o quis um dia
como se quer a própria vida
e lutei por ele numa ânsia louca
de continuar a vivei
e o amei
o amei tanto como nunca
não amorisquei-me como sempre
mas deveras me entreguei
a amá-lo intensamente
aí um dia ele me chegou com prosa profusa
chorou-me o ombro
e confessou-me medo
aí então despenquei o que sentia
caiu-me tudo àquelas lágrimas
e não cri mais tudo
então ele me olhou estranho
e me calou o coração
e bebeu um bocado
qual um clown ébrio de Shakespeare
imerso em sua humanidade medíocre
e o vi tão humano que caiu mais tudo ainda
aí então arrisquei-me novamente
(cartas tão longas cheias de mel a escorrer)
e entro sem almejar anagogias
e ele fala tantas besteiras
que me contenho para não cair mais uma vez
mas ele aparenta tanto medo…
que nem tenho vontade de afagá-lo
Autor: Guilherme Carvalho
0343. Paráfrase
a primeira me chegou
como quem vem de um shopping
me falou tanta leveza
me mostrou sua tatuagem
prometeu-me esperança
e assustado eu disse não
a segunda me chegou
como quem vem de um sarau
me declamou suas poesias
me mostrou as suas faces
ofereceu-me sua tristeza
e fugidio eu disse não
a terceira me chegou
como quem vive sua vida
com um rosto triste e um sorriso
me mostrou poucas coisas
deu-me o que podia
e arredio eu disse sim
0340. Não sei voar
Eu entro em meu quarto e me tranco
Cerro meu corpo em minha mente
E não me abro a mais ninguém
Somente à vastidão contida do tudo
Embora quanto a este permaneça cego
Eu procuro palavras numa enciclopédia velha
E amofina-me a tarefa
E são vários volumes a enciclopédia
E vejo que nela não cabe tudo
– tal enciclopédia é anafrodita
(e se quiser descubra nela o seu significado)
Eu me tranco no momento em que o sol mais irradia
No exato período em que se banha de luz
Mas há um azul tão forte que me dá medo
E penso que o sol mudou de cor
Tranco-me numa enciclopédia velha
Tento alar-me neste quarto vasto
E dou asas ao meu enciclopedismo
Não sei voar
E se soubesse não teria coragem tanta
Apregôo-me em um vernáculo de quatro paredes
De uma enciclopédia ultrapassada
0341. Lígia
Moça de cabelos raspados,
que imagem é aquela?
Chega indefinida figura feminina
mas definitivamente linda
Um piercing em seu nariz
lhe parece herdeira de Sade;
a sandália de couro aos pés
demonstra um pedaço do sertão
Se é hippie, se é punk
não há como definir
e sua voz rouca ressoa sensual
e ela a molha com cerveja
e a seca com um cigarro
(tão sensual como há tempos não se via
mulher tão humanamente igual)
Cita Bukowski, seu preferido
e Kundera, seu ideal
Ri uma risadinha gostosa,
quase infantil
Quando dá as onze horas
ela declama seu último poema
(a abóbora vem antes da meia-noite:
os ônibus acabam)
e vai dizendo
que Elis e Bethânia as esperam
para dormir
Me dá um ploc na boca
aí então eu acordo
0338. Na rodoviária
Tantas histórias, tantos começos
Iguais finais
Cada qual com suas vitórias
E seu saldo negativo no banco
Seus quatro quintos de derrota
Cada universo em si
Cada realidade única
Cada um fazendo companhia
Ao umbigo do seu mundo
Cada um com suas contas
Com seus ossos, suas estrias
Cada história qual uma só
Uma ambição morta
Uma vida imposta
Tantas histórias…
0339. Ele
Aludido a rir do mundo
ele gargalha da solução
Enrola, aperta, passa a goma,
passa a bola só por educação
Ele não crê mais em tudo
e conclama a revolução
Ele acha que já viu,
que já sentiu todo o mundo
que Hércules por comparação
Ela já foi ao terreiro
e batizado pelo padre
e freqüentou por seis dias
consecutivos a Igreja Batista
da Salvação
Ele acha que nada existe
e que só ele é que há então
e passa a bola por causa
da mina ao lado
Ele passou no vestibular
e diz que estuda é pro povão
Ele gosta do calor das massas
e queima neurônios em aflição
Já leu até um texto de Geertz
e descobriu que Marx “ta por fora irmão”
Ele prensa e passa a bola
e da mina pega na mão
Ele citou Alceu Valença
e a mina se amarrou na citação
Ele já fez avião
e se gaba disso — H. Aço
Ética da cultura carnalavesca-periférica
é sua cabeça (ou não!)
Ele faturou a mina
e se gaba disso — garanhão
Voltando para sua casa
(já é manhã) ele anda na calçada
e pula na frente de um caminhão
Pode nem entrar nas estatísticas.
0336. Tempo possível
tempo, passa o tempo e se desfaz no amanhã
quando o tempo se destaca tão lento
que de tempo em tempo toda manhã é um afã
tempo que de tão lento faz-se tão veloz
e rápido passatempo é o tempo tão lento, tão atroz
ah, mas olhem para mim
a cantar a velocidade do lento tempo perdido
perdido em todo o tempo possível
perdido em perder tanto tempo possível
perdido, lento, tempo, veloz — afã possível
0337. Complô
Queria uma idéia nova
Que não fosse a idéia daquela
Que me roubou as idéias
Mas ligo o rádio e Beto Guedes
Mas fecho os olhos e sonho,
Mas ligo a tv e drama
E abro um livro: fim.
0334.
Aflige-me ver teu rosto cansado
A compor mil tarefas e dúvidas
E te surgem fatos inusitados
E você parece tão só…
E nesse instante me aflijo mais
Sentindo-me amargamente leve
Mas de fato, a leveza é por vezes
fardo que se leva às costas
Então não sei se espero ver-te leve,
ao menos, não como eu estou
(mais sedado do que leve)
Mas me aflige teu rosto cansado
e almejo com o afago de minhas
palavras e minha mãos
o encontro de tua paz
(Estou ao seu lado)
0335. Aí então…
De cada canção um verso
De cada amor, o universo
Girando alto no coração
E quando me mostrei imerso
Teu ser despertou disperso
E calou tonto minha oração
Quando gatunos roubaram meu silêncio
Passado por ti como dispêndio
De energia, somado à solidão
Aí então, eu chorei, eu chorei…
Baixinho
0332. Ah, essas mulheres…
Acordar com Elis
Banhar-se com Gal
Dar um beijo na mãe
Pedir bênçãos à Maria
Sair com Cecília n’alma
Andar com Clarice
Pensar em Bethânia
Almoçar com Yêda
Descansar com Nara
Estudar com Marilena
Voltar com Iemanjá
Dormir com Janis
Ah, essas mulheres
o que seria de minha existência
sem lhas ter por companhia?
0333.
Há no fim de tudo um começo
não percebido ao prelúdio do fim.
Todo o instante faz-se começo
e pelo começo então, nunca há fim.
A possibilidade da vida é grande
e há um infinito sem começo ou fim.
Há a luta e a revolta,
mas há a possibilidade da vida por fim.
Há o amor que tudo permeia
e que faz a vida por fim.
Há a esperança de que um dia não
haja a sensação do fim.
E sempre há o amor por fim.
0331. Continuemos sempre…
“o que se chamava moço, também se chamava estrada, viagem de ventania…”
Havia a poetiza que se dizia morta,
sem asas, sem sonhos, sem esperança
Mas depois que se escreve uma vez,
que uma vez se voa,
que uma vez se sonha,
não há mais a possibilidade da imanência
e tudo transcende,
lutar contra, é somente fugir de si.
Lançar-se a sua antítese existencial.
Calar sentimentos é perecer em agonia
É ir contra as possibilidades do infinito
E suas palavras dão rumos,
trilham caminhos às possibilidades
“azul da cor do mar”
Ah, sentir o mundo em fábulas,
enxergar leões, hienas seres alados…
Isso é o que deveria dar-nos força para continuar
Dar-nos impulso de nos lançar ao infinito,
de mergulhar em todas as possibilidades
“ando tão à flor da pele, que qualquer beijo de novela me faz chorar…”
Creio que a cada metáfora criada,
chegamos mais perto do que é o amor
E a nós, os poetas, as poetas,
a Vida incumbiu de uma tarefa difícil:
amar.
Por isso continuemos,
“brincando”, voando, viajando
criando, metaforizando, amando…
Pois somos mutantes sim
e devemos mudar o mundo (amor)
porque assim cremos.
“a dor nasce do desejo”
0330. Um trágico presente
Para uma e para outra,
Para a que foi e a que não veio,
Para a dúvida e para a certeza,
Para a puta e para a casta,
Para a tímida,
Para a amiga,
Para aquela que me é,
Para a minha antítese,
Dou o que sou agora
– o que fui, o que sou, o que virá –
e de graça.
0328. Sentença
Sentencio todos os culpados:
Goethe e Lorde Byron
Todos os trovadores medievais
Xá Gerah e seu Taj Mahal
Dom Juan, sua vida
Casanova, suas conquistas
Meu bom Khalil Gibran
Os mitos greco-ameríndios
As cantigas do sertão
Os sambas do morro
Os sambistas e os cantadores
Gandhi e Luther King
Vinícius de Moraes e Djavan
E tantos outros que cantaram
E cantam ao amor
E me acenderam tal idealismo
Que jaz em realidade
E me martiriza
A cada nova aurora
Hobbes Freud não tardam
A se mostrar certos:
O ser humano é mau
E Tânatos todo dia nos corrói
0329.
Carros sobre o córtex asfáltico
Massa cinzenta de pedra e piche
Carros-neurônios numa dança hipnótica
Produzem o som, o cheiro e a cor
Da pós-modernidade
(Uma cor vermelha controla o fluxo de idéias)
0327.
Se a noite verde fosse
A luz seria negra
E o mundo cheio de escamas
Minha sombra voaria
E os reflexos tremeriam
Se a noite verde fosse
Eu seria mais cinza
E o mundo esperança
As casas flutuariam
E o ar seria molhado
Ah se fosse verde a noite…
0326. Como se fosse amor
(para o grande mestre Chico Buarque)
Eu sei que tu vais me usar
Como se usa um palavrão
E esquecer que me pronunciastes
A apenas míseros três segundos
Eu sei que tu vais me esquecer
Como se vira uma página de Caras
E me usar para forrar o chão
Da casa que pintas
Eu sei que tu vais me usar
Como se coloca o adoçante no café
E esquecer que percorri teu sangue
E alimentei tuas células
Eu sei que tu vais me esquecer
Como aquele outdoor descascado
E me usar como alvo
Para tiros de escopeta
Eu sei que tu vais me usar e me esquecer
E mesmo assim vou te amar,
Como se eterno fosse
0324. Dos motivos da solidão eterna
Primeiro ao olhar-se, contempla-se a alma
Depois uma instância branca, vazia
Com uma fragrância suave de nada
Um abraço que se treme mais ainda
E você olha a si como a madrugada
Tez escura e velozmente esbranquiçada
Um néon falho em uma fachada
A luz laranja de um poste que apaga
Uma sombra precariamente delimitada
Um suspiro, um tiro, um uivo
Uma coruja enfeitiçada
Que traz a morte no âmago de seu pio
Um acidente de carro, uma gargalhada
Um gozo enleio à dor de uma ferida de faca
Um corte na espinha de adaga
O único banco vazio ao lado num ônibus corujão
Depois, você se acostuma
E pleiteia ser indiferente a toda dor
E se descobre só
Como a luz-de-freio de uma moto a cem por hora
Como a alucinação de ver um lago de luzes
Ao horizonte quando sem óculos
Como a eternidade
0325. Saudade
Saudade.
(o silêncio me apavora)
(Bandeira me consola)
(boto Bethânia na vitrola)
(no relógio, mais uma hora)
Saudade.
(abraço o meu travesseiro)
(choro baixo um anseio)
(lembro o longe, meu enleio)
(aquele que fora o primeiro)
Saudade.
(me dói tudo)
(estremeço como nunca)
(me apego à esperança)
(saudade.)
0322. Reconciliação
Há tempos não nos encontrávamos…
Como andas?
Eu? Vou indo, ou melhor, a vida me leva;
mas vivo, já é um bom começo…
Agora você, está feia não? Acabada.
É, eu sei, o tempo ninguém perdoa.
Recordo-me daquelas longas tardes
em que passávamos só nós dois,
difamando o mundo… era divertido!
Uma prazerosa solidão acompanhada.
O céu era até esse mesmo:
infinitamente azul, o único amor sentido…
Lembro-me que ansiosos ficávamos
ao chegar as quatro horas,
o sol de um sabor inigualável.
As poucas nuvens de um lilás tão intenso,
que até tínhamos vontade de não morrer…
É, mas o tempo passou, me afastei — confesso.
Pensei agora o quão ingrato fui,
troquei-te de repente, sem explicações.
Deve ter sido difícil
Você deve ter visto como a humanidade é:
insensível , fútil, louca, idiota e medíocre.
E o pior é que todos os dias eu passava por ti
e nada falava, nem um aceno de cabeça…
Como sou idiota!
Mas cá estou eu de novo, redimindo-me
de meus pecados, de joelhos em perdão.
Pois só tu me entendes,
segredos que nem ao meu quarto contei,
você os sentiu forte,
tantas horas mortas ao teu lado,
tantas lágrimas colhidas…
E quando tu me davas aquelas pedras
que eu jogava ao outro lado da rua?
Ah eu extravasa, ficava feliz…
Tu tens noção disso?
Contigo eu ficava feliz,
uma felicidade pura, sutil…
De quando em vez eu trazia um amigo
para trocar sentimentos, idéias, anseios
e você não ficava enciumada,
abria os braços e o acolhia, o compreendia
Ah! Quão compreensiva tu és!
E eu te abandonei!
Infinitos perdões seriam suficientes?
Creio que não…
Mas cá estou eu: triste? Deprê? Só?
Melancólico com certeza…
E você me acolhendo sem ressentimentos,
sem perguntas!
Apenas afagando-me com o vento,
com essa primeira estrela na noite que vem
(e tantos desejos…).
Só você mesmo para me entender,
minha feia e linda Calçada.
0323. O flerte
Um mira um foge dum olhar
Foge, fica, volta, mira um, mira o ar
Disfarça, faz força para não olhar
Mas olha e cora, mira e ri
Passos a conquistar, mas foge novamente
E volta e mira outro mirar
Resiste ao não resistir
E desiste ao se declarar com um sorriso
E um profundo olhar
0321. De hiena a homem
Era uma vez um leão que morfara-se em hiena
Uma sádica hiena que devorava a si
Começava pela cauda, depois pelas patas
E ia se consumindo numa savana
Longe, afim de que ninguém o visse
Acontece que por ali voava uma águia
Uma águia que fora já borboleta
E ela fitou a hiena com angústia
Recordando suas borboletices passadas
Mas a hiena dilacerava-se sem
Recordar seu karma de leão
(num passado não tão distante, o leão e a borboleta que já não mais são, viveram juntos e fora tão lindo que não agüentaram, daí agora águia e hiena)
Era uma situação deveras complicada
A águia com seus olhos profundos
Mirava a alma da hiena
Por entre aqueles olhos de açude
E não sabia se alçava vôo
Ou se, novo bicho, beijava a hiena
(ou agora já um sapo talvez)
A hiena, fugindo dos olhos da rapina se engolia
E quando no bando, ria
Se escondia em risos tortos
Gargalhadas não salvadoras
Um boto percebendo sua desgraça
Disse-lhe: “sou como tu hiena,
Te compreendo bem,
mas depressa hiena, sê águia
e voe alto e não se devore
vá voraz à sua felicidade…”
Apareceu um macaco e lhe falou:
“vamos brincar hiena
vamos pular, vamos espocar
que assim você aprende a ser águia…”
E a hiena parou de roer a outra pata
Chegou então uma serpente
Que quis beijar a hiena
Mas não mais serpente e sim um coelho,
Segredou à hiena: “te amo,
mas por te amar, sei que tua sina é ser águia…”
E a hiena soltou a outra pata,
Antes que essa sumisse
Veio então uma maritaca
E afobada disse-lhe: “está bem?
fiquei triste, me preocupei…
queria te ver águia, mas só
o tempo há de dizer algo…”
E a hiena parou de estraçalhar
Suas entranhas e já não riu de si,
Riu da vida,
Uma gargalhada kunderiana
Uma explosão de esperança
(a águia tinha saudades)
Muitos bichos lhe fizeram companhia
Uma tartaruga tristonha: “de fato…”
Muitas serpentes: “é mesmo o fim…”
Outra hiena: “eu também não estou bem…”
Uma leoa: “dê tempo ao tempo…”
Um elefante: “já passei por isso…”
E até a própria águia: “você está bem?…”
E a hiena estufou o peito
Sentou-se ao sol e deixou que
Este lhe oenetrasse nova vida
E já não mais hiena era
Agora era um ser humano
(incompleto), que escreve
Almeja ser águia, mas não sabe se há de conseguir,
Afinal, é humano…
0319. Poema escrito em dois dias
Começo esse poema hoje
Há poucas radiações de carbono do amanhã
Oscila um tic e preteriza tudo
Afirma um tac e antecipa os rumos
O meridiano da mudança
A fronteira do futuro
Dentro do meu quarto – ri de mim
Hoje e amanhã
Versos livres aprisionados num tic-tac
A linha da mudança de data
Faz-se antípoda do futuro
Retorno ao meu estado de ontem
E acabo o poema também hoje
0320. A deuses e deusas
Tupã e Thor, deuses dos trovões
Destruam das minhas trovas
Essas tórridas aflições
Daí forças a felicidades novas
E marca-os com coerência e razões
Maíra e Minerva, deusas da sabedoria
Norteiem as minhas rimas
Para não só a dor marcar a poesia
E matar a quem me estima
Não sendo tristonha alegoria
Krishna e Cristo, desuses iluminados
Acendam a minha alma
E clareiem esta melancolia
E dêem-me a máxima calma
Para suportar mais e outro dia
0318. Quando o mundo cai
Havia um broquel que mo guardava
De bosquejar meu ímpeto errante
E tornar-me caixeiro viajante
Condoído de todos por onde passava
Havia aquele escudo
Aquela armadura
Que despi ao enfrentar a vida
E primei pela antilogia do escuro
E ingeri muita datura
E quis seguir numa só ida
Uma vez que prisões já não as tinha
Que me libertara de mim
Foi aí que pressenti o que vinha
Aquele gosto de epílogo do fim:
Tudo até agora apenas epígrafe
E uma vida inteira de sofá
Televisão e geladeira pela frente
0316. Dores
Meu dorso dói
Toneladas
De posturas
Incorretas
Às costas
Meu abdômen dói
Toneladas
De venenos
Conservados
À barriga
Minha alma dói
Toneladas
De conjecturas
Estúpidas
Ao espírito
0317. Eterno retorno III
Há anos não ficava com esse ar de nada
Com esse semblante eterno de doce vazio
De oco
De eco
Mas de novo me pego como nada e vazio
De oco
De eterno eco
Fronte de azulejo de botequim de quinta
Rosto de sapato surrado pela falta de uso
Cara de novel de lã bege
De transparente
De oco
De não-nascido
De eco eterno
De nem nada
0314. Certezas?
Soprei a inconstância de meu espírito
E balancei as bases do firmamento ao soprar
Sussurrei algo contido na insegurança
E descobri fundamento: descobri base
De que o sopro tinha base realmente
De que o sussurro era sólido
E o sussurro fez-se estrondo e o sopro furacão
E constatei que minha insegurança alicerce tinha
E que tudo era diamante e carvão ao mesmo tempo
0315. Sangue
“O amor quando acontece…”
Palavras são sangue sobre o caderno
Letras não estanques de um corte profundo
Que a faca do fim ao matar o eterno
Tatuou em mim toda a dor desse mundo
Lançada a faca por meus próprios membros
Marcada a inocência de um suicida
Sinto o peso de chegar os novembros
Com a alma a sangrar o fim na ferida
Posto, me passa o passado em retorno
Desenhando do fim todo o contorno
Pois perde o controle completo a razão
Enleio ao fim feito vem-me o meu fim
Outorgado pelo que me sangra assim
Contíguo ao não me saber mais, ou não!
0311. Da eternidade
Queria falar da eternidade
Dessa ausência de espaço entre dois pontos
Queria a quintessência do infinito
em minhas mãos
E com palavras simbolizar
a brevidade do universo
Na busca do eterno enfiei-me em mim
Procurando no nada a sua antípoda
E do que vi, não vi em mim,
mas eu próprio
Do eterno, vi a fração de um tempo.
E a expansão da alma
Vi-me um tanto em tudo
Vi-me partículas elementais
Senti-me o puro amor
0312. Lascívia
A fumaça é sensual
Escorre lépida pelo ar
Dá voltas
Rebola e envolve
Sobe suave, solta
Serenes partículas
Mais leves que o ar
Semblante do prazer
A fumaça é mágica
Da brasa a sai
E se eleva até o éter
O gozo do fogo
A fumaça
0313. Às vezes a poesia não se escreve
Às vezes a poesia não se escreve
Às vezes a poesia só se é sentida
É o que se lapida no interior
E se metaforiza no espírito
Às vezes a poesia é a dor indizível
É o corte profundo de um fim
Às vezes a poesia é a face triste
A razão inerte e sua alma em profusão
Às vezes a poesia não se escreve
Se sente, se vive, se é.
Às vezes, para uma poesia
não há palavras
Apenas gestos, calores apenas.
Às vezes a poesia se recita no olhar
Às vezes no sorriso
E outras tantas na respiração
Às vezes a poesia não se escreve
Às vezes ela brota do fechar de olhos
0309. Bomba H
Hão de chamar-me louco
Hão de meter-me medo
Hão de silenciar-me o gozo
Hão de deixar-me só
Hei de flutuar na tristeza
Hei de gritar na loucura
Hei de tremer na frieza
Hei de sentir-me dó
Hão de deixar-me só
Hei de sentir-me dó
Há que se derramar o pranto
Há palavras que se pronunciam
Há estes silenciosos cantos
Há a solidão e a dor
Há a poesia que já não salva
0310.
é eterno
mas é frágil
(minha deusa, e como é frágil!!!!)
é todo e pedaço
é tátil
e em minhas mãos
é a companhia
e agora a solidão
é o medo
é o desejo
é o que se inicia
é o sorriso que tenta brotar
0307. O amor me chegou
o amor me chegou
me constrói
chegou-me sacudindo
construiu-se em mim
não consigo construir
outras idéias
que não as de amor
este que me chegou
me constrói
e se penso em outro fato
o amor me chega
e constrói
0308. Plenitude
o que preciso é deste mar castanho
que contrasta com meu negro
o que desejo é percorrer com a boca
toda a extensão desta derme,
que macia qual algodão
que alva qual nuvem
se eleva em minha cor cinza
o que almejo é penetrar-lhe os sentidos
e emanar todo o prazer
me envolver em teu olfato,
ser um vento te acariciando
iluminar tua retina
qual teus olhos ser mel em tua boca
e sinfonia flutuando em ti
meu espírito arde em contato
com essa brasa que queima em teu portal
preciso mergulhar em teu ser
e aprender a nadar
e velejar teus limites
e desbravar tua ventura
o que quero é saber-te o ápice
é alcançar-te às nuvens
é envolver-te em azul
realçar-te o infinito com minhas mãos
afagar-te com meu suspiro
e estremecer-te com minha força
o que quero é te deixar plena
de todo o meu amor
0305.
O passado bateu-me na porta
Eu abri dei-lhe um abraço
Um beijo na testa e desejei:
Boa sorte!
O presente me ligou antes
Eu beijei-lhe a testa e a boca
Abracei-a com desejo e desejei:
Boa sorte comigo!
(disse-lhe com certeza: eu te amo!)
O passado passa
Cada vez mais louco
O presente prostra
Cada vez mais amor
0306.
há lagrimas em minha alma
pois não quero abdicar
disso que me faz-te
e quando digo para sempre
faz-me ingênua criança
apegando-se a seu brinquedo
e as lágrimas escorrem
de tanto querer-te
como a mim próprio
de tanto almejar-te preservar em mim
como eu me mantenho
mas pareces que o que sinto
não apraz teu juízo (ou teus sentidos)
e o silêncio grita
e eu pego a tua mão
e aperto forte, como sempre
e tu, como na relação de força
que perpetuas, se indifere
e eu te olho muito tempo
e se indifere novamente
e eu me despeço de ti
desejando nunca mais fazê-lo
e o nó desata
e a represa cede e eu não olho pára trás
pois a alma não compreende
e com meus poucos dezoito anos
me sinto cada vez mais velho
e vejo-me um velho inexperiente
que turbilha o que sente
como se tudo fosse a primeira vez
– e é –
e não vejo a minha vida
uma vez que nunca a vi
e não sinto minha vida
uma vez que não senti
e me apego a tua vida
– como se fosse a primeira vez –
e me sinto em tuas mãos
– como se fosse eterno –
e me lanço a tua sorte
– dramático –
e tenho medo de dizer-te
imaginando meus dezoito anos
e tua face de não vai dar certo
e agora explodo e choro
e penso: devo parar a minha
existência ou acelerar meu tempo
até que meus dezoito anos
não mais peses?
até que minha alma
condiza com meu corpo
e um dilema, uma questão
um problema se apresentam
e não sei o que fazer
tento relaxar e gozar
mas meu gozo só se faz pleno
quando de tua presença
e tu questionas, problematizas
e não goza
e me aprisiona em ti
e parece fugir
e eu amando mais, te sendo mais
e com mais medo de que te assustes
e fujas realmente
e a lua me ilumina
e me mostra meu passado
e não me reconheço onde estou
e meus dezoito anos me pesam
qual quarenta
queria tanto que vivesses este amor
que não conjeturasse sobre o se
que não desdenhasses do que sinto
que me afagasses a face e o peito
que soubesses se amar
que entendesses minha loucura
que compreendesses que minha vida
é cinza e que tu a colores
e que aceitasses o meu amor
e quando disse que sonhou-me
eu explodi ainda mais
e mesmo trocando meu nome
eu explodo agora
0304.
Almayravilhado
Alma, de Mayra, ilhada
Ilha de Mayra
Amor e Maria, eu amado
Amoreumayrado
Mariado
De amorilhado
E amorilha
E mariavilhado
Alma minha amando
Mayra Maria
Almayriavilhado
De tanto amor
0303. Á luz e meia (e só)
Acendo um incenso e uma vela
(o racionamento traz poesia)
ligo o som e penso se ela ouve esta música
o frio me aprisiona em cobertores
e a solidão pergunta:
será que o sono nela se faz vivo?
Eu não consigo,
rolo nesta pequena cama,
parecendo um infinito
pois a solidão de uma cama de solteiro
é infinita
que se rola, se vira, se encolhe
e ainda sobra todo o espaço
A fumaça do incenso me hipnotiza
e a vejo em minhas retinas tristes
ela me beija a boca
à luz e meia
e só assim consigo dormir
0302. Gênesis Cármico (cósmico e amoroso)
Mais de MI possibilidades em minha frente
Um Q nirvana de opções
Um \ e Q’s [’s em minha vida
Existe uma (C) que me dá mais rumos,
Caminhos que minha mente (…) não via
Havia aquele g dentro de mim
E agora vejo-me²
Eu era relativo mặya de causalidades
E ela ordenou meus neurônios
E ecologizou minha alma
E sucumbiu a ilusão
Desprendi-me de retóricas ($)
Não aprazíveis ao [ da felicidade
E encontrei-me com a OO nela
Ela que tem nome de Deusas e
Semblante de anjo
Ela que é Mayra que é espiral retilínea e ramificada
Ela que é Maria que é mãe
Ela que me é em profusão
0300. Explodido
“Não dá mais pra segurar
… explode coração…”
Distância
Ela dista
E eu na ânsia
De a sentir
Em minhas vistas
Sobre a cama
Saborear suas retinas
Enxergar sua mente
Escutar seu gosto
Tocar seu prazer
Degustar seu cheiro
Explodir dentro dela
E ela me implodir
Até a distância
inexistir
0301.
Nunca cri no amor
E só cria-o inexistente
Nem opaco ou transparente
Só da cor do nada
Da forma do ausente
Até que um dia
Uma menina-mulher me disse
Que me amava sem me saber
E ao saber-me, mais ainda
E eu: hum? Eu heim…
Só que também ocorreu o seguinte:
Gostei da menina-mulher
E percebi os contornos do outrora ausente
E senti as cores do nada
E a luz daquele transparente
Hoje ilumina meu espírito
Colore minha mente
Da forma ao meu sorriso
E a menina-mulher faz tudo isso
Ah, estou amando
0298.
Não consigo falar: meu amor
Pois sinto algo nosso
Nosso amor
Não vejo minha realidade
Pois só nós dois existimos
Nossa vida
(e uma borboleta amarela pousou o meu pé!!)
amor e vida
você e eu
nós,
sendo o amor
vivendo
0299.
tanto ódio me cerca
e eu amando tanto
amando todos
e mais a mais a uma
e todos mordendo-se
e eu nela, não em mim
ou nos outros
e ela me acalmando mais
e de mais a mais
eu nela e nada mais
que me faça escutar
os tantos dolosos ais
tanto ódio nos rodeis
e eu vivendo o amor
fazendo um bolo
e pensando:
“será que ela irá gostar?”
tanto amor dentro de mim…
0297. Lilás Mayra
Imerso no azul
Só me vem Mayra na alma
Mayra que é azul (e lilás)
Mayra que foi sonho
E é
Mayra que foi promessa
E é
Mayra que me completou
E que me é
Mayra que foi desafio
E é
Mayra que foi amor
E é (infinita)
Imerso em Mayra
Só me vem amor na alma
Amor que é Mayra (e lilás)
0295. Das artes
E há os e as que fazem arte com o corpo
Lançam-se em sua matéria e mitificam-se
Existem as e os que tornam movimento arte
E o percurso do indivíduo sobe longe
Têm aqueles e aquelas que produzem arte com a voz
Reverberam a garganta e entorpem o ar
Há esses e essas que arte fazem com as cores
Sussurram timbres luminosos em telas e paredes
Existem alguns e algumas que fazem arte com as formas
Observam a realidade e modelam sonhos
Têm uns e umas que são a própria arte
Seguem seus caminhos simplesmente
Já vi seres fazendo arte com a imaginação
Mergulham fundo em suas existências e além
E aqueles e aquelas que gravam arte em caixas
E dão movimento a suas loucuras
E uns e umas produzem arte do mascarar-se
Dando nova vida em encarnações
E essas e esses como eu
Que vislumbram arte nas palavras
Constroem símbolos em letras e voam
0296.
Num nada há um tudo
Que é meta e é aqui
Que possui um lócus no não-lugar
Num topos e numa utopia
Há um nada por definição
E um nada tangível
Que é matéria e transcendência
Que é alma e imanência
Que é tudo
Há um tudo hermético no nada
E um nada permeando o tudo
Há a ausência que é
0293.
Não fale sobre sua feiúra
Esta que lhe é inexistente
E que a ti parece ser latente
Fale sobre os seus olhos
Essas duas gemas de mel
Que são chaves para uma alma de anjo
Não fale sobre a sua dessimetria
Esta que lhe é irreal
E que a ti, aparenta ser natural
Fale sobre seus lábios
Esses portais róseos
Para o âmago do desejo
Não fale sobre a sua aspereza
Esta que lhe é algodão
E que a ti, aparenta ser pedra sabão
Fale sobre a sua alma,
Essa sua face multicor
Que é o que catalisa toda reação de amor