0342. Fatos

o quis um dia
como se quer a própria vida
e lutei por ele numa ânsia louca
de continuar a vivei
e o amei
o amei tanto como nunca
não amorisquei-me como sempre
mas deveras me entreguei
a amá-lo intensamente
aí um dia ele me chegou com prosa profusa
chorou-me o ombro
e confessou-me medo
aí então despenquei o que sentia
caiu-me tudo àquelas lágrimas
e não cri mais tudo
então ele me olhou estranho
e me calou o coração
e bebeu um bocado
qual um clown ébrio de Shakespeare
imerso em sua humanidade medíocre
e o vi tão humano que caiu mais tudo ainda
aí então arrisquei-me novamente
(cartas tão longas cheias de mel a escorrer)
e entro sem almejar anagogias
e ele fala tantas besteiras
que me contenho para não cair mais uma vez
mas ele aparenta tanto medo…
que nem tenho vontade de afagá-lo

0343. Paráfrase

a primeira me chegou
como quem vem de um shopping
me falou tanta leveza
me mostrou sua tatuagem
prometeu-me esperança
e assustado eu disse não

a segunda me chegou
como quem vem de um sarau
me declamou suas poesias
me mostrou as suas faces
ofereceu-me sua tristeza
e fugidio eu disse não

a terceira me chegou
como quem vive sua vida
com um rosto triste e um sorriso
me mostrou poucas coisas
deu-me o que podia
e arredio eu disse sim

0340. Não sei voar

Eu entro em meu quarto e me tranco
Cerro meu corpo em minha mente
E não me abro a mais ninguém
Somente à vastidão contida do tudo
Embora quanto a este permaneça cego

Eu procuro palavras numa enciclopédia velha
E amofina-me a tarefa
E são vários volumes a enciclopédia
E vejo que nela não cabe tudo
– tal enciclopédia é anafrodita
(e se quiser descubra nela o seu significado)

Eu me tranco no momento em que o sol mais irradia
No exato período em que se banha de luz
Mas há um azul tão forte que me dá medo
E penso que o sol mudou de cor
Tranco-me numa enciclopédia velha
Tento alar-me neste quarto vasto
E dou asas ao meu enciclopedismo
Não sei voar
E se soubesse não teria coragem tanta
Apregôo-me em um vernáculo de quatro paredes
De uma enciclopédia ultrapassada

0341. Lígia

Moça de cabelos raspados,
que imagem é aquela?
Chega indefinida figura feminina
mas definitivamente linda
Um piercing em seu nariz
lhe parece herdeira de Sade;
a sandália de couro aos pés
demonstra um pedaço do sertão
Se é hippie, se é punk
não há como definir
e sua voz rouca ressoa sensual
e ela a molha com cerveja
e a seca com um cigarro
(tão sensual como há tempos não se via
mulher tão humanamente igual)
Cita Bukowski, seu preferido
e Kundera, seu ideal
Ri uma risadinha gostosa,
quase infantil
Quando dá as onze horas
ela declama seu último poema
(a abóbora vem antes da meia-noite:
os ônibus acabam)
e vai dizendo
que Elis e Bethânia as esperam
para dormir
Me dá um ploc na boca
aí então eu acordo

0338. Na rodoviária

Tantas histórias, tantos começos
Iguais finais
Cada qual com suas vitórias
E seu saldo negativo no banco
Seus quatro quintos de derrota
Cada universo em si
Cada realidade única
Cada um fazendo companhia
Ao umbigo do seu mundo
Cada um com suas contas
Com seus ossos, suas estrias
Cada história qual uma só
Uma ambição morta
Uma vida imposta
Tantas histórias…

0339. Ele

Aludido a rir do mundo
ele gargalha da solução
Enrola, aperta, passa a goma,
passa a bola só por educação
Ele não crê mais em tudo
e conclama a revolução

Ele acha que já viu,
que já sentiu todo o mundo
que Hércules por comparação
Ela já foi ao terreiro
e batizado pelo padre
e freqüentou por seis dias
consecutivos a Igreja Batista
da Salvação

Ele acha que nada existe
e que só ele é que há então
e passa a bola por causa
da mina ao lado

Ele passou no vestibular
e diz que estuda é pro povão
Ele gosta do calor das massas
e queima neurônios em aflição
Já leu até um texto de Geertz
e descobriu que Marx “ta por fora irmão”
Ele prensa e passa a bola
e da mina pega na mão
Ele citou Alceu Valença
e a mina se amarrou na citação

Ele já fez avião
e se gaba disso — H. Aço
Ética da cultura carnalavesca-periférica
é sua cabeça (ou não!)

Ele faturou a mina
e se gaba disso — garanhão
Voltando para sua casa
(já é manhã) ele anda na calçada
e pula na frente de um caminhão

Pode nem entrar nas estatísticas.

0336. Tempo possível

tempo, passa o tempo e se desfaz no amanhã
quando o tempo se destaca tão lento
que de tempo em tempo toda manhã é um afã
tempo que de tão lento faz-se tão veloz
e rápido passatempo é o tempo tão lento, tão atroz

ah, mas olhem para mim
a cantar a velocidade do lento tempo perdido
perdido em todo o tempo possível
perdido em perder tanto tempo possível
perdido, lento, tempo, veloz — afã possível

0334.

Aflige-me ver teu rosto cansado
A compor mil tarefas e dúvidas
E te surgem fatos inusitados
E você parece tão só…
E nesse instante me aflijo mais
Sentindo-me amargamente leve
Mas de fato, a leveza é por vezes
fardo que se leva às costas
Então não sei se espero ver-te leve,
ao menos, não como eu estou
(mais sedado do que leve)
Mas me aflige teu rosto cansado
e almejo com o afago de minhas
palavras e minha mãos
o encontro de tua paz
(Estou ao seu lado)

0333.

Há no fim de tudo um começo
não percebido ao prelúdio do fim.
Todo o instante faz-se começo
e pelo começo então, nunca há fim.

A possibilidade da vida é grande
e há um infinito sem começo ou fim.
Há a luta e a revolta,
mas há a possibilidade da vida por fim.

Há o amor que tudo permeia
e que faz a vida por fim.
Há a esperança de que um dia não
haja a sensação do fim.
E sempre há o amor por fim.

0331. Continuemos sempre…

“o que se chamava moço, também se chamava estrada, viagem de ventania…”

Havia a poetiza que se dizia morta,
sem asas, sem sonhos, sem esperança
Mas depois que se escreve uma vez,
que uma vez se voa,
que uma vez se sonha,
não há mais a possibilidade da imanência
e tudo transcende,
lutar contra, é somente fugir de si.
Lançar-se a sua antítese existencial.
Calar sentimentos é perecer em agonia
É ir contra as possibilidades do infinito
E suas palavras dão rumos,
trilham caminhos às possibilidades

“azul da cor do mar”

Ah, sentir o mundo em fábulas,
enxergar leões, hienas seres alados…
Isso é o que deveria dar-nos força para continuar
Dar-nos impulso de nos lançar ao infinito,
de mergulhar em todas as possibilidades

“ando tão à flor da pele, que qualquer beijo de novela me faz chorar…”

Creio que a cada metáfora criada,
chegamos mais perto do que é o amor
E a nós, os poetas, as poetas,
a Vida incumbiu de uma tarefa difícil:
amar.
Por isso continuemos,
“brincando”, voando, viajando
criando, metaforizando, amando…
Pois somos mutantes sim
e devemos mudar o mundo (amor)
porque assim cremos.

“a dor nasce do desejo”

0328. Sentença

Sentencio todos os culpados:
Goethe e Lorde Byron
Todos os trovadores medievais
Xá Gerah e seu Taj Mahal
Dom Juan, sua vida
Casanova, suas conquistas
Meu bom Khalil Gibran
Os mitos greco-ameríndios
As cantigas do sertão
Os sambas do morro
Os sambistas e os cantadores
Gandhi e Luther King
Vinícius de Moraes e Djavan
E tantos outros que cantaram
E cantam ao amor
E me acenderam tal idealismo
Que jaz em realidade
E me martiriza

A cada nova aurora
Hobbes Freud não tardam
A se mostrar certos:
O ser humano é mau
E Tânatos todo dia nos corrói

0326. Como se fosse amor

(para o grande mestre Chico Buarque)

Eu sei que tu vais me usar
Como se usa um palavrão
E esquecer que me pronunciastes
A apenas míseros três segundos

Eu sei que tu vais me esquecer
Como se vira uma página de Caras
E me usar para forrar o chão
Da casa que pintas

Eu sei que tu vais me usar
Como se coloca o adoçante no café
E esquecer que percorri teu sangue
E alimentei tuas células

Eu sei que tu vais me esquecer
Como aquele outdoor descascado
E me usar como alvo
Para tiros de escopeta

Eu sei que tu vais me usar e me esquecer
E mesmo assim vou te amar,
Como se eterno fosse

0324. Dos motivos da solidão eterna

Primeiro ao olhar-se, contempla-se a alma
Depois uma instância branca, vazia
Com uma fragrância suave de nada
Um abraço que se treme mais ainda
E você olha a si como a madrugada
Tez escura e velozmente esbranquiçada
Um néon falho em uma fachada
A luz laranja de um poste que apaga
Uma sombra precariamente delimitada
Um suspiro, um tiro, um uivo
Uma coruja enfeitiçada
Que traz a morte no âmago de seu pio
Um acidente de carro, uma gargalhada
Um gozo enleio à dor de uma ferida de faca
Um corte na espinha de adaga
O único banco vazio ao lado num ônibus corujão

Depois, você se acostuma
E pleiteia ser indiferente a toda dor
E se descobre só
Como a luz-de-freio de uma moto a cem por hora
Como a alucinação de ver um lago de luzes
Ao horizonte quando sem óculos
Como a eternidade

0325. Saudade

Saudade.
(o silêncio me apavora)
(Bandeira me consola)
(boto Bethânia na vitrola)
(no relógio, mais uma hora)

Saudade.
(abraço o meu travesseiro)
(choro baixo um anseio)
(lembro o longe, meu enleio)
(aquele que fora o primeiro)

Saudade.
(me dói tudo)
(estremeço como nunca)
(me apego à esperança)
(saudade.)

0322. Reconciliação

Há tempos não nos encontrávamos…
Como andas?
Eu? Vou indo, ou melhor, a vida me leva;
mas vivo, já é um bom começo…
Agora você, está feia não? Acabada.
É, eu sei, o tempo ninguém perdoa.
Recordo-me daquelas longas tardes
em que passávamos só nós dois,
difamando o mundo… era divertido!
Uma prazerosa solidão acompanhada.
O céu era até esse mesmo:
infinitamente azul, o único amor sentido…
Lembro-me que ansiosos ficávamos
ao chegar as quatro horas,
o sol de um sabor inigualável.
As poucas nuvens de um lilás tão intenso,
que até tínhamos vontade de não morrer…
É, mas o tempo passou, me afastei — confesso.
Pensei agora o quão ingrato fui,
troquei-te de repente, sem explicações.
Deve ter sido difícil
Você deve ter visto como a humanidade é:
insensível , fútil, louca, idiota e medíocre.
E o pior é que todos os dias eu passava por ti
e nada falava, nem um aceno de cabeça…
Como sou idiota!
Mas cá estou eu de novo, redimindo-me
de meus pecados, de joelhos em perdão.
Pois só tu me entendes,
segredos que nem ao meu quarto contei,
você os sentiu forte,
tantas horas mortas ao teu lado,
tantas lágrimas colhidas…
E quando tu me davas aquelas pedras
que eu jogava ao outro lado da rua?
Ah eu extravasa, ficava feliz…
Tu tens noção disso?
Contigo eu ficava feliz,
uma felicidade pura, sutil…
De quando em vez eu trazia um amigo
para trocar sentimentos, idéias, anseios
e você não ficava enciumada,
abria os braços e o acolhia, o compreendia
Ah! Quão compreensiva tu és!
E eu te abandonei!
Infinitos perdões seriam suficientes?
Creio que não…
Mas cá estou eu: triste? Deprê? Só?
Melancólico com certeza…
E você me acolhendo sem ressentimentos,
sem perguntas!
Apenas afagando-me com o vento,
com essa primeira estrela na noite que vem
(e tantos desejos…).
Só você mesmo para me entender,
minha feia e linda Calçada.

0321. De hiena a homem

Era uma vez um leão que morfara-se em hiena
Uma sádica hiena que devorava a si
Começava pela cauda, depois pelas patas
E ia se consumindo numa savana
Longe, afim de que ninguém o visse
Acontece que por ali voava uma águia
Uma águia que fora já borboleta
E ela fitou a hiena com angústia
Recordando suas borboletices passadas
Mas a hiena dilacerava-se sem
Recordar seu karma de leão
(num passado não tão distante, o leão e a borboleta que já não mais são, viveram juntos e fora tão lindo que não agüentaram, daí agora águia e hiena)
Era uma situação deveras complicada
A águia com seus olhos profundos
Mirava a alma da hiena
Por entre aqueles olhos de açude
E não sabia se alçava vôo
Ou se, novo bicho, beijava a hiena
(ou agora já um sapo talvez)
A hiena, fugindo dos olhos da rapina se engolia
E quando no bando, ria
Se escondia em risos tortos
Gargalhadas não salvadoras
Um boto percebendo sua desgraça
Disse-lhe: “sou como tu hiena,
Te compreendo bem,
mas depressa hiena, sê águia
e voe alto e não se devore
vá voraz à sua felicidade…”
Apareceu um macaco e lhe falou:
“vamos brincar hiena
vamos pular, vamos espocar
que assim você aprende a ser águia…”
E a hiena parou de roer a outra pata
Chegou então uma serpente
Que quis beijar a hiena
Mas não mais serpente e sim um coelho,
Segredou à hiena: “te amo,
mas por te amar, sei que tua sina é ser águia…”
E a hiena soltou a outra pata,
Antes que essa sumisse
Veio então uma maritaca
E afobada disse-lhe: “está bem?
fiquei triste, me preocupei…
queria te ver águia, mas só
o tempo há de dizer algo…”
E a hiena parou de estraçalhar
Suas entranhas e já não riu de si,
Riu da vida,
Uma gargalhada kunderiana
Uma explosão de esperança
(a águia tinha saudades)
Muitos bichos lhe fizeram companhia
Uma tartaruga tristonha: “de fato…”
Muitas serpentes: “é mesmo o fim…”
Outra hiena: “eu também não estou bem…”
Uma leoa: “dê tempo ao tempo…”
Um elefante: “já passei por isso…”
E até a própria águia: “você está bem?…”
E a hiena estufou o peito
Sentou-se ao sol e deixou que
Este lhe oenetrasse nova vida
E já não mais hiena era
Agora era um ser humano
(incompleto), que escreve
Almeja ser águia, mas não sabe se há de conseguir,
Afinal, é humano…

0319. Poema escrito em dois dias

Começo esse poema hoje
Há poucas radiações de carbono do amanhã
Oscila um tic e preteriza tudo
Afirma um tac e antecipa os rumos
O meridiano da mudança
A fronteira do futuro
Dentro do meu quarto – ri de mim
Hoje e amanhã
Versos livres aprisionados num tic-tac
A linha da mudança de data
Faz-se antípoda do futuro
Retorno ao meu estado de ontem
E acabo o poema também hoje

0320. A deuses e deusas

Tupã e Thor, deuses dos trovões
Destruam das minhas trovas
Essas tórridas aflições
Daí forças a felicidades novas
E marca-os com coerência e razões

Maíra e Minerva, deusas da sabedoria
Norteiem as minhas rimas
Para não só a dor marcar a poesia
E matar a quem me estima
Não sendo tristonha alegoria

Krishna e Cristo, desuses iluminados
Acendam a minha alma
E clareiem esta melancolia
E dêem-me a máxima calma
Para suportar mais e outro dia

0318. Quando o mundo cai

Havia um broquel que mo guardava
De bosquejar meu ímpeto errante
E tornar-me caixeiro viajante
Condoído de todos por onde passava
Havia aquele escudo
Aquela armadura
Que despi ao enfrentar a vida
E primei pela antilogia do escuro
E ingeri muita datura
E quis seguir numa só ida
Uma vez que prisões já não as tinha
Que me libertara de mim
Foi aí que pressenti o que vinha
Aquele gosto de epílogo do fim:
Tudo até agora apenas epígrafe
E uma vida inteira de sofá
Televisão e geladeira pela frente

0314. Certezas?

Soprei a inconstância de meu espírito
E balancei as bases do firmamento ao soprar
Sussurrei algo contido na insegurança
E descobri fundamento: descobri base
De que o sopro tinha base realmente
De que o sussurro era sólido
E o sussurro fez-se estrondo e o sopro furacão
E constatei que minha insegurança alicerce tinha
E que tudo era diamante e carvão ao mesmo tempo

0315. Sangue

“O amor quando acontece…”

Palavras são sangue sobre o caderno
Letras não estanques de um corte profundo
Que a faca do fim ao matar o eterno
Tatuou em mim toda a dor desse mundo

Lançada a faca por meus próprios membros
Marcada a inocência de um suicida
Sinto o peso de chegar os novembros
Com a alma a sangrar o fim na ferida

Posto, me passa o passado em retorno
Desenhando do fim todo o contorno
Pois perde o controle completo a razão
Enleio ao fim feito vem-me o meu fim
Outorgado pelo que me sangra assim
Contíguo ao não me saber mais, ou não!

0311. Da eternidade

Queria falar da eternidade
Dessa ausência de espaço entre dois pontos
Queria a quintessência do infinito
em minhas mãos
E com palavras simbolizar
a brevidade do universo

Na busca do eterno enfiei-me em mim
Procurando no nada a sua antípoda
E do que vi, não vi em mim,
mas eu próprio
Do eterno, vi a fração de um tempo.
E a expansão da alma
Vi-me um tanto em tudo
Vi-me partículas elementais

Senti-me o puro amor

0313. Às vezes a poesia não se escreve

Às vezes a poesia não se escreve
Às vezes a poesia só se é sentida
É o que se lapida no interior
E se metaforiza no espírito
Às vezes a poesia é a dor indizível
É o corte profundo de um fim
Às vezes a poesia é a face triste
A razão inerte e sua alma em profusão

Às vezes a poesia não se escreve
Se sente, se vive, se é.
Às vezes, para uma poesia
não há palavras
Apenas gestos, calores apenas.
Às vezes a poesia se recita no olhar
Às vezes no sorriso
E outras tantas na respiração

Às vezes a poesia não se escreve
Às vezes ela brota do fechar de olhos

0309. Bomba H

Hão de chamar-me louco
Hão de meter-me medo
Hão de silenciar-me o gozo

Hão de deixar-me só

Hei de flutuar na tristeza
Hei de gritar na loucura
Hei de tremer na frieza
Hei de sentir-me dó

Hão de deixar-me só
Hei de sentir-me dó

Há que se derramar o pranto
Há palavras que se pronunciam
Há estes silenciosos cantos
Há a solidão e a dor

Há a poesia que já não salva

0308. Plenitude

o que preciso é deste mar castanho
que contrasta com meu negro
o que desejo é percorrer com a boca
toda a extensão desta derme,
que macia qual algodão
que alva qual nuvem
se eleva em minha cor cinza
o que almejo é penetrar-lhe os sentidos
e emanar todo o prazer
me envolver em teu olfato,
ser um vento te acariciando
iluminar tua retina
qual teus olhos ser mel em tua boca
e sinfonia flutuando em ti
meu espírito arde em contato
com essa brasa que queima em teu portal
preciso mergulhar em teu ser
e aprender a nadar
e velejar teus limites
e desbravar tua ventura
o que quero é saber-te o ápice
é alcançar-te às nuvens
é envolver-te em azul
realçar-te o infinito com minhas mãos
afagar-te com meu suspiro
e estremecer-te com minha força
o que quero é te deixar plena
de todo o meu amor

0305.

O passado bateu-me na porta
Eu abri dei-lhe um abraço
Um beijo na testa e desejei:
Boa sorte!

O presente me ligou antes
Eu beijei-lhe a testa e a boca
Abracei-a com desejo e desejei:
Boa sorte comigo!
(disse-lhe com certeza: eu te amo!)

O passado passa
Cada vez mais louco
O presente prostra
Cada vez mais amor

0306.

há lagrimas em minha alma
pois não quero abdicar
disso que me faz-te
e quando digo para sempre
faz-me ingênua criança
apegando-se a seu brinquedo
e as lágrimas escorrem
de tanto querer-te
como a mim próprio
de tanto almejar-te preservar em mim
como eu me mantenho
mas pareces que o que sinto
não apraz teu juízo (ou teus sentidos)
e o silêncio grita
e eu pego a tua mão
e aperto forte, como sempre
e tu, como na relação de força
que perpetuas, se indifere
e eu te olho muito tempo
e se indifere novamente
e eu me despeço de ti
desejando nunca mais fazê-lo
e o nó desata
e a represa cede e eu não olho pára trás
pois a alma não compreende
e com meus poucos dezoito anos
me sinto cada vez mais velho
e vejo-me um velho inexperiente
que turbilha o que sente
como se tudo fosse a primeira vez
– e é –
e não vejo a minha vida
uma vez que nunca a vi
e não sinto minha vida
uma vez que não senti
e me apego a tua vida
– como se fosse a primeira vez –
e me sinto em tuas mãos
– como se fosse eterno –
e me lanço a tua sorte
– dramático –
e tenho medo de dizer-te
imaginando meus dezoito anos
e tua face de não vai dar certo
e agora explodo e choro
e penso: devo parar a minha
existência ou acelerar meu tempo
até que meus dezoito anos
não mais peses?
até que minha alma
condiza com meu corpo
e um dilema, uma questão
um problema se apresentam
e não sei o que fazer
tento relaxar e gozar
mas meu gozo só se faz pleno
quando de tua presença
e tu questionas, problematizas
e não goza
e me aprisiona em ti
e parece fugir
e eu amando mais, te sendo mais
e com mais medo de que te assustes
e fujas realmente
e a lua me ilumina
e me mostra meu passado
e não me reconheço onde estou
e meus dezoito anos me pesam
qual quarenta
queria tanto que vivesses este amor
que não conjeturasse sobre o se
que não desdenhasses do que sinto
que me afagasses a face e o peito
que soubesses se amar
que entendesses minha loucura
que compreendesses que minha vida
é cinza e que tu a colores
e que aceitasses o meu amor
e quando disse que sonhou-me
eu explodi ainda mais
e mesmo trocando meu nome
eu explodo agora

0303. Á luz e meia (e só)

Acendo um incenso e uma vela
(o racionamento traz poesia)
ligo o som e penso se ela ouve esta música
o frio me aprisiona em cobertores
e a solidão pergunta:
será que o sono nela se faz vivo?
Eu não consigo,
rolo nesta pequena cama,
parecendo um infinito
pois a solidão de uma cama de solteiro
é infinita
que se rola, se vira, se encolhe
e ainda sobra todo o espaço
A fumaça do incenso me hipnotiza
e a vejo em minhas retinas tristes
ela me beija a boca
à luz e meia
e só assim consigo dormir

0302. Gênesis Cármico (cósmico e amoroso)

Mais de MI possibilidades em minha frente

Um Q nirvana de opções

Um \ e Q’s [’s em minha vida

Existe uma (C) que me dá mais rumos,

Caminhos que minha mente (…) não via

Havia aquele g dentro de mim

E agora vejo-me²

Eu era relativo mặya de causalidades

E ela ordenou meus neurônios

E ecologizou minha alma

E sucumbiu a ilusão

Desprendi-me de retóricas ($)

Não aprazíveis ao [ da felicidade

E encontrei-me com a OO nela

Ela que tem nome de Deusas e

Semblante de anjo

Ela que é Mayra que é espiral retilínea e ramificada

Ela que é Maria que é mãe

Ela que me é em profusão

0301.

Nunca cri no amor
E só cria-o inexistente
Nem opaco ou transparente
Só da cor do nada
Da forma do ausente
Até que um dia
Uma menina-mulher me disse
Que me amava sem me saber
E ao saber-me, mais ainda
E eu: hum? Eu heim…
Só que também ocorreu o seguinte:
Gostei da menina-mulher
E percebi os contornos do outrora ausente
E senti as cores do nada
E a luz daquele transparente
Hoje ilumina meu espírito
Colore minha mente
Da forma ao meu sorriso
E a menina-mulher faz tudo isso
Ah, estou amando

0299.

tanto ódio me cerca
e eu amando tanto
amando todos
e mais a mais a uma
e todos mordendo-se
e eu nela, não em mim
ou nos outros
e ela me acalmando mais
e de mais a mais
eu nela e nada mais
que me faça escutar
os tantos dolosos ais

tanto ódio nos rodeis
e eu vivendo o amor
fazendo um bolo
e pensando:
“será que ela irá gostar?”
tanto amor dentro de mim…

0295. Das artes

E há os e as que fazem arte com o corpo
Lançam-se em sua matéria e mitificam-se
Existem as e os que tornam movimento arte
E o percurso do indivíduo sobe longe
Têm aqueles e aquelas que produzem arte com a voz
Reverberam a garganta e entorpem o ar
Há esses e essas que arte fazem com as cores
Sussurram timbres luminosos em telas e paredes
Existem alguns e algumas que fazem arte com as formas
Observam a realidade e modelam sonhos
Têm uns e umas que são a própria arte
Seguem seus caminhos simplesmente
Já vi seres fazendo arte com a imaginação
Mergulham fundo em suas existências e além
E aqueles e aquelas que gravam arte em caixas
E dão movimento a suas loucuras
E uns e umas produzem arte do mascarar-se
Dando nova vida em encarnações
E essas e esses como eu
Que vislumbram arte nas palavras
Constroem símbolos em letras e voam

0296.

Num nada há um tudo
Que é meta e é aqui
Que possui um lócus no não-lugar
Num topos e numa utopia

Há um nada por definição
E um nada tangível
Que é matéria e transcendência
Que é alma e imanência
Que é tudo

Há um tudo hermético no nada
E um nada permeando o tudo
Há a ausência que é

0293.

Não fale sobre sua feiúra
Esta que lhe é inexistente
E que a ti parece ser latente
Fale sobre os seus olhos
Essas duas gemas de mel
Que são chaves para uma alma de anjo

Não fale sobre a sua dessimetria
Esta que lhe é irreal
E que a ti, aparenta ser natural
Fale sobre seus lábios
Esses portais róseos
Para o âmago do desejo

Não fale sobre a sua aspereza
Esta que lhe é algodão
E que a ti, aparenta ser pedra sabão
Fale sobre a sua alma,
Essa sua face multicor
Que é o que catalisa toda reação de amor