionam o projeto civilizatório
Aos amantes da erudição
Cada ímpeto disso tudo é uma arpada em seus corações
Conscientes da teoria da arte
Da metodologia das letras
Das epistemologias científicas

Maldizem a vulgarização
“A arte foi colocada ao mister da repetição!”
“As letras foram mortas num nonsense significativo!”
Bradam os revoltosos do alto de trio-elétricos
Quase sindicais
“Para onde foi a essência?!”
“Como se projetam essas existências?!”
São perguntas que não se calam diante desses

Eu os fito com o mesmo desprezo aos olhos
Que eles imputam aos chamados pseudo-artistas
Pseudo-escritores
Eu amo todos os pseudo-alguma-coisa!

Um viva à poesia pobre, rima sem estrutura e sem metáfora!
Um viva à arte indigente, sem nuances de tom e de luz!
Um viva ao conto confuso, sem ritmo, sem sintaxe gramatical!
Um viva à música sem fãs, ao som eclético e só referencial!
Um viva à performance da aparência!

Eu quero a lógica fragmentária do sample
Anseio o caos desordenado de manifestações ultra-sentimentais
Desejo a incompletude dos projetos artísticos maculados
Espero ardentemente a palavra medíocre clamando por uma leitura fácil

Viva os blogs, fotologs, mp3s, playlists e afins!

Que qualquer escreva poesias
Que se expressem de toda forma
Que a arte não seja exclusiva das elites e dos intelectuais
Eu quero a poética do caos de todos serem poetas

Eu fico com o torto e com a torta
Que morra a erudição

1714. Pra ela II

Tem o volume da sua cintura
Essa coisa que não se agüenta
Assim, minha cabeça pendendo
Na tua barriga, os pelos da minha barba
Roçando o incontido do teu umbigo
Uma coisa assim perfeita
As dobras quando se curva
Justapondo a perfeição num conceito
Para além do greco-romano
O tom moreno da coisa
Como as tardes de seca do planalto
Seria a umidade salgada do encontro do meu rosto
Na sua barriga e tudo moreno

1715. Pra ela III

Escorrem quebradiços sobre os ombros
Até as pontas dos seios
Os fios que eu percorreria
Como uma viagem entre o norte e o sul
Desvendando paisagens como esta
Do encontro entre o pescoço e o ombro
Essa curva que brilha nos verões de baixo Equador
Aí eu retirava esse fio teso no canto da boca
Uma corda esticada entre a beleza e a superação
Da beleza
E esse fio envolto na aureola do teu seio em frio
Eu o puxava milimetricamente com a ponta dos dedos
Tateando a linguagem em braile do
Que em você sobressai sendo mais do que em ser lindo

1711. Ligo não

Um ano se faz
nem lembrava,
coisa que a memória
seleciona em prol
da integridade
de que fique o bem
e de que se fique bem.

Um ano se faz,
minha memória seletiva
no lapso nem se
recorda do número,
talvez do quadro,
do antes e do depois
do dia
do então.

Feliz ano pra ela
Feliz o ano pra mim
Felizes os anos
para o entre eu e você

E pra ela,
haviam muitas poesias
no livro
até hoje devem haver inéditos pra se ler…

Sem brinde,
sem chears,
sem lágrimas,
sem mágoas,

feliz sim, pra você.

1706. Uma prosa (sobre) boa

foi aí que eu vi aquele moço
o cara fazia umas músicas boas
antes de ter morrido no estrangeiro
resolvi puxar papo
tinha algo que eu queria saber
uma coisa quase pulga atrás da orelha
queria saber sobre a probabilidade de
saber da existência antes do contato
o problema todo era aquela música
que não saia das minhas músicas
aí eu perguntei:
– Quando você a conheceu?
– Não sei, talvez eu não tenha a conhecido, ou não…
– Ah sim… suspeitei…
– Ela é linda, não?
– É sim… Bastante…
fiquei a pensar então nela
no choque que não era do azul
mas do cinza
devia ser fruto da cidade, quase daquele
cruzamento que mexia com o cara
e ela é toda certa, assim, no sentido da coisa
e uma voz, uma voz que é qualquer outra coisa certa
– A voz é linda também, não?
– A voz? É sim, bem linda mesmo.
e há a força também que sobressai qualquer choro
e as letras e as músicas
uma onda que arrebata mesmo
um ritmo que cadencia os pés e dá vontade
de trocar energias entres os ventres
– Mais que demais?
– Ah, bem mais…
– Fiz até uma canção.
– Eu sei, queria tê-la feito antes, aquela coisa do seu amigo: “Certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim que perguntar carece: como não fui eu que fiz?”.
– Pois é, meu nego… Previ ela antes.
– É, dei mole mesmo… Talvez ela queira bater em mim, sabe? Como a onda…
– Lindo.
queria ter
sentir
o íntimo
e são fontes de mel tão lindas…

1703. Seol

“Quanto mais se envelhece
mais os mortos se aproximam…”

Devo sair dessa toca
E procurar túmulo por túmulo
A minha morada
Meu corpo tenso pelas frestas de luz
Saindo do telhado e manchando
O chão de luzes empoeiradas
No Livro de Jô eu tive
O que saber

Talvez eu deva me guardar no
Mais ermo da Terra
No mais obtuso

Há de ser o que deve
Hades chamando para fugir do corpo
Uma condição em que moro
Num lugar em que matéria
É pouco para o desespero

Guardar minha memória
As mais intensas profusões
Ter consciência e não conhecimento
Do que ocorre no mundo dos vivos

Mas, ainda, uma dose me cabe antes…

1702. Tremores essenciais

e eu não sou nada erudito
pouco sei do que é o ocaso do ser humano
pouco sei o que se passa entre Eros e Tânatos
abaixo da curva retilínea da emancipação do umbigo
eu que só quis trocar as energias do ventre
e fazer do ecce homo apenas mais uma dentre tantas possibilidades de ser
eu que estou no meio de dEUs e zEUs
acobertado pela medíocre mendicância de ser
eu que produzo a natureza com meus sentidos
eu que natural sou-a apenas para conseguir se perceber
eu, cultura, que num ardiloso abrir da caixa e do pulo para fora do rio,
só consegui ser rio
e me ver sobre a inconfundível visão do outro
em si aos olhos de Narciso debruçado sobre a ribanceira
quase uma vitória-régia a se entregar à lua
eu, que apenas saí de mim para me ver

o grande drama da natureza e dos deuses

pouco

eu

e quando no céu brilhou aquela vista torpe de que o mundo poderia caber além de si
não vi nada
ou isso mesmo, nada
pois que depois da erudição eu não entendi nada
e tampouco senti
eu, que entre os encargos do medo e da manutenção dos genes
abdiquei do ser num fenômeno
ou fiquei no fenômeno do que existe para si
eu, que potencializei a vontade, hermético

que destruí a ponte e armei uma cancela

esse eu aí que desbunda a potência no fálico de um cigarro queimado
vontade ainda

1697.

A disputa é essa mesmo entre sonhadores e guerreiros
E qual surpresa não foi a de constatar que os
Sonhadores ganharam dos guerreiros
Aprisionaram-nos no mundo das idéias
E fizeram do sonho a realidade
E a realidade a se travestir depois da disputa
Sobre o épico da técnica
Apenas mais um sonho em meio aos outros
A idéia vencendo o ato e tornando o ato idéia

1698. Lili Telefonista

Carnaval acabado
Meu estandarte já todo esburacado
A haste torta
O fim do som
A banda morta
Fantasias ao chão

Seguindo à praia
Eu e Lili
Queimar fantasmas
Bem logo ali

Queimar as fantasias
Nós fomos só queimar
As fantasias
Jogar ao mar as cinzas

Despimos tudo o que poderia
Se despir
Queimamos as fantasias
Nus, nós ali
Eu, o mar e Lili

1699. Mês que vem eu me caso

Eu disse “eu te amo”?
Foi um lapso que ocorreu
Ato falho
Obsessão por algo não ocorrido
Obsessão por algo por ocorrer
Eu disse “eu te amo”, né?
Mas foi isso de dizer
Coisa que a boca não controla
Diz por dizer
Pra falhar mesmo
Eu disse, não há como desdizer
Mas só pra acalmar sua euforia,
Eu disse “eu te amo”
Com a cabeça lá na China
Lá mora o que deve ocorrer
O desejo equacionado da pulsão
Não me venha com as suas pulsões
Cada um carrega o fardo de seu próprio trauma
Eu carrego o superego tonto
De tentar me conter em dizer
Isso de “eu te amo” pra qualquer

“Eu te amo”, diz o que eu quero do desejo
E não o desejo

1694. Down

Is that’s all right
I’m feeling down tonight

That’s all right
This greasy sky

That’s all right
I don’t know that is I
Because I’m feeling down tonight

That’s all right
I’m flying high
In a flower butterfly

That’s all right
I’m alone without I tonight
I’m feel so quit
I’m feeling so down to a night

I don’t go cry
Because are dry
My empty eyes
But really is just because
I’m feeling down tonight