Os ipês tão florindo na chuva
e os mortos enfileirados
cantam para Iku.
E eu amo Jorge, amo o cavalo,
amo o dragão, a espada e a lua.
Eguns comem pipoca de
canjica branca,
eu moro na roda dos coletivos
num agosto frígido,
cativo do coletivo morto
perto da feira que brota
novamente
revigorada e enramada
pela chuva de agosto,
rara,
que expele flores de ipês
aos solavancos de Oyá.
Autor: Guilherme Carvalho
4012.
a pornografia dessacraliza o ritual
– os ritos eróticos mortos –
poda o processo imaginativo da fantasia
exacerba a expectativa
em desempenho e potência
a pornografia é uma escrita
na memória das horas que rasura
toda tecitura do gozo
destoca o elaborado do toque
desaproxima pela próxima do próximo toque próprio
a pornografia é irmã do moralismo
4011.
quantas vezes eu me estuprei?
ao me exigir uma potência inexistente
uma voracidade impalpável
e ainda assim ali
mente em estado fantasmático
corpo em modulação mecatrônica
igual à fábula pornográfica
ansiosidade meia bomba
a qualquer momento ele brocha
eu
só partes em animismo esquizoide
caçador de imagens meio afeto
meio objeto
eu
abjeto
nojo interno, bastaria um não:
não precisa, não agora, não
pelo dever composto
de dar substrato aos pelos
e à paisagem pélvica
morro testemunho do macho habitado
potencialmente inerosível
a lição do consentimento
inegavelmente vinda da outra
também tem de partir de mim a mim
4010.
quando desci até o profundo
havia uma disposição enramada,
em cada bifurcação mais uma
e só se avistavam bifurcações
qual das mil me levaria
eu deambulava em digressões
em cada ponto bifurcado
algo que transitava nos dois lados
e um cérbero cobrando do cérebro
um óbulo pela travessia
nada era fácil depois que minha face
havia se estampado no mundo
era preciso retomar o rosto
o contorno da minha imagem
as curvas que transpassaram os anos
e enrugavam ao solavanco dos outros
no profundo da superfície
qualquer jogo te diz quem você é
mas as sendas era múltiplas
e nenhuma era minha, eram marcos
onde eu perdi o trajeto
já não era possível o percurso
nenhuma visão se contempla espelho
quando a luz não vem de si
cada caminho era o calcanhar dos outros
que pouco intuíam do arrazoado
dos passos a serem dados,
apenas formavam faces com os pés
e os pés bifurcavam dedos e dores
que eu seguia no profundo da superfície
para
onde
4009. Treme
Um tempo de têmporas e reviradas,
sempre soube que o passar desvia o eixo
que o fato não acalenta a lida
e o pouso se intromete nas cercas
Um trajeto de sangue e revoadas,
nunca disse que a trilha era do início ao fim
que o marco não enganaria os horizontes
e que o fluir não desintegraria as raízes
Eu ponderei o pó por onde andei
e perdi o rastro na poeira levantada
As partes não se encaixam
num mundo de calor e gelo
Há o que comprime e o que expande,
uma revoada de bichos solitários
na noite mais clara que já existiu
Perdi a tessitura da claridade e da escuridão
como todos os bichos se esquecem agora
o translado para onde
Onde urge um fim
4008.
a cada dia a carne cansa mais
as noites, todas iguais
as camas, subnormais
as festas, farsas, sinais
o espírito do tempo, sem cais
o sorriso, obrigado, não traz
uma pressa de esperas
de esporos por abrir plantas
de esporas nas costas
de esporros internos
os infernos não esperam a morte
eles nascem e renascem
todas as vidas em dias
4007. azeviche
dentro
pedra negra
lapidada
encrustada
de lápis-lazúli
seu brilho negro
não cega,
ilumina sonhos
mar de ônix
no breu que se enxerga
4006.
Dentro da caixa
apenas fios emaranhados
novelos embolados
nós,
cortes bruscos
retalhos
coloridos sinais
Alguns nós já cegos
não desatam mais
viraram cordões de macramê,
outros uniram pontas
secretas
os fios do passado
preenchendo os carreteis futuros
Outros fios permanecem ali
meio soltos
meio presos
meio tecido desfiapando
Tem esses fios que insistem
em ser ponta para uma costura
linha pra pipa
papagaio, pandorga
voo ao vento no céu de inverno,
o que liga as mãos
ao que voa ao ar
Não são fios emaranhados,
são bem conhecidos, soltos,
se puxar eles se vão
De quando, eu puxo
mas não tem fim
passam pelo todo
se aninham além novelos
dão o contorno solto
pelo todo do embolado
E são longos, firmes,
todas as cores
os mais visíveis
nunca acabam
O amor não tem fim.
4005.
Nos campo do Sete Estrelo
ficou tanto bem-querer…
Mas é um mundo que impede o amor
Ponta de sabre na garganta
apartagem de dá aperto no peito –
sem aproximação
É um mundo exclusivo, vip,
para poucos não,
fora raros,
para-egos.
4004.
A poeira toma conta do chão,
dos móveis, dos imóveis, das coisas
imateriais
A poeira toma conta da mente,
do espírito, da
fé
É um pó fino, restolhos de papel,
grãos de arroz, pelos, partículas de peles
primatas
Eu me perco na poeira
fico parco,
pó
Me entremeio
nesse mar de
fragmentos
Em qual lufada de vento que
me perdi, não
sei
Parece que não há como juntar
e às vezes junto tudo debaixo do
tapete
Mas tudo espalha de novo
pela casa, pelo todo, sem
firmeza
Só voos e estacionar
Poderia ser bom, ser lindo,
delicado, livre, mas não
é
É apenas um espalhado
de partes e sujeiras, por toda
parte
Sem fim,
sem firme, ser
despedaçado
4003.
o que sobra são as partículas de pó de julho
junto a junho e vento seco
som de lua e luz de cheia quase ainda
o que sobra o peito aberto sem espanador
por perto um observador
interno externo
ego superego
rolê de rolas
ambulantes falos
falantes paus
proto pensantes
e tudo antes que algo preencha
o que sobra é a sombra solene
selvagem e silenciante da paz
semblante de sóis ao sal dos olhos
o que sobra é o assombro de uma
tarde que finda
sob olhares herméticos
de alfas-ômegas machos
no ocaso dos bastiões
bastões e porretes
o que sobra são os seixos
que rolaram eras atrás
rocha e rolagem
findada pelo explode pop
das engrenagens
roldanas por erguer
peso morto
como o peito vazio
o que sobra é o insumo
para o consumo
preenchido prisma
refratário de luz
que apaga
o ocaso do horizonte
o orí do azimute
o eixo deslocado
e o córtex da galáxia aproximando
o que sobra é o que completou
a necessidade
essa noite quase são joão
que paira e queima
e inteiramente plena
navega no vazio do peito
até cair breu
e avançar espuma pelo
frio da manhã,
sem vida
4002.
tudo aqui te espreme querendo dizer te espraiar
as células nas mãos espremem mais ainda
a fricção do aperto azul
rasácea figura de áurea elétrica
imãs e mãos
pausa: como?
4001. thousands open
one hundred resons
but not next seson
an open window
4000. A cá lentar
Recuperar a solidão,
sentir as escamas da
deusa roçar.
Perceber a forma do
firmamento por dentro
da pele dele.
Ver a derme aerada,
branda, nuvem, espuma,
pluma de pomba branca.
Ter dimensão das próprias costas,
a firmeza, o cansaço,
a justiça umidamente em brasa.
Centelha divina
de gotícula de chuva fina
e torrente caudalosa de fogo em brasa.
Estar só para que não.
Sair das telas,
fazer de telas as lentes
dos óculos para a composição divina,
beyond HD.
Projeto de dentro para fora
o mundo que me invade de fora para dentro.
Meus olhos como enigma do divino.
Minhas moléculas que espraiam.
Adentrar,
Orun traz
a cá lentar
o Ayiê.
3999. El-mina
Para-montanha:
suprema Elza
anuncia a nova luz
num grito esférico de Exu.
3998. era de aquário
meu problema não é descer depois,
é descer antes
o dedo no botão
a mão na corda
quem me tombará?
em qual curva meus pés
perderão o assoalho?
em qual baque do freio
no feriado forçado?
o corpo de cristo
nem consegue mais ascender
o fogo, a chama, falha
não há combustível
sequer fagulha
e tudo à beira da combustão
a análise
os fractais, as fissuras, as filas, o fórceps, a foice, a fábrica, os feixes, a fábrica, as facas, as farsas, o fake, o face, as faces, o fácil, as fórmulas, a filantropia, a ferrugem, o folião, o free market place, a fuligem, o fim, a folga, o fole, a fatura, o fôlego, o futuro, as formigas, a família, a fechadura, a ferradura, a fé, o ficar o
que fica, o que finca
a foz
onde acaba, deságua
que não desencarna,
desalma
meu problema não é descer depois,
é descer antes
a estrutura é inacabada, obra por fazer
células, corpo
a placa é de inauguração
e eu não me perdôo
e é uma dor intermitente
a upa fechada
opa, fachada
ofídico veneno de rato
na lata
são camadas e mais camadas
terra em cima de terra,
em cima de rocha
debaixo de lava,
dilema da futura pedra,
corpo da faca projetada na mente a fogo,
fato que enxada e pá
a cavar as camadas e mais camadas
de sangue, suor e lárimas
(e sorrisos e almas tristes,
centenárias, milenares, imemoriais,
perdidas repetições em lendas longíquas
intercontinentais
consumidas em nossas cabeças)
camadas dilaceradas, estratos,
classes, filos e ordens
progressão incomunicável do futuro
pelas vias do passado
o que me silencia é
a voz de todas
retumbo, eco, explosão
a dilatação do infinito
que me entranha
meu carvão, petróleo e gás
minhas plantas que
sobrevivem o sol de bilhões passados
a cada queima,
agora e sempre e até seu fim
minhas plantas que me falam a linguagem
incompreensível dos elétrons e dos polos
a divisão da humanidade
as boas e as más companhias
que decidirão o julgamento do passado
na próxima parada
que não é a que desço,
pois já desci antes,
já apertei o botão,
já puxei a corda,
já me ajoelhei e clamei ao deus shell,
lubrax para os sumérios,
que me leve, me livre, nos livre
sentença e distração
para o processo das galáxias,
um sorriso falso e tudo
se acalma, o bombom
que paga a faculdade
e tudo certo
a janela da alma trincada,
o coração apertado,
partido, mil desejos,
cem mil culpas,
nada basta,
tudo besta, bosta
o dedo rola, passa,
próximo, próxima,
aproxima que o engodo é bento
é banto e basco
bárbaro
meu problema não é descer depois,
é descer antes
como nada mais suspira,
só arfa
afã do arpão na própria glote
te chamaria mar
se fosse líquida e o houvesse
soterra
soterrado por cada vez mais
ar
3997. Impossível
se eu pudesse ter duzentas vidas
para sentir o que sinto
e viver tudo o que me abarca
se eu tivesse trezentas chances
para construir o que me cresce
se eu tivesse quatrocentos peitos
para ousar todas as flores
se eu virasse quinhentos seres
para dignificar todas as possibilidades
se eu pudesse ser o que me habita
não seria o punhado que nas mãos
vira areia solta, grãos, fragmentos
seria o imponderável
onipotente como deus
que dá a graça de ser só isso
que anseia o espelho do espelho
além além além
do que é possível
IA
No começo do ano passado eu tive um surto, em diversos sentidos e significados da minha vida. Recomposição de tudo. No meio disso, por causa e para além disso, dizendo disso e do resto todo, estando no mundo e o vendo ir, tive e síncope de um livro de poesias. Veio vindo de uma vez, vazando por todas as partes. Vi que tudo ia e resolvi dar vazão a esse veio de versos tortos. O resultado foi este IA.

Subversão da inteligência artificial num verbo substantivado para demonstrar o que minha constituição percebia que ocorria no mundo, e que ainda ocorre. Não é um livro de amor, não fala de amor, o pensa pouco. É um livro de política, de crítica da cultura, de historiografia geográfica póstuma, de antropologia filosófica besta, feito com algum amor ainda pelo mundo, que flerta com a esperança, através da desesperança plena. Amor tal e qual o que anda no mundo cotidianamente: o que ia por aí.
A sincronia ocorreu plena neste ano, uma Editora da Paraíba, chamada Editora Escaleras, topou a empreitada de publicar meu IA. O resultado é este livro, minha primeira publicação impressa. Feito com muito cuidado, profissionalismo e qualidade pela Editora.
O lançamento será logo mais, avisarei pelos caminhos das redes quando ocorrerá. Quem quiser adquirir desde já o livro, entre em contato nos comentários ou pelo e-mail: gcarvalho.silva@gmail.com.
Axé.
3996.
As coisas andam
de mar a pior,
abissal de aquários,
agora.
3995.
Isso não vai nos livrar
da merda do peso
dos cacos arrastados
garganta abaixo
com areia
isso não vai
O teu íntimo mais precioso
na boca do povo,
cada êxtase luminoso,
uma nova notificação.
3994.
Meu pensamento sussurrou três emoções
senti que não entendi nenhuma
meditei três dias seguidos
sobre o que não sentira
raciocinei nada
somei sentidos
desabri a procura
desutilizado
Quem morre primeiro
a cabeça ou o coração?
3993. Journey to down
Aquele que inicia
acima como abaixo
– fagulha cintila
centelha binária
dentro da expansão
que implode
O brilho da explosão
nos emoldura
antes do universo
o próprio contraespelho
O silêncio da matéria
reverbera na luz
que só emoldura a beleza
pela beleza do negro
A cada manhã o sol
tapa a imensidão da escuridão
com sua luz
e a mentira do azul
– o brilho e o anil que cegam
Toda noite o sol apaga
a sua razão
para o infinito não visto
enquanto cabeças dormem
O sol mente e trai
– atrai
todos os dias
esconde suas irmãs heliocentricamente
ego
Apagar o sol dentro
dois instantes
três
até reencontrar todas as estrelas
aqui embaixo
3992. Canto de Akesan
O estado das coisas,
anunciação
Foi a diáspora empreendida
fora de qualquer êxodo
Todo êxodo, agora
A gestação inabitada
no ventre
– o futuro
Milhares de células
segregadoras
Desterro de manada
Deserto de tronos em torno,
disparada
Sete palmos
Sete céus
Sete taças
Sete léguas sempre à frente,
jornada
O horizonte circular
– todo ponto retorna a ele mesmo
Esfera
A imensidão vocifera a luz do início
– ponte entre lá e cá
ponto de ouro para a mudança da prata
O que virá é só
o que vai
é só o que volta
3991. Trits
assim como algoritmos
são machistas
bits são binários
na cabeça de quem
os compilou
3990. Egotrip no baixo século XXI
Stalkeio a mim mesmo
fuçando memórias musicais
na minha lasftm
– é um cara que sofre
3989. Caminho por quem?
Quando me levanto,
por quem?
Quantos me habitam?
algum eu mesmo não sei
Quem observa minha trilha?
Quem se despede na partida?
Quem mensura a chegada?
Os desvios desavisados
por quem?
As fugas forjadas
por quem?
As encruzilhadas perdidas
por quem?
Quem, senão eu mesmo?
que não sei quantos quens
caminham dentro dos meus caminhos
3988.
cruzo a diagonal da cidade
nordeste sudoeste
ando por quem?
de quem são meus pés
afobados
de quem minhas pernas
cansadas
corro com meus pés de quem?
3987.
busão febril
cá dentro
cada baque no
buraco do asfalto
um tiro no
tímpano redundando
em todo o encéfalo
agonizar sem
nenhum ferimento
a ansiedade da virada
sem ter onde apoiar
cada buraco do asfalto
um precipício
hospício
em que nos jogamos
coletivos
pausa: do barro seco
Quanta memória pode caber num rasgo de chão?

Só os canela cinzenta cabisbaixo vão entender.
3986.
não por agora,
disse
a máquina da ansiedade
ligada
o motor mercurial de marte alucinado
antecipa o passado
reticências insistentes
passa o futuro
eu não sei o que se passa
só o que passa presente
como em mil novecentos e oitenta e um
ana c e paulo paes,
mora?
saí das redes, não sei o que se passa
se instalou lá onde não estou
eu disse oi para o éter
fiquei com o momento presente
traços cinzas das cinzas sem respostas
não como em mil novesentes e oiatenta e ruim
liberdade, construção caduca ideacional
não sei mais o que se passa
a teletela do desejo como dois animais
não há mais segredos
não há mais degredos
há medo e mote e glosa
nada se mete
nada responde
fiquei no vácuo das redes
afirmado para o quê
contradizendo o quê
te vi de relance
depois sumiu
não tinha mais redes
nem sei mais o que cê pensa
nem sei mais,
mora?
como em 1981
3985.
eu te quis, como se diz, com todo o ardor
você olhou o buraco do meu assoalho
falou “põe um tapetinho, fica mara”
e me ardeu por meses a fio
eu vi o brilho nos olhos em todos os olhos
o brio
a flama
a flâmula
a chama
encharcada
havia um horizonte azimute estelar
jorro de estrelas pelas beiras
cópula constelar helicoidal no entremeio da galáxia
havia uma doçura dourada persa
camafeu de marian protetura
os séquitos entrelaçados
esbanjavam o alarido hálito árido
compensando a chuva desabrida
lírios bojudos ressuscitavam
o que nada suscitava; a música do ar
e eu te quis, como se diz, como a planta suga
o néctar do sol
fotossintético e fotoanalítico
fótons teus, tons de cor de cachos de cabeça
um pouco mais dos andares da lua
um tanto menos que o percurso do sol
até que o desabrido do começo do céu
da minha cabeça vomitou o urro do breu
e uma brecha para fora de tudo se vomitou em mim
epítome do desaprendido eterno da vida
eu te
3984.
é fogo
mas
é chuva
que Ayrá
me assuma
3983.
fiquei de espreita atrás do espelho
quando me vi esgueirando diante dele
e lá me prostrei
quebrei-o em trapos, retalhos
segurei meu próprio pescoço
e me costurei cada fragmento do espelho
com garbo e estilo
sou só esse reflexo ensanguentado
3982. O grande exército do nada para o lugar nenhum
Uma marcha trôpega
capenga
bracaleônica,
rumávamos um tropel desalinhado
novelo de teias dispersas
dissolvidas no ar
tudo passava imaginário
Nossas armas eram retângulos
abaulados
e dizimávamos a nós no percurso
Cada baixa era policrômica
unicórnica
tergiversante
falaciosa
Enquanto isso o front contrário contava
as adesões e gritava que a vida branca importa
Nossos deuses morriam de inanição
e nossos cânticos de guerra
nos levavam os cus aos chãos
Nosso exército sem exercícios militares
e sem milicias que apoiassem
Rumávamos ao léu
nenhures de nada além
e bem sabíamos
3981. News from the inside another world
the reality is
faith
and fake
3980. há dentro
somos deus e demos
todos demos
nossa gratidão à luz
que se apaga
3979.
Aqui, parado pregado
na parada da pista,
pondero as pedras
do cais imaginário
e as partes das nuvens
que caem:
quando o céu acabará,
para que caibamos?
3978.
O lado dos tiros
a impresa não fala
São dois os lados dos tiros:
o que aperta
e o que abarca
Há seleção da fala
Quando ameaça a sua
privada
proriedade
há fala
e falos, porretes, pauladas
Quando não,
nem se aplaca
A ira pra cá
já tarda
Deu match
3977.
Os fogos orgíacos
Nero sorri
O gozo não é pelo fim
é pelo momento
selfie-explosão nos céus
Putas amordaçadas
cidadãos de dem
além do bem
Jornais jornadas
roubadas de junhos
até o infinito
O que veio vindo
não vaza
escorre visgo de ar
tomando todo o fôlego
Doutrina do choque
sem tirar de dentro
Não tem mais centro
é só extremo
Estrume infértil
que alimenta egos
Tudo há de dar
incerto
3976. o indivíduo
essa alternativa rancorosa
lateja.
tudo primeiro
que seja uno dentro.
fazer algo por si
se esquecer dos laços.
fácil, como a água
nesse abril atípico,
enxurrada abaixo.
3974.
amor nem salva
nem seiva
saliva
3973.
A coisa se mede com um contorno desmedido, tudo trava, tudo quebra, nada arrebata, só arrebenta. O mundo da cabeça desajusta com o mundo do lado de fora do orí, o plexo solar não funciona, os chacras entupidos por gárgulas e fadas, as imagens de algo não realizado que insuflam o desejo e um alento nada cativante que teima em se coordenar mais que o necessário para tentar ser vida. O surrealismo da falta de lastro de realidade cria um imobilismo nonsense num instante fantasmático. Os polostícos paleolíticos paranormais não priorizam a vida de dentro. O que se falar? Nada além de nadas ensimesmados. É uma sexta, é um vinho, é Fátima e nada. Nada ao redor a não ser todos os velhinhos e velinhas do meu prédio assistindo a Globo. A janela do nono andar é uma coisa ancoradora. No nada. Nem lá nem cá, o aéreo dissipado mundo que fora líquido agora nem aterra nem desterra, ninguém é dono de nada. O cansaço disruptivo te enfia dentro da realidade, amanhã, sábado, dia de trabalho, folga de Deus, nem será de dádivas, só de dívidas, 0,01% para quem detém os dividendos de 99,99% de vida. As auroras já não refazem o caminho contínuo até as noites, elas prismam uma luz difusa até que percebamos que nada mais se encaixa. As noites eram mais bonitas nos meus sonhos de criança.
3972. Modernidade etérea
Quando as sirenes passam
giroflex faiscando as margens da noite,
me pergunto:
serei eu?
Quando os helicópteros
sobrevoam rompendo o ar nenhum,
me acomete:
me buscam?
Quando as botas se aproximam
ecos em marcha em volume compassado,
me estremesse:
qual próximo serei eu?
Uma culpa em vestes de medo
sem culpa alguma,
mas a intuição que
frita as têmporas
e descama o dentro:
assombra o mundo
que me habita:
a liberdade é só um conceito transparente.
3971.
A humanidade racha
mímese da própria Terra
síntese das fissuras
tudo se separa
– até rachar –
apenas seguimos
os campos mórficos terrenais
Divergências, convergências
de placas e peitos
lava em magma de erupções
Terra treme
terra racha
terra nós
rocha
até aterrar-nos
3970. rodoavoária
o peito aberto ao baque
atento ao bote
olhando o baú
aboio de manada a partida
absurdos obtusos
abcessos abruptos
um trago abnegado
turbilhão
o choro da criança
fissura
e a mão na cara para onde voa
3969.
Fiz uma viagem
para além de mim
divagando obtusamente
um oceano de
identidades não mais
liquefeitas, mas rarefeitas
Não sei porque sorri,
ousei ossos para a
travessia e cumpri
metas esquisoanalíticas
– piscavam somaticamente
antes de as cumprir
Medi distâncias
do além de mim
dentro de mim
e fui perseguido
por botas e dedos
e ninguém quis afagar ou cortar
minhas bolas
nem eu ou a honradez
só a desfaçatez
Andei esses muros psicoides
com as mãos em bananeira
Rotas desencontradas
na perpendicular avessa
dos muros
– rotas que nunca vi
nem quando passava por elas
Rasguei minhas roupas
na travessia e me
atravessei para o além
de mim
de tão apartado que
andava comigo
apenas adentrei-me
Dentro era todo o além
3968.
quem é que te ensinaria
menino
como ir mais devagar?
quem diria como ser
homem sem pisar?
onde a imagem espelho olhar?
desabado os olhos carregam peso
e só o ódio lhe comove
3967.
o que tem nessas entranhas
que quando sai estranhas
e transfere a outras vísceras
todo o ardor borbulhante
do que interna em ti?
as execuções sumárias
sumarizadas nos jornais
só afirmam as sentenças
que pululam nas cabeças descabidas:
menos um, menos uma, menos um, menos uma, menos um, menos uma
menos
talvez eu sobre
as tropas se alinharam
nossas gargantas de dedos rígidos e flácidos espasmam
num fluxo aceitação
as armas distam
um frio em nossas têmporas
tudo rio
3966.
o desespero calça botas
o desencanto pé na porta
o dedo aponta
lombra torta
